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História, Ciências, Saúde-Manguinhos - The paradigm of historical epistemology: Thomas Kuhn​ s contribution

História, Ciências, Saúde-Manguinhos
Print version ISSN 0104-5970

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Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.6 no.3 Rio de Janeiro Nov. 1999/Feb. 2000
http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59702000000400006

JACOBINA, Ronaldo R.: ‘O paradigma da epistemologia histórica: a contribuição de Thomas Kuhn’. História, Ciências, Saúde — Manguinhos, VI(3): 609-630, nov. 1999-fev. 2000. Este artigo apresenta uma breve análise histórica da epistemologia, do modelo normativo tradicional às vertentes contemporâneas, aqui designadas de ‘históricointerpretativas’. Estas últimas fazem vigorosa crítica ao paradigma tradicional, demonstrando não só os limites da ‘falsificação lógica’ e da ‘verificação empírica’, mas também a rigidez prescritiva da metaciência normativa, incompatível com os avanços científicos deste século. Analisase a contribuição kuhniana, dando-se destaque aos seus conceitos originais e às redefinições de conceitos e modelos anteriores. À guisa de ilustração, alguns são utilizadas na análise da descoberta da estrutura do DNA. A apresentação do modelo kuhniano inclui posições de
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O paradigma da epistemologia histórica: a contribuição de Thomas Kuhn The paradigm of historical epistemology: Thomas Kuhn’s contribution

The article analyzes Kuhn’s contribution in greater detail. To illustrate. R. which are referred to here as ‘historical-interpretative’. 2000.: ‘The paradigm of historical epistemology: Thomas Kuhn’s contribution’. história da ciência. This exploration of the Kuhnian model also makes reference to certain stances taken by normative and postKuhnian epistemologists. Nov.scielo. some of his categories are used in an analysis of the discovery of the DNA structure.php?script=sci_arttext&pid=S0104-59702000000400006 Este artigo tem como objetivo analisar o modelo epistemológico elaborado por Thomas Kuhn no início da década de 1960 — uma das mais importantes contribuições para a nova epistemologia. com vistas a 2/15 . KEYWORDS: historicalinterpretative epistemology. revolução científica. VI(3): 609-630. Ciências. moving on to the traditional normative model and continuing through contemporary lines. deemed incompatible with this century’s scientific advances. Saúde-Manguinhos . sobretudo em relação às ciências sociais e ao uso ampliado para outras áreas do conhecimento. speculative phase. normal science. paradigm.br www. JACOBINA. 1999-Feb.br/scielo. highlighting his original concepts and his redefinitions of earlier concepts and models. Saúde – Manguinhos. history of science. 74/302 Canela 40110-180 Salvador — Bahia Brasil rrj@magiclink.com. ciência normal.The paradigm of historical epistemology: Thomas Kuhn​ s contribution kuhniano inclui posições de interlocutores. A fase especulativa inicial e a fase da epistemologia normativa tradicional serão brevemente descritas. This brief historical analysis of the field of epistemology begins with its initial. Ciências.01/08/13 História. scientific revolution. Adjunto da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia Rua Cláudio Manoeld a Costa. PALAVRAS-CHAVE: epistemologia histórico-interpretativa. especially in relation to the social sciences and application of the model to other areas of knowledge. Ronaldo Ribeiro Jacobina Prof. História. paradigma. tanto os normativos quanto os póskuhnianos. whose shortcomings include not only the limitations of ‘logical falsification’ and ‘empirical verification’ but also the prescriptive rigidity of normative meta-science. Common to the latter is harsh criticism of the traditional paradigm. R.

quais sejam. 116). mas no seu espectador". idem. além de outras razões. 22). na obra de Kuhn. Kant (1997. principalmente. d. demonstrar que a verificação não bastava para assegurar a verdade de uma teoria científica. Dessa segunda vertente epistemológica. 1990). o normativo e o descritivo. Aristóteles.. a identificação de três vertentes do discurso ‘metacientífico’. mas mostra que podiam ser afastados de maneira a possibilitar ao investigador chegar ao verdadeiro conhecimento. Na primeira corrente. que reconhece. este último aqui designado de ‘históricointerpretativo’.). neste século. de uma maneira contrária ao testemunho dos sentidos e contudo verdadeira.php?script=sci_arttext&pid=S0104-59702000000400006 3/15 . destaca-se o fato de ter ele formulado com clareza questão tão contemporânea como a do sujeito como objeto de si mesmo: "O entendimento.01/08/13 História.. d. Parmênides e Demócrito. uma vez que.18). o estabelecimento de uma ruptura com a epistemologia anterior. o que se distingue da possibilidade de apreensão dos ‘fenômenos’ — aquilo que obedece ao poder organizador do nosso entendimento. em pré e pós-kuhniana fundamenta-se na proposta de Rorty (1997) — autoproclamado um dos "póskuhnianos esclarecidos" ou "iluminados" —. reduzindo suas proposições a enunciados verificáveis (Morin. A epistemologia especulativa O discurso especulativo remonta aos gregos e já se faz presente desde as primeiras inquietações dos pré-socráticos. nas discussões sobre o alcance do conhecimento e sobre as formas de combater os erros e equívocos (Chauí. Ciências. procurar a explicação dos movimentos observados. a ‘dúvida metódica’ de Descartes e. o especulativo. isto é. as teorias verificadas sucediam-se sem que nenhuma pudesse jamais adquirir infalibilidade. as contribuições de Bacon e Locke. Tal posicionamento constituía uma ruptura que se dava em paralelo àquela que a obra filosófica de Kant efetuava em seu próprio campo. permanecendo entre os sofistas em sua precursora preocupação com a linguagem e a verdade e encontrando eco nos pensamentos de Sócrates.scielo. Quanto a Locke. Essa era também a ambição dos empiristas lógicos anglo-saxônicos. como Heráclito. s. 139). tem-se inicialmente o trabalho do chamado Círculo de Viena (1925-36).The paradigm of historical epistemology: Thomas Kuhn​ s contribution epistemologia normativa tradicional serão brevemente descritas.br/scielo. Popper rechaça a indução como prova lógica. A crítica kantiana afirmava a impossibilidade de o entendimento alcançar as ‘coisas em si’ (númemo). foi Kant quem realizou uma "revolução copernicana". A epistemologia normativa A epistemologia normativa evita qualquer discurso especulativo por ter o objetivo principal de determinar as prescrições sobre como os cientistas ‘devem’ praticar a ciência. mas sustenta a idéia da lógica dedutiva como valor de prova. cuja análise será complementada com a exposição de algumas das críticas e das modificações sugeridas por autores de outras vertentes epistemológicas. o conhecimento intelectual. Para situar a contribuição kuhniana no campo da filosofia das ciências. que inauguram uma forte tradição anglo-saxônica sobre a teoria do conhecimento. de grande importância para a vertente normativa. porém didático.. Essa distinção kantiana abre caminho para um grande esforço de demarcação dos critérios de cientificidade. "o iniciador da teoria do conhecimento propriamente dita" (Chauí. p. será examinada adiante. destacam-se duas correntes: o verificacionismo e o falsificacionismo popperiano (Epstein. que pretendeu transformar a filosofia em ciência. Utilizando o recurso analítico de decompor o todo em suas partes. com vistas a contextualizar o modelo kuhniano. p. s. Descartes identifica muitos dos erros oriundos do conhecimento sensível. requer arte e esforço situá-lo à distância e fazê-lo seu próprio objeto" (Locke. Saúde-Manguinhos . Coube a Popper (1975. como o olho. não nos objectos celestes. de modo um tanto ou quanto esquemático. 23) considera que a física de sua época não teria avançado tanto "se Copérnico não tivesse ousado. de um lado. ao fazer do conhecimento o objeto central do conhecimento. que buscaram fundar a certeza do pensamento no ‘positivismo lógico’. p. p. Platão e. 1983. d. partindo das idéias inatas e controlando as investigações. p. Essas duas tradições epistemológicas — indutivismo e empirismo e falsificabilidade das teorias — têm em comum o problema da demarcação.. Segundo Morin (s. . 1994). essa vertente inicial constitui-se numa ‘teoria do conhecimento’ e postula a verdadeira natureza do conhecimento que temos da realidade externa. têm o objetivo de elaborar critérios para distinguir enunciados científicos dos não-científicos. A divisão da filosofia da ciência. utilizaremos. Dessa vertente destacam-se. Do Renascimento até a época moderna. de outro. A www. A contribuição de Bacon sobre o método indutivo. segundo Epstein (1990). não se observa a si mesmo. no entanto.

