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EDIÇÕES MELHORAMENTOS,

'Todos os direitos reservados pela Comp. Melhoramentos de São Paul), Indústrias de Papel Caixa Postal, 120 B — São Pauto

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1." Edição publicada e m 1931 2.» Edição publicada e m 1948

Nos pedidos telegráficos basta citar o n." 314

DO PINHEIRO AO LIVRO UMA REALIZAÇÃO MÍIHORAHÍKTOS

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ÍNDICE
Algumas palavras Introdução Contos Populares As histórias 15 Quem tem asa. para que quer casa? Atrás de m i m virá quem bom m e fará Explicação galhofeira A mulher da tesourinha Espírito de contradição João Preguiça 0 avarento O caso do « Chernoviz » O sim e o não O que há de ser Bem-te-vi Casamento da raposa O vaivém A lição do pajem O casar é bom, mas o não casar é melhor A falta do fubá «Perna Fina», «Barriga Grande» e «Boca Pequena» O pulo do gato Os onze pauzinhos A lição do filho Por que os galos c.inl. te madrugada A caixa de música A história do queijo 0 coelho barbeiro 0 amigo da onça 0 m a u marido 0 bicho Ponde A pedra de diamante Pai João o Mãe Maria 0 que os outros não querem Pai João e a « Fritangada » Pai João e a sinhá moça 19 21 22 23 24 25 - 2o 28 29 31 34 35 °t 38 40
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. ?« Os músicos prosas ** Morreu mesmo «* A caixa de ouro ^8 De como Malazarte fêz o urubu falar 80 De como Malazarte vendeu o urubu 83 De como Malazarte fingiu que se matava 85 De como Malazarte passa adiante a carneirada 86 De como Malazarte rouba as jóias de u m a família SC De como Malazarte faz mais u m a que parecia duas 88 De como Malazarte vende o cadáver da velha 89 De como Malazarte evitou que o mundo desabasse 90 De como Malazarte cozinha sem fogo 92 De como Malazarte vendeu u m passarinho 93 De como Malazarte dá mingau a certa velha 94 De como Malazarte entrou no céu 9G O macaco e a velha 97 As do Zé Simplório 100 A morte 101 O Pai de Deus 102 As três irmãs: a do anel. 103 As conversas de Mané Bocó 104 Saci-pererê 105 0 Roteiro do Padre Lourenço 108 Se Deus quiser 109 110 Quem cai na dança.4 ÍNDICE Nem o diabo as guarda $8 Foi buscar lã e saiu tosquiado J1 0 diabo na garrafa • . não se « alembra » de mais nada A lógica do sertanejo 112 Conselho de caboclo 112 Ensinando o caminho 113 Narrativas maravilhosas Os três irmãos e a prima rica 115 Deus ajuda a quem trabalha 118 Amante de repolhos 121 A caveira vingativa 127 0 grãozinho de milho 130 O moço que deixou de jogar 132 A moça e a vela 134 A demanda dos ovos cozidos 13g O espelho. a dos sapatinhos o a dos brincos .. as botas c a vela 138 A cruz que venceu ao diabo 140 A lavadeira assombrada 142 Três Deus fêz 143 0 sapo encantado 145 .

em Juiz de Fora Lenda do túmulo de N.ÍNDICE 5 A moça feia e bonita 146 0 velho que virou rapaz Os três cisnes O veadinho encantado As jarras de ouro 0 Príncipe encantado História da « gata borralheira » Os cavalos mágicos A Bela e a Fera Os sete pares de sapatos da Princesa Lendas populares e religiosas O branco e o negro 193 O branco. Aparecida 0 monge da Serra da Saudade A lenda popular do Santuário de Congonhas Por que as mulheres catam pulgas As malvas A Santa Aparecida A lenda do morro do Pelado 3^ A lenda do morro da Boiada. comem três Alma de Adão O chapéu do escrivão Para a morte não faltam desculpas A lenda do gambá o a besta Cantigas de adormecer Cantigas do adormecer 217 148 149 155 160 164 172 178 185 189 193 194 195 196 196 198 201 202 203 203 204 205 3f 206 206 208 210 212 213 214 215 Vocabulário Notas finais 241 227 . o índio e o negro As três raças A lenda das miosótis Santo António casamenteiro Lendas populares de N. Senhora Lenda do topónimo Benfica A mãe de S. Pedro Onde comem dois. S.

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Indústrias de Papel». com eruditos comentários. — acrescida de numerosos outros que coligimos diretamente da tradição oral e correm em diferentes regiões do país. e em cujas teses se incluem relevantes temas referentes a assuntos folclóricos ou etnográficos. justificando-se ãessarte o novo título de Contos Populares Brasileiros. no conceito dos apreciadores de assuntos folclóricos ou tradicionais. Devemos ainda salientar que. pelo consagrado etnógrafo prof. os dignos e prestimosos ãiretores da benemérita « Companhia Melhoramentos de S. em geral. em antologias literárias e em livros didáticos ou adaptados em publicações recreativas. com louvável felicidade. em geral.a) dos « Contos Populares ». Paulo. foram reproduzidos. em cujo texto fizemos algumas modificações. sendo "mais recentes as dos « Contos Tradicionais do Brasil». reuni-los em um único volume na presente edição ampliada. com surpresa nossa. tendo merecido da crítica referências benévolas que excederam mesmo nossa expectativa. Na edição anterior apareceram os nossos « Contos Populares». porém. algumas coletâneas de contos populares vieram a lume. na Academia Brasileira de Letras. com o qual doravante passa a publicar-se esta obra — atesta de modo positivo a aceitação que este nosso trabalho logrou alcançar no cenário das letras nacionais e. 0 estudo das tradições e. em dois volumes. na Academia Carioca e em outros institutos culturais . que constituem a matéria das antecedentes edições desta obra. dados a estampa. parece ter enveredado por uma trajetória de intensas atividades. depois da 2.ALGUMAS PALAVRAS A presente edição (aliás 3. classificações. confrontos e observações originais. Na Academia Brasileira de Filologia. Entenderam. Mas não é tudo. haja vista o próximo Congresso da Federação das Academias a realizar-se na cidade do Salvador. editora desta obra. É-nos grato assinalar que numerosos desses contos. Luís da Câmara Cascudo. anexando-lhe também novas anotações que nos pareceram indispensáveis.a edição. « Lendas do Brasil» e « Os Melhores Contos Populares de Portugal». do folclore nacional. cartonados separadamente.

cujos nomes não temos no •momento em memória. Rodrigues de Carvalho. no domínio da ciência. O. serviços de suma relevância e geralmente reconhecidos — pelo aprimorado modo com que tem levado a efeito sucessivas edições desta obra e de outra de nossa autoria. Nelson de Sena. aos quais se juntaram muitos elementos de reconhecido mérito e projeção. Gilberto Freire. os máximos iniciadores dos estudos folclóricos em nosso país. Rio de Janeiro — Fevereiro de 194S. Leonor Posada. E assim vai-se aos poucos transformando em vitoriosa realidade o belo sonho de Sílvio Romero e João Ribeiro. Renato de Almeida. Simões Lopes Neto. Edson Carneiro.s ALGUMAS PALAVRAS desta Capital. Pereira da Costa. Entre os múãtos autores que. Correia de Azevedo. o folclore tem sido assunto de especial predileção. António Osmar Gomes. LINDOLFO GOMES . Paião. há anos fundada pelos consagrados etnógrafos Joaquim Ribeiro. Basílio Magalhães. Edgard Cavalheiro. sob orientação científica e indispensável sistematização. tendo ultimamente reeleito sua ãiretoria e constituído uma comissão de técnicos. Cândido Jucá (filho). já publicaram em volume trabalhos especializados sobre o assunto. Martins de Oliveira. em especial. Entenda-se que nesta resenlia não estão inchados os nomes de folcloristas citados em outros lugares desta obra. Almiro Rolmes Barbosa. Mário de Andrade. Sílvio Júlio. prossegue em sábias e constantes atividaães. Augusto de Lima Júnior. Luís da Câmara Cascudo. Jacques Raimundo e outros. Concluindo. Sebastião Almeida Oliveira. Flausino Rodrigues Vale. Valdomiro Silveira. Nina Rodrigues. sobretudo na Sociedade de Folclore do Rio de Janeiro que. resta-nos o indeclinável dever de mais uma vez agradecer sinceramente aos meritosos ãiretores da conceituada e importante «Companhia Melhoramentos de S. da literatura e da ãidática nacional. de Minas e de alguns Estados. salvo involuntárias omissões. da qual também são editores. Aires da Mata Machado Filho. Mariza Lira. Indústrias de Papel» — uma das organizações mais perfeitas no género existentes no Brasil que lhe deve. Artur Ramos. ocorre-nos citar os nomes dos consagrados folcloristas Afonso Arinos de Melo Franco. Paulo. Cecília Meireles. de S. na qual foi incluído nosso modesto nome. Othon Costa. e os de outros igualmente notáveis como Amadeu Amaral.

A sua significação. mas latentes.INTRODUÇÃO ÀS EDIÇÕES ANTERIORES FOLCLORE CONTOS TRADICIONAIS Vai para alguns anos publiquei na imprensa uma coletânea de contos populares por mim colhidos diretamente da tradição oral. tão diferentes. submetidos às leis da acomodação e da adaptação mesológica. observações de fatos ou aspectos da natureza. ensinamentos morais e religiosos. E' o segredo da força imperecível da tradição. outros promanaram de provérbios. têm os . nas indianas como em geral nas de toda a Ásia e Africa. episódios da vida em geral. parábolas. Admitem os folcloristas em geral que os contos tradicionais são a forma ou a expressão primitiva e espontânea da arte. Nas tradições do Egito como nas da Grécia e do povo romano. mesmo entre os aborígenes. os seus apólogos. logrando reviver em raças ou povos. de geração em geração. como ficou dito. as mais das vezes. as suas legendas e é admirável ver como essas tradições. no Estado de Minas. não raro apagada no seu percurso através dos séculos. se submetem ao fenómeno da transplantação sem perder o sinal de origem. sob modificações inevitáveis. imprime a esses contos um sabor de antiguidade que se sente ou se adivinha. Têm eles o seu fundo de verdade. a sua poesia amplamente acessível ao sentimento comum de todas as raças. no tempo e no espaço. Os contos populares (Volksmarchen) têm uma indiscutível. Se alguns revelam o cunho de antigos mitos. de povo a povo. Todos os povos possuem os seus contos. e passam de um a outro país. valores da mitologia greco-romana ou dos ciclos indianos. E' incontestável o valor científico de tais contos para os estudiosos das tradições e para a etnografia em geral. ainda que por vezes obscura afinidade com crenças que remontam a afastadas eras e se entrelaçam de elementos míticos dispersos. nas da Europa como nas da América. aliás ainda não coligidos por outros folcloristas. passando.

conservando-lhes o cunho popular. a que se refere aquela folclorista. Milá. coligidas por Couto ãe Magalhães. com o título de A romãzeira do macaco. em variantes múltiplas. se constituiu no país um ciclo de contos tradicionais que o elemento popular denominou os contos ou histórias de Pai João. Gustavo Dodt o demonstrou com referência a uma das lendas do ciclo do jabuti e ao conto d'A Onça e a Raposa. mas sempre interessantes. Pai João sintetiza a complicada individualidade do preto velho africano dos nefastos tempos da escravidão. dos quais publicamos alguns neste volume. Quem se desse ao trabalho de examinar e confrontar com produtos tradicionais de outros povos as lendas indígenas. nos Estados Unidos (História da velha e do seu porco). na França. lerão e preguiçoso.a série de seus Contos Bárbaros outra variante. não raro licenciosos. . por conta do elemento mestiço ou agente assimilaãor. Os irmãos Grimm. versando vários temas. Marín. Leite de Vasconcelos. Basset. por exemplo. como o dr. Em torno de sua individualidade e da de M ã e Maria criou-se um ciclo de contos. algumas vezes. Outros não pertencentes a esse ciclo damos a lume c neles se nota que a colaboração e a elaboração mestiças se revelam. no Brasil — e isto só para citar alguns nomes em evidência. ainda não é tudo — porque um dos mais notáveis folcloristas franceses. Pai João ê um tipo caracteristicamente célebre no nosso meio racional e que há de relembrar para o sempre o período. Adolfo Coelho. figura o conto O M A C A C O E O R A B O (versão de Pernambuco. outra colhida por Miss Sara Bryani. Mas. entretanto. Teófilo Braga. na Espanha. ãe simples casos. Há uma variante desse conto na coleção de Adolfo Coelho. sob o título O lobo que não quer sair do bosque. Astuto. tiveram consciência científica do valor dessas produções anónimas e as coligiram magnificamente. que. publicados pelo autor de 0 Selvagem. na Itália. felizmente extinto. intitulada O rato e a velha. que ele inclui entre os de origem africana e mestiça). veria. de maneira inconfuiulível. inclui na 2. de anedotas. E é ainda incontestável certa afinidade que tem com todas elas o célebre conto da Carochinha ou da Baratinha. que algumas têm fonte originária muito outra.10 INTRODUÇÃO ÀS EDIÇÕES ANTERIORES investigadores encontrado. na Alemanha. Caballero. alguns ãe procedência africana e bem poucos podem ser considerados de origem indígena. outras. colhida em Dará e em Chelif. esperto. A maioria dos contos populares do Brasil são de importação europeia. o perfume e a graça com que as ouviram dos lábios das mulheres e campônios de sua pátria. 0 mesmo fêz Perrault. do cativeiro. Sílvio Romero e Couto de Magalhães. ingénuo. outra inglesa. E' certo. em Portugal. contos tradicionais no fundo perfeitamente semelhantes. Na coletânea de Sílvio Romero. 0 maravilhoso. Pitré e antes dele outros. o satírico.

sob o aspecto histórico. como quer que seja respirando algo de poesia. sob esse aspecto. de verdade. carreados. ficaria completamente burlado o nosso intuito. devemos acrescentar que as sábias conferências folclóricas de nosso erudito mestre João Ribeiro apareceram em volume (1919). por vezes. É.a pessoa que o elemento popular brasílico representa quase sempre pelos pronomes êle e ela e raramente por o e a. constituindo-se definitivamente o que de melhor se há publicado no Brasil sabre folclorismo científico. ninguém havia ainda tratado em nosso país. Mas outras incorreções pinturescamente características do falar plebeu foram conservadas fielmente. esse o livro clássico do folclorismo nacional. sem favor. da alma simples dos nossos patrícios. a obra O Folclore no Brasil.INTRODUÇÃO ÀS EDIÇÕES ANTERIORES 11 o de conceituação moral e piedosa. longo e valioso estudo com que se prefacia uma excelente coletânea de contos tradicionais. * * * Como adendo ao que aí dito está e escrevemos como preâmbulo à edição anterior âêste livro (1918). de Basílio de Magalhães. também. sem a menor dúvida e sem a mais leve sombra de lisonja. fugindo à monotonia das construções viciosas. A seguir-se à publicação deste volume daremos outro de contos maravilhosos que também colhemos da tradição oral. por J. O público dirá se o nosso esforço é digno ãe estímulos e das atenções dos competentes. bem como o modo e o tom das narrativas. Se não procedêssemos assim não faríamos trabalho propriamente folclórico. corrigimos aqui e ali o linguajar dos narradores. assunto este que. tentamos conservar o pinturesco da linguagem com que os ouvimos dos lábios do povo. Trabalho de mérito é. pois é quase certo que serão conhecidas em todo o país. que pacientemente coligimos. não só quanto à maneira característica das expressões como ao idiomatismo dos chavões usados pela gente simples. Se o nosso concurso não fôr de todo nulo continuaremos a prestá-lo aos eruditos etnógrafos patrícios. E' certo que. Na reprodução escrita dos contos populares. de mítico que tem passado pelo caldeamento ãe muitas gerações e ainda não desapareceu da alma coletiva. Não quer isto dizer que tais produções populares fiquem exclusivamente restritas a determinada região. portanto. Em cada conto damos a indicação da localidade mineira onde o colhemos. especialmente nas ocorrências pronominais do acusativo da 3. da Silva Campos e atire . o alegórico ou o fabuloso. divulgando o material que temos recolhido com sacrifício não pequeno e com dilatada perseverança. na Bahia. antes dele.

Outro livro ãe incontestável mérito etnográfico é o ão ilustre cientista e pedagogista. ele consegue. dos quais os melhores. portanto. publicou em volume a sua erudita tese ãe concurso à cadeira de literatura da Escola Normal do Rio de Janeiro. b) lendas da colonização (Cf. dois dos mais notáveis dos nossos colecioiuidores e comentaristas ãe tradições colhidas diretamente. até então. são os que constituem o magistral livro de Joaquim Ribeiro. quase sempre à luz de ótimo e seguro critério. Tendo em vista principalmente o folclore colonial e baseado na teoria ainda. no capítulo A Tradição. por exemplo. M e u Samburá (1928). em cujas páginas se traçam. trata o Autor da teoria dos ciclos. prosador e poeta ãe merecido destaque nas letras nacionais. também lídimos folcloristas. esboçar os do Brasil dispondo-os em três grupos gerais ão modo seguinte: « / — Ciclo costeiro a) lendas atlânticas ou dos navegadores (Cf. 0 Caramuru. Apareceram ainda outros volumes de contos tradicionais e estudos folclóricos de indiscutível mérito. margeados ãe substanciosos comentários folclóricos. e. sob todos os pontos ãe vista valiosíssimos. têm publicado magníficas coleções de contos e anedotas. em nosso obscuro parecer. quiçá ilustrado publicista dr. escudados em orientação moderna. em que se estudam. Em 1929. sabre os Mitos Ameríndios. . com absoluta segurança. Osvaldo Orico.. não divulgada no Brasil. Nesse esplêndido volume. por vezes original. e o segundo: Sertão Alegre e N o tempo do Lampião. Mas estudos. solidamente científicos. o primeiro: Conversas ao pé do Fogo (1924). a lenda de S. Lourenço Filho. Tomé). sobrevivências na Tradição e na Literatura. de cunho positivamente científico que colocou o jovem cultor no primeiro plano de nossos poucos folcloristas de verdade. O Joàzeiro do Padre Cícero. com inteira precisão. Trata-se ãe trabalho de real merecimento. ele. ão consagrado escritor e etnógrafo João do Norte (Gustavo Barroso). posterior àquele e onde a valiosa erudição e a perspicaz observação do Autor se consorciam sempre de modo altamente apreciável. mas deslustrado com um prefácio nosso. Cornêlio Pires e Leonardo Mota. dos Ciclos Culturais. lendas indígenas. a N a u Catarineta). cenas e quadros ão fanatismo do Norte. se nos afigura serem o Sertão e o M u n d o (1923) e Através dos Folclores.12 INTRODUÇÃO ÀS EDIÇÕES ANTERIORES os quais se nos deparam algumas variantes ãe outros que já figuravam em os nossos Contos Populares. laureado pela Academia Brasileira ãe Letras. algumas reproduzidas dos textos dos mais autorizados autores. A Tradição e as Lendas (folclore).

de Juiz de Fora. — em cujo prefácio esboçamos os ciclos temáticos restritos. em relação aos ciclos culturais. desde o S. Antes de publicar em livro nossos Contos Populares (1918) — agora Contos Populares Brasileiros. IH — Ciclo de Mineração (Cf. sem ter tido em vista o das áreas geográficas. enquadrá-la em nossa etnografia. em nossa etnografia. no Diário do Povo. a par da originalidade com que soube sistematizá-la. com muita felicidade. Gustavo Barroso generalizou (Som da viola. profissionais e comemorativas. quanto à dos mesmos ciclos generalizados e a de Joaquim Ribeiro. ãentro ãa sua ãivisão. até melhor prova em contrário. já havíamos publicado diversos deles em ãiferentes jornais mineiros. origem do folclore mineiro). » Esclarecenâo que os ciclos culturais fundam-se na doutrina das áreas etnográficas (civilizações regionais). b) lendas ão movimento pastoril. como já ao modesto autor dos Contos Populares Brasileiros. a prioriãaãe. de Afrânio Peixoto. por exemplo. de Carlos Góis. nomeadamente. quem mais tarde fôr o historiador justo da aluai fase folclórica nacional não poderá deixar de reconhecer e assinalar a nossa prioriãaãe na divulgação e aplicação no Brasil ãos ciclos temáticos. ãe Belo Horizonte. de Leonardo Mola. pois. A publicações meritosas de outras espécies folclóricas.a edição do Cancioneiro do Norte). sem a menor dúvida. a prioridade de Gustavo Barroso. como as coleções de quadras populares. 1921) sobre o critério das classificações individuais. no acatado entenãcr daquele jovem etnógrafo coubera a da aplicação dos ciclos temáticos restritos. Assim. no Diário Mercantil. o folclore paulista). no Estado. tais áreas são as seguintes: 1) área costeira (faixa litorânea) 2) área pastoril (S. de Americano do Brasil. Francisco e Norãeste) 3) área mineira (região de mineração). e muito bem. os quais ãepois. embora restritos. Na aplicação ãa teoria ãos ciclos culturais baseaâos na doutrina das áreas etnográficas cabe. e com a divisão em ciclos temáticos expressamente declarada. na Opinião. etc. a Joaquim Ribeiro. entende. que. desde antes de 1910. inâicar a qual região pertenceria. Francisco até o Norãeste. de Rodrigues ãe Carvalho (2. o ciclo ãos caboclos.INTRODUÇÃO ÀS EDIÇÕES ANTERIORES 13 // — Ciclo de penetração a) lendas heróicas dos bandeirantes (Cf. dos trabalhos magníficos ão saudoso e erudito Amadeu Amaral (que não saíram senão nas colunas . tanto assim que seria impossível.

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INTRODUÇÃO ÀS EDIÇÕES ANTERIORES

dos jornais paulistas) e ãe alguns outros etnógrafos ou tradicionalistas, deixo de aludir em mais extensas referências, reservanâo-me para delas tratar em ocasião oportuna. Mas, força é reconhecer que os estudos etnográficos, nos quais João Ribeiro — devemos sempre repeti-lo — se tem revelado a máxima autoridade, vão auspiciosamente progredindo, a despeito ãa não existência de um museu etnográfico, de uma associação ãe estudiosos do folclore e de uma revista especializada em assuntos ãe tradições, de folclore, enfim de etnografia que centralizassem todas as ativiâaães e todas as competências em torno desses problemas que só os céticos e os ignorantes supõem não serem transcenâentais, no domínio ãa cultura nacional. A benemérita Companhia Melhoramentos ãe S. Paulo, que já tem eãitaão ãiferentes trabalhos folclóricos, tradicionais e históricos, faz jus a toãos os louvores e vai com este rumo, ao lado do educacional, prestando ao Brasil irrefutáveis serviços. De mim sou-lhe assaz agradecido pela publicação ãêste livro, que, obscuro embora, atesta um esforço ãe minha parte em procurar ser útil a nossa pátria. A presente obra sai em ãois volumes, tal a extensão ão material novo que recolhemos ãa traâição oral, depois da l.a edição, de 1918. O primeiro é constituído de contos episódicos, cíclicos e sentenciosos e o segundo, de narrativas maravilhosas e lendárias, seguidas ãe cantigas de adormecer. LINDOLFO GOMES

CONTOS POPULARES
EPISÓDICOS CÍCLICOS E SENTENCIOSOS

A s histórias Quando se organizam as rocias, umas vezes em torno da banquinha de costura na sala de jantar ou nos alpendres, outras e m volta do fogo, onde, sobre a trempe, a chicolateira de água ferve para o cajèzinho da noite, a gente do interior do país, especialmente a roceira, gosta de ouvir alguém que, da família ou visitante, é o contador de histórias. E lá vem então a da Gata borrai]/rira, a de João com Maria, a dos Três cavalos encantados, a da Moura torta, com todos os seus matadores e o seu préstito de génios, fadas, príncipes, demónios, etc. Essas histórias adaptadas ao falar do povo saem quase sempre muito deturpadas e delas se contam numerosas variantes. Todavia, antes que o contador desembuche faz-se muito rogado, e se o pedido é feito ainda de dia, desculpa-se logo: quem conta história de dia cria rabo de cutia. 0 dito, apesar de velho e gasto modismo, é recebido ás gargalhadas. 0 engraçado é que havendo na roda alguma ingénua criança que não compreendeu a pilhéria — porque para iludir a infância fora ela certamente inventada — quer logo saber como se opera o fenómeno...

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LINDOLFO GOMES

O espírito infantil acredita firmemente verdadeiro o conceito, e os petizes privam-se das histórias contadas à luz do astro rei. Se alguém tenta infringir tal crendice, há imediatamente voz amiga que advirta: quem conta história de dia... Tais histórias começam com a chapa: Foi um dia... Era uma vez... Os escritores usam substituir os nomes de suas personagens pelas iniciais N. N. e os das terras pela incógnita X. O caboclo nas suas narrativas emprega o pronome Fulano, seja para substituir o nome das pessoas, seja o das localidades: «Foi u m dia o príncipe Fulano que assistia na cidade Fulana»... As narrações são constantemente interrompidas pelas interrogativas dos ouvintes, curiosos de conhecerem o fim dos episódios: — E depois? E depois? — Depois o príncipe disse- a sua bela que teria o seu trono se quisesse ser sua mulher. Ela recusou; disse que não queria seu trono, n e m a êle por marido. E depois o príncipe amuou de tristeza, e depois foi morar na cidade Fulana que estava ainda nos domínios dele. Vai daí a bela recebeu novas... — E depois? — Depois o príncipe mandou u m mensageiro com u m escrito e u m presente... — Depois?... A história prossegue entrecortada de depois e mais depois. Âs vezes a fórmula é substituída por esta oulra: — Entonces, vai daí? — E vai daí o príncipe... 0 contador, quando muito solicitado, sai-se não raro oom a célebre fórmula: «Era u m dia u m a vaca chamada Vitória- morreu a vaquinha, acabou-se a história»(í).
(1) V. era nosso livro Niltil Xori... p. 98, o artigo Fórmulas nos Con tos Populares.

CONTOS POPULARES BRASILEIROS

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Ou:
«Era u m dia u m h o m e m que mandou fazer u m a ponte e ficou debaixo dela para ver quem seria o primeiro a passar... Veio u m tocador com u m a carneira da... carneiro, como mato! Tá passando, tá passando... tá passando... E lá vem a clássica interrogativa por parte de algum dos ouvintes, mais curioso e mais tolo: — E depois? — Tô esperando acaba de passa a carneirada pra pode incontinuá... U m estridulo coro de risadas aplaude o dito e o curioso fica ãescochado (x), como é qualificado o indivíduo que se deixa desapontar, desconcertar. Quando termina alguma história, o contador nunca o faz sem epilogá-la com qualquer destes tradicionais modismos: «E entrou por u m a porta e saiu por outra; peça ao Rei que lhe conte outra»; ou com a seguinte variante: «e entrou por u m a porta e saiu na outra. 0 senhor Rei que lhe conte outra». «Pé de pinto, pé de pato; peço agora que m e conte quatro»; com esta variante, fazendo trocado: «pé de pato, pé de pinto, peço agora que m e conte cinco ». A pergunta: E depois? costumam os contadores responder também: vacas não são bois, chifres são só dois, muita casca tem o arroz. Acontecendo que não pronominalizem as localidades com o indeterminado Fulano, dão denominações tais, com certo cunho do simbolismo: cidade das Flores, das Maravilhas, das Amarguras, dos Prazeres, do Sol, da Lua, etc. São muito empregados, por eles, certos números indicando o indeterminado, havendo decisiva preferência pelo sete (oonta de mentiroso): bota de sete léguas; morrer de sete tiros, de sete facadas; os sete anõezi(1) V. vocabulário, ao fim deste livro. 2 Contos Populares Brasileiros

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nhos da montanha; os sete meninos das sete carapuças vermelhas; os sete sapatos da princesa que dançou com o sujo (o diabo). Quando se trata de fortuna, de dinheiro, o indeterminado é representado por mil, milhão: mil contos; mil léguas de terras: milhão de escravos. Às vezes usam também de eem e cento, etc. Outra variante para fecho de histórias é a seguinte, que colhi ouvindo u m contador do Alto Rio Doce, e m Minas: Foi u m dia u m h o m e m que tinha u m filho chamado Fulano. 0 menino pediu a licença do pai para sair pelo mundo. 0 veio pelejou com o menino, que não fosse; mas, não houve jeito, e campou depois que o pai pôs a bênção nele... Pausa. — E depois? — Tô vendo se o ladrão do menino vorta pra incontinuá o causo. Ao terminar alguma história, cujo epílogo seja u m casamento ou u m a festa, u m pagode qualquer, o contador jamais deixa de referir que houve u m a festa ou brinquedo (baile), arrasta-pé, havendo muitos convidados, dos quais foi u m deles, com comes e bebes: — Que pagode, m e u povo! dancei, comi, bebi, contanto que não esqueci de vancês. Vinha trazendo u m a garrafa de champanha e u m a bandeja de doces; mas a cachorrada do doutor Fulano (às vezes nomeiam u m a pessoa conhecida) avançou que foi u m arraso. Larguei a doçada e campei no pé, e foi u m dia... 0 contador, muitas vezes, anuncia u m a bela história, u m a história roge (excelente). Todos querem saber qual seja. — A do Castelo de Chuchurumelo. Se há na rocia alguém que não a conhece, pedeIhe curiosamente que a conte. Os demais preparam-se para rir até o Chico vir de baixo. 0 contador faz-se rogado; enfim se resolve: — Era u m dia u m h o m e m que tinha u m cão que

Ah! Ah! Ah! Vancê tá nascendo hoje. quando êle ia mais no sereno do vôo. que vai só. ainda impressionados com as histórias de sombrações e lobisomes que aparecem às sextas-feiras. A assembleia discute a pilhéria e o serão continua até alta hora. por informações. * Quem tem asa para que quer casa? (2) Era uma vez um tal dom Urubu.. Rei que lhe conte outra. Ouvi-o a u m calx>clo. alguns com receio de solancar no estradão ermo e assinalado de cruzes.. E algum deles. que corre e m todo o listado de Minas e e m outros do Brasil... E não sei como lhes conte.. foi avoando como u m corisco e sem olhar pra aqui nem pra acolá apousou no telhado de u m a casa velha e ficou assuntando e m como os outros bichos. que avoavam tão rasteiro. a estugar o passo. peça ao sr. ameaçou u m a trabuzana d'água que parecia que o mundo vinha abaixo. (1) Introdução rortuguêsa. quem quisé vá lá sabê-lo (1). . não tinha onde se esconder. E vai o Urubu falou ansim: — Deixa vir o sol que eu também vou fazer minha casa.. (2) Este conto foi colhido da tradição oral na fazenda do Penedo. se arranjariam quando êle. o Rei dos ares. Já por aí. mas sei. 0 cabeça pelada (urubu) não quis saber de mais conversa.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 19 matou o gato que comeu o rato que roeu a corda que atava a chave que abria a porta do Castelo do Chuchurumelo. Pedro do Pequiri. quando todos se despedem. caminha assobiando para disfarçar o seu medo de caboclo cismado. umas pombas debandadas vinham também fugindo da tempestade e metiam-se nos pombais como gente que tem de seu e pouso certo onde assista. era S. home?! E' como os de Lordelo. — E depois? — Entrou por u m a porta e saiu por outra.

o vento assobiava. arribando o vôo.20 LINDOLFO GOMES Depois vieram as andorinhas e se esconderam na beirada das telhas. danado de brabo. O Urubu tornou a dizer: — Eu também vou fazer minha casa. muito arrumadinhas no seu canto. cambaxirrinha à-toa. Logo se apanhou enxuto e bem lá em cima.. S. E dom Urubu tornou a dizer: — E u também vou fazer minha casa. não se alembrou mais de fazer a sua casa e muito prosa ia vendo que os outros pássaros não podiam chegar onde êle estava. então: — D o m Urubu. para lhe fazer inveja. vieram correndo da lavoura e entraram na casa onde o Urubu estava em cima do telhado. Depois u m joão-de-barro. E' por isso que na quadra das chuvas todos têm onde se esconder. m a s não é capaz de ir aonde eu vou. quando é que V. encontrou com a cambaxirra que estava empèzinha. e disse: — E u também vou fazer minha casa. Depois vieram as cambaxirras o se enfiaram no buraco do muro. meteu a cabecinha fora do buraco de sua casa de terra e pegou de espiar.. Veio o sol. . Você tem casa. molhadinho como u m pinto e jurando por Deus Nosso Senhor que quando o sol apontasse êle ia fazer sua casa. Ficaram muito quietinhas. menos dom Urubu. Chuva caía que não era brinquedo. E. Os trabalhadores. mas o bicho não quis saber de mais nada. dá começo a sua casa? — Sai daí. respondeu dom Urubu com u m a risadinha de pouco caso. morador velho de u m ipê seco. E a bichinha lhe pruguntou. muito concha de sua propriedade. n u m átimo. E vai daí. E vai o Urubu. cambaxirrando (cantando) e m riba de u m a taipa. gritou: — Quem tem asa para que quer casa?. Sacudiu as asas e avoou para esquentar o corpo. m e s m o e m frente do bicho. quando desceu.

CONTOS POPULARES BRASILEIROS 21 Atrás de m i m virá q u e m b o m m e faráí1) Foi um dia um menino muito mal-educado. popularizada e m nosso país. Era u m fugir como o diabo da cruz. 0 curumi ficou muito sastifeito com a oferta. l ) Este continho. maginando nalgum mal feito. ninguém queria conversa com êle. Ai! se ela lhe dissesse u m isto. Pegou de u m a pedra e arrumou-a nas costas do tropeiro. não é senão a reprodução da conhecida fábula de La Fontaiine (XII. Vai por u m a vêz estava êle na estrada. colhido e m S. já o diabo do menino lhe queria pôr m ã o amaldiçoada. cantando as suas modas e muito fora de outro pensar. X X ) . dizendo com seus botões: — Outro lho dará o pago. Atrás de mim virá quem bom me fará. 0 lote levou u m espanto dos diabos e arribou. sem Deus n e m lei. E o menino furta daqui. recuou do preposto. ficava trocando pernas pelas estradas. João del-Rei. tirou da algibeira u m quinhentão (quinhentos réis) o deu-o ao menino. Un Fou et un sage. 0 tropeiro levou a mão na garrucha. capeanganão à toa. mexe com outro. Boca pra que falou! Palavra de m ã e não fica sem escuta de Deus. 0 pai já tinha morrido e a m ã e não podia com êle.. mexe com um. 0 menino não teve espera. deu três saltos pro ar e resmungou: o dia é meu. quando vinha de passagem u m tropeiro. furta dali. A velha às vezes lhe dizia com choro nos olhos: — Permita Deus que o mundo não seje quem te há de ensinar. e m vez de i r para a escola. para dar cabo do serelepe. Apois. tocando os lotes.. Fêz cara de riso falso. que. . Foi u m trabalho bruto para ajuntar a tropa. i .

De momento a momento lá estava êle: seu doutor pra aqui. íamos silenciosos pela estrada fora. Entre os muitos que tive. seu doutor. Explicação galhofeira ( * ) Quando eu era viajante tinha sempre de andar a cavalo (não havia estradas de automóveis e. . arrancou da bicha e fêz fogo. ambi(1) Este conto m e foi narrado por u m caixeiro-viajante. De repente pergunta-me o pajem: — Por que será. que tinha por costume dar-me o tratamento (aliás indevido) de doutor. Por isso recolhi-o. Cansei-me de adverti-lo que o não era. portanto. nuvens muito movediças. sequer autos de aluguel ou auto-ônibus) e levava sempre em minha companhia u m pajem ou guia. Jesus.22 LINDOLFO GOMES Daí por um pedaço apontou na volta do caminho u m cavaleiro que ia tocando viagem com pressa. dado a curioso e perguntador. Certa vez viajávamos n u m município longínquo. Pôs reparo e deu com o menino já aprcparaáo para lhe pinchar outra. para registrá-lo como popular. seu doutor pra acolá. mas m e parece anedótico e já vulgarizado. ou pelo menos já popularizado. Foi por u m a vez só. no céu azul. havia um. 0 menino não disse ai. como os homens. N u m súbito sentiu u m a pedra lhe bater na aba do chapéu. Ah! pra que tal fizeste! 0 viandante não quis mais conversa. e respondi-lhe: — Ora essa! Pois você não sabe que as nuvens se m o v e m assim porque são. E é como lá diz o outro — atrás de mim virá quem bom me fará. 0 dia estava lindo e havia. Qitem deve a Deus paga ao diabo. pois tenho-o ouvido de outras pessoas e m diferent-es localidades mineiras. mas o homenzinho não se emendava. como verídico. que as nuvens não têm sossego e andam sempre de u m lado para o outro? Sorri-me.

. com tesoura. Quando finalmente desapareceu em meio a água que (1) Variantes deste conto já foram comentadas por João Rilieiro. 0 tema é. desejando cortar um queijo. trouxe-lhe u m a tesoura... irascível. Ouviu? Não se faça de tolo! — Não senhora.. e traz-me tesoura! — Decerto! queijo não se corta com faca. E aos poucos foi submergindo. . — Pois então? — Tá certo! A mulher da tesourinha (i) Certo homem. Leite de Vasconcelos e outros folcloristas daquéra e dalém mar. 0 homem estranhou.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 23 ciosas e invejosas e procuram tomar os lugares umas das outras. indignou-se — agarrou a mulher e lançou-a n u m poço que havia no quintal. em vez da faca. portanto. a interrogação: — Queijo corta-se com faca ou com tesoura? E a mulher a repetir. pensando serem melhores do que os seus?! — Lá isso é verdade. — Senão. com tesoura. u m a faca à sua respectiva «cara metade ». internacional. e objetou-lhe: — Está doida. oortase com tesoura. B e m diz o ditado : a galinha do vizinho é sempre mais gorda do que a minha. 0 h o m e m depois de longa insistência. A mulherzinha que era teimosa a mais não poder. Gustavo Barroso. seu doutor. pediu... sempre contestado pela «cara metade». proferindo. o quê? E' com tesoura! C o m tesoura! C o m tesoura — digo-lhe uma. senão.. debatendo-se na cisterna: — C o m tesoura. para esse fim.... mulher? Peçolhe faca. duas. mil vezes. irremissível na sua disparatada teima. E' com faca! E não m e queime o juízo.

senão e m todos os Estados do Brasil. ainda conseguiu. pois mesm o morta ela não deixará de revelar aquele velho defeito de ser sempre «do contra»(1). perguntou-lhe o motivo de tal preocupação. andando a procurá-la água abaixo. n u m último esforço. com os dedos índice e médio abertos. mas porque encontrasse à beira do rio u m a das chinelas por ela usadas. 30. Espírito de contradição Foi ura dia um homem que era casado com uma mulher que. primava por possuir o mais aferrado espírito de contradição deste mundo. Mude de rumo. De u m a feita. à pág. figurar as lâminas de u m a tesourinha. Assustado. que ouvimos narrado e m diferentes localidades mineiras e c vulgar em quase todos. Passaram horas e ela não voltou para casa. pois não sabe que sua mulher era dotada de tal espírito de contradição que nisto ultrapassava todas as mulheres deste mundo? Você está perdendo tempo. (1) N o 1. contra a vontade do marido. vem. erguer a m ã o e. Alguém. Narrou ao outro a sua situação e o seu objetivo de encontrar o corpo da mulher. Foi seguindo. . o marido foi então procurá-la — chegou ao tal lugar e nem sombra da mulher. siga margem acima." volume dos «Contos tradicionais do Algarve». vendo-o naquela penosa pesquisa. além de teimosa. seguindo.24 L1ND0LF0 GOMES lhe cobriu de todo o corpo. Pôs-se então a procurá-la percorrendo a margem do rio. na direção normal da corrente. caindo no rio. u m a variante deste conhecido conto. que andava e m cheia. sempre seguindo. mas sem encontrar o mais leve vestígio da mulher. de Xavier de Ataíde. camarada. E o outro replicou-lhe: — 0' compadre. teve a previsão de que a infeliz se houvesse afogado. resolveu ir pescar e m certo ponto perigoso do rio vizinho.

respondeu: — Quero sim. dera u m estremeção. disse-lhes: — Toca pro cemitério! E esticou-so novamente no banguê. mas é com casca ou sem casca? 0 outro advertiu-lhe: — C o m casca. não quero não. U m dos irmãos disse-Lhe: — Isso é fraqueza. E m caminho.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 25 Ciclo do preguiçoso I — João Preguiça Quando o pai de João Preguiça morreu. com u m a vozinha enfraquecida... com casca. E. — Então nesse caso. Todos correram a acudir e viram que João Preguiça estava ainda vivo. levavam todos os dias a comida à rede de João Preguiça que não a ingeria sem que qualquer deles lha desse pela colher. cumprindo o desejo do pai. E assim acontecia quanto ao mais. colocado o corpo n u m banque. recomendou aos outros filhos que não abandonassem seu irm ã o que era u m pobre parvo que. João. dirigindo-se aos carregadores do banguê. Acaso você quererá voltar para casa e aceitar u m bom prato de arroz? 0 João Preguiça. porém. sentiram que o banguê.. Os moços. João.. mano. a i r sepultá-lo no cemitério do arraial. Lá u m dia João Preguiça amanheceu morto na rede e os irmãos trataram de convidar os vizinhos. como eles estavam vendo. passava a vida deitado n u m a rede sem querer trabalhar. .

mais esperto. uns cem mil réis «à-toa» pagam bem. perguntou-lhe: — Olá. g. apareceu morto na choupana onde morava. e êle. Nunca se havia casado e só deixava como seus herdeiros dois sobrinhos. o protagonista aparece com nomes também diferentes. disse-lhe: — Quase nada. o corpo foi levado n u m banguê. ouvi-o. Vencida obra de meia légua. quanto custa o seu trabalho ? E o curandeiro. Chácara. do saudoso escritor José Rangel. no Estado de Minas. U m dia esse homem. Então o avarento. município de Juiz de Fora. o banguê estremeceu e como ia acompanhando o enterro u m charlatão do lugar. que já estava assentado no banguê. tirou do bolso u m vidro de « cheiro ». contado por uma senhora da cidade de Pomba. porém figura no livro de contos «Alvíssaras ». «seu» Chico. e m cujas diferentes versões. h o m e m ! Sabe de u m a coisa. E estendeu-se a todo comprimento no banguê (1). examinando o avarento. m a s unha de fome como êle só.26 L1ND0LF0 GOMES II — O avarento (Variante do conto «João Preguiça») Havia numa cidade do sertão um homem muito rico. chamaram-no. antigo morador no arraial da. (1) O primeiro destes contos — «João Preguiça» — m e foi narrado por Marciano Honório. aos quais e m vida — seja dito — nada lhes dera. Ambos pertencem a u m ciclo. em variante pouco diferente. « O Avarento». Os sobrinhos foram chamados pelos vizinhos que trataram de fazerlhe o enterro. m e u povo? Toca pro cemitério. chegando-lhe ao nariz. Como o lugar ficava muito distante do arraial. 0 avarento arregalou os olhos e exclamou: — Cem mil réis! Tá doido. querendo aproveitar a ocasião de ganhar algum dinheiro daquele «munheca de samambaia». seu curandeiro. O segundo. que vivia sempre isolado.: João Parvo — ou simplesmente . v.

onde sempre vivera. — As últimas notícias chegadas da Europa não são claras a respeito — respondeu-lhe o interlocutor. do folclorista português Xavier de Ataíde. pág.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 27 O caso do « Chernoviz » O Conta-se que morava em região do interior. 1G7 e « A Preguiçosa». só lia o clássico «Chernoviz». é conhecido e m outros Estados. muito afastada dos centros mais civilizados e sem dispor. mas. 181. e no vol. cujo texto sabia de cor e salteado. I «Pedro Preguiça». certo velho e excêntrico fazendeiro que jamais deixara o lugar onde nascera. Dada a distância da quase inóspita localidade. II. quanto a livros. N e m sequer recebia jornais e. «Contos Tradicionais do Algarve». O Avarento de certo modo não pertence ao ciclo do « preguiçoso ». u m desses destemerosos viajantes. por isso. certamente. se criara. o conhecidíssimo formulário e guia de medicina que os previdentes roceiros nunca dispensam nas aperturas de seu forçado curandeirismo. dos mais ousados e m afrontar os percalços de perigosas incursões. aprendera a ler e. Dois anos já se haviam passado desde a proclamação da República e m nossa pátria. À noite. porém honesto labutar da lavoura. de comunicação rápida até com arraiais bem modestos. onde se hospedara. pág. 304. quando foi ter à fazenda. (1) Colhido e m Minas. e m palestra com o dono da casa perguntou-lhe este pela saúde do velho Imperador. vol. E m horas de folga divertia-se o bom do velho lendo e relendo seu inseparável «Chernoviz». págs. o Parvo (V. só de longe e m longe por lá aparecia algum viajante. despreocupado* de tudo que não fosse o rude. ou melhor internacionais e foi aproveitado por Alphonse Daudet n u m conto intitulado «O Figo e o Preguiçoso». cujo tema aparece em variantes de contos europeus. . 3 ' J 7 e 4õl). finalmente.

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respondesse sempre « que não ». o velho teve que viajar. porque o pai impunha-lhe isto. (1) Colhido em Juiz de Fora. Quem «haverá» de supor! O sim e o não O O sim e o não são palavras muito importantes e que nem sempre se devem dizer.. tão certo como Deus é Deus. nem caso!. recomendou muito à filha que. por não querer separar-se da filha. O velho arregalou os olhos. o o pai muito rico. A propósito vou-lhes contar dois «exemplos ». Mas vai então. . E viviam os dois sozinhos n u m casarão. com todos os membros de sua família. Pedro agora está na Europa? A passeio ou a negócio? — Qual passeio. Foi u m dia u m pai que tinha uma única filha. Pois o senhor não sabia! Não lê jornais?! — Ninguém por aqui apareceu que m e desse tal notícia. A moça era muito bonita. m e u caro amigo. Não leio senão o «Chernoviz». banido há dois anos quando se proclamou a República no Brasil.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 20 — Pois D. e m e u «Chernoviz » nada diz a respeito de semelhante coisa. por ser u m bom «partido» de casamento. o Brasil é atualmente u m a república. O Imperador foi deposto e. estupefato. se algum h o m e m a cia se dirigisse. — Será possível. presidida pelo generalíssimo Manuel Deodoro da Fonseca. m e u Senhor?! — Sim. Antes de partir. quo era o seu único consolo nesta vida. Os rapazes andavam com os olhos nela. Mas ela. Não havia outro remédio.. qual negócio. era para receber u m a grande herança.

mas lhe implorou jurasse que não diria sim a nenhum outro homem. foi aceito. — E se eu a pedir e m casamento. de que havia de responder sempre «não». E ela sempre: não. Quando o pai regressou achou as coisas muito adiantadas. e perguntou-lhe se caso êle lhe entrasse e m casa ela se zangaria.30 LINDOLFO GOMES Passados alguns dias. E o rapaz entrou portas a dentro. é de sua livre vontade casar com Fulana? . foram os noivos para a igreja. * * * Agora o outro exemplo. — E u m abraço? — Não. U m rapaz gostava muito de u m a moça. Pediu-a e m casamento. Realizou-se o casamento com u m a grande festa. — Negar-me-á u m beijo? — Não. mas ela se defendeu com a recomendação que êle lhe fizera. E depois insistiu: — Se eu lhe disser que a a m o — a senhora se aborrecerá comigo? E ela: — Não. Mas um. Repreendeu a filha. recusará? — Não. Chegado o dia tão desejado. Foi u m desapontamento geral. perguntou o padre ao noivo: — Fulano. acompanhados de grande cortejo. muitos rapazes vieram confessar-lhe o seu amor e propor-lhe casamento. E assim o fêz. que era mais esperto. Na hora solene. e acabou tudo e m boa paz. foi ter com ela. A moça respondeu: — Não.

