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A teoria de tudo David Deutsch Universidade de Oxford Tradução de Desidério Murcho Lembro-me de me ser dito, quando era criança

, que em tempos idos era ainda possível a uma pessoa de muita instrução saber tudo o que se sabia. Foi-me igualmente dito que hoje em dia sabe-se tanto que não era concebível que alguém soubesse mais do que uma diminuta fracção disso, ainda que numa vida longa. A última proposição surpreendeu-me e fez-me ficar desapontado. Na verdade, recusei-me a acreditar nisso. Não sabia como justificar a minha descrença. Mas sabia que não queria que as coisas fossem dessa maneira, e invejei os estudiosos de outros tempos.

Não que eu quisesse memorizar todos os factos que estavam arrolados nas enciclopédias do mundo: pelo contrário, odiava memorizar factos. Não era esse o sentido em que eu tinha a expectativa de que fosse possível saber tudo o que se sabia. Não teria ficado desapontado se me dissessem que surgem mais publicações por dia do que uma pessoa pode ler numa vida inteira, ou que há 600 mil espécies conhecidas de baratas. Não tinha qualquer intenção de registar a queda de todo o pardal. Nem imaginava que um estudioso antigo que supostamente sabia tudo o que se sabia teria de saber todas as coisas desse género. O que eu tinha em mente era uma ideia mais criteriosa do que se deve considerar que é ser conhecido. Por “conhecido” eu queria dizer compreendido.

A ideia de que uma pessoa possa compreender tudo o que se compreende pode ainda parecer fantasiosa, mas é claramente menos fantasiosa do que a ideia de que uma pessoa poderia memorizar todos os factos conhecidos. Por exemplo, ninguém poderia memorizar todos os dados observacionais, ainda que de uma área tão reduzida como a do movimento dos planetas, mas muitos astrónomos compreendem esse fenómeno exaustivamente. Isto é possível porque compreender não depende de saber muitos factos, mas antes de ter os conceitos, explicações e teorias correctos. Uma teoria comparativamente simples e abrangente pode abarcar uma infinidade de factos indigestos. A nossa melhor teoria do movimento dos planetas é a teoria geral da relatividade de Einstein, que no início do séc. XX suplantou as teorias da gravidade e do movimento de Newton. Prevê correctamente, em princípio, não apenas todos os movimentos planetários mas também outros efeitos da gravidade até aos limites da exactidão das nossas melhores medições. Quando uma teoria prevê algo “em princípio” isso significa que as previsões se seguem logicamente da teoria, ainda que na prática a quantidade de computação que seria necessária para gerar algumas das previsões é tão elevada que não é tecnologicamente exequível, ou até tão elevada que é fisicamente impossível levá-la a cabo no universo conhecido.

Ser capaz de prever coisas ou de as descrever, por mais rigorosamente que seja, não é de modo algum o mesmo que compreendê-las. As previsões e descrições na física são muitas vezes expressas em fórmulas matemáticas. Suponha-se que memorizo a fórmula com base na qual poderia, se tivesse tempo e vontade para tal, calcular qualquer posição planetária que tenha sido registada nos arquivos astronómicos. Que ganhei exactamente com isso, em comparação com a memorização directa desses arquivos? A fórmula é mais fácil de recordar — mas encontrar um número nos arquivos pode ser ainda mais fácil do que calculá-lo a partir da fórmula. A verdadeira vantagem da fórmula é que pode ser usada num número infinito de casos para lá dos registos do arquivo, para prever, por exemplo, os resultados de observações futuras. Pode também dar-nos as posições históricas dos planetas com mais rigor, porque os registos arquivados contêm erros de observação. Contudo, apesar de a fórmula resumir um número infinitamente maior de factos do que os arquivos, conhecê-la não é o mesmo que compreender o movimento dos planetas. Os factos não podem ser conhecidos resumindo-os apenas numa fórmula, tal como também o não são se fizermos uma lista deles num papel ou se os memorizarmos. Só explicando-os podemos compreendê-los. Felizmente, as nossas melhores teorias incorporam explicações profundas, assim como previsões rigorosas. Por exemplo, a teoria geral da relatividade explica a gravidade em termos de uma nova geometria tetradimensional do espaço e do tempo curvos. Explica precisamente como esta geometria afecta e é afectada pela matéria. A explicação é a totalidade do conteúdo da teoria; as previsões sobre o movimento dos planetas são apenas algumas das consequências que podemos deduzir da explicação.

O que torna a teoria da relatividade tão importante não é o facto de poder prever o movimento dos planetas um tudo-nada mais rigorosamente do que a teoria de Newton, mas antes o facto de revelar e explicar aspectos antes insuspeitos da realidade, tal como a curvatura do espaço e do tempo. Isto é típico da explicação científica. As teorias científicas explicam os objectos e fenómenos da nossa experiência em termos de uma realidade subjacente de que não temos experiência directa. Mas a capacidade de uma teoria para explicar aquilo de que temos experiência não é o seu atributo de maior valor. O seu atributo de maior valor é que explica a estrutura da própria realidade. Como veremos, um dos atributos mais valiosos, significativos e também úteis do pensamento humano em geral é a sua capacidade para revelar e explicar a estrutura da realidade.

Contudo, alguns filósofos — e até alguns cientistas — desprezam o papel da explicação na ciência. Para eles, o propósito básico de uma teoria científica não é explicar coisa alguma, mas antes prever o resultado das experiências científicas: todo o seu conteúdo se reduz às suas fórmulas previsivas. Consideram que qualquer explicação consistente que uma teoria possa fornecer das suas previsões é tão boa quanto qualquer outra — ou tão boa quanto nenhuma — desde que as previsões sejam verdadeiras. Chama-se instrumentalismo a esta perspectiva (porque afirma que uma teoria não é mais do que um “instrumento” para fazer previsões). Para os instrumentalistas, a ideia de que a ciência pode permitir-nos compreender a realidade subjacente que dá conta das nossas observações é uma falácia e uma arrogância. Não vêem

Se lhe déssemos os planos de uma nave espacial e os pormenores de um voo experimental. estava numa veia instrumentalista quando fez o seguinte comentário extraordinário sobre a explicação de Einstein da gravidade: “O que importa é ser capaz de fazer previsões com respeito às imagens das placas fotográficas dos astrónomos.. tendo-nos dado um “oráculo” de ultra-tecnologia de ponta que conseguia prever o resultado de qualquer experiência científica possível. em particular. na prática? Num certo sentido. não poderia dizer-nos como prevenir tal explosão. temos primeiro de saber acerca de que experiência científica o vamos interrogar. laureado com o prémio Nobel. e de termos pensado numa experiência científica para a . cuja motivação para formular e estudar teorias não é senão o desejo de compreender melhor o mundo. 147) Weinberg e os outros instrumentalistas estão enganados. Mas como nos ajudaria isso exactamente a construi-la.” (Gravitation and Cosmology. de todo em todo. antes de podermos sequer começar a melhorar os planos da nave. como a nave devia funcionar. poderia dizer-nos qual seria o desempenho da nave em tal voo. imagine-se que um cientista extraterrestre tinha visitado a Terra. digamos. de novo. Se isto parece surpreendente. na verdade. a descobrir. Só então teríamos alguma hipótese de descobrir o que poderia causar a explosão na descolagem. Aquilo a que atribuímos as imagens das placas fotográficas dos astrónomos é relevante. sendo pura e simplesmente irrelevante se atribuímos tais previsões aos efeitos físicos dos campos gravíticos no movimento dos planetas e aos fotões [como na física de pré-einsteiniana] ou a uma curvatura do espaço e do tempo. O físico Steven Weinberg. o imperativo de prever imagens e linhas do espectro!) Pois mesmo em aplicações puramente práticas o poder explicativo de uma teoria é crucial. entre outras coisas. Só depois de termos uma teoria. excepto para nos divertirmos. p. De modo semelhante. Mas será isto verdadeiro? Como seria o oráculo usado. mas sem fornecer quaisquer explicações. teria em si o conhecimento necessário para construir. uma nave interestelar. e não apenas para físicos teóricos como eu. são encaradas como meros adereços psicológicos: uma espécie de ficção que incorporamos nas teorias para as memorizarmos melhor e para que sejam mais divertidas. Logo. (Certamente que é também esta a motivação de Weinberg: o que o motiva não é. mal tivéssemos tal oráculo. as teorias científicas não serviriam para coisa alguma. E mesmo que previsse que a nave que tínhamos concebido iria explodir na descolagem. A previsão — mesmo que seja perfeita e universal — não substitui pura e simplesmente a explicação.como uma teoria possa dizer algo que ultrapasse a previsão de resultados de experiências científicas e que não seja senão palavras vácuas. às frequências das linhas do espectro. E antes de o podermos descobrir. teríamos de compreender. para o usarmos. etc. ou a construir outro oráculo do mesmo género — ou até uma ratoeira melhor? O oráculo prevê apenas os resultados de experiências científicas. Isso teríamos de ser nós. As explicações. Segundo os instrumentalistas. sendo o seu poder previsivo apenas complementar. Mas não poderia começar por conceber por nós tal nave. na investigação científica o oráculo não nos forneceria qualquer teoria nova.