A tese da refutabilidade de Popper pode ainda ser ilustrada com o exemplo a seguir. por processo puramente lógico. o método conhecido como indução supõe os seguintes passos: a) o cientista. ao passo que será considerado empírico www. Tal crítica também está contida no conhecido argumento popperiano de "refutação ao método indutivo pela simples enumeração": acumula-se um número elevado de observações de cisnes que só apresentam a cor branca. era impossível que a teoria tivesse derivado de observações: "a dinâmica de Newton ultrapassa essencialmente todas as observações.. no verificacionismo inicial. exigirei. em sentido negativo: "deve ser possível refutar". Saúde-Manguinhos . dominou o pensamento científico e epistemológico até.. d) por fim. ao longo de sua obra. nem sempre exitosas e nem sempre verdadeiras". pp. Então. trivial e não surpreendente. é impossível verificar todos os cisnes — mas pode ser conclusivamente falseada. demonstra-se como a indução por enumeração. por mais amplo que seja. 1975). Popper (s. 216-7) retoma os argumentos de Kant em três níveis: a) intuitivamente. por exemplo. a meu ver. por exemplo. surgiu historicamente de certos mitos. em seguida. Popper. 41-2). pode acarretar logicamente um enunciado geral irrestrito. a solução de Kant para esta questão sustenta-se na tese de que o mundo. mas de nova interpretação. contra-exemplos refutadores. Embora o verificacionismo probabilístico tenha tornado a discussão mais complexa. d. logicamente. ao declarar que chegara a sua teoria da mecânica celeste partindo de observações. ao lado de casos verificadores. 1996a. uma lei científica não pode ser cabalmente verificada — no exemplo dos cisnes. que sua forma lógica seja tal que se torne possível validá-lo através de recurso a provas empíricas.. s. simplesmente porque não admite refutação. Em outras palavras. só reconhecerei um sistema como empírico ou científico se ele for passível de comprovação pela experiência.. em sentido positivo. o racional presente no senso comum: "Assim o enunciado ‘Choverá ou não choverá aqui. Ao se encontrar um único cisne que não é branco. que nenhum número de enunciados a respeito de observações singulares. c) e. já que vem de um intelectual que soube valorizar. não exigirei que um sistema científico seja suscetível de ser dado como válido. não a "verificabilidade" mas a "falseabilidade" de um "sistema". não existe a chamada indução. pp. apesar de ter sofrido críticas como. pp. divulgados. . por acaso ou não. Ao contestar a ilusão de Newton. 36). 218). a questão não é a verificação das teorias. as primeiras décadas deste século. é fonte de erros (Popper.01/08/13 História. Essas considerações sugerem que deve ser tomado como critério de demarcação. de que as leis e teorias derivavam da observação.scielo. exata e abstrata. teorias). p. o argumento é falso — a teoria heliocêntrica de Copérnico não resultou de novas observações. Newton reafirmou-a posteriormente. 1975. A visão tradicional indutivista. as generalizações passam a ser aplicadas a casos semelhantes. de uma vez por todas. que se ajustam aos fatos conhecidos e explicam o modo como se relacionam. d. inferências que levam a teorias. é nossa interpretação dos fatos observáveis à luz de teorias que inventamos: "nosso intelecto não deriva suas leis da natureza.php?script=sci_arttext&pid=S0104-59702000000400006 4/15 .br/scielo. não seria considerado empírico. não tivessem surgido.. b) tais dados são registrados de modo sistemático e. então. A discussão contemporânea sobre o desenvolvimento científico pressupõe necessariamente o confronto entre essas duas vertentes epistemológicas. Nestes termos. cit. mas impõe leis à natureza". partindo-se de enunciados singulares "verificados por experiências" (não importa o que isto possa significar) são logicamente inadmissíveis. Segundo Popper (op. para Popper. Para ele. pela experiência. Ciências. b) historicamente. A crítica ao método indutivo e ao empirismo já aparecia nos trabalhos de Hume (Zanetic. 1996a. p. e sim o esforço dirigido a sua refutação.. através da observação de casos particulares e de experiências. que não poderia ser derivada de afirmativas relacionadas com a observação". quando afirmava. através de suas "histórias naturais" (Kuhn. não resolveu o problema (Kuhn. como o conhecemos. De modo esquemático. fazendo eco à tese sustentada por Francis Bacon. no século XVII. com mais cautela. Conseqüentemente.). que todos os cisnes são brancos. bastando um cisne não branco para refutar o enunciado: Ora. diz ainda que: "nosso intelecto ‘tenta’ impor à natureza leis que inventa livremente. é universal. amanhã’. um sistema científico empírico (Popper. a mecânica newtoniana não se baseia na observação — as observações são sempre inexatas. as de Kant (1997).. obtém informações confiáveis. e é possível demonstrar. possibilitando as generalizações (leis. as teorias "nunca" são empiricamente verificáveis. porém. 185-6). Contudo. O nosso conhecimento não teria evoluído se. pelo menos. enquanto a teoria formula assertivas exatas.The paradigm of historical epistemology: Thomas Kuhn​ s contribution elaborar critérios para distinguir enunciados científicos dos não-científicos. c) outros cientistas acumulam mais dados na mesma área. afirmando-se.