U m zunzum de espanto percorreu toda a igreja.. 0 padre então voltou-se para a noiva: — Fulana. é de sua livre vontade casar-se com Fulano? A moça não respondeu. como lá dizem.'Assim não devia excetuar-se o próprio padre. no Sul de Minas. saiu por outra. As lágrimas desciam pelas faces da noiva.. O noivo interrogou a noiva sobre aquele procedimento inconcebível. Ela então lembrou o juramento que lhe fizera de não dizer sim a nenhum outro homem. eu lhe conto: (1) Este conto ouvi-o do u m senhor da localidade Maria ãa Fé. Daí se vê que o sim e o não são duas palavrinhas muito importantes I E entrou por u m a porta.. Mas «assim ou assado». O padre repetiu pela terceira vez a pergunta — e nada de resposta.. Ficou tudo explicado. O noivo empalideceu. 0 padre fêz de novo a pergunta. com alegria e satisfação de todos. o certo é que bem podia ser. se não foi. O noivo autorizou-a a dizer sim quantas vezes quisesse e o casamento foi logo feito. .CONTOS POPULARES BRASILEIROS 31 Ele risonho e feliz: — Sim. O que há de ser tem muita força. residência para Juiz de Porá. que transferira sua. quem ouviu e não aprendeu. O que há de ser (1). Escândalo! O padre fechou o livro e retirou-se para a sacristia. prosseguiu. bom exemplo não colheu. — E u não sei bem se a coisa seria assim — dizia-me u m velho camarada com quem viajei e m Minas — .

«Entrementes já estava quase pronto o enxota para o sacrifico. já com anel de doutor. m e u patrão. «Ao depois deu para embrenhar no capoeirão deserto. nas festas de igreja. procurava os recantos e ficava sempre a chorar. viúvo de muitos anos.32 LINDOLFO GOMES «Dizem que havia — por esses cafundós do sertão — e m tempos que já lá se foram. por mais desejado das outras m o ças. não faltaria rapaz. emagreceu. « 0 velho queria casar com a moça. ninguém o rejeita e todos morrem de amores por êle.. o filho do fazendeiro rico. que não quisesse casar com ela. nos pagodes. Ninguém mais a viu rir e n e m aparecer nas missas. e o pai da pretendida também. Depois de casados. «A embição é o diabo. Quando soube da . E ela que gostava tanto de tudo isso!. «E então daí. e era u m pranto de choro que Deus nos livre. e até às vez esfarrapado. Q u e a menina visse que o pretendente era rico «como u m porco» o estava no caso de fazer a felicidade dela. Pois seria possível tal despropósito? « 0 pai dizia-lhe que casasse.. «Afastava-se de casa. por b e m ou por mal. Não queria porque não queria. definhou. u m velho fazendeiro. Uai cada coisa neste m u n d o que ninguém acredita. Que o dinheiro n e m por ser velho. vosmucê calcule. « Mas o velho queria porque queria. parecia inté que estava para dar a alma a Deus. « C o m o é que a pobrezinha poderia evitar tão triste sorte? «Chorava. «Mas foi então que chegou da Corte. como u m a carneirinha abandonada. se o velhinho morresse. Mas o chorar não adiantava. e todos da família. a pobrezinha não teve mais sossego. «Mas ela batia o pé. m a s hai. longe do sítio. que se apaixonou por u m a moça nova. e a moça nem queria ouvir falar nisso. m e u patrão.

nem ninguém que «não viu» — pode imaginar o que assucedeu! «Bateu o pé e disse para o pai que aquilo não podia ser. com voz doce de anjo: « — Sossegue. apareceu-lhe u m a mulher que parecia inté u m a santa.. e que lhe disse estas palavras. por fim. E deu u m berro que estremeceu cl CclSéX. casar assim velho com u m a mocinha de vinte. mas nunca lhe daria o « sim » de esposa. « 0 moço pensou muito no que devia fazer e foi ter com a inoça a ver se ela queria m e s m o aquele casamento. Com 3 Contos Populares Brasileiros . que não tinha mais.. m e u senhor!. Que antes preferia morrer. foi pra cama o oito dias depois morreu. danado de sua vida dele. Vejam só como elas se armam! «A moça criou coragem: foi à casa do velho e lhe disse cara a cara que não queria casar com êle. disse-lhe que não era de seu gosto. Daqui até o dia marcado para o casamento muita coisa pode acontecer. dela e de toda a família. Vosmucê. e tanto se afizeram u m ao outro que acabaram amando-se. mas. «E aconteceu mesmo. com quem?. Havia de casar e não dava satisfação — porque era da vontade dele. com mais de setenta nos costados. porque o moço todos os dias ia se encontrar com ela e consolá-la. tonteou. «Passado u m ano. de vinte.. Estava arranjado. se fosse escutar conselhos saídos da boca de u m fedelho como o filho.. que não se casará contra a sua vontade.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 33 pretensão de seu pai de casar com aquela moça ficou atarantado. pois estava envolvida n u m manto todo estrelado. que se atiraria no rio. «A coitadinha custou a falar. « 0 velho «subiu a serra». porque — explicou — há dias quando estava chorando no meio da capoeira. « 0 velho ficou aturdido. minha filha. com receio do pai. E nem podia ser. E m «tamanha » idade. o moço doutor tirou o luto quo vestira pela morte do pai e se casou.

da algibeira e pôs-se a contar o dinheiro. Mais adiante. pois não é?» Bem te vi! O Foi um dia um novato que veio da terra fazer fortuna. Ia formando os seus planos. certo de que tudo lhe havia de correr muito bem. 0 que tem de ser tem muita força..34 LINDOLFO GOMES aquela m e s m a que o velho tanto desejara para mulher — e que vinha a ser agora sua esposa. debruçou-se sobre as águas e. ouviu u m grito: — Bem te vi ! Supondo ser voz humana. e não a da ave conhecida. Apressou. pondo o dedo na boca: — Nanja! Se vem m e biste. Agachou-se.a estrada. « Como « quer que Deus quis » — tudo ficou e m família. ao ver refletir-se a própria imagem no espelho do remanso. com u m sorriso velhaco. Não haverá? Tudo que Deus Nosso Senhor faz é bom. . Avistou u m rio e foi beber. com os braços estendidos para êle. Inté o pai da moça achou bom. o novato resolveu ver quanto continha a carteira. Apanhou-a. assustado. Tirou-a. ouviu de novo a voz que o vinha perseguindo: (1) Colhido em Alto do Rio Doce. Ia indo certa vez por v. ao metê-la no bolso. disse: — Se vem m e biste. quando encontrou u m a carteira que certamente algum viandante teria perdido. Minas. cala o viço. o passo e tanto caminhou que se sentiu fatigado e ardendo em sede. Mas. pensando na fortuna que havia encontrado. sorrateiramente. cala o viço. E outra vez escutou a voz: — Bem te vi! Guardou imediatamente o achado.. e disse.

em vendo todo esse agrado. Q u e m pode. sou o rei dos animais. compadre rei leão. atirou o achado para dentro do rio e partiu a correr.i| . tenho governo sobre todas as coisas. maginou e m lhe dar u m presente.. assuntou de casar e não esteve pra logo. o rei leão. comadre raposa. (1) Colhido cm Coronel Pacheco. sempre muito estuciosa para fazer o que êle mandava. dois inimigos! o casamento não havia de aturar muito tempo. Sou capaz de fazer parar o sol e de fazer chover. E vai daí chamou-a: — Diga-me cá. senão a t i . cala o viço. dizendo: — Se vem m e biste. mestre leão que devia umas obrigações à raposa. Você quer u m dia de sol ou u m dia de chuva? E a raposa lhe disso toda derretida era mesuras: — B e m verdade.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 35 •— Bem te vi! Supondo o tolo que a sombra que via nas águas fosse o próprio dono da carteira que a estivesse reclamando. com a devida licença do rei deles. quando quiser. pode mesmo. cm |.. Como sabe. município de Juiz de Fora.-'. Nanja a mi. Vejam só. Casamento da raposa (x) Foi um dia a comadre raposa. o que quer você que eu lhe dê no dia do casamento. Por u m pouco toda a bicharada sabia que a comadre raposa tinha trato de casamento com o compadre lobo. mas que fosse — upa ! muito melhor que o dos outros: Escolher u m dia de chuva ou de sol. Apois. Cansada de viver sozinha. bem verdade. Começaram os bichos de toda a casta a levar presentes à comadre raposa. E resolveu pruguntar à raposa o que ela queria.

No dia aprazado cumpriu a promessa. e ficou assim u m pedaço. em vez do lobo. ser amigos por muito tempo. ligada à de sol e chuva. prolóquios. A história fala do casamento da raposa com o lobo. H á u m ditado popular que se refere ainda à pouca duração do sol de . Mestre leão. 4 . o pagode será concorrido o alegre como não haverá outro. m a s como lá dizem — casamento e m dia de chuva traz felicidade. artigo raposeiro). que é a rainha da astúcia e velhaca como ela só... » ed. magine lá no que quer. Daí teria nascido a ideia fabulosa do casamento da raposa. se houver sol no dia do casamento. vaidoso. através do vocábulo raposeiro que designa o sol de inverno e quer dizer também cama (V.36 LINDOLFO GOMES — Então. a festa não será tão animada. Na hora de seu casamento haverá sol e chuva ao m e s m o tempo. fechou a cara. matreira: — E' que eu estou pensando que o compadre. H á também uma variante era que figura. Morais. etc. fenómeno que é. Dic.. A comadre raposa. tome sentido. Farei o que deseja. o gambá.. bem pode dar à vontade u m dia de sol ou de chuva. do que este conto é exemplo frisante. reina chuva e reina sol. O leão não esteve mais para histórias e soltou u m berro: — Não ata nem desata? A raposa tremeu de medo e respondeu. inimigos figadais e que não podiam. para dar as duas coisas ao mesmo tempo. portanto. Mas. respondeu com ar de pouco causo: — Tola. rifões. para espanto de todo o mundo. não se pode negar u m certo cunho simbólico à ideia de casamento da raposa. que o elemento popular procura explicar com essa história. Se chover. como sabemos. segundo conjeturo. A expressão casamento da raposa foi criada. de pouca duração. sendo nosso rei macota. E' o casamento da raposa (1). e toda gente já sabe do acontecido. como ousa duvidar do rei dos animais? Fazia a comadre mais sagaz. a modos de quem está resolvendo negócios de importância. por meio de histórias e anedotas. Entretanto. (1) E' muito conhecida a tendência popular para explicar certos fenómenos. mas não tem poder.. Palavra ãe rei não volta atrás. Daí por diante todas as vezes que u m a raposa se casa. muito séria.

que não duram muito. o ditado: Mão vai. mão vai. demorando a entrega ou ficando com as ferramentas algumas vezes. sempre muito asseada. mão não vem. volta e diz a teu pai que se vaivém fosse e viesse. marujadas ». mão vem. mão não vai mais. Certo dia foi à oficina u m menino. inverno. o formão. a pedir-lhe de empréstimo. a que se refere o conto. inclusive a dos « oongados. etc. a ferramenta muito limpa. rompe-ferro. tantas lhe fizeram. Choro de mulher. vaivém ia. Chuva de verão. São coisas estas em que não se pode confiar. (1) Cf. mão vai.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 37 O vaivém Era um dia um velho chamado Zusa. tudo nos seus lugares. que o velho resolveu parar com os empréstimos. Mestre Zusa pôs as cangalhas no nariz e respondeu : — Menino. onde o elemento popular conserva muitas tradições. E' o seguinte: Sol de inverno. e disse: — Papai manda-lhe muitas lembranças o também pedir-lhe emprestado o vaivém. Quando u m carapina do lugar precisava de uma. por corrutela ou não. incluíndo-o entre outro3 símbolos da inconstância e do ludíbrio. . A sua oficina era u m brinco. Mas. vaivém não vai {1). vaivém. Este conto ouvi-o em Carangola. que trabalhava pelo ofício de carapina. de que tratarei e m obra espeoial. Palavra de ladrão. Mas a mania do velho era batizar cada ferramenta com u m nome apropriado. mão vem. de mando do pai. teria sido sugerida ao criador da anedota — o povo — pelo fato de efetivamente ter u m ou outro instrumento nomes personativo9. 0 martelo chamava-se toc-toc. A ideia de dar nomes às ferramentas. o serrote. mas como vaivém vai e não vem. corria logo à oficina do Zusa.

. Mais adiante avistaram u m boi deitado na grama. só eu é que vou. e o preto para distrair o sô moço mostrou-lhe aquele bicho tão quietinho... crioulo velho de todo o valor. Assim soube do intento do pai e logo foi amontado no pequira pra seguir viagem. As sodades começaram a apertar e João abriu outra vez no choro. açucrou a voz.38 LINDOLFO GOMES A lição do pajem (l) Era uma vez um pai. Os pais queriam consolá-lo até as últimas. — Mas. nhonhô?. Vendo chegar o mais velho na idade de ir para a escola. e carneiro come. chorando como bezerro novo. nhonhô. por via de se separar dos pais que andavam sempre a ameaçá-lo com a cafua da escola e a Santa Luzia do mestre. E João respondeu n u m soluçar sem parada: — Carneiro não vai para a escola.. seguiram o rumo da porteira e romperam estrada. O pajem outra vez: — Pra que tá chorano.. (I) Colhido e m Serraria.. engabelando-o: — õia carneiro. Lá adiante u m carneiro pastava. dono de muitas fazendas e muito cuidadoso da educação de seus filhos dele. nhonhô não come capim. nhonhô? Õia boi como tá quieto. quando João e o pajem. arrumou as canastrinhas e mandou o pajem de confiança levar o menino no colégio do arraial. botou a boca no mundo. Minas. fêz preparar o enxoval. Pra que tá chorano. . João — era o nome do menino — quando isto foi já beirava nos doze anos e ainda não conhecia a primeira letra da carta de nomes.

que tamo chegano no arraial. e nhonhô não sabe avoar. e preto capina pra nhonhô ir aprender. já sabendo tanto como o mestre. preto como trabaia.. lá se foi por esses ares. nhonhô não puxa carro. Pra que tá chorano? — Passarinho não vai para a escola. tornou: — Õia passarinho. para consolar o menino. Em de mais longe avistaram u m passarinho que ao vê-los.. e preto ainda leva nhonhô na escola. — Mas passarinho avoa.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 39 — Boi não vai para a escola. de onde voltou doutor de medicina. A escola ficava na entrada do povoado. N o fim de um par de (alguns) anos o menino.. todo empetilicaáo. encomsiâerando no dizer do menino... tão calado que não diz nada. nhonhô? — Negro não vai para a escola. . m e u branco. — Mas. foi mandado para a Corte do Rio de Janeiro. Depois viram u m preto capinando. só eu é que vou.. Pra que tá chorano.. nhonhô.. 0 seu primeiro cuidado foi mandar passar a carta de forraria ao pajem velho que levou nhonhô para a escola. escrescentou: — Mas também preto sabe capinar e nhonhô não sabe. preto não sabe ler e nhonhô vai aprender.. só eu é que vou. E n u m repente. Cala boca. e o pajem disse: — Õia. 0 menino foi entregue ao professor. e boi puxa. agravado nos seus melindres. só eu é que vou. E o preto. como vai quietinho. — Mas..

«Ansim como ansim ». e o não casar. Não hai nem para tapar o buraco de u m dente. segundo Montóia («Dic. que é bom. sem dar tempo a outro pensar: — Se te dessem a escolher entre dois objetos. da grande falta de fubá que remava na redondeza onde morava. Rio Novo. mas o não casar ê melhor^). (1) (2) (3) (4) da língua Colhido e m Piau. porque entre o casar. Guarani-Tupi »). respondeu: — Está visto que o melhor. Capiau tem por étimo a palavra capiá que. u m bom e o outro melhor. qual deles escolherias: o bom ou o melhor? O moço sem embaraçar-se. . se viu indeciso e foi pedir conselho a u m velho muito experiente da vida — se devia ou não dar aquele passo. — Eh! patrão. — Pois já vês que fizeste a escolha — disse-lhe. é u m a verdadeira desgracia pelada ! o fubá anda pela horinha da morte. inté pêra breve se morre de fome.40 LINDOLFO GOMES O casar é bom. mas o não casar é melhor ( * ) Foi um dia um moço que. estando para casar. Colhido e m Lima Duarte. e repetia sempre aos amigos que o casar é bom. A falta de fubá(3) Vai uma vez um capiau (4) queixava-se a um sitiante. ou seja matuto. Corre como provérbio. quer dizer procedente do mato. que é melhor — escolheste o melhor. h o m e m muito simples e que não gostava de contrariar as ideias do próximo. O moço seguiu o parecer e ficou solteiro. O velho encarou-o e perguntou-lhe de relâmpago.

onde havia u m pessegueiro carregadinho que era u m gosto. patrão. o da perna fina e o da boca pequena. louvado seja o Senhor. já sei. . «Perna Fina». veio bonito que não se perdeu u m a espiga. quis dar a razão da carestia: — H á de ser com toda a certeza por falta de milho. Água não fartou com a graça de Deus e ninguém deixou de plantar. «Barriga Grande» e «Boca Pequena »( l ) Diz que uma vez se ajuntaram três meninos chamados o da barriga grande. saiu-se com esta: — Então. O sitiante ficou babatando a olhar o capiau e. será algum desconserto nos maquinismos dos moinhos. colhesse os pêssegos e os atirasse ao da boca pequena que devia (1) Colhido em Palmira. e foram por u m a estrada. — Ih! patrão. choveu todo o ano. ou por via da diminuição das aguadas. há de ser por falta de fubá mesmo.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 4 1 O sitiante. — Então. os moinhos não têm desarranjo nenhuns e as aguadas.. de natural bonachão. decerto perderam-se as plantações lá pra suas bandas.. — T a m b é m não é. Vai então foram dar n u m pomar. não hai outras como as nossas. não tendo mais nada pra dizer. Milho. por causa da agilidade. patrício. arrumando a sua vidinha. como casca de arroz. Não tem chovido. 0 da barriga grande combinou com os companheiros que o da perna fina. Os meninos arregalaram os olhos e sem mais que coisas resolveram dar nas frutas. subisse à árvore.

E os três meninos. você há de m e ensinar a saltar. apanhou as frutas. A onça pôs-se muito macia: — Eu. e quase m e u parente como você ?! Mais acomodado. arrependidos da m á ação. pois sou lá capaz disso!. Quando o da perna fina desceu e o apanhou com o focinho na ratoeira. Há uma variante coligida por Sílvio Romero. E êle. Mas o da barriga grande. o contapé foi tão forte que a canela do perna fina quebrou por u m a vez. deu-lhe u m contapé na pança que de tão cheia arrebentou como u m a bexiga. Chegou-se com muitos bons modos e pediu-lhe: — Compadre gato. 0 da boca pequena achou tanta graça que se arreganhou n u m a risada gostosa. Mas. comadre onça — você era capaz de m e apanhar e de m e engolir de u m a vez. mas ainda u m pouco ressabiado. barriga grande. atirou-as ao da boca pequena que as ia ajuntando. comendo com u m a tal aração que parecia estar com fome de três dias.. pasmada de tanta agilidade. O da perna fina subiu no pessegueiro. Os outros concordaram.. Juiz de . (1) Este conto foi colhido diretamente da tradição oral e m Fora. nunca mais quiseram furtar as frutas dos quintais alheios. Pensa então que m e satisfaço com u m bichinho tão pequenininho. compadre. e m vez de vigiar os montes. e ficou com a boca pra sempre rasgada.42 LINDOLFO GOMES ajuntá-los. — Nessa não caio eu. O pulo do gato O Comadre onça encontrou-se com compadre gato e ficou a vê-lo saltar. teria o cuidado de vigiar os montes. ia dando cabo dos pêssegos. o gato começou a lição.

Não era tão tolo que ao menos não reservasse este pulo para m o livrar de suas garras. recua à direita. salta dali. que não nasceu lioje. 20. o gato. que desejo aprender tudo o que você sabe. é o mesmo de anedota que D Sarmiento refere no Facundo. rola na poeira. quero agora repetir tudo quando vi e aprendi. U m dia u m deles. grimpa nos troncos. 2 . . (1) O assunto deste conto cm Cataguases. deixando a onça a olhar por u m óculo. chamado Pedrinho. dando-se a discípula por pronta. Ensine-me agora. cortou-lhe u m limoeiro de estimação. (cap. para vencer os meus inimigos. atira-se pro ar. a ver se já estou mestra na sua arte. deu de improviso outro pulo que a onça não o tinha visto dar na lição e com que não podia contar tão a tempo. o gato desapareceu. compadre gato.CONTOS POPULARES BRASILEIROS •13 Pula daqui. sempre imitado da onça que vai aprendendo todos aqueles manejos com certa facilidade.. E. desapontada. A velha não sabia qual dos onze havia feito a travessura. cada qual mais arteiro.'. dizendo isto. Mas. comadre onça. nosso livro Nihil Novi. disse-lhe: — Este. deu u m pulo sobre o mestre para liquidá-lo de u m a vez.. Vai daí. o gato termina a lição. avança à esquerda. — Desse cavalo magro é que eu não caio. desce pelos galhos.°. » parte). Os onze pauzinhos O Havia uma mãe que tinha onze filhos. A onça. V. pinoteia. E começou a reproduzir todos os saltos do gato. l. n u m outro salto de mestre. você não m e ensinou ainda há pouco. E m certo momento. todos negavam a pés juntos. disse a onça: — Compadre gato. p.

tinha inclinação para o furto. porque o pauzinho que tem na mão há de crescer e não será do tamanho dos outros: um. pior ainda. três! Pedrinho com medo de ser descoberto quebrou o pauzinho que lhe tocara. A m ã e do menino soube do caso e não tomou nenhuma providência.44 LINDOLFO GOMES Foi então que se lembrou de u m artifício que havia de dar certo. (1) 0 povo conta esta historieta como veridicamente acontecida. Por isso mesmo era levado da breca. todos de igual tamanho e entregou-os. não poderia atribuir a êle a travessura. mas corre em Portugal. no Brasil. . U m dia furtou u m a agulha da vizinha.. oerto de que. A lição do filho (x) Era uma vez uma mãe que tinha um filho muito amimado e sem educação de espécie alguma. E. E disse-lhes: — Vou agora saber quem cortou o m e u limoeiro de estimação. E com a sua estratagema. dois e. Aquele de vocês que o houver cortado não poderá negar. — U m a agulha! que vale u m a agulha?! coitado de m e u filho! E m pouco tempo vinham aparecendo queixas de outros furtos de objetos de mais valor. a cada dos filhos. encomendando que os tivessem bem escondidos.. fechando-os nas mãos. Arranjou onze pauzinhos. — Abram as mãos! 0 de Pedrinho era menor. sendo o seu o menor. a velha ficou sabendo quem lhe cortou o limoeiro de estimação. não fêz mais artes e a lição serviu de exemplo para os outros. Pedrinho apanhou u m a coça. u m a um.

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Por fim o rapaz estava que era u m perfeito ladrão. E quando já chegara a tempo de ter juízo, não tendo emenda foi muitas vezes parar na cadeia, e até cumpriu penas. A m ã e começou então a chorar a desgraça do filho e lamentava-se de não o ter castigado nem educado quando era pequeno, por que lá diz o outro — de pequenino é que se torce o pepino. U m a noite o rapaz penetrou n u m a casa de negócio para roubar. No meio do serviço foi surpreendido. Estava armado e, para não ser preso, atirou no dono da casa. Matou-o, mas não escapou. Foi seguro, levado para a cadeia e, pouco tempo depois, condenado à morte. Na hora de ser enforcado, já do alto da forca, avistou a mãe e m meio do povo, a chorar, e pediu, como última vontade, que a deixassem subir onde êle estava. Queria abraçá-la pela última vez. Concedida a licença, a velha em pranto subiu até onde estava o condenado e abraçando-se a êle, exclamou : — M e u filho! — Minha m ã e — respondeu o rapaz, — morro enforcado e criminoso por sua culpa. Se a senhora m e houvesse castigado, quando furtei aquela agulha, eu m e havia de corrigir a tempo de não ser u m grande ladrão e assassino. Levo como última recordação do mundo e do ensino que recebi o nariz de minha mãe, causadora de minha desgraça. E, apertando-a mais entre os braços, deu-lhe u m a forte dentada no nariz, arrancando-o. E nesse mesmo instante o carrasco empurrou-o o trepou-lhe no cangote.

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Por que os galos cantam de madrugada Certo dia, rei leão deu uma festa e convidou todos os outros bichos. 0 pagode devia começar ao primeiro sinal da manhã e todos os convidados haviam de, a essa hora, estar presentes. A festa era de arromba, a melhor das de que havia notícia até aquela data. Chegou então o dia assinalado. Nenhum dos bichos teve sossego. Nenhum queria faltar ao convite nem perder a hora. À primeira luz do dia, rei leão tinha a casa cheia. Gente como formiga. Nenhum dos convidados faltara, a não ser mestre galo. Tinha-se esquecido inteiramente do convite. Notando-lhe a ausência, o rei dos animais enfureceu-se, achou que aquilo era u m pouco caso sem desculpa e mandou u m a escolta, a raposa e o gambá, buscar o galo à sua presença. A escolta quando chegou ao poleiro, pôs e m movimento a galinhada toda e mestre galo despertou espreguiçando-se, mas sobressaltado. — Vimos buscar-te, seu tratante, disseram os outros, de ordem de Sua Majestade. Rei leão dá-te a honra de u m convite para a maior festa do mundo e ficas a dormir! — Ah! é verdade! tinha-me esquecido... — Pois por isso mesmo estás pegado pra judeu. De outra vez não terás memória tâo desinfeliz... — Perdão, camaradas, perdão! o que quererá fazer de m i m Sua Majestade?... — Ainda perguntas! Comer-te, se tamanha honra te der, se não quiser antes entregar-nos a tua figurinha, para darmos cabo de ti. E, dizendo isto, a raposa foi destroçando toda a fa-

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mília de mestre galo, sem deixar uma só cabeça. 0 galo chorava, maldizia-se e m vão. A raposa veio de novo aonde o deixara vigiado pelo gambá, e ordenou-lhe: — Marcha! segue! À presença de Sua Majestade! Mestre galo não teve outro remédio senão caminhar jururu. Chegados que foram ao palácio do leão, a escolta e o preso compareceram diante da majestade que soltou u m urro de raiva: — Patife! galo de u m a figa! com que então ousaste desobedecer ao m e u real decreto, não te apresentando à hora marcada à minha festa? Vais pagar-me o atrevimento. — Saiba V. Majestade que não foi por querer, mas esqueci... Perdão, perdão, que m e ajoelho aos pés de m e u rei. — Tens memória tão falha, tens cabeça de vento!... Ia dar-te a morte, mas como te humilhas e para não perturbar a alegria de minha festa, terás, de agora por diante, como castigo de teu esquecimento, não dormires além da meia-noite. Dormirás ao pôr do sol e acordarás à primeira luz da manhã. À meia-noite, cantarás, às duas, amiudarás e, ao vir do dia, cantarás ainda, dando sempre sinal de que estás alerta. Se dormires, se não cantares, tu e tua família correreis o risco de serdes comidos pelos animais inimigos de geração tão indigna. Assim não esquecerás mais e ficará punida tua vil memória (l). Mestre galo ficou muito contente com a solução e para não se esquecer de que havia de cantar à meianoite, cantou também ao meio-dia. Dessa data e m diante começou a cumprir o seu fado, cantando pela madrugada fora, por causa de ter desobedecido às ordens de seu monarca.
(1) Ilá neste conto u m a constante referência ao proverbial esquecimento do galo, de onde o dizer — memória <'•• galo, aplicável ao indivíduo de rnenioi ado esquecido. Conhecemos u m a > iriante dê te conto na qual c m Vey, do leio, é o sol q u e m dá a festa c < > <i • . • : i . v esquecimento do galo

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Quando canta fecha os olhinhos para não se esquecer de que tem de cantar outra vez e canta de dia para se lembrar que há de cantar de madrugada.

Ciclo do Coelho e a Onça A caixa de música (*) A onça sempre teve arengas com o coelho. Andavam de mal. U m dia estava compadre coelho muito distraído, a tocar o seu assobio, quando de repente avistou a comadre onça. Não tinha mais jeito de fugir. O que lhe acudiu mais depressa foi aproximar-se de u m a caixa de marimbondos, fingindo que a estava tocando e que a música vinha de lá. A onça caminhava para êle, cega de raiva: — Então, vais ou não vais pagar-me? 0 coelho pôs-se muito macio: — Larga a gente, comadre. Estou tocando a minha caixinha de música, e não estou a fazer-lhe mal algum. 0 passado, passado. A onça, ao ouvir o assobiado tão bonito, ficou maravilhada, e disse ao coelho: — Está bom. A tua música agrada-me. Queres fazer u m negócio? Poupo-te a vida, se m e deres a caixa. — Ah! comadre! como posso dar-lhe u m a coisa que não m e pertence? Foi o compadre tigre quem m a emprestou. Era capaz de matar-me... — Não tenhas medo, tolo, não direi nada a ninguém. C o m ela divertirei apenas os meus filhos. — M a s se a comadre não sabe tocar... — Ensina-me que aprenderei... — Isto que estou tocando não é música, não é nada, à vista do que se pode conseguir, desde que se toque com todas as regras.
(1) Colhido e m Cedofeita, Juiz de Fora.

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Conto»

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A onça meteu. então. as unhas na caixa. — A comadre saia daqui com a caixinha. Depois que a casa estiver toda fechada e a família reunida. porque com qualquer coisa pode zangá-la. combinaram comprar u m queijo e comê-lo de súcia. meus filhos. Mas o coelho. N e m se parece com este assobio desengraçado que tanto a encantou. sem lhe mexer. matando-os a ferroadas que os faziam soltar urros de desespero. E m companhia da família meteu mãos à obra. Chegando a casa recomendou muito aos filhos que não bulissem naquele presente do compadre coelho: — Vocês hão de ver. colocan(1) Colhida em S. E foi assim que compadre coelho se livrou das garras da onça. faça no meio da sala u m a fogueira. esperto como quê. fêz tudo quanto o coelho lhe recomendara. Estava tudo pronto. Ao chegar em casa reúna a família. Lá u m dia. com muito cuidado. barreie todos os buraquinhos das paredes. chegue fogo à fogueira e meta as unhas na caixa. tapando todas as aberturas. . perseguida pela fumaça da fogueira e não tendo por onde sair. Então é que verá que música de anjos há de ouvir. João del-Rei. conduziu-a com todo o cuidado. disse-me u m mágico que. que música maravilhosa vai sair daí. feche as portas e janelas.50 LINDOLFO GOMES — Dize então como é lá isso. e no m e s m o instante u m a nuvem de marimbondos. A história do queijo (!) A onça fêz as pazes com o coelho e foi morar com êle. propôs à onça: — O' comadre. Todos e m roda da fogueira. A onça recebeu a caixa com muitos agradecimentos. atacou a onça e os filhos.

Q u e m m e dera ter u m afilhadinho! 0 coelho saiu. Não fiques amolado por isso.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 51 do-se os queijos nas árvores. Por pouco. Sempre é bom a gente ter u m afilhado. Comeu outro pedaço do queijo. o anunciou quarto batizado. Ao chegar de volta a casa. Ao voltar. perguntou-lhe a onça qual o nome do afilhadinho. — Vai. E anunciou logo que tinha novo batizado e que por isso estava muito aborrecido. Respondeu o velhaco: — Está no meio. e tenho de voltar. batiza. E batia palmas. deixando-o quase no fim. Vamos experimentar? A onça não esteve fora da proposta e o coelho foi colocar o queijo no galho mais alto de u m a árvore. Quando chegou a casa. 0 coelho foi. foi à árvore. vai. Fui convidado para fazer u m batizado. estou aborrecido. 0 coelho aceitou o parecer e foi. Respondeu-lhe o outro: — Já começou. . Sou capaz de não ir. Foi outra vez à árvore e mampou outro pedaço do queijo. trepou à árvore. perguntou-lhe a onça como fora de batizado e que nome pusera no afilhado. pois tinha de fazer outro batizado. — Vai. Quando regressou. compadre. dando a festa polo diabo. disse à onça: — 0' comadre. Depois pôs-se a rezingar que estava muito contrariado. compadre coelho. Não há nada melhor do que ter u m afilhadinho. E m vez de ir ao tal batizado. E m vez de ir ao batizado. estava de volta. comeu u m pedaço do queijo. eles crescem como frutos. compadre. indagou a onça: — Como se chama o novo afilhado? — Está quase — respondeu o coelho. vai fazer o batizado. E já a onça aconselhando: — Batiza.

ainda por cima. Voltou e a onça perguntou-lhe muito curiosa: — C o m o se chama o novo afilhadinho. vai fazer cristão o pobrezinho. a historieta tradicional — à pág. compadre. Então. foi à árvore. recebeu e m cheio o macotão de pedra e caiu morta. Trepou à árvore e comeu o resto do queijo. O coelho barbeiro (2) 0 coelho estava jurado de ser morto pela onça. está tão pesado que não posso descer com êle. Assim se fêz. eu trepo e você fica de braços abertos para aparar o queijo. o o coelho propôs: — Comadre. E aí está como compadre coelho enganou a onça e. E quando a onça estava de braços abertos à espera do queijo que o coelho lhe havia de atirar da árvore.52 LINDOLFO GOMES — Sossega. Chegaram à árvore. 64. dependurou n u m dos galhos u m a enorme pedra e foi buscar a onça para a partilha. U m dia estava o velhaquinho penteando o cabelo junto de u m a fonte. por umas tantas que lhe fizera. Cresceu tanto. compadre coelho ? — Já acabou. tinha aprendido o ofício de barbeiro. o coelho não sabendo que contas havia de dar do queijo. Mal sabia a onça que o coelho estava a batizar o queijo e que tinha dado cabo dele. (2) Cf. nesse tempo. a matou (J). mirando-se nas águas. 0 amigo da Onça. Mas. que se encontra . muito dis(1) Colhido e m Juiz de Fora. Não há nada melhor do que a gente ter u m afilhadinho ! Lá se foi o coelho.

perdôo-te... Posso perder a vida! E' m e s m o com respeito da senhora que eu queria. até chegá-la a u m toco de pau. comadre. à medida que se ia penteando. pensou e resolveu: — Está bom! Penteia-me. — Seu tratante! Deixar-me amarrar por u m bichinho à-toa. com todo o respeito. — 0 cipó. A comadre era capaz de m e matar. como tu! — Não. ficava cada vez mais no chá. mas não apertes muito o cipó. A gente está quieta. foi enleando a onça.. seu tratante! — Ah! comadre. e vem a comadre com essas ameaças.. De outro modo. comadre. não te matarei. Deixe-me. não m e mate — suplicou o coelho.... . Quando doesse o penteado. Penteia-me! — Só se a comadre deixasse. Já não está aqui quem falou.. onde a amarrou fortemente. de onde voltou com u m a rodilha de cipó. tratante! — Pelo amor de Deus. 0 coelho deu u m salto na capoeira. — Eu. se m e penteares também o cabelo. passar-lhe o cipó. — Enganas-te. amarrá-la. A onça vendo que o cabelinho do coelho.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 53 traído e pachola. penteando o seu cabelinho para ficar bonita. Para desembaraçá-lo havia de doer. não porei o pente na sua cabeça. que m e vou. E disse-lhe: — Pois está bem.. mas muito grosso. A onça reparou no coelho e achou-o deveras muito engraçadinho com aquele penteado que nunca tinha visto. já não poderia matar-me. quando de súbito se apresentou a onça: — Vais pagar-me. E' se a comadre quisesse pentear o cabelo. comadre! nesta é que não caio! A comadre — perdoe que lhe diga — tem o cabelo muito bonito.. com que.

a toda luz. grande pedaço de idiota? haverá bicho mais valente e poderoso do que eu? 0 Lobo. mas o seu cabelo. com o seu pontinho debaixo do braço.54 LINDOLFO GOMES Depois tomou de u m a peroba e começou a bater sem piedade na cabeça da prisioneira. estava quietinha no seu canto. E bate que bate. A onça soltava urros medonhos e o pau cantava que não era brinquedo. estava morta. Estou arrependido de dizer tal coisa. Sílvio Romero. Por pouco. contar a todos os bichos que tinha liquidado a onça(1). E compadre coelho lá se foi. quando lhe apareceu o compadre Lobo e lhe foi dizendo : — Saiba de u m a coisa. inda mais. Antes que outrem. que é bicho valente — mas nem sempre atilado. como é isso. o bicho mais valente e destemido que existe no mundo. U m a pessoa prevenida vale por duas. O amigo da onça A Onça. e m que os figurantes são o Cágado e o Teiú. respondeu: — 0' comadre. documentando o que afirmei! com a versão que vem na coleção de René Bassot. m e perdoe. — Estou desembaraçando. como supõe.. — Como assim! gritou a Onça enfurecida. João Ribeiro demonstrou. por exemplo. Então. nem também o Leão. Mas a minha intenção foi preveni-la contra u m «bicho» terrível que apareceu nesta paragem. comadre Onça: Você — com perdão da palavra — não é. Você verá como vai ficar bonita. .. por já ter sido coligido por outros folcloristas. atribuindo-lhe origem indígena. que esse conto é literalmente africano. enquanto a onça urrava e jurava que havia de acabar com a raça do coelho. é verdade. (1) Deixo de registrar o conto do «coelho que foi à festa montado na onça». comadre. como se pensa — . com toda a sua prosa de rei dos animais. adoçando a voz. puhlica-lhe uma variante. 0 pente é u m pouco duro.

e é muito mal servido de unhas e dentes. . «seu» podrela. Eu — com sua licença — posso correr mais do que a comadre. com o estrondo dos espirros parecia que tudo ia pelos ares. — Pois bem.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 55 — Sim. e ninguém mais. menos isso. com os seus malditos espirros. comadre. de longe. a comadre e eu correremos. se fôr preciso fugir. peça-me tudo. chama-se «homem». Basta dizer que. — Ah. Isso não é fugir. — Lá por isso não seja — disse o Lobo amedrontado — iremos. Ih! comadre. vi o h o m e m fazer. Nunca vi. Deve ser u m « bicho » misterioso e encantado. Assim. Amarro uma das pontas no pescoço da comadre e a outra e m minha cintura. levaremos u m a embira daquelas que não arrebentam nunca.. em minha vida. será apenas arrastada por mim. Ele sim. não deixa você de ter alguma razão — acudiu a Onça mais acomodada. — Pois queira ou não queira. Deus nos livre! — Oh! compadre.. e desejo que. m e conduza ao lugar onde se encontra tão estranho animal. alguma vez onça fugir? — Não m e expliquei bem. com dois espirros. nunca m e atreveria a tal aventura. animal de mais perigosa valentia. comadre. Parece até fraco. o vi matar. A comadre. E m caso de perigo. E o que mais admira é ser o «bicho-homem» de pequeno porte. Mas havemos de tomar todas as precauções. ou ontão. Está certo? — Está bem. tem de mostrar-me o «bicho». Pelos estragos que. sem demora.. não m e diga! — E' como lhe conto. Faremos como propõe. Mas sempre quero saber o nome desse bicho. — Fugir! Veja lá como diz! Você já viu. Eu é que fugirei.. nada menos do que u m leão e u m a hiena. de longe. estou curiosa. agora mesmo perderá a vida. é que m e parece ser mesmo o verdadeiro rei dos animais. compadre. conforme m e disse o amigo papagaio. Como se chama? — Esse bicho.

uma. fora o causador da morte de sua amiga e comadre. senão u m a velha historieta popular muito divulgada em diversos Estados e cujo título é a expressão < t não ri não. há anos. o «bicho-homem». duas vezes. recolhemos e m Minas. bateu fogo. além desse. aliás muito prestimoso. no momento tão e m uso em nosso país. ou por ignorância. sem o mais leve movimento. tal como é usado pela gente inculta. Ottoni Tristão e outra o saudoso intelectual e jornalista Heitor Ouimarães. que aos serviu de guia e m longas viagens no município de São Paulo de Muriaé. o velho Cassiano. Conhecida há muito a origem da expressão «amigo urso». Cl) Eis a nosso ver a origem da frase — «amigo da Onça'. 0 Lobo. atarantado. ampíiou-se o significado dessa frase. De repente. Não nos é possível atribuir-lhe outra origem. . ambos professores da antiga Escola Normal Santa Cruz. E m conclusão: 0 Lobo. o Lobo sentiu que a Onça estava mais pesada. redobrando quanto podia as forças. então. ao tempo sob nossa inspeção. ou de fato sendo. Narrou-nos u m a delas o dr. que o negócio é sério » (1). a puxá-la. surpreendido. na qual vemos o emprego erróneo do imperativo negativo. então. tirou da cinta a garrucha e. muitos outros elementos de diferentes espécies folclóricas. que passou a designar também o indivíduo considerado falso amigo ou traidor. dando-nos a conhecer. sem o querer. muito afeiçoado a outrem venha a causar-lhe imprevistamente. e contemplou a companheira estendida no chão.56 LINDOLFO GOMES E partiram. ao avistá-los. muito respeitoso e tímido. comadre! «não ri não. procedendo dassarte como o urso da célebre fábula de La Fontaine «LOurs et 1'Amateur des jardins». Julgamos não haverá explicação mais plausível para a frase e m apreço. Pois igualmente do fabulário antigo é que. a nosso ver. Não é de agora que se tem usado a expressão camigo urso». de Juiz de Fora. Quando chegaram ao destino. que o negócio é sério». tremendo como varas verdes: — Eh lá. Entretanto a primeira variante que nos foi dado recolher obtivémo-la de u m homem do povo. 0 Lobo. prejuízos e outros males inesperados. que foi mesmo u m estrondo de todos os diabos. Parou. isto é. provém a frase «amigo da Onça». Dessa historieta conhecemos diferentes versões que. sem perceber que a Onça havia morrido enforcada no laço da embira — antes pensando que estivesse apenas cansada — disse-lhe. e m referência a individuo que parecendo ser. que se universalizou. com os dentes arreganhados. mais que depressa disparou n u m a corrida desabalada. A Onça com a embira atada ao pescoço e o Lobo. para arrastar a Onça pela forte embira « que tinha atado no pescoço dela». ou seja o traíra da gíria plebeia. já muito distante. espirrou.

mas de ruim fama. figuram outros animais. — E se aparecesse a danada e viesse para nosso lado? — Engatilhava a minha trochada de dois canos.. estivesse quase nos apanhando? — Não tinha demora: trepava mais que depressa numa árvore. — Ah! amigo velho. muitos até pertencentes a fontes literárias popularizadas. com a pressa de sair. ultimamente representada n u m dos teatros cariocas. porém. — E m e deixava no perigo. — E se o facão não estivesse na bainha? C o m o às vezes acontece a gente esquecer e m casa. — E se o tiro falhasse? — Disparava o outro cano.. Dizem que por lá há cada pintada que é mesmo u m perigo na certa. Outra fonte que muitos pretendem ter dado origem à expressão «amigo da Onça» é certa anedota que tem aparecido e m almanaques e que já corre em diferentes versões... mas os pais se opuseram. v. e m lugar onde diziam haver onças. queria porque queria. até vér. esta versão resulta apenas de u m a anedota recente. para uma caçada. havia sido m a u filho.. Certa vez apareceu u m h o m e m meio arranjado. aliás tímido. — E se a Onça. nesse caso não havia outro remédio: pernas para que te quero. C o m o não se ignora. g.. e m vez de Lobo. conforme se sabe. e esperava. — Nessa é que eu não caio — respondeu o convidado. e não tinha talvez. — E se negasse fogo? — Então! ora essa! N u m pronto arrancava do meu facão de mato. que.. Não 6 tradicional. — Qual perigo nem nada! Não aparece onça nenhuma!. (1) Colhido e m Lima Duarte. E o casamento se fêz contra a vontade dos velhos.. A moça se apaixonou por êle. A moça bateu o pé.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 57 O m a u marido (x) Era uma moça que vivia muito feliz em casa dos pais. querendo casar com ela. u m a das quais é a seguinte: U m velho caçador convidou u m amigo. e esperava a bicha. sem que se saiba como. . e era na certa.. Não terminaremos. a do «amigo urso» acima citada. e extensamente se vulgarizam.. Preferimos explicar a origem da frase através do conto popular que reproduzimos e m primeiro lugar. vai. sem notar que em algumas das variantes da historieta.. parábolas e fábulas.. a mais e mais.. Quando apanhasse distância apertava fogo. com o pressentimento de que a filha não teria boa sorte casada com aquele h o m e m que. não vai. numerosas são as frases que surgem. dá título a u m a peça humorística.. não é?! 0 que estou vendo é que vocô é mais amigo da onça do que meu! Nada de caçadas! C o m o se vê. e que não raro procedem de antigos apólogos. que acabamos de reproduzir..

Mais para tarde chegou o marido e. e nunca mais a moça voltou a ver os pais. e quando o viu a ferver armou-se de u m facão e obrigou-a a engolir o mingau quente. A mulher entrou no quarto e. mas era tarde. A pobrezinha chorava. que era ladrão como não havia outro. sob pena de morte. 0 malvado ao ouvir falar em Deus sentiu u m abalo. pô-la no fumeiro e quando foi para a lavoura recomendou à mulher que tomasse conta daquilo. Era êle u m verdadeiro avarento que de tudo quanto acontecia punha sempre a culpa na mulher. Depois mandou preparar nova quantidade. e m seu oratório. começou o marido a dar-lhe maus tratos. Depois demorou-se muito tempo a rezar. desceu pelo telhado e carregou com grande parte das linguiças. come. mas êle gritava. por u m instante. despachou a toda u m moleque de confiança a avisar os irmãos. Passado algum tempo. U m a vez o marido mandou preparar grande partida de linguiças. E disse logo: — 0 teu jantar de hoje vai ser u m a panela de mingau fervendo. A pobre de Cristo pôs-se a vigiar o fumeiro. dando es- . Fê-la preparar o mingau. para despedir-se do mundo bem com Deus. que a desprezaram. furioso: — Come. m a s o gato. quando soube do negócio. e colooou-as no fumeiro. às colheradas. pois o desgraçado deu-lhe tremenda sova.58 LINDOLFO GOMES 0 casal foi morar duas léguas distante. A coitada bem se lembrava dos conselhos dos pais. investiu para a mulher. Veio o gato e comeu-as. Pôs de novo a panela no fogo e deu à moça o prazo de u m minuto para encomendar a alma a Deus ou ao diabo. A mulher foi quem pagou. da janela. bufando de raiva. rogava por todos os santos que há no céu. Ela pediu para ir rezar. que vais morrer.