Por exemplo. se fizermos a experiência). Poupar-nos-ia a despesa de ter laboratórios e aceleradores de partículas. de que amanhã estará um dia ventoso se baseie na expectativa de uma área próxima de altas-pressões ou num furacão mais distante. precisamente como agora temos de fazer: nomeadamente. Na prática. nomeadamente o mundo físico. Na prática. de todo. Assim. etc. em muitos casos a especificação seria demasiado complexa para ser introduzida no oráculo. feita hoje. . Não substituiria sequer toda experimentação. concebendo teorias explicativas. Mas não nos fornece explicações. Em algumas. o oráculo teria as mesmas vantagens e desvantagens gerais que tem qualquer outra fonte de dados experimentais. As explicações permitem-nos ajuizar quão fidedigna é uma previsão e deduzir mais previsões relevantes para o lugar onde nos encontramos e para as nossas necessidades. na previsão do tempo — podemos ficar quase tão satisfeitos com um oráculo puramente previsivo como com uma teoria explicativa. as previsões do tempo são incompletas e imperfeitas. poucas. Nessa linguagem. aplicações — por exemplo. Assim. e de arriscar a vida dos pilotos experimentais. Por outras palavras: já existe um oráculo desses. Os próprios meteorologistas precisam também de teorias explicativas sobre o tempo para poderem conjecturar que aproximações é seguro incorporar nas simulações computadorizadas do tempo. Este diz-nos o resultado de qualquer experiência científica possível. apesar de em alguns casos não ser prático que “introduzamos” do modo exigido uma descrição da experiência (isto é. mas a sua utilidade dependeria sempre da capacidade das pessoas para resolver problemas científicos. O oráculo seria muito útil em muitas situações. faz muita diferença para mim que a previsão do tempo. perguntar ao oráculo o que aconteceria se a teoria fosse sujeita a tal teste. poderíamos fazer todos os testes em terra. e em compensação incluem explicações de como os meteorologistas chegaram às suas previsões. que construamos e operemos o equipamento). Mas mesmo nesses casos isso seria estritamente assim apenas se o oráculo da previsão do tempo fosse completo e perfeito. que observações adicionais permitiriam que a previsão fosse mais precisa e mais oportuna. Eu tomaria maiores precauções no segundo caso. por comparação com a realização da experiência na realidade. e só seria útil nos casos em que consultá-lo fosse por acaso mais conveniente do que usar outras fontes.testar. numa linguagem normalizada. o oráculo teria de ter algum “interface do utilizador”. poderíamos. Afinal. com os pilotos sentados em simuladores de voo cujo comportamento seria controlado pelas previsões do oráculo. porque a sua capacidade para prever o resultado de uma experiência científica particular dependeria na prática de quão fácil seria descrever o experimento com precisão suficiente para que o oráculo desse uma resposta útil. se fizermos a pergunta na linguagem certa (isto é. o oráculo não estaria de modo algum a substituir teorias: estaria a substituir experiências científicas. Talvez tivéssemos de introduzir uma descrição da experiência. Em vez de construirmos protótipos de naves espaciais. algumas experiências científicas seriam mais difíceis de especificar do que outras.

considere-se a teoria de que comer um quilograma de relva cura a constipação comum. Presumimos. chamada positivismo (ou positivismo lógico). faz parte do método característico da ciência. Rejeitamo-las sem nos darmos ao incómodo de as testarmos. nomeadamente uma teoria científica sem conteúdo explicativo. Assim. O que testamos são novas teorias que prometem explicar as coisas melhor do que as que já temos. Passar testes experimentais é apenas uma das muitas coisas que uma teoria tem de fazer para alcançar o verdadeiro propósito da ciência. as explicações são inevitavelmente formuladas em termos de coisas que não observamos directamente: átomos e forças. Esta teoria faz previsões experimentalmente testáveis: se as pessoas experimentassem a cura da relva e descobrissem que não era eficaz. que é falsa. o . o ideal do instrumentalista epitomado no nosso oráculo imaginário. e não porque fracassam nos testes experimentais. o interior das estrelas e a rotação das galáxias.Assim. as ideias instrumentalistas e positivistas ainda têm aceitação. Uma razão da sua plausibilidade superficial é que. Há sempre um número infinito de teorias deste género. ter-se-ia provado que a teoria era falsa. o resultado de um teste experimental crucial para decidir entre duas teorias depende efectivamente das previsões da teoria. Esta é a fonte da concepção errada de que nada mais há numa teoria científica a não ser as suas previsões. Dizer que a previsão é o propósito de uma teoria científica é confundir os meios com os fins. teria uma utilidade severamente limitada. Mas nunca foi testada e provavelmente nunca será. queimar combustível é apenas uma das muitas coisas que uma nave espacial tem de fazer para cumprir o seu verdadeiro propósito. sustenta que todas as afirmações para lá das que descrevem ou prevêem observações são não apenas supérfluas mas destituídas de sentido. foi mesmo assim a teoria prevalecente do conhecimento científico ao longo da primeira metade do séc. É como dizer que o propósito de uma nave espacial é queimar combustível. O método científico envolve postular uma nova teoria para explicar uma dada classe de fenómenos. XX! Mesmo hoje. de modo que nunca poderíamos ter tempo nem os recursos para as testar todas. porque não contém qualquer explicação — seja de como funcionaria a cura. que é explicar o mundo. Uma forma extrema de instrumentalismo. segundo o seu próprio critério. apesar de a previsão não ser o propósito da ciência. Devemos estar gratos pelo facto de as teorias científicas propriamente ditas não se parecem com tal ideal. e não directamente das suas explicações. Na verdade. e que os cientistas na verdade não trabalhem em prol desse ideal. com razão. Por exemplo. A esmagadora maioria das teorias são rejeitadas porque contêm más explicações. que é transportar a sua carga de um ponto no espaço para outro. ou de qualquer outra coisa. compatíveis com observações existentes e que fazem novas previsões. Apesar de esta doutrina ser em si destituída de sentido. Como afirmei. fazendo depois um teste experimental crucial. uma experiência científica em relação à qual a velha teoria prevê um resultado observável e a nova teoria prevê outro. Nós rejeitamos então a teoria cujas previsões se revelam falsas. Mas os testes experimentais não é de modo algum o único processo envolvido no crescimento do conhecimento científico.

