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Ditadura do proletariado em Gotham City: Artigo de Slavoj Žižek sobre “Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge”

Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge confirma mais uma vez como os blockbusters de Hollywood são indicadores precisos da situação ideológica da nossa sociedade. A narrativa (resumida) se dá da seguinte maneira. Oito anos depois dos eventos de Batman – O Cavaleiro das Trevas, capítulo anterior da saga Batman, a lei e a ordem prevalecem em Gotham City: sob os extraordinários poderes do Ato Dent, o comissário Gordon praticamente erradicou o crime violento e organizado. No entanto, ele se sente culpado pela cobertura dos crimes de Harvey Dent (Dent morreu ao tentar matar o filho de Gordon, salvo por Batman, que assumiu a culpa em nome da manutenção do mito de Dent, levando a uma demonização de Batman como vilão de Gotham) e planeja admitir a conspiração em um evento público de celebração a Dent, mas acaba concluindo que a cidade não está preparada para a verdade. Bruce Wayne, que não atua mais como Batman, vive isolado na própria Mansão enquanto sua empresa desmorona depois de ter investido em um projeto de energia limpa criado para aproveitar a energia nuclear, mas encerrado quando ele descobriu que o núcleo poderia ser transformado em uma bomba. A lindíssima Miranda Tate, membra do conselho administrativo da Wayne Enterprises, convence Wayne a refazer a sociedade e continuar com seus trabalhos filantrópicos. Aqui entra o (primeiro) vilão do filme: Bane, líder terrorista e antigo membro da Liga das Sombras, consegue a cópia do discurso de Gordon. Depois que as tramas financeiras de Bane quase levam a empresa de Wayne à falência, Wayne confia a Miranda a tarefa de controlar seus negócios, além de ter com ela um breve caso amoroso. (Nesse aspecto ela compete com a gata-ladra Selina Kyle, que rouba dos ricos para redistribuir a riqueza, mas acaba se juntando a Wayne e às forças da lei e da ordem.) Ao descobrir a movimentação de Bane, Wayne retorna como Batman e confronta Bane, que afirma ter assumido a Liga das Sombras após a morte de Ra’s Al Ghul. Depois de deixar Batman gravemente ferido em um combate corpo a corpo, Bane o coloca numa prisão de onde é praticamente impossível fugir. Seus companheiros de prisão contam para Wayne a história da única pessoa que conseguiu escapar: uma criança motivada pela necessidade e pela mera força de vontade. Enquanto o prisioneiro Wayne se recupera dos ferimentos e se prepara para ser Batman de novo, Bane consegue transformar Gotham City em uma cidade-Estado isolada. Primeiro ele atrai para o subsolo a maior parte dos policiais de Gotham e os prende lá; depois provoca explosões que destroem a maioria das pontes que conectavam Gotham City ao continente, anunciando que qualquer tentativa de deixar a cidade resultaria na detonação do núcleo de Wayne, do qual se apoderou e transformou em uma bomba. Chegamos então ao momento crucial do filme: a tomada de poder por parte de Bane acontece junto com uma vasta ofensiva político-ideológica. Bane revela publicamente o acobertamento da morte de Dent e liberta os prisioneiros detidos pelo Ato Dent. Condenando os ricos e poderosos, ele promete devolver o poder ao povo, convocando as pessoas comuns a “tomarem a cidade de volta” – Bane revela-se como “o manifestante definitivo do Occupy Wall Street, convocando os 99% a se juntarem para derrubar as elites sociais”[1]. Segue-se então a ideia do filme de poder do povo: uma sequência mostra uma série de julgamentos e execuções dos ricos, as ruas tomadas pelo crime e pela vilania… alguns meses depois, enquanto Gotham City continua sofrendo o terror popular, Wayne consegue fugir da prisão, retorna a Gotham como Batman e