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muito triste. com os olhos na estrada. Reconheceu-os. E o bruto bramava: — Come. para tomar tempo. Então a mulher. vagarosamente. bateu enfim à porta do quarto. Ela. dois cavaleiros a galope. arrastando cada vez mais a voz para ganhar tempo. . entregou-lhe a colher e gritou: — Come. dando folga a que o mingau esfriasse. Não estaria penando Nas mãos deste malvado. Quando a panela já estava quase no fim e o monstro via que a mártile não morria. quase pondo-a abaixo. tirou u m a colherada e pôs-se a cantar. C o m e mais. A moça veio abri-la e êle arrastou-a para a cozinha.. de u m só golpe. E apontou-lhe a arma.60 L1NDOLFO GOMES paço de o recado chegar a destino e pedindo a Deus que a livrasse daquele perverso. desesperado. O marido. Ela engolia o mingau e. do contrário morres de barriga vazia. botar-lhe a cabeça abaixo. oome. Fê-la ajoelhar-se e m frente da panela de mingau. quem comeu minhas linguiças. E voltou. Eram os irmãos. Nesse momento a mulher avistou. tirava outra colherada. continuava a cantar. foi afiar o facão para. para morrer de barriga cheia. O marido disse-lhe: — Vais comer a última colherada. E punha-so a cantar. Não estaria penando. mas com voz mais animada: Se eu tivesse minha mãe E m e u pai a m e u lado. descendo o morro próximo. assoprando-o: Se eu tivesse minha mãe E m e u pai a m e u lado.. senão tu. que não foi o gato.

Candombe-serê. Candombe-serê. Se sua avozinha a mandava a algum lugar. U m dia saiu a u m mandado. Minha afilhadinha. (1) Vê-se que este conto. Minha madrinha. (2) O u Ponguê. E a madrinha respondeu: Não te abro a porta.. Mal se precatou. apareceu-lhe o bicho Ponde que por força queria comê-la. não. — Este conto foi colhido em Juiz de Fora. O bicho Ponde (2) Era uma vez uma menina que não parava em casa. e a menina cantou. demorava-se pelas estradas.sfoi mação mestiça. Quer m e comer. Chegaram. Candombe-serê. de tran. já os irmãos. Canãombe-seré. Candombe-serê. . A menina começou a chorar: — Não m e mates. batendo à porta: Me abre a porta.CONTOS POPULARES BRASILEIROS Cl E quando disse: Nas mãos deste malvado.. e por lá ficou horas esquecidas. Deixa-me chegar à porta de minha madrinha. Tomaram-lhe o facão e o mataram. Candombe-serê. O bicho consentiu. valentes como as armas. E lá foram os dois. como outros dizem. Que o bicho Ponde. se tinham atirado contra o perverso. Levaram a infeliz para a casa dos pais que a receberam e ficaram muito contentes (x). tem a sua fonte originária na conhecida história do Barba Azul. distraída a brincar.

a menina cantou. por onde entrou a menina. A menina pede para bater à porta da sua avozinha. de novo. Candombe-serê. Quer m e comer. Quer m e comer. Novo canto e nova negativa da tiazinha. Canãombe-serê. A irmã respondeu-lhe. chorando. que não. 0 bicho avançou para a menina. Que o bicho Ponde. Candombe-serê. 0 bicho já estava impaciente. matar a menina. 0 bicho deu então u m salto para devorar a menina. Chegando. Que o bicho Donde. Te havia de comer. Que o bicho Ponde. Mas. Candombe-serê. Chegam. correu a abrir a meia folha da porta.62 LINDOLFO GOMES Eu bem te dizia. Foram. pela mesma toada. com as lágrimas nos olhos e soluçando que fazia dó: Me abre sua porta. Canãombe-serê. Candombe-serê. Ainda arranhou-a n u m dos . lá chegando. e a menina pôs-se a cantar. O bicho «Ponde» quis. Caminharam. ela pediu-lhe que a deixasse ao menos chegar à porta de sua irmãzinha casada. Canãombe-serê. 0 bicho deu u m salto. A mãe. Minha mãezinha. ouvindo a vozinha de sua filhinha. que lhe rogou a deixasse chegar à porta da tia. Canãombe-serê. A avó respondeu-lhe que bem lhe dizia que o bicho «Ponde» a havia de comer. ainda lhe pediu que a deixasse chegar à porta de sua mãezinha. a coitadinha cantou: Me abre a porta. Minha irmãzinha. Canãombe-serê. Ela.

Se o fizeres. muito semelhante ao homem. segundo o africanista Augusto de Castilho. da África denominado pongo. e m frente da casa. Quando os irmãos da menina se levantaram. nunca mais se demorou. fala de u m animal de Borneus. embora tenha o talhe de gigante. . Foram muito devagarinho. pág3. segundo R. 9) vem a afirmação de Purclias. . l l i ainda quem suponha que ponguê ou ponguc seja designativo oiro ao cachorro selvagem ou cacliorro do mato. que o tal «Ponguê» seja o gato do mato que tem. Fulano era u m sujeito muito orgulhoso. porém que as conduzem consigo. 8 e 0) fala de u m animal indígena. para o trabalho. A menina. Ciclo de « Pai João » A pedra de diamante Era um dia uns estudantes que tinham em sua companhia Pai João que lhes servia de pajem. daí por diante. a nosso parecer. . e m outra se dizia kibungo e m lugar de Candombe. chamado « Pono-o » e m que encontra muitas características atribuídas ao « Caipora » . Não conheço nenhum animal com o nome de « Ponde» ou « Ponguê ». E m outra variante que ouvi e m vez de Ponde ou Ponguê se dizia 'abundo. este conto é variante africana. E m nota à margem (pág. apontaram as armas e o mataram. de que os pongos são uns macacos gigantes — acrescentando que i íazem mal ás pessoas. Ponguê deve ser uma alteração de pongo. é u m a espécie de batuque com que se entretém os negros e m seus folguedos. E' a melhor lição. o nome cafreal de « Bonga » . . '«Candombe». deixando-a muito ferida. Fulano e almoçar com êle na mesa. que os pretos dizem de u m e outro modo. de madrugada. à espera da menina.A alteração para «Bonguê » ou «Ponguê » seria explicável. Mas teve de recuar. ganharás dez mil réis de gorjeta.CONTOS POPUL\RES BRASILEIROS 63 ombros. deram com o bicho Ponde dormindo debaixo de u m a árvore. Este dr. u m a vez se estivesse gabando de que não fazia senão aquilo que não queria. (1) C o m o se vê claramente. todavia. o célebre naturalista. . Rohan. quando ia aos mandados de sua mãezinha ou da avozinha (1). ° Pode-se supor. Pai João era velhaco e como. vai os estudantes disseram-lhe assim: — Sempre queríamos ver se eras capaz de ir a casa do dr. porque a porta se fechou. Huxley (Du Singe à Vhomme. Lund.

Mariquinhas.. Pai João tá cum zideze. Daí por pouco levantaram-se todos da mesa e o doutor carregou Pai João para o escritório e perguntou-lhe. Enveredou pela sala de jantar. traga prato e talher para Pai João. u m a pedra de diamante deste tamanho quanto é que vale? E apontou para o bolso onde queria embromar que tinha a dita pedra do tamanho de u m a laranja. Mas Pai João não pateteou e respondeu: — Eh! m ê baranco! Pai João vai armoçá na mesa cum sê douto. e disselhe assim. mi réis na zunha. Tratava a todos com pouco caso. não querendo dar desconfiança às outras pessoas do segredo daquele achado. com ar de importância que ninguém podia com êle.64 LINDOLFO GOMES muito cheio de si e muito rico. O doutor pensando que de verdade Pai João havia encontrado algum diamante de tanto preço. limpando os beiços no guardanapo. baixinho. tão aflito estava por ver o diamante. no terno preto que lhe deram os estudantes. muito baixinho: . 0 doutor fêz com que o almoço acabasse depressa. nhonhô. E quando veio o criado abrir foi entrando muito tal e qual. sentou-se à mesa e pôs-se a comer todo concho. encarou com o doutor que olhava para êle carrancudo e espantado. você como vai? Já almoçou? Senta Pai João.. 0 velhaco do negro velho que estava todo pelintra. mudou de conversa: — Então. com jeito de quem pergunta: — Eh. Pai João foi rondar a casa e quando viu que «seu» doutor já estava na mesa com a família e com dois manda-chuvas do lugar bateu na porta com força. Pai João. justamente na hora do almoço de seu doutor. N o dia seguinte. Pai João não promete que não cumpre. Eh! m ê baranco! Pai João vai mostra a vansuncês tudo cumo se ganha dinhero à toa. Não tirava o chapéu a ninguém.

Q u e m é Pai João pra pessuí pedra de diamante!. Ficou muito admirado e correndo a mão pela cara. — Eh! Eh! Mãe Maria. Fizeram-lhe a barba e raparam-lhe a cabeça. negro do diabo.. que o esperavam na rua e fizeram u m a grande flauta do caso... cadê 5 Contos Populares Brasileiros . sentiu-a pelada como uma garrafa. debaixo da árvore. não disse que achou u m diamante?. — Sim. qué isso! Cadê barba. m ê baranco.. que é da pedra? — Eh! m ê baranco.. e despertou-o. acorda. Pelo meio da noite. Pai João e Mãe Maria Pai João e Mãe Maria eram casados e lá um dia foram a u m a festa. Pai João não tem pedra de diamante nenhuma.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 65 — Então. ziparcero e zibaranco não m i m logra. — Eh. — Eh.. patife. Já é dia.. galo tá cantano. Pai João acordou atordoado. 0 doutor furioso correu com êle pela porta fora e Pai João foi ao encontro dos estudantes. pagando-lhe os dez mil réis de gorjeta... Os parceiros o encontraram e resolveram pregar-lhe u m a peça. — leu. — Pois você. Pela madrugada o pagode tinha acabado.. Pai João. por que é que perguntou — quanto vale u m a pedra de diamante deste tamanho?. B a m o pra casa. m ê baranco! Pai João não minte. passou a mão pela cabeça e não achou a carapinha. ieu queria sabe que é pra quando ieu acha zoutro. pedra... — Então. — Eh! m ê baranco. a pedra de diamante. ao espreguiçar-se..... Mãe Maria foi dar com Pai João a sono solto.. levantou-se e. Pai João.. Pai João que tinha bebido muita temperada adormeceu debaixo de u m a árvore.

umbigada pra acolá. — Uê.. acabou a festa e Pai João voltou para casa. mi dá mia trouxa. . — Nom. Pai João ficou.. Mãe Maria! N o m tem barba na cara. A resto resolveu encaminhar-se para o rancho. Pai João vai s'imbora. ieu n o m sou mais ieu! O que os outros não querem.. Mãe Maria! Vai lá ni casa vê se ieu tá sentado ni zibanquinho.. Abraço pra aqui. onde êle parou e ficou olhando Mãe Maria sentada na porta muito triste. cheias de alegria. Vai u m dia Pai João foi a u m pagode e m casa de umas tias conhecidas o lá passou toda a noite a folgar com a rapaziada. a esperá-lo. Eh! M ã e Maria! Mi buruganharam. Pai João não cabia e m si de contente. com a m ã o na cara. n o m tem cabelo na cabeça! Vai precurá Pai João. Foi chegando e dizendo: — M ã e Maria. Pai João era casado com Mãe Maria e viviam felizes. Casa do zoutro tá alegre. As tias.. comparando a tristeza de sua casa com a alegria do pagode e o modo folgazão das outras tias com aquele feitio jururu de Mãe Maria. Mãe Maria. pois ancê passa u m a noite fora de casa e pru fim inda qué i por esse mundo!. de longe. M ã e Maria! Nussa Senhora do Rosário. Nunca t i nha assistido a u m pagode tão divertido. dançavam o jongo com os parceiros e cantavam com eles. tem festa. Desde que viviam juntos. Mãe Maria? Ieu tá buruganhado. com as suas saias engomadas e enfeitadas de rendas e crivos. Pai João. nunca Pai João passara u m a noite fora de casa.66 LINDOLFO GOMES cabelo. Pai João nom qué mais fica aqui. De madrugada. E m frente de sua cafua de sapé havia u m morro.. tem samba.

Juiz de Fora. M ã e Maria. dançano... como era.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 67 zirapariga tuda vestida de renda. Ni mia casa non entra ninguém. abraçano zi paroero e casa de Pai João tá triste que parece cova do zidefunto. 0 fazendeiro tinha u m preto velho da Costa chamado Pai João e entendeu de encarregá-lo desse serviço. Pai João e a « Fritangada » í1) Era uma vez um fazendeiro que resolveu fazer u m a grande criação de galinhas n u m retiro que tinha lá n u m grotão das suas terras. Pai João? — Nom. usou de manha a ver se êle gostava de ovos. ninguém qué sabe de M ã e Maria. E perguntou-lhe: — Pai João. nom. Ninguém vem ni casa de Pai João.. m ê sinhô. ieu tomem non qué. — E de ovos estrelados? — Nom. acrescentou. pois. — E de ovos assados no borralho? — Eh! Eh! nom. receando que o preto lhe passasse a perna e fosse gambá de galinheiro. m ê sinhô.. Mas.. deixando a casa pela última vez e a companheira muito triste e desamparada: — 0 que o zoutro n o m qué. Pai João n o m gota disso nom.. velho. Antão Pai João é gambá pramode come zi zovo cru?! (I) Oolhido e m Chácara.. M ã e Maria fica de m ã o na cara — puí — puí!. ieu vai vive no meio de ziparcero e das tia pachola. n e m nada de nada! Mi dá mia trouxa. . nem pagode. E pondo o picuá de roupa no ombro. você gosta de ovos cozidos? — Eh! Eh! m ê baranco. Mãe Maria n o m brinca.. Eh! Eh! — E de ovos crus. nom. m ê baranco. devia ter prática de criação. você gosta. brincano.

. No fundo do chapéu apareceu a fritada. — Vamos. em Minas. Desconfiado gritou: — Pai João.. que é isto? Mentiu a seu senhor? Pois não disse você. 0 preto tratava muito bem das galinhas e a criação prosperava que era u m gosto. que estralavam na frigideira. que não gostava de ovos? — Eh! Eh! m ê baranco! Pai João disse que nom gotava di zovo cuzido. .. Pai João ficou todo atrapalhado e não tendo mais tempo nem onde esconder os ovos. negro. im.68 LINDOLFO GOMES Apois vendo o fazendeiro que Pai João não gostava de ovos de modo nenhum. ri. que é isto! Está falando a seu senhor de chapéu na cabeça?! Tire o chapéu. olhando para êle.. m ê baranco (x). conservando o sainete e o idiomatismo populares. 0 fazendeiro aparecia por lá de vez e m quando e ficava muito satisfeito. Pai João n o m minte. e já muito espantado de ver o negro pela primeira vez falando-lhe de chapéu na cabeça. estava fritando ovos para o seu almoço quando n u m repente o senhor apontou na porteira que rangeu: rim. Pai João. viu a gordura da fritada correndo-lhe pela cara abaixo. 0 negro pateteou. o vendo que o branco chegava.. — Então. Muito desoochado correu ao encontro do senhor que... di zovo cru. Pai João não teve outro remédio senão descobrir-se. (1) Estes contos foram colhidos da tradição oral.. que era u m perfeito gambá. E deu o baque de aviso: báááo. De u m a vez Pai João. achou que êle estava muito bom para tomar conta do retiro e mandou-o para lá.. despejou-os dentro do chapéu de couro que pôs logo na cabeça... tire o chapéu. negro. di zovo assado. como procedo sempre que colijo trabalhos desse género. mas nom disse a m ê sinhô que n o m gotava di zovo fritangado.. Procurei reproduzi-los com a máxima fidelidade. im.

e começaram os dois a conversar.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 1» Pai João e a sinhá moça ( * ) Foram contar ao fazendeiro. Juiz de Fora. que Pai João tinha encontros amorosos com sua sinhá debaixo de u m a mangueira do pomar. e. Ciclo do diabo Nem o diabo as guarda (2) Foi um dia um marido que. 0 fazendeiro fingiu u m a viagem. vendo o senhor. que nem disse ai Jesus ! Sinhá moça levou u m a surra de relho pra inzemplo. (2) Colhido e m Chácara. mas voltou às ocultas para a fazenda. e ficou de espreita. E disparou o tiro na creca de Pai João. e tomou louvado: — Abença. Pai João olhou para cima e. E daí por diante teve muito juízo. apontou a espingarda. negro do diabo. tendo de fazer uma viagem e não depositando confiança na mulher. m ê sinhô. armado de espingarda. à hora certa do tal encontro. Pai João começou então a querer se adiantar. assubiu na mangueira. 0 fazendeiro. tirou o chapéu. quando o sinhô viajava. . e o senhor tossiu lá de riba. Por pouco chegou sinhá moça e não levou muito tempo veio Pai João. disse aborrecido : — Isto é o diabo! 0 cujo logo lhe apareceu e perguntou gritando: (1) Colhido em Barbacena. e respondeu: — Deus te abençoe. que era casado com u m a moça muito bonita.

que as cumpria n u m abrir e fechar de olhos. m a s era tempo perdido. — Vá socar aquela quarta de café. estava mesmo perdido.. mulher é bicho pior do que o diabo.70 L1NDOLFO GOMES — Que m e queres? Assim como assim. E n u m instante o diabo voltava com o café e m pó. por mais que corresse. que m e contas de novo? Guardaste bem a mulher? . Quando o homem chegou. A mulher. sem conseguir entrar era casa. querendo ficar à vontade. — Vá moer aquele meio alqueire de milho. E sem mais demora êle estava de volta com o saco de fubá às costas.. No dia seguinte o h o m e m partiu. enchia de novo a peneira.. T a m b é m ia ganhar aquela alma!. Êle começou a trabalhar. já a água tinha vazado toda. Mas. — Então.. Era como se não fosse nada.. a mais de u m quilómetro. Era o que a mulher queria. de modos que a dona ficava sem tempo para fazer o que muito bem queria. N u m átimo a lenha aparecia toda rachada. estava ainda o diabo na mesma peleja. 0 diabo não pensou que o caso era impossível de resolver.. Assim andou carretando o dia inteiro. Lembrou-se ela então de mandar o capeta carregar água e deu-lhe para o serviço — ora imaginem o quê? u m a peneira. respondeu : — Tenho que viajar e queria que você tomasse conta de minha mulher. indo encher a peneira n u m corgo. caminhava. e aceitou a incumbência. dava ordens ao pé de pato.. Voltava. deixando e m casa o diabo a título de empregado de cozinha.. — Rache aquele carro de lenha. Mas quando chegava perto de casa.

Veio o tempo das vacas magras e com êle a pobreza.. pingando suor. Foi buscar lã e saiu tosquiado O Foi um dia uma mulher ambiciosa e perdulária. M a s gastava tudo e m passeios. . (1) Colhido e m SanfAna do Deserto (município de Juiz de Fora) há longos anos. desacor coado: — Carregar água na peneira é coisa que não cabe no possível mas. dando por perdida a partida. Depois de muito caminhar. A mulher. montado n u m bonito cavalo arreado de ouro e prata. assentou-se à sombra de u m a árvore. mais impossível ainda é guardar mulher alheia. não queria saber de nada. e m trajes luxuosos. e m bailes e regabofes. mais.. Fosse lá como fosse queria dinheiro para satisfazer os seus caprichos desordenados. o pobre h o m e m saiu de casa e pôs-se a caminho sem destino. Certa vez e m que ela se tornou mais exigente. Perguntou-lhe por que chorava. e começou a chorar. ambicionava.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 71 O diabo. M a s aquilo não podia dar b o m resultado. atirou a peneira no chão. entretanto. Quanto mais dinheiro lhe vinha às mãos. nem o diabo as guarda. 0 marido era muito rico. mulheres quando querem. por mais que o homenzinho trabalhasse como u m mouro. com saudades de casa. E dizendo isso desapareceu. E é como lhe digo. Nisto apareceu diante dele u m h o m e m ricamente vestido. e como gostava muito dela fazia-lhe todas as vontades. e muito mais. a ver se milagrosamente alcançaria meios e modos de obter dinheiro.

sempre a encontrarás repleta de moedas. desapareceu o cavaleiro como que por encanto. Saudou-o e perguntou-lhe pela mulher. Vinha visitá-los. Passado o prazo fatal. 0 que ela queria era dinheiro para gastar e m luxo e folganças. À mulher pouco importava a origem de tal riqueza. Se ambos não m e receberem. até que u m dia fugiu de casa para muito longe. 0 pobre h o m e m viu-se abandonado e sem a bolsa maravilhosa. furtando-me a bolsa que m e deste. por fim. condoído de sua m á sorte. que foi aos poucos se aborrecendo do marido. E tanto folgou. pensou e aceitou a proposta. Dito isto. levando a bolsa recheada de moedas. Desde então. Dissera-lhe que havia recebido uma velha herança. E u aqui estou para recebê-lo. Mas a mulher há dois anos fugiu. não respondo pelo que te possa acontecer. 0 h o m e m julgou fosse aquele rico e bondoso senhor algum Santo que. apareceu-lhe à porta o misterioso desconhecido. voltou a ser rico e a satisfazer todas as vontades da mulher. Mas. a quem não relatara a misteriosa procedência daquele dinheiro. E o estranho personagem lhe propôs: — Terás tanto dinheiro quanto desejares. ao fim de dez anos. viera e m seu socorro. Veio a miséria. irei a tua casa e quero encontrar-te com tua mulher. — E para onde foi? . Descaiu em maior pobreza.72 LINDOLFO GOMES O h o m e m todo lamuriento contou-lhe sua triste história. Recebeu u m a bolsa cheia de moedas de ouro das mãos do desconhecido que lhe disse: — Por mais que gastes. 0 h o m e m pensou.

— Realmente está comigo...CONTOS POPULARES BRASILEIROS 73 — Não tenho notícia.. que havia razão de ser ciumento. Daí por diante o homenzinho atirou-se ao trabalho. E apontou-lhe uma. percebeu que o guarda era o cujo. pois m e privou de fazê-lo. Foi decerto para o diabo que a carregue. esqueceu a mulher. Contudo aconselhava os amigos. 0 diabo não teve nada que responder.. com o diabo no corpo. porque tem feito coisas que parecem milagres. O diabo na garrafa (x) Conta-se que um marido. E quando o pobre h o m e m se benzeu. que não era tola. dizendo: Em nome do Padre e do Filho e do Espírito Santo. ficou tentado e m mostrar todo o seu poder e mais que depressa meteu-se pela garrafa dentro. roubando-me a mulher. ao fazer uma viagem deixou o diabo guardando-lhe a mulher. (1) Colhido e m Juiz de Fora. faz ia-o n u m repente. Mas esta. Chamou-o e disse-lhe: — Você tem u m grande poder. — Sou o «dito cujo» em pessoa e venho agora buscar-te. Está. . porque não cumpriste o contrato. — Como assim? Então o senhor. porque tudo quanto lhe mandava fazer.. vazia.. deste ou daquele modo — toma tento! E' preciso mandar benzêla. 0 diabo. mas duvido que faça uma coisa. — Alto lá! Se não o cumpri o culpado foi você. na certa. dizendo-lhes: se a tua mulher começar a pôr-se fora da linha. Não é capaz de entrar naquela garrafa. seu grandissíssimo tratante. o « capeta » desapareceu n u m horrível estouro. e viveu feliz na graça de Deus. que é vaidoso.

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Ninguém podia com eles. Eram mesmo de pegar pra sair.. corre a igreja com esta garrafa e enche-a de água benta para espalhar na casa.. danado de raiva. marido. — E' mesmo. sem quê nem para quê saiu e não voltou mais. (1) Este conto corre também em Portugal. muito espantado e estúrdio. Era u m a catinga de pano queimado que ninguém podia aturar. esta deu u m estouro e o diabo. 0 Almocreve e o diabo.. positi- . 0 tolo pegou e fêz o que a mulher lhe mandava. de maneira que o diabo ficou preso e ela pôde gozar da l i berdade que ambicionava. T a m b é m aquilo parecia o diabo. maridinho do coração. mulher. Quando entrou na igreja e foi encher na pia a garrafa que desarrolhou. O s músicos prosas Havia numa terra dois músicos. Se o diabo estava preso na garrafa. a quem êle perguntou pelo empregado. saiu zunindo. Olha que cheiro de enxofre ficou e m casa. que ninguém mais o viu. afamados clarinetistas. O assunto principal serviu de tema para o belo oonto de Fialho de Almeida. voltou para casa sem saber explicar o acontecido e sem ter conhecido o segredo da mulher (1). Quando o marido voltou foi recebido com muitos afagos da mulher. — Ah. Tinham até partidos.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 75 A mulher no mesmo momento arrolhou-a.. 0 marido. corruscubas! Por isso mesmo eram rivais e andavam sempre de rusgas e pertenciam a bandas diferentes. como ura raio. atordoado com a água benta e avistando os santos nos altares. que catinga! Que havemos de fazer? — Vai.

0 outro ouviu paciente aquela maranha do rival. como se a minha música fosse u m a coisa nunca vista. que de mal. a ponto de não trocarem palavra. admirado dos sons que saíam da minha clarineta. . o caixão começou a mover-se. vinda do céu. «Foi preciso parar o dobrado para que a procissão continuasse a marcha e o Senhor dos Passos ficasse quieto no andor». em tal cidade. no diabo que o carregue!^) vãmente de fundo tradicional. foi-se levantando. Tem elementos do conto das Mil e uma Noites — 0 pescador e o espírito rebelde. gritou entusiasmado: — Vá tocar clarineta. a tampa abriu-se e o defunto. com u m gosto. Fui tocar no enterro de u m graúdo — gente como formiga! Começamos uma marcha fúnebre. as irmandades. e quando ia no melhor da festa. e quando foi a procissão. (1) Ouvido de u m senhor do Sul de Minas e de u m oficial da brigada mineira. Por pouco espaço. não havia quem não chorasse. a banda tocava u m dobrado tão lindo que meti a clarineta na boca. lá isso nunca estiveram e sustentavam sempre boa política. 0 povo estava apatetado.. E voltando-se para mim. pegando da palavra. até que ficou de pé. ao som do instrumento. saiu-se com esta: — Isto é nada e m comparação com o que se deu comigo na cidade Fulana. Por u m pouco viu-se que o Senhor dos Passos começou a mover-se no andor e como que a subir ao céu. gabando a minha clarineta. Foi u m a desgraça de espanto! Todo o mundo admirava e já nenhum outro instrumento sobressaía.. Eu continuei. U m deles disse ao outro: — Acabo de tocar há poucos dias numa festa do Senhor dos Passos.. Por fim. olhando para mim. Os padres. que não existia igual e m toda a redondeza. o povo. A minha clarineta chorava que era u m gosto.. tudo estava voltado para m i m e de boca aberta diante daquele milagre.76 LINDOLFO GOMES Uma vez encontraram-se e puseram-se a conversar. seu compadre.

repimpado na ruana. você a veja dar três zurros seguidos. Vai por um pouco. ia muito atento a ver quando ela dava os tais zurros. 0 novato era. que desse modo vens abaixo. Será na hora em que.. ao chegar a uma volta do ca(1) Colhido e m Juiz de Fora. caí mesmo. Passava por ali o vigário da freguesia.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 77 Morreu m e s m o ( ! ) Um novato foi mandado a podar umas árvores.. pensou lá consigo que o padre era adivinhão e como tinha adivinhado aquela queda também podia acertar com o dia de sua morte. Todas as vezes que viajava. 0 padre achou muita graça e resolveu zombar u m pouco com êle.ma disse-me que eu havia de cair da árvore e. zás! parte-se o galho e vêm ao chão tanto a escada como o podador que ficou com u m dos braços e m petição de miséria. Lá por uma vez. bem sei quando você há de morrer. montado na sua mula. amigo. O novato agradeceu muito e foi-se. C o m o não tinha prática desse serviço e era muito tapado apoiou a escada n u m dos galhos e pôs-se a serrá-lo. dito e feito. teimoso. Sem dar maior atenção ao padre continuou o trabalho. Foi ter com êle e falou-lhe: — V. B e m queria agora que m e adivinhasse o dia de minha morte. indo de viagem. 0 vigário prosseguiu o seu caminho. — Olhe. além de estúpido. e advertiu-o: — Olha. Rev. Quando cobrou alento. muito admirado do certo que saiu o conselho do reverendo. .

rezando todos o terço. havia duas encruzilhadas. bom cabe de enxada. até que o defunto ergueu a cabeça do fundo da rede e disse-lhes: —• Olhem. Por fim deixou a peleja e deu e m caçador. Levava a vida a caçar e m companhia de outros camaradas. Os homens ficaram indecisos: qual delas haviam de tomar por ser o caminho mais curto para chegarem a casa do morto? Começaram a teimar entre si. seguro de que estava morto. dois. no tempo em que eu era vivo o caminho mais curto era à esquerda. . ainda moço.78 LINDOLFO GOMES minho. C o m a queda veio o novato a morrer de verdade. amigos. Mas tanto que labutava não ia adiante. Vai depois passaram por ali uns trabalhadores que deram com êle estendido no meio do caminho. três zurros. obra de uma légua. bom trabalhador. caixa de ouroí1) A Havia um caboclo. julgou chegada a sua hora extrema. a mula preparou-se toda e deu um. os homens atiraram a rede ao chão com o defunto e tudo e fugiram a toda disparada. atirou-se da sela abaixo e soltou u m grito: — Morri! Não se moveu mais. puseram-no dentro dela e o conduziram para sua casa. Juiz de Fora. E a adivinhação do padre saiu certa: o bicho morreu mesmo. (1) Colhido em Chácara. que os havia contado com o coração aos pulos e crente na previsão do padre. Lá muito adiante. Assombrados. foram buscar uma rede no vizinho mais próximo. O novato. Crendo-o morto.

sem reparar no peso. U m a madrugada os rapazes que iam à caçada. ao passarem pela casa do preguiçoso. Arranjariam u m a caixa de marimbondos e lha trariam.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 79 Mas mesmo assim não se achou satisfeito. Quando vocês encontrarem por aí u m a caixa cheia de ouro. Mas vendo que não era assim. dizia — o que tem de ser tem muita força. muito amarelinha. Podia bem ser que os bichinhos o fizessem voar da cama com a dor das ferroadas. Quando chegaram no meio do mato avistaram no galho de uma árvore u m a caixa de marimbondos. para a casa do amigo. Tiraram-na e correram com ela. a sair daquele choco que não tinha jeito. respondeu que não ia e ficou a cochilar e a sonhar com uma caixinha muito amarelinha.. N u m a voz desanimada de quem se está despedindo do mundo. Bateram na janela: — Olha a tua caixa de ouro. bateram à janela e o convidaram a ir com eles. Os outros logo que partiram combinaram preparar u m a peça ao mandrião. mandou que fizessem u m buraco na parede em direção da cama e lha entregassem por ali. mas com preguiça de abrir a janela ou duvidando da verdade. Os companheiros vinham vê-lo. como justamente desejavam. até que por último se deitou na cama e fêz propósito de não trabalhar. Era lusque-fusque. cuidando que estivesse doente. o aconselharam a voltar ao trabalho.. Mas êle respondia: — O que fôr meu às minhas mãos virá. que o caboclinho estava mamparreanão. de não arredar mais dali: o que fôr meu às mmhas mãos virá. Assim foi feito e a caixa foi ter às mãos do preguiçoso. N e m sequer abriu a janela. Êle meteu os dedos nas aber- . a tua caixa de ouro! O outro despertando da madorna. tragam-me. cheia de ouro. às caçadas.

supõe o povo que a prática de tal ato ocasiona graves infelicidades. A ortografia. Atirou a porta sobre eles e caçou u m urubu que ficou com a perna quebrada. Malasartes e Malasarte são divergentes. A caixa pertencera a uns tropeiros antigos que a tinham enchido de ouro e escondido naquele dito lugar. Cf. minha gente. O ciclo de Pedro Malazarte (2) De como Malazarte fêz o urubu falar (3) Quando o pai de Pedro Malazarte entregou a alma a Deus. Juiz de Fora. Pôs a porta no ombro e saiu pelo mundo. Graça Aranha adotou para título de u m a de suas mais estimadas obras — Malazarte. deve ser Malasartes (cf. com o que êle ficou muito contente. Esta superstição envolve uma ideia de culto às coisas recônditas e ao mistério delas.80 L1NDOLFO GOMES turas da caixa que se desfez. (3) Colhido na estação da Grama. E m caminho viu u m bando de urubus sobre u m burro morto. fêz-se a partilha dos bens — u m a casinha velha — entre os filhos e tocou a Pedro u m a das bandeiras da porta da casa. empregado quando alguém descobre ou sugere algo de pouca importância: descobriu o mel ãe pau. quando viram o caboclinho muito lampeiro passar n u m empozão nas ruas do arraial. caindo nuvens de ouro e m pó e de moedas de ouro que tiniam. (2) As grafias Malazartes. . porquanto. Viu que estava milonário e gritou para os camaradas: — Obrigado. mas não a popular no Brasil. Malazarte. (1) E' crença popular que se não devem desmanchar ou destruir as caixas de marimbondos. más artes). o modismo segredo das abelhas e o dizer paralelo. mas que se usa e m sentido irónico. eu não lhes dizia que o que tem de ser tem muita força e que o que fosse meu às minhas mãos havia de vir? Os outros só mais tarde compreenderam o alcance dessas palavras. principalniente as que se encontram nas paredes das habitações. julgando que u m a caixa de marimbondos (J) velha não havia de despertar cobiça a ninguém. dono deste mundo e do outro.

pôs a porta às costas e continuou viagem. muito risonha. Quando a mulher percebeu que êle se aproximava mandou esconder os pratos do banquete e veio recebêlo e abraçá-lo. Neste mundo há coisas! Pedro Malazarte. trazendo o urubu. avistou u m a casa de onde saía fumaça. Veio atendê-lo u m a preta lambisgóia que foi logo dizer à patroa que ali estava u m vagabundo. Pedro Malazarte desceu de seu posto e bateu na porta. que sentia fome.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 81 Apanhou-o. Subiu e ficou espreitando o eme se passava naquela casa. tanto mais que sentia o cheiro dos bons petiscos. 6 Contos Populares Brasileiros . Pedro Malazarte. tão mal recebido que foi. paçoca de carne seca e eobu. com u m urubu e uma porta. dizendo: — Por que não m e avisou. Justamente na hora do jantar chegou o dono da casa que resolvera voltar inesperado da viagem que fazia. a pedir de jantar. muito fingida. Vai daí mandou pôr na mesa a janta que constava de feijão aguado. e ouviu as conversas e confidências da patroa e da negra. valendo-se da porta que trazia e lhe serviria de escada. marido? Sempre se havia de aprontar mais alguma coisa.. Espiando pelos vãos das telhas viu os preparativos e tomou nota das iguarias.. A mulher mandou que o despachasse — que a sua casa não era coito de malandros. Sentaram-se à mesa. bateu à porta e pediu de comer. Obra de u m a légua ou mais. mas por dentro queimando de raiva. O marido estava de viagem! e a mulher no seu bem bom a preparar u m banquete para quem ela muito bem o destinava. o que queria dizer que se estava preparando o jantar. 0 dono da casa levantou-se e foi ver quem era. resolveu subir para o telhado.

apresso use e m responder: — Pois então? pura verdade. mas de m á cara. A mulher estava desesperada. com a leitoa assada.. está dizendo que a patroa teve aviso oculto da volta do senhor e por isso lhe preparou uma boa surpresa. na travessa. 0 bicho adivinhou. — Falando! Pois o seu bicho fala?! — Sim senhor. — U m a surpresa! Conte lá isso como é. . — E' deveras! u m a excelente leitoa assada que está ali naquele armário.. — Pois é possível! 0' mulher. desconfiando com a volta do Malazarte.82 LINDOLFO GOMES O rapaz pediu-lhe u m prato de comida e êle chamou-o para a mesa a servir-se do pouco que havia. Estavam os dois homens conversando. por exemplo. puxou o urubu para debaixo da mesa. nós nos entendemos. Está falando comigo. mas muito intrometido. é verdade o que diz o urubu deste moço? ' Ela com receio de ser apanhada com todo o banquete e certa já de que Pedro sabia da marosca. E gritou pela preta: — Maria traze a leitoa. Queria fazer-te a surpresa no fim do jantar. Pedro tomou assento. Pedro respondeu muito sério: — Nada! São coisas. Não vê como o trago sempre comigo? E' u m bicho mágico. quando de repente o Malazarte pisou no pé quebrado do bicho e este se pôs a gritar: uh! uh! uh! O dono da casa levou u m susto e perguntou que diabo teria o bicho. Daí a pouoo Pedro Malazarte pisou outra vez no pé do urubu que soltou novo grito. preso pelo pé n u m pedaço de corda de pita. A negra veio logo correndo. •— Como assim? — Agora.

— E' verdade. Cala a boca.. Maria. traze o peru recheado que preparei para teu amo. Malazarte. encareceu ainda mais as virtudes do urubu e pediu este mundo e o outro.. enquanto a mulher e a preta bufavam de raiva. mulher? — U m a surpresa. doces e bebidas que havia em casa. propôs-lhe comprá-lo.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 83 O dono da casa perguntou: — O que é que êle está dizendo? — Bicho intrometido! Está candongando outra vez. Fechado o negócio. bicho! — O que é? — Outras surpresas. crentes também no poder mágico do bicho que assim seria um constante espião de tudo quanto fizessem. maridinho do coração. chaque matin. . propôs comprá-lo a Pedro Malazarte que o vendeu muito bem vendido.. Ao fim do jantar. (1) O fato de os corvos ee comunicarem pela «linguagem» com as pessoas é tradicional. Pline cite un corbeau qui. De como Malazarte vendeu o urubu 0 dono da casa vendo que o urubu de Pedro Malazarte era encantado e sabia descobrir todos os segredos. Veio o peru. et los payaient de grands prix. falando do corvo: t Ajoutez qu'il possède une merveilleuse facilite à apprendre à parler.. o dono da casa. encantado com as proezas do urubu. pescando que estava em véspera de fazer u m bom negócio. 191). — Outras! — Sim senhor: u m peru recheado. Les Romains faisaient grand cos des oorbeaux parleurs. E pelo mesmo expediente conseguiu Pedro Malazarte que viessem para a mesa todas as iguarias. p. Diz Henry Berthoud (Vesprit des oiseaux. venait de lui-mòme sur la place publique saluer par son nom 1'empereur réguant». Pedro Malazarte partiu satisfeito e vingado (í).

que amanhã teremos que saber muitas novidades. se saísse certo o que lhe dizia o Malazarte. e vai então a negra soltou u m grito. pois que. temendo que o marido despertasse. A rapariga. enquanto a preta estava fazendo o que prometera na cabeça do urubu. Vai senão quando. A preta teve uma luz. A senhora. mas não houve meio. para que êle não emudeça e possa contar tudo que tenha visto. a dona da casa. e disse que não havia perigo. Agarrou-a pelo braço. Mas a preta que tinha ouvido a combinação mal saiu da sala foi contar tudo à senhora. é preciso que haja o maior cuidado para que nenhuma mulher lhe verta água na cabeça. havia de receber a visita do sacristão da vila. saber. que ficou muito assustada. disse ao dono da casa de modo que a mucamba ouvisse: — Este bicho é deveras encantado. por onde saltou para dentro o sacristão. Quando o bicho se viu com a cabeça toda molhada. pois ela se encarregaria de verter água na cabeça do urubu para que êle perdesse o encanto. tendo Malazarte cuidado de deixar o bicho no corredor. . e não sabia como arranjar para que o urubu candongueiro não pusesse tudo a perder. e Pedro. Mas. Ãs tantas da noite todos se foram acomodar. E se quiser experimentar deixe-o esta noite ficar no corredor. justamente quando uma preta velha veio trazer café à sala. 0 h o m e m aplaudiu a proposta e prometeu comprar o urubu. «Èle é capaz de descobrir outras coisas que se passam e m sua casa sem o sr. lá para a virada da noite. pé que pé.84 L1ND0LF0 GOMES 0 h o m e m vacilou e m fechar o negócio. não teve mais conversa — tico! e deu uma bicada na preta lá onde quis e ela ficou segura. — Não m e diga isto! — E' o que lhe digo. veio abrir a janela. fazendo de sentinela. patrão. correu para arrancar a sua mucamba do bico do bicho. naquela noite.

apegou-se no braço da senhora que se pôs também a gritar.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 85 então no auge do aperto. . êle arrancou da faca. caiu desmaiada ao presenciar tal cena e Malazarte desapareceu. fingiu que abriu o ventre e deixou cair na água as tripas do carneiro. E os dois correram a ver o que era e encontraram aqueles três assim como estavam. o h o m e m voltou soltando u m milhão de pragas. E vai então o dono da casa descobriu tudo. deixando ficar o urubu. e Pedro Malazarte. que Pedro Malazarte havia feito o que ficou dito. de quem se despediu chorando. O sacristão acudiu para ver se podia ajudar as duas a desvencilharem-se. «deu tudo quanto tinha» e ao aproximar-se de um riacho encontrou uma mulher a lavar roupa. porque a lavadeira daria ao perseguidor a sua direção. tirou-lhe as tripas e meteu-as debaixo da camisa. Quando a manada passou. E porque Pedro já estava longe com o rebanho. mas vendo no pátio da fazenda u m a carneirada. pôs-se a caminho. moeu os ossos tanto da senhora como da escrava e resolveu comprar o urubu. ela respondeu. e perguntou à lavadeira se tinha visto passar u m h o m e m tocando u m a carneirada. Mas já a este tempo. Mas aí é que foi a história. De como Malazarte fingiu que se matava Vendo que a vítima vinha em sua perseguição. Pedro Malazarte havia despertado o dono da casa. desancou o sacristão a pau. A lavadeira deu u m grito. resolveu levá-la também e foi tocando como se fosse dono dela. e tomando u m dos carneiros. Abate que não abate. Quando o perseguidor chegou à toda. vintènzinho por vintènzinho. o h o m e m teve mesmo de encorropichar o cobre. Pedro Malazarte pediu pelo bicho cinco contos de réis. quase sem poder falar. Estava perdido. Mais que depressa tocou a carneirada a atravessar o riacho. que ali levou ocultas.

Fecharam o negócio e Pedro Malazarte meteu no embornal os rabinhos dos porcos e bateu o pé na estrada. . Pedro Malazarte que já previa que o fazendeiro havia de vir no seu rasto. E vai então vendeu a porcada. que valiam mais). propôs troca dos carneiros. E Malazarte teve logo uma ideia. m a s com a condição de o comprador deixar que êle cortasse a ponta do rabo de cada porco. Malazarte seguiu com a porcada e o outro com os carneiros. De como Malazarte rouba as jóias de u m a família. ficando no prejuízo. o chiqueiro estava que era mesmo u m lameiro. Como era tempo de chuva. m a s vendo que o h o m e m estava armado até os dentes e tinha muitos capangas. Ao ver o seu rebanho. tendo o porqueiro feito u m a volta e m dinheiro. pelos porcos. e m direção oposta. 0 porqueiro quis resistir. Fecharam o negócio. E foi dar no castelo de um ricaço que era casado e tinha u m a filha. encontrou um porqueiro que vinha tocando também u m a capadaria superior para vendêla na vila. 0 porqueiro foi pousar e m casa do dono dos carneiros.86 LINDOLFO GOMES De como Malazarte passa adiante a carneirada Já muito longe. não teve outro remédio senão fazer a restituição. e exigiu entrega do que era seu. E foi aceito. por u m precinho barato. (que valiam menos.. e tocou pra trás a ver se encontrava o Malazarte que já estava longe. e ofereceu-se para empregado. o h o m e m avançou para o porqueiro.. tendo tomado por u m atalho que foi dar n u m a fazenda.

perguntando ao patrão que estava lá embaixo: — As duas. recebeu o cobre. . que êle é que era u m pateta de marca. fugiu e foi tocar a porcada que tinha ocultado no dito retiro. O dono da casa mandou-o logo que fosse e m casa buscar duas enxadas a ver se podiam desenterrar os animais.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 87 De noite tocou para longe a porcada do ricaço e. foi a casa e não encontrou a mulher e a filha. bateu a procurá-las até que as achou amarradas onde Malazarte as havia deixado. mas Malazarte gritou. havia u m a bonita chácara que era do dr. E quando de manhã o dono da casa veio ver a porcada. comprou u m bom terno de roupa e foi parar em certa cidade. apenas com os rabos de fora. viu a dona e a filha passeando no jardim e lhes disse: — O patrão mandou que as senhoras m e acompanhem. tiroulhes todas as jóias que eram de grande preço. as duas. e sem demora! As duas. Malazarte lhe apontou o lameiro e disse-lhe que os porcos estavam atolados. lá chegando. A muitas léguas dali. E quando voltou é que viu que dos porcos só havia os rabinhos. voltando. Elas duvidaram. onde. espetou no lameiro as caudas dos porcos. logo na entrada. E quando o ricaço. pateta! E então as senhoras não puseram mais diferença e acompanharam Pedro que tomou com elas outra direção. o Malazarte negociou a porcada. Já longe o velhaco amarrou-as numa árvore. juiz de direito. patrão? — Sim. cansado de esperar. Pedro Malazarte foi n u m a corrida e.

este mundo é meu!. Procurou o vaso e. Quando vieram chamar o Malazarte para o café. o filho lhe contou o que se tinha passado e o tolo ficou muito satisfeito daquela hospedagem. Mas nisto avistou na prateleira u m a caixa.. . Abriu. não o encontrando. quando ouviu tropel dos criados saiu e. A família veio toda. havia dentro uma cartola de pêlo. pensando que tinha acontecido alguma desgraça. De manhã. depois de u m bom chá. onde o juiz costumava se vestir. não o acharam mais. jogando marimbo com u m seu compadre. abriu a janela. Estava salvo! Tirou a cartola. pois ficava até à meia-noite fora de casa. e. E vai então lá pela madrugada o Malazarte começou a sentir umas coisas na barriga.. que foi um barulho de latidos que nunca se viu. O Malazarte estava suando frio.88 LINDOLFO GOMES De como Malazarte faz mais uma que parecia duas Eram já por umas dez da noite. no quarto da sala.. fêz nela o que quis pôs outra vez na caixa e esta no lugar onde antes estava. deu-lhe pousada. tirou a cartola que enterrou.. Para que tal fizeste! Ficou com a cara enlameada e sentiu u m cheiro que quase o afogou. E quando o juiz chegou. dando o nome de doutor Fulano que vinha visitar aquela terra. de u m golpe. E vai então o filho do juiz na sua simplicidade. mas lá fora havia u m a cachorrada. mandou entrar o hóspede e. Vestiu a sobrecasaca. O Malazarte bateu à porta e pediu pousada. distraído. O juiz costumava entrar tarde. Começou então a gritar.... o juiz saiu do quarto e foi para o cómodo em que se costumava vestir.. À hora do almoço. na cabeça. Era dia de júri.

e m posição de cavaleiro. onde os dois ficaram. e. Pedro amarrou o corpo da velha no selim do matungo. De como Malazarte vende o cadáver da velha Nisto êle soube no caminho que sua mãe tinha morrido. 0 filho trouxe-lhe u m banho. . E depois houve risada que não foi brinquedo. Até parecia que tinha parte com Belzebum. pois que cada u m queria cuidar de sua vida. Mas. a mulher sabonete de cheiro. mas. a doença dela. A gente da casa já estava acomodada. Os irmãos começaram a escolher o que havia de melhor. em procura da porta. E saiu puxando o cavalo. a filha águaflórida. porque Pedro alegou o cansaço da velha. Pedro Malazarte disse: — Lá por isso não seja a dúvida. coitadinha! Mostraram-lhe u m quarto na entrada. Lá encontrou os irmãos que se fingiam chorosos. como era muito extremoso.. Ele também derramou muitas lágrimas e resolveram logo fazer a partilha. combinaram na partilha. E os jurados já estavam cansados de esperar por êle. enquanto o juiz bufava de raiva. já tarde da noite.. A herança não era grande. mas sempre havia u m sítio.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 89 Ao vê-lo naquele estado. umas terras e uma casinha. Os outros estranharam aquilo. Eu quero somente três coisas: u m a folha da porta da casa. Mas o Malazarte já estava longe. mas a pessoa que veio abrir consentiu na hospedagem. umas colheitas. e pediu pousada. Foi dar n u m a fazenda. prometendo voltar.. depois.. foi logo ter em casa. o corpo de minha m ã e e o cavalo matungo. como era fácil de contentar. correram todos a buscar socorro.

viu que sobre este estava u m bando de urubus. apareceu o dono da chácara muito zangado a perguntar-lhe quem lhe tinha dado ordem para fazer aquilo ali. logo. abriu a porta. quando estava no melhor. Este quando. pois a cabeça da defunta. desde manhã que estou aqui encostado. lançou-se sobre o cadáver da velha e fêz u m grande choro. quando o corpo caiu se tinha quebrado. O h o m e m fêz u m grande alarma. logo. Pedro Malazarte quando chegou com a porta onde ficara o cavalo. enveredou com êle pelo corredor e foi colocá-lo encostado à porta do quarto do dono da casa. Ao ver aquele quadro.. cansado da viagem. atirou a porta sobre o bando. nem beber só por causa dos outros. tendo ainda no caminho vendido o punga que. E. E Pedro Malazarte voltou para casa e m procura da porta. sob pena de ir queixar-se à justiça. Pedro disfarçou e respondeu: — Ah! m e u senhor. O fazendeiro não teve outro remédio senão cair com o cobre e ainda fazer o enterro do corpo. estão lembrados? De como Malazarte evitou que o mundo desabasse. . apanhou u m urubu que ficou oom a perna quebrada e seguiu viagem. Pedro Malazarte pegou no cadáver. arriou na estrada e morreu. levou um grande susto ao ver que u m corpo pesado caiu dentro do quarto. vindo logo Pedro. Encosto u-se a u m grande paredão pertencente a uma bonita quinta.. acusou o fazendeiro de haver sido o assassino de sua m ã e e pediu grossa gratificação.00 LINDOLFO GOMES A certa hora. E havia no chão muito sangue. esfregando os olhos e fingindo ter-se acordado naquele momento. Em certa altura deu-lhe vontade de verter água. sem comer. pela manhã. Esse dito urubu foi o mesmo que êle vendeu por cinco contos.

o mundo vem abaixo.. . se eu aqui ficar por mais tempo. mas. não há tempo. E antes que ficasse de todo limpo comprou uma panelinha de trempe. desde este momento. sem poder arredar pé. e até hoje está sendo esperado. — Não. m e apareceu a figura de u m anjo que veio descendo do céu e que m e disse estas palavras: — Por ordem do senhor Deus o mundo vai acabar à meia-noite de hoje. pois. se saio. mesmo porque. respondi. 0 h o m e m pensou e resolveu tomar o lugar de Pedro que prometeu voltar logo com a escora. De como Malazarte cozinha sem fogo Quando chegou à cidade. tudo estava arranjado. Pedro meteu-se em divertimentos com os estudantes e gastou todo o dinheiro. não resistirei e com a minha morte o mundo virá abaixo e ninguém escapará. u m a matula e seguiu viagem. patrão. vinha eu caminhando no m e u quieto.. — Deveras! — Ah! se o patrão m e fizesse o favor de tomar o m e u lugar enquanto eu vou ali no mato cortar uma escora. « — Só por isso não seja a dúvida. « — Imagine o susto que não levei! Mas o anjo m e aquietou: « — Há u m remédio para se evitar isto: é encontrar alguém que escore este muro. Antes de u m minuto o muro deve estar escorado. •— Você está doido! — Pois é verdade. quando cheguei neste lugar. E m e empurrou para aqui onde m e acho. vou cortar u m a estaca.CONTOS POPULARES BRASILEIROS ! ) 1 — Por causa dos outros? Então como é lá isso? — Estou escorando o mundo.

patrício. Nisto avistou u m senhor que andava caçando. Quando à hora da ceia foram cozinhar sem fogo. Os tropeiros. Os tropeiros viram naquilo u m achado. Pois não vêem logo que a minha panela é mágica? — Então cozinha sem fogo? — E' como estão vendo e a qualquer hora. o Malazarte tinha-se posto a muita distância. Fêz fogo. e ali ficou. mas já era tarde. 0 senhor quando se aproximou perguntou-lhe: — Que está fazendo aí a segurar nesse chapéu com tanto cuidado? — E' u m lindo passarinho que apanhei debaixo do . Malazarte tirou o chapéu e colocou-o sobre o que havia feito. provaram da comida e acharam tudo muito bom. De como Malazarte vendeu um passarinho Malazarte ia viajando quando lhe deu vontade de dar ãe corpo. quando avistou um rancho desocupado. Pedro Malazarte mais que depressa pôs u m monte de terra sobre o fogo e ficou muito quieto diante da panela que fumegava. pagando por ela quanto lhes fora pedido. vem chegando u m a tropa... Agachou-se no meio da estrada. posso negociá-la. deram com a marosca.92 LINDOLFO GOMES Já havia caminhado muito. de cozinhar sem fogo? Pedro respondeu logo: — Isto não é para todos. Resolveu descansar ali. pôs a panela de três pés com a matula a aquecer. Mas. ficaram muito espantados e perguntaram: — Que moda é esta. vendo aquilo. Compraram a panela. Mas. como a fada m e disse que estou por poucos dias. nisto.