teremos de acrescentar outra teoria à lista que qualquer pessoa que queira compreender essa área tem de aprender. Confrontado com este menu vasto e em rápido crescimento das teorias coligidas do género humano. isso não é certamente possível agora. que não tenha sido violada). termodinâmica. previsível. surge a especialização. A física. em princípio. e muitas estão já a fragmentar-se em subespecializações. Quanto mais profunda é uma explicação. mais remotas. a explicação é um género estranho de comida — uma porção maior não é necessariamente mais difícil de engolir. como talvez já tenha sido possível. então poderemos explicar por que razão é impossível prever os números. pelo menos em princípio. Uma vez mais. Porque a compreensão tem origem em teorias explicativas. à medida que o nosso conhecimento cresce. e está a tornar-se cada vez menos possível. por exemplo. Mas muitas coisas intrinsecamente imprevisíveis podem também ser explicadas e compreendidas. mas também o número e complexidade das teorias por meio das quais compreendemos o mundo. dividiu-se nas ciências da astrofísica. a maior parte das pessoas diria — e isto era o que na verdade me diziam na ocasião que recordei da minha infância — que não são apenas os factos registados que têm aumentado a um ritmo impressionante. Cada uma delas baseia-se num enquadramento teórico pelo menos tão rico quanto a totalidade da física era há cem anos. e não o mero conhecimento (ou descrição ou previsão). Mas estas entidades não são ficcionais: pelo contrário. são as entidades a que tem de se referir. então uma explicação suficientemente completa tem. em princípio. saber apenas que a roleta é íntegra não é o mesmo que compreender o que a torna íntegra. e entre outras coisas. e que quando o número de tais teorias em qualquer área se torna muito elevado. física das partículas. quanto mais saborear todas as receitas conhecidas. É a compreensão. e muitas outras. se algo é.passado e o futuro. tenha ou não alguma vez sido possível a uma só pessoa compreender tudo o que se compreendia no seu tempo. a proliferação de factos registados não torna necessariamente mais difícil compreender tudo o se compreende. e devido à generalidade que tais teorias podem ter. fazem parte da própria estrutura da realidade. Contudo. Contudo. Na verdade. Consequentemente. mais somos empurrados para a era do especialista. relativamente à experiência imediata. ao que parece. e mais remoto fica essa hipotética era antiga em que a compreensão de uma só pessoa poderia ter abrangido tudo o que era compreendido. as leis da natureza. Poderá parecer que de cada vez que se descobre uma nova explicação ou técnica relevante numa dada área. não podemos prever que números sairão numa roleta íntegra (isto é. Quanto mais descobrimos. As explicações têm muitas vezes previsões como resultado. que estou a discutir. e mais irrevogavelmente. Mas se compreendermos o que na estrutura e operação da roleta a torna íntegra. não é de condenar que se duvide que um indivíduo possa provar sequer todos os pratos durante a sua vida. de fazer previsões completas quanto a isso. Uma teoria pode ser ultrapassada por . Por exemplo. dizem. teoria quântica de campos.

baseadas em canos de chumbo.) Ou uma nova teoria pode ser uma unificação de duas anteriores. se conjecturou que as suas técnicas de canalização. como quando a notação árabe (decimal) para números ultrapassou os numerais romanos. uma compreensão completa da sua matemática. Ao aprender os numerais romanos. por exemplo. de modo que os nossos registos dessas técnicas são meras afirmações factuais. (A teoria é neste caso implícita. caso em que a teoria anterior se torna redundante. Nesse caso.outra que explica mais coisas. teríamos de saber que técnicas eram essas se quiséssemos compreender a história. Foi isto que aconteceu quando a teoria de Nicolau Copérnico da Terra viajando em torno do Sol ultrapassou o complexo sistema Ptolemaico. de modo que o nosso conhecimento como um todo. e é mais precisa. que colocara a Terra no centro do universo. Tudo o que é . Cada notação torna certas operações. terá contribuído para o declínio do império romano). dando-nos mais compreensão do que usar estas lado a lado. Os métodos desajeitados que as pessoas usavam para calcular que XIX vezes XVII é igual a CCCXXIII não são já seriamente aplicados. Suponha-se que uma teoria histórica — uma explicação — dependia das técnicas específicas usadas pelos romanos da antiguidade para multiplicar (um pouco como. nunca tivesse ouvido falar dos numerais romanos teria já. e factos sobre as propriedades de certos símbolos arbitrariamente definidos. esse matemático não estaria a adquirir nova compreensão. mas são ainda certamente conhecidos e compreendidos algures — pelos historiadores da matemática. Uma questão diferente é saber se o conhecimento da aritmética dos numerais romanos será necessário para compreender a história. e ganhamos mais compreensão ao mesmo tempo que precisamos de aprender menos do que anteriormente. Quer isto dizer que não podemos compreender “tudo o que se compreende” sem conhecer os numerais romanos e a sua aritmética esotérica? Não. Mesmo os numerais romanos são ainda usados hoje em alguns casos. conceitos e linguagem que usamos para tentar compreender outras áreas. apesar de aumentar. mas antes novos factos apenas — factos históricos. em vez de novo conhecimento sobre os próprios números. explicações melhores em qualquer área tendem a melhorar as técnicas. Um matemático moderno que. as primeiras não são inteiramente esquecidas. pode tornarse estruturalmente mais susceptível de ser compreendido. contudo. Mais indirectamente. mas é também mais fácil de entender. e por isso incorpora uma teoria sobre quais são as relações entre números que são úteis ou interessantes. Ou uma teoria nova pode ser uma simplificação de uma já existente. e portanto também se quiséssemos compreender tudo o que se compreende. Seria como um zoólogo aprendendo a traduzir os nomes das espécies numa linguagem estrangeira. por exemplo. Certamente que ocorre muitas vezes que quando as teorias anteriores são desse modo subsumidas nas mais recentes. Acontece que na realidade nenhuma explicação da história se baseia em técnicas de multiplicação. por alguma razão. como ocorreu quando Michael Faraday e James Clerk Maxwell unificou as teorias da electricidade e do magnetismo numa só teoria do electromagnetismo. ou um astrofísico descobrindo que diferentes culturas agrupam de modo diferente as estrelas em constelações. afirmações e pensamentos sobre os números mais simples do que outras.

Mas agora a compreensão que costumava ser obtida desse modo não passa de uma pequeníssima faceta da compreensão muitíssimo mais profunda que faz parte das teorias matemáticas modernas. e não ao que apenas acontece que é. estamos decifrando um texto antigo que os mencione. Tais despromoções estão sempre a acontecer. da reprodução de um microorganismo (que tem tal informação nas suas moléculas de ADN) ao pensamento humano mais abstracto. Isto é. e não apenas ao que parece que são. Sabemos quando não compreendemos algo. evidentemente. dos computadores e de outras máquinas. Assim. Se o leitor fosse um matemático moderno que encontra numerais romanos pela primeira vez. por exemplo. juntamente com as conhecidas. o sistema romano de numerais fazia realmente parte de um quadro de referência conceptual e teórico. e implicitamente das notações modernas. em qualquer caso. ainda que nenhuma destas coisas seja também fácil de definir. Isto pode parecer paradoxal. Muitos outros sistemas físicos. o que distingue a compreensão do mero conhecer? O que é uma explicação. como uma descrição correcta ou uma previsão? Na prática. Isto ilustra outro atributo da compreensão. Podemos. informação que não é explicativa. sendo única.compreendido pode ser compreendido sem aprender esses factos. reconhecemos habitualmente a diferença muito facilmente. ainda que o possamos descrever e prever com precisão (por exemplo. e sabemos quando uma explicação nos ajuda a compreendê-lo melhor. Em traços largos. podem assimilar factos e agir com base neles. ou até sem ter ouvido especificamente falar disso. Originalmente. e todo o acto de compreender uma explicação. ao que as coisas realmente são. o percurso de uma doença conhecida de origem desconhecida). Mas de momento nada conhecemos que seja capaz de compreender uma explicação — ou sequer de querer uma explicação — a não ser a mente humana. tornando-a uma mera descrição de factos. em qualquer caso. mas é claro que o próprio objectivo das explicações profundas e gerais é abranger situações pouco conhecidas. dizem respeito ao modo de funcionamento interno das coisas. a compreensão é uma das funções superiores da mente e cérebro humanos. poderia não reconhecer instantaneamente que já os compreendia. por oposição à arbitrariedade e complexidade. depende da faculdade humana única do pensamento criativo. essencial para tudo. procurá-los quando. Mas é difícil dar uma definição precisa de “explicação” e “compreensão”. às leis da natureza e não apenas a aproximações empíricas. à medida que o nosso conhecimento cresce. ao que tem de ser. por meio do qual as pessoas que os usavam compreendiam o mundo. Ao traçar constantemente uma distinção entre a compreensão e o “mero” conhecer não quero desprezar a importância da informação registada. como é o caso dos cérebros dos animais. Dizem também respeito à coerência. Podemos considerar que o que aconteceu aos numerais romanos foi um processo em que se “despromoveu” uma teoria explicativa. Mas. Toda a descoberta de uma nova explicação. elegância e simplicidade. É possível compreender algo sem saber que o compreendemos. em contraste com uma mera afirmação factual. Teria de aprender primeiro os factos que dizem . dizem respeito ao “porquê” e não ao “como”.