Essa vertente. Saúde-Manguinhos . no entanto. O entendimento de uma importante questão epistemológica contemporânea. incorporando contribuições oriundas da sociologia do conhecimento. Entretanto.php?script=sci_arttext&pid=S0104-59702000000400006 5/15 . caso não tivesse sido posta de lado essa vertente gnosiológica. 11) refere-se à descoberta da "monografia quase desconhecida" de Fleck intitulada Entstehung und Entwicklung einer wissenschaftlichen Tatsache (Gênese e desenvolvimento de um fato científico). e admite que essa obra antecipava muitas de suas idéias. em Fleck (1986). desde as décadas de 1930 e 1940. e sua busca de critérios de cientificidade levou-o a superar os limites do verificacionismo empiricista. respectivamente. Koyré. Examina numa perspectiva crítica. que. a "coletivos de pensamento" e "estilos de pensamento". sobretudo a popperiana. 125). Ciências. a crise paradigmática não ocorria apenas nas ciências.. Do ponto de vista da filosofia da ciência. incluindo a engenhosa tentativa de atualização popperiana representada pelos "programas de investigação científica" de Imre Lakatos (1989). as quais seriam guiadas exclusivamente por critérios lógicos bem definidos. como os produtos da atividade científica e as próprias normas de validação. que.scielo. www. quanto no que respeita à elaboração de procedimentos normativos. este último precursor na questão da complexidade. e ainda a polêmica epistemologia anarquista de Paul Feyerabend. também citada por Epstein (op. o período 1960-70 foi marcado por uma forte crítica tanto ao verificacionismo quanto ao falsificacionismo. bem como das normas instituídas com essa finalidade. significa o lugar de avaliação das teorias e descobertas. Nesse período. Na segunda metade deste século. sob certas condições e contextos. Enfim. Porém.01/08/13 História. aceitas pelo ‘consenso’ das comunidades científicas e de filósofos das ciências. entre outros. da história das ciências. Popper realizou um trabalho de fôlego para manter a epistemologia normativa. em especial as de "comunidade científica" e de "incomensurabilidade entre paradigmas". cit. podemos qualificar o discurso epistemológico normativo aquele voltado exclusivamente para o contexto da justificação. idem. s.). atuam como ferramentas úteis. p. de onde vai emergir uma nova concepção na filosofia da ciência. não mais infalíveis e universais. amanhã’. p. que façamos todas as ressalvas para que essa dualidade não se torne um dualismo. é muito restritiva: o contexto da descoberta seria "o modo como o pensador descobre o seu problema". em Reichenbach (apud Epstein). sobretudo. Foucault e Kuhn. possibilitando este último a redescoberta da obra do médico e epistemologista Ludwik Fleck e. em que até o princípio da não contradição teve seu valor de norma relativizado (Morin. deu importantes contribuições à epistemologia contemporânea." A ‘paixão’ racionalista levou-o a buscar obstinadamente critérios de demarcação entre o científico e o não-científico e a afirmar o procedimento de investigação racional. Piaget. Bachelard. com sua lúcida e militante crítica à epistemologia normativa. ao passo que será considerado empírico o enunciado ‘Choverá aqui. d. A fonte inicial da distinção. genético-interpretativa não apenas os processos de produção do conhecimento científico. Entretanto." (apud Epstein. 1994). criticada com fina ironia por Radnitzki: "jardineiros que. afastando fatores subjetivos. utilizando a redefinição proposta por Radnitzki para esses dois contextos.br/scielo. mais recentemente. de 1935. sendo necessário. por receio de ervas daninhas. e o da justificação.. Como veremos. presente muito mais no ‘desejo’ popperiano de racionalismo puro do que na história das ciências. Kuhn (1996a) vai oferecer exemplos para refutar essa racionalidade absoluta. "a maneira de apresentá-la em público".). o próprio predomínio prescritivo levou a um enrijecimento metacientífico. psicológicos ou estéticos. já prenunciada. correspondentes.The paradigm of historical epistemology: Thomas Kuhn​ s contribution simplesmente porque não admite refutação. Além das contribuições de Thomas Kuhn e Ludwik Fleck. não permitem o crescimento de flores em seu jardim. lugar de avaliação quase exclusiva do produto da atividade dos cientistas. com os estudos de Fleck. Kuhn (1996a. eclodia uma crise também na epistemologia. A epistemologia histórico-interpretativa Essa terceira vertente tem buscado superar a dicotomia entre o contexto da justificação e o da descoberta. a vertente históricointerpretativa abrange os estudos pioneiros de Alexander Koyré e Gaston Bachelard. que não desempenhariam papel algum na formação e avaliação das teorias científicas. deve pressupor o conhecimento de dois contextos do empreendimento científico — o da descoberta e o da justificação —. da psicologia da descoberta e. além de o avanço nas ciências ditas ‘duras’ demonstrar o relativismo da verificação empírica e da falsificação lógica. cujos efeitos teriam sido danosos para a emergência de uma nova ciência. tanto com relação à crítica ao empirismo exacerbado. de outros integrantes da "escola polonesa de filosofia da medicina" (Löwy. agora. aparecem os trabalhos de Feyerabend.

desde os normativos até os autores pós-kuhnianos. indubitavelmente contribuiu para aquela ‘revolução’ epistemológica que irrompeu nas décadas de 1960 e 1970. pelo menos. 1989. p. contemporâneos e sucessores imediatos nas ciências. cuja obra mais famosa é provocativa desde o título. os conceitos originais dessa obra que é considerada um divisor de águas na epistemologia. apresentando também o diálogo/debate com alguns de seus principais interlocutores. A física. absorvem praticamente a mesma literatura técnica. o "arqueológico" (1969). eles procuram "apresentar a integridade histórica daquela ciência. em primeiro lugar. com mais detalhes. seriam mais próximos dela. organizada e escrita de modo claro e instigante. 18). 22) caracteriza Koyré e outros agentes dessa revolução historiográfica na filosofia das ciências: Em vez de procurar as contribuições permanentes de uma ciência mais antiga para nossa perspectiva privilegiada. mas antes pela relação entre as concepções de Galileu e aquelas partilhadas por seu grupo. os estudos de epistemologia genética de Jean Piaget podem ser incluídos nesta vertente ou. abordando diferentes objetos.php?script=sci_arttext&pid=S0104-59702000000400006 6/15 . desde a formulação das teorias da relatividade e quântica. p.. o próprio Kuhn (1996b. Talvez o que haja em comum entre esses autores. enfrentassem uma nova etapa de incertezas e perplexidades (Prigogine. como unidade produtora e legitimadora do conhecimento científico com as seguintes características: seus integrantes estão submetidos a educação e a iniciação profissional similares. Embora a adotassem de diferentes maneiras é de supor que não discordariam das palavras com que Kuhn (1996a. requeria uma nova filosofia da ciência para que esta e a própria epistemologia. p. acatarei a sugestão do próprio autor de se discutir. anos de muita turbulência social e cultural e também de agudização da crise das ciências (Santos.scielo. já que sua principal contribuição é essa síntese exemplar. seja a importância atribuída à perspectiva histórica.br/scielo. a partir de sua própria época". d. Ciências. define comunidade científica por meio de um truísmo: a estrutura comunitária da ciência é "aquela formada pelos praticantes de uma especialidade científica". perguntam não pela relação entre as concepções de Galileu e as da ciência moderna. da qual "nem a dúvida nem a relatividade são doravante elimináveis" (Morin. renovadas. Tal associação baseia-se na comparação que Piaget (1987) faz de seu conceito de quadro epistêmico com o de paradigma de Kuhn (1996a). medicina etc. O mesmo pode ser dito de Michel Foucault. tomando os objetos em sua complexidade. loucura. Em um segundo momento. 1986) considera que ela é orientada por uma visão mais intrepretativa que normativa. 222)." Procurarei examinar a seguir. www. A escolha da citação deve-se à importância dessa obra de Kuhn. Um dos maiores exegetas de sua obra no país (Machado. onde buscaremos identificar as principais teses aplicáveis a outros campos que não as ciências naturais. a ausência de normas universais e a proliferação de procedimentos facilitam o progresso do conhecimento científico: "A ciência é um empreendimento essencialmente anárquico: o anarquismo teorético é mais humanitário e mais suscetível de estimular o progresso do que suas alternativas representadas por ordem e lei. Contra o método. por ser mais abrangente e dar conta tanto dos fatores externos quanto dos internos ao desenvolvimento das ciências. Kuhn (1996b. pp. No posfácio de 1969. 13). a busca de precursores ou fontes anteriores a Kuhn pode se tornar ociosa. Estrutura da comunidade científica Antes de me debruçar sobre sua contribuição mais famosa — o conceito de paradigma —. 1996). seus professores. suas teses possuem uma larga aplicação. 19). A contribuição de Kuhn reveste-se de maior importância por realizar uma síntese entre o pensamento objetivo e sistemático da tradição anglo-americana e a inovadora epistemologia européia continental. isto é. 219. objeto primordial do mais famoso ensaio publicado por ele. 1997. que chega a afirmar que as comunidades científicas podem ser isoladas investigando-se o comportamento dos cientistas. Por isso. Saúde-Manguinhos . prisão. sem o recurso prévio aos paradigmas inicialmente. O legado foucaultiano de caráter histórico "pelos campos de que trata e pelas referências que assume" (Foucault. que trilharam caminhos tão próprios. 1987). p. Por exemplo. s. em especial. define-a em linguagem mais conceitual. Para Feyerabend (1977.The paradigm of historical epistemology: Thomas Kuhn​ s contribution normativa. conclui que seu modelo é mais completo e adequado. tais como sexualidade.01/08/13 História." Embora não sejam objeto de análise neste artigo. a comunidade formada pelos cientistas. p. 255) concordou com a ampliação de seu alcance: "Na medida em que o livro retrata o desenvolvimento científico como ‘uma sucessão de períodos ligados à tradição e pontuados por rupturas nãocumulativas’. que também desenvolveu um modelo próprio.