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mas com a condição de Malazarte ir buscar a gaiola.. e os irmãos ficaram na palha. já impaciente. E eu não quero perdê-lo. De como Pedro dá mingau a certa velha. e foi buscar a gaiola... Pedro aceitou logo a oferta. Propôs comprá-lo. varados de fome. Deu os pregos. Pediram pousada. gente da lavoura e muito pobre. agarrou u m a coisa muito diferente. soltou pragas. Depois de caminharem muitas léguas. nem nada que lhes dar para matarem a fome. chegaram à casa de u m casal de velhinhos. pois era grande apreciador de pássaros cantadores.91 LINDOLFO GOMES chapéu. no monte de palha. Os velhos foram para seu quarto.. Mas os velhos disseram que não tinham cómodo. depois de muitas negaças. Então o homem. deixou o tolo a tomar conta. 0 homem ficou muito curioso de ver o canário. enquanto Pedro já estava muito distante. fechou o negócio por bom dinheiro.. meteu a mão debaixo do chapéu e.. O tempo ia passando e Malazarte não voltava. Estou à espera de alguém que queira tomar conta dele. e se divertindo à custa do trouxa. Foi então que Pedro se encontrou com um de seus irmãos.. Pedro. com quem gastou em pândegas muito dinheiro. Esvaziada a bolsa. seguiram de viagem juntos. — Só se quiserem dormir na salinha.. Canta que é u m gosto. tomou o partido de apanhar o pássaro com a m ã o e levá-lo para casa. . C o m toda a cautela. enquanto vou buscar uma gaiola. quando pensou que pegava o canário.

Foram para o quarto e enquanto o irmão segurava com muito medo a panela.. andando na ponta dos pés. antes de irem para o trabalho.. quando o velho despertou furioso com a mulher. Comeram quanto quiseram. para comerem de manhã. você não está ouvindo u m chiado?. Já estavam longe. E qual não foi o espanto deles.. o Malazarte ia pondo com a colher o mingau onde supunha que era a boca da velha. avozinha? sopra. — Eu! seu tratante! eu! — Não se faça de tola. que não foi outra senão você mesma! Mas então a velha sentiu alguma coisa lá nela mesma. saltando fora da cama.. logo ao amanhecer.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 93 Mas. Q u e m sabe se na cozinha há alguma coisa que se coma? 0 outro respondeu: — E' possível. E os dois que nunca tinham brigado agarraramse às unhadas.. até fartar-se e. e perguntou ao irmão: — Manuel. levou o irmão para a cozinha. de madrugada. minha velha! Depois de irem levar a panela à cozinha. Pedro. disse que estava com muita pena da velha e que lhe ia também dar um' pouco de mingau. De vez em quando ouviam uns sopros e Pedro dizia baixinho: — Está quente. os dois irmãos puseram-se ao fresco.. como Pedro era u m grande pândego e não podia passar sem fazer das suas. quando viram a cama toda cheia de mingau. a quem acusava de ter desfeiteado a cama. . Essa gente da lavoura costuma deixar a panela no fogo durante a noite. onde encontraram no fogo u m a panela de mingau de fubá fumegando. o Malazarte sentiu um cheirinho bom e ouviu o chiado de uma panela lá na cozinha.

precisavas entrar no céu e quem entra no céu dele não pode mais sair. — Mas então eu desejava falar com o Padre Eterno.96 LINDOLFO GOMES Correram para a cozinha e acharam a panela vazia. Pedro. a fim de render as suas homenagens ao Padre Eterno que supunha ali vir. S. — Mas o teu nome não está no livro dos justos e portanto não entras. pois o céu é dos arrependidos. S. O santo porteiro respondeu: — Estás louco! Pois ainda tens coragem de querer entrar no céu. E Pedro Malazarte então pulou para dentro do céu. E disse: — Não. só pela frestinha da porta para que tivesse uma ideia do que fosse o céu. Eu não te dizia!! S. Senhor que vem falar comigo. e lamentasse o que havia perdido por causa das más artes. Pedro voltou-se com todo o respeito para dentro do céu. S. já amolado. N. Malazarte se pôs a lamentar e pediu que o santo ao menos o deixasse espiar o céu. depois que tantas fizeste lá pelo mundo?! — Quero. abriu uma fresta da porta e Pedro meteu por ela a cabeça. De como Malazarte entrou no céu Quando Malazarte morreu e chegou ao céu. S. Senhor Jesus Cristo. . disse a S. e tudo quanto acontece é por vontade de Deus. Pedro. Pedro. para falares a Nosso Senhor. Pedro zangou-se só com aquela proposta. foram à sala e já lá não estavam os hóspedes. Mas de repente gritou: Olha. Pedro que queria entrar. salvante a N. Rogaram muitas pragas e juraram não dar mais pousada a ninguém.

. u m a vez entrando.. — Não tem nada não. Esta m e hás de pagar. ao lado de u m tabuleiro de bananas maduras que' era u m gosto. tingiu-lhe a cara de carvão e colocou-a na porta. E a bonecra quieta. hoje Goiana.. Saiu apregoando: — Q u e m compra manteiguinha fresca! quem compra manteiga de boião! U m a velha. N e m se mexia. ladrão de macaco.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 97 O santo viu que tinha sido enganado. O macaco e a velha (x) Um macaco muito esperto precisava ganhar uns cobres e vai daí encheu u m boião de certa coisa e por cima espalhou u m a camada de manteiga. Tornou a pedir. Arranjou u m a bonecra de cera. e a bonecra nada. Pedro não teve outro remédio senão deixar o Malazarte lá ficar. Quis pôr o Malazarte para fora. lembre-se que m e disse que do céu. ficou tentado. Daí a instantes meteu mãos à obra para fazer u m panãeló e ficou indignada com a manta que o macaco lhe passara. E' a eternidade! E S. vendo as frutas. m e dá u m a banana. 0 macaco passou e. Pedro. Já meio zangado tornou o macaco: (I) Colhido e m Limoeiro. chamou-o e comprou-lhe o boião de manteiga. mas êle contrariou: — Agora é tarde! S. 7 Contos Populares Brasileiros .. ninguém pode mais sair. que estava a preparar doces para um banquete que ia dar dentro de poucos dias. Chegou-se à bonecra que êle supôs ser uma preta de verdade e disse-lhe: —• Caterina.

. m e larga minhas duas mãos. E u também. olha que te dou outro tapa.. Que dói. A negra muito espantada foi chamar a senhora que não quis saber de cantigas e mandou que continuasse o trabalho. m e dá u m a banana. a velha.... que espreitava da janela o que se passava.. Caterina. E u também tenho filhos. — Caterina.. correu para agarrar o macaco: — Agora já não m e escapas mais. dói. Não teve resposta e deu o tapa e ficou com a m ã o agarrada na cera da cara da bonecra. me dá uma banana. dói. — Olha. A bonecra quieta. dói. . dói. m e larga minhas mãos e meu pé.. m e larga minha mão. Que dói. e o macaco cantava: Me depela devagar. senão te dou outro pontapé. m e dá u m a banana. Quando a cozinheira degolou o macaco. Que dói... Vendo-o preso. dói.. cantando: Me degola devagar. 0 macaco arrumou u m pontapé na barriga da figura e ficou preso.98 LINDOLFÓ GOMES — Caterina.. m e dá uma banana. se não te dou u m tapa. Que dói. Chamou a cozinheira para preparar o macaco para o banquete que era naquele dia. tenho filhos.. 0 macaco — paf! deu outro pontapé e ficou seguro. Deu e ficou seguro. dói. dói.. A bonecra nem resposta. este pôs-se a chorar.. se não te dou u m pontapé. dói.. A cozinheira começou a depelá-lo. — Caterina.

Que dói. dói. todos tocando violas. 58-59.. já metido no forno: Me assa devagar. Que dói. N o volume (da Bibl. A mulher manda-lhe que saia por esse ou por aquele lugar e o peixe dá as razões por que não aceita o conselho. acompanhado de u m a recua de macaquinhos. E' fora de dúvida ser tal conto de procedência africana. Eu também tenho filhos. Na hora do banquete estava a mesa cheia de doutores e graúdos e o macaco dentro da travessa.. . . Todos olhavam desconfiados uns para os outros. no Brasil. do Povo) A L Í N G U A D E A N G O L A . Depois desta nossa exegese (1018) outros. E u também tenho filhos. (1) Deste conto há u m a variante muito incompleta publicada por Sílvio Eomero..CONTOS POPULARES BRASILEIROS E o macaco cantando. E depois.. dói. correndo para o quintal. A mulher estala pelo meio e o peixe vai-se embora. vem u m conto. págs.. no qual. dói. conversando muito e comendo ão macaco com apetite de vingança. mas a prioridade do achado e confronto acima indicados ninguém no-la poderá contestar. ao ser comido. Ao terminar o jantar ouviu u m a voz dentro da barriga a perguntar-lhe por onde havia do sair. Que dói. mas passou no Brasil por sensíveis modificações. dói.. cantando: — Vi o fió de sinhá velha! Vi o fia de sinhá velha! ( ! ) .. Batalha. dói. Daí a pouco saía o macaco. mas a velha procurava distrair os convidados.. Que dói. De repente sentiu uma revolução nas tripas e correu para o quarto. referiram-na. dói. Até que enfim ela lhe diz que saia por onde quiser. por Lad. em vez do macaco. é u m peixe que canta. dói. ainda cantava: Me mastiguem devagar. quando uma mulher o vai escamando e depois quando o mete na panela e quando o come. sem citarem o nosso modesto nome. dói.

Não se lembrou de mudar o leito do lugar e m que estava. começou a chover torrencialmente. Nunca se lembrou de que podia colocar a luz à cabeceira e apagá-la com u m sopro. Havia sobre o leito u m a grande goteira. perdeu u m níquel de cem réis. ou seja o cónego Filipe. . Todas as vezes que errava. E vai então comprou uma vela por dois tostões. as mesmas. para apagá-la. que teve o cuidado de trazer oom as asas voltadas ao contrário. Certa vez Zé Simplório. Quando de noite se acomodava no leito. o homenzinho levanta-se vai buscar uma bacia. Indo de u m a feita comprar xícaras rejeitou as que o caixeiro lhe apresentava. a fim de aparar os pingos da goteira. Mosaico. U m a noite em que Zé Simplório estava recolhido ao leito. Moreira de Azevedo). acabando por acertar por acaso. O rapaz viu que o freguês era o Zé Simplório e foi logo buscar outras. atirava-a de novo à vela. que deixava pingar a água sobre a barriga de Zé Simplório. ia buscar a carapuça. do dr. tinha o hábito de ler e como colocava a vela sempre a certa distância. ou por ter de dormir com a vela acesa. a fim de procurar o níquel. (1) Algumas das passagens deste conto são atribuídas a certa pessoa. e assim procedia sucessivamente. Sentindo-se incomodado. deita-se e a coloca sobre a barriga. (V. andando à noite a passeio. Não se lembrou de que despendia e m dobro o valor perdido. atirava-lhe com a carapuça. erguia-se. porque não tinham a asa do lado direito.100 LINDOLFO GOMES A s do Zé Simplório (x) Era uma vez um homem que se chamava Zé Simplório e que fazia coisas que pareciam esquecimento.

resolveu o h o m e m experimentar a sinceridade da esposa. começou a tomar de hora e m hora uma colher. nem como poderiam sair de onde estavam. Zé Simplório. Mandou chamar logo u m carpinteiro e retirar uma das tábuas do assoalho. examinou-o. fosse por que fosse.. que costumava aparecer às pessoas minutos antes de as levar para o outro mundo. No dia seguinte dava Zé Simplório a alma a Deus. e para isto começou por descrever-lhe a morte na figura de u m pinto pelado.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 101 Uma ocasião a gata de Zé Simplório mete-se pelo ventilador do assoalho e vai dar à luz no porão do prédio. que se Deus houvesse de levar u m deles. sob o assoalho. mal o médico despediu-se. muito magro. para salvar os gatinhos. a quem dizia muito estimar. Não se lembrou que eles podiam sair mais tarde pelo ventilador. sem poder atinar como fossem ali parar. . Ouvindo todos os dias essa cantilena. Veio o médico. da qual. sempre jurava ao marido. A morte Era uma vez uma mulher que andava sempre muito preocupada com a ideia da morte. escreveu a receita e entregou-lha. sem se lembrar de que a sopa é que o tinha matado. Quando Zé Simplório ouviu os gemidos dos gatinhos. Finalmente Zé Simplório adoeceu. ficou muito preocupado com a sorte dos pobres bichinhos. deu ordem ao criado que fizesse u m caldeirão de sopa.. Pois neste mundo há muita gente como Zé Simplório. porque sem o marido não podia viver. dizendo: — Tome u m a colher de sopa de hora e m hora.. E. antes a levasse. u m a vez trazida para junto do leito.

êle foi para trás do forno.102 LINDOLFO GOMES A mulherzinha ficou muito impressionada. ela a repetir-lhe sempre a mesma cantilena. saiu do forno. que assim ficou conhecendo a insinceridade da esposa. pôs-se a apontar insistentemente para o forno. antes levasse a ela. a fim de ver a cena. Vai então o pinto pelado. De madrugada chamou a mulher para irem cuidar dos porcos. Pediulho emprestado e trouxeo para a casa. O Pai de Deus O Generoso tinha a vaidade de não deixar nada sem explicação. esperando. no dia seguinte. Saíram juntos. Mas o h o m e m tinha já a sua preparada. afirmar ao marido que se Deus houvesse de levar u m deles. À noite foi a u m amigo que tinha u m pinto pelado. no alpendre. e ela ficou à porta. ora! o pai dele. teve logo o pressentimento da hora final. indicando o lugar onde estava o seu homem. caminhando e m sua direção. essa é boa! Deus. alguém lhe perguntou: — Diga-me. e foi-se acomodar. Generoso: quem fêz o mundo? — Ora. Quando chegaram à porta da cozinha. Foi u m susto de todos os diabos! A mulherzinha. e vendo milho espalhado o foi debicando na direção onde estava a mulher. muito às escondidas da mulher. — E quem fêz Deus? •— Ora. e na dúvida de que o pinto pelado viria buscar a ela ou ao marido. que ouviu rumor. desde que viu a figura da morte. . Sabendo disto. mas nem por isso deixou de. Meteu-o no forno. e espalhou milho até a porta da cozinha.

Não senhor! Q u e m é o pai do dr.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 103 — Então. — Nessa é que eu não vou! respondeu o Generoso estomagado. Para a mais velha. Ora aí está! A s três irmãs: a do anel. pôs-se a rir . e as três irmãs sentadas. nesse caso. suspendendo o pé e mostrando. Nisto foram convidadas para um baile de muito luxo. com fivelas de ouro e pedras de valor.. que tem isso. a do anel. Quando a sala estava mais cheia. o sapatinho. um par de sapatinhos de cetim. por não terem costume de frequentar sociedade. Zé Nogueira? (citava uma pessoa conhecida no lugar). e para a mais nova. apesar de muito acanhadas. Elas ficaram muito contentes e só esperavam a primeira ocasião de se apresentarem com eles em u m a festa. há dois deuses. Não é o «seu» coronel João Nogueira? — E então. para a do meio. portanto. a dos sapatinhos e a dos brincos Um rico fazendeiro foi à Corte e trouxe para as suas filhas solteiras bonitos presentes. u m par de brincos de brilhantes. m a s satisfeito por ter de resolver u m a questão complicada.. T a m b é m o pai de Deus podia não ser Deus. exclamou: — Eu vou mata. A outra. E não faltaram. apontou para os pés da que tinha os sapatinhos de cetim e disse-lhe. não vendo nenhum bicho. e m meio dos convidados. em voz alta: — õia u m bicho aí. uma delas. porque o filho é doutor de medicina e o pai é fazendeiro. A terceira. u m anel de diamantes. Generoso? — T e m muito.

precisa perder esse acanhamento. Sua mãe fazia muito gosto que êle se casasse com u m a sua prima. exclamou. depois de muito pensar. Então o rapaz aproximou-se de novo da namorada o.. E vai então êle. disse-lhe: — Você. A velha chamou o filho de parte e repreendeu-o... A moça pôs-se a rir e foi contar à velha o que havia acontecido. moça rica e bonita. rapaz. envergonhado : — E u te furo os olhos!. rapadura.104 LINDOLFO GOMES sacudindo a cabeça: ah! ah! ah! fazendo faiscar os brilhantes dos brincos. apontando os dedos para os olhos dela. Mas não diga tolices. Pense bem no que terá que dizer. suspirou: — Açúcar.. A s conversas de M a n é Bocó Mané Bocó era o rapaz mais acanhado deste mundo. sem dizer palavra. aconselhando: — Não é assim.. Mané. A m ã e de Mané Bocó. A moça encarava-o. e conversar com a sua noiva. A moça levantou-se e foi contar à futura sogra o que se havia passado. e para isto os pais da moça deram u m baile. Trataram de aproximar os jovens. em chegando. melado. mas a pensar no que havia de dizer. no que estavam de acordo os pais desta. . e apresentado à noiva. coisas doces. sentou-se ao pé dela. você há de dizer a ela palavras delicadas. E assim puderam as três irmãs chamar a atenção de todos para as ricas prendas que seu pai lhes dera. ao sair de casa com o filho. sorrindo. Mané Bocó..

u m galho que despenca e m (1) Corre em todas as zonas da Mata Mineira.. Aparece à meia-noite ou no ponto do meio-dia e pressegue a gente. Só tem u m braço. depois de muito pensar. Por isso não fui à festa do casório e assim não pude trazer para vocês n e m u m isto de doces. tempestade!!!. por exemplo. e ficou desfeito o projeto de casamento. m a s a moça soltou uma gargalhada..CONTOS POPULVRES BRASILEIROS 105 A m ã e de Mané chamou-o outra vez. Se a gente nega. . 0 que você disse a sua noiva. léguas e léguas que se ande.. corisco. estava muito contente. mas ê do origem lusitana. pensava êle. u m a perna. Anda pela estrada. trepa nas costas da gente e não larga sem que aconteça algum mal: uma topada. meia cara e meio corpo... E acabou-se a história ( * ) . êle começa a presseguir e vai acompanhando. Uê! — Nada. conform e sua m ã e lhe havia recomendado. não que visse. Mané Bocó foi ter com a moça e. fora de hora. pede ós viajantes fogo pra acender o seu pitinho. Saci-pererê Pois é como lhe conto. mas m e u falecido pai contava que é u m negrinho levado da carepa. Tinha-lhe dito coisas do céu. Vá procurá-la de novo e converse com ela e m coisas do céu. Anda vestido com seu timãozinho. de parte: — Você nunca há de deixar de ser tolo. meu patrão. assobiando e é pequetito. e de u m a banda só.. e tanto que não se pode ter m ã o nele se não se tem corage.. e m estrelas. e tem u m a carapuça vermelha. disse-lhe: — Raio. e sou inté capaz de jurar — eu aquerdito no saci. luar. são coisas que se dissessem?! — Pois a senhora não mandou que eu falasse e m coisas doces!.. trovão.

. e sumiu n u m assobio desaustinado. quando lhe apareceu u m negrinho. Às vez a gente vai pela estrada. gingando. E o negrinho. e êle não teve oorage de tirar a bingcu. que Deus tenha em bom lugar. Vai no jirau das panelas e bota terra nas comidas. Ao meio-dia costuma de aborrecer os trabalhadores da roça. Se não lhe dá n u m pronto. O defunto m e u pai adivinhou n u m pronto que era o dito saci. trazendo na mão. O saci riscou fora. Antão. Foi m e m o u m esconjuro! Arrancou do aço. Apaga o fogo. Quando a gente encontra saci tem de enfrentar com êle e puxar uma faca de aço. Mas os seus cabelos arrepiaram. atravessou a folha na boca.. por esse mundo fora. uma cobra que lhe morde.106 LINDOLEO GOMES cima da cabeça do prosseguido. também corria e ia batendo com o pito na cabeça do velho. o negrinho corre. e começou a rezar o credo de memória. Antão o negrinho lhe foi seguindo: Me dá fogo! Me dá fogo. Deus te livre! Se a gente lhe dá o tição. u m pito de canudo comprido. O defunto m e u pai. 0 diacho! De noite bate nas janelas. costumava contar que uma noite êle ia por u m a estrada deserta. m e u pai alembrou-se da faca. que não hai quem o apanhe. êle atira com êle na cara do bobo que lhe deu. não podia dizer . Pediu-lhe fogo. com u m pé só. e escuita u m assobio fino e aspro que Deus te livre! E' o saci. Então. T o m e m já tinha passado da meia-noite e a madrugada lá evinlia. e m vez do porretinho. que eu quero pitar. e desandou a correr. êle atira areia nos olhos da gente. Quando o defunto m e u pai chegou em casa estava mais branco do que a cal da parede. e foi andando sem ter voz para lhe dizer u m isto. Mas êle não aparece e contam que êle toma a forma de u m passarinho. e pede fogo.

Só no dia seguinte é que êle nos contou o que havia assucedido. quebrando-lhes as panelas. perverso e malfazejo. que vaga à noite pelas estradas a perseguir os viajantes ou penetra nos lares para praticar toda sorte de malefícios e acender o seu cachimbo. (1) D a conferência « C U L T O D A S T R A D I Ç Õ E S N A C I O N A I S ». O etimologista aproximou duas palavras que podem não ter nenhuma ligação e propô-las Fera quaisquer etementoa de prova filológica. Percebe-se logo que este mito saci foi com o decorrer dos tempos se ampliando de elementos míticos estranhos. aparição fantástica. amam-se misteriosamente. passa-lhe as mãos úmidas pelas faces e as tinge de urucn. do conto de Nodier e o diabrete Robin. indiana. saltitante). Já para outros. do vôo ou do canto das aves. segundo notou Ramiz Galvão. A irmã ficoa horrorizada com sua situação o. Tererê. deu ensejo à nossa ojeriza mais pelo vocábulo do que pelo mito quase apagado do Saci pererê. muito se assemelha o Trilby. Sererê. é u m mito indígena. feita pelo autor deste livro. Ele quer descobrir quem seja a pessoa que o procura todas as noites. o mito da Mãe d'Água (a Yara). os da Escócia. Paulo copioso volume de informes e va. que é verdade. Mas. Esta apaixona-se por aquele. Tenta seduzi-lo. sobre o qual já se publicou e m S. Quanto à suposição de ser o Saci u m passarinho. Esse mito deduz-se clarissimamente da lenda recontada por Barbosa Rodrigues e intitulada Tapera da lua (Jaci taperê). Segundo o grande sábio. de que no3 fala Shakespeare. apagando-lhes o lume da lareira. Fizemo u m terço e benzemo a estrada. irmão e irmã. como. desperta-o oarta noite. Pela luz que nos alumeia! Hai saci. o do Caapora. Temos que Saci Pererê. com os quais. o Saci é u m passarinho cabuloso e maléfico. e numa variante conhecida da história tão popular da Gata Borralheira vemos que as fadas premiam u m a linda menina que. A respeito do Saci. corruto e m caipora. Para o nome Saci Pererê houve quem propusesse u m a etimologia não aceita: Saci pcrereg (Çua ci. Génios semelhantes havia-os na Grécia. pronto a descarregá-lo no lombo alheio. ou germânica. desarranjando-lhes a casa. pérérég. Todos estes mitos se complicaram com outros de procedência greco-romana. por exemplo. génio e m alguns casos benfazejo e protetor e em outros. ao canto monótono de uma ave. Estaria desvendado o mistério. há uns que afirmam ser u m negrinho de u m a banda. cujo nome. este nome liga-se a uma lenda que tem relação com o conto das Amazonas. olho mau. Por fim usa de u m estratagema. êle finge que dorme. eu juro. e m 2 de março de 1914. de súbito. às ocultas. no capítulo das crenças e abusões. E' certo que os índios possuíam.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 107 palavra. Quando ela aproxima-se da rede. ou de u m a perna só. lhes varre e limpa a habitação. A lenda refere o caso de dois irmãos. ao passo que castigam a outra que faz justamente o contrário. lhes prepara a ceia. ligado o fato à crença greco-romana dos augúrios que se julgava poder tirar-se da aparição. teperê ou pereira. é ela devida. supomos. mas. sempre armado de u m cacetinho. e publicada no Diário Mercantil: « E m matéria de folclore pouco possuímos de procedência puramente indígena. . Agora quem quiser que aquerdite. complicado pelos povoadores e africanos. Esse canto semclha-se onomatopaicamente ao soído da palavra saci. Tal etimologia foi contestada e não passou em julgado. e m Juiz de Fora.riantes locais dos casos que se contam a respeito desse estranho moleque ou simples passarinho agoureiro e cabuloso. m e u patrão! ( * ) .. ora tão prestativo e ora tão perverso pata com a gente da casa e m que se instala.

e. arranjou u m roteiro para as desobrigas. se chegou a imaginar que Jaci ou Saci seria u m ente de aspecto humano. certa de que seria reconhecida. a da matinta perera (nome de u m a bruxa o de u m passarinho — Lendas Amazônicas. para se ver livre delas. O irmão transformou-se e m mutum. a colaborar com os da mitologia ancestral. de Coutinho de Oliveira). as comilonas e erradas. dizendo: — Minhas devotas. e m forma de lua. com confissões e mais confissões. Desse dia por diante nenhuma mulher se quis mais confessar naquela freguesia e o Padre Lourenço viveu ainda muitos anos. tenho de seguir para as confissões o seguinte roteiro: aos domingos confessarei as preguiçosas. as hipócritas.108 LINDOLFO GOMES O Roteiro do Padre Lourenço^) Havia. u m a após outra. armou-se de flechas e começou a lançá-las. sob a forma de lua. de agora e m diante. Jaoi Taperê quer apenas significar Tapera da lua. publicaram variantes da mesma Leonardo Mota e o Ministro Edmundo Lins. para explicá-lo. e o nome Taperê se deturpou e m Pererê. é Jaci. não sabendo ao certo do que se tratava. às quintas. as maldizentes. Os povoadores vieram encontrar nossos índios com este mito de Jaci Taperé. subiu por ela e transformou-se e m lua (Jaci). às segundas. ave. p. até que. sempre descansado (2). (1) Colhido e m Carangola. aparece a índia incestuosa e maldita. também e m jogo. 113. lugar assombrado. estou ficando velho e cansado e por isso. Sepê e Teperé. às terças. às sextas. partiu para casa. começaiam. à hora da missa. Ela agora vem. que o Saci se faz acompanhar de u m a ave agoureira. mirar-se mensalmente no espelho das águas do lago. A lua na cosmogonia indígena sempre foi considerada uma aparição fantástica. (2) Depois da publicação de nossos « Contos Populares » onde incluímos essa anedota. Muitos afirmam. em certo lugar. e tanto que há nessa lenda traços de outra. Seperê. para ó ar. às quartas. com a cooperação das crendices africanas. as bêbedas. ainda que fantástico. 0 padre. um vigário de nome Padre Lourenço. assim como Jaci e m Saci. e certo domingo o leu na igreja. as feiticeiras e. onde mensalmente. E é possível conjeturar que a ideia de se imaginar o Saci ente de u m a perna só esteja ligada à da única vara ou flecha pela qual a índia subira até ao céu e à da lua se assemelhar ao rosto humano. Haverá aí u m a alusão inconsciente ao mutum da lenda? Cremos que sim. antes e depois das missas. a quem as beatas não deixavam descansar. Formou-se urna única vara de flechas. . aos sábados. as ladras.

— Isso é o que havemos de ver. mas que volto. cuidando dele. N o dia seguinte arreou o cavalo. — Se Deus quiser. marido. — E u é que quero. a respeito de religião. marido. volto. logo adiante. e disse à mulher: — Amanhã vou ao arraial. Mas. A mulher benzeu-se: — Quem com Deus anda. marido. não perdeu ocasião de aconselhar que nunca mais fizesse projetos sem dizer — se Deus quiser. •— Se Deus quiser. O h o m e m voltou para casa com os braços quebrados. são e salvo para o jantar. Mas o lavrador resmungou: — Nunca m e deu nada.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 109 Se Deus quiser (x) Havia um lavrador que. o cavalo pôsnse a passarinhar. nem por isso. esta sim. e despediu-se da mulher: — De tarde estarei de volta. José de Além Paraíba. porque o diabo também ajuda. era muito religiosa. E deu de rédea. o corpo em petição de miséria. com Deus vive. a mulher dele. mulher. E a mulher. U m a vez o lavrador preparou-se para ir ao arraial. mas vou. . em S. Mas. e saltou tanto que atirou o cavaleiro a dois metros. (1) Contada por u m pescador. E montou a cavalo: — Até à volta. mulher. — Isso é o de menos. E ela tornou a repetir: — Se Deus quiser.

quase sem poder falar. não se «alembra» de mais nada(!) Assim se costuma dizer. e aconteceu (1) Colhido e m Coronel Pacheco. e estou de volta. O capitão cansado de esperar e vendo que n e m as praças. Chamou a ordenança e mandou buscar a soldadesca. r ao arraial ou a qualquer parte. Mas. de trazer água na boca. se Deus quiser. de u m a antiga praça da Polícia Mineira. se Deus quiser.. bebendo. nunca Se tinha de i se esquecia de dizer: — Amanhã vou a tal lugar. o cabo foi. eu vou morrer. E a mulher sempre dizia: — A m é m . Jesus! E mesmo na hora da morte. mulher. vendo que o pagode estava mesmo bom. . eu lhe conto: u m a vez u m capitão soube que muitas praças da sua companhia estavam n u m cateretê ferrado.110 L1NDOLFO GOMES E assim fêz êle desde que sarou. chamou o cabo e mandou atrás do pessoal. brigando. de tarde. demoro tantas horas. dançando. pintando os sete demónios. longe do quartel.* e caiu também na dança. se Deus quiser. vou visitar a igreja. se Deus quiser. com cada cabocla xodó. vendo as minhas quitandas. se Deus quiser. se Deus quiser.. se Deus quiser. Minas. Mas. vou à casa de Fulano. o camarada e m lá chegando. Q u e m cai na dança. e é bem certo. e com u m violeiro que no botar versos e no pcnteá não havia outro — esqueceu-se da ordem. ainda êle disse para a companheira: — Me dá a vela e o crucifixo. nem o ordenança voltavam. Ora.

E resolveu êle mesmo ir buscar a rapaziada. era u m dia. mas. E vai o tenente pegou da espada e foi bufando por ali fora. Mas chegando ao pagode. fêz uma chamada com o lencinho bordado.. brabo que nem cobra na hora da queimada. Estava mesmo para arrancar as barbas de bode. o sargento não era de ferro. que era u m regalo. Então é que o capitão quase tira as calças e pisa nelas. Jucá! Aquilo ia correndo trinta por um mês. entrou na roda: Eta! rapaziada boa! O capitão. com ordem de trazer todo aquele povo na chincha. mandou furriel. que parecia u m raio. como sapo n'água. Havia de pegá-la pra judas! E riscou nos calcanhos. e também não voltou. E mandou o sargento. então a coisa é que estava mesmo boa. Mas. Eta sapateado de remelexo! E o tenente deu a espada pru cabo e. E espera pra lá. e caiu na pândega.. como caititu na trilha com cachorrada atrás. Mas. trinta por sessenta.. E vai daí. Mas o alferes — que havia de fazer? Era dos tais que não podem ver defunto sem chorar. Fechou a roda. já sabia... nada! Ninguém apareceu na revista da'companhia. Eh! Maria Chica danada pra dançar! Quando ela avistou o capitão. na canalha. entra.. A corneta tocou. chispou o alferes em busca da negrada. e vendo tanta mulata de pega pra saí. Mas o furriel fêz o mesmo: caiu na dança. estalou os dedinhos pra banda dele e o bicho entrou na dança. com os galões e tudo. e. capitão do inferno! E o capitão apois mandou que o tenente trouxesse tudo de cambulhada. A companhia inteira dançava que era u m a gostosura. E o violeiro então pegou a cantar: a 0 o e ..... O capitão queimava.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 111 m e s m a coisa: caiu na dança. capitão já estava ardendo de raiva.

112 LINDOLFO GOMES Venha ver. Caboclo pega (1) Colhido em S. rato come queijo. capiau brabo do sertão: « Amico mio ». Viola. Como é boa esta função. e tudo acabou em santa paz. E pegaram a rir. Q u e m num arranja cum. de um negociante dessa localidade da mata mineira. meu patrão. Corda muito esticada rebenta.. dança e mulata Prende inté seu capitão. m e u capitão: Quantas cadeias pra negrada? — Deixa disso. Conselho de caboclo (Trecho de u m a conversa) õi. No outro dia o tenente perguntou ao oficial: — Pronto. Q u e m cai na dança. logo esse desgraçado das estranjas está m e chamando de chifrudo. todo amável. não se alembra de mais nada. queijo é feito de leite. E arrancando da garrucha — pum! matou o espanhol. a gente num deve de leva os negoço de arranco. . vaca tem chifres. bons modo de de cum força é que num vai. Rita da Glória. saudando o roceiro. foi logo. lá cumo quem diz a ferro e fogo. pôs-se a pensar: — Que quererá dizer mio? mio? Q u e m mia é gatox gato come rato. tenente. Ancê já viu cumo é é que se tempera viola? Pois arrepare. 0 roceiro desconfiado com o que poderia significar aquele mio. A lógica do sertanejo Q) Um mascate espanhol. chegando a uma fazenda.. leite sai das tetas da vaca. ó minha gente.

tem pra diante úa porteira. exprimenta. e vai ino... Bambeia o bordão. ninguém ganha dele no truque — pode descansa. é ataio. passa os dedo nas corda. ganha outra estrada. pedi m e ensinasse o caminho. í quebra o braço dereito.. tempera a prima na afinação. quando chega na estiva. é do Neca Sôsa — bom home. m e u patrão. Vai seguino.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 113 pega da viola cum jeito. se quisé.. progunta o caminho. aperta elas leve-leve. abre. quebra a m ã o dereita e toma fia picada. entesa as tripa do meio: ipa! não vai rebenta! destroce. vai pra dois ano — Deus l i fale narma. passa no meio. Despois garra estrada larga. vai desceno. A gente.. já sem orientação. torna a exprimeniá. Hi pega na tria. Ensinando o caminho Certo caboclo a quem. Puxa pras cravera ãe devagá. mas porém não deixa aberta pra mode não fugi o gado.. vai subino. vai tocano.. fio do cumpadre manjo Zé de Casto. Por daí u m pouoo viola tá chorano cumo gente! Magina ancê se o violero de u m arranco apertasse as cravera numa vezaáa! Não ficava uma corda só. e vai rompendo. quando chega 8 Contos Populares Brasileiros . despois. toda vida. mas porém. u m matinho à-toa. e chega no arto em donde tema a cruz adonde mataro u m homem. tem u m atolero. se não quisé progunta. se não quisé. em longa viagem. que o dono brama.. muito prestimoso acudiu-me logo: — Vancê vai ino. Era u m desastre dos diabo. deceãe os negoço cumo quem tá temperano viola. pru meio do capim-gordura. encontra úa vendinha. vai ino. inté encontra u m a umbaúva seca. m a s porém. Despois quebra a m ã o esquerda e ganha estrada outra vez. vai ino inté garra o espigão. vai subino. e vai rompeno. vai desceno inté caí na varge de seu coroné. cumo quem corre a mão na crina de burro chocro. sorta u m repinicado e começa a ponteá.

dei-lhe uma molhadura e o caboclo foi seguindo. Munto aguardecido. quebra o braço esquerdo. aminhã tem missa lá. Hoje é sabo. Aminhã nós se encontra no arraia. patrão — é o mais seguro — anda mais obra de u m tiro c i e espingarda — e tá no arraia. dizendo: — Deus l i companhe. . Inté Deus querê. Como é sua graça? Disse-lhe o m e u nome. ganha a estrada de rasto de tropa — entravessa u m carderão — cuidado que atola inté o pescoço — já morrero ali munto gado e munto burro — e gente tomem — passa no meio. patrão. pra servi vancê. Meu nome é Mané Ambroso.114 LINDOLFO GOMES na pedrêra.

e não te podes retirar antes do romper do dia. No fim de poucos dias a moça percebeu que era cortejada pelos primos. vestido de preto.NARRATIVAS MARAVILHOSAS Os três irmãos e a prima rica Era uma vez uma moça rica e bela que foi hospedar-se em casa de u m tio pobre. mas. e. cada qual guardando para os demais o segredo dessa paixão. pedindo-a em casamento. não o amando e sendo muito espirituosa. marcou-se para o dia seguinte a partida da prima. fingindo de morto. Antes terás o cuidado de acender tochas em torno do caixão. com u m lenço no rosto. . pai de três filhos já moços e ainda solteiros. lá ficares. 0 primeiro a falar-lhe foi o que se chamava Manuel. Não levou muito tempo. hora em que lá m e apresentarei. espichado no caixão velho que está sobre a essa. Cada u m dos namorados resolveu confessar-lhe o seu amor. Serei tua esposa se hoje à meia-noite penetrares na Matriz. dizendo: — Fiz voto de só casar-me com o homem que m e der as mais fortes provas de coragem. Manuel não pôs dúvida e m aceitar a proposta. A rapariga ouviu-lhe o pedido. propôs-lhe.

João aceitou a proposta com alegria. vestido de preto e. às duas da madrugada. à tardinha. por uma boa molhaãura e sob condição de segredo. partiu para a Matriz. à u m a hora da madrugada. penetrares. penetrares na Matriz. antes de meia-noite. Aproximou-se devagar. que lhe respondeu. u m certo objeto que acharás sobre a banqueta. dois fachos acesos nas mãos e uma máscara de demónio no rosto. Pedro. o mais moço dos irmãos. chamado Pedro. Finalmente. olhou para u m lado e o .116 LINDOLFO GOMES Chegou a vez de João. e propôs-lhe. como já fizera aos outros: — Caso-me contigo se esta noite. depois disto. deixar êle aberta. assentando-te junto do caixão que lá encontrarás. obteve a seguinte resposta: — Fiz voto de só desposar aquele que m e der provas da maior coragem. Assim vestido entrarás pela porta principal e irás até ao altar-mor. durante a noite a porta principal da igreja e bem assim colocar sobre a essa o caixão dos pobres. Serei tua esposa se esta noite. como prova de tua coragem. Assim se fêz. A moça foi. na Matriz. jurou cumprir tudo quanto lhe era ordenado. de onde m e trarás. contente e risonho. vestido de preto. cantou vitória pela coincidência: — E esta! nem de propósito! Lá estava o caixão. ao amiudar dos galos. mascarado. à casa do velho sacristão. vestido de diabo: u m a vestimenta vermelha com muitas campainhas. Experimentou a porta principal a ver se podia arrombá-la e. como se a coisa fosse de fácil execução. Feita a declaração. fizeres quarto ao defunto que nele estará depositado. Manuel. Ao raiar do dia irei ver se não abandonaste o posto. foi ter com a prima. encontrando-a descerrada.

Fazia mil esforços para não estremecer e não dar testemunho do pavor que sentia. 0 diabo. que não era outro senão Pedro. ao cantar dos galos. das campainhas. 0 silêncio na igreja era profundo. Ali se deixou ficar. tremendo como varas verdes. mas ia-se contendo como podia. E lá foram os três correndo na m e s m a direção que era a da própria residência. Ao ver que os fugitivos passavam por êle e m louca corrida. se aproximava.. o vôo 'dos morcegos ou os estalos do madeiramento velho. Ambos sem se reconhecerem puseram-se em desabrida fuga. Ia a coisa assim. O rapaz lembrou-se de suas orações e começou a cochichar padre-nossos. passo a passo. ave-marias e o Uredo em cruz. se ouviu o tilim. o coração aos pulos. Percebeu que o visitante arrastava uma cadeira e se assentava junto do caixão. ouviu rumor na porta. Embora sentisse arrepios de medo. João também tremia «como luz de candeia que está para morrer» — o cabelo e m pé. Diante da horrível aparição. deu tudo quanto tinha. tilim. arrancando o lenço do rosto. Na porta aberta da igreja apareceu a figura diabólica do outro que chegava. U m suor frio corria-lhe pelo rosto. numa voz cavernosa que mais aumentava o terror do suposto defunto. subiu para o caixão e nele se deitou. . só interrompido. Manuel acendeu as velas em roda da essa. À u m a hora. quando às tantas. Toda a sua vontade era saltar do caixão e fugir. mais soavam as campainhas. assistira assombrado a toda esta cena. colocando o lenço no rosto. de vez em quando.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 117 outro.. pelo canto das corujas. Sentiu que alguém. João ergue-se da cadeira e Manuel do caixão. De seu lado. 0 relógio dava compassado as badaladas da meia-noite. raspando um medo de todos os diabos. e tanto mais tremia. ao amiudar dos galos.

se sabido fosse. . estando sozinho e persistindo nesse constante desejo. não pôde conter-se e caiu na gargalhada.118 LINDOLFO GOMES A prima os esperava à janela e. tomou uma carraspana e contou tudo quanto se havia passado. Sei. exclamando: — Perderam a aposta! Não tive culpa de que não tivessem coragem! Só então viram os irmãos o papel triste que haviam representado e conheceram que amavam todos. Fizeram as pazes e. muito faria rir ao povo do arraial. e foi o alegrão do pagode (1). sem o saber. a bela prima. a quem pediram de joelhos não revelasse o caso que. Vai então. há anos. pessoa totalmente inculta. (2) Colhido. que não era. perder a memória. pois uma senhora do Estado do Rio m o referiu. ao vê-los chegar ao mesmo tempo e m tão grotesca atitude. Minas. passava horas e horas a cismar. certa vez. a moça retirouse para a sua fazenda. entretanto. Procurei conservar na narrativa as frases feitas e a sintaxe do narrador. que logo lhe perguntou. aliás. C o m o dinheiro fêz u m a festa. e m Sabará. esquecer-se de tudo e de todos. 0 caso veio a ser sabido por boca da mulher do sacristão que não era baú de segredos e que ficara muito satisfeita com a grossa molhaãura recebida pelo marido. no outro dia. Deus ajuda a q u e m trabalha (2) Foi um dia um homem que por viver sempre triste. como se já lhe conhecesse a causa de semelhante tristeza: (1) Este conto m e foi narrado por u m fazendeiro da Mata de Minas. que corre também no «folclore» fluminense. apareceu-lhe u m h o m e m envolto e m vestes resplandecentes. com quem viajei na Estrada de Ferro Leopoldina. por causa da miséria e m que caíra e do muito que havia sofrido neste mundo de Deus. Por fim o que mais desejava era esquecer o passado.