o melhor descanso que terei e que jamais tive”. A primeira pista dos fundamentos ideológicos desse final é dada por Gordon. enquanto outro o substitui no papel de defender o sistema”[2]. mas o que perder a sua vida por causa de mim. Alguns críticos do filme interpretaram essa citação como um indício de que o filme “atinge o nível mais nobre da arte ocidental. ou talvez no Tibete. Dessa perspectiva. todos se perguntarão como acharam que poderiam viver com tanto e deixar tão pouco para o resto”. em que precisamos confiar em grande parte do que nos dizem. vai encontrá-la. Batman transporta a bomba para além dos limites da cidade. Agora Batman é celebrado como um herói cujo sacrifício salvou Gotham City. Bruce Wayne é um bilionário. De fato. sr. Na confusão que se segue.] Como máxima figura de Cristo. [. Outra característica dickensiana do filme é a queixa despolitizada sobre a lacuna entre ricos e pobres – no início do filme. [. e a economia é uma delas. e por duas razões.] A ideia de justiça econômica perpassa o filme. Gordon destrói o dispositivo que permitia a detonação remota da bomba enquanto Selina mata Bane. de acordo com algumas fontes)? A única maneira de remir essa cena final seria interpretá-la como um devaneio (alucinação) de Alfred. que. Usando um helicóptero especial.] Não acho que existe uma perspectiva de direita ou de esquerda no filme.. O filme inteiro trata da chegada do seu ponto crítico. pois a maioria de nós se sente desprovida das ferramentas analíticas para saber o que está acontecendo. Alfred vê Bruce e Selina juntos em um café em Florença. Após seus bens serem divididos.convoca os amigos para ajudá-lo a libertar a cidade e desarmar a bomba nuclear antes que ela exploda. como todo bom liberal. É melhor que estejam preparados. confiante de que a bomba não pode ser detida. Isso tem de ser levado em conta. onde ela explode sobre o oceano e supostamente o mata. “Batman salva a situação. que aproveitará ao homem se ganhar o mundo inteiro mas arruinar a sua vida?” (Mt 16:25-26 da Bíblia de Jerusalém). lê as últimas linhas de Um conto de duas cidades. Pois quando ela chegar. Ele faz . com efeito. O filme apela para o centro da tradição norteamericana – o ideal do nobre sacrifício pelo povo comum.. [. herda a Batcaverna.. jovem policial honesto que conhecia a identidade de Batman. O sacrifício de Batman como repetição da morte de Cristo? Essa ideia não seria comprometida pela última cena do filme (Wayne com Selina em um café em Florença)? O equivalente religioso desse final não seria a conhecida ideia blasfema de que Cristo realmente sobreviveu à crucificação e teve uma vida longa e pacífica (na Índia. Ele tenta forçá-la a levar a bomba para a câmara de fusão onde pode ser estabilizada. este é.. Selina sussurra para Wayne enquanto eles dançam em um baile exclusivo da elite: “Está vindo uma tempestade.] E segundo. Talia morre quando seu caminhão bate. [. há muitas coisas na vida. Depois de comunicar seu plano de terminar a tarefa do pai de destruir Gotham. Em suma. Nolan. sem dúvida. no (suposto) enterro de Wayne... enquanto Blake. filha de Ra’s: foi ela que escapou da prisão quando criança e foi Bane que a ajudou a fugir.. aparece incólume e continua com uma vida normal. vai perdê-la. Batman confronta e domina Bane. que se senta sozinho em um café em Florença. permitindo que Batman vá atrás de Talia. sem dúvida. Primeiro. Talia foge. Dickens está apenas a um passo de distância de Cristo no Calvário: “Pois aquele que quiser salvar a sua vida. de Dickens: “Esta é. Batman deve se humilhar para ser exaltado e renunciar à própria vida para encontrar uma nova.. está “preocupado” com essa disparidade e reconhece que essa preocupação impregnou o filme: O que vejo do filme relacionado ao mundo real é a ideia de desonestidade. Batman sacrifica a si para salvar os outros”[3]. Wayne. enquanto Wayne é tido como morto nos motins. mas Miranda intervém e apunhala Batman – a benfeitora social revela-se como Talia al Ghul. mas Talia inunda a câmara. a melhor coisa que faço e que jamais fiz.

o representante organizado dos oprimidos que promove a luta política em nome deles para gerar mudanças sociais. Com os terrores em Paris.[6] Tom Charity destacou corretamente “a defesa que o filme faz do establishment na forma de bilionários filantrópicos e uma polícia corrupta” – na sua desconfiança das pessoas que resolvem as coisas com as próprias mãos. Karthick levanta uma questão bem clara sobre a imensa popularidade da figura do Coringa no filme anterior: qual o motivo de uma atitude tão hostil para com Bane quando o Coringa foi tratado com tanta mansidão no filme anterior? A resposta é simples e convincente: O Coringa. não tem lugar dentro do sistema. enfatiza a hipocrisia da civilização burguesa como ela existe. elas precisam ser eliminadas. Hollywood conta o que o establishment quer que saibamos – que os revolucionários são criaturas brutais. embora não tenha nada a ver com política. mas também sua capacidade de comandar as pessoas e mobilizá-las rumo a um objetivo político. As cenas do vingativo levante populista no filme (uma multidão sedenta pelo sangue dos ricos que os ignoraram e exploraram) evocam a descrição de Dickens do Reino do Terror. representa uma ameaça existencial ao sistema de opressão. Apesar da retórica emancipatória sobre a libertação. que clama por anarquia na sua mais pura manifestação.] Sua força não é apenas a psique. do mundo em que vivemos – de coisas que nos preocupam. como em Dickens). Um conto de duas cidades foi o retrato mais angustiante de uma civilização reconhecível e descritível que se desintegrou completamente em pedaços. De que modo o filme lida com isso? Ressuscitando o tema arquetípico dickensiano do bom capitalista que se envolve no financiamento de orfanatos (Wayne) versus o mau e ganancioso capitalista (Stryver. Aqui. há uma característica que o distingue desse último: o amor incondicional. na vida real. por outro lado. Tamanha força. ainda que Bane não tenha o fascínio do Coringa de Heath Ledger. o filme “demonstra tanto o desejo por justiça social quanto o medo do que realmente pode parecer nas mãos de uma multidão”[7].[4] Por mais que os espectadores saibam que Wayne é extremamente rico.. . ou uma exploração honesta. quaisquer que sejam as razões. Karthick tem toda razão ao situar esse acontecimento dentro da longa tradição. sem nenhum respeito pela vida humana. Bane. de Cristo a Che Guevara. eles tendem a se esquecer de onde vem a riqueza dele: fabricação de armas e especulação financeira. e uma abordagem “honesta” como essa nos leva a mais um paralelo com Dickens – é como afirmou Jonathan (corroteirista). Bane salvou a garota Talia sem se importar com as consequências e pagando um preço terrível por isso (foi espancado quase até a morte por defendê-la). irmão de Christopher Nolan. Ela precisa ser eliminada. e assim fornece a caricatura do que. não é difícil imaginar que as coisas dariam tão errado assim”[5]. a mesma fonte da sua dureza. o filme segue o romance de Dickens ao retratar “honestamente” os revolucionários como fanáticos possuídos.. com o maior dos potenciais subversivos. que exalta a violência como uma “obra do amor”. mas é impossível traduzir suas visões em uma ação de massa. na França daquela época. e é por isso que as jogadas de Bane na Bolsa de Valores podem destruir seu império – traficante de armas e especulador. esse é o verdadeiro segredo por trás da máscara do Batman. sem rodeios: “Para mim.apenas uma avaliação honesta. seriam revolucionários comprometidos ideologicamente no combate da injustiça estrutural. Portanto.[8] No entanto. em um ato de amor no meio do sofrimento terrível. a disparidade econômica é traduzida na “desonestidade” que deveria ser “honestamente” analisada. [. Ele representa a vanguarda. vemos como. embora não tenhamos nenhum mapeamento cognitivo confiável. Nessa moralização dickensiana excessiva. tanto que. Em uma cena curta mas comovente. eles têm projetos sinistros por trás.

seletivas e frias máquinas de matar. paixão efêmera que perde todo seu vigor. por isso está claro que o filme não está apenas engajado na imaginação revolucionária. e assim pertence ao fio condutor (na ficção recente) que vai de Paul Atreides em Duna até Leônidas em 300 de Esparta. em nítido contraste a Batman. Qui-Gon é um cavaleiro Jedi. mentor de Obi-Wan Kenobi. um agente do virtuoso terror lutando para contrabalancear a corrompida civilização ocidental. irmãos. irmãs e até a própria vida. Nesse mesmo viés. Depois de um longo e doloroso treinamento. E é crucial que Wayne seja seu discípulo: Wayne foi formado como Batman por ele.como nas famosas palavras do diário de Che Guevara: “Devo dizer. Ra’s não é a simples encarnação do Mal: ele representa a combinação de virtude e terror. pai de Talia. Guevara está parafraseando as declarações de Cristo sobre a unidade do amor e da espada – em ambos os casos. e que também representa Qui-Gon Jinn em A Ameaça Fantasma. ele oferece um “caminho” para o garoto. mas sem perder a ternura”. Duas críticas do senso-comum se apresentam aqui. parafraseando Kant e Robespierre mais uma vez: o amor sem crueldade é impotente. o paradoxo subjacente consiste nisto: o que torna o amor angelical. bem como o descobridor de Anakin Skywalker. A afirmação de que “o verdadeiro revolucionário é guiado pelo forte sentimento do amor” deveria ser interpretada juntamente com a declaração muito mais “problemática” de Guevara sobre os revolucionários como “máquinas de matar”: O ódio é um elemento da luta. que o verdadeiro revolucionário é guiado pelo forte sentimento do amor. um povo sem ódio não derrota um inimigo brutal. Na trilogia Batman. merece um exame mais cuidadoso. o seu elo com a violência – é esse elo que eleva o amor acima e além das limitações naturais do homem e o transforma em pulsão incondicional. o que o eleva acima da mera sentimentalidade instável e patética. mas sim uma “cheização do próprio Cristo” – o Cristo cujas palavras “escandalosas” de Lucas (“se alguém vem a mim e não odeia seu próprio pai e mãe. embora revele que eles treinaram Bruce para liderar a Liga com o intuito de destruir Gotham City. O personagem é interpretado por Liam Neeson. Ra’s explica que Bruce deve fazer o que for preciso para combater o mal. a disciplina igualitária que combate um império corrupto. Depois que Wayne é libertado. onde Ra’s está esperando. a crueldade sem amor é cega. . ele segue até a fortaleza da Liga das Sombras. mulher. Qui-Gon é morto por Darth Maul[10]. ele encontra Wayne em uma prisão chinesa. o único amor autêntico no filme é o de Bane. no final de A Ameaça Fantasma. acreditando que Anakin é O Escolhido que restituirá o equilíbrio do universo. o “amor do terrorista”. Ou. desde o estalinismo ao Khmer Vermelho. É por isso que. é essa mesma crueldade. Assim devem ser nossos soldados. embora se apresente como servo de outro homem chamado Ra’s Al Ghul. Ra’s também é professor do jovem Wayne: em Batman Begins. ator cuja persona na tela geralmente irradia uma nobre bondade e sabedoria (ele faz o papel de Zeus em Fúria de Titãs). Ra’s é uma mistura de características árabes e orientais. voltando a O Cavaleiro das Trevas Ressurge. ignorando os alertas de Yoda sobre a natureza instável de Anakin. O que encontramos aqui nem é tanto a “cristificação de Che”. não pode ser meu discípulo” [Lc 14:26]) apontam exatamente na mesma direção que a famosa citação de Che: “É preciso ser duro. É impossível pensar em um revolucionário autêntico sem essa qualidade”[9]. que eles acreditam ter se tornado irremediavelmente corrupta. violentas. o ódio impiedoso do inimigo que nos ergue acima e além das limitações naturais do homem e nos transforma em eficazes. primeiro episódio da série Star Wars. apresentando-se como Henri Ducard. a figura de Ra’s. A primeira é de que houve violência e matanças monstruosas nas revoluções reais. correndo o risco de parecer ridículo. filhos. Portanto.

(O mesmo se aplica à ideia de que os comunistas “negligenciaram a democracia”: seu projeto geral de transformação social impôs sobre eles esse “negligenciar”. oposta. a sublime violência em relação à qual até mesmo o mais brutal assassinato é um ato de fraqueza? Façamos uma digressão em Ensaio sobre a lucidez. por último. por assim dizer. E. Os atuais protestos antiglobalistas são o exato oposto do terror brutal de Bane: este representa a imagem espelhada do terror estatal. o filme. deveríamos desmistificar o problema da violência. que conta a história dos estranhos eventos na capital sem nome de um país democrático não identificado. Frustrado por esse aparente lapso civil. pois o que é o terror da morte súbita pelo machado se comparado à morte em toda uma vida de fome. que nenhum de nós aprendeu a encarar em toda sua amplitude ou desprezo que merece”. Com efeito. e. insulto.. o terror de amargura e atrocidade indizíveis. rejeitando afirmações simplistas de que o comunismo do século XX agiu com uma violência homicida excessiva demais. o momentâneo. muitas vezes o efetivo “poder do povo” foi esse horror violento. na medida em que se espera que a revolta de Bane extrapole a tendência imanente do movimento OWS. e de que deveríamos tomar cuidado para não cair mais uma vez nessa armadilha. a quantidade de eleitores presentes é extremamente baixa. seu objetivo definitivamente não era um novo reino do terror. de José Saramago. Primeiro. em mais um dia de eleição. por essa razão. mais antigo e verdadeiro. crueldade e desilusão? O cemitério de qualquer cidade pode bem conter os caixões cheios desse breve terror. Quando a manhã do dia das eleições é arruinada por chuvas torrenciais.) Portanto.A segunda. um forjado na incandescente paixão. é esta: o atual movimento Occupy Wall Street não foi violento. Depois. qual foi o ponto fraco imanente desse projeto que impulsionou o comunismo a recorrer (não só) aos comunistas no poder para a violência irrestrita? Em outras palavras. o governo dá aos cidadãos a chance de refazer o fato uma semana depois. frio. é muito simples dizer que não há potencial violento no movimento OWS e similares – há sim uma violência em jogo em todo processo emancipatório autêntico: o problema com o filme é que ele traduziu essa violência de uma maneira errada em terror homicida.. Os dois principais partidos políticos – o . No entanto. o alívio do governo logo acaba quando a contagem de votos revela que 70% das cédulas na capital foram deixados em branco. que todos aprendemos com afinco a temer e lamentar. mas o tempo melhora no meio da tarde e a população segue em massa para as seções eleitorais. portanto. então. não basta dizer que os comunistas “negligenciaram o problema da violência”: foi um aspecto sócio-político mais profundo que os impulsionou à violência. mas não menos importante. uma seita fundamentalista e homicida dominada e controlada pelo terror.] Mas todos os nossos temores. e não a sua superação por meio da auto-organização popular… As duas críticas compartilham a rejeição da figura de Bane. [. outro no desumano sangue frio. não é apenas o filme de Nolan que foi incapaz de imaginar o poder autêntico do povo – os próprios movimentos “reais” de emancipação radical também não o fizeram e continuam presos nas coordenadas da antiga sociedade. que os tenhamos pelo menor terror. O resultado é pior: agora 83% dos votos foram brancos. se bem nos lembramos. A resposta a essas duas críticas é múltipla. mas a França inteira mal conteria os caixões cheios daquele outro terror. deturpa de maneira absurda seus objetivos e estratégias. trata-se de uma terrível verdade – mas esse foco voltado diretamente para a violência obscurece uma questão basilar: o que houve de errado no projeto comunista do século XX como tal. Qual é. devemos esclarecer o atual escopo da violência – a melhor resposta para a afirmação de que a reação violenta da multidão à opressão é pior que a opressão original foi dada por Mark Twain no seu Um ianque na corte do rei Artur: “Houve dois ‘Reinos do Terror’.

efetivando a tentação à qual Batman ainda era capaz de resistir. no final do filme.m. permitindo a suspensão de todas as garantias constitucionais e adotando uma série de medidas cada vez mais drásticas: os cidadãos são apanhados aleatoriamente e desaparecem em interrogatórios secretos. É como se Dent fosse a resposta à ordem legal da ameaça de Batman: contra a vigilante luta de Batman. Voltando a Nolan. há uma justiça poética no fato de que. O Cavaleiro das Trevas é de fato uma nova versão de dois clássicos de faroeste de John Ford (Sangue de Heróis e O Homem Que Matou o Facínora) que retratam como.d. essencialmente. como parte da mesma atitude. proibindo a entrada e a saída da cidade e. o herói continua dentro dos limites de uma ordem liberal: o sistema pode ser defendido com métodos moralmente aceitáveis. ele nunca viola a lei. devolve o favor a Dent. seu oponente. em Batman Begins.d. por fim. à sua autonegação? Dent que chega à conclusão de que o sistema é injusto. o novo e agressivo promotor público. o “cavaleiro branco”. é um exemplo de “violência divina” verdadeiramente radical que desperta reações de pânico brutal nos detentores do poder. é preciso “publicar a lenda” e ignorar a verdade – em suma. para civilizar o ocidente selvagem. as pessoas se esquivam de todas as ofensivas do governo com uma harmonia inexplicável e com um verdadeiro nível gandhiano de resistência não violenta… isso. mas Harvey Dent.e. enquanto o infeliz e marginalizado partido da esquerda (p. portanto. o sistema gera seu próprio excesso ilegal. para combater a injustiça com eficácia. fabricando seu próprio líder terrorista. Ou. como nossa civilização tem de se fundamentar em uma Mentira: é preciso quebrar as regras para defender o sistema. dito de outra forma. muito mais violento que Batman. Em Batman Begins. a transgressão de Batman aqui é puramente formal. O Cavaleiro das Trevas muda essas coordenadas: o verdadeiro rival de Batman não é o Coringa. Seu ato é um gesto de troca simbólica: primeiro Dent toma para si a identidade de Batman. Dent o interrompe e se apresenta como Batman – ele é “mais Batman que o próprio Batman”.) e seu principal adversário. a polícia e a sede do governo saem da capital. Dent que perde as últimas inibições e está pronto para usar toda sua brutalidade assassina para atingir esse objetivo? O advento dessa figura muda a constelação inteira: para todos os . No entanto. consiste em agir em nome da lei sem a legitimação para fazê-lo: nos seus atos.) apresenta uma análise afirmando que os votos brancos são. quando Bruce planeja revelar ao público sua identidade como Batman. é preciso atacar diretamente o sistema e destruí-lo? E. O Cavaleiro das Trevas Ressurge ultrapassa ainda mais os limites: Bane não seria Dent levado ao extremo. um voto por sua agenda progressiva. órgão responsável pela imposição das leis.) – entram em pânico. e depois Wayne – o Batman verdadeiro – toma para si os crimes de Dent. um tipo de vigilante oficial cuja batalha fanática contra o crime o conduz ao assassinato de pessoas inocentes e o destrói. segue uma lógica imanente. mas certo de que existe uma conspiração antidemocrática. de certa forma. Desse modo. o partido do meio (p. Sem saber como responder a um protesto benigno. Batman assume os crimes cometidos por Dent para salvar a reputação do herói popular que incorpora a esperança para o povo comum. Então quando. A cidade toda continua funcionando quase normalmente. violando diretamente a lei. a abstenção dos eleitores. de modo que.d. relaciona-se de maneira ambígua à ajuda de Batman: enquanto admite sua eficácia. o governo rapidamente rotula o movimento de “terrorismo puro e duro” e declara estado de emergência. o problema é que a polícia. o herói é simplesmente uma figura clássica do vigilante urbano que pune os criminosos naquilo que a polícia não pode. seu ato modesto tem uma ponta de verdade: Batman. Por fim. seu próprio vigilante. ela também considera Batman uma ameaça ao seu monopólio do poder e uma testemunha da sua ineficácia. a trilogia dos filmes do Batman.governante partido da direita (p.d.

mas o simples fato de que esse algo seja mencionado – em O Cavaleiro das Trevas Ressurge. [2] Karthick RM. 21 de julho de 2012. que Bane não é apenas um terrorista brutal. Será. É por isso que a crítica externa do filme (“sua retratação do reino do OWS é uma caricatura ridícula”) não basta – a crítica tem de ser imanente. a ideologia pura não é possível. a ditadura do proletariado sobre Manhattan – é imanente ao filme. por exemplo. cit. p. o poder do povo ESTÁ AQUI. Hillsdale Natural Law Review. é o seu centro ausente. “The Dickensian Aspects of The Dark Knight Rises”. “The Dark Knight Rises a ‘Fascist’?”. sobre o que as pessoas mobilizadas estão fazendo (é preciso lembrar que Bane diz que as pessoas podem fazer o que quiserem – ele não impõe sobre elas a sua própria ordem). a autenticidade de Bane TEM de deixar rastros na tecitura do filme. então. que isso é tudo? O filme deveria ser categoricamente rejeitado por quem se envolve em lutas emancipatórias radicais? As coisas são mais ambíguas. dizendo que o amigo tem se insinuado sexualmente para ela: leva algum tempo para que o amigo surpreso entenda a mensagem – de uma maneira invertida. [6] Karthick. ausente: nenhum detalhe é dado sobre como funciona esse poder do povo. Society and Culture. e é preciso interpretar o filme da maneira que se interpreta um poema político chinês: as ausências e as presenças surpreendentes também contam. [3] Tyler O’Neil. torna-se uma questão de conveniência.participantes. entrevista na Entertainment 1216 (julho de 2012). . gângsteres e terroristas). 34.) Em suma. cit. [1] Tyler O’Neil. [7] Forrest Whitman. a moralidade é relativizada. encenado como um Evento. algo determinado pelas circunstâncias: é uma guerra de classes aberta. POR QUE EVOCA ESSE ESPECTRO? Por que sequer sonhar com o OWS culminando em uma violenta tomada de poder? A resposta óbvia (manchar o OWS com acusações de que ele guarda um potencial terrorista totalitário) não é o bastante para explicar a estranha atração exercida pela perspectiva do “poder do povo”. tem de situar dentro do próprio filme uma multiplicidade de sinais que aponte para o Evento autêntico. [5] Entrevista de Christopher e Jonathan Nolan ao Buzzine Film. 21 de julho de 2012. (Recordemos. inclusive Batman. ela o está incitando a seduzi-la… É como o inconsciente freudiano que não conhece a negação: o que importa não é um juízo negativo sobre algo. 21 de julho de 2012. Recordemos a antiga história francesa sobre uma esposa que reclama do melhor amigo do marido. “Dark Knight and Occupy Wall Street: The Humble Rise”. em um passo fundamental dado a partir dos oponentes habituais de Batman (criminosos megacapitalistas. mas com uma revolta popular. Não admira que o funcionamento apropriado desse poder continue branco. [4] Christopher Nolan. Temos aqui a primeira pista – a perspectiva de que o movimento OWS tome o poder e estabeleça a democracia do povo em Manhattan é nítida e completamente tão absurda e irreal que não podemos deixar de fazer a seguinte pergunta: POR QUE UM IMPORTANTE BLOCKBUSTER DE HOLLYWOOD SONHA COM ISSO. mas sim uma pessoa de profundo amor e sacrifício. É por isso que o filme merece uma leitura mais íntima: o Evento – a “república do povo de Gotham City”. tudo é permitido para defender o sistema quando estamos lidando não só com gângsteres malucos.

. de Liubliana. É filósofo.br/2012/08/08/ditadura-doproletariado-em-gotham-city-artigo-de-slavoj-zizek-sobre-batman-o-cavaleiro-das-trevas-ressurge/> acessado em 08/07/2013 às 16:07). Às portas da revolução (escritos de Lenin de 1917) (2005). Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente. em 1949. e é um dos diretores do centro de humanidades da University of London. e que o próprio Neeson às vezes fala sobre a sua futura conversão ao islamismo. depois como farsa (ambos de 2011). Che Guevara: A Revolutionary Life. Dele.[8] Karthick. efetua uma inovadora crítica cultural e política da pós-modernidade. sob influência principalmente de Karl Marx e Jacques Lacan. 636-637. Eslovênia.com. [9] Citado em Jon Lee Anderton. Transita por diversas áreas do conhecimento e. New York: Grove 1997. psicanalista e um dos principais teóricos contemporâneos. a Boitempo publicou Bem-vindo ao deserto do Real! (2003). Lacrimae rerum (2009) e os mais recentes Em defesa das causas perdidas e Primeiro como tragédia. [10] Notemos a ironia do fato de que o filho de Neeson é um xiita devoto. Žižek preside a Society for Theoretical Psychoanalysis. endereço <http://blogdaboitempo. p. A visão em paralaxe (2008). Slavoj Žižek nasceu na cidade de Liubliana. cit. Professor da European Graduate School e do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana. (Retirado do Blog da Boitempo.