numa crise paradigmática. e Schramm (1996). Porém. Para sua precisão e clareza conceitual. entre outros assuntos. 226) como "leitora atenta". 1996b). que colaborariam na definição de temas e prioridades e na discussão dos aspectos éticos. quando não empregado de modo abusivo. em seu posfácio. pp. em sua análise sobre a ‘ciência pós-moderna’. devido à ‘incomensurabilidade’. é a partir de seu uso como conceito central no ensaio de 1960 que o termo se consagra na epistemologia (Assis. a comunicação entre os membros de uma comunidade científica é ampla e os julgamentos profissionais. é desejável a formação de uma "comunidade ampliada de pares". reconhece a responsabilidade por alguns dos malentendidos. uma vez que constituem a única audiência e os únicos juízes do trabalho dessa comunidade. Nas ciências sociais e em saberes como o psiquiátrico.01/08/13 História. ele utiliza para esse sentido mais amplo a expressão "matriz disciplinar". Halal apud Harvey (1992). Kuhn argumenta que a maioria dos sentidos atribuídos ao conceito deve-se apenas a "incongruências estilísticas". considera essa caracterização da estrutura da comunidade científica uma das mais importantes contribuições da reflexão kuhniana. — crença em modelos (o "paradigma metafísico"): são convenções coletivas e básicas estabelecidas através de analogias ou metáforas. como já foi referido. 132-47). Margaret Masterman (1975). relativamente unânimes. Se os compromissos compartilhados dependem da dominância de um paradigma. sobretudo. embora um mesmo objeto possa ser abordado sob pontos de vista incompatíveis por diferentes ‘escolas’. Mendes (1984). criaram-se compromissos compartilhados que unificaram aquele campo de conhecimento e sua comunidade específica. absorvem praticamente a mesma literatura técnica. Por outro lado. Kuhn reconhece. em seu trabalho. com a participação não só de cientistas. na saúde pública e administração de saúde. entretanto. uma estrutura partilhada pelos praticantes de uma mesma disciplina e composto dos seguintes elementos. 1997) e depois se amplia para as mais diversas áreas de conhecimento: na economia. O grau de compromisso com essas generalizações é diferente: leis podem ser gradualmente corrigidas. Kuhn respondeu-lhes usando seu arsenal histórico. 21 maneiras diferentes. o campo não era território específico de uma comunidade. as moléculas de gás que se comportam como pequeninas bolas de bilhar elásticas www. na sociologia do trabalho. Ora é entendido como leis. mas também de não especialistas. numa perspectiva pós-kuhniana. os críticos citavam a teoria da matéria. importante recurso da epistemologia contemporânea: até 1920. então. Santos (1989. Recusando o termo ‘teoria’.br/scielo. Ciências. como. "por conotar uma estrutura bem mais limitada em natureza e alcance".) e Schramm (1996). afirmou. como paradigma metafísico. será. a críticas que recebeu por ter exagerado a tese da unanimidade dos cientistas em sua relação de fidelidade ao paradigma. pelo menos. que não trabalham com leis imutáveis e universais. período da possível infidelidade paradigmática. ora é utilizado em sentido figurado. em autocrítica feita no posfácio de 1969 (Kuhn. observou o uso do termo em. a comunidade possui objeto de estudo próprio. havia diferentes comunidades que. eram incomensuráveis. conceito kuhniano derivado da análise pioneira de Fleck (1986) que comentarei mais adiante. ordenados como um todo: — generalizações simbólicas: são axiomas. e Carleial (1997). Embora considere o sentido mais global como o menos apropriado — paradigma como constelação dos compromissos de grupos —.scielo. 225. Como exemplo. aprendendo lições semelhantes. pp. na bioética. foi este o sentido que mais se difundiu. E. Funtowicz e Ravetz (1997. Coats (1969) e Magalhães. p. citada pelo próprio Kuhn (idem. o próprio Kuhn faz referência. que freqüentemente o uso ampliado do conceito de paradigma tem sido pouco preciso. em relação aos conceitos e sua adequação aos fatos que vão competir e se confrontar os paradigmas. Camargo Jr. Cours de linguistique générale). vem a ser paradigma? Paradigma — um conceito polissêmico A noção de paradigma é anterior à obra de Kuhn e já está presente na lingüística desde 1916 (Saussure. e no saber biomédico. empregados sem discussões. d. quando não impossível. Observa-se. Hottois (s. e Kisil (1994). o que. dois usos distintos do termo: um mais global e outro mais específico e preciso. já a comunicação entre diferentes comunidades é árdua. recentemente. definições e leis. por exemplo. onde não há mais lugar "para a pretensão de se banir ou subjugar a incerteza e a ignorância". contudo. já as definições têm de ser redefinidas. entre outros.php?script=sci_arttext&pid=S0104-59702000000400006 7/15 . diante dos problemas de grande complexidade da atual prática científica. retornemos ao autor que. Com a hegemonia de um paradigma. 228) sustentaram que.The paradigm of historical epistemology: Thomas Kuhn​ s contribution iniciação profissional similares. (1992). (1996). Saúde-Manguinhos .