Tão pouco existia ali qualquer casa de comércio. porque o desejaram. andando. A vida tinha deveras cessado naquela terra triste e cheia de impenetrável mistério. Todas foram trazidas para este lugar.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 119 — Quer esquecer o passado? Se o deseja. Devia ser u m rei. Nas ruas não havia ninguém. jovens ou de avançada velhice. porque todas as estátuas que estamos vendo são de pessoas que tendo. Agora esquecerá inteiramente tudo e para sempre. de bronze. Estava o local repleto de estátuas de homens e mulheres. procurado perder a memória do passado. Foram andando. — Muito bem. muito espantado. nas praças. N e m uma só criança. outras estavam mal trajadas. impulsionado por u m a força estranha. 0 h o m e m olhou para tudo aquilo. Mas ao visitante não foi dado ver nenhum ser vivo. O pobre h o m e m ergueu-se imediatamente e. meditou. . Então o seu espírito foi recobrando o poder de recordar e sentir conscientemente. acompanhou o desconhecido. onde ficaram e m absoluto esquecimento. respondeu. e o não menos estranho guia lhe perguntou: — Lembra-lhe ainda alguma coisa do passado? — Quase já não m e lembro. onde lhe pareceu ver u m anjo a voar. Das figuras. 0 h o m e m meditou. de prata. por muito padecerem. Via-se u m a delas sentada e m u m trono e rodeada de muita fidalguia e criadagem. Gente de toda espécie e categoria social. umas ostentavam ricas vestes. fitando o céu. Vejo-o irse apagando e distanciando e m meio de uma nuvem de fumaça. nelas foram convertidas e ficaram e m estado de completa inconsciência. cujas flores eram de ouro. mas viam-se palácios maravilhosos e. belos jardins encantados. se disser três vezes estas palavras: «desejo e quero esquecer!» Mas reflita bem. até chegarem a u m a cidade misteriosa. siga-me.

Esqueceu-os finalmente. após longa viagem de penosas jornadas. Deus que m e valha! — Nesse caso. dizendo-lhes ao concluir: — Trabalhai.120 LINDOLFO GOMES Viu surgir-lhe sua pobre casinha. porém. cuja imensa distância na vinda não pudera avaliar. ia para a lavoura com os filhos e. meus filhos. o h o m e m esquece todos os males e sofrimentos da vida. Entretanto. à vida. criou a família na fartura e a alegria voltou àquele carinhoso lar. quero dar-lhe remédio que o fará esquecer o passado e abrandar os males que o atormentam: ('Trabalhe! Trabalhe tanto quanto permitam suas forças. quase sem descanso. voltou à casa. «Deus ajuda a quem trabalha». a sua dedicada esposa e os adorados filhos. porém nada do que se passara quis contar à família. e verá! » O homem. porque o trabalho é bênção de Deus Nosso Senhor. Todos os dias. labutando sem cessar. volte. ao passo que ia perdendo a consciência das coisas e do tempo. ao amanhecer. Antes de morrer. enquanto se lhe avivava a lembrança de seus sofrimentos. prefiro regressar a minha casa. disse com energia: — Não. De regresso começou a trabalhar. agora renovado pelas auras da felicidade. morto a fingir de vivo. lamentando sua ausência. e porque se arrependeu e m tempo. narrou êle aos filhos a sua história. Por isso é que penso haver sido o h o m e m misterioso que m e guiou àquela estranha paragem. Trabalhando. à pobreza. Nunca mais viu o desconhecido. trabalhai sempre. a permanecer neste cemitério. bem pouco já se recordava dos antigos padecimentos e agruras que tanto o afligiram. não . cultivai o campo e não a dor. do desânimo que o levara a abandonar o trabalho. ainda guiado pelo desconhecido.

revelou ao pai o desejo de viajar. havia de realizar a viagem. dizia: « 0 compadre rico ». Mas u m desses homens. não quis de maneira nenhuma atender o pedido do moço. que se chamava Manuel. Não havia quem não jurasse que o moço havia de regressar e m breve coroado de louros e mais rico do que o próprio pai. um rapaz muito modesto e de exemplares costumes. « ou o compadre pobre ». era bem' pobre e o outro muito rico. deu o compadre rico u m banquete de arromba. para trazer-me à consciência da realidade e da esperança na misericórdia divina. A m a n t e de repolhos Havia numa certa cidade dois homens que eram compadres. à vista dos insistentes rogos do filho. . No dia seguinte à hora da partida. a princípio. mas u m mensageiro celestial que m e fêz ver u m a terra e u m a gente petrificada que nunca existiu. bons animais para a viagem e muitos criados para o servirem. E cada u m deles tinha u m filho. 0 compadre pobre e seu filho. quando u m se referia ao outro. também compareceram. era padrinho do filho daquele. e m família. Mas. que. de correr mundo.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 121 o demónio. Mas. consentiu. mas por fim. 0 velho. E se tratavam por compadres. Vai u m dia o filho do compadre rico. desse no que desse. para que todos os amigos participassem das 'despedidas e pudessem dirigir ao jovem os seus votos de felicidade e de próximo e glorioso regresso. quando completou vinte anos. os pais do moço que ia ausentar-se o abraçaram e o encheram de presentes. Este que se chamava António. dando-lhe também muito dinheiro. na véspera da partida.

Dias passados. Quando João. talvez. voltando. senão para a eternidade. Vai tentar o impossível. agarradinha ao seu primogénito. pois. dos parentes e dos poucos e humildes amigos que possuía. nem terei que fazer outra viagem. se seu coração o aconselha a partir. E o pai disse-lhe assim: — João. que não lhe deu nem uma cabeça de alfinete e até o tratou com desdém. você não devia abandonar seus velhos pais. que devo fazer? Não tenho para lhe dar senão a minha bênção e muitas preces que farei a Deus por sua felicidade. 0 compadre pobre sorriu tristemente. Mas. pôs-se a caminho disse o compadre rico para o compadre pobre: — Seu filho não tem juízo. dizendo-lhe: — João. nem m e u irmão lhe poderá dar. m e u compadre. Porém. compadre. e eu preciso tentar a sorte por este mundo de m e u Deus. Leva o m e u pangaré. e exclamou: — Assim é o mundo. e de despedir-se do padrinho. que não tem. enfermo. lançounse a caminho. velho como m e vejo. A mãe pôs-se a chorar. mas não m e faz falta. . regressará coberto de glórias e de honras. Por inveja quis imitar o m e u filho. posso valer a meus queridos pais e a meus irmãozinhos e m alguma coisa. para ver se. ao raiar do dia. já não poderei montar. você vai ver: voltará na miséria. mas se arrependerá. Venho pedir-lhes licença para realizar essa aventura. depois de ouvir a santa missa e m companhia dos pais.122 LINDOLFO GOMES Daí a dias o filho do compadre pobre pôs-se diante dos pais e respeitosamente lhes disse: — Somos pobres. também pobre. o único que possuo. Você verá. andrajoso e. Ao passo que m e u filho. com os dotes de inteligência e a riqueza que possui. mas prestimoso como ninguém. às vezes. sei que para a viagem você precisará de u m animal. tão idosos e pobres que são. encarapitado no pangaré com que o presenteara u m velho tio.

perguntou ao criado: — Q u e m atendeu o m e u pedido? — Minha ama. senhor. e resolveu descansar à sombra da folhagem daquele lindo arvoredo. 0 criado regressou. cheio de água muito fresquinha. E. mas. não levou muito tempo. onde ficou a repousar em companhia da criadagem. Vai então. saciou a . pois não estou habituado a beber em copo de vidro. o filho do compadre rico. estava de volta com a água em copo de ouro. 0 criado afastou-se humildemente. como estivesse com muita sede. que trazia e m salva de ouro. apareceu trazendo a água num copo de prata posto em salva também de prata. 0 rapaz. e m perpétua solidão. e m vez de saciar a sede.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 123 o pobre também merece e ao que deseja os anjos dizem amém. despachou u m dos criados a pedir que lhe mandassem dali u m copo d'água. Pedro. u m belo e vistoso castelo. filha de rei. — Pois diga a essa senhora que não aceito o seu obséquio. logo após. certo dia. Mas. por u m voto que fêz. tudo ornamentado de pedras preciosas. Diga-lhe que uso beber e m copo de ouro. dizendo em voz áspera: — T a m b é m não quero. E transmitiu ainda ao moço o convite que lhe fazia a duquesa para visitar o castelo. Pedro. com arrogância. e que mora neste castelo. viu. pois sou filho do h o m e m mais rico e poderoso de toda esta redondeza. 0 pedido foi atendido e não tardou que um lacaio do castelo lhe trouxesse e m salva de cristal u m copo. depois de viajar longas horas. ao sol — que era daqueles de matar passarinho — avistou uma grande árvore muito copada. também de cristal. — E como ela se chama? Q u e m é essa senhora? — E* a duquesa Fulana. ao longe. Pedro. de novo recusou. todo orgulhoso o cheio de si.

no castelo. Voltando-se para Pedro disse-lhe com ironia: — Lembrei-me de que o sr. sorrindo. ofereceu-lhe grande banquete. Todos os dias as únicas refeições destinadas ao prisioneiro não eram mais do que pratos e pratos de repolho. tocou piano para êle distrair-se. é grande apreciador de repolhos. de modo que toda essa repolhada representa u m a homenagem que dedico ao m e u ilustre hóspede. Pedro estava encantado com aquele tratamento. e reservou-lhe para esse fim u m aposento que era mesmo u m paraíso. o que causou a Pedro grande admiração. inclusive uns repolhos de espantoso tamanho. E quando horas depois se anunciou o almoço. Foram de braço dado e percorreram todo o jardim. e n u m cárcere o encerraram. De manhã a duquesa convidou o hóspede para passear no jardim e na horta do maravilhoso castelo. hortaliças. e passaram depois à horta. insistiu para que pousasse no castelo. em companhia de alguns suínos. onde havia as flores mais preciosas que se possa imaginar. O rapaz não titubeou e respondeu com entusiasmo: — Saiba V. legumes de toda a casta. Alteza que os belos repolhos! Nada mais admirável que esses repolhos incomparáveis! A duquesa sorriu. A duquesa recebeu-o com todas as honras. que decorreu sem alegria. Terminado o almoço. todos os pratos da refeição eram de repolho preparado de diversas maneiras. já estava inclinado a pedi-la em casamento.124 LINDOLFO GOMES sede e partiu para o castelo. onde se viam plantas. . e como a duquesa era mesmo u m a beleza sem rival. acompanhado de sua comitiva. conversou com o hóspede amavelmente. perguntou ao hóspede o que mais o tinha impressionado e causado sua admiração. a u m sinal da duquesa os criados do castelo apoderaram-se do hóspede. Ao terminar o passeio a duquesa.

senão. e m hora própria o portador das refeições que. Se não foram até maiores. sem dizer palavra. a cuja sombra resolveu repousar.. como estivesse com muita sede. Bateu à porta delicadamente e ao criado que o atendeu pediu u m copo d'água. A duquesa concedeu a João as atenções que tinha tido com o vaidoso Pedro.. O criado voltou. de bom grado o receberia. Por sua vez o moço se mostrava. E perguntou se lhe seria permitido agradecer pessoalmente ao dono de tão hospitaleiro castelo. quando avistou o castelo. agradecendo de coração aquele favor que Deus havia de recompensar. Alteza. Mas e m vão. com uma tigela de água fresca. esmurrando as grades do cárcere. então. caminhou até lá. * * * Entrementes. chegou João à dita árvore. N a manhã seguinte foi a convite e e m companhia dela passear no jardim e na horta. deslumbrado com tudo quanto via. . que João aceitou com alegria. e. com o amável tratamento que lhe estava sendo dispensado e mais ainda com a beleza sem igual da senhora duquesa que com êle tinha simpatizado de verdade. cansado da grande jornada que fazia ardendo de calor. pois nem viva alma lhe aparecia. a senhora duquesa. E assim aconteceu. introduzia as marmitas pelas grades e desaparecia. Já havia passado grande espaço de tempo. soltava gritos de desespero. embora com seu natural acanhamento.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 125 Pedro compreendeu. O criado não se demorou em vir dizer-lhe que S. o triste destino de porco que lhe estava reservado e. Tudo causou ao moço tal satisfação e espanto que nem se pode contar.

mas com sinceridade : — Peço que m e perdoe. Os velhos pais de João reconheceram seu filho e m trajes principescos. que o que mais m e impressiona e m e causa admiração sincera são os lindos olhos da senhora duquesa. que lhes apresentou a senhora duquesa. e lhe causara admiração.126 LINDOLFO GOMES Ao regressarem ao castelo. perguntou-lhe a duquesa o que mais o havia impressionado de tudo quanto viu. sua esposa. — Enfim! suspirou a duquesa cheia de alegria e contentamento. perguntoulhe se queria ser seu esposo. todos montados em belos cavalos. Foi u m alegrão. indo ao centro a rica e linda carruagem em que se viam os noivos: o Sr. Foi formado então u m deslumbrante cortejo de cavalheiros e damas. mas saiba V. com grande pompa e daí a dias os noivos resolveram ir visitar os pais de João. a Fada Azul que m e protege. antes de irem para o reino do pai da duquesa. duque e a Sra. mas. fêz alto na da casinha do compadre pobre. 0 casamento foi feito. E João respondeu meio confuso. E correndo a abraçar-se com o moço. Mas quando o cortejo penetrou na cidade. duquesa. qual não foi o seu desapontamento quando viu Pedro montado no pangaré. que pertencera ao filho do compadre pobre! . sem poder dizer u m a palavra que não fosse — m e u filho! m e u filho! Levado pela curiosidade o compadre rico varou entre o pessoal a ver se no carro viria o seu filho. que nem queiram saber! 0 velho ria à toa e a velha chorava de contente. Êle respondeu no mesmo instante que sim. Correram para êle. Mandaram antes aviso ao povo do lugar da próxima chegada do filho do compadre rico. Alteza. e m vez de parar à porta do compadre rico. Enfim! Estão realizados os meus sonhos e os votos de minha madrinha.

. Q u e m é bom já nasce feito. Aquele risotornou-se-lhepermanente. motejando. onde passávamos agradáveis temporadas: — Foi u m dia u m h o m e m que tudo via e apreciava e m ar de mofa. Certa vez. ainda não vimos publicado em nenhuma coletânea de contos populares. mas. Depois atirou a caveira ao chão. como merecia. E concluiu o narrador: —• E' como dizia. E continuou a caminhar. « 0 h o m e m achou graça e desatou numa grande risada. não foi? E m nome do Padre e do Filho e do Espírito Santo. encontrou uma caveira pendurada de u m a árvore. que nos foi narrado por u m a senhora que residia no arraial da Grama. vá jantar comigo. como se estivesse a rir zombeteiramente. E acabou-se a história (J). por ordem de João. ' A caveira vingativa Assim começou o narrador. não falha. quando foi de passeio a uma floresta. Foi castigado. o m e u defunto pai: a quem Deus promete. notando-lhe os dentes à mostra. cujas histórias ouvíamos habitualmente naqueles saudosos sertões roceiros. no Estado do Rio. ó amigo ou amiga. foi posto em liberdade.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 12? Procedera o moço como porco. dizendo: « — Quando quiser. (1) Este conto. Mas sal>emos que corre também na tradição oral. Boa lição. rindo sempre. e como porco estava sendo tratado e humilhado diante de toda a gente. enquanto o resto do esqueleto jazia no chão. distrito de Juiz de Fora. m e u amigo. « Retirou de entre os galhos a pobre caveira e pôsse a examiná-la. como castigo à profanação que acabara de praticar. na fazenda. « — Que fruta será esta? disse consigo o homem.

E quando. rezava com imenso fervor. que êle com desdém juntara às demais peças do esqueleto. que o desfigurava. tanto mais que todos o viam de quando em quando estremecer. u m anjo lhe apareceu e disse-lhe que se ela fosse à mata. «Desde que foi enterrada. para não dar a conhecer a m á ação que praticara. sempre apavorado. assombrando-o. quando esta mais uma vez lhe perguntou a razão por que ria constantemente e a cada passo lhe vinham aquelas inexplicáveis tremuras. E ao voltar. e à hora do jantar tomava lugar à mesa. com os dentes arreganhados. o que causou grande estranheza à família. como se tomado de repentino susto.128 LINDOLFO GOMES «De momento a momento a caveira. « O infeliz chegou à sua choupana sempre a rir. mas sem revelar o que havia acontecido. «Deste modo o infeliz vivia cortado de tristeza. «Quando voltou para casa encontrou o marido já sem aquele riso persistente e horrível. Isto se dava nas ocasiões em que a caveira lhe aparecia misteriosamente. que improvisou. pelo caminho fora. onde se achava a caveira. a caveira jamais lhe apareceu. Colocou sobre a cova uma cruz. o marido ficaria livre do triste estado e m que se encontrava. já agora oom a fisionomia alegremente expansiva e livre daquelas tremuras que tanto o perseguiam e amofinavam. deu com o esqueleto e foi sepultá-lo e m lugar sagrado. como que lhe surgia diante dos olhos. e enterrasse esta. «Ao amanhecer a mulher cheia de coragem saiu de casa à procura da caveira. . à noite. e por alma do morto desconhecido fêz ardentes preces. para atender ao fúnebre convite. o mesmo ia acontecendo. «Por fim resolveu contar tudo à mulher. sem que ninguém a visse a não ser o pobre motejador. penetrou na floresta. « Então a esposa do desgraçado tomou o alvitre de fazer uma promessa aos santos de sua devoção.

D a cova se levantou. Ao terminar o conto o narrador benzeu-se lentamente.. conforme o demonstrou. pois. Já correra toda gente. Mas. localidade do Sul de Minas. Viram que êle estava morto. pertencente à lenda de D.. Mas cada qual se espantou.. disseminada por diversos países da Europa e da América. E de nada se assustou. (1) Narrado por u m a pessoa. Menendez Pidal. U m bandido penetrou. U m a vez n u m cemitério A ceia principiou.. aparece em diferentes versões. em minha casa. tf 0 atrevido lhe falou. fazer aqui?» A sombra lhe perguntou. velho costume que tinha ao terminar cada uma das histórias que contava: — E m nome do Padre e do Filho e do Espírito Santo. Logo u m fantasma de frente. Seus amigos convidou _ Para a ceia à meia-noite. na verdade. rezando e sacrificando-se para salvá-lo. E nada mais lhes contou. E o bandido estremecendo Sobre o soalho rolou. Mas de medo desmaiou » . Mas u m a cadeira havia Que vazia ali ficou. « Convidar-te pra cear. meia-noite. Juan. Quem ao morto profanara C o m a própria vida pagou..» E sem tremer o bandido Desse lugar se afastou. a aparição do anjo. Tinha bebido demais. «Não era para menos — concluiu o narrador — enterrar os mortos é obra de misericórdia e respeitá-los é dever do bom cristão que quer viver na graça de Deus Nosso Senhor». Que não mais se levantou. à porta. Ninguém o reconhecia. U m batido se escutou. E na cadeira vazia Seu lugar depois tomou. D o bandido se acercou. este conto deve ser considerado u m a das variantes populares do tema do «Convidado de Pedra». No outro dia. eis que. «Amanhã. principalmente ao que diz respeito ao episódio do «Convidado de Pedra».. Hora marcada. entre outros exegetas. na mesa Cada qual lugar tomou. « O Esqueleto Convidado» — Antiga versão popular no Brasil: O bandido à cabeceira. . « 0 pobre h o m e m abençoou a lembrança da esposa.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 129 « A mulher então contou ao marido a promessa que fizera. 9 Contos Populares Brasileiros E logo chegando um vulto D a mesa se aproximou. procedente da Espanha. soando Era noite. O conviva a passos lentos. À tua espera eu estou. «Que vem. fazendo o Sinal da Cruz. E no cemitério entrou. Vagaroso se afastou.. A m é m ( * ) . O convidado ergue o copo E u m brinde levantou: « Viva quem não tinha medo. residente em Maria da Fé.. tudo enfim que havia feito a conselho do enviado do céu. que.

doidinha por encontrar casamento. O tempo foi passando. Mas o caso ficou e m segredo. já sem esperanças de achar noivo. mas a (1) Colhido e m S. Notas finais. mas voltava logo. mas nada de aparecer pretendente. na cama. Quando a solteirona estava com muitas primaveras nos costados. No mesmo instante apareceu diante dela. José del-Rei — V. Então disse. Passaram-se muitos meses até que u m dia a velha mãe. começou a lamentar-se. Quando a solteirona queria agarrá-lo. Próximo àquele lugar havia uma fazendeira que possuía u m a filha. aos pulinhos. E assim nasceu o príncipe «Grãozinho de Milho». m a s não teve outro remédio.130 LINDOLFO GOMES O grãozinho de milho ( * ) Em certo país existia uma rainha que tinha ardente desejo de possuir u m filho. m e u Santo António. A solteirona pôs-se a chorar. e ela ia ficando para tia. . como que por encanto. êle saltava como u m fuso. Acompanhava-a por toda a parte. caminhando para o lado da solteirona e dizendo-lhe n u m a voz que quase não se escutava: — Chamou-me? Aqui m e tem! Venho para casar com você. 0 tempo passava. com os olhos no céu: — Ai. a quem recorreu. que sem saber tinha encanto de fada. ainda m e s m o que fosse u m grãozinho de milho. uma figurinha que era mesmo u m grãozinho de milho. dai-me marido ainda que seja u m «grãozinho de milho». E à noite acomodava-se a seu lado. fugindo. O seu sonho veio a realizar-se graças a influência de u m a fada. senão aceitar o grãozinho de milho que nunca mais a deixou.

para formar-se o milharal. e. suspirou: — Ah! se fosse o maridinho que Santo António m e deu!. por u m a fada. a quem deu a sorte de ter u m a filha que havia de se casar comigo. e exclamou: « — Pois... veio a sentir saudades. casando-me com você. encontrou u m grão do «milho-rei». e quebrou-»© o encanto.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 131 quem a filha nada contara sobre o seu caso. A fada. A solteirona foi ajudar nesse trabalho. Então. Voltei a ser o mesmo príncipe de outrora e irei. Eu sou u m príncipe. que logo saltou para o colo dela. muito vermelhinho. no mesmo instante. fêz-se a colheita do milho. debulhando uma das espigas. vestido de príncipe. de quem. Assim. sou eu mesmo. logo após haver eu nascido. fêz-se a plantação. Chegado o tempo próprio. a solteirona viu-se livre do estranho companheiro. ao encantar-me no baguinho de milho. fosse como fosse. E vai senão quando. Santo António fêz que isto acontecesse. o grãozinho de milho transformou-se n u m belo moço. cujas espigas foram à debulha. apanhou-o e colocou-o dentro de u m saco que estava cheio de milho destinado a plan-i tacão. pois se isto acontecer terás de casar com ela. vendo o grãozinho de milho. há muitos anos. encantado n u m grãozinho de milho. como fazia todos os anos. que logo começou a brotar e depois a enfolhar-se e a embonecar-se que era uma beleza. Quando foi ocasião. quando u m a mulher virgem te tocar com as mãos. a mesma que encantou sua mãe. que venho cumprir o m e u destino. o que procurarás sempre evitar. disse: — Só voltarás ao estado primitivo de criatura humana. A moça oolheu-o nas mãos. já . achando-o tão lindo.

assim como em tudo mais. O moço que deixou de jogar (x) Havia um moço muito viciado no jogo. Manuel — era este o seu nome — m a s quando voltares m e acharás morta. que não falta a quem promete. que foi uma coisa nunca vista! 0 príncipe com a esposa e a velha mãe partiram para o palácio. e assim se realizou o casamento. quando mais estava o moço perdendo. Todas as tardes o moço montava na sua egúinha e ia jogar no arraial. . m e u patrão. — Pois morra com o diabo. (1) Colhido em Alto do Rio Doce. Estava mesmo perdido por uma vez. E m negócio de casamento. A mulher pedia-lhe sempre por boas maneiras que deixasse aquele vício. com a graça de Deus. À meia-noite em ponto. U m a tarde a mulher lhe pediu ainda que não fosse para o jogo. que ficasse em casa com ela e os filhos e largasse de jogar. aparece u m desconhecido à mesa de jogo.132 LINDOLFO GOMES casado com você. Passava as noites fora de casa. Santo António nunca falha. não se importava com os negócios. — Pois que morra com o diabo. para o palácio de meus pais em tal país ». Ih! foi u m a grande alegria. Mas o moço respondeu que não havia de largar de jogar nem pelo diabo. E foi mesmo. que mudasse de vida. E chorava a coitadinha que metia dó. ia cada vez em pior. — Pois vai. Qual o quê! Não havia meio de conseguir nada. Aproximou-se do moço e disse-lhe que a mulher tinha morrido.

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0 desconhecido. E por todos os cantos havia mesas de jogo e almas jogando.. 0 moço recuou horrorizado e pediu ao companheiro que o levasse dali pra fora. de matar a gente de calor. É foi mostrar-lhe o quarto dos jogadores. 0 desconhecido perguntou ao moço: •— Conhece aquela alma? Êle respondeu cheio de pavor: — Sim. — Por isso está aqui. saltando valos e o desconhecido sempre agarrado com o cavaleiro que tremia de pavor e já estava todo machucado. o mesmo calor que o moço indas que de longe não podia suportar.. que era o diabo. A égua partiu na disparada. com o braço quebrado e o rosto escorrendo sangue. — Se largo! pois não vi já o destino dos jogadores?.134 LINDOLFO GOMES Quis ainda ficar. atirou o moço fora da montaria. Assim foram parar num' lugar muito distante. rompendo cercas. Era o mesmo fogo. Era o perfeito inferno. que gemia de cortar o coração. montou na eguinha e quando tocou viagem viu que o desconhecido ia montado na garupa. n u m palácio donde saía fogo de todos os lados. m a s os parceiros acabaram com o jogo e teimaram com êle que fosse para casa. — Depende de sua vontade. No meio daquelas almas reconheceu a mulher.. se conheço! é a pobre de minha mulher. . 0 desconhecido levou-o. Êle saiu. discutindo e soltando gemidos. mas a outro lugar onde estavam as almas que as pessoas no mundo mandavam para o diabo.. Era u m cómodo todo de fogo. a quem eu hoje disse que morresse com o diabo. Largue de jogar. Quer levá-la? — Se isso fosse possível. corcoveando que fazia medo.

mas a moça. — Qual o quêl — dizia a moça. Bateu na porta.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 135 — Promete-me. já com outros modos. Não tenho sono. não hei de dormir com as galinhas. Levou-o para fora. 0 sonho concordou com o que havia passado e o moço fêz-se u m bom marido. 0 moço meio fora de si reconheceu que estava no caminho de casa. envolta num. hábito branco. João del-Rei. caminhando com passo apressado e trazendo. A moça e a vela O — Minha filha — dizia sempre a mãe de uma moça que tinha por costume ficar à janela até as tantas da noite — quem se deixa à janela até alta hora vê coisas que não deve ver. . nunca vi nada de espantar. A m ã e repetia-lhe sempre o conselho. numa das (1) Colhido e m S. montaram a cavalo e partiram. Isto é exemplo dos antigos que sabiam mais do que nós. pois então está feito. muito trabalhador e deixou de jogar por u m a vez. continuou com o seu costume. Veio abri-la a mulher. Mas nunca mais torne a dizer que nem pelo diabo deixa de jogar. Vai por u m a vez estava a teimosa à janela. Ela respondeu que tinha sonhado que morrera e fora parar no inferno onde também o vira. viu aproximar-se-lhe u m a figura. Tocou a galope e quando chegou vinha o dia clareando. com quem ia às vezes falar o namorado. Quando chegaram a u m a encruzilhada deram duas horas e o desconhecido desapareceu n u m estouro. quando ao soar a última badalada da meia-noite. Quando chegar a casa encontrará sua mulher viva. a quem êle perguntou se tinha morrido.

A caveira ergueu-se e foi. ela ainda estava apreciando a noite. Continuou na janela. A demanda dos ovos cozidos C) Foi um dia um homem muito pobre que era casado e tinha muitos filhos. • Desde esse dia a moça fioou pateta. pediu-lhe que lha guardasse até a sua volta. Foi como se não tivesse visto nada. Resolveu então retirar-se por espaço de u m ano para lugar desconhecido. fingindo. quando voltou. Devia os cabelos da cabeça e não tinha meios para sustentar a família nem para pagar as dívidas. A moça foi buscá-la ao leito.136 LINDOLFO GOMES mãos. A moça estava tão distraída. como se fosse u m a pluma. que nem pavor sentiu. se lhe apresentou u m esqueleto. Juiz de Fora. m a s soltou u m grito de horror. apagando a vela. saindo pela janela. O desconhecido chegou-se rapidamente e pediuIhe a vela. e foi exemplo a todas as filhas desobedientes. toda preocupada com os seus pensamentos de amores. Maquinalmente a rapariga foi colocar a vela sobre o leito. já não encontrou mais o desconhecido. E m vez de vela. Morto de fome parou à porta (1) Colhido no distrito da Chácara. N e m se lembrou dos conselhos da mãe nem a aparição lhe causou o menor abalo. e. de combinação com a mulher. haver abandonado a família. Assim fêz. que é quando as almas penadas se recolhem. no lugar onde esse caso se deu. a pensar nos seus amores e naquele que esperava. . e foi ter a u m a terra distante. rindo e chorando à toa. diante de seus olhos. uma vela acesa. Às duas da madrugada. estendido na cama. O desconhecido saudou-a e.

aceitou a defesa muito agradecido. e acrescentou que não era muito. rompeu estrada. Foi gratificado. de mês e m mês lhe aumentava o ordenado. disse-lhe que vinte mil réis. ouvindo a dúvida. se ofereceu para advogado do devedor que. não conhecendo ninguém por ali.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 137 da estalagem de u m a velha. seis galinhas e assim por diante até chegar a seis fazendas. puxa de cá. E puseram-se a discutir — puxa de lá. prometendo pagar a despesa na volta. Ao depois quando estava para cumprir o prazo de u m ano e tinha já muito dinheiro junto pediu contas. que estava muito satisfeito com êle. O patrão estranhou aquela resolução. que dos seis podiam nascer seis pintos.. quanto devia. A velha. a quem pediu de comer. pois não há dívida sem juros. tocou viagem e foi dar em outra terra onde se empregou em casa de u m patrão rico que. como bom pagador.. Correu a demanda. montado num cavalo de primeira escolha. No dia aprazado estavam todos na casa do juiz de . Foi dar na estalagem em que a velha lhe fiara os ovos cozidos e perguntou. agradecendo o bom trato recebido.. destes. A velha teve pena dele. Depois de muito agradecer o favor. percebendo que êle trazia grosso dinheiro. contanto que ficasse. disse-lhe que não fosse. que se era por questão de dinheiro estava pronto a aumentar-lhe o salário. de volta para casa. e por ser fora de horas só pôde arranjar-lhe uns ovos cozidos que êle comeu regalado. O h o m e m refugou a conta que lhe pareceu de grãocapitão e entendeu que afinal a velha o que queria era fazê-lo de tolo. sempre contente com os seus serviços. Nisto passava u m viajante que. 0 advogado prometera que à hora da audiência lá estaria sem falta.. A estalajadeira questionava que os ovos eram seis. Ele deu as suas razões e teimou em partir. despediu-se e.

chegou à sua terra.. n e m sombra! E m pouco. já viu milho cozido nascer? — Assim como esta velha quer que de ovos cozidos nasçam pintos. m a s depois a paixão foi tanta que se desavieram. O espelho. Então como pode ser isto? Pois o sr. assim também eu planto milho cozido a ver se nascem espigas. 0 juiz compreendeu a comparação e o tino do advogado e deu sentença contra a velha que saiu furiosa e se lamentando da esperteza do leigo-leigo que era o diabo em pessoa. (2) Colhido e m Rio Pardo. S. 0 senhor está zomhando de mim. Ia abrir-se a audiência. ...a que estive plantando u m alqueire de milho cozido. — Saberá V. 0 pai dos rapazes.. de Gil Vicente e a Hitopadexa. tocou a campainha. quando o advogado entrou esbaforido pela sala a dentro. Sebastião Dalgado). E a moça não se decidia por nenhum. Cf. já velho e mal satisfeito com (1) Este conto não é senão uma variante do que foi coligido por Adolfo Coelho e vem nos Contos Populares Portugueses (1879).138 LINDOLFO GOMES paz e o advogado nada de chegar. onde o mesmo apólogo aparece com o título de 0 brâmane e a escudela de farinha (versão portuguesa de Mons.. O h o m e m continuou a viagem. Ao princípio eram muito amigos.. O devedor desanimado olhava para a direita e para a esquerda. Tem também uns longes da fábula de La Fontaine La Laitière et le Pot au lait. — De milho cozido! gritou o juiz. S. 0 juiz perguntou-lhe que diabo de demora era aquela. pagou as dívidas e viveu muito feliz com a família ( * ) . E se não é assim a justiça de V. a Mofina Mendes.a que decida. as botas e a vela(2) Era um dia três irmãos que amavam a mesma moça.

no qual se podia ver tudo que se passava ao longe. porque a todos devia a sua salvação. Muito longe. a moça morta. cercada de toda a família que chorava de fazer pena. mais que depressa tirou o espinho. como se Deus mandasse. pondo a alma pela boca de tanto correr.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 139 a desunião dos filhos. mas o espinho saiu. por ordem do pai. com todo o cuidado. outro sacou da patrona u m alfinete e o mais moço deles. Eles foram. mas não pôde. sendo que os mais novos ocuparam u m dos canos e o mais velho o outro. que não os queria separados. 0 animal reconhecido por tamanho benefício levou-os para a sua toca. de fato. U m foi buscar água. Logo depois chegou junto deles. mandou-lhes que saíssem a correr mundo. u m par de botas que era calçá-lo e já estar onde se queria e u m a vela que. passados dias. ao despedirem-se. Mas. lhes fêz presente de três coisas. por maior que fosse a distância. quando fugia. fazia-a ressuscitar. u m a a cada um: u m espelho. Foi então que. Obedeceram. a queixar-se da maldade dos homens e de u m espinho que lhe havia entrado numa das patas. . Referiu a visão aos irmãos e os três meteram-se nas botas. colocando-se na m ã o de u m a pessoa morta. pronta a ser levada para o cemitério. u m leão que lhes caiu aos pés prostrado. Lá estava. E partiram para a terra n u m átimo. Os moços socorreram a pobre fera. 0 leão urrou. muito longe ouviram latidos de cães e gritos de caçadores. deu-lhes u m bom tratamento e no dia seguinte. a ver se assim esqueciam aquela paixão. ela teve que decidir com qual dos três havia de casar. e. 0 que tinha a vela colocou-a na mão da defunta que logo ressuscitou. Isto era ainda no tempo e m que os filhos tinham medo de perder a bênção dos pais. o que tinha o espelho quis ver se nele via a moça que amava e enxergou-a morta e deitada n u m caixão.

Foi andando. de arreios dourados e peitoral prateado. aliás. pôs-se a chorar. nada. o narrador sai-se com uma réplica rimada que não convém aqui repetida.140 LINDOLFO GOMES O do espelho foi quem a viu morta. Neste também se notam reminiscências da história do leão e o médico. Sílvio^ Romero coligiu u m a variante. hora e m que todas as coisas param — êle também parou. o das botas ou o da vela? Responda quem fôr capaz ( * ) . Até hoje se pergunta qual dos três devia ser o preferido: o do espelho. E vai então o cavaleiro lhe perguntou: — Amigo. e não ficou resolvida. Como escolher? Os irmãos também começaram a demandar. o das botas transportou-os num credo onde ela estava e o da vela ressuscitou-a. Certa noite. em que pensas e por que te vejo assim tão triste? — Porque trabalho como u m mouro e ganho tão (1) Feita a pergunta. (2) Colhido gni Eugenho Novo. Minas. Mar de Espanha. todo vestido de ouro e prata. foi andando. disse à mulher: — Hei de lograr fortuna ainda que seja por conta do diabo. A questão correu muitos anos. bem diversa. mas êle. Vai senão quando aparece-lhe a figura de u m imponente cavaleiro. contada em IVora Floresta. já desesperado. se alguém responde. do presente conto. justamente n u m a encruzilhada. E saiu de casa. A cruz que venceu ao diabo (2) Havia um homem que vivia na miséria e muitas promessas fêz aos santos de fama de mais milagrosos. sem que nada conseguisse. muito triste e pensativo. A mulher quis lhe tirar tal coisa da cabeça. por Manuel Bernardes. . montado no mais bonito cavalo preto que imaginar se pode. até que ao dar meianoite em ponto. puxando cada u m pelo seu direito.

. e daqui a seis anos. tens que ir comigo. a pedir-lhe que lhe perdoasse. O h o m e m aceitou a bolsa. prometendo restituir-lhe toda a fortuna. Mas o demónio não se deixou convencer. o h o m e m atinou que o tempo era chegado de partir com o demónio. começou a chorar e a lamentar-se. O outro estremeceu. A mulher. sempre desconfiada. que não consentiu e m tal coisa.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 141 pouco que nunca saio da miséria. tomou devoção com as santas almas. e disse-lhe: — Que importa que tenha de i r contigo. na véspera do dia assinalado. E o pobre hom e m receoso. Vendeste-me a alma. com espanto de todos os vizinhos. amigo. voltou para casa. Entristeceu de meter pena. que lhe desse u m prazo maior. Daria a alma ao diabo se m e quisesse ajudar. ouviu bater à porta e a tremer foi abri-la — que podia fazer o infeliz? e o demónio apareceu-lhe na mesma figura de cavaleiro: — Vamos! Soou a hora! O h o m e m pôs-se de joelhos. Enfim. quis de agradecido beijar a m ã o do cavaleiro. chegada a meia-noite. até que. disse resoluto : — Pois seja! 0 cavaleiro desapareceu a galope. vês que m e vendeste a alma. mas alegre com a fortuna adquirida. Toma esta bolsa. m a s não havia remédio. e tudo ia indo bem. — Ajudar-te-ei. Mas. irei buscar-te a tua casa. pois tinha compreendido que quem ali estava era o próprio demónio. cheia de ouro. — Trato é trato. Daí por diante começou a viver vida de lorde. . pois a tua aflição m e faz compadecido de ti. dizendo à mulher que havia encontrado a bolsa na estrada. se durante seis anos deixarei de lutar com a miséria? — Mas. a esta mesma hora e neste mesmo dia..

lá seguia atrás. e m vez da sua. Vestiu-se. queria levar-lhe a alma da mulher. a rezar e m voz baixa.Ao passar pela igreja. mais valiosa a sua conquista. Era a hora da (1) Colhido em Lima Duarte. por serem elas mais religiosas e. E vai o diabo então aceitou — porque o demónio gosta mais das mulheres do que dos homens. Minas. a devota se tinha transformado n u m a cruz e as suas lágrimas e m luzes. M a s deu com os olhos n u m a cruz de pedra. Já o diabo ia a alguma distancia. pôs à cabeça a bacia cheia de roupa e foi lavar norio. 0 h o m e m foi para dentro e ordenou à mulher que acompanhasse aquele cavaleiro. que até ali não havia. e foi sempre muito religioso. sem compreender aquele mistério. E' que. portanto. que lhe havia de dar alguma coisa para trazer-lhe. A lavadeira assombrada O Era uma vez uma lavadeira muito madrugadora. no meio da estrada. Até que enfim chegaram e m frente de u m a igreja. embrulhada num 1 xaile. e podendo tranquila tornar para a casa. viu que entrava muita gente. onde tudo contou ao marido. . pensando que o dia já tinha amanhecido. que para sempre ficou livre e nunca mais quis negócios com o demónio. e a mulher. Não atinou que era o luar e levantou-se mais que depressa. e a 'mulher foi dilatando os passos. U m a noite ela dormia quando acordou sobressaltada e viu no quarto u m a grande claridade. voltando depois a ser o que era.142 LINDOLFO GOMES O h o m e m então propôs-lhe u m a troca: se êle. e que se movia e estava toda iluminada. Ao ver aquilo o demónio deu u m estouro e desapareceu. com os braços abertos. por milagre das santas almas. quando olhou para trás e não viu a mulher. 0 diabo seguiu à frente puxando o cavalo.

que morri de tísica.. que morri de enterícia. Então os cabelos da pobre mulher arrepiaram-selhe de medo. Vai então o mais velho disse: vamos nos separar. O padre veio para o altar com o sacristão e principiou a missa. Mas. Mas êle respondeu-lhe com u m a voz soturna. que a fazia tremer sem saber por quê. que não tenho mais sangue. que lhe respondeu: — Não posso. E ainda a outro: — Não posso. e ela pôde compreender que havia assistido a u m a missa de mortos e que o luar a tinha enganado. E ela pediu a u m deles que a ajudasse a levantar a bacia.. . Quando acabou o ofício. Os devotos estavam saindo. Minas. Mas a lavadeira começou a sentir u m frio. até que chegaram a certo ponto em que havia u m a estrada à direita e outra à esquerda. Três Deus fêzC) Era um dia três rapazes que resolveram sair pelo mundo para ganharem a vida. uns atrás dos outros. Saiu a correr assombrada. a lavadeira benzeu-se e saiu. estavam muito atentos. e não levou muito tempo deu a alma a Deus. quando foi para pôr a bacia na cabeça.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 143 missa d'alva. (1) Colhido e m Palmira. andando. viu que o peso era por demais e não podia erguê-la. porque lá diz o ditado que três diabo fêz. Todos os ouvintes. A igreja estava cheia de devotos. Pediu a outro. de u m aluno do grupo escolar dessa localidade. Foram andando. 0 relógio deu duas pancadas. vestidos de capas brancas. E como de costume arriou a bacia à porta da igreja e entrou para fazer as suas orações. muito fora de comum: — Não posso.

0 da direita. Ao vê-lo o ladrão se pôs em fuga. pois ia morrer. onde resolveu pousar. apareceu-lhe u m frade. o outro não quis convencer-se e mandou-lhe que rezasse u m a ave-maria. viu surgir u m vulto luminoso e desviar o braço do assassino. quando já estava querendo conciliar o sono. — Não. lhe disse: — A bolsa ou a vida! E apontou-lhe uma arma ao peito. empunhando u m a arma de fogo. com u m crucifixo ao peito. cada qual diverso caminho. teimaram os outros. pela esquerda e o mais moço seguiu a estrada larga. mas o que é verdade é que três Deus fêz. e perguntou-lhe com que direito êle havia ousado apropriar-se da casa alheia. disse o mais novo. Pela noite a dentro. e respondeu: três Deus fêz. disse o do meio. tomando-lhe o caminho. que logo desapareceu. o do meio. 0 mais velho tomou pela direita. ao atravessar u m bosque. ou três Deus féz ? Ele caiu e m si e respondeu: Três Deus fêz. 0 que havia tomado pela esquerda foi dar n u m castelo desabitado. e então o frade perguntou ao viajante: três diabo fêz ou três Deus fêz? Ele caiu e m si. como que por encanto. Por mais que tentasse explicar. Quando o pobre moço ia entregar ao ladrão tudo o que trazia. Pela manhã a esse mesmo castelo chegava o irmão . Que não.144 LINDOLFO GOMES — E' verdade. E separaram-se. O infeliz pôs-se a rezar e quando já se havia encomendado a Deus e sentiu que o desconhecido ia desfechar-lhe u m tiro. penetrou no castelo u m desconhecido. deu pela frente com u m salteador que. tomemos. Podemos nos separar. E então a aparição lhe perguntou: — Três diabo fêz. Isto é bem certo.

ou três Deus fêz ? — Trêz Deus fêz! — responderam ambos. E viu u m sapo gemendo debaixo de uma grande pedra. e muito admirado de ver u m bicho falar. Nesse ínterim. pois os três caminhos iam dar ao mesmo ponto. que bum! Não vá por ai ! não vá por aí! O lavrador meio cismado. Passou-se muito tempo. que bum! um. — E u não lhes dizia? E daí continuaram a viajar os três irmãos.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 145 mais velho que lhe contou o que lhe havia acontecido. que nunca mais se separaram. (1) Colhido em Palma. Minas. quando os irmãos lhe contaram o que com eles se havia passado. o Padre. ouvindo também a narração do outro. no caminho. 10 Contos Populares Brasileiros . o Filho e o Divino Espírito Santo. U m a noite o dito lavrador viajava por u m a estrada deserta. quando partira. até que voltaram ricos para a terra e viveram sempre muito felizes. logo ao deixá-los. E. levaram-no depois para a fazenda onde pernoitara e que. pela madrugada. filhos de u m fazendeiro. 0 lavrador livrou-o e o sapo agradeceu-lhe muito o ter-lhe salvado a vida. que com êle viajaram todo o dia na maior harmonia. Amém. Perguntaram-lhe como tinha ido de viagem e êle lhes contou que. veio ali ter também o mais moço. O sapo encantado O Uma feita um lavrador passava por uma estrada quando ouviu uns gemidos de fazerem pena. com a graça de Deus e das três pessoas da Santíssima Trindade. quando sentiu que u m sapo o estava acompanhando a roncar: Um. enxotava-o. se encontrara com dois rapazinhos. lhe deram uma boa matulutagem. riu-se muito e perguntou-lhes: — Então três diabo fêz.

se lamentava sempre dessa desventura. avisando sempre: — Não vá por aí! não vá por aí! Já muito longe. crescendo. A moça feia e bonita (x) Era uma vez uma moça que tinha o encanto de ser. de repente. na volta de u m capão de mato. tirando-o debaixo da pedra que o esmagava. 0 pobre lavrador ajoelhou-se aos pés do guerreiro. Apareceu-lne u m a fada e deu-lhe u m anel encantado. Era eu u m príncipe guerreiro a quem u m m a u génio transformara e m sapo. bonita. 0 bem paga-se com o bem e não com o mal. e deu-lhe u m alto posto. M a s o guerreiro lhe disse: — Nada tens que agradecer-me. de noite. investindo para o salteador. Mas só podia pô-lo depois que anoi(1) Colhido em Rio Pardo. agradecendo-lhe o socorro que lhe havia dado. e por isso. para que alguém m e salvasse e eu depois salvasse o m e u salvador. colocandom e debaixo daquela pedra.146 LINDOLFO GOMES Mas. saltou à frente do lavrador u m bandido. que a faria a mais bonita deste mundo quando o pusesse no dedo. como se costuma dizer. intimando: A bolsa ou a vida! Eis que então. n u m reino muito rico. que lhe pôs armas ao peito. o fêz fugir à toda. a quem salvaste a vida. feia e. de dia. Tinha nascido muito feia. Dito isto. . aparece. levou o lavrador para o seu palácio. E eu é que te devo agradecer». u m guerreiro vestido numa couraça e de lança e m punho. Minas. qual! o sapo lá ia seguindo os seus passos. E u sou aquele sapo. «Estou agora desencantado. que.