O que quero dizer é que compreendo a teoria que contém todas essas explicações. seria capaz de dizer. e outras teorias que já eram conhecidas antes de os quasares terem sido descobertos. Pensava-se que seria necessária uma nova física para os explicar. pensando depois em tais factos à luz da sua compreensão prévia da matemática. são completamente obsoletos. E isso é o que significa dizer que os numerais romanos. em retrospectiva: “Sim. E dado que estas explicam mais do que aquilo de que estamos imediatamente cientes. nada vejo no movimento desse planeta. Só compreendemos a estrutura da realidade compreendendo teorias que a explicam. mas hoje pensamos que a teoria geral da relatividade. Mas usar uma teoria já existente para dar conta dos quasares exige pensamento criativo. Explicar os quasares. tanto observacional como teórica. não pensamos que esta seja uma compreensão que já tínhamos. os quasares — fontes extremamente brilhantes de radiação localizados no centro de algumas galáxias — foram durante muitos anos um dos mistérios da astrofísica. Agora que pensamos que ganhámos alguma compreensão dos quasares. para compreender tudo o que se compreende na . De modo semelhante. não estou a afirmar que posso invocar. sem qualquer pensamento ulterior. Por exemplo. a diferença tem algo a ver com a criatividade. e que poderia portanto apresentar qualquer uma delas. Depois de o fazer. a não ser meros factos”. na prática sabemos que estamos perante uma nova explicação quando esta nos é dada. apesar de poder ser muito complexa. dados alguns factos sobre um planeta particular.respeito ao que são eles. ainda que por meio de teorias já existentes. Não estou dizendo que quando compreendemos uma teoria se segue necessariamente que compreendemos tudo o que esta pode explicar. em retrospectiva: “Sim. eu deveria poder dizer. além de meros factos. Com uma teoria muito profunda. Pensamos que os quasares são constituídos por matéria quente que está caindo em buracos negros (estrelas que implodiram e cujo campo gravitacional é tão intenso que nada pode escapar delas). Tal como é difícil definir o que é uma explicação. Mas uma vez feito isto. quando digo que compreendo como a curvatura do espaço e do tempo afecta o movimento dos planetas. o reconhecimento de que explica um dado fenómeno pode em si ser uma descoberta significativa que exige uma explicação independente. É difícil definir. mesmo noutros sistemas solares. podemos compreender mais do que aquilo de que estamos imediatamente cientes que compreendemos. quanto ao seu papel explicativo. que não seja explicado pela teoria geral da relatividade”. e quando se deve considerar que está subsumida na teoria mais profunda. nada de novo há para mim no sistema romano dos numerais. Assim. é difícil definir quando uma explicação auxiliar deve contar como uma componente independente do que se compreende. Uma vez mais. mas menos difícil de reconhecer: tal como acontece com as explicações em geral. Contudo. Explicar o movimento de um planeta particular. quando já compreendemos a explicação geral da gravidade. os explicam. é uma tarefa mecânica. deu-nos uma compreensão genuinamente nova. para chegar a esta conclusão foram precisos anos de investigação. dos quais posso nunca ter ouvido falar. a explicação de todos os pormenores das voltas e desvios de qualquer órbita planetária.

teria contratado um mestre-de-obras. Podem também construir estruturas que ele dificilmente poderia ter sonhado. teorias. os seus colegas modernos podem construir melhor e com um esforço humano muitíssimo menor. ainda que fosse desgraçadamente inexacto em comparação com o que temos hoje. Pois ainda que as nossas teorias específicas se estejam tornando mais numerosas e pormenorizadas. pois não dispunha senão de uma compreensão escassa e inexacta de como os materiais funcionam. Ao admirar estruturas seculares. Mesmo assim. assim como a nossa reserva de factos registados. como fibra de vidro ou cimento armado. Seria devido ao conhecimento incluído nessas teorias que o leitor o teria contratado. Por “mais geral” quero dizer que cada uma delas nos diz mais sobre uma maior diversidade de situações do que anteriormente nos diziam várias teorias diferentes. E essas teorias estão sendo reduzidas em número. se o leitor quisesse construir uma grande estrutura. Isto acontecia em particular com estruturas inovadoras. que aprendera do seu mestre e que depois talvez tenha corrigido por meio de estimativas e muita experiência. Era tomado como certo que a inovação se arriscava a ser catastrófica. como fazemos hoje. como arranha-céus e estações espaciais. Podem usar materiais de que ele nunca ouviu falar. hábitos e aproximações empíricas. e estão ficando mais profundas e gerais. apoiava-se principalmente numa colecção complexa de intuições. . Hoje em dia. e continham genuíno conhecimento das áreas a que hoje chamamos engenharia e arquitectura. e de aplicação muito restrita. como uma ponte ou uma catedral. na verdade. Ele teria algum conhecimento do que é preciso para dar a uma estrutura força e estabilidade. isso não torna necessariamente a totalidade da estrutura mais difícil de compreender do que anteriormente. à medida que a compreensão que contêm é incorporada em teorias profundas e gerais. Não teria sido capaz de exprimir grande parte deste conhecimento na linguagem da matemática e da física. Assim. o leitor teria de conhecer a teoria dos quasares explicitamente. Em vez disso. estão continuamente a ser “despromovidas”. muitas vezes pouco tempo depois de terem sido construídas.astrofísica hoje. com o mínimo de despesa e esforço. é muito raro que uma estrutura — mesmo que seja muito diferente do que se construiu anteriormente — caia devido a uma concepção deficiente. em contraste. as pessoas esquecem-se muitas vezes que só vemos as que sobreviveram. e os construtores raramente se afastavam muito de estruturas e técnicas que tinham sido validadas pela longa tradição. estas intuições. Há vários séculos. explícitas e inexplícitas. e que ele dificilmente poderia ter usado ainda que de algum modo os pudesse ter. apesar de a nossa reserva de teorias conhecidas estar de facto a aumentar como uma bola de neve. Por “mais profunda” quero dizer que cada uma delas explica mais — inclui mais compreensão — do que a combinação das suas predecessoras. hábitos e aproximações empíricas eram. Mas não teria de conhecer a órbita de um planeta específico. Tudo o que um mestre-de-obras antigo poderia ter construído. A esmagadora maioria das estruturas construídas na idade média ou antes disso há muito que caíram.

como a força tênsil e a elasticidade do material. contudo. tanto explícito como implícito. Mas já nenhuma delas é a fonte da nossa compreensão do que faz as estruturas ficar de pé. É por isso que. lógica interna e conexões com outras áreas. podia dar respostas inequivocamente erradas quando era aplicada a situações novas. pelo menos temporariamente. é bastante evidente que a tendência de aprofundamento e unificação que tenho vindo a descrever não é a única que está em acção: um alargamento contínuo está a ocorrer ao mesmo tempo. simplificar ou unificar as existentes.O progresso que nos conduziu até ao nosso estado actual de conhecimento não foi alcançado acumulando mais teorias do mesmo tipo que o mestre-de-obras conhecia. um arquitecto moderno não precisa de uma formação mais longa ou árdua. Temos de descobrir esses factos. apesar de compreender incomparavelmente mais do que um mestre-de-obras antigo. mais coisas para aprender de modo a permitir-nos compreender tudo isso. Para descobrir a espessura apropriada de uma parede que será feita de um material pouco conhecido usamos a mesma teoria que aplicaríamos a qualquer outra parede. . Isto é. A razão pela qual é tão geral é que se baseia em explicações muito profundas de como os materiais e as estruturas funcionam. Como afirmei. O nosso conhecimento. Algumas ainda são usadas. nem os arados. sabemo-lo hoje. pois as especializações também desaparecem muitas vezes: as rodas não são já concebidas ou feitas por carpinteiros. novas especializações e até novas áreas. novos problemas. digamos. nem as cartas escritas pelos escrivães. mas não precisamos de compreensão adicional. Hoje. ao passo que outras sabemos que são verdadeiras. é claro. mas o número de teorias modernas é muito menor. mais gerais e profundas. como a beleza. e sabemos por que razão isso acontece. mas os cálculos começam com factos diferentes — começam com valores numéricos diferentes para os vários parâmetros. Alargam também a compreensão humana para áreas que previamente não compreendíamos — ou de cuja existência nem sequer desconfiávamos. incluindo a arquitectura. como é estruturalmente diferente. Uma teoria típica do currículo de um estudante moderno pode ser mais difícil de compreender do que qualquer uma das aproximações empíricas do mestre-de-obras. em todas as situações: na Lua. e o seu poder explicativo dá-lhes outras propriedades. quão espessa deveria ser uma parede estrutural — dispunha de uma intuição ou aproximação empírica bastante específica que. que as tornam mais fáceis de aprender. Podem abrir novas oportunidades. que a especialização esteja a ocorrer em muitas áreas em que o conhecimento está crescendo. Algumas das aproximações empíricas antigas estavam erradas. debaixo de água. as teorias modernas são menos numerosas. não só é muito maior do que o dele. ou boas aproximações à verdade. Contudo. Este não é um processo numa só direcção. Não estou a negar. ou seja onde for. E quando isso acontece pode dar-nos. deduzimos tais coisas de uma teoria que é suficientemente geral para que se possa aplicá-la a paredes de qualquer material. Para cada situação que o mestre-de-obras enfrentava quando construía algo do seu repertório — ao decidir. ideias novas fazem muitas vezes mais do que ultrapassar.

O que estou a discutir é a possibilidade de compreender tudo o que se compreende. e apesar disso nos aproximemos de um estado em que uma pessoa possa compreender tudo o que se compreende. e quando se descobre novas aproximações empíricas há realmente mais incentivo para a especialização. Certamente que muitas funções do corpo são ainda mal compreendidas. A abrangência torna-as mais difíceis. a profundidade. a questão de se estar tornando mais difícil ou fácil compreender tudo o que se compreende depende do equilíbrio geral entre estes dois efeitos opostos do crescimento do conhecimento: o crescimento da abrangência das nossas teorias. Mas poderão então aplicar uma teoria geral para estabelecer o tratamento correcto. Não acredito que estejamos perto. mas antes nos aproximando dele. Não que estejamos prestes a compreender tudo. Mas à medida que a investigação médica e bioquímica descobre explicações mais profundas dos processos das doenças (e da saúde) no corpo. Consequentemente. tal como os mecanismos de muitas doenças. Assim. Mas é claro que a estrutura do nosso conhecimento — se é ou não exprimível em teorias que se harmonizem num todo compreensível — depende efectivamente de como é a estrutura da realidade como um todo. o papel do especialista diminui. e ter a expectativa de que seja eficaz. está também presente. mais fáceis. juntamente com a perícia e intuição dos médicos que têm experiência em doenças e tratamentos particulares. por outras palavras. algumas áreas do conhecimento médico consistem ainda sobretudo em colecções de factos registados. Em vez disso. a profundidade está a ganhar terreno. Essa é uma questão inteiramente diferente. e está-se tornando mais forte. e as transmitem de uma geração para a seguinte. Grande parte da medicina. a compreensão está também em crescimento. unificadora. de modo a que possamos compreendê-la cada vez melhor à medida que . Quando se consegue compreender que uma doença se insere num enquadramento geral. a profundidade das nossas teorias tem de continuar a crescer de modo suficientemente rápido. devagar mas sem hesitações.A ciência da medicina é talvez o caso mais frequentemente citado da especialização crescente que parece seguir-se inevitavelmente do crescimento do conhecimento. e a sua maior profundidade. Conceitos mais gerais estão substituindo outros mais específicos à medida que se descobre mecanismos moleculares subjacentes comuns a doenças diferentes em diferentes partes do corpo. ou que alguma vez o viremos a estar. ainda que nunca tenha sido usado. Para que o conhecimento possa continuar o seu crescimento aberto. Isso só pode acontecer se a estrutura da realidade for em si muitíssimo unificada. Por outras palavras. Isso depende mais da estrutura do nosso conhecimento do que do seu conteúdo. à medida que se descobre novas curas e melhores tratamentos para mais doenças. está ainda na era da aproximação empírica. de compreender tudo o que há. Uma tese deste livro é que. os médicos que se deparem com uma doença pouco conhecida ou uma complicação rara. a proposição que me recusei a aceitar quando era criança é de facto falsa. Podem procurar os factos tal como são conhecidos. podem apoiar-se cada vez mais em teorias explicativas. Não nos estamos afastando de um estado em que uma pessoa podia compreender tudo o que é compreendido. e a oposta é praticamente verdadeira. Mas mesmo na medicina a tendência oposta.

o cálculo das previsões seria . a última teoria de tudo. Mas abrangerá todas as explicações conhecidas. de todas as forças básicas conhecidas da física. pois será já uma teoria de todas as áreas. esta será uma teoria de todas as áreas: uma Teoria de Tudo. não haverá mais grandes unificações. e assim acabará por ser ultrapassada. e como interagem entre si. Se isso acontecer. será apenas a primeira. A “teoria de tudo” deles seria uma teoria unificada. spins. No passado. Não será. os estados iniciais de sistemas interessantes não podem frequentemente ser estabelecidos com muita precisão. Na ciência consideramos óbvio que mesmo as nossas melhores teorias estão condenadas a serem imperfeitas e problemáticas em alguns aspectos. nem perfeitamente verdadeira nem infinitamente profunda. Nos casos em que o comportamento exacto de um sistema fosse intrinsecamente imprevisível. Depois da primeira Teoria de Tudo. as suas massas. Todas as grandes descobertas posteriores assumirão a forma de mudanças no modo como compreendemos o mundo como um todo: mudanças na nossa mundividência. e esperamos que sejam ultrapassadas atempadamente por teorias mais profundas e precisas. Mas não será ultrapassada por meio de unificações com teorias sobre outras áreas. iria em princípio prever o seu comportamento futuro. Na prática. Outros avanços resultaram de mudanças estruturais quanto ao modo como estávamos a compreender uma área particular — como quando deixámos de pensar que a Terra estava no centro do universo. a mecânica celeste e terrestre. as grandes unificações geraram grandes avanços na compreensão. é claro. como todas as outras teorias anteriores e posteriores. excepto nos casos mais simples. que além disso incorpora a geometria (que antes era encarada como um ramo da matemática) na física. e aplicar-se-á a toda a estrutura da realidade que compreendemos. entre outras coisas. e ao fazê-lo fornece explicações muito mais profundas. A primeira teoria completamente universal — a que chamarei Teoria de Tudo — não será.o nosso conhecimento cresce. Descreveria também todos os tipos de partículas subatómicas. Penso que essa unificação e mudança estão agora em curso. nomeadamente a gravidade. e ao mesmo tempo será a primeira mudança completa para uma nova mundividência. electromagnetismo e forças nucleares. Este progresso não chega ao fim quando descobrimos uma teoria universal. Newton deu-nos a primeira teoria universal da gravidade e uma unificação de. Esta teoria não explicará ainda todos os aspectos da realidade: isso é inalcançável. Ao passo que todas as teorias anteriores se relacionavam com áreas particulares. A mundividência associada é o tema deste livro. Dada uma descrição suficientemente precisa do estado inicial de qualquer estado físico isolado. cargas eléctricas e outras propriedades. descreveria todos os comportamentos possíveis e preveria as suas probabilidades. e de qualquer maneira. Por exemplo. Chegar à Teoria de Tudo será a última grande unificação. além de ser também mais precisa. Mas as suas teorias foram ultrapassadas pela teoria geral da relatividade de Einstein. então as nossas teorias tornar-se-ão tão gerais. profundas e integradas entre si que se tornarão para todos os efeitos uma única teoria de uma estrutura unificada da realidade. Tenho de sublinhar imediatamente que não me refiro meramente à “teoria de tudo” que alguns físicos de partículas têm a esperança de descobrir em breve.

ainda que fascinante? Penso que é outra perspectiva equivocada da natureza da ciência.demasiado complicado para que fosse levado a cabo. O resto da física forma os primeiros andares. juntamente com uma teoria do que era o estado inicial do universo. os computadores actuais podem calcular com algum pormenor o movimento de qualquer grupo isolado de umas poucas partículas. a geologia ainda mais acima. e talvez todas as explicações suficientemente profundas de qualquer tipo. Mas mesmo o pontinho mais pequeno de matéria visível a olho nu contém triliões de átomos. a ciência alegadamente explica as coisas de modo redutivo — analisando-as em componentes. As propriedades dessas moléculas são por sua vez explicadas em termos dos seus átomos constituintes. assumem essa forma. Destas leis. Nesta hierarquia. ainda que combinada com uma teoria do estado inicial. e assim por diante. quando muito. sustentada com desaprovação por muitos críticos da ciência e (lamentavelmente) com aprovação por muitos cientistas. Mas prever não é explicar. a resistência de uma parede a ser penetrada ou derrubada explica-se encarando a parede como um vasto agregado de moléculas em interacção. que nesta imagem são quase inconcebivelmente derivativas. conteria em princípio toda a informação necessária para prever tudo o que pode ser previsto. a economia. e das interacções destes átomos entre si. Mesmo assim. Pode prever tudo (em princípio). Os reducionistas pensam que todas as explicações científicas. excepto no que diz respeito a alguns fenómenos que são dominados pelas subtilezas das interacções subatómicas. juntamente com uma especificação do estado inicial do universo aquando do Big Bang (a explosão violenta com que o universo começou). Por exemplo. Empoleirado nos instáveis telhados estratosféricos estão áreas como a teoria da evolução. a lógica e a matemática formam o leito rochoso imóvel em que o edifício da ciência se constrói. uma teoria universal das partículas. Mas não se pode esperar que explique muito mais do que as teorias existentes explicam. temos apenas aproximações a uma “teoria redutiva de tudo”. a psicologia e a ciência da computação. em função de quão próximas estão das teorias previsivas conhecidas do “nível mais baixo”. espaço e tempo. como a bioquímica. Hoje em dia. A astrofísica e a química estão no nível mais elevado. A concepção reducionista conduz naturalmente a uma classificação de objectos e teorias numa hierarquia. tal teoria unificada das partículas e das forças. e a história exótica de transmutações de partículas no Big Bang. fornecerá. dado o seu estado inicial. biologia e genética. uma pequena faceta de uma verdadeira Teoria de Tudo. nomeadamente que a ciência é essencialmente reducionista. forças. O que motiva o uso do termo “teoria de tudo” para um pedaço de conhecimento tão restrito. cada um dos quais . Isto é. como colisões no interior de aceleradores de partículas. O edifício ramifica-se em muitas torres de áreas de níveis cada vez mais elevados. e assim por diante até chegar às partículas mais pequenas e às forças mais básicas. Estas podem já prever leis do movimento muito precisas para partículas subatómicas individuais. A desejada “teoria de tudo”. A primeira pedra seria uma “teoria redutiva de tudo”.

supostamente. tanto para reducionistas como para instrumentalistas. a vida. Que esperam os holistas que façamos? Que paremos a nossa procura da origem molecular das doenças? Que neguemos que os seres humanos são feitos de partículas subatómicas? Onde há explicações redutivas. compete-nos tanto a nós. psicologia e política dos da física. Um reducionista pode pensar que a ciência tem a ver com analisar as coisas em componentes. Ninguém espera realmente deduzir muitos princípios de biologia. “Construtores”. a temperatura a que um dado composto químico irá derreter ou entrar em ebulição. “temer” e “tentar” são. Mas para todas as outras pessoas o conhecimento científico consiste de explicações. a existência de ciências de ordem elevada é apenas uma questão de conveniência. O propósito das ciências de nível elevado é permitir-nos compreender os fenómenos emergentes. A razão pela qual as áreas dos níveis mais elevados podem ser estudadas é que em circunstâncias especiais o comportamento prodigiosamente complexo de vastos números de partículas se decompõe num módico de simplicidade e compreensibilidade. Um instrumentalista pensa que tem a ver com prever coisas. Grande parte da química elementar foi reduzida à física deste modo. o holismo — a ideia de que as únicas explicações legítimas são em termos de sistemas de níveis mais elevados — é um erro ainda maior do que o reducionismo. como veremos. não dedutível da explicação de nível inferior que dei acima (ainda que não seja incompatível com ela). dos quais os mais importantes são. “inimigos”. de modo que em vez disso fazemos uma estimativa do que seriam tais previsões se as pudéssemos fazer — a emergência permite-nos fazê-lo de modo bem-sucedido — e disso que tratam as ciências de nível mais elevado. estas são tão desejáveis quanto quaisquer outras explicações. descobrir essas reduções. e está em interacção contínua com o mundo exterior. cientistas. fenómenos emergentes. Esta é uma explicação de nível elevado da força da parede. como nos compete descobrir qualquer outro conhecimento. Aos fenómenos dos níveis mais elevados quanto aos quais há factos compreensíveis que não são dedutíveis simplesmente das teorias de níveis mais baixos chama-se fenómenos emergentes. podemos prever alguns aspectos do comportamento mais geral de objectos muito grandes — por exemplo. Complementando as leis exactas do movimento com vários esquemas aproximativos. de modo que é perfeitamente inexequível prever o seu comportamento partícula a partícula. o oposto do reducionismo. o programa reducionista é apenas uma questão de princípio. A isto chama-se emergência: a simplicidade dos níveis mais elevados “emerge” da complexidade dos níveis mais baixos. Há . Por exemplo. Mas no que respeita às ciências de níveis mais elevados. Para qualquer um deles. todos eles. Nos casos em que ciências inteiras são redutíveis a ciências de nível inferior. que não dão atenção tanto a verdadeira estrutura como o verdadeiro propósito do conhecimento científico. a base da hierarquia previsiva da física é por definição a “teoria de tudo”.composto por muitas partículas subatómicas. o pensamento e a computação. Assim. A complexidade impede-nos de usar a física fundamental para fazer previsões de nível elevado. uma parede pode ser forte porque os seus construtores temiam que os seus inimigos poderiam tentar derrubá-la. A propósito. e a estrutura da explicação científica não reflecte a hierarquia reducionista.

Sejame permitido explicar por que razão aquele átomo de cobre está lá. localizada ali próximo. Mas tais descrições e previsões (muitíssimo inexequíveis. Presumivelmente. entre outras coisas. como os que constituem os corpos dos mineiros e do escultor. Teríamos de descobrir que certas configurações atómicas sustentam fenómenos emergentes como a liderança na guerra. “o urso comeu o mel porque estava com fome”). Não há razão para existir.explicações em todos os níveis da hierarquia. mesmo em princípio. e porque é costume honrar tais pessoas erigindo-lhes estátuas. entregues ao movimento complexo a que chamamos segunda guerra mundial. agora compreendo por que razão está onde está”. qualquer explicação de nível mais inferior da presença desse átomo de cobre do que a que acabei de dar. explicam as coisas não as analisando em coisas menores e mais simples. e assim por diante. guerra e costume. referindo apenas conceitos desse nível particular (por exemplo. uma “teoria redutiva de tudo” faria em princípio uma previsão de nível inferior da probabilidade de tal estátua vir a existir. contém cobre. Muitas envolvem deduções na direcção oposta à da explicação redutiva. liderança. Mas mesmo que tivéssemos o poder sobre-humano de seguir previsões longas desse género sobre a localização do átomo de cobre. ou seja o que for). Só depois de conhecer essas teorias poderíamos compreender cabalmente por que aquele átomo de cobre está onde está. tal previsão teria de referir átomos de todo o planeta. explicamos uma observação física de nível inferior — a presença de um átomo de cobre numa dada localização — por meio de teorias de nível muitíssimo elevado sobre fenómenos emergentes como ideias. Se quiséssemos compreender porquê. e nessas trajectórias. Entregarmo-nos a esta investigação seria uma tarefa criativa — descobrir novas explicações é-o sempre. Por exemplo. e assim prever a existência e a forma da estátua. É porque Churchill serviu como primeiro-ministro na Câmara dos Comuns. que está no Largo do Parlamento. mas antes encarandoas como componentes de coisas maiores e mais complexas — sobre as quais temos. dadas as configurações iniciais de todos os átomos e as leis da física. Saberíamos apenas que chegar onde chegou e do modo como chegou era inevitável (ou provável. Assim. e porque o bronze. passando pela fundição e pelo estúdio do escultor. é claro) não explicariam coisa alguma. Na verdade. não poderíamos ainda dizer “Ah. Muitas delas são autónomas. Descreveria também em princípio como a estátua provavelmente chegou àquele lugar. Teríamos de investigar o que havia nessa configuração de átomos. não teríamos mesmo assim outra alternativa a não ser dar um passo mais. Isto é. um material tradicional para tais estátuas. teorias explicativas. que se relacionam entre si por meio de teorias explicativas de nível elevado. . e porque as suas ideias e liderança contribuíram para a vitória dos Aliados na segunda guerra mundial. e assim por diante. Poderiam também especificar como essas trajectórias foram influenciadas por forças exercidas pelos átomos circundantes. contudo. que lhes dava a propensão para depositar um átomo de cobre naquele lugar. Descreveriam apenas a trajectória que cada átomo de cobre seguiu a partir da mina de onde proveio. considere-se um átomo particular de cobre na ponta do nariz da estátua de Sir Winston Churchill. em Londres. dada a condição do sistema solar (digamos) numa data anterior. sim.

Que papel é esse? Parece-me que nenhuma das candidatas a uma “teoria de tudo” que tenha até hoje sido considerada inclui seja o que for de muito novo em termos de explicação. tanto as que existem como as que são hoje objecto de consideração) fornecem o quadro de referência explicativo e formal pormenorizado no seio do qual todas as outras teorias da física moderna se expressam. Mas na estrutura real do conhecimento científico. por outras palavras. linguagem. é ainda mais profunda. indo muito além da física — e até além da própria ciência. Talvez a abordagem mais inovadora do ponto de vista explicativo seja a teoria das supercordas. e teria de ser parte de qualquer teoria de tudo. forças nucleares e gravidade. Como veremos no próximo capítulo. De facto. estas duas teorias (e não qualquer teoria das partículas subatómicas. como também pressupõe que toda a explicação se faz em termos de acontecimentos posteriores que são explicados pelos anteriores. tais leis têm um papel muito mais humilde. a expectativa é que a “teoria de tudo” herde praticamente toda a sua estrutura explicativa — os seus conceitos físicos. A segunda. tempo e gravidade. é a nossa melhor teoria do espaço. seja no sentido mais estrito ou mais geral do termo. a contribuição da física fundamental para a nossa compreensão geral. Mas nenhuma abordagem disponível oferece um modo inteiramente novo de explicação — novo no sentido da explicação de Einstein das forças gravitacionais em termos de espaço e tempo curvos. tenho de mencionar outro modo de o reducionismo representar mal a estrutura do conhecimento científico. e na estrutura do nosso conhecimento em geral. que a única maneira de . formalismo matemático e a forma das suas explicações — das teorias existentes do electromagnetismo. são os blocos de construção elementares da matéria. tal como esta é normalmente concebida. pois constituem a base da hierarquia de todo o conhecimento. na qual objectos com extensão. A razão pela qual a teoria quântica é a mais profunda das duas está mais no exterior da física do que no seu seio. a teoria quântica. como a relatividade. como afirmei. Entre ambas. A unificação da teoria geral da relatividade com a teoria quântica — para dar uma teoria quântica da gravidade — tem sido um projecto importantíssimo dos físicos teóricos desde há várias décadas. e contêm princípios físicos de alcance geral aos quais todas as outras teorias se conformam. as leis que regem as interacções subatómicas das partículas são de suprema importância. Antes de dizer quais são as outras três linhas. podemos procurar nesta estrutura subjacente. pois as suas ramificações são muito extensas. que já conhecemos das teorias existentes. Há duas teorias na física que são consideravelmente mais profundas do que todas as outras. A primeira é a teoria geral da relatividade que. a teoria quântica. fornece um novo modo revolucionário de explicação da realidade física. Não só pressupõe que a explicação consiste sempre em analisar um sistema noutros sistemas mais simples e menores. A teoria quântica é uma das quatro linhas principais de que se compõe a nossa compreensão actual da estrutura da realidade. “cordas”. Logo. em vez de partículas semelhantes a pontos.Na mundividência reducionista.

mas afirmam efectivamente que o universo era inicialmente muito pequeno. Uma maneira de o fazer é especificar o estado inicial. Mas. as leis do movimento podem ser expressas como um conjunto de equações. Para especificar qual das soluções descreve a trajectória efectiva. do ponto de vista da física fundamental. Seja-me permitido reformular esta exigência sem o preconceito reducionista. e as leis do movimento. As leis do movimento para qualquer sistema físico não fazem senão previsões condicionais. temos de fornecer dados complementares — alguns dados sobre o que efectivamente acontece. só fazem previsões condicionais. E isto implica que quanto maior a anterioridade dos acontecimentos em termos dos quais explicamos algo. desde que escolhamos uma solução particular das equações do movimento. nunca dizem categoricamente o que acontece. e são consequentemente compatíveis com muitas histórias possíveis desse sistema. porque quase tudo que vemos acontecer à nossa volta. Uma “teoria de tudo” que exclua uma especificação do estado inicial do universo não é uma descrição completa da realidade física porque fornece apenas leis do movimento. as melhores explicações de todas são em termos do estado inicial do universo. mas apenas o que acontecerá num dado momento dado o que estava acontecendo noutro momento. Por exemplo. chamadas equações do movimento. Para que a nossa descrição reducionista abranja algo além das características mais incompletas do universo observado. poderíamos igualmente especificar o estado final — a posição e direcção do movimento da bala no momento em que cai no chão. descrevendo cada uma delas uma trajectória possível. (Esta questão é independente das limitações à previsibilidade impostas pela teoria quântica. neste caso a direcção em que o canhão apontava. as leis do movimento que regem uma bala disparada de canhão são compatíveis com muitas trajectórias possíveis. são da maior importância em qualquer descrição reducionista da realidade. afinal. teriam sido muitíssimo aprofundadas pela agregação gravitacional (isto é. de modo que.) Por exemplo. Não importa que dados complementares damos. Só no caso de se fornecer uma especificação completa do estado inicial pode uma descrição completa da realidade física ser em princípio deduzida. nem sequer em princípio. As variações iniciais de densidade. por mais ligeiras que tenham sido. A combinação de um desses . com a distribuição das galáxias que observamos nos céus hoje em dia. Isto é. da distribuição das galáxias nos céus ao aparecimento de estátuas de bronze no planeta Terra é. as regiões relativamente densas teriam atraído mais matéria. por si. a “granularidade”. precisamos de uma teoria que especifique esses cruciais desvios iniciais da uniformidade. de modo que precisariam de ser muitíssimo ligeiras inicialmente. tornando-se ainda mais densas). As teorias cosmológicas actuais não fornecem uma especificação completa do estado inicial. Sabemos também que não pode ter sido perfeitamente uniforme porque isso seria incompatível. segundo a teoria. Estas têm muitas soluções diferentes. uma consequência dessas variações.explicar algo é formular as suas causas. Mas também há outras maneiras. que discutirei no capítulo seguinte. uma para cada direcção e elevação possíveis para as quais o canhão poderia estar apontando quando foi disparado. melhor é a explicação. Matematicamente. Ou poderíamos especificar a posição do ponto mais alto da trajectória. muito quente e que tinha uma estrutura muito uniforme.

e alguma sobre os estados intermédios. Por exemplo. Por exemplo. Mas para o universo tais cálculos são na sua maior parte intratáveis. nenhuma teoria do tempo pode jamais explicá-lo em termos de algo “anterior”. De modo semelhante. . da realidade física. sobre a estrutura pormenorizada do Big Bang. ou que em geral é mais “fundamental” teorizar sobre o estado inicial do que sobre as características emergentes da realidade. Só um preconceito reducionista poderia fazer-nos pensar que esta foi uma forma de raciocínio de algum modo menos legítima. é simples calcular o estado inicial. e vice-versa. contradizendo a melhor física da altura. uma maneira de fornecer esses dados é especificar o estado inicial do universo. temos explicações profundas. Mas isto é um caso excepcional: a maior parte do nosso conhecimento dos dados complementares — do que especificamente acontece — é na forma de teorias de nível elevado sobre fenómenos emergentes. teríamos de especificar que história é a que efectivamente ocorreu. alguma sobre o estado final. especificamente. Pelo menos nos modelos cosmológicos simples. E. Para a bala de canhão. alternativamente. Mesmo no domínio da física fundamental. Para completar a descrição. Uma das razões é que isso exclui logicamente a possibilidade de explicar o próprio estado inicial — por que o estado inicial foi o que foi — mas de facto temos explicações de muitos aspectos do estado inicial. em princípio. o estado inicial do universo não tem as propriedades adequadas para que a vida se desenvolva. a ideia de que as teorias do estado inicial contêm o nosso conhecimento mais profundo é uma concepção seriamente errada das coisas. da teoria geral da relatividade e ainda mais da teoria quântica. Em geral. ou poderíamos dar alguma informação sobre o estado inicial.dados complementares com as leis do movimento equivale a uma teoria que descreve tudo o que acontece à bala de canhão entre o disparo e o impacto. na maior parte das soluções das equações do movimento. poderíamos especificar o seu estado final. e é consequentemente por definição inexprimível em termos práticos na forma de afirmações sobre o estado inicial. ou o estado em qualquer outro momento. Afirmei que inferimos a existência de “granularidade” nas condições iniciais partindo de observações da “granularidade” de hoje. uma vez especificado. o estado final. a combinação de dados complementares suficientes de qualquer género com as leis do movimento equivaleria a uma descrição completa. a estimativa precisa mais antiga da idade da Terra foi feita com base na teoria biológica da evolução. fornecendo suficientes dados complementares para resultar numa das muitas soluções das equações do movimento. contudo. Podemos nunca saber o que esta restrição implica. mas podemos retirar directamente conclusões a partir dela. digamos. mais em geral. cada uma das quais correspondendo a uma história distinta. da natureza do tempo (veja-se o capítulo 11). o nosso conhecimento de que a vida se desenvolveu efectivamente é uma parte significativa dos dados complementares. de modo que não há diferença prática entre diferentes métodos de especificar os dados complementares. as leis do movimento para a realidade física como um todo teriam muitas soluções. Mas. Logo.

uma dessas teorias. o carácter de muitas das nossas descrições. previsões e explicações da realidade não tem qualquer semelhança com a imagem do “estado inicial mais leis do movimento” a que o reducionismo conduz. nem as que se situam em qualquer nível particular da hierarquia previsiva — mas antes as que contêm as explicações mais profundas. No futuro. mas também de vida. mas nem todas as implicações podem ser formuladas. a lógica não dita qual delas devemos considerar que determina. pois trata-se de propriedades emergentes dos domínios das outras teorias. Assim. atípico relativamente à totalidade. descobrimos conexões de tal modo profundas e diversificadas entre os princípios básicos destas quatro áreas aparentemente independentes. os próprios termos “nível elevado” e “nível inferior” são enganadores. a outra.Assim. são consequências emergentes de nível elevado das leis da física. e todas as ideias novas tenderão automaticamente a . As quatro. como afirmei. quando duas teorias se relacionam logicamente. As leis da biologia. além de outros fenómenos emergentes. Poderia até acontecer que. Mas as outras três linhas principais de explicação por meio das quais tentamos compreender a estrutura da realidade são todas de “nível elevado” do ponto de vista da física quântica. As nossas teorias da física subatómica. formam uma estrutura explicativa coerente com um alcance tão grande. não têm qualquer privilégio relativamente a teorias sobre propriedades emergentes. De facto. em qualquer caso. Nenhuma destas áreas do conhecimento pode jamais subsumir todas as outras. computar). que do meu ponto de vista a podemos considerar apropriadamente a primeira genuína Teoria de Tudo. Não há razão para considerar que as teorias de nível elevado são de algum modo “cidadãs de segunda”. A teoria quântica é. que se tornou impossível chegar à nossa melhor compreensão de qualquer uma delas sem compreender também as outras três. e mesmo da teoria quântica ou da relatividade. digamos. entre elas. Isso depende das relações explicativas entre teorias. Cada uma delas tem implicações lógicas para as outras. no todo ou em parte. não é a sua proximidade da base supostamente previsiva da física. a epistemologia (a teoria do conhecimento) e a teoria da computação (sobre os computadores e o que estes podem e não podem. pensamento. Como mostrarei. Até agora. algumas das leis da física são então consequências “emergentes” das leis da biologia. tempo e partículas subatómicas. será sobre uma concepção unificada da realidade: todas as explicações serão compreendidas contra o pano de fundo da universalidade. e que acabou por abranger uma parcela tão importante da nossa compreensão do mundo. mas a sua proximidade das nossas teorias explicativas mais profundas. Mas. chegámos a um momento significativo na história das ideias — o momento em que o domínio da nossa compreensão começa a ser plenamente universal. em princípio. Mas. as leis que regem os fenómenos biológicos. tomadas conjuntamente. todo o nosso conhecimento tem sido sobre um aspecto da realidade. computação e as outras coisas às quais essas explicações se referem. São elas a teoria da evolução (principalmente a evolução de organismos vivos). As teorias verdadeiramente privilegiadas não são as que se referem a qualquer escala particular de dimensão ou complexidade. determinassem inteiramente as leis da física fundamental. logicamente. e menos derivativa. A estrutura da realidade não consiste apenas de ingredientes reducionistas como o espaço. O que torna uma teoria mais fundamental.

ética. 1997) . política e estética.iluminar não apenas uma área particular. de David Deutsch (Londres: Penguin. O dividendo de compreensão que acabaremos por colher desta última grande unificação pode muito bem ultrapassar o que obtivemos de qualquer uma das anteriores. pois. daria ao meu eu mais jovem. limitava-me a sabê-lo. que rejeitava a proposição de que o crescimento do conhecimento estava a tornar o mundo cada vez menos compreensível? Concordaria com ele. David Deutsch Retirado do livro The Fabric of Reality. todas as áreas. e provavelmente muito do que ainda não compreendemos. mas. talvez tudo o que hoje compreendemos. apesar de hoje pensar que a questão importante não é realmente se o que a nossa espécie particular compreende pode ser compreendido por um dos seus membros. Há todas as razões para pensar que sim. É antes se a estrutura da realidade em si é verdadeiramente unificada e compreensível. em graus diferentes. agora posso explicá-lo. Que conclusão. e não é apenas a ciência: é também potencialmente os domínios mais remotos da filosofia. Em criança. Pois veremos que não é apenas a física que está aqui sendo unificada e explicada. lógica e matemática.