por um lado. em particular o psiquiátrico. quanto de ruptura parcial e às vezes radical com o empreendimento científico anterior. Ora. como matriz disciplinar". Ciências. fundamentada em minuciosa pesquisa histórica. Curiosamente. as certezas das ‘amadurecidas’ ciências naturais. Fase paradigmática e ciência normal O paradigma inicial suplanta a fase pré-paradigmática. como o saber médicosanitário. 232) explicita justamente a tese contrária: "o paradigma enquanto exemplo compartilhado é o elemento central daquilo que atualmente me parece ser o aspecto mais novo e menos compreendido deste livro". no caso das pesquisas experimentais. uma das teses mais polêmicas da epistemologia kuhniana quando aplicada às ciências humanas. p. sendo um paradigma definido. faz-se necessário. p. por exemplo. 135-6. da ciência política e. tanto de acumulação. "A aquisição de um paradigma e do tipo de pesquisa mais esotérico que ele permite é um sinal de maturidade no desenvolvimento de qualquer campo científico que se queira considerar" (1996a. 222-32). O sociólogo português refuta essa tese referindo-se às novas possibilidades das relações entre natureza e sociedade. discutir a identificação entre fase pré-paradigmática e o conceito de ciência menos desenvolvida. p.br/scielo. a preferência dos pesquisadores das ciências naturais pelo conhecimento quantitativo e seu uso em predições. tais como os de simplicidade. caracterizada pela ‘aquisição de um paradigma’. p. se estas ressalvas não são suficientes. e. inicialmente. p.The paradigm of historical epistemology: Thomas Kuhn​ s contribution movendo-se ao acaso. momento menos desenvolvido das ciências em que diversas escolas competem sem que nenhuma obtenha o domínio. Tais soluções estão nos manuais. que eu. 35. geradores de estudos mais esotéricos. como um exemplar" (idem.scielo. aliás.php?script=sci_arttext&pid=S0104-59702000000400006 8/15 . — "exemplos compartilhados": são os de aplicação bem-sucedida na investigação. então. coerência interna e plausibilidade. das ‘menos desenvolvidas’ ciências humanas. que outros pesquisadores podem empregar. apud Kuhn. identifica diversas fases. pelo fato de não se caracterizarem pelo domínio de um único paradigma. concebido como "realização concreta. 237) se aprende fazendo ciência e não simplesmente adquirindo regras para fazê-la. biologia e. Kuhn (1996a. Prudentemente. característicos de ciências amadurecidas. menos desenvolvido) das ciências sociais. — valores amplamente compartilhados. este último sentido representa uma "conceituação inicial vaga (que) foi posteriormente aperfeiçoada. www. com suas regras de justificação. como na obra de Prigogine e Stengers (1997). (1992. por outro. em que Kuhn (1996b.01/08/13 História. utiliza em sua ‘caixa de ferramentas’ os estudos da psicologia da percepção e da descoberta. p. especialmente por parte daqueles interessados no desenvolvimento das ciências sociais contemporâneas". p. O paradigma como exemplo compartilhado — algo que se aprende a fazer fazendo —. Fases do desenvolvimento científico: acumulação e rupturas A análise kuhniana do desenvolvimento científico. em especial. Para analisarmos o conceito de ciência normal. tenha de ser abandonada ou profundamente revista". da história dialética não-positivista. física —. para um estudioso como Camargo Jr. ibidem. que vem questionando competentemente. deixando em aberto a questão dos possíveis paradigmas das ciências sociais. é o sentido do conceito privilegiado em áreas do conhecimento aplicado. direcionou sua análise para o desenvolvimento das ciências naturais — química. logo atraso em relação às ciências naturais. 255). com investigação cada vez mais esotérica. mas com divergências na aplicação. reconhece. Para autores como Santos (1989. 1996b. Saúde-Manguinhos . como. Cita como referência desse aperfeiçoamento o posfácio de 1969. Esse "conhecimento tácito" (Polanyi. que utilizou os conceitos de Kuhn para discutir a clínica médica. por analogia. no entanto. ou seja. 31). é o sentido preciso do conceito de paradigma. a tradição normativa na filosofia da ciência. valores compartilhados. pp. 5). subscrevi e reformulei noutros escritos. nas publicações e nos laboratórios. que a transição do período pré para o pós-paradigmático "merece discussão mais ampla do que a recebida neste livro. pp. e afirma. podemos lembrar que estudo do próprio Kuhn serve de marco para um novo paradigma epistemológico. 1987. ainda. principalmente. com veemência. Para tanto. da sociologia da comunidade científica. 43). 1996b. que "a concepção de Thomas Kuhn sobre o caráter préparadigmático (isto é. Kuhn atribui o caráter pré-paradigmático às ciências sociais.

atualmente é sob esse enfoque que seu modelo de análise tem sido utilizado nas ciências sociais. Outra característica da ciência normal é o acriticismo. podemos passar à fase de vigência de um paradigma. isto é. Pepe (1993. seus conceitos. acabar propiciando o aparecimento de novidades factuais e teóricas. 78) analisa separadamente o papel que as descobertas de fatos novos e a invenção de novas teorias cumprem nas mudanças de paradigmas científicos. na verdade. baseada na solução de enigmas. 1996a." Deixando de lado a qualificação de ‘revolucionária’ atribuída pela autora à ciência daquele liberal convicto. embora a expressão ciência ‘poliparadigmática’ não faça sentido para Kuhn. tenaz e detalhada. Num artigo sintético para divulgação dos conceitos mais hodiernos da filosofia da ciência.scielo. Não é por acaso que o autor denominou o ensaio de ‘A estrutura das revoluções científicas’. produzido inadvertidamente por um jogo que se joga segundo regras estabelecidas pela matriz disciplinar: "A descoberta começa com a consciência da anomalia. Apenas um terço da análise tem a ver com a ciência normal e o paradigma tradicional. Saúde-Manguinhos . de alguma maneira. Lakatos (1989) e Feyerabend (1977) reconhecem as vantagens e a racionalidade dessa limitação de campo. que de outro modo seriam inimagináveis" (Kuhn. mas também é capaz de reconhecer que ‘algo saiu errado’. em que as práticas teóricas e experimentais — referidas quase exclusivamente às ciências naturais — são regidas por regras ou princípios e. Anomalias. freqüentemente mostram-se intolerantes com aquelas inventadas por outros" (Kuhn. sabendo com precisão o que deveria esperar. O uso desses ‘antolhos’ ou ‘óculos’ — a escolha da metáfora fica por conta do leitor — facilita um trabalho concentrado e persistente. . Ao concentrar dos cientistas a atenção numa faixa de problemas muito estrita ("esotéricos"). Kuhn (1996a. Os cientistas também não estão constantemente procurando inventar novas teorias. como faz Kuhn (1996a). crise paradigmática e revolução científica Como o paradigma dominante entra em crise? E o que acontece se a crise não é superada? Quais os processos implicados numa mudança de paradigma? Para se responder a estas questões é preciso entender o processo aparentemente paradoxal que é uma fase essencialmente cumulativa. o de ‘ciência normal’. p. A ciência normal apresenta duas características básicas: tenacidade e acriticismo (Epstein. apresentada pelo geneticista inglês Steve Jones (1996) num manual para iniciantes. e ainda para as revoluções científicas e seus paradigmas inovadores. em especial. mesmo tendendo a suprimi-las. constatamos que dois terços do ensaio de Kuhn estão voltados para as anomalias e crises que acompanham as descobertas e invenções de teorias. o paradigma os força a "investigar uma parcela da natureza com uma profundidade e de uma maneira tão detalhada. que podem www. isto é. seja pela descoberta de fatos. Feitas estas considerações sobre as ciências pré e pós-paradigmáticas. Ciências. a natureza violou as expectativas paradigmáticas que governam a ciência normal. 29-31) elaborou um conceito original para essa fase.01/08/13 História. ausência de questionamento dos princípios do paradigma. A percepção de uma anomalia é a capacidade invulgar de reconhecer um fenômeno não previsto pelo paradigma. é eficaz na geração de novidades. das ‘menos desenvolvidas’ ciências humanas. algo novo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-59702000000400006 9/15 . 1990). seja pela invenção de teorias inovadoras. 45). são orientadas por exemplos bem-sucedidos. p.br/scielo. Para compreender as descobertas. Kuhn (1996b. Anatomia de uma descoberta A narrativa de uma descoberta famosa.The paradigm of historical epistemology: Thomas Kuhn​ s contribution seja. diferente do esperado. Assis (1997) observa que. por contraditório que possa parecer. com o reconhecimento de que. 45).. A pesquisa normal. e para o qual o investigador não fora preparado." A novidade emerge para aquele que. p. pp. 2) e outros autores vêem na valorização da tenacidade e eficácia uma tomada de posição deste pela ciência normal: "Na verdade Kuhn se contrapõe à ciência ‘revolucionária’ de Popper quando prioriza a ciência ‘normal’. apesar de não ser um empreendimento dirigido para a descoberta de novidades. No desenvolvimento desse tipo de ciência prevalecem a não percepção de novos fenômenos e o desinteresse pela invenção de novas teorias: "A ciência normal não tem como objetivo trazer à tona novas espécies de fenômeno. p. o autor utiliza o conceito de ‘anomalia’.. como a ciência normal. não só sabe reconhecer o que procura. que define como o resultado experimental não assimilado pela teoria vigente. leis e teorias e também valores e crenças. permitindo a obtenção de soluções ‘em profundidade’. 1996a. ainda que este último autor não a considere sob o aspecto psicológico. Embora reconheça um certo artificialismo na dualidade entre fato e teoria. ilustra características do paradigma. aqueles que não se ajustam aos limites do paradigma freqüentemente nem são vistos.