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tecesse, e havia de tirá-lo quando o galo cantasse a segunda vez, sob pena de o anel perder o ãom. Também não devia ela perder essa prenda. E aí está como a tal moça era feia de dia e bonita de noite. Por isso, só à noite a moça se mostrava às pessoas estranhas. E na janela, ou nas festas, na igreja e bailes os rapazes que a viam e as outras moças ficavam encantados da sua formosura. E quando de dia, por acaso, a enxergavam ficavam horrorizados. Não sabiam do mistério e pensavam que se tratava de duas irmãs: u m a feia, a outra bonita. Por mais que quisessem namorar ou casar com ela, a moça não lhes dava palha. Os rapazes chegavam mesmo a brigar por sua causa. Mas todos ficavam muito admirados de ela não ficar nos bailes, depois das duas da madrugada. Isso é que ninguém sabia por quê. E m certa reunião, ela dançou muito com u m fidalgo. E o fidalgo ficou louco por ela. E ela também por êle. Mas, dez minutos antes das duas, antes que o galo cantasse outra vez, a moça deixou o baile e partiu a correr, e o fidalgo seguiu-a. Ela não se deixou alcançar e pôde chegar e m casa. Mas, ao entrar, no tirar o anel do dedo, deixou-o cair. E tendo ficado logo feia, saltou para dentro sem apanhar o anel. O fidalgo apanhou-o e colocou-o no dedo mindinho, para, no dia seguinte, restituí-lo à dona, e assim poder vê-la outra vez. Assim fêz. Ao chegar e m casa da moça, encontrou-a em companhia da mãe. Mas estava tão feia que a não reconheceu. E então perguntou à velha quantas filhas tinha, e ela respondeu que só aquela. O fidalgo ficou muito espantado do que ouvia e contrariado por ver que lhe queriam esconder a bonita. Mas a moça, vendo o seu anel no dedo do fidalgo, avançou para êle, ajoelhou-se e pediu que lhe desse aquele anel, por tudo que tinha de mais caro no mundo. E o fidalgo então deu-lhe o anel que ela, distraída,

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com a alegria que estava sentindo, meteu logo no dedo, e ficou mais bonita do que nunca, pois o encanto desse anel, o que a fada não dissera, estava também e m que desde o dia que êle amanhecesse no dedo de u m homem, ao voltar para dedo de mulher, a dona ficaria bonita para sempre. O fjdalgo reconheceu a amada, e, maravilhado com a sua beleza, casou-se com ela e levou-a para o seu palácio. E a moça nunca mais ficou feia, n e m de dia, nem de noite.

O velho que virou rapaz (x) Havia uma moça que estava doidinha por casar. Mas apesar de bonita e muito prendada •— casamento é sorte — nenhum moço se agradava dela. Então ela começou a chorar e pediu u m dia a u m a boa fada que lhe desse u m marido ainda que fosse muito velho. Não levou muito tempo apareceu-lhe u m velhinho e casou-se com ela. Mas a moça, vendo que tinha errado, que não podia i r às festas com aquele velho, que era para ser seu avô, que as outras moças faziam caçoada dela, e que o tratar do marido lhe dava muito trabalho, arrependeu-se do passo que tinha dado e pôs-se a se lamentar de novo e pediu desta vez a u m feiticeiro levasse para o inferno aquele velho e lhe desse para marido u m rapaz. E o feiticeiro disse-lhe que sim e foi com ela a casa. Pegou do velhinho meteu-o no forno que estava aceso para o pão da semana. E depois tirou do forno o velho, mas, e m vez deste, saíra u m rapaz, sacudido e bonito como não havia outro.
(1) Colhido no arraial do Rosário, Minas.

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Nos primeiros dias foi grande a alegria. Mas, passados tempos, o rapaz deu em malandro, bêbedo, jogador, libertino. Não parava em casa, pegava na mulher e dava-lhe cada sova! Coitada! Estava arrependida. E foi, voltou-se para a boa fada, pediu-lhe perdão e queria outra vez o seu velhinho, tão bom para ela. E vai a fada foi aonde estava o rapaz, n u m a mesa de jogo, trouxe-o para casa, chamou a rapariga, e chegou a sua varinha de condão à cabeça do moço, que foi logo se mudando no velhinho, emquanto a mágica desaparecia. 0 casal ficou vivendo muito bem. E a mulher nunca falou ao marido no tempo e m que êle foi segunda vez moço. T a m b é m o velhinho não se lembrava desse tempo. Depois êle morreu, e a moça não se casou mais, apesar de muitos rapazes ricos e bonitos quererem casar com ela. Aí está como são as coisas!

Os três cisnes Havia numas terras encantadas um príncipe descendente de milagrosa fada e casado com a princesa mais bela do vizinho Reino. Ao fazer-se moço o príncipe, a fada, sua mãe, recomendou-lhe que jamais na vida se mirasse em espelho ou onde contemplasse e m reflexo a sua imagem formosa, e que se tal fizesse, êle príncipe, se transformaria n u m cisne. Por isso o moço, seguindo à risca as recomendações de sua mãe, proibiu e m palácio o uso de espelhos e fugia das águas dos rios, dos lagos e de todos os objetos transparentes que pudessem refletir a sua imagem. Ora, u m a vez a princesa, deslumbrada com a rara beleza do esposo, o contemplou tão fixamente e por

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tanto tempo que o príncipe não pôde esquivar-se àquela adorável contemplação, e, fitando a esposa, viu a sua imagem refletir-se na retina daqueles olhos. E, então, já sob o efeito do encanto, murmurou: — Ah! ingrata, foste a minha perdição! Agora procura-me para sempre nos ares! E, tomando a forma de u m alvíssimo cisne, voou pela infinidade do céu. Rápida a princesa precipitou-se sobre o cisne que batia as asas, e vendo que já não o podia alcançar, atirou-lhe uma pequena caixa de ébano que êle recolheu nas asas, levando-a consigo. Desde esse dia a princesa tornou-se melancólica e a ninguém dirigia uma única palavra. Tudo se fêz para a despertar daquele sonho de tristeza, e tudo foi debalde. O Rei, seu pai, veio então buscá-la e Ievou-a por montes e vales, de vila e m vila, a ver se assim a distrairia daquela profunda mágoa. Chegaram, pois, a u m a bela cidade pertencente ao Reino e ali se instalaram em suntuoso palácio, mandando o Rei anunciar aos habitantes por seus emissários que concederia uma soma enorme de dinheiro e graças a quem contasse uma história que fizesse a princesa rir e esquecer os padecimentos. Muitos foram os que se dirigiram a palácio, imaginando e relatando casos engraçadíssimos, histórias de fadas e de génios, sortilégios e bruxarias, mas impassível mostrava-se ao ouvi-las a princesa, e muitas delas só serviam para aumentar ainda mais as suas angústias. Vivia nas redondezas da cidade u m pobre velhinho lenhador e m cujo lar havia fome e frio. U m a noite, seguindo êle pela estrada, pensando na sua vida de misérias, pedia a Deus que lhe inspirasse uma história que fizesse a senhora princesa rir, porque assim poderia alcançar não u m reino portentoso, mas u m pedaço de pão para matar a fome.

CONTOS POPULARES BRASILEIROS

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Sentou-se numa pedra que havia à margem do caminho e, continuando em suas cismas, viu de repente surgir à sua frente u m a pequenina cabra toda branca, trazendo à cabeça u m pequenino púcaro de água. E dirigindo-se a êle, disse-lhe: — Arreda, que eu quero passar! 0 velho, deslumbrado, recuou, a pedra ergueu-se por si mesma e deu passagem à cabrinha, tomando novamente sua primitiva posição. Implicado com o mistério da cena que se acabava de passar, o lenhador sentou-se novamente sobre a pedra, quando segunda cabra, desta vez toda azul, trazendo à cabeça outro pequenino púcaro de água, dirigiu-se-lhe e, como a primeira, murmurou as mesmas palavras: — Arreda, que eu quero passar! 0 velhinho saltou imediatamente para u m lado, dando caminho à graciosa cabra. A pedra levantou-se e ela atravessou lampeiramente. Depois que a pedra desceu ao seu lugar, o velhinho sobre ela se sentou, muito disposto a não sair dali. Mas o lenhador começava a imaginar no que vira, e terceira cabrinha toda verde, trazendo ainda pequenino púcaro de água, surgia, falando-lhe como se falasse à pedra: — Arreda, que eu quero passar! Seguidamente o velhinho recuou e a pedra ergueu-se vagarosa, deixando passar a galante cabrinha. Antes, porém, que a pedra se abaixasse o velhinho, de súbito inspirado, meteu-se pelo subterrâneo, e qual não foi o seu espanto quando se viu entre as paredes de u m maravilhoso palácio, onde e m meio de riquíssimo salão havia u m grande tanque, jorrando cristalina água, e m que a cabrinha esvaziava o púcaro. E m roda de uma pequenina mesa, três belos jovens jogavam as cartas, quando de repente um deles disse para u m dos criados: — Criado, criado, traze aqui o meu relógio.

0 soldado riu-se da figura exótica do velho e do seu maltrapilho traje. Três criados trouxeram os objetos pedidos pelos jovens e eles sucessivamente.. só não vejo a ela! — Caixinha. e. vejo-te. saltou sobre o velho e fêz-se então uma algazarra infernal que obrigou o Rei a chegar à janela. E seguidamente o outro: — Criado. criado. relógio de minha bela. Ao amanhecer foi ao palácio real e perguntou à sentinela se podia contar u m a história à senhora princesa. murmuraram: — Retrato. vejo-te. seu jagodes. O soldado. que eu quero passar! A pedra ergueu-se e êle saiu do palácio. — Vai-te daqui. — Não irei. enfurecido. quero contar u m a história à senhora princesa. vejo-te. 0 velhinho bateu palmas de contente por haver descoberto a história que faria rir a senhora princesa. por onde seguiu e m demanda da cidade. fitando as queridas relíquias. Mal o velho avistou Sua Majestade. pôs-se a gritar: — Eu quero contar uma história à senhora princesa ! . criado. retrato de minha bela. traze aqui a minha caixa. só não vejo a ela! E imediatamente transformaram-se os moços em três brancos e lindos cisnes. murmurou as palavras cabalísticas que aprendera: — Arreda. só não vejo a ela! — Relógio.152 LINDOLFO GOMES E logo o outro: — Criado. dirigindo-se para o lugar da pedra. vendo-se outra vez na estrada. traze aqui o m e u retrato. que desapareceram em meio das águas do tanque. caixinha de minha bela.. não senhor.

vejo-te. E murmuraram sucessivamente. a verificarem a verdade da narrativa. a minha caixa. Então u m dos mancebos e seguidamente os outros disseram para os criados: — Traze. mas o velhinho oonteve-a prudentemente. e. acompanhados do velhinho já muito bem vestido e de grande comitiva. que fêz com que o Rei desmaiasse de prazer. vejo-te. ficando a princesa e o velho sentados sobre a pedra. só não vejo a ela! — Relógio. tu. o meu relógio. A primeira e a segunda cabrinha passaram. n u m dos quais a princesa. o velho e a princesa aoompanharam-na pelo subterrâneo. contemplando cada u m a daquelas relíquias: — Retrato. Introduzido o velhinho nos aposentos da princesa. reconheceu seu esposo. relógio de minha bela. Esconderam-se atrás de u m reposteiro. Chegados que foram. e eis que três lindos cisnes saíram do tanque e se transformaram em três belos mancebos. só não vejo a ela! . quando desapareceu a terceira.Quando o mais lindo dos príncipes pronunciou . o meu retrato. tu. tu. e m cujo interior a moça fica deslumbrada. todos se ocultaram no bosque próximo. cheia de pasmo. riso de alegria. seguiram caminho da pedra encantada. retrato de minha bela. — Traze. alguns minutos depois ecoou u m a gargalhada nas dependências do palácio. só não vejo a ela! — Caixinha. — Traze. Quis gritar.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 153 O que fêz com que o Rei mandasse soltá-lo e ordenasse que subisse imediatamente. vejo-te. No outro dia o Rei e a princesa. caixinha de minha bela.

muito branco e mimoso. Estava inaugurado o teatro português (1502). passaremos e m frente de teu palácio e aquele e m que acertares u m de três limões que atirares será o teu esposo e ficará desencantado I Subitamente os três moços. Mas no mesm o instante apareceram ao longe os três cisnes voando. quando ali penetrou u m a figura e m trajes de vaqueiro. desapareceram nas águas do tanque. recebendo no peito o terceiro limão e transformando-se logo naquele belo príncipe que era o legítimo e adorado esposo. O monólogo. munida de três limões. Foi indescritível a alegria que reinou no palácio e na cidade. quando apareceu o terceiro. e esperou. João.154 L1ND0LF0 GOMES tais palavras a princesa não se pôde conter e lançouse e m seus braços. que caiu. o primeiro de seus atos foi perdoar àquela sentinela malcriada que lhe fora impiedosamente ao pêlo(i). à luz o infante D. O autor-ator era Gil Vicente. (1) 0 assunto deste conto faz pensar n u m episódio lendário. Maria dera. o que causou u m grande alegrão aos soldados por verem que o lenhador deveria ser castigado. que era apropriado ao acontecimento. e nunca mais houve fome n e m frio no seu lar. No dia seguinte muito cedo a princesa veio para a janela. Manuel I. sucessor de D. foi lido com êxito. A rainha D. transformados e m cisnes. o príncipe afastou-se e disse-lhe: — Por ora ainda não. dizendo-se perseguida pelos guardas e propondo-se ler u m monólogo que divertisse a soberana. 0 segundo quase fora atingido nas asas. que teve como protagonista Gil Vicente. A família real estava toda reunida na câmara da rainha. Amanhã nós todos três. M e u encanto não terminou. O velho lenhador subiu logo à categoria de duque. A princesa voltou para casa muito triste e tudo narrou às suas criadas. Entretanto. cisnes que somos. . 0 primeiro cisne passou e muito longe dele passara o limão atirado pela princesa. na véspera. murmurando: — 0' m e u amado esposo! Surpreso.

tão boamente dadas pela escrava. depois de fitá-la por largo momento. . De uma feita apareceu-lhe no escuro da floresta u m formoso veadinho tresmalhado que. e por isso respondeu: — Não te acompanharei. Genoveva saía com o seu cabaz de comida no momento em que aquela entrava precipitadamente pelo jardim. ela o tratava com admirável dedicação. — Até u m dia. Se algum deles estava doente. m a s bem depressa dele se desvaneceu. Genoveva enchia o seu pequeno cabaz de sobras de comidas que ia repartir com os pobres da aldeia. Genoveva. Genoveva? Este amável convite emocionou profundamente a escrava que tivera mesmo o desejo de aceitá-lo e ir por aí além com esse animalzinho. querido veadinho. porém. lhe perguntou: — Queres seguir-me. Quando a senhora viu a escrava sair com o cabaz. iludindo da melhor forma que podia a vigilância da senhora. Todos os dias. as esmolas caridosas. os quais. amando-a e venerando-a. nunca abandonarei minha senhora. a quem dava ela os restos da mesa da senhora. lembrando-se de seus queridos pobres. depois das refeições. lavava-lhe a roupa. E o lindo veado desapareceu por entre as silvas do bosque. montada e m seu garboso cavalo. U m a vez. ouvindo as aves cantar. sabiam agradecer. À tarde Genoveva procurava os lugares sombrios e solitários e se entregava à leitura de livros piedosos.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 155 O veadinho encantado Vivia em casa de formosa rainha do Oriente uma linda escrava que tinha o gracioso nome de Genoveva. Genoveva ainda os amava muito mais. curava-lhe as feridas.

e se até amanhã não m o restituíres serás castigada. descobriu o cabaz e. como foi que abusaste de minha bondade? — Eu. Entretanto.. não cessaram as intrigas da gente do palácio. Alteza. na gaveta de u m móvel de roupas. de u m a vez em que desapareceu o cofre de jóias da senhora. real senhora! — Deixa-me vê-las.156 LINDOLFO GOMES já bastante desconfiada pelas inúmeras queixas que lhe chegaram aos ouvidos. não pairou dúvida a respeito da fidelidade da escrava. — Furtaste-me o m e u cofre de jóias. n u m impulso de coragem. derramando copiosas lágrimas. apareceram lindas rosas desabrochadas que deslumbraram os olhos da senhora. que o cofre de vossas jóias se acha em poder de vossa aia. que é de m e u cofre? — Sabei. a rainha chegou à convicção de que a escrava havia sido a autora de tão monstruoso crime.. Apareceram até testemunhas de vista. real senhora. perguntou-lhe: — Que levas aí? — Flores. retirando-se. e diante dessas provas e dos juramentos mais solenes. e teve u m sonho. e. a rainha lhe perguntou de novo: — Genoveva. e m vez da comida que nele havia. e. e m seu pobre aposento.. mas súbitatamente. Ao alvorecer foi despertada por u m a aia que a veio avisar de que a senhora lhe ordenava que subisse. todos a u m a só voz atribuíram o furto a Genoveva.. Genoveva estremeceu por u m instante. Genoveva acedeu à ordem imediatamente. Genoveva não murmurou sequer u m a palavra. . No espírito desta. Ao chegar. mandou chamá-la à sua presença e indagou encolerizada: — Genoveva. passou toda a noite.

.

Ao amanhecer. — C o m a escrava. se viu cega e perdida no fundo do bosque.158 LINDOLFO GOMES Revistado imediatamente o móvel foi encontrado o precioso cofre e. nunca! Desta vez Genoveva estava perdida. que. logo após. — Sim. havia pouco. surgiu diante de Genoveva o lindo veadinho que ela já não podia ver. todavia. de silvas e enfeitada de parasitas. Foram e viveram longos meses numa pequena cabana na floresta. — E u te seguirei. de uma guerra distante. feita de ramos. De manhã saíam ambos. * * * Genoveva era entretanto dotada de rara beleza e por ela se havia apaixonado o filho da rainha. T a m b é m desde essa noite o jovem desaparecera para sempre do palácio. . por uma noite toda. que regressara. Genoveva? — Q u e m és tu? — U m pobre veadinho da floresta. que lhe perguntou u m dia se eram verdadeiras as denúncias que se lhe faziam. minha mãe. e m procura de alimentos. o que tudo se fêz entre lágrimas e gritos de Genoveva. era castigada a Derversa inimiga da escrava.. Genoveva não correspondia aos amores do moço. — Queres seguir-me. Impiedosamente a rainha mandou por u m de seus escravos arrancar os olhos a mísera e deixá-la no âmago da floresta. espero apenas que Genoveva m e ame para m e casar com ela. a perseguia constantemente com revelações de amor.. as quais chegaram para logo aos ouvidos da rainha. mas cuja voz ouviu. que.

e. as flores. Entretanto não cessava' de chorar a ausência de seu lindo veado. u m lindo mancebo. Genoveva saiu então tateando.. porém.. talvez. dize. Amavam-se... — Pois esse veadinho. m e pusera desde a infância. de ser ora cervo e ora gente... contava-lhe o que diziam as vozes das aves. — Sou eu! respondeu o moço abraçando-a. ia colher flores e frutos para ela. o céu.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 159 e regressavam à noite à cabana. Dias depois realizava-se o casamento do príncipe com a formosa Genoveva. tonta de pasmo. Se Genoveva estava triste o veadinho a alegrava. curou-lhe a ferida e não o abandonou jamais. Depois. com u m extenso ferimento no peito. Anoitecera. e êle ainda não havia voltado. voltandolhe os tristes olhos apaixonados.. o veadinho saíra só. onde Genoveva ensinava o veadinho a rezar. viu. a luz clara do dia. o bosque. Genoveva levou-o para a cabana. . que o amava agora tanto ou ainda mais do que quando êle era aquele formoso veadinho do bosque. a cega. lho perguntou: — Mas esse famoso veadinho não fora u m que daqui partira e não voltara? — Oh. Terminou agora o fado que a rainha. Ninguém jamais amou como eles. quando de uma vez o moço. ela. — E que depois fora ferido por u m caçador perverso quando colhia flores para a sua companheira? — Oh. Mas qual não foi o seu espanto quando divisou no chão. suplicou a pobre Genoveva. — Dize. emaranhando-se nos cipoais e m procura de seu amado companheiro. extenuada de chorar e cheia de fadiga adormeceu. quando rompeu a aurora. Estava encantado. prostrado. as aves. sim! acudiu Genoveva. e m quem reconhecera o moço do palácio. N u m a linda manhã. minha mãe. dizia que o céu estava lindo..

Era muito m á como madrasta. Quando a triste da menina voltou e não encontrou a velha e deu por falta da jarra em que sua madrasta punha tanta estimação. aos divertimentos e a coitadinha da enteada ficava esquecida e m casa. m a s que estava muito sentida com isso. Aconteceu que uma vez.. abriu n u m pranto de choro e resolveu seguir o rasto da velhaca. à porta. pedindo perdão a Deus pelo que de mal fizera ao filho e a Genoveva (l). com muito medo. . N u m átimo a menina correu à cozinha. mas a pobre. assinando-os com o pseudónimo Jarbas Carimbo. apareceu u m a velhinha. Encontrou u m passarinho e perguntou-lhe: — Passarinho. E vai daí a velhinha disse-lhe assim: — Ao menos. linda menina. casados. quando a viúva saíra a passeio com a filha. A s jarras de ouro Era um dia uma mulher que havia sido casada duas vezes e tinha uma filha e uma enteada. u m a brasa para acender o meu cachimbo. aproveitando a ocasião.. muito mal vestida e ainda por cima com todo o peso do serviço da cozinha. Caminhava fora de si. que viera ver quem era.160 LINDOLFO GOMES E. tomou de uma jarra de ouro que havia sobre a mesa e pernas para que te quero. aos bailes. disse-lhe que não tinha nada para lhe dar. Ia com a filha às festas. viste passar u m a velha com uma jarra de ouro? (1) Tanto este como o couto anterior o Autor desta obia publicou-os há muitos anos (1895). sem saber onde daria com o rumo da «ladrona ». pedindo u m a esmolinha pelo amor de Deus. foram habitar o palácio da perversa rainha que havia morrido pouco antes. A menina.

caída para u m lado. Quando a velha chegou ficou muito admirada do que via e começou a procurar a pessoa estranha que ali devia estar. lá adiante encontrarás u m a casinha de sapé. pôs a menina cada coisa em seu lugar. A menina foi à capoeira perto cortou paus. Entrou. lá estava a porteira toda desconjuntada. e este lhe disse: — Deus te pague. Entre e espera e faze o que te mandar o coração. Pergunta ao boi aí adiante. A menina com todo jeito encanou a perninha do passarinho que lhe disse: — Deus te pague. Fêz a menina a pergunta. A velha não estava. E' nela que mora a velhinha. Pôs-se a esperar. Acendeu o fogo e preparou a ceia e escondeu-se atrás da porta. A menina foi buscar água. adiante.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 161 — Só responderei se m e encanares a perninha quebrada. Pergunta da menina. Pergunta ao veado aí. Obra de meia légua. mas como a cozinha se achava toda e m desarranjo. A menina seguiu até que encontrou u m veado com os chifres embaraçados n u m cipoal. Deu com a casa. O boi estava amarrado e urrava que fazia dó. Puxou-a de onde estava ela oculta fingi u-se muito zangada e deu11 Contos Populares Brasileiros . A menina deu liberdade ao veado. cipó e consertou a porteira que lhe disse então: — Vai andando. Pergunta à porteira aí adiante. Deu com a menina. Ela não está agora e m casa. viste passar u m a velha com uma jarra de ouro? — Só responderei se m e livrares deste cipoal. vai andando. numa folha de inhame para o boi que depois de matar a sede disse: — Deus te pague. A menina saiu contente e fêz tudo o que lhe aconselhou a porteira. — Veado. resposta da porteira: — Só responderei se m e consertares e m e puseres como eu estava ainda há pouco. e o boi lhe disse: — Só responderei se m e matares a sede.

logo. Qual não foi o seu espanto quando o palácio apareceu de verdade. u m a coisa encantada. uma lacraia na cabeça da feiticeira e sem nojo nenhum continuava a catar. um tanto assim: — E m troca da jarrinha de tua madrasta. a velha disse-lhe. dizendo: apareça u m rico palácio. Entrou no palácio e ficou senhora daquilo tudo. No outro dia. A menina vendo essa maravilha. Foi até u m milagre! N u m instante deu conta da tarefa. A menina voltou muito triste. Já quando estava perto de casa só coisa de meia légua. A menina quebrou mais uma fava. quebrou outra fava. ricamente vestida e cheia de jóias que não havia dinheiro que pagasse. Quando desejares alguma coisa quebra uma fava. A menina principiou.162 LINDOLFO GOMES lhe por castigo descascar um monte de favas até enche u m a tulha. De vez e m quando encontrava uma cobrinha. a fazer o que a velha lhe mandava. chegando a cabeça ao colo da menina: — Cata-me com essas mãozinhas de fada. E a menina obedeceu. A velha então deu-lhe de cear. leva estas favas. Vai com Deus. pensando n u m a carruagem. uma perereca. A notícia da presença da rica e formosa jjrincesa correu de boca em boca e chegou aos ouvidos da viú- . quando a menina se despedia. tão rico como não podia haver outro igual. entregando-lhe u m punhado de favas. quis experimentar a virtude das favas e quebrou uma. criados de farda. de cara alegre. E a menina nada de falar na jarra de ouro. E vai a velha lhe disse. acompanhada de muitas damas e criados. certa de que a madrasta não lhe perdoaria. pensando que sendo dona de tanta riqueza não podia ficar naqueles trajes de cozinha. E a carruagem apareceu com seus cavalos de arreios de ouro. E logo se mudou n u m a princesa.

CONTOS POPULARES BRASILEIROS 163 va que estava furiosa com o desaparecimento da jarra e com a fuga da enteada que ela supunha ter furtado a sua rica prenda. exigindo a jarra. a velha se apossou da outra jarra de ouro. A menina contou tudo ao contrário. acutilava o boi. Só a porteira. é que lhe ensinou a casa da velha. A filha da viúva^ muito invejosa que ela era. E cada u m dos maltratados lhe dizia: — Mais adiante haverá quem te há de dar o pago. e. Qual não foi o seu espanto quando reconheceram na princesa a menina que tanto martirizavam. mas lhe disse tudo ao contrário do que devia fazer com a feiticeira. e entregou-lhe não só a jarra. e quando a velha chegou correu para ela com u m a descompostura. quando fugiu. A moça deu-lhe uma sova e escorraçou-a de casa. A velha sorriu. espancava o veado. Lá chegando quebrou a louça. No dia seguinte a velha lhe apareceu e m casa e pediu u m foguinho para o seu cachimbo. gostavam de se achegar à gente graúda e não tiveram em si que não fossem visitar a nova vizinha. desarrumou a casa. quebrava a porteira. E a invejosa voltou para casa pensando n u m meio de começar o negócio. . zombando. sujou nas panelas. A moça m á saiu no rasto da velha e foi perguntando por ela e conforme a resposta que lhe davam apedrejava o passarinho. A moça voltou já muito alegre com o presente e com a sorte que ali estava nas favas. Mas enquanto a malvada havia ido apanhar o chicote. levou-a. E ensinou-lhe como havia de fazer. muito pomadistas. como lá se diz. quis então que a outra lhe contasse como foi aquilo. A viúva e a sua filha eram. por último. que estava na mesa. que trouxera por último. como também a primeira e ainda por cima deu-lhe um tanto assim de favas para o fim de possuir tudo quanto desejasse.

vivia muito triste. Creanga. José del-Rei. . Já cansada de rogar sem resultado. pra que tal disseste? Não levou muito tempo a rainha ficou embaraçada. perdoando-lhe todo o mal que lhe fazia. porque a rainha não lhe dera ainda u m filho. A moça soltava gritos de cortar a alma. Boca. deixando cá ficar as duas jarrinhas de ouro com que a velha tinha experimentado o coração das duas meninas. E entrou por u m a porta e saiu por outra. e houve grande satisfação no palácio. Ninguém atendia — e no meio dos bichos acabou por entregar a vida a Deus. no maior desespero. peça ao rei que lhe conte outra (1). A boa menina casou com u m príncipe e mandou buscar a madrasta para participar de sua felicidade. de u m romeiro de S. ainda que seja u m leitão». O Príncipe encantado (2) Era uma vez uma rainha. A rainha também não podia ocultar a sua (1) H á u m a variante deste conto que corre na Rumània e foi publicado pelo escritor L. apesar de seu grande poder e riquezas. para servir de exemplo às más criaturas sem piedade que não têm pena dos pobres nem de todas as coisas que estão no mundo e são de Nosso Senhor Jesus Cristo. (2) Colhido e m Congonhas do Campo. exclamou: «ó m e u Deus! dai-me u m filho. escorpiões. 0 rei não cabia em si de contente.164 LINDOLFO GOMES Ao chegar nas vizinhanças pensou logo em meter invejas à mãe e pensando n u m palácio que fosse mais rico do que o da princesa quebrou três favas de u m a vez. rodeada de sapos. cobras. de toda a casta de bichos ruins e peçonhentos que começaram a pelejar com ela. Eis senão quando se viu ela dentro de uma toca de laje. Vai então a rainha passava os dias chorando e pedindo a Deus que lhe desse u m filho. casada com um rei que.

mas deu ao mundo. Mas. ganhava u m ódio que parecia que queria pôr o mundo abaixo. Chegou por fim o dia suspirado. E vai então encomendaram-se as mais ricas peças de enxoval para o principezinho. porque era porco. 0 reino se alvorotou com a grata nova da vinda do herdeiro do trono. . deixava os salões do palácio. 0 rei caiu das nuvens com essa notícia e bradou logo que não havia de intervir nesse negócio. iam-lhe dando uma boa instrução. e então devia de ser criado com todo o carinho.. o leitãozinho era príncipe. e até o acalentava no colo.. e ia espojar-se na lama do chiqueiro. mas havia horas em que ficava muito pensativa. casasse com êle. foi ter com a rainha e lhe disse: — Mamãe.. Ao jasso que ia crescendo. não houve festas nenhumas e o reino recebeu a nova com muita tristeza. tanto a rainha chorou e pediu que êle lhe deu ordem para escolher a noiva. u m leitãozinho. você não vê que isto é u m impossível! Que ninguém quererá casar com u m príncipe porco? 0 príncipe se enfureceu. gritou que êle era o herdeiro do trono e que não faltaria quem. mesmo à força. Quando o príncipe chegou à idade de casar. A rainha ficou livre. Mas o príncipe. mas a rainha não o deixava u m momento. Mas. E quando a rainha o repreendia por isso. lembrando-se daquele pedido. Então a rainha foi ter com o rei e lhe disse o desejo do filho. Foi u m desaponto sem exemplo! 0 rei se recolheu ao seu quarto. clamando contra aquela desgraça. mal se apanhava sozinho.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 165 alegria. eu quero m e casar! — M e u filho — lhe disse a rainha. a rainha chorava que parecia uma Madalena. 0 rei poucas vezes lhe aparecia..

porco! Para que fêz isto I 0 príncipe soltou u m ronco de raiva! E deu logo ordem para que a princesa na mesma hora fosse degolada. morava mesmo e m frente do palácio u m a viúva com três filhas moças e que eram costureiras da rainha. como palavra de rei não volta atrás. que. Quando a viúva e as outras moças souberam da sorte que estava destinada a Isabel. quando o viu fazer aquilo e perdido o seu rico vestido. foram todos para o salão. Não houve conselho nem lágrimas que o demovessem daquela resolução. de modo que ela foi falar com o rei e obteve nova ordem para arranjar noiva para o filho. Mas. com u m manto todo de ouro e diamantes. o carrasco cortou a cabeça da princesa. mas não levou muito tempo o príncipe porco foi dizer ã rainha que queria casar de novo. puseram-se a lamentar que metia pena. depois de conversar muito com a noiva. não se mostrava contente — retirou-se e foi se espojar na lama do chiqueiro. que se chamava Isabel. de combinação com o príncipe. Vai daí. Ih! a rainha quase caiu desmaiada. querendo arrasar tudo. mas o príncipe estava tão irado. Mas. diante dos convidados. Isabel. então o príncipe. que se chamava Fio- . em que o príncipe se apresentou também muito bem vestido. cheia de dó e de tristeza. Toda a família pôs luto. voltou e veio reoostar-se no colo da princesa.166 LINDOLFO GOMES Ora. E logo mandou-lhe recado que viesse a palácio. senão outra filha da viúva. escolheu a mais velha das moças. Depois do casamento. Ela pensou que não podia escolher melhor. Armaram logo o cadafalso e m frente do palácio e. fêz-se o casamento e m meio de muita festa. deu u m grito: — Sai daqui. 0 vestido e as jóias da noiva eram de u m a riqueza nunca vista. a dizer verdade. Vai então a dita rainha. a do meio.

conversou com a m ã e e a mana mais moça. «seu» porco! Nossa Senhora! foi u m barulho de estrondar este mundo e o outro. A rainha não queria consentir nem por nada. não teve por onde fugir. Que havia de fazer a probrezinha? Voltou pra casa. o príncipe foi se enlamear no chi- . e eu morrerei com você. por causa do pedido do impossível. O príncipe teve u m acesso de raiva e mandou degolar no mesmo instante a princesa. A viúva. E resolveu mandar chamar a palácio a última filha que restava â viúva. chamada Rosalinda. porque não casa. então. se a sua sorte é de morrer na forca. que era o herdeiro do trono. A rainha chorava de fazer pena. temendo o génio do filho. como das mais vezes. mas. sem atender a ninguém. eu casarei com o príncipe e a senhora há de ver que não terei a sorte das manas. que era mais bonita do que as manas. onde a noiva. mas a ordem foi cumprida. Quando chegou o dia do casório aconteceu como da outra vez. que «palavra de rei não volta atrás». linda como não havia outra. Mandou chamá-la e pediu-lhe que casasse com o príncipe. dizer à m ã e que se queria casar. o rei estava indinado. — Não. minha filha. minha mãe. passaram-se mais uns tempos e o príncipe foi.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 167 rísbela.Não. depois. Ela levou u m susto. depois da cerimónia. casada com u m porco. no dia dó casamento. O príncipe a certa hora foi se espojar no chiqueiro e veio enoostar-se no colo da noiva que ainda estava mais bem vestida que a outra. E. — Deus a ouça. ao menos que você seja degolada. Então. Rosalinda. se apresentou tão bem vestida que era como u m anjo descido do céu. não senhora. e sem querer gritou: Sai daqui. e vendo que aquilo era mesmo u m castigo que estava recebendo do céu. disse pra a filha: . E todas se lastimaram muito. m a s o casamento ficou combinado. que ela tinha feito a Deus Nosso Senhor. aquela mocinha de 16 anos.

E assim fazia todas as noites. u m belo nioço. E quando chegou no pátio fêz u m a fogueira e a queimou. nunca mais m e desencantarei. E depois. porque se o contares a alguém. a princesa que andava há muito tempo querendo descobrir o mistério que devia de haver na vida do príncipe. começou a acarinhá-lo e a mostrar-lhe todo o amor. em vez de fazer como as outras. 0 príncipe despertou e disse-lhe: — Ah! ingrata que descobriste o m e u fado! Agora guarda segredo disto. até que por fim. a quem pediu segredo. E a senhora rainha. E depois. mas ocultou o que o príncipe lhe dissera — que se descobrisse aquilo êle nunca mais perdia o encanto. e. o príncipe despertou e não . não roncava. A festa continuou com muita alegria. certa noite escondeu-se debaixo da cama do casal e quando sentiu que eles dormiam. acendeu uma velinha.168 LINDOLFO GOMES queiro e veio encostar-se no colo da princesa. e vai então ela contou à senhora rainha. de noite. Mas. levantou com cautela o colchão. porque êle não queria dormir oom luz no quarto. pelo muito amor que tinha ao príncipe. dormindo. E vai então a princesa. lá numa hora certa. distraiu-se e deixou cair no rosto dele u m pingo de cera da vela. certa noite. quando certa vez estava mais namorada. E vai para as tantas sentindo que êle dormia. então. quando estava para dar as duas horas da madrugada. e qual não foi o seu espanto. tirou a pele de porco que o príncipe deixava lá todas as noites e levou-a. ao ver. Mas «segredo e m boca de mulher é o mesmo que farinha e m saco furado ». contemplando as lindas feições do príncipe. vai senão quando. E o príncipe ficou muito satisfeito e também a rainha. os noivos se deitaram na m e s m a cama e com o correr do tempo iam vivendo muito felizes. fingiu que estava dormindo. e m lugar do porco. e todos os dias o príncipe. ia deitar-se no chiqueiro e vinha encostar-se no colo da princesa e a princesa o tratava muito bem.

E foi perguntando. E ficou muito contente. E vai a princesa preveniu a rainha e partiu. onde êle tinha desaparecido. êle lhe respondeu que já a esperava. E a princesa começou a chorar e o mágico ficou com muita pena dela e lhe disse que se ela fosse pelo caminho das pedras até o reino dos espinhos. até que a rmalutagem acabou e ela e a ama foram obrigadas a ir comendo frutos e a curtir sede. E chorava que nada a podia consolar. e m companhia de sua a m a de confiança.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 169 achou a pele de porco. E a princesa que não estava acostumada a tanto sacrifício. e ela foi. E então a princesa disse-lhe que iria até o fim do mundo e o mágico ensinou-lhe o caminho. Mas o caminho era todo de pedregulho e a distância de tantas léguas que não se podia contar. e. E a rainha quando soube do acontecido adoeceu. onde havia de falar com o mágico fulano. pois passavam dias até que encontrassem alguma fonte. E então disse-lhe: — Ah! ingrata que nunca mais m e tornas a ver! E tomando a figura de u m marrequinho saiu voando pela janela fora. soltou u m grito que acordou a princesa. até que. e que ela era a culpada. porque o príncipe estava encantado para sempre. por mais que a princesa tratasse dela. para o reino das flores. e disse à rainha que ia procurá-lo pelo mundo. . mas que não podia fazer mais nada. E na outra noite teve outro sonho. e nunca mais teve sossego. perguntando. E a princesa ficou a olhar o céu. em que ouviu uma voz misteriosa que lhe disse que o procurasse no reino das flores. E vai então a ama caiu frouxa de cansaço na estrada. E então a princesa teve u m sonho: que ainda havia de encontrar o seu amado esposo. foi ter com o mágico que era u m gigante de muito poder. a probrezinha morreu. ia caminhando com os pés já feridos e vertendo sangue. E quando a princesa lhe disse o que a levava ali. lá chegando. que ela talvez encontrasse o príncipe.

como não há outros. como se não fossem deste mundo. e se mudarão nos mais lindos moços. E êle disse-lhe que sim. Então. E a . mas preveniu que não chegasse muito perto dele porque as águas atraíam e quem ali entrasse nunca mais havia de sair. Levou dois anos a caminhar. E vai então caiu na estrada. quando despertou. por u m a peninha azul que haverá no meio delas. sem poder dar mais u m passo. passando toda sorte de miséria. e adormeceu. sentiu-se refeita de forças e pôs-se a caminhar e ainda não tinha andado cem metros. Não viu senão moitas de espinhos e não achou viva alma. E a princesa. senão u m pastorzinho que tomava conta de umas ovelhas. E as dos outros não terão este sinal. onde pôs u m a cruz de pau. quando avistou o reino dos espinhos. o bando desceu e pousou n u m a grande moita de espinhos e de lá saiu uma porção de moços muito lindos. No meio deles reconhecerás o príncipe. toda de espinhos. E se conseguires te apoderar do seu monte de penas. e o coração da princesa começou a palpitar de alegria e ela ficou que não cabia em si de ansiedade. E então apareceu-lhe e m sonho u m a fada que era mesmo u m a maravilha. E então pediu a Deus a morte e pôs-se a chorar. e chorando sem cessar. E quando o sol aprumou no meio do céu — ao meio-dia — viu vir ao longe o bando de marrequinhos brancos. e disse-lhe: — Já estás a dois passos do reino dos espinhos. a não ser os príncipes encantados. e lhe mostrou o lago. E depois continuou a viagem. E reconhecerás que as penas são do teu príncipe. então verás u m bando de marrecos que virão voando a banhar-se n u m grande lago que lá está.170 LINDOLFO GOMES E a princesa fêz u m a cova debaixo de u m rochedo. E em lá chegando espera que o sol chegue no meio do céu. E lhe perguntou se ali era o reino dos espinhos. Eles deixarão ficar as penas n u m a moita muito grande. E depois a princesa foi ficar a certa distância do lago que brilhava que parecia todo feito de prata. êle se desencantará. fome e sede.

E então as ovelhinhas do pastorzinho que estavam pouco distantes se transformaram em bonitos cavalos ricamente selados e o pastorzinho n u m vistoso pajem tão bem fardado que brilhava. E o príncipe e a . esoondeu-se atrás da moita de espinhos e todos procuraram os montes de penas. mais que depressa. correu ( a procurar na dita moita as penas com o sinal. E depois. E a princesa fêz o que a fada lhe disse. E eles envolveram-se cada qual no seu monte de penas e mudados em marrequinhos foram voando. foram se banhar no lago. a procurar. E a princesa. E os dois se abraçaram.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 171 princesa logo reconheceu o seu príncipe. não encontrando o seu. A princesa quis correr para os braços do esposo. A princesa já desesperava de realizar o seu desejo e já estava disposta a ir ter com o príncipe. E ela sentindo que os príncipes voltavam do lago. E no outro dia foi a m e s m a coisa. mas lembrou-se do conselho do pastorzinho. E os outros mudados em marrequinhos partiram voando. Mas a princesa não pôde saber qual era o seu esposo. transformando-se em príncipes. mas não encontrava. correu para a moita e ferindo todo o corpo nos ramos espinhentos começou a procurar o monte de penas com o sinal que a fada lhe tinha dito. E vai então sentiu que os príncipes se aproximavam. recordando-se do que tinha que fazer.quêle príncipe. E vai então. E vai o príncipe começou a chorar. e por encanto se viram vestidos de príncipes. Põe-me no monte de penas de outro príncipe que se desencantará também quando alguém m e venha a encontrar. com risco de perder a vida no lago encantado. m a s a. começou a procurá-lo. Começou a procurar. mas nisto a princesa soltou uma gargalhada de alegria e correu para êle. e as penas brancas de seu esposo lhe desapareceram das mãos por encanto. e afastou-se. quando no terceiro dia os marrequinhos chegaram e deixaram as penas e. e todos se precipitaram nas águas. quando enxergou aquele que tinha a pena azul pareceu que esta tomou voz e lhe disse: — E u sou aquela fada que te apareceu.

tanto d ) Aturar no linguajar popular tem também o significado de prolongar. os cavalos e o pajem desapareceram. meteu-se na cabeça da viúva casar-se com êle e. demorou muitos dias a chegar. como era muito boa de coração. peça ao rei que lhe conte outra. acaraciava-a e dava-lhe pão com mel. por ser u m h o m e m de muitos negócios. quando chegaram a palácio e apearam. quando a menina ia para a escola. como que por encanto.172 LINDOLFO GOMES princesa montaram a cavalo e. o pagode aturou até o romper do dia. História da «gata borralheira»(2) Era uma vez um homem casado que tinha uma única filha. E. Houve u m a grande festa no palácio. a qual aturou oito dias a fio^1). E então o rei e a rainha e todo o povo ficaram maravilhados. E a m ã e da princesa veio morar no palácio. E entrou por u m a porta e saiu por outra. que tinha também uma filha pouco mais crescida que Maria. por isso. passando por certa rua. E o príncipe e a princesa viveram muito felizes. mas depois te dará pão com fel. A criada que acompanhava a menina sempre lhe dizia: — Cuidado. Maria. não podia acreditar houvesse gente fingida e ruim neste mundo. Notas finais. todas as manhãs. onde morava uma viúva. para onde ia todas as manhãs. chamava-a. A menina já frequentava a escola. embora rico. e assim não deu ouvido ao conselho da criada. Como o pai de Maria vivia quase sempre e m viagens. hoje ela te dá pão com mel. Quando Maria andava pela idade de sete anos. puseram-se de viagem. . ficou órfã de mãe. (2) D a tradição oral e m Minas. menina muito bonita que se chamava Maria. por influência de sentido com o do verbo demorar: Cf. V. Maria.

que os vizinhos já chamavam de menina má. que. por qualquer coisa. zombava e humilhava também a pobre órfã. nada contava ao pai. fêz a menina cozinheira da casa. quando êle regressava. que era mesmo u m anjo de bondade. convenceu a menina a aconselhar o pai a fazer aquele matrimónio. e fosse a segunda m ã e de vosmueê. visitas e mais visitas da viúva à casa do pai de Maria foram tantas que êle resolveu casar-se com ela. e Maria. a quem apelidava de "• gata borralheira ». m a s continuou sempre na sua trabalhosa vida de viajante. . m a s — presentes e mais presentes. quem vê cara não vê coração. A mulherzinha tomou conta da casa e se pôs desde logo a fazer grande diferença de tratamento entre sua filha que. despedindo a outra criada. foi chamada à glória do céu.. U m dia a viúva disse-lhe: — Maria. que tratava como escrava. cuja ruindade ia sempre n u m crescendo. por fim. tratava como princesa. (1) Nota-se com frequência na linguagem plebeia o emprego das inversões fraseológicas e do anacoluto. ( * ) Os dias foram passando e era sempre essa mesma ladainha da viúva até que. A princípio o pai recusou. O serviço era pesado e difícil para Maria que. Como vosmueê sabe. Se isto se transformasse em verdade. apanhava da madrasta surras e mais surras. sonhei esta noite que m e apareceu e m e pediu que eu m e casasse com seu pai.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 173 mais que a filha da viúva se mostrava muito sua amiguinha. Deus lhe fale n'alma. A pobrezinha. A madrasta. E casou mesmo. enquanto a outra.. na ausência do marido. mesmo sem merecer. após prolongada ausência. sua boa mãe. que era uma espécie de m ã e de criação da infeliz criaturinha.

coisa com que o pai da menina não estaria de acordo. disse-lhe assim: — Sua madrasta vai impor-lhe seja eu sacrificada para u m banquete no dia dos anos da menina má. . havia tempos. A menina aceitou a proposta. ocultando-a de todos o mais possível. ia contá-los à vaquinha. Aconteceu certa vez que o animal para consolá-la e valer-lhe. Interrogada pelo pai. Consinta. A mulher explicou que.. Nisto chega o pai de volta de grande viagem. perguntou por ela. logo após a sua ausência. quando ficou órfã. Maria confirmou o que dissera a madrasta. E assim. a pedido da enteada. pelo poder que tem. Maria ficou de posse da varinha mágica. foi dada à « gata borralheira » a obrigação de cuidar da vaquinha. faça com que apareça isto ou aquilo de que tanto preciso ». E não vendo a vaquinha. procure dentro de u m a delas uma varinha de condão. Tudo passou como a vaquinha havia previsto. Quando o pai de Maria chegava tinha sempre o cuidado de avisar do seu regresso. e durante o tempo de sua estada no lar. porque esta não podia dar cabo do animal. voltar à sua triste condição de «gata borralheira ». até lhe causou grande contentamento. contra a vontade de sua madrasta.174 LINDOLFO GOMES Como a pobre criança possuía uma vaquinha que. dizendo: «Minha varinha de condão. para. lhe dera seu padrinho. mandara matar a vaquinha. e que ela tratava com todo o zelo. que e m vez de contrariá-la. Quando lhe mandarem que lave as minhas tripas no córrego. se quisesse que esta ali ficasse. para o banquete com que festejara o aniversário de sua filha. embora com pesar. com a qual obterá tudo que desejar. como não tivesse a quem referir os seus sofrimentos. já se sabia: a filha era tratada do melhor modo que se pode imaginar.

encontrou. e não tiveram descanso. para que eu possa ir ao baile da princesa. faça que apareça aqui u m rico vestido de veludo. e tomando-a nas mãos disse-lhe as palavras que lhe ensinara a vaquinha: — Minha varinha de condão. A madrasta e a filha ficaram alvoroçadas com a notícia. Assim vestida. passadas algumas horas. ocorreu a Maria a ideia de ir também ao baile. pelo poder que tem. zombando da sua miserável condição. partiram para a festa. criados e carruagem. Mas. causando a sua formosura e o seu trajar como não havia outro neste mundo. Quando chegou ao palácio. anunciou-se como princesa misteriosa do país «Fulano» e foi recebida com todas as honras. enorme espanto. Os festejos deviam se prolongar por três dias de festas e três noites de luxuosos bailes. tudo encantado. aos quais concorriam príncipes e gente importante até de outros reinos. jóias. deixando a pobre «gata borralheira» sozinha em casa com suas esfrangalhadas e sujas vestes de cozinha. enquanto não arranjaram u m convite para os bailes. inclusive damas para ajudá-la a trajar-se. N . Na noite do primeiro baile elas. esperando-a à porta.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 175 Mas chegou u m dia que se anunciou na cidade u m a estrondosa festa em honra do aniversário da princesa daquela terra. E todo o riquíssimo traje lhe apareceu diante dos olhos maravilhados. até da parte da cruel madrasta e da sua malvada e invejosa filha. sapatos. a criadagem de farda e a luxuosa carruagem. mais bela mesmo que uma princesa. Mas como podia fazê-lo no lastimável estado em que se via? Lembrou-se. chegando mesmo a menina má a fazer-lhe fosquinha. ricamente vestidas. então da varinha de condão.

que dançou com ela de par constante. hora e m que os encantos se desfazem. pois estava disposto a casar-se com a maravilhosa jovem. tudo sucedeu de igual modo. tomou a resolução de. fosse como fosse. 0 vestido era todo de ouro e os sapatos de cristal com pedras de brilhante. Mas. saiu de surpresa e. Maria sorriu. então. 0 assombro causado ainda foi maior. querendo todos descobrir o mistério que envolvia a pessoa daquela que todos chamavam a rainha do baile e que despertara grande interesse ao príncipe do país. antes que soassem as duas da madrugada. desvendar tal encanto. até que pela madrugada ela desapareceu tomando. mas não lhe deu resposta.176 LINDOLFO GOMES No dia seguinte não se falava e m outra coisa na cidade. quando corria para a carrua- . como nessa noite pedira à varinha de condão que lhe dera a sua encantada e boa vaquinha. Maria se apresentou no palácio mais bela e mais ricamente vestida do que nunca. de madrugada. mostrando-se o príncipe já por ela de todo apaixonado e assim mais interessado e m saber quem seria aquela misteriosa visão. mandou que uma fila de mordomos e damas se estendesse da porta do palácio até a carruagem. sem se despedir. 0 príncipe. para deter a jovem logo que tentasse retirar-se. sem que ninguém esperasse. Ia então realizar-se o último baile. Maria. a carruagem que a esperava no jardim. e todos estavam de alcateia para não deixar Maria ausentar-se sem detê-la para saber quem ela fosse. apenas com diferença que o vestido de Maria era todo enfeitado de prata e os sapatos de esmeraldas. pediu-lhe sua mão em casamento. Então o príncipe ardendo de amor por ela. N o baile seguinte. Às tantas da noite. 0 príncipe. que com ela dançou toda a noite. Ao começar a madrugada ela partiu do mesmo modo que na véspera fizera.

porém. perguntou pela jovem. E assim. se nem tamancos possui! — Mas. todos se lançaram para lhe deter os passos. 0 príncipe ficou espantado ao vê-la. do próprio príncipe. A madrasta e a filha puseram-se a rir. depois de muitas experiências e m vão. com tais sinais. em ar de chacota. que sabia morar ali Maria. uma prenda de beleza como não havia outra igual. E m vão! Ao entrar. que era a sua filha.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 177 gem. mais do que de todas. nem o sapatinho servira no pé descomunal que o tentara calçar — o que provocou enorme surriada das pessoas presentes e. Alteza que os mordomos e criados se espalhassem por toda a cidade. na carruagem. que partiu a toda disparada. foram ter à casa da madrasta da « gata borralheira ». exclamando: — A «gata borralheira»! Essa é u m a criatura suja e desmazelada. Mas alguém. N e m a jovem era bela. Mas insistiram: — Não há mais alguma jovem nesta casa? A madrasta afirmou que não. 12 Contos Populares Brasileiros . pois assim se havia de descobrir a pessoa procurada. muito tímida. Aconteceu que também o príncipe pessoalmente se entregou a esse mister. Perguníaram-lhe se haveria ali alguma jovem'. pois era o retrato da jovem que tanto amava. Mas foi u m desapontamento horrível. No dia seguinte mandou S. a ver em qual serviria. a pobre menina à presença de todos. experimentando o sapatinho no pé de todas as jovens. E a velha muito contente disse-lhes que sim. Como poderá ser a pessoa que procuram. que indicaram. seja como fôr — disse o príncipe — quero que a tragam sem demora! Veio então. deixou cair u m dos sapatinhos. enteada da dona da casa. que foi logo entregue ao príncipe.

E. e disse-lhe: — M e u pai. consentiu. pelo que lhe deu mais. com admiração de todos e enorme contentamento do príncipe. Pedro foi u m dia ter com o pai e disse-lhe: — Saiba m e u pai que vou cuidar de minha vida. com esta. como mereciam. (1) Colhido de u m a senhora do arraial da Grama. mas pasmadas diante do que estavam vendo com seus próprios olhos. José e Joãozinho. que o filho achou pouco. e chegou-se ao velho outro seu filho. o José. o mais novo de todos. meus senhores. E as duas perversas. graças à intercessão de Maria. 0 pai insistiu que não fosse. e e m vez da bênção que mão pediu deulhe u m a bolsa de dinheiro. A madrasta e a filha ficaram enfiadas de desapontamento. Passados dias ainda chorava a ausência de Pedro. como que por encanto. quero correr mundo e tratar de minha vida. só não foram castigadas. . quero dinheiro. cujo coração era de anjo e não de gente deste mundo. suas vestes de frangalhos se transformaram nos ricos trajes com que assistira ao último baile. E. como se para ela fora fabricado. vendo-o obstinado. e m Juiz de Fora. No mesmo instante. o sapato de cristal e brilhantes servira perfeitamente.178 LINDOLFO GOMES Fêz-se então a experiência. Pedro. E m vez de bênção. O príncipe casou-se com Maria. mas. «acabou-se a história que entrou por u m a porta e saiu por outra». aparecendo o outro sapato que formara com aquele o par com que se apresentara naquele baile. Houve uma festa de arromba. Os cavalos mágicos O Era um dia três irmãos.

Empregou-se para o mesmo fim no castelo e diferente não foi o resultado. com todo carinho e respeito: — M e u pai. por ser este o seu filho mais querido. Mas já o mal estava feito e os animais desapareceram como que por encanto. que lhe disse. e. mas. mas não sendo atendido pelo rapaz. nem prender. E. pôs-se a caminho. mas não passou muito tempo que veio ter com o pai o Joãozinho. venho pedir-lhe sua bênção. . Pedro despertou com o rumor. não teve remédio senão consentir. mas como o mocinho insistisse e muito lhe rogasse. Novas lágrimas e lamentos. entregou-lhe outra bolsa de dinheiro. * * % Pedro. No dia seguinte o castelão ficou indignado e despediu o pobre moço. Vieram os cavalos e devastaram a horta.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 179 O pobre h o m e m deu-lhe conselhos. pelo que foi logo despedido. 0 velho. que segundo corria era todas as noites devastada por uns misteriosos cavalos. À noite o rapaz pôs-se de espreita. a que ninguém podia ter mão. pois desejo também partir. Joãozinho respondeu que não queria outra coisa. foi ter a u m velho castelo. 0 castelão contou-lhe o que se passava e o rapaz se propôs aceitar o emprego de guardar a horta e defendê-la. o mais novo dos irmãos. onde tinha u m lindo pomar e uma grande horta. Passados dias lá foi ter José. disse-lhe que nada tinha para dar-lhe. mas. Pedro bateu à porta e pediu u m emprego. como José achasse pouco. senão a sua bênção. às tantas. adormeceu. deu-lhe tudo que lhe restava. almoçado e com muitas saudades. depois de haver muito caminhado. pôs-se a chorar.

Ferrado dos quatro pês. nela deitado. m e u filho! Depois deu-lhe uns objetos. O rapazinho foi ao encontro do animal tendo antes colhido algumas folhas de couve que lhe ofereceu. que chegava. O castelão fêz-lhe proposta de guardar a horta e Joãozinho aceitou. Cauda comprida até o chão. estarei contigo. e este «machetinho». passava as noites nos ranchos. dizendo: — T o m a esta rede para que nela descanses. sua madrinha. N u m a dessas noites apareceu-lhe a figura de N. e eu estarei a teu lado: Oh! meu cavalo baio. como não tinha nenhum recurso para obter hospedagem. À noite atou a sua rede nos galhos de duas árvores. Joãozinho chegou ao tal castelo e como f i zeram seus irmãos pediu u m emprego. Era o primeiro cavalo. Mais tarde apareceu um cavalo tão belo como o outro e todo preto. Enfim. Dito isto. para que nos teus descansos te divirtas. que era encantado. que o abençoou e lhe disse: — João. e esta caixa de alfinetes que espetarás na rede. estejas sempre vigilante. Valha-me nesta ocasião. espetou na rede os alfinetes e pôs-se a tocar o seu «machetinho». O cavalo. Não estragarei a tua horta. Quando queria cochilar sentia-lhe espetarem os alfinetes e punha-se a tocar o «machete». muito bonito e todo baio. Nisto ouviu u m rumor. disse-lhe assim: — Fizeste bem e m praticar esta boa ação. T o m a e m paga este fio da minha cauda e quando estiveres e m algum aperto ou quando desejares alguma coisa. não tens que fazer senão pronunciar estas palavras.180 LINDOLFO GOMES A esse tempo Joãozinho já estava de viagem e. E tudo se passou como anterior- . desapareceu. para que. deixando o rapaz deslumbrado. Senhora.

no próximo torneio de corrida de cavalos que devia durar três dias. embora entre os patrões já tivesse reconhecido os dois irmãos. Os rapazes deram-lhe os trabalhos da cozinha e começaram a tratá-lo muito mal. senão no tal torneio. de onde se retirou. T a m b é m os rapazes não falavam e m outra coisa. Joãozinho quando ficou só. Ferrado dos quatro pés. colocada na sacada do andar mais alto do palácio. foi dar numa grande cidade. Para isto encomendaram os melhores cavalos e no anunciado dia partiram para o lugar aprazado. recebendo Joãozinho u m fio da cauda do cavalo branco. onde havia u m rei que tinha uma filha. e. Aconteceu o mesmo que com os demais. Quase ao amanhecer surgiu o terceiro. entregues a grande libertinagem. não se quis dar a conhecer. a qual só se casaria com o jovem que. u m bonito cavalo. e todos faziam o plano de ser cada qual o conquistador da mão da princesa. tirasse do dedo da mão direita da princesa o anel que ela traria. De manhã foi u m a grande admiração e alegria do castelão. muito bem pago. João ouviu contar isto e foi empregar-se em casa de alguns jovens que moravam juntos. tomou do fio da cauda do cavalo baio e disse: Oh! meu cavalo baio. todo branco. mas o rapazinho cumpria bem os seus deveres. . mas com grande tristeza do patrão que lhe queria muito bem. ao ver que a sua horta havia sido poupada. Prosseguindo a correr o fado.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 181 mente. Cauda comprida até o chão. João guardou segredo do que ocorrera e ficou dois anos no castelo. Valha-me nesta ocasião. recebendo o rapaz u m fio da cauda do misterioso animal.

Montou e partiu. tinham feito a tentativa e m vão. arrebata o anel da princesa que sorriu. estavam doidinhos por saber quem seria aquele cavaleiro. que eram muitos. enquanto João se viu. João disse: Oh! meu cavalo preto. para êle. Chega a terceira e última prova. n u m vôo. todo vestido de príncipe. tudo se passou como no primeiro. Indagações foram feitas. Todos. todo arreado de prata e ouro. que. Valha-me nesta ocasião. por u m triz. Cauda comprida até o chão.182 LINDOLFO GOMES E subitamente apareceu diante dele um lindo e vistoso baio. Montou a cavalo e partiu. encantada. Houve muitas palmas m a s o prémio não foi conquistado. ainda melhor arreado que o outro. Já os candidatos. quando surgiu o estranho cavaleiro. quase tirou o anel. Logo o cavalo preto surgiu. aprumando-se nos estribos do selim. Então o novo cavaleiro aparece e n u m vôo do cavalo quase. No segundo dia. inclusive a princesa e os irmãos de João. pois tudo nele era só de ouro e João se transformou pelos trajes n u m lindo príncipe. para pregar u m a boa peça aos irmãos e aos companheiros que o haviam sempre mal- . Todos acorrem à grande praça do torneio. mas nada se descobriu. cada qual dos cavaleiros montado no mais belo e fogoso animal. Joãozinho então. com pasmo. Mas ainda desta vez não se descobriu quem fosse a estranha aparição e mil pesquisas e conjeturas se fizeram. Já os corredores tinham feito em vão a prova. Ferrado dos quatro pés.

.

de repente. Quando este assomou e m rápida carreira pelo espaço. ainda mais bonito que os outros e mais bem arreado. João recebeu-os com alegria e carinho. 0 traje de príncipe. o cavaleiro misterioso. Já os cavaleiros haviam feito a experiência em vão. todos o miravam pasmados. o seu nome. desconfiaram logo que êle fosse o cavaleiro misterioso. n u m salto do cavalo. Levaram o vencedor para junto da princesa que o esperava alegre e risonha. Ferrado dos quatro pés. Quando os irmãos chegaram e m casa e encontraram tudo quebrado e e m desordem1. a carvão. pois os arreios eram de ouro e diamantes. sorrindo. em que se transformou o de João. ficaram indignados. para se dar a conhecer. Montou e partiu mais rápido que o vento. Logo apareceu o cavalo branco. quando. Mas a princesa esperava. E m seguida pegou do fio da cauda do cavalo branco e pronunciou as palavras encantadas: Ohl meu cavalo branco. . êle passou como u m relâmpago pelos ares e tirou o anel do dedo da princesa. Valha-me nesta ocasião.184 LINDOLFO GOMES tratado. 0 rei foi com o seu cortejo ao encontro de João. quis que assistissem ao seu casamento com a princesa e arranjouIhes bons empregos no palácio. quebrou todas as panelas e a louça da casa e deixou escrito na parede. mas ao darem com o nome do irmão escrito na parede. Cauda comprida até o chão. mas Pedro e José. ficaram tristes e acabrunhados. que eram muito invejosos. foram ao seu encontro e pediram-lhe desculpas do mal que lhe haviam feito. Todos bateram palmas. era mais rico que os das outras vezes.

A mais nova. para tentar ainda o fado. 0 mercador partiu e não lhe correram os negócios como esperava. Tocou para lá. partiu para lá. Vai senão quando o mercador teve notícias de u m bom negócio numas terras muito distantes e. que esta era a filha que êle mais prezava. insistiu com Bela que escolhesse também alguma prenda. quero que m e traga a mais linda rosa do mais lindo jardim que o senhor encontrar. três. E vai a moça disse: — Pois bem. dois. m e u pai. 0 pai. por não poderem mais sustentar o luxo de que tanto gostavam. Vinha regressando muito acabrunhado. cada qual mais bela. a história entrou por u m a porta e saiu por outra. Notas finais. Minas. A mais velha disse que queria u m rico piano.. . que se chamava Bela. sem mais esperanças de encontrar pousada. V. acomodou-se à sorte e tudo fazia por consolar o velho pai. em meio de u m bosque. e m noite tenebrosa. um. onde pudesse esconder a vergonha de sua pobreza. Bateu à (1) Colhido de u m a senhora de Cataguases. E vai. senão que êle fosse muito feliz e a abençoasse. As filhas mais velhas ficaram muito tristes com isso. % A Bela e a Fera O Era uma vez um rico mercador que tinha três filhas.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 185 Todos ficaram muito contentes. viu brilhar muitas luzes. Era u m rico castelo. Ao despedir-se perguntou às filhas o que queriam que lhes trouxesse. caso fosse feliz nos negócios. a do meio pediu u m vestido de seda e a mais nova respondeu que não pretendia nada. quando.. amém. Depois empobreceu e foi morar longe da cidade.

Por fim viu surgir u m criado de farda. De manhã ergueu-se.186 L1ND0LF0 GOMES porta longo tempo: ó de casa! —• e ninguém respondeu. Comeu com apetite. disposto a continuar a viagem. 0 hóspede foi para a sala de jantar e lá encontrou u m perfeito banquete. mas. leve a flor.. Adormeceu sonhando com a sua filha Bela. Posso. a fim de tomar o animal. Aí a tem. lembrou-se logo do pedido de Bela. mas estava certo de que tudo se resolveria bem. Mas. E m vista disso foi entrando e percorrendo toda a casa. que lhe veio dizer que o jantar estava na mesa. com estas palavras: — Ah! desgraçado! E m paga de eu te haver acolhido e m m e u palácio. Mas. o mercador aceitou a condição imposta e partiu com a flor. u m a fera horrível. sem lhe aparecer viv'alma. Quando a teve nas mãos. mas. — Errei. porque quem sem- . senão quando este o veio avisar de que eram horas de dormir. quando chegar. e como visse a mais linda rosa que jamais seus olhos haviam contemplado. mostrando-lhe em seguida o mais belo quarto que se podia imaginar. Como não tinha outro remédio. — Não. restituir-lha. eu queria levar esta flor à minha filha mais nova que m e pediu de lembrança a mais linda rosa que eu encontrasse. mas. confesso. com a condição de trazerm e aqui a primeira criatura que avistar em sua casa. foi logo colhê-la. vens roubar-me o m e u sustento! Pois não sabes que eu m e alimento só de rosas?!. estava fatigado e com sono. E m caminho ia pensando no caso. enfim. Que não sabia. não tornou mais a ver o criado.. respondeu o mercador muito vexado. surgiu de súbito u m monstro. entretanto. pensando no contentamento que ia dar à filha. Saiu para o pátio. quando avistou o jardim do castelo. Estava muito admirado de tudo quanto via e achava tudo aquilo muito misterioso.

da filha. Passado algum tempo a Fera chamou a moça e lhe disse: — Tua irmã mais velha acaba de casar-se. . Quando. Ao chegar a primeira criatura que êle avistou foi sua filha Bela. que ali ficou vivendo. onde tudo se passou como anteriormente. Mandou chamar o velho que veio logo num átimo. Algum tempo depois Bela mostrou desejo de tornar a ver o pai. Lá passou uns dias e quando foi para voltar disse à Fera que lhe entregasse a menina. 0 mercador voltou rico para casa. e a Fera há de se apiedar de nós. chegando a hora de partir. — Lá por isso não seja. de braço com o noivo. ao lado dos pais e dos convidados. Bela pediu então com muita brandura que a deixasse ir a casa. que podia vir vê-la quando entendesse. Assim não aconteceu. a Fera apareceu. E a Fera disse-lhe: — Se eu deixasse. O monstro apaziguou-se e o mercador. a quem entregou a rosa. onde ela viu a irmã. m e u pai. despediu-se. mas a Fera não quis que ela se afastasse dali. contando-lhe tudo o que havia acontecido e lamentando a sua infelicidade. — Como sabes disto? — Queres vê-la? — Sim. que fosse ao seu tesouro a levasse as riquezas que quisesse. E lá por dinheiro não. a moça colheu outra rosa. chorando.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 187 pre vinha ao seu encontro era a cachorrinha da casa. A Fera levou-a a u m quarto encantado e mostrouIhe u m espelho. pela manhã. No outro dia foram ter ao castelo. que queria. A Fera respondeu-lhe que nem por tudo deste mundo lha tornava a dar. pois irei. mas a rapariga se pôs a achá-la muito bonita e a acariciá-la. você não voltaria aqui.

Dito e feito. ao tempo que Bela ia-se esquecendo. transformouse n u m belo príncipe. Quando o beijou. Logo que teve o anel no dedo. obrigo u-a a entregar o anel à irmã. chamou-o muitas vezes. na noite que completava o terceiro dia. até que por fim foi dar com êle quase moribundo. A irmã casada contou ao marido o que havia feito com a outra e êle. A Fera consentiu. As outras com inveja. esoonderam-lhe o anel e ela não se lembrou mais da Fera. mas disse-lhe: — Se não voltares e m três dias m e encontrarás morto. que era u m h o m e m sério. ia também amofinando. O pobre animal. . Bela de tudo se lembrou novamente. visitou a família e contou às irmãs tudo que era passado e disse-lhes que se sentia feliz. quis dar-lhe u m beijo. Bela.188 LINDOLFO GOMES A moça jurou que não seria assim tão ingrata e prometeu voltar ao fim de três dias. Estava encantado. a Fera. mas não tornou a vê-lo. Partiu sem detença e chegou ao castelo quando se completavam três dias e meio que dali se havia ausentado. porque se o tirares m e esquecerás. Supôs que estivesse morto. e como muito o estimava. Leva este anel e não o tires do dedo. de repente. lhe t i nha quebrado o encanto e o príncipe recebeu-a em casamento. com aquele beijo. Procurou o bicho por todos os aposentos. estendido entre as gramas do jardim. A moça foi.

Notas finais. princesa! (1) Colhida de u m guia. e até roncava para melhor fingir. Êle aceitou. Mas a princesa veio a saber e ordenou à aia que pusesse dormideira no chá de Joãozinho. u m rapazote que andava correndo mundo e que saíra de casa com a bênção do pai. m a s lançou fora o chá. M a s quem o tentasse e não descobrisse — era ali na certa — daria a cabeça a degolar. de onde. que o protegesse e apresentou-se em palácio. que era moço de muita coragem e muita confiança. Lá pela meia-noite ouviu u m a voz. Dito e feito! Mas o rapaz. Vai então Joãozinho. 0 rei avisou-o do que lhe havia de acontecer se não descobrisse. tinha chegado a essa terra e ouviu falar desse misterioso caso. Foi u m a dificuldade para falar ao rei. Muitos já tinham experimentado e recebido o grande castigo. Ficou tudo combinado. mas com a condição de dormir n u m aposento que comunicasse com o da princesa. 0 rei daria a mão da princesa em casamento a quem descobrisse tudo como era. fechado. e m suas orações pediu a sua madrinha. fêz que bebeu. . Joãozinho fingiu que dormia. Quando se acomodaram. Era da princesa que chamava: Calicote! Calicote! De dentro do baú saiu u m diabinho: — E' hora! E' hora. Majestade. Mas. Mas Joãozinho. Ninguém podia explicar esse mistério. m a s por fim avisto u-se com S. olho esperto! E até tinha notado que debaixo da cama da princesa havia u m baúzinho de folha.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 189 Os sete pares de sapatos da princesa (x) Era uma vez um reino em que havia uma princesa que gastava sete pares de sapatos por noite. na cidade mineira de Ubá. e vai então disse-lhe que estava pronto para decifrar o mistério. V. de vez em quando saía u m ruído. que era esperto. Nossa Senhora.

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A princesa vestiu-se num momento. Pôs no baúzinho meia dúzia de pares de sapatos, os quais pares, com o que tinha nos pés, faziam sete. O diabinho pegou do baú e saiu pela janela com a princesa. Logo depois saiu Joãozinho, muito escoteiro. Lá fora havia u m a carruagem toda dourada com cavalos pretos, arreados de ouro e prata. O Calicote e a princesa tomaram assento no carro. Joãozinho saltou para a traseira do trole que partiu a toda. Lá adiante apareceu de repente u m campo todo de flores de bronze. Joãozinho apanhou uma, examinou-a encantado e guardou-a no bornal que levava a tiracolo. Mais adiante atravessaram outro campo, mas agora, as flores eram de prata; depois mais outro campo de flores de ouro; outro de flores de diamante; outro de flores de rubi e outro de flores de esmeralda. Era mesmo u m a lindeza! Joãozinho de cada apanhava uma flor e metia no bornal, sempre mais encantado e admirado daquele mistério. Por fim chegaram a u m rico palácio, como não há na terra. Todo iluminado e com u m jardim de maravilhas, com flores de toda casta de ricos metais e pedras preciosas. Tocava u m a música que era uma coisa sobrenatural. Criadagem toda de libré dourada. Convidados ricamente vestidos, todos pareciam príncipes e princesas. Os recém-chegados uniram-se aos outros convivas e foram todos para a mesa da sala de jantar, onde havia um grande banquete. Joãozinho achou jeito de saltar uma das janelas e oolocar-se debaixo da mesa. De vez e m quando algum dos convidados deixava cair u m osso de peru ou de galinha, e Joãozinho apanhava e metia no bornal. Para encurtar, logo depois começou o baile. E a cada contradança que a princesa dançava com algum dos convidados rompia u m par de sapatos que Cali-

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cote lançava para o canto, trocando-os por outros que trouxera no baúzinho. Mas Joãozinho era esperto, e ia se apoderando de u m pé de cada par de botinas estragado. Quando estava para darem duas horas, a princesa disse: — Calicote. E' hora! — Sim, princesa, vamos! Foram tomar o trole, acompanhados até a porta pelos convidados. E Joãozinho, já se sabe — upa! para a traseira com seu bornal bem sortido. Foi uma disparada só, e quando deram duas horas já todos estavam nos seus aposentos. E o trole tinha desaparecido. Calicote entrou para o baúzinho que foi escondido debaixo da cama. Quando amanheceu, já o rei estava aflito para saber da solução do enigma. Quando Joãozinho saiu do quarto foi logo chamado à presença do rei, e disse: — Saiba Vossa Real Majestade que a resposta lhe será dada hoje, à hora do jantar, e peço que seja dado u m banquete e seja convidado o sr. bispo e a princesa. O rei sorriu-se daquele estranho pedido. Mas, querendo ter paciência até o fim, mesmo porque não deixava de estar curioso, deu o banquete, a que compareceu toda a alta fidalguia. O jantar ia correndo sem novidade, quando, à hora da sobremesa, Joãozinho levantou-se e brindou a princesa, dizendo que lhe queria oferecer misteriosas e ricas prendas. Ê disse: — No jardim deste palácio haverá flores de bronze? E tirou do bornal que escondera debaixo da casaca a flor de bronze. A princesa empalideceu e êle colocou a flor sobre a mesa. — Haverá flores de prata? flores de ouro? de diamante? de rubi? de esmeralda? E ia colocando as flores sobre a toalha.

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— E pés de galinha, de prata? e pés de peru, de ouro? Haverá? Todos estavam deslumbrados por ver tais coisas nunca vistas e a princesa ia se tornando cada vez mais pálida. Mas Joãozinho continuava: — E este sapato, conhecerá V. Alteza? E este? E mais este? E ia mostrando cada sapato, até o número de sete. — Pois tudo isto pertence a V. Alteza. Já então a princesa tinha desmaiado e estava sendo socorrida, mas Joãozinho correu ao quarto, trouxe o baúzinho o pediu ao senhor bispo que o benzesse. O bispo benzeu-o e o baú deu u m estouro, desprendendo-se no ar u m cheiro de enxofre que ninguém podia suportar. Quando a princesa abriu os olhos, voltando a si, exclamou, cheia de alegria: — Graças a Deus, estou livre! Tinha perdido aquele m a u fado que u m a fada infernal lhe tinha posto, quando tinha doze anos, com inveja da sua grande beleza. Todos festejaram o feito de Joãozinho, que se casou, daí por pouco, com a princesa, vivendo todos muito felizes. E êle tudo agradeceu à sua boa madrinha, N. Senhora da Conceição Aparecida. E, Deus louvado, acabou-se a história.

LENDAS POPULARES E RELIGIOSAS
Ciclo de lendas sobre a formação das raças
O branco e o negro (x)

Deus fêz o homem perfeito à sua imagem e semelhança. 0 diabo entendeu que podia conseguir obra igual ou ainda melhor. Tomou u m pouco de barro, como vira Deus fazer, e começou a trabalhar. Quando terminou a figura, reparou que estava toda ela enegrecida, porque feita pelas mãos dele que são de fogo, saíra côr de carvão e com o cabelo todo chamuscado. O diabo ficou indignado por não ter podido conseguir uma figura tão perfeita como a que saíra das mãos de Deus, e, contemplando enfurecido o boneco, deu-lhe tamanho murro no nariz que o esborrachou. Deus tinha feito o branoq e o diabo fizera o negro, preto como carvão, de cabelo encarapinhado e de nariz esborrachado.
O branco, o índio e o negro

Deus criou o branco, o índio e o negro. Quis depois experimentar-lhes as qualidades de inteligência, coragem e destreza.
(1) Colhida em S. João del-Rei, bem como as demais versões do mesmo cicio. 13 Contos Populares Brasileiros

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Atirou-os a u m poço de certa profundidade. 0 branco, vendo o perigo em que se achava, pensou logo no que devia fazer e, aproveitando-se das fendas da terra, agarrando-se às paredes do buraco, salvou-se, saindo do poço. 0 índio, que lhe observara todos os movimentos e expedientes, procurou imitá-lo, m a s só pôde conseguir o que desejava, trepando às costas do negro. Mas este, indolente, nada tentou para salvar-se, e deixou-se ficar inativo, sem pedir socorro, sem procurar qualquer recurso, até que veio a morrer. E aí está como Deus, na sua grande sabedoria, fêz o negro inferior ao índio e o índio inferior ao branco. As três raças Dizem que antigamente todos os homens eram negros. Vai então Deus viu, u m dia, três irmãos lamentando com muito pranto a morte de seu pai. Deus ficou muito penalizado e resolveu consolálos, de algum modo, em tanto sofrimento. Disse-lhes que havia u m a fonte de água muito pura e cristalina, da qual, se nela se lavassem, poderiam sair tão brancos como a neve. U m dos irmãos atalhou: — Não acredito e m tal maravilha. N e m sequer tentarei a experiência. 0 segundo disse: — Irei ver essa fonte maravilhosa. 0 terceiro disse: — Irei lavar-me nessa fonte e, quando dela sair, estarei branco e perfeito. E, dizendo isto, foi lançar-se ao meio da fonte, de onde saiu com a pele inteiramente branca. Vendo-o, o segundo correu a imitá-lo, mas encon-

tomaram a côr dos olhos de Maria e azuis ficaram por toda a vida (3). . A lenda das miosótis (2) Era uma vez Nossa Senhora que ia em procura de Jesus. (1) A propósito das raças conheço também estas quadrinhas populares: Oeus quando fêz o negro Começou no calcanhar. através da lenda. a vermelha e a negra (x). Esta coincidência prova a universalidade da lenda e dos sentimentos idênticos que a flor pôde despertar a povos inteiramente diferentes. correu também à fonte. se deixou a contemplá-las com tal ternura que de seus olhos da côr do céu caíram lágrimas de saudade que sentia de seu filho. Deu u m soco no nariz E o acabou de esborrachar. seu amado filho. E assim foi que apareceram as três raças. o m grego. ao passar por um formoso campo tapetado de lindas florinhas muito brancas. porque o verdadeiro étimo dessa palavra (latim myosota) está numa expressão grega que quer dizer orelha de rato. que corresponde ao forget-me-not dos ingleses. quando. As lágrimas da Virgem banharam as pétalas daquelas encantadoras florinhas que. já não duvidando do milagre. Quando chegou no nariz Deu ao diabo pra acabar. 0 sentimento de saudade expresso na lenda ainda sugeriu outro nome para a encantadora e delicada florzinlia: não me esqueças. quer dizer meus olhos. segundo lhe dissera u m a senhora que lha contara. (3) A pessoa que m e narrou esta lenda acrescentou que a palavra miosótis.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 195 trou a água já alterada. de maneira que. após o banho. 0 primeiro. desde aquele instante. O diabo tinha preguiça. a branca. (2) Colhida em Minas. Não queria trabalhar. Vê-se que esta etimologia foi sugerida. havia já tão pouca água que apenas pôde nela tocar a planta dos pés e a palma das mãos. ficou êle com o corpo apenas avermelhado. mas.

se apegou com Santo António. lembrou-se de pedi-lo emprestado a Nossa Senhora da Aparecida. lança-a pela janela. todos os dias. a horas mortas. Adquiriu u m a imagem do santo. S. Colhe-a intata e sobe as escadas do sobrado. Passaram semanas. Certa vez. Aparecida Certo homem vendo-se em grande necessidade. algum velhote endinheirado se teria por ela inclinado. por acaso. no auge do desespero. à falta de outro. anos. ou mesmo. certamente. Mas. V e m recebê-lo justamente a formosa e geniosa donzela. . Lendas populares de N. desesperançosa de encontrar casamento. o seu fervoroso responso e o seu vintènzinho de promessa. sobre a cabeça. u m belo cavalheiro que a recebe. colooou-a em u m pequeno nicho.. (2) Esta lenda corre de boca e m boca e. nem corria voz de que algum mancebo. contribui para que mais se alastre a crença nos méritos de Santo António como providencial casamenteiro. e m cheio. de u m a de cujas janelas partira a imagem.. 0 noivo não aparecera. Dirigiu-se à capela. Passava. muito ás (1) Colhida em Minas. linda. depois de muito lamentar-se da ingratidão do santo e de questionar com a velha progenitora sobre o ^desprestigiado » poder miraculoso do taumaturgo. desprevenido de recursos pecuniários e sem emprego. como não tivesse capital. naturalmente por milagre do santo (2). Apaixona-se o cavalheiro pela moça e com ela vem a casar. resolveu tentar a sorte. abrindo uma casa de negócio. mas sempre a esperar por u m noivo que não chegava. fê-la benzer. que.196 LINDOLFO GOMES Santo António casamenteiro O Conta-se de uma jovem. meses. toma da imagem. e. e. onde lhe levava. e nada.

em que se celebrava na capela o santo sacrifício da missa. já fora este. Mas. es- . resolveu restituir a importância à Virgem Milagrosa. O h o m e m confessou o delito. quando quis depositá-la no cofre. com o dinheiro. Quis colocar de novo o dinheiro no cofre. no auge do desatino. sentiu a mão abrir-se com toda a facilidade. Era justamente no instante e m que se erguia a hóstia na consagração. Nesta conjuntura gritou. Mas. e a multidão de curiosos acorreu. com que pôde começar a sua vida. Enriqueceu. Veio o sacristão. quiseram sossegá-lo. e só então pôde êle retirar o braço e. sentindo doer-lhe a consciência. e u m tanto alcoolizado. e m vão! o fenómeno se repete. Sorrateiramente penetrou no templo. de vida desordenada e irreligioso. a cavalgadura não se move. aumentada com os juros. O padre benzeu-o. Certa vez. ao pisá-lo. a cavalo.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 197 ocultas. atraída pelas vozes de clamor. Tudo lhe correu perfeitamente bem. e. abriu o cofre de esmolas e retirou certa importância. já introduzida no cofre. instintivamente. O tresloucado atira o animal para o patamar da escada. A mão fechada. apresentou-se êle. por socorro. não se abria para a restituição do empréstimo. Retira o braço. Advertiram-no do erro. e proferindo impropérios contra a religião e os milagres da Santa Virgem. quis penetrar a cavalo no interior do templo. e readquire êle todos os movimentos! Estava explicado: Nossa Senhora não queria a restituição do empréstimo. depois o cura. sentiu o braço sem movimento. Havia nas proximidades de Guaratinguetá um hom e m . exaltou-se. fazendo saltar o animal no adro. munido da quantia. h o m e m sem nenhum temor de Deus. Mas.

lá ia de jornada e m jornada. com a vergasta na mão. e dizem-no com convicção e júbilo encantadores. com u m a caixa a tiracolo. 0 povo percebe o milagre e o sacrílego. Não se sabe como. Os pescadores e o povo. há muitos anos houve por aqui u m monge velho que percorria as estradas da redondeza. pedindo para os pobres e repartindo as esmolas. dias depois. 0 monge de longas barbas muito brancas. apareceu ela no nicho do pequenino templo. e outras que coleciouo. e o milagre se repete. que granjeava. dos lábios da gente simples. sem poder fustigar o animal. como que e m respeitosa adoração. 0 braço do cavaleiro. paralisa-se no espaço. na sua representação mais geral. celebrando n u m (1) Estas lendas. Foi então que se resolveu a construção da nova capela. Estas lendas correm também e m Minas. contrito rende graças e louvores á Virgem Aparecida. dias e dias. orgulham-se de ser «patrícios de Nossa Senhora». *** Narram que. mas como tinha o pouso certo no alto da serra. sempre por algum tempo a ela voltava e nela assistia. vestindo uma chimarra quase esfrangalhada. E' ali indescritível o fervor e a veneração pela Santa Virgem. com os mendigos e gente necessitada dos lugares por onde passava. ouvi-as na infância. foi a imagem depositada n u m a das igrejas de Guaratinguetá.198 L1ND0LF0 GOMES taca como dominada por u m poder estranho e curva a cabeça. ameaçando ruína a antiga capelinha da Virgem. O monge da Serra da Saudade (Lenda regional) Há muitos anos. e m Guaratinguetá. amparado ao bordão. apeando-se. Volta o povo a conduzi-la à cidade. que é a atual basílica i1). .

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Um dia o monge desapareceu. Assim o fazia o famoso e santo irmão Moreira. como u m altar e m festa. fundador da santa casa de S. de m i m para mim. fundando hospitais e recolhimentos. Os milagres. contemplando a serra na invocação da saudade de seu monge tradicional enquanto o céu se acendia de estrelas rutilantes. continuavam a verificar-se à invocação do monge. A Serra da Saudade localiza-se entre os municípios de Juiz de Fora e Lima Duarte. tomara o monge por um bugio e nele desfechara a arma homicida. que m e narrou esta lenda. por causa dos milagres que fazia curando os enfermos com a água milagrosa da fonte ali existente. se grimpavam às montanhas. até onde pode ser verdadeira. e a fonte continua até hoje a ser procurada pelos enfermos que julga santas aquelas águas a brotarem da pedra sobre uma linda bacia de granito que se enche. desde os tempos coloniais e m que os catequistas povoavam os sertões. E pus-me. Um invisível sino repica e o viajante pára. sem nunca extravasar e sem se saber por onde o líquido encontra o seu natural escoadouro. e m vez do ermitão. (1) Como vemos. com um anjo ao lado. ao nascer das lindas manhãs da Várzea do Carmo. atónito. mas. e m meio da estrada. que um caçador bisonho e desconhecido no lugar. e mostra-se a celebrar. João del-Rei. e cuja lenda tanta ligação apresenta e m seus traços primordiais. celebrar a poesia. onde devia. ao primeiro sinal da madrugada. A ouvir a missa do monge da serra da Saudade acudia gente de todos os pontos próximos e mesmo distantes e não havia quem não lhe desse fama de santo. trata-se de uma lenda simples. Teria morrido? Soube-se. como uma das suas mais belas documentações. deixei-me ao lado do camarada. civilizando o índio e socorrendo a indigência. por uma madrugada escura. Ali. penetrara na serra. contemplando aquela maravilha no encantamento do mistério (1). E é assim que o folclore de Juiz de Fora pode registrar. em frente de um altar que surge de improviso. a considerar que esta lenda. entretanto. Do monge sabe-se. a servirlhe de sacristão. tocante. que.200 LINDOLFO GOMES altar que armava sobre u m a laje toda enfeitada de flores. aparece no alto da serra. não é senão o vestígio tradicional de outras mais antigas e semelhantes que vieram rastreando a alma do povo. com a desse monge que. então. ao mesmo tempo. por u m cair de tarde doirada e silenciosa. Joaquim Ribeiro em seu erudito e primoroso livro A Tradição c as Len- . cujos olhos se habituaram a ver o que a imaginação lhes pinta e lhes sugere. percorriam as estradas em caridosas peregrinações. essa formosa lenda. continua do alto da serra a oficiar para as almas simples e ingénuas. e contam os que o têm visto.

comparando-a com outras do mesmo ciclo. pressuroso. em procura de capinzal mais viçoso. tal a firmeza do preto e m reafirmar a exatidão do fato. deslumbramento! Lá estava a imagem na posição descrita. ergue-se. e m Congonhas. Oh. vão todos ter com o vigário de Congonhas. apontando certo sítio: — Foi ali que o santo apareceu. Aproximam-se. maravilhados. Ao chegar ao cume dá colina. E m rápidos momentos o rancho. verificar. à frente. refere-se à do monge da Serra da Saudade em interessantíssimo estudo. o preto a lhe servir de guia. em seu livro « Contos Mineiros » . por fim. de quem era a imagem das. na faina de cortar capim. disse o preto. Mas. (1) Convém notar que esta lenda é contada com amplificações poi tica pelo conhecido escritor Carmo Gama. escravo de rico senhor de lavras. como os demais. que. Chegados que foram. se lembrou de galgar o morro onde atualmente se acha o Santuário. contra enfermidades e males de todo género. entretanto. entoando preces a Jesus Crucificado. a comunicar ao senhor o que tinha visto: u m santo com a cabeça recostada sobre u m a pedra (2). levando o vigário. verdadeiras relíquias que os devotos disputam e guardam com muita devoção. crescem com o decorrer do tempo. pôs-se a caminho do ponto indicado. trazendo-os. que certa vez andava um preto africano.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 201 A lenda popular do Santuário de Congonhas Narra a lenda (1). . Recobra ânimo. . e m bentinhos. detém-se extático diante de u m a visão que se lhe apresentara e e m seguida cai como que inanimado ou tocado de u m a força estranha. Não custava. Dâmo-la conforme corre na tradição popular. (2) E' crença popular que os fragmentos dessa pedra. Prostram-se todos de joelhos. Era o Senhor Bom Jesus Aparecido. quando. O amo e os garimpeiros que trabalhavam às margens do rio não lhe dão crédito. e. pôs em dúvida o que se lhe comunicava. vai de perto contemplar a visão e volta.

O ermitão sai a esmolar. ajunta recursos — progridem as obras. segundo a lenda. (2) Colhido em Juiz de Fora. que só remotamente concorda com os dados históricos já conhecidos. depositada ela de novo na Matriz. existe no Santuário. Os sacerdotes vêem-se e m papos de aranha para convencê-los da inexatldão do que tem o povo como certo. foi ela que deu lugar a que muitos romeiros e fiéis piamente acreditem que. a ermida se constrói. Interrogaram-no. como costumam exprimir-se. o Senhor vivo aparecido. Por que as mulheres catam pulgas (2) (Lenda humorística) Era uma velha. a origem do Santuário. Foram procurá-la no local onde aparecera. percorre povoados e fazendas. muito velhinha. entretanto. que não saía do quarto. Nota-se. e o velho narra que ali vive de longos anos na veneração dessa imagem e que o fato de haver ela desaparecido da Matriz bem indicava o desejo de o Senhor de Matozinhos ver ali construída a sua capela (2). H á devotos que lhes suplicam com lágrimas nos olhos a graça de lhes ser mostrado o Senhor vivo aparecido. tendo por base a pedra onde a imagem tinha a cabeça repousada. (1) Eis. mas já então velada por u m austero ermitão que. era conduzida em procissão para a Matriz do povoado. Veio Nosso Senhor Jesus Cristo e para consolá-la e distraí-la ensinou-lhe a catar pulgas. correndo a nova. poucas horas depois. além do Senhor de Matozinhos em imagem. não foi mais encontrada no templo. quando se manifestou. escondido e m lugar secreto pelos sacerdotes. não podia mais trabalhar e vivia muito aborrecida por não ter que fazer. em êxtase. aí permanece. e não se deixam de modo nenhum convencer do contrário. Mas certamente.202 LINDOLFO GOMES que. . Mas já no dia seguinte. Lá estava no mesmo ponto. Enquanto isto. a adorava. indo o povo adorá-la. Lançam-se logo depois os fundamentos da ermida.

Cf. querendo decifrar o enigma. a título de aviso. U m a rapariga que amava o guerreiro. a imitaram e imitam. daí por diante. N o significado das flores. . sabendo que êle havia de passar por ali e não tendo meio de comunicar-lhe o perigo que o ameaçava. Ao passar. e borda o cabo. a quem ficou devendo a vida. atinou com o mistério. ou — quem não tem que fazer põe a casa ao chão e iorna-a a erguer.. João Nepomuceno.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 203 A velha gostou da lição e do entretenimento. A Santa Aparecida No distrito de Taruaçu (antigo arraial do Rabicho) município de S. e é paralelo do conhecido quem não tem que fazer. ir para o cemitério. aqui e ali. e todas as mulheres. considerou que elas teriam sido espalhadas de propósito e. Q u e m não tem que fazer cata pulgas (1). de madrugada espalhou pelo caminho fora muitas folhinhas de malva. (2) Colhido e m Rio Pardo. Também se diz — o não ter que fazer põe o mundo a perder. morrer. Retrocedeu e salvou-se. a locução familiar: Ir para as malvas. n u m a elevação pedregosa.. localizada n a s proei) Este dizer ficou proverbial. A s malvas (2) Certa vez ia um guerreiro por um caminho. vendo o guerreiro aquelas malvas. O que quer isto dizer? Responde se és capaz. na região da Mata mineira. onde mais adiante o esperavam muitos inimigos que lhe dariam certamente a morte. Mais tarde soube que aquilo havia sido obra da namorada. e casou com ela (3). malva quer dizer aviso. sem dificuldade: era como que u m aviso de pessoa amiga: mal vais (malvas). Olha bem por onde vais. CS) Paralelamente a esta lenda corre a seguinte adivinha: Por aí andas bem mal. faz colher de pau.

O povo fala muito. município do Espírito Santo de Guarará. de coração de ferro. (1) Esta lenda foi contada ao autor. u m rapaz de muito m a u génio. o sacerdote tentou transportar a imagem para a igreja do arraial. com muitas mortes nas costas. Conta-se que ali apareceu misteriosamente aquela imagem de N. . Mas. seu guia de viagem. colocada entre pedras. A lenda do Morro do Pelado No distrito de Maripá. Chamado o vigário (dizem que u m certo Padre Lopes) para verificar a exatidão do acontecimento. e foi confirmada por muitas pessoas de Taruaçu. onde ficou e onde o povo até há poucos anos ia em orações e cumprimento de promessas. em busca de saúde. Goulart. existe u m a pequena elevação que se denomina Morro Pelado. matou a própria mãe dele e a sepultou ali mesmo. u m a vez lá depositada. que visitou o local. por u m camarada. existe a imagem de uma santa. inclusive o escrivão de Paz. Até entrevados e cegos saravam e lá deixavam as suas lembrancinhas. Havia grande concurso de devotos. sr. Dizem que ali. À vista do milagre. porque até hoje existe a devoção e se repetem as curas. a santa. na Mata de Minas. Senhora.204 L1NDOLFO GOMES ximidades do sítio do Suspiro. e m tempos antigos. resolveu-se lá deixá-la naquela espécie de oratório. ao ar livre. e tanto que os hereges dizem à boca pequena que aquilo fora arranjo do vigário. calemburgo ou trocadilho populares. e m louvor da santa. é mentira de gente tomada do demónio. e que andava por conta do diabo. Vê-se que esta lenda envolve u m interessante caso de metáfora. Mas. numa espécie de nicho. voltava misteriosamente para a pedreira. concluiu a pessoa que nos narrou esta lenda (1).

O morro tomou então aquele nome. onde ê muito vulgar esta lenda. era milagroso deveras. qual! A imagem. que o gerou. Quando a população do Morro desprezou o local e veio cá para a vargem. por u m caboclo velho. mas. Qual é o filho que tem coragem de matar sua própria mãe. entremeada de diversos episódios. •*Era mesmo uma teima sem remédio. nem sequer u m fio de capim. Santo António da Boiada. O Morro da Boiada de primeiro era também habitado por u m a quadrilha de salteadores e ganhou fama de perigoso e assombrado. voltou para a sua capelinha. que para mal não há santo que ajude. passou tantos sacrifícios? — Filho desgraçado! (x). de u m camarada oom quem o autor viajou. antigo morador de Juiz de Fora. e escutam-se gemidos de cortar o coração. Às vezes (1) Colhida na região da Mata de Minas. De noite muita gente tem visto aparecerem luzes de muitas cores no lugar da sepultura da pobrezinha. Dizem que tem lá u m china seco. mas êle tornou a voltar. onde está agora a cidade. onde era antigamente o arraial de Santo António. e m Juiz de Fora(2) Lá no Morro da Boiada. trouxeram em procissão a imagem para o oratório do vigário. No lugar da sepultura nunca mais nasceu nada. que aparece fora de horas aos viajantes. Sanlc António da Boiada! — e estava logo tudo arranjado. havia u m a capelinha do santo e u m cemitério.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 205 Desde então o morro ficou maldito. que existia antes de se fundar Juiz de Fora. E' para servirem de exemplo que Deus permite essas coisas. educou. desde que fosse para bem. Tornaram a trazer o santo. A lenda do Morro da Boiada. (2) Contada. . criou nos peitos. e o povo tinha com êle muita devoção! Valha-me.

em glorioso vôo. que então sim! Lenda do túmulo de N. coroa de rosas. tempos em que Benfica era apenas u m sítio ou fazenda. seu divino Filho. que aparecem e desaparecem não se sabe como. e m plena lua de mel. onde ficou a Virgem para todo o sempre. Senhor. No dia seguinte. inté verdes. Ih! quem vai de noite no Morro da Boiada tem muito que ver e que contar. as santas mulheres a sepultaram n u m bonito jazigo. da ladainha e também do simbólico rosário. vindo do Rio do Peixe (atual (1) Colhida e m Rio Novo. crescendo por essas alturas arriba. durante a noite levado pelos Anjos. u m casal de jovens então recentemente consorciados. e cruzes de fogo. V. topam-se fantasmas que vão crescendo. com seus pintinhos da m e s m a forma. quando morreu a Santa Virgem. certamente sob a influência da invocação Rosa Mística. tendo sido o sagrado corpo de Maria. por todos nós que somos também seus filhos. as rosas figuram milagrosamente e m muitas lendas de santos. quando foram visitar a sepultura. galinhas de todas as cores.2). dedicado a Maria. rogando a Deus N. n u m lindo lugar. . Notas finais. Senhora O Contam os antigos que. Como se sabe.206 LINDOLFO GOMES passam correndo bolas de fogo. Mas. encontraram-na toda repleta de rosas. quem1 é que se astreve a passar ali à meia-noite? Só se tiver oração das Almas Benditas. mas onde nenhuma flor existia. viajava a cavalo. para o céu. Lenda do topónimo Benfica Dizem que há muitos anos. (2) Sobre a morte da Santa Virgem não há referência nas Escrituras. Minas. Mas esta lenda universalizou-se na tradição cristã.

Amoreira. não é menos exato que muitas vazes se dá justamente o inverso. no Sul de Minas. Prosseguindo viagem no dia seguinte. há longos anos. fértil e m criações dessa natureza. se costuma dizer que quem fica e m Benfica. Pelo que replicou o noivo. como sobrenome ou apelido. mal fica — o que não passa de u m trocadilho de m a u gosto. Laranjeira. adotavajn-nas. e outras denominações toponímicas. p. (1) Esta é uma das versões que nos foi. Macieira. pediu-lhes este desculpas de lhe não ser possível dispensar-lhes a acolhida que mereciam. Como não se ignora. Outra versão com que se procura explicar o topónimo de que estamos tratando é a de que u m dos mais antigos moradores ou proprietários da região tinha o sobrenome ou apelido de Benfica. caro amigo! bem fica! bem fica! bem fica! E assim.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 207 Lima Duarte). pois todas as vezes que íamos àquele aprazível povoado. dado o imprevisto de um forte temporal que ali se desencadeara. 15): «De . Lisboa. cuja construção se iniciou e m 1911 e já foi concluída nesse trecho. E' certo que. onde faltam maiores recursos. pois em lugares modestos como aquele. Pedro II). Os hóspedes ficaram muitíssimo penhorados com o tratamento recebido e encantados com a magnífica noite passada naquele agradável abrigo. ao agradecerem o ótimo tratamento que lhes foi prodigalizado pelo bondoso hospedeiro. II. cuja estação se inaugurou a 1 de fevereiro de 1877. certamente engendrada pela imaginação popular. vibrantemente: — Mal? Jamais. servido pela Estrada de Ferro Central do Brasil (antiga D. o hóspede sempre fica mal. hoje e m plena prosperidade jamais deixávamos de ser carinhosamente tratado pelos seus dignos habitantes. Fonseca. Dessa localidade parte o ramal férreo Benfica-Lima Duarte. Pereira. relatada por u m velho morador de Benfica. Haja vista o que diz Leite de Vasconcelos («Opúsculo». até mesmo através dessa lenda. deve ser posta de lado. por simples espírito de pilhéria. quando se viu impossibilitado de prosseguir viagem. Benfica (anteriormente Bemfica) é u m antigo povoado pertencente ao distrito da cidade de Juiz de Fora. portanto. Acolheram-se então os noivos à casa de um dos habitantes do lugar que os recebeu hospitaleiramente. com o objetivo de explicar-lhe a origem. desde então ficou a localidade denominando-se Benfica i1). Sobre a denominação de Benfica correm diversas versões. indivíduos que respectivamente e m qualquer delas tivessem nascido ou vivido. tratando-os com amabilidade e dando-lhe confortável pousada. Se é certo que existem localidades que tenham o nome ou apelido de seus fundadores. antigos habitantes ou proprietários de terras onde se iniciaram tais povoados. devendo prosseguir até B o m Jardim. Mas tal afirmação não está documentada e.

seja tudo pelo amor de Deus! todos os mencionados nomes o que nos importa agora é t Ribeiro». pouco desviado dela para a parte do poente. distantes da pátria. arraias. Leiamos isto do insigne clássico. (1) Colhida e m Juiz de Fora. quando u m a delas se desprendeu. III do livro 2. nasceu ou viveu e m u m local chamado «Ribeiro». é que teriam dado igual denominação a lugares existentes no Brasil. Como. a propósito de «Cardoso». nome de u m dos mais aprazíveis arrabaldes de Lisboa e que foi dado também a u m local do Rio de Janeiro.208 LINDOLFO GOMES Ciclo de S. fica como escondido e furtado à comunicação da gente u m pequeno vale que. Pedro era uma velhinha muito má. e outras muitas. A velha tentou reavê-la e.. ou com esse local teve outra qualquer relação. Domingos». Essa coincidência explica-se por terem sido indivíduos de nacionalidade portuguesa proprietários dos terrenos e m que se situam e m nosso país certas localidades. todos lhe fugiam. e m cujo número está o que pertence ao município mineiro. com cara de poucos amigos. quiseram desse modo homenagear a terra de seu berço natal. designativos lusitanos. desde os tempos coloniais. dado à localidade ds que estamos tratante. exclamo u: — Ora. Assim é que em Portugal e no Brasil existem localidades denominadas Valença. e ao povoado pertencente a Juiz de Fora. servindo-nos da explicação que. pois. Aconteceu que u m dia estava a lavar n u m corgo u m molhe de folhinhas de cebola. no bairro de S. para denominações de propriedades agrícolas. que houvessem nascido ou vivido em Benfica. expliquei no m e u opúsculo «Etimologia de u m nome ilustre. não o conseguindo. Assim fica explicada a origem do topónimo que acabamos de estudar.i deve entender-se que u m dos antepassados de António Cândido ou antiga pessoa ligada com a família.» Portugueses. mereceu ao que se pode crer. por constituir a terceira parte do «nome completo» do nosso tribuno. e m Portugal. Não tinha amizades. V e m a ser a de se adotarem. sendo naturalmente aprazível por frescura de fontes e arvoredo. ao descrever o célebre Convento de Benfica. inclusive Benfica. os quais. Por tudo quanto ficou dito a respeito do topónimo Benfica. . Viçosa. transplantando tais denominações pana lugares de sua nova residência. do mesmo. vilas ou cidades. ou lhe deram por alcunha o nome topográfico». cap. sumítica.°). o nome que tem de Benfica. e que os vizinhos lhe chamaram por isso Fulano do Ribeiro. Pedro A mãe de S.." «A u m a pequena légua da cidade pela estrada que corre para Sintra. Vamos agora dar a origem lusitana do nome topográfico Benfica. rezinguenta. ganhou a correnteza e lá se foi pela água abaixo. o que achamos razoável supor é que o mesmo procede de u m a prática muito generalizada e m nosso país. região lusitana. deu Frei Luís de Sousa ( « História de S. Pedro (*) A mãe de S. Cristóvão. Cedofeita.

no livro das almas. caso ela saiba aproveitá-la. nas contas da mãe de S. ao menos u m a vez. se mostrara conformada: — Seja tudo pelo amor de Deus! 0 Senhor disse a Pedro: — Lança u m a das pontas da folhinha e m direção ao inferno. 0 santo chaveiro. Pedro morreu foi nomeado chaveiro do céu. foi ter com o Senhor: — Salva minha mãe. que não podia resolver nada por si.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 209 Não levou muito tempo morreu e foi apresentarse no céu. segura-se às pernas da velha. querendo aproveitar o ensejo de salvação. na vida de tua mãe ao menos u m a boa ação. não querendo levá-las para o céu. de avara que era. 14 Contos Populares Brasileiros . Tu puxarás. Foi pesada na balança de S. Das profundas do abismo. se encontrou u m a folhinha de cebola. Tua mãe que se agarre a ela. esperneou e atirou novamente ao inferno as companheiras. 0 Senhor respondeu-lhe assim por estas palavras: — Se houver. mas u m a porção de almas. Quando já estava o grupo a certa altura. A velha indignada. nada mais! Era a mesma que motivara aquele dizer com que a velha. Não lhe podia valer. tão grande era o peso de seus pecados. 0 filho ainda andava pelo mundo. Apesar disto a folha subia. Quando S. Pedro. Miguel e não houve outro remédio senão mandá-la para o inferno. outras almas se iam apegando às pernas das primeiras. A velhinha agarrou-se à folha. Pedro fêz tudo o que o Senhor lhe ordenara. estará salva. avistou a velha ao filho no gozo e posse das glórias celestiais e pediu-lhe por gestos que a salvasse. estará salva. Examinou-se o livro e a folhas tantas. Divino Mestre. Se conseguir subir até cá.

a folha de cebola partiu-se. no tempo em que Nosso Senhor andava pelo mundo. — O' de casa! — 0' de fora! respondeu. — Mande entrar — disse o mais velho dos viandantes. nem com o diabo) corre como provérbio. João del-Rei . Os pratos estavam quase vazios e e m casa não havia mais nada. u m velho e outro moço. mais outro. dentro em pouco. Abriu a porta e deu com dois pelingrinos que lhe pediram pousada e janta. — Onde comem dois. 0 lavrador hesitou. alta hora. e a m ã e de S. ouviu bater à porta' de seu rancho. Onde comem dois. por u m a noite de muita chuva e muito frio. atiraram-se a ela com vontade. outro a bater. u m pobre lavrador. e mais Nosso Senhor Jesus (1) Ficar como a m ã e de S. comem três (2) Vai um dia. 0 lavrador foi abri-la e apresentou-se outro pelingrino em tudo semelhante aos outros. 0 que chegou tomou assento à mesa e pôs-se a comer também. carregado de família. comem três. E assim vive até hoje: n e m na terra. tinham chegado doze. Mandou preparar a ceia com o que havia e os pelingrinos. que eram os apóstolos. nem no céu(1). e depois outro. Pediu-lhe pousada e de comer. Assim. ouviu-se bater de novo à porta. Pedro (nem com Deus. Passado u m instante. (2) Colhida e m S. Pedro ficou no espaço.210 LINDOLFO GOMES Mas. Vai daí. Não tinha por onde subir ao céu e o pedacinho da folha que conservava nas mãos não a deixara voltar ao inferno. no mesmo instante.

Você já viu. 0 lavrador começou então a desabusar todos os parceiros. que quer? — Quero entrar. Dito e feito. Se êle ganhasse. — Isso não.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 211 Cristo em pessoa. Êle tinha confiança no baralho que lhe dera Nosso Senhor Jesus Cristo. Os diabos aceitaram. No dia seguinte. Pedro. já os diabos. numa pobreza nunca vista. que não era senão S. escrivão entrar no céu? — Pois será esta a primeira vez. — Então. propôs aos coisa ruim o resgate daquela alma n u m a partida de jogo. em vez de uma. Bateu à porta. S. e a fama correu. Veio S. despedi ram-se todos muito agradecidos. homem de Deus. S. Era u m a ventania de levar tudo para os quintos. no arraiar da primeira luz. estaria salvo o escrivão. Aparece logo ali por milagre u m baralho com aquela virtude. não levou muito tempo morreu o h o m e m e no caminho de ir prestar contas encontrou-se com dois diabos que levavam a alma de u m escrivão. — E levo o companheiro. 0 lavrador teve pena da alma e ainda porque devia umas certas obrigações ao escrivão. levariam duas almas. não m e conhece mais? Sou o h o m e m do baralho. e o velho. S. pediu a Nosso Senhor que lhe desse meios e modos de ganhar sempre pela certa. que não lhe havia de {negar. . Ora. Mas. aquele que deu de dormir e de jantar a N. ganhou pela certa e lá se foi com a alma do escrivão para o céu. em trajes de pedinte. 0 lavrador. se quero! — Entre. Pedro. Então V. disse ao lavrador que pedisse alguma coisa a Nosso Senhor. a V. 0 lavrador sacou do baralho. e aos santos apóstolos. que era inclinado ao jogo. seguros com ela pelos cabelos. se perdesse. Jesus Cristo.

Alma de Adão Era uma vez um solicitador muito velhaco. S. visto que és muito esperto. venho suplicar a sua misericórdia. e exclamou: — Mas como conseguiste descobrir essa alma em meio de milhões de outras!? . às escuras. Pedro — vai a teu destino.. Pedro. Mas tanto fêz e aconteceu o advogado que o santo lhe dirigiu a seguinte proposta: — Permito que entres no quarto das almas. que tinha feito derramar muitas lágrimas de órfãos e viúvas. recuou espantado de tamanha ousadia.. S. meu santo. e lá se foram os dois entrando no céu. — Não se espante. Se o conseguires. Mas. Era já sabido que alma de advogado não entra no céu. quero entrar no céu. entrarás no céu. 0 santo chaveiro mal abriu e deu com êle. que quisera apenas brincar com êle. Pedro não teve nada que responder e ficou a coçar a barba. — Impossível — respondeu S.212 L1ND0LF0 GOMES — E daí? Já não vai entrar? — Daí é que palavra de rei não volta atrás. foi o mesmo que disse que onde comem dois. S. pois V. ficou muito admirado daquele feito. onde até então não constava haver entrado alma de escrivão. que foste o maior velhaco do mundo. Estou arrependido. comem três. Ladrão como ninguém mais. e de lá m e tragas a alma de Adão. Assim se fêz. E daí por pouco voltou o advogado com a alma de Adão. nosso primeiro pai. como o diabo do leigo-leigo era fino como u m rato e não havia notícia de haver jamais perdido u m a demanda. foi bater à porta de S. Pedro.

respondeu que não o aborrecesse. Está visto que S. O chapéu do escrivão (x) Era uma vez um escrivão ladino e sabido como não havia outro. E foi assim que. Pedro. já sabia ser a de Adão que. Estando todas as almas nuas. m e dá m e u chapéu! 0 santo enfim. Ele aproveitou-se dessa distração para atirar seu chapéu para dentro do céu. por isso.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 213 O outro respondeu: — E' que não sou tolo. Pedro. apalpando e quando encontrei a que não tinha umbigo. (1) Colhida em Juiz de Fora. . Seu lugar não é aqui. m e dá m e u chapéu! S. E pôs-se a gritar: — S. Pedro. nem lhe dava atenção. Ninguém o enganava e êle gabava-se de haver engazopado toda gente com que tinha tido negócios. Vai então bateu à porta do céu. como reza a sagrada Escritura. entrou no céu alma de advogado. uma vez ao menos. tocando naquele objeto de u m herege tão afamado. Pedro. Ajoelhou-se e pôs-se a chorar. — Não pode entrar. ter umbigo. Pedro não ia macular as suas santas mãos que pegavam nas chaves do céu. Veio S. fui apalpando. não nasceu. Pedro. Não podia. m e u senhor S. Pedro. quando morreu já levava êle o plano estudado de passar a perna em S. muito ocupado em atender a outras almas. mais despreocupado. S. Sabendo que alma de escrivão não entra no céu.

Senhor? (1) A segunda destas lendas corre e m variantes na França. Para a morte não faltam desculpas (2) Deus quando inventou a morte disse-lhe o que havia de fazer. — Porque não m e deixarão sossegada e todos m e hão de odiar e ter horror de mim. Era o que o escrivão queria. talvez. Mas o Senhor perguntou-lhe por que lhe pedia tal coisa. deixou ficar o escrivão no céu. — Como assim. mais vale u m a palavra de Deus do que u m a alma nas mãos de Satanás. Cá estou. Se não m e pode dar o chapéu. nem do inferno para o céu. Tanto pediu e rogou que S. Pedro. achando mesm o que não era bom ficar o céu com objetos alheios. que é das santas Escrituras que o que entra no céu não sai mais. (2) Colhida em Juiz de Fora. Ela horrorizada rogou-lhe que a dispensasse de tão pesada e antipática tarefa. deixo-me ficar. — Não. Pedro. Não se sai do céu para o inferno. Quando se apanhou lá dentro. E S. . na Espanha. onde estava (1). não sai? Ponha-se lá fora — ordenoulhe S. mas saísse imediatamente para não mais voltar. dizia o escrivão — veja que é pecado ficar com as coisas alheias. consentiu fosse êle buscar o chapéu. Pedro. Pedro. e m outros países da Europa. deixou-se ficar. — Então. deixe-me ao menos ir apanhá-lo que logo m e retiro a m e u destino. nada tendo para responder. em Portugal e. — Não te faça isto cuidado — disse o Senhor — cumpre a tua obrigação que sempre haverá desculpa para o que fizeres.214 L1NI10LF0 G O M E S — M e u senhor S.

Pela cura vai muita gente pra sepultura. Se acertares de parir Que não vejas sol nem lua. 14) dos Cuadros de Costumbres. que remoía (4) ali bem perto. entretanto. a não ser a palha da manjedoura. lá em Belém da Judeia. A lenda do g a m b á e a besta (3) Isto foi quando o Menino Jesus. nem se moveu. Para a morte nunca hão de faltar desculpas. as ovelhinhas a oferecerem à Senhora os seus préstimos. U m a besta. E só de vez e m quando (1) Cf. outros da cura. nasceu na manjedoura.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 215 — Umas vezes serão as comidas. E a mula remoía. Até o gambàzinho. Logo que o Menino nasceu. outras os remédios ( ! ) . (4) H á u m a parlanda popular que diz assim: O boi bento bafejava. Uns morrem da doença. vem u m a variante no 2 . E daí por pouco apresentaram-se os boizinhos. sempre desculpada (2). Maldição te boto. de Fernán Caballero (Madrid. (2) Dêate conto. correram a vê-lo e a adorá-lo os santos pastores. 0 boizinho bafejava para aquecer o Menino e a ovelhinha arrancava a sua lãzinha para revesti-lo. e m vez de paninhos macios. na manjedoura. Nosso Senhor Jesus Cristo. ° volume (pág. lá se foi também oferecer. E desde então a Morte começou a cumprir o seu destino. . 0 menino veio ao inundo na pobreza mais extrem a e sua divina Mãe não tinha nem u m isto com que o agasalhasse. Que não pairas vez nenhuma. mula. os ditados: Das boas ceias estão as sepulturas cheias. 1862). muito popularizado e m nosso país. m a s muito prestativo: se a Senhora queria que lhe desse de mamar ao Menino. Nem luz de parte alguma. com sua catinguinha. muito envergonhado. Nerti luar que te alumie. (3) Colhida e m Minas.

dar à luz sem dores e à besta. Nossa Senhora ficou muito comovida e resolveu premiar aquele e castigar esta. E daí em diante se cumpriu o que a Senhora quis. e por que a besta não produz. o castigo de não mais poder conceber e o de morte se tal viesse a acontecer. . não sendo.. dessa data e m diante. e se produzir há de morrer.216 LINDOLFO GOMES soltava zurros medonhos.. incomodando o sossego do Jesus inho. digna de ser m ã e e de compreender o que era u m a mulher estar ao lado do berço de seu filho ao desamparo e na penúria. Ao gambá deu o destino de. Vendo o procedimento do gambàzinho em comparação com o da mula. como não era. e já sabemos então por que o gambá traz ao lado as suas bolsinhas.

ouve-se. nanas. Nos lares mais pobres. por isso. sob os seus múltiplos aspectos. constitui uma das mais importantes preocupações dos que estudam a etnografia. aliada à poesia popular.CANTIGAS DE ADORMECER Cantigas de adormecer Umas das mais espontâneas. mais simples. onde haja terna figura de mulher que sabe ser mãe e se debruça sobre o berço do filho amado ou conchega ao seio o meigo infante. como popularmente lhe chamam (í). alguma hora da noite. u m a (1) Francês — berccuses. As cantigas de adormecer com que fomos embalados pela voz carinhosa e amorosíssima de nossas mães e nossas amas são u m a das divisões mais interessantes da vasta variedade dos cantos populares e. merecem lhes prestemos pelo menos o culto que a saudade sabe inspirar aos homens de coração. por isso mesmo. aliás encantadoras manifestações das carícias maternais são as cantigas de adormecer ou de berço ou de nanar. como nos mais luxuosos e confortáveis pela abastança. desempenha papel preeminente na vida dos povos e. E m todas as raças a cantiga. espanhol. e ainda pelas gratas recordações que nos despertam. .

a simpatia pelas crianças. Q u e m se der ao estudo de tão evocativas cantigas verá que. a não serem algumas de procedência literária que vêm nos livros de leitura elementar e que se vão tornando tradicionais. coco. E se era preciso acalentá-los entoavam u m a dessas cantigas tradicionais que têm sido o encanto de gerações e gerações. e m Portimão. figuram seres míticos.218 L1ND0LF0 GOMES voz cadenciada entoando uma cantiga. u m indivíduo revestido de túnica cinzenta e capuz que lhe cobria a cabeça e a cara. « A coca representava para o povo o pregoeiro que anunciava a Crucificação de Cristo». Figura igual se apresentava nas nossas antigas procissões de Enterro. Mas. No tempo da escravidão as mães cativas (e ainda agora as que trabalham na lavoura) dependuravam aos ramos dos cafeeiros os berços de taquara. vemos referências delicadíssimas à Senhora SanfAna. criada no Norte e em que se fala de u m célebre criminoso que foi o terror das populações de extensa zona pernambucana. uma ou outra apenas levemente alterada em nosso ambiente. o papão). às vezes quase em surdina. De quando em quando corriam a ver se os filhos repousavam tranquilos. em muitas delas. com o nome de Farricoco (cf. Curutu é voz onomatópica para infundir pavor. (2) Este negro velho é u m símbolo do demónio. da capina ou do plantio. enquanto se entregavam aos labores da colheita. haverá que (1) C o m o nome de Coca (ou coca). despertando sentimentos de bondade e recordando cenas e passagens em que o amor materno. em outras. a quem o povo também trata de negro sujo. fantásticos e lendários (a cocai1). informa Leite de Vasconcelos que entrava dantes na procissão de Passos. Raríssimas são as nossas cantigas de adormecer que não sejam de importação estrangeira. Se excetuarmos a do Cebeleira. talvez nenhuma outra. onde acomodavam os filhinhos. figuras sinistras (o negro velho (2) e m cima do telhado). . coca). a proteção a estes serezinhos débeis e inspiradores de afetos e ternuras são o leit motiv mais predominante. superstições. aos Anjos. à Virgem. ao Menino Jesus. coca.

ru. José estendia. 4) Dorme. Lavava os paninhos De seu bento filho. menino. Teu pai e tua m ã e Não têm medo do tutu. 3) Dorme. De trás do murundu. Papa com angu. Papai foi na roça. ru. 0 menino chorava Com o frio que fazia. sai daqui Para cima do telhado. meu filhinho. Deus m e deu para criar. 0 bicho aí vem. ru. Não chores. (1) Elipse da conj. Passarei agora a dar algumas cantigas que recolhi da tradição oral. Ru. A Senhora lavava.. 6) Nossa Senhora N a beira do rio. m e u menino. ru.. antes de quer na linguagem popular. Ru. ru. Toma este menino. ru. integrante que. Quer ( 2) Vai-te Coca. Êle está dizendo ! ) o menino assado. e m Minas: 1) Olha o negro velho E m cima do telhado. ru. A obrigação de quem cria E' o filhinho acalentar. dorme.. Ru. 5) João Curutu Atrás do murundu.. ' . ru.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 219 possa ser considerada como produto genuíno da nossa gente. Mamãe logo vem. ru. Deixa dormir o menino O seu sono sossegado.

e tenha-se em vista esta variante dos dois versos finais: Isto são orvalhinhos Que caem do Senhor. E m palhas deitado. A Virgem Maria M e deu u m recado. Primeiro m e deitei nela. 8) Maria e José Lá vão pra Belém. Olhai para o céu. Se tocam as cordas. a comparação popular — frio como aço. Lá vereis u m a cruz C o m cama e travesseiro Para o Menino Jesus. Salvai nossas almas.220 LINDOLFO GOMES Não chores. Dá o Verbo Divino. m e u menino. entretanto. Levando o Menino. Cf. . (1) Indicará a frase que se a impaciência materna der ensejo a alguma palmadinha (faca). Bendito Jesus. O Anjo da Guarda M e deu u m a guia. Bendito e louvado Tem u m galo no sino. Que eu fosse devoto Da Virgem Maria. 7) Os filhos dos ricos E m berço doirado. E vós. O Verbo Divino. e m que aludimos à expressão « fio de faca». Que eu fosse cantando Bendito e louvado.. Que a faca que corta ( * ) Dá golpes sem dor. M e pus a considerar Que sorte eu teria Para m e salvar. esta será mais u m a carícia do que u m castigo? Vide Notas no fim deste volume. Cordeiro da Cruz. Que lhe querem bem. m e u amor.

papai já veio.CONTOS POPULARES BRASILEIROS A estrada é de rosas. Te há de defender. 12) Dorme. Ribeiro. 10) Filhinho está chorando C o m medo do papão. não. Por onde vão eles C o m o seu jurnenfcinho. vai-te embora. Aquele Menino E' o rei dos judeus. meu filhinho. 14) O Anjo da guarda V e m te acalentar. dorme. Variante: «Toda mãe que tem u m filho». 9) Quem tem filhinho nos braços (J) Razão tem para chorar. E daqui ninguém Te pode levar. Êle já está dormindo Aqui no seu bercinho. meu menino. Que não te come. ° Livro de Leitura. Tutu quer te comer. de H. m e u menino. Êle está querendo Puxar o travesseiro. A maninha também dorme Reclinada no m e u seio (2). Florido o caminho. 13) Tutu. . Deixa o m e u filhinho. 2 . já popularizada. Pois não sabe ainda da sorte Que Deus tem para lhe dar. Mas a m a m ã e não-deixa. Sossega. 11) Dorme. Dorme filhinho Zumbi está no terreiro. Salvador dos homens E filho de Deus. E' noite.

. dorme. A mãezinha logo vem. dorme. Filhinho que Deus m e deu. Que remédio tenho eu? 16) Quando eu era pequenino Que nem sabia falar. (1) 2. Fui varrer a Conceição. Teresa vai na horta Apanhar o caruru.222 LINDOLFO GOMES 15) Dorme. E o doce Jesus. m e u filhinho. Não pode apanha. eu acalento. Minha m ã e já m e ensinava A Deus do céu adorar (x) 17) João corta pau. 20) Acordei de madrugada. S. Caruru está pendoando. 19) Dorme que a Senhora Desce das alturas. 18) Dorme.° Livro de Leitura. Ela m e deu seu cordão Que lhe dava sete voltas E m roda do coração. meu filhinho. Ela m e disse que não. C. de A. Palmada no filhinho. Se êle chora. Encontrei Nossa Senhora Com dois raminhos na mão. Os anjos com ela. (2) Cf. a nota da pág. Que êle dorme já (2). Borges. Vem cobrir de flores Tuas coberturas. E u tornei a lhe pedir. 220. Eu pedi a ela um. José também. Foi lavar os teus paninhos Na pocinha de Belém. Maria mexe angu. Para sempre amém.

.

meu menino. 130 do romance A doida do Candal (1867). 23) Fecha a porta gente. Zumbi (2) bate na porta. Que será de m i m ? Seja convosco O Senhor de Bonfim. S.. 22) Senhora Sant'Ana. Cabeleira aí vem.. Maria é Joaquim Moram numa casa De ouro e marfim. S. Quantas vezes as mães cantam Com vontade ãe chorar. e infundia tal pavor que se tornou tradicional. embora se tenha amplamente popularizado. Virgem sempre pura. com esta variante: Quem tem -meninos pequenos Não se lhe estranha o cantar. 24) Quem tem filhos nos braços Por força que há de cantar. Bendita sejais. Vestidinho de burel Para receber as Chagas Do Divino Emanuel. 25) Dorme. Salvador. (2) Pelo nome de Zumbi era conhecido o chefe negro da célebre repúplica dos Palmares. Senhora SanfAna. Matando mulheres. Meninos também. C o m o seu beiço caído E a sua cara torta. mas literário. Dos tristes mortais. Vê-se que não é de cunho popular. Quantas vezes a m ã e canta C o m vontade de chorar (*). 21) S. Francisco anda descalço. de Camilo. .224 LINDOLFO GOMES Santo António. (1) Esta linda e expressiva quadrinha vem registada à pág. Paulo. Francisco M e tirai este cordão Que m e deu Nossa Senhora Com a sua benta mão.

Porque assim são três vezes E eu posso o sonho contar (3). eu tenho um segredo (2) Pra lhe contar amanhã. mas popularizadas. ente imaginário com que se amedrontam as crianças. D. 28) — Mamãe. Fazer tutu é infundir medo às crianças. Mamãe tem que fazer. Logo são de origem literária. Tais lendas não passavam de recursos de diabólica inveja e politicagem. Quem não trabalha Não tem que comer.CONTOS POPULARES BRASILEIROS 225 26) Tutu marambaia (J) Não mais venhas cá. Vilas-Boas. às escuras. Mas eu lhe conto amanhã. Foi a vovó quem me disse Que o sonho que a gente tem. (1) Tutu. E' palavra de origem africana segundo uns. Mas eu lhe conto amanhã Se outra vez eu sonhar. o que fêz com que a plebe o temesse ínjustificàvelmente — chamando-lhe « o tutu da terra » ou especificadamente de Marambaia. 15 Cotito3 Populares Brasileiros . filhinho. E' crença popular. que vem no livro de versos desse cantor. E' belo qual a folhinha Da alegre flor da romã. ou indígena na opinião de outros. Que o pai do menino Te manda matar. (2) Estas quadras bem como a variante publicada por D. Alexina Magalhães 'Nossos brinquedos. considerado o mandão do lugar. onde outrora havia — dizem — u m abastado proprietário. Segredos do Coração. (3) Superstição popular muito conhecida e apregoada: sonhos contados não se realizam. E' lindo como eram lindos Os olhos de minha irmã. Marambaia — parece entender-se com a denominação do porto de i l í a rambaia. Pra se tornar em verdade Não se diz nada a ninguém. e em torno de cuja respeitável pessoa se criaram absurdas lendas. 82-83) são extratos deturpados da poesia de E. Só se forem referidos depois de sonhados mais de u m a vez. 27) Dorme. Mamãe eu hoje não digo.

à noite. Que Deus sorrindo aparece No sonho das criancinhas. 30) Saiba quem. Pra m e u filhinho dormir. A cantar m e esteja a ouvir. . acaso. N o peito põe as mãozinhas. No outro dia a criança Jazia morta no leito.. em beijos. ao peito. Aperta-a.. Lavam-se com água de rosas Nascida no coração.226 LINDOLFO GOMES — Pois dorme m e u filho e reza. E a pobre m ã e a chorar. Que canto. porque sou mãe. 29) As roupinhas do filhinho Não se lavam c o m sabão.

demais. m a s usado por alguns clássicos. troca de palavras. Arrasta-pé — Baile. Amiudar (dos galos) — 0 canto freqiiente dos galos. fome extrema. 97). e m estado de concentração. ao amiudar dos galos quer dizer — pela madrugada. O verbo arar (1. Apois — Forma alterada de ao depois. comer sofregamente. aljim. Arado é o indivíduo faminto ou guloso. plebeísmos e brasileirismos empregados no texto desta obra. varado de fome. E' ainda o nome náutico que se dá ao busca-vida.VOCABULÁRIO ( * ) com a explicação ou significados dos principais modismos. Não é brasileirismo. Arraiar — Raiar (do dia). Não é brasileirismo. Arenga — Questão. denominação de certo instrumento agrícola. Arranjado — Indivíduo que tem alguma coisa de seu. locuções populares. triste. teima. quando se emprega a procurar u m a âncora ou outro qualquer objeto no fundo da água. equivale a de resto que é franoesismo. (*) O presente vocabulário torna-se necessário. A resto — Por fim. também — arado (1. arare). Almas (quarto das) — O vulgo supõe o inferno dividido e m compartimentos como as nossas habitações e por isso chama quarto das almas o lugar imaginário e m que julga acharem-se elas enclausuradas. Como quer que seja. aração e arado. como se supõe e já vimas registrado. A m u a r — Ficar mal disposto. inclusive Lishoa na Vida do Padre António Vieira (pág. Cf. cf. Adivinhão — O que adivinha. Aração — Gula. alo de comer sôfrega ou excessivamente. adoecer. haveres suficientes para se manter. aratrum). além do significado próprio de discurso fastidioso. Cf. visto ter este livro . são brasileirismos. t a m b é m certo intuito pedagógico (Vide Notas finais). com os significados de comer e m excesso.

e m lugar. o muar que guia as tropas. B a ú de segredos (servir de) — Ser confidente e depositário fiel de segredos de outrem. às vezes. quando quer indicar que mandou vir alguma encomenda do Rio de Janeiro. Até o Chico vir de baixo — Por tempo dilatado. permutar.: Arriba a caçamba pra riba! Eh! Eh! Arrumadinhas (muito) — Muito ajeitadinhas. Baratinho (preço) — expressão popular. vagando. e decerto de outros Estados do Sul. samba. reunião e m que há danças. diz que mandou vir de baixo. Assuntando — Refletindo. Brinquedo — Baile. Barba (ficar a coçar a) — Ficar a considerar. a ave arribou o vôo. das expressões correias: preço alto. supersticiosamente atado ao pescoço e envolto e m u m a capa de pano. o italiano attimo que tem o m e s m o significado. Bicha — Garrucha ou arma de fogo qualquer: «arrancou da biclia e fêz fogo ». respectivamente. trocar. g. e Camilo: preço barato. cateretê. Babatando — Conjeturando. a tropa arribou. Num átimo significa num abrir e fecliar de olhos. Alusão às demoradas viagens que se faziam a cavalo ou a pé ao Rio de Janeiro? O povo de Minas. . ao sacerdote que o benze. Açucrar a voz — Falar docemente. Se se trata de oração é o breve levado. Bernardes. procurando assunto. e m formação ou chocha. preço baixo. N o sentido de levantar dizem os trabalhadores. hesitando-. antes de usar-se. Bonecra é também o nome da armação de fitas e guizos que leva à cabeça a madrinha. Bruganhar — Berganhar. se bem que clássicos. matutando.228 VOCABULÁRIO Arribar — Quer dizer levantar e também tresmalhar. amaciar a voz. como Vieira. 0 vulgo lusitano também diz bamos por vamos. com suavidade e ternura. Daí o nome de bentinho. do quimbundo cu-babata). e da espiga de milho. cismar. houvessem usado: preço caro. A etimologia da palavra baú não está ainda bem elucidada pelos lexicólogos. B a m o — Vamos. V. apalpando (Babatar. Bonecra — 0 m e s m o que boneca. Frei Luís de Sousa. etc. preço caríssimo. Átimo (num) — Cf. amuleto que se traz devotamente e. quando se entregam ao mister de abrir fossos ou poços. Bentinho — Breve. Belzebum — Belzebu. pôr-se e m cogitações. Castilho. oração. e m vez de preço baixinho. o demónio. encolhidinhas. isto é. ou desnorteou.

C a m p a r no pé — Fugir ou meter o pé na estrada ou no campo. com gosto. Cf. louco de amor. g. Cf. ino. e m vez das regulares. Por influenciação das expressões louco por festas. baule por baile. . grau do latim gradu. fazer intrigas. louco ãe raivoso. por influência de canga. Cada — Usado pela expressão a cada qual ou cada um: v. áugua por água. se encontra com o caipora tudo lhe sairá mal enquanto durar a influência da aparição. ocorrência muito observada no falar caipira. ação de fugir ou simplesmente correr. intrigante. 0 povo aconselha a não se maltratarem as cambaxirras. compara-se a carreira ou fuga rápida de alguém com o vôo alígero das aves pelo azul (do espaço). Diz-se no m e s m o sentido abrir campo ou azular. Cf. 0 d cai.VOCABULÁRIO 229 Brabo (danado de brabo) — Muito bravo. mexericos. pagou a cada o seu salário. na crença indígena e hoje popular. o que faz meiguices. louco de raiva. Cambaxirra — Ave também conhecida pelo nome de corruíra ou carriça. Causo — Está por caso. de azul. destemido. antigos). funil do latim «infundile» (Subsídios. Campar é u m derivado de campo assim como azular. pouco batida de luz. lisonja. Cantano — 0 particípio presente ou gerúndio é pronunciado pelo baixo vulgo com a terminação ano. T a m b é m o vulgo no Brasil diz cauxote por caixote. Naquele sentido é brasileirismo. Cambaxirrar — 0 cantar da cambaxirra. irresistivelmente. Cafua — Quarto que serve de prisão aos estudantes. Casa miserável. Cangote — N o m e da região occipital. Pode ser que essa palavra seja u m a alteração de eogote que tem e m português o m e s m o significado. Quem. Caipora — Ente fantástico e diabólico do mito indígena. Cair na gargalhada — Rir estrepitosamente. Caixão dos pobres — Caixão fúnebre destinado à condução dos mortos indigentes até o cemitério. o que leva tempo. o m e s m o que cafurna. Xaide por xale ou xaile. e m vista da figura síncope. Cortesão). caucho por cacho. sob pena de grandes infortúnios ou desgraças. eno. Candongueiro — O indivíduo que conta ou faz candongas. Mas e m cantano por cantando é caso de assimilação do d ao n. D o espanhol canãonguero. Candongar — Contar candongas. Caipora (caapora) é termo do tupi e significa morador ão mato. segundo alvitrou Rohan. bautismo e batismo (até nos clássicos portugueses. Cada paróquia antigamente possuía o seu que ficava depositado na matriz ou igreja da freguesia. o que se nota e m outras palavras.

Caso de haplologia. o desaparecimento do r é explicável. E' a m e s m a palavra indígena capiá que segundo Montóia. morrinha que se desprende de animais. e m cartão que nos dirigiu. Champanha — 0 vinho espumante conhecido. Reduzida a palavra a ca(pa)preta. Catinga — M a u cheiro. Caveira — Popularmente se usa essa palavra também com referência a todo o esqueleto e não restritamente ao crânio.230 VOCABULÁRIO Cf. E' vocábulo da língua tupi (Rohan). Pelo m e s m o processo de acrescentamento penso explicada a etimologia de Garambéu ou Garambéo. ern face dos processos linguísticos normais. verãolagas. ou carretear. Os nossos caipiras nunca pronunciam à francesa — champagne e sempre usam a palavra no feminino. Cf. transformação rara de ai e m au. ficar à vontade. como diz o vulgo. de pouco apreço. segundo foi observado. quer dizer procedente do mato. o capa preta. caipira. m a s atribuindo-lhe exatamente o gên. Carretando — D o verbo carretar. Quanto ao u final cf. caruru é palavra que pertence ao Tupi e ao Guarani — caáruru.. feminino. Segundo Bohan. Capeangando. assim como bondoso o é de bondadoso. batendo estradas. natural das selvas. que aparece nas alegorias de capa ou manta. Capeta — Cf. pelintra. vaqueiro. usam a palavra sob a forma de caloulou e a dão a certo guisado e m que entra o quiabo). beldroegas. registra-se champanha. ou capiangando — Furtando. ou seja matuto. ururá e ururau. o diabo. baunilha por bainilha. e m seu dicionário da Arte da língua guarani-tupi. por dissimilação. isto é. Quando se quer depreciar alguém ou indicar que não tem importância se diz que é u m beldroegas. procurando algo. etc. que significa pato. rostro e rosto e sacho (síncope) de sardo (sárculo). com as quais se prepara u m guisado que toma o nome de cararu (Em Dakar. organizado pela Academia Brasileira. e do corpo humano. Procurar o homem da capa preta é procurar o demónio que faz das suas e desaparece misteriosamente. Chá (ficar no. ao contrário do que fazem os caipiras que lhe dão o gên. ou. Caruru — N o m e de duas plantas nacionais. nome que será o indígena guarimbé. Capeta deve ser. a expressão o homem da capa preta. A lição é de Montóia. o gambá. Caruru é planta facilmente encontrável. Capiau — Sertanejo mineiro. isto é. do locativo « SanfAna do Garombéwi>. u m a contração de capa preta. caso de acrescentamento. masculino. procurando o que não perdeu. cf. N o « Pequeno Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa». pintar o diabo e pintar a manta. . Guarimbé passaria mui facilmente a Garambé e depois a Garambéu. Esta etimologia de capeta mereceu aplausos de Carlos Góis. como a raposa. fazer carretos. andar no) — Mostrar-se apresentável.

Desacorçoado — Descoroçoado. Corruscuba — 0 que é destemido. Virá a frase das lutas históricas com o jesuitismo. topetuão. 0 vulgo diz para indicar algo sem valor ou importância: aquilo é u m a chimarra à-toa. . exceíenbe. está inchado. do Rosário e S. Quer dizer menino. hábil. Não é brasileirismo. C ó m o d o — Alcova ou qualquer dependência interna de u m a habitação. cochichava paãres-uossos. audaz. chispou que não viu nada. ficar e m casa. Corgo — Córrego. nome este que o povo tem receio de proferir. como o sapo-concho. conquanto = embora. que se apresenta e m certas festas. como se dissesse aquilo é u m a samarra (batina) à-toa. — Enviar alguém apressadamente a algum lugar. havendo rei e rainha do congado. valendo por ainda que. dado o arcaísmo do vocábulo samarra? ou será a palavra forma alterada ou deduzida de chimarrâo? Chispar o. primitivamente só constituído de africanos.. Dar espaço — Dar tempo. tupeteba.co (ficar no) — Ficar na cama. « A velha cochichava. F. E m clássicos portugueses antigos também se encontra corgo por córrego.VOCABULÁRIO 231 Chimarra — Samarra. couro-n'água. 0 m e s m o que cotuba. o cujo logo aparece. inchado como u m sapo. dar folga. chispou longe u m a pedra. Cobu — Angu assado. usada. Pequena habitação. como de N.. Dar os pregos — 0 m e s m o que danar os pregos. Cochichar — Este verbo (ãe cochicho. Comes e bebes — Comidas e bebidas. às vezes. E ainda no sentido de atirar. recolhido. isto é. turuna. isto é. zangar-se. etc. combates simulados à espada. Contanto que — Conjunção condicional. S. Cf. 0 automóvel saiu chispando. enraivecer-se. Contapé — Pontapé. lançar algo: F. Benedito. por errónea analogia com a conj. plebeiamente como concessiva. Dar de corpo — defecar. Coisa ruim — N o m e popular do diabo. cheio de si. Cujo — U m a das muitas denominações do diabo. Curumi — E' o vocábulo guarani culumi. Estava todo concho. danças. De congo. Congado — Séquito de pretos. ajoelhada e m frente ao oratório ». qúera. Chispar também é usado no sentido de correr: F. Concho — Cheio de si. nome de u m pássaro) é também usado no sentido de rezar e m voz baixa. F. Chô. Diz-se que se se profere o nome ãiabo.

formam o cabo da embarcação. no sentido de coisas de infortúnio. mostrar à evidência. esticar. piriri. envergonhado. A nossa expressão caipira desgrácia pelada não será u m a deturpação de grajas pelaãas? Desinfeliz — Infeliz. por errónea analogia. de Cabailero. o é de faze. Q u e m perde a embarcação fica certamente descochado. ave semelhante ao corvo. engano. Perder a cocha primitivamente exprimiria o ato de deixar escapar o cabo ou perder a embarcação. ininteligíveis. Euterícia — Enterite. assim como faz. em vindo de mais longe. Também dizem doutor de leis por doutor em leis. andar escoteiro. 0 ponto de partida para tal irregularidade seria a expressão Juiz de direito. o francês poseur. inquieto e desinquieto. desacompanhado.. torcidos. sozinho. Graja é a fêmea do grajo. Empetilicado — Empertigado. por falsa analogia c o m outras fornias como de mais longe. A expressão de grafas pelaãas está e m « Cuadros de Costumbres». ambas estas formas usadas e m textos clássicos. . A m e s m a ocorrência se observa na Espanha. Diz que — Por — dizem que. Cf. Do castelhano broma. fingir. ou. de onde. no m e s m o sentido. Doutor de medicina — Dizem por doutor em medicina. doutor de medicina. 75. vexado. grávida. etc. imperativo. corajoso ou trabalhador é de pegar pra sair. Desgrácia pelada — Extrema desgraça. chegando depois que esta partiu. E' expressão de uso clássico e também da gente portuguesa. Cf. fazer patente. Diz é contracão de dizem. Embaraçada — pejada. de longe em longe. por influência da palavra icterícia. Por analogia. 1. Escoteiro — Viajar escoteiro. Doçada — Grande quantidade de doces. pagar de contado. com impostura. U m cavalo de pegar pra sair é excelente. Brasileirismo. E m de mais longe — Forma desenvolvida da locução de longe. Encorropichar — Escorropichar. dizem que u m indivíduo hábil. E m b r o m a r — Enganar. perder a cocha. como dizem. Coclia na significação precisa designa u m dos ramos que. doutor de leis