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A noção de conceito figural

Conceitos e imagens mentais são usualmente distintos nas teorias psicológicas atuais. Piéron, no seu “Vocabulário da Psicologia” (Vocabulaire de la Psychologie), define conceito da seguinte maneira: “Representação simbólica (quase sempre verbal) usada no processo de pensamento abstrato; possui significância universal correspondente a um conjunto de representações concretas no que diz respeito ao que tem em comum” (Piéron, 1957, p. 72). O que então caracteriza um conceito é o fato de que expressa uma idéia, representação ideal de uma classe de objetos, baseada em seus aspectos comuns. Em contraste, uma imagem (nos referimos aqui a imagens mentais) é uma representação sensorial de um objeto ou fenômeno. O conceito de metal é a idéia geral de uma classe de substâncias que tem em comum um número de propriedades: condutividade elétrica, etc. A imagem de um objeto metálico é a representação sensorial do respectivo objeto (incluindo cor, magnitude, etc.). Em todas as teorias cognitivas atuais, conceitos e imagens são considerados duas categorias basicamente distintas de entidades mentais. Mesmo na teoria proposicional – de acordo com a qual os dois tipos de informação no final são codificados no mesmo formato proposicional - refere-se a imagens e conceitos como dois tipos distintos de entidades mentais. Mas vamos considerar o seguinte exemplo: consideremos o triângulo isósceles ABC com AB = AC (Figura 1). Nós queremos provar que LB = LC. Nós podemos imaginar a seguinte prova: vamos considerar que separamos o triângulo de si mesmo e o revertemos, de forma que AC fique do lado esquerdo e AB do lado direito, e subrepomos o triângulo reverso ao triângulo original. O ângulo A permanece o mesmo e AB e AC tendo o mesmo comprimento, AC vai coincidir perfeitamente com AB no lado esquerdo e AB e AC vão coincidir perfeitamente no lado direito. Então o triângulo reverso e o triângulo original vão coincidir perfeitamente. Como consequência, os ângulos LB e LC devem ser iguais. Q.E.D. (do latim "quod erat demonstrandum", que
traduzido fica algo como “como demonstrado”). Nessa prova usou-se uma certa quantidade de conhecimento expressa conceitualmente: os dois lados AB e AC foram declarados iguais. Usou-se o conceito de ponto, lado, ângulo e triângulo. Foi mencionadoverbalmente o processo de reversão. Mas, ao mesmo tempo, usou-se informação figural e operações representadas de maneira figural – sobretudo a idéia de separar o triângulo ABC de si mesmo, revertendo-o e sobrepondo-o sobre o triângulo original. Estaremos lidando aqui com um misto de duas entidades definidas independentes, que são idéias abstratas (conceitos) por um lado, e representações sensoriais refletindo operações concretas, por outro?

círculos. o triângulo a qual nos referimos e seus elementos não podem ser considerados nem conceitos puros nem imagens comuns. essas entidades geométricas não possuem correspondentes materiais verdadeiros. eles possuem uma natureza figural intrínseca: somente enquanto nos referimos a imagens podemos considerar operações como separar. Essas são também construções mentais que não devem possuir qualquer realidade substancial. cubos. Mas há uma quinta propriedade que caracteriza as figuras geométricas e que também é relacionada à sua natureza conceitual. Idealidade. Esse tipo de operação não possui significado concreto. revertidos e combinados. Quando você desenha um certo triângulo ABC numa folha de papel para checar algumas de suas propriedades (por exemplo. Pontos (objetos zero-dimensionais). Conceitos não podem ser separados. lados. Em terceiro lugar. reverter ou superpor. lados (segmentos lineares). de um aparentemente particular – mas de fato correspondente a uma infinidade de objetos possíveis – à categoria universal de triângulos. Eles são de natureza conceitual. seja qual for. não podem existir na realidade. linhas (objetos unidimensionais). ângulos. Ao mesmo tempo. Em raciocínio matemático não nos referimos a eles como objetos materiais ou desenhos. Os objetos a que nos referimos – pontos. embora sejam tridimensionais. matematicamente válida e. quadrados. como cada conceito. mas a um certo formato que pode ser o formato de uma infinita classe de objetos. Os objetos materiais – sólidos ou desenhos – são somente modelos materializados das entidades mentais com as quais o matemático lida. As entidades a que nos referimos acima – pontos. a propriedade de suas alturas serem opostas) você não se refere ao respectivo desenho particular. ao mesmo tempo. a conclusão. As operações mencionadas acima não poderiam ser realizadas com conceitos puros ou com objetos reais. Na verdade. Também . a igualdade dos ângulos LB e LC. Mas mesmo o cubo ou a esfera a qual o matemático se refere não existem na realidade. é possível separar um objeto de si mesmo? Certamente não. todas essas construções são representações universais. etc. abstração. Lidamos com um mundo ideal. podem ser checadas de maneira prática. que é a operação de separar o triângulo ABC de si mesmo e revertê-lo. Ainda assim. e as operações com eles – possuem qualidades conceituais. com seus lados e ângulos pode ser o formato de uma infinidade de objetos. As propriedades das figuras geométricas são impostas ou derivadas de definições no reino de um certo sistema evidente. planos (objetos bidimensionais) não existem. Nós lidamos com descrições de operações aparentemente práticas. Mas na realidade.Vamos considerar o cerne da prova. o próprio triângulo. essas entidades e operações fazem parte de uma prova lógica formal. Em quarto lugar. e nunca cópias mentais particulares de objetos concretos. com meios ideais. somente num senso conceitual podemos considerar a perfeição absoluta das entidades geométricas: linhas retas. Em segundo lugar. Os objetos reais na nossa experiência prática são necessariamente tridimensionais. perfeição absoluta e universalidade são propriedades que fazem sentido no domínio dos conceitos. Mesmo o formato particular desenhado por você. nós lidamos com uma hierarquia de formatos. ângulos e as operações com eles – possuem uma existência unicamente ideal. Na verdade.

São impostas por definições e teoremas. idealmente perfeito. mas também um terceiro tipo de construção que é a figura geométrica chamada círculo. Começando dessas propriedades podemos prosseguir para descobrir outras propriedades do quadrado (a igualdade de ângulos que são todos ângulos retos. uma roda de maneira a descrever sua “circularidade”. inclui a representação mental da propriedade espaço. Possui todas as propriedades de um conceito e pode fazer parte do raciocínio matemático. massa. mencionados nos exemplos acima e. simultaneamente. Qual é o comprimento de PN?” À primeira vista. o círculo. a cor da tinta) e não o ideal círculo perfeito. imaginamos um círculo desenhado (incluindo. A igualdade das diagonais não é questionada. em geral. Um quadrado é um retângulo que possui lados iguais. abstração e a pureza que supomos enquanto realizamos os cálculos. O processo de idealização da . Todavia. sabendo o raio das rodas. não se movem e imagens não possuem perfeição. a igualdade de diagonais. o ponto. o cálculo é feito considerando um modelo abstrato de roda que não é nem uma imagem pura nem um conceito puro. parece que o problema não pode ser resolvido porque o comprimento dos segmentos MP e MN depende da posição do ponto M. subitamente. uma figura geométrica não é um mero conceito. a despeito do fato de que ainda inclui a representação de propriedades espaciais. o número de rotações por unidade de tempo e o tempo gasto. Consequentemente PN = MO e MO é o raio do círculo. quando nós imaginamos um círculo. não tem cor. universalidade. Mas o círculo matemático. e é supostamente. Se vamos resolver um problema no qual temos que calcular. Possui uma propriedade que conceitos usuais não possuem. É uma imagem. a linha. não somente a imagem da roda é associada a isso. por exemplo. Uma figura geométrica pode então ser descrita como tendo intrinsecamente propriedades conceituais. a saber. propriedades conceituais e figurais. Essas relações não dependem do desenho em si. revelando relações lógicas. observamos que MPON é um retângulo e que o segmento MO é uma diagonal desse retângulo. etc.). o quadrado. O triângulo. que é o objeto do nosso raciocínio matemático. Um quadrado não é uma imagem desenhada numa folha de papel. O aspecto essencial que queremos enfatizar é que a conclusão não é tirada considerando separadamente a imagem e as restrições formais. Escolhemos arbitrariamente um ponto M e desenhamos as perpendiculares MN e MP nos dois diâmetros. etc. mas por um processo único no qual uma figura destilada é considerada. Consideremos o seguinte exemplo: “Em um círculo cujo centro é C desenhamos dois diâmetros perpendiculares AB e CD.desse ponto de vista uma figura geométrica tem natureza conceitual. por exemplo. representam construções mentais que possuem. Certamente. a igualdade dos raios não é questionada. por exemplo. a distância percorrida por um veículo. Quando conceituamos. Não precisamos fazer nenhum esforço para “refinar” a figura. para purificá-la – mentalmente – de suas irregularidades e impurezas. uma imagem visual. É um formato controlado por sua definição (embora possa ser inspirado por um objeto real). todas as figuras geométricas. Conceitos são giram. Mas. substância.

situação extrema em geral não alcançada em absoluto devido a limitações psicológicas. Na verdade é comum aceitar que durante um processo de raciocínio produtivo imagens e conceitos interagem intimamente. há outra imagem não percebida sensorialmente. p. Pergunto a mim mesmo: que forma terei como resultado da secção de um cubo com um plano através de diagonais de duas faces opostas? A operação é simples de imaginar. Foi Moritz Pasch que no século XIX conferiu um status formal a “uma coisa entre outra” que previamente era aceito como uma informação de base figural. Os objetos de investigação e manipulação no pensamento geométrico são então entidades mentais. mas pensada.figura toma lugar automaticamente. nesse caso. completa. Deve ficar claro que a fusão entre conceito e figura em raciocínio geométrico expressa somente um ideal. É essa imagem a que nos referimos executando uma operação matemática. etc. que é muito difícil aceitar uma construção que tenha. A fusão entre conceito e figura tende a ser. de maneira que ela se torna uma integral (???). a que chamamos conceitos figurais. É uma imagem sensorial como tantas outras que vem à mente como efeito de nossa experiência prática: a casa em que vivo. amigos. Eu não pretendo afirmar que a representação que temos em mente quando imaginamos uma figura geométrica é desprovida de qualquer qualidade sensorial (como cor) exceto propriedades espaciais. mas nunca tratou da noção de “uma coisa entre outra” e de suas propriedades” (cf. simultaneamente. desde o início. Uma é a representação de um cubo real (algo como um cubo de madeira) e a operação de cortá-lo. Nas páginas a seguir iremos encontrar exemplos de fenômenos conflituais tomando parte na gênese dos conceitos figurais no indivíduo. representações de familiares. “Como Gauss notou. sem uma investigação que intervisse. 1982. alunos. o que exprime propriedades espaciais (forma. sustenta a idéia que a figura considerada é. Nós estamos tão acostumados a diferenciá-las. posição. possuem qualidades conceituais – como “idealidade”. universalidade e perfeição. componente ativo de um raciocínio estritamente lógico. Shepard citou muitos relatos . abstração. idéias não sensoriais. A história da matemática está testemunhando a complexa dinâmica do processo de conceitualização e axiomatização da informação figural. Mas duas realidades mentais distintas têm de ser consideradas. magnitude) e. o objeto genuíno do pensamento geométrico. como “imagens na cabeça” e conceitos gerais. ao mesmo tempo. 102). Muitos dos axiomas utilizados por Euclides em seus Elementos nunca foram explicitados por ele. a sala em que trabalho. Mas eu afirmo que enquanto operamos com uma figura geométrica nós agimos como se nenhuma outra qualidade contasse. Além dessa imagem. Euclides falou de pontos entre outros pontos e linhas entre outras linhas. Kline. qualidades conceituais e espaciais imaginativas. O fato de que pulamos de repente pra conclusão – PN = MO = raio = constante – no mesmo momento em que compreendemos o retângulo PONM. não uma imagem qualquer. mas uma estrutura já regida por lógica.

Por exemplo. Kosslyn. Kosslyn. 1978. e um movimento inexorável em direção aos princípios abstratos de simetria e invariância. nós temos razões para assumir que no curso dessa ação combinada significados mudam de uma categoria para a outra. Além disso. 1990). Shepard. p. Paivio. de outro. referindo-se ao trabalho de Einstein.introspectivos de cientistas que descrevem os caminhos pelos quais a descoberta de uma nova idéia foi baseada em imagens em resposta à investigação teórica (Shepard. ele escreve: “Todo o trabalho de Einstein em física teórica foi marcado pela ação combinada entre visualização concreta e perceptual de um lado. o que é isso? Uma das cobras agarrou sua própria cauda e a estrutura toda estava se retorcendo zombeteiramente perante meus olhos. eu acordei. Paivio. imagens tornam-se mais universais e conceitos enriquecem grandemente suas conotações e poder de combinação. 135). mencionada repetidamente na literatura recente é que o raciocínio produtivo tanto no dia-a-dia quanto em situações científicas. muitas delas próximas umas das outras: tudo estava se movendo em espiral como uma cobra. 1970. pontes lógicas ou formalismos matemáticos. Como se atingido por um raio. Blanc-Garin. que o levou à descoberta da estrutura de anel hexagonal da molécula de benzeno. 147). 1976. Há uma evidência experimental extensiva acerca do papel recíproco desempenhado por imagens e conceitos no aprendizado e resolução de atividades (para “reviews” e teoria geral veja Rohwer. A idéia principal. afiados por visões repetidas e semelhantes agora conseguiam distinguir estruturas maiores de diferentes formas e em longas cadeias. 1978. mas por saltos crescentes de intuição física e espacial” (Shepard. Até “onde” uma figura geométrica é considerada no . A hipótese mais plausível parece ser a de que na verdade lidamos com um jogo. 1980. no caso especial do raciocínio geométrico. 1971. p. Denis e Dubois. no qual redes conceituais ativas interagem com fontes imaginativas.. 1978). Nós então temos que distinguir entre validade formal matemática e validade empírica.. 1970. inclui uma permanente ação combinada entre dinâmicas conceituais e imaginativas. 1982. O curso do processo de raciocínio é determinado essencialmente por construções conceituais (simbolizadas ou mediadas por meios imaginários) ou vice versa: o jogo de imagens que impulsiona o processo de raciocínio em suas tentativas criativas? O fenômeno é tão complexo que não é possível obter uma resposta definitiva. O que assumimos é que. Essa ação combinada parece ter sido mediada não por deduções verbais.” (Shepard. que possui simultaneamente tanto propriedades conceituais como figurais. Subitamente. 1978. Anderson. temos um terceiro tipo de objetos mentais. 1983. 1974. Mas nessa ação combinada imagens e conceitos são considerados categorias distintas de entidades mentais. O leitor pode encontrar dezenas de exemplos similares no artigo de Shepard. os olhos da minha mente. Enquanto dormitava perante o fogo numa tarde (1865) ele descobriu que “os átomos estavam fazendo malabarismos diante de meus olhos. Anderson. A razão para essa profunda simbiose entre restrições simbólicas analíticas e propriedades figurais no raciocínio geométrico é que lidamos na verdade com sistemas axiomáticos. Shepard recorda a famosa experiência mental de Kékulé.

A investigação dessas propriedades é restrita unicamente a um esforço intelectual e lidamos com um tipo formal de validade. . Mesmo Shepard.reino de uma certa estrutura axiomática. Se estivermos interessados na validade empírica das propriedades ou teoremas. 373 – 412). que devotou um grande número de pesquisas à manipulação mental de figuras geométricas (como rotações e desdobramentos) não enfatiza esse aspecto do problema (veja Shepard e Cooper. Com a idade e como efeito da instrução – como veremos – a fusão entre as facetas figurais e conceituais tende a melhorar. mas eles também não traçam todas as consequências acerca das relações entre as limitações figurais e lógicas em seus domínios (Piaget e Inhelder. O componente figural é comumente influenciado por forças Gestalt-figurais e os componentes conceituais podem ser afetados por falácias lógicas. a conceitualização total das imagens espaciais no raciocínio geométrico representa um fenômeno ideal. suas propriedades e teoremas correspondentes são ditados direta ou indiretamente por definições implícitas ou explícitas. Nos estudos já realizados a respeito de representações espaciais seu status singular não foi considerado. pp. 1966. 1982). Como mencionamos anteriormente. Somente Piaget e Inhelder mencionam o status singular das imagens espaciais. as coisas mudam fundamentalmente e temos que confrontar as assertivas matemáticas respectivas com os fatos empíricos.