usando raio X. Um bioquímico alemão. pp. As proteínas possuíam estrutura química mais complexa. As respostas à anomalia Apresentando-se as anomalias. 56. constatou-se que eram dois ácidos: o ribonucléico (RNA) e o desoxiribonucléico (DNA). o norte-americano Thomas Morgan. Em 1944.scielo. Trata-se da descoberta da estrutura do DNA e do código genético.) e do próprio Kuhn demonstram que a confiança dos cientistas no desenvolvimento científicotecnológico e. leis e teorias e também valores e crenças.br/scielo. 58). Ciências." A descoberta da estrutura do DNA deu início a uma revolução científica cujos subprodutos mais famosos são a ovelha Dolly e todas as polêmicas e implicações bioéticas que as clonagens e os transgênicos têm suscitado. Estudos como os de Prigogine (1996).php?script=sci_arttext&pid=S0104-59702000000400006 10/15 . p. diferentemente dos jovens ou dos recém-chegados à disciplina. Depois dos estudos revolucionários de Mendel sobre a hereditariedade. que podem impedir a percepção do novo por parte daqueles que. 60). Outros cientistas — entre os quais o químico Linus Pauling — já haviam observado o padrão de difração que se apresentava quando o raio X incidia sobre o DNA. d. Miescher. nenhum teve o insight . o ácido nucléico. mas. no início do século. descobriram que o ‘princípio transformista’ era um ácido nucléico. além de conter muitas proteínas. 1996. seus conceitos. Tal compreensão intuitiva ocorreu a dois cientistas: o jovem biólogo norteamericano James Watson (1928). em 1953. De repente. estão completamente aderidos à matriz disciplinar. continha os ácidos nucléicos. onde se reproduziam milhares de vírus idênticos ao invasor. p. sem conseguir ‘perceber’ a estrutura do DNA: sua ‘visão’ estava por demais comprometida com o paradigma que a tornou tão renomada em cristalografia. "viram que a melhor explicação para os padrões que emergiam dos raios X era uma ‘dupla hélice’ — uma estrutura um pouco como uma escada em espiral".01/08/13 História. Utilizando cálculos matemáticos avançados. já havia descoberto um ácido no núcleo das células. a presunção de terem obtido a verdade definitiva e universal devem-se a esse procedimento de elidir as anomalias. Tais avanços e os que a eles se seguiram são fruto da tenacidade da ciência normal decorrente da descoberta de Mendel. a cristalógrafa Rosalind Franklin utilizava raios X para fazer a análise das moléculas biológicas. "Um paradigma pode até mesmo afastar uma comunidade daqueles problemas sociais relevantes que não são redutíveis à forma de ‘quebra-cabeça’" (Kuhn. ignorá-las simplesmente. Uma das finalidades de um paradigma é oferecer critérios para a escolha de problemas. Morin (s. 114-5).The paradigm of historical epistemology: Thomas Kuhn​ s contribution paradigma. 1996a. portanto. mas o DNA só no núcleo. pp. Eles também empregaram métodos desenvolvidos pelos físicos para o estudo de cristais na análise de moléculas biológicas e observaram o padrão de difração provocado pela incidência dos raios X sobre o DNA (idem. quais seriam as possíveis respostas? A primeira seria. Estudos posteriores mostraram que o RNA existia no núcleo e no citoplasma. já de início. aos 22 anos. com número de blocos químicos muito maior do que os ácidos nucléicos. a bioética (Schramm. verificou-se que os vírus também tinham DNA. 1996. como Rosalind. 1996). Esse ácido era a única substância que os vírus bacteriófagos introduziam nas bactérias hospedeiras. Estes continham apenas quatro blocos de aminoácidos muito semelhantes e. "os ácidos nucléicos foram postos de parte como sendo a ‘substância incômoda’" (Jones. trabalhando com bactérias. em alguns casos. concluiu que o ‘princípio da hereditariedade’ deveria ser uma substância química. Posteriormente. em 1953. 54. A questão consistia em saber onde estavam as partículas hereditárias. Muller. tudo começou a se ajustar e. afastar tudo que www. O texto de Jones nos dá também a oportunidade de ver como as categorias kuhnianas se aplicam à análise de uma descoberta revolucionária na área biomédica. p. em 1930. da mesma maneira como era deduzida a estrutura dos cristais. Um problema tipo quebra-cabeça é aquele cuja solução dependa tão-somente da habilidade do pesquisador. Presumia-se que ela estava no núcleo das células. Avery e colaboradores. com grandes implicações para a nova aliança entre filosofia e ciência. 1996. relacionou e localizou os genes nos cromossomos. Deu-se um nó na cabeça dos pesquisadores: como poderia uma substância tão simples copiar-se e transmitir a informação de uma geração para a seguinte? Na época. Em seguida. Confessaram mais tarde que faziam esses estudos de modo quase diletante (Jones. 48). o qual. admitiram com alguma presunção: "Não nos passou despercebido que o emparelhamento específico que postulávamos sugeria um possível mecanismo de cópia do material genético’. porém com um olhar não condicionado pelo paradigma da cristalografia. menos promissores para quem valorizava a quantidade e a dessemelhança. e seu aluno Surtevant iniciou a cartografia dos encadeamentos genéticos (Jones. deduziram a forma do DNA. Saúde-Manguinhos . Eis um exemplo de como os valores interferem na ciência. Ao anunciarem a descoberta num artigo publicado em Nature. Os estudos voltaram-se para as proteínas e. foi trabalhar na Inglaterra e logo se tornou parceiro do físico Francis Crick (1916). durante muitos anos. 56). que.

pois a pesquisa não mais se ajusta a uma situação de ciência normal e sim de pesquisa extraordinária (Kuhn. como a questão do tempo (ilusório ou real). de modo novo. ainda não comprometidos por longa convivência com o paradigma vigente — encaram o problema como contra-exemplo. métodos e aplicações. uma terceira possibilidade de resposta: se. Não é "o mau carpinteiro culpando sua ferramenta".. sua disposição para criar ou abraçar propostas inovadoras visando a solução das ‘charadas’ de sua área de estudo. cit. com o paradigma rearticulado teoricamente e renovado tecnologicamente. novos na área. que originalmente estava preocupado com questões meteorológicas. através dos procedimentos paradigmáticos.. vistos. p. da interferência do sujeito nos fenômenos investigados e outras incertezas que puseram em crise o paradigma tradicional. a construção do microscópio eletrônico etc. ocorrem geralmente diferentes situações: proliferação de teorias e pesquisas aleatórias muitas vezes conflitantes.php?script=sci_arttext&pid=S0104-59702000000400006 11/15 . É possível que o caráter poliparadigmático não seja específico às ciências humanas. o que acaba permitindo a emergência de novo paradigma. teorias. Nessa fase. resultante de um processo que Kuhn chamou de revolução científica. Outra característica da crise é a expressão de descontentamento de cientistas. os pesquisadores reconhecem que é chegado o momento de renovar seus instrumentos e teorias. A análise histórica mostra ainda que a crise de paradigmas não é necessariamente gerada pelo trabalho da comunidade que a experimenta: novas teorias e novos instrumentos podem ser desenvolvidos numa especialidade. afastar tudo que escapa às regras derivadas das matrizes disciplinares que orientam seus campos. Essa hegemonia implica um deslocamento da rede conceitual. p. como na primeira resposta. A tarefa de paradigmas emergentes nas ciências naturais contemporâneas tem sido enfrentar muitos dos problemas colocados entre parênteses. é uma reconstrução da área que altera conceitos. 122) propuseram o conceito de "ciência pósnormal" para "caracterizar a ultrapassagem de uma era em que a norma para a prática científica eficaz podia ser rotineira resolução de quebra-cabeça". ibidem. mas sua assimilação pode provocar crise em outra especialidade (idem. Exemplos disso são tanto a teoria atômica de Dalton. "uma nova forma de ver o mundo" (op. é famosa a analogia que Copérnico estabeleceu entre a herança recebida dos astrônomos anteriores e um artista que. a descoberta do raio X.. Ciências.br/scielo. a ciência encontra-se numa fase de ‘crise paradigmática’. pelo menos. alguns cientistas — em geral jovens ou. podemos utilizar conceitos políticos gramscianos para pensar a revolução científica como superação do paradigma ‘tradicional’ por um paradigma emergente que se torna ‘hegemônico’. os autores não utilizaram os conceitos de ‘paradigma’ emergente e inovador numa situação de crise. e de ‘pesquisa extraordinária’. científica! O conceito de revolução científica. produzindo um ‘monstro’. 1178). serve para "aqueles episódios de desenvolvimento não cumulativo. quando elas colocam em xeque as generalizações fundamentais do paradigma ou quando inibem as aplicações práticas. o empreendimento científico vive um processo de transição. acabou. portanto. p. Saúde-Manguinhos . conscientes de que sua "resistência" não se deve à inabilidade de quem investiga. À época da crise da astronomia ptolomaica. p. Funtowicz e Ravetz (1997. Com a persistência da crise. nos quais um paradigma mais antigo é total ou parcialmente substituído por um novo. quando cresce o número de anomalias não absorvidas pela pesquisa normal. passam a ignorá-lo.01/08/13 História. verdadeira explosão de descobertas e até a revalorização de fatos anteriores. Em síntese. no todo. tomado da ciência política por Kuhn (idem. que julgamos mais eficazes para dar conta da nova realidade. leis. Pois foi enfrentando esse ‘monstro’ que Copérnico elaborou a inovadora teoria heliocêntrica. pintando isoladamente partes perfeitas do corpo humano. Se o problema persiste depois desse esforço. Isso já não seria possível agora que lida com problemas de grande incerteza e com elevadas decisões em jogo.The paradigm of historical epistemology: Thomas Kuhn​ s contribution universal devem-se a esse procedimento de elidir as anomalias. 1996a. incompatível com o anterior". Fenômenos desse tipo enfraquecem as regras que presidem a resolução dos quebra-cabeças. adequando-se também às ciências aplicadas que necessitam de abordagens transdisciplinares para enfrentar objetos complexos. 126). 225). Entretanto. então. em geral.scielo. Entretanto. Há. Ou seja. persiste o fracasso nas tentativas de solução do problema como quebra-cabeça. Com a mesma liberdade. da complexidade dos fenômenos. recurso à análise filosófica com debates sobre os fundamentos teórico-metodológicos. quando o problema não é resolvido pelos melhores quadros da disciplina. como meio ambiente e saúde. E viva a revolução. www. pp. A segunda resposta possível à anomalia é a tentativa de equacioná-la como um quebra-cabeça.

Tomando como exemplo a revolução copernicana. linear e cumulativo da ciência. d. manuais e obras de divulgação. viragem ou revolução científica. embora suas transformações costumem ser apresentadas nos tratados. operando assim nela uma ‘revolução’ completa. e assim por diante. os resultados pedagógicos na demonstração dedutiva de certas conseqüências relativistas não tiram nada do "caráter genial e inesperado da revolução einsteiniana". desde longo tempo. assim se manifestou: Embora esteja profundamente convencido da verdade das opiniões que em breves palavras expus no presente volume. que poderão estudar imparcialmente as duas facetas da questão." . de que a ciência física moderna é.. Darwin (1987. mas na própria filosofia: "A tarefa desta crítica da razão especulativa consiste neste ensaio de ‘alterar o método que a metafísica até agora seguiu’.. por exemplo. 11). o oxigênio ou o DNA. Os depoimentos dos próprios cientistas fornecem as melhores evidências a respeito das descontinuidades. expressão e fruto. se não "a mais profunda revolução" do pensamento humano depois da descoberta do cosmo pelo pensamento grego: "uma revolução que implica uma ‘mutação’ intelectual radical". O autor ilustra isso com vários exemplos. 14). mas eles são necessariamente redefinidos. o espaço não é mais plano. ruptura epistemológica. a dificuldade e. www.php?script=sci_arttext&pid=S0104-59702000000400006 12/15 . Uma das mais interessantes teses kuhnianas. segundo o exemplo dos geômetras e dos físicos. é curvo. o mais instigante dos quais é a transição da mecânica newtoniana para a einsteiniana. Há ainda. que só encontram paralelo nas revoluções copernicana e galileana. que estudara detalhadamente em 1957.scielo. cremos que esta doutrina estende positivamente nossa concepção do real e que é uma conquista da nova razão sobre o irracionalismo. demonstrou que as observações dos patologistas eram guiadas pelas idéias que tinham acerca da doença que estudavam.. a impossibilidade de comunicação entre diferentes paradigmas. mudava também o que era visto numa dissecação ou no microscópio. de modo linear. Saúde-Manguinhos . não espero convencer alguns naturalistas. historiadores e filósofos da ciência recusaram a visão idealista do avanço progressivo. mas que. move-se agora. muitas vezes. que diz o seguinte a respeito da obra de Galileu: O nome de Galileo Galilei encontra-se indissoluvelmente ligado à "revolução científica" do século XVI." A revolução científica não é aceita pacificamente. Um de seus membros mais importantes. a doutrina dos ‘quanta’ é de essência aberrrante e esta aritmetização do possível não está longe de ser tida por irracional. ao mesmo tempo. os cientistas vêem também coisas familiares de outro modo: a Terra não é mais fixa. os desenhos das ‘imagens patológicas típicas’ num determinado período não são percebidos como úteis algum tempo depois" (apud Löwy. 369). p. muito experimentados sem dúvida. p.. portanto. Zygmunt Kramsztyk. após Copérnico. porém tenho mais confiança no futuro dos novos naturalistas. Seja com a denominação de mudança de estilo de pensamento. "Por isso.01/08/13 História. Ao contrário. 177-8) que. do filósofo Gaston Bachelard (1978. aliás uma de suas dívidas com Fleck e a filosofia médica polonesa. os astrônomos passaram a viver em um mundo diferente. já mencionado como precursor da idéia de revolução como descontinuidade não só na ciência. que enfrentou resistências por causa das implicações religiosas de suas idéias. é a da incomensurabilidade dos paradigmas. Termos do paradigma tradicional podem ser conservados. 1994.. Outro exemplo é o historiador da ciência e epistemólogo Alexandre Koyré (s. isto é. mudando os conceitos. estão habituados a ver um conjunto de fatos sob ponto de vista diretamente oposto ao meu . p. É o caso. em Fleck (1986) e na escola polonesa de filosofia da medicina. em 1934. e que. pp. 152) explorou as conseqüências dessa idéia de uma nova forma de ver determinada por novos pressupostos do observador. como se o ‘progresso’ histórico fosse construído "tijolo por tijolo num desenho lógico". A idéia de deslocamento conceitual tem sua origem. A idéia de descontinuidade na história das ciências é. é claro.br/scielo. 23). p.The paradigm of historical epistemology: Thomas Kuhn​ s contribution 137). uma das mais profundas. "Essa crise é portanto uma crise de crença normal. p." Além de ‘ver’ coisas novas como o raio X. escreveu: Para Meyerson. provavelmente. muito anterior ao pensamento de Kuhn. Immanuel Kant (1997. diz: "A própria facilidade e rapidez com que os astrônomos viam novas coisas ao olhar para objetos antigos com velhos instrumentos pode fazer com que nos sintamos tentados a afirmar que. Kuhn (1996a. Ciências.

). M.4. "as ciências experimentariam muito poucas revoluções de importância" (idem. A vital rationalist. Os Pensadores. Série Estudos em Saúde Coletiva. [ Links ] Bachelard. mas insuficientes para determinar a aceitação do novo paradigma. Kyklos. M.).. quando é proposto inicialmente.1997 ‘Filosofia da ciência’. Paris. 13. II. Rio de Janeiro. Folha de S. Alianza Editorial. mas porque seus oponentes finalmente morrem e uma nova geração cresce familiarizada com ela" (apud Kuhn. 1992 ‘Paradigmas. São Paulo.The paradigm of historical epistemology: Thomas Kuhn​ s contribution Não é menos sincera e amarga a seguinte observação de Max Planck na Autobiografia científica de 1949: "uma nova verdade científica não triunfa convencendo seus oponentes e fazendo com que vejam a luz. [ Links ] Epstein. 145-57. 268-94. no 6. 1978 ‘O novo espírito científico’. 191). inadequado para dar conta das dificuldades encontradas pela medicina clínica. Não obstante o historiador da medicina Karl Rothschuh. [ Links ] Canguilhem. P. L. 1997 ‘Em tempo de novas tecnologias: velhos e novos desafios’. Para não concluir A ‘crise paradigmática’ mereceu destaque nesta análise.br/scielo. p. Se ele tivesse de ser julgado desde o início pelos resultados que oferece.103-29. o reencantamento do mundo em toda sua complexidade. [ Links ] Chauí. no 22. pp. www. Rio de Janeiro.. Graal. e com contornos próprios.. vols. 12a ed. M. Os defensores do paradigma tradicional podem sempre apontar problemas que o novo paradigma não resolveu. Ciências. [ Links ] Darwin. no 72. julgamos que nos proporciona importantes ferramentas para fazer avançar o estado atual da arte. J. 1994 Convite à filosofia. Em A. [ Links ] [ Links ] [ Links ] Fleck. 1994 ‘A medical revolution’. A capacidade de resolução de problemas. Mais!. Instituto de Medicina Social/UERJ. I. como é o caso da saúde pública. 1987 A origem das espécies. [ Links ] Feyerabend. citado e avalizado por Canguilhem (1994. 1997 História da sexualidade. por ser um processo que atravessa não só as ciências sociais. Zone Books. Gallimard. mas as próprias ciências naturais. de reflexão mais precisa e de predição de fenômenos antes insuspeitados são fatores muito importantes. p. Nova York. K. Campinas. 8. Ediouro. 1977 Contra o método. ibidem. saúde mental. A. III. Foucault. Francisco Alves. Epistemologia: a cientificidade em questão. Abril Cultural. p. L. 198). G. Este. [ Links ] Camargo Jr. e a maioria das soluções está longe de ser perfeita. Rio de Janeiro.scielo. São Paulo. Madri. pp. pelo reconhecimento de que vivemos uma ‘era de incertezas’. devido à complexidade e variedade do seu próprio objeto". medicina e psiquiatria. I. em geral não resolve mais que alguns problemas. 1986 La génesis y el desarrollo de un hecho científico. cujas práticas baseiam-se tanto nas ciências naturais quanto nas sociais. cujos alicerces vêm sendo abalados pelas descobertas e invenções contemporâneas. pp. pp. 14-20. [ Links ] Coats. . 1990 ‘Thomas Kuhn: a cientificidade entendida como vigência de um paradigma’. Proposta.php?script=sci_arttext&pid=S0104-59702000000400006 [ Links ] 13/15 . C. 155). [ Links ] Carleial. Foucault. pp. ciência e saber médico’. em primeiro lugar. embora útil para compreender a incorporação dos avanços das ciências básicas. Ática. Delaporte (org. Depoimentos como esses deixam claro que a substituição do paradigma tradicional pelo inovador não é um processo sem enfrentamentos e oposições. Rio de Janeiro. Papirus. R. A situação de crise e possível transição paradigmática apresenta-se de modo mais agudo. Oliva (org. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Assis. 1969 ‘Is there a structure of scientific revolutions in economics?’. P. 1969 L’archéologie du savoir . Saúde-Manguinhos .01/08/13 História. G. 89-179.. uma ‘nova aliança’. Paulo. nas áreas de conhecimento aplicado. p. considerar "o quadro teórico de Kuhn. Em F.

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Vera Lúcia Formigli do Departamento de Medicina Preventiva (Famed-UFBA) pela revisão cuidadosa do texto. (mimeo. Brasil.br/scielo.br www.fiocruz.The paradigm of historical epistemology: Thomas Kuhn​ s contribution Física/USP.01/08/13 História. como também à profa.php?script=sci_arttext&pid=S0104-59702000000400006 15/15 .scielo. Aprovado para publicação em março de 1999. except where otherwise noted.) [ Links ] Recebido para publicação em junho de 1998. Saúde-Manguinhos . 4365 . 27p. Ciências. All the contents of this journal. Agradeço aos professores e filósofos Fermin Roland Schramm (Fiocruz) e José Romélio Aquino (UFBA) pelas críticas e sugestões./Fax: (55 21) 3865-2208/2195/2196 hscience@coc.Prédio do Relógio 21040-900 Rio de Janeiro RJ Brazil Tel. is licensed under a Creative Commons Attribution License Casa de Oswaldo Cruz Av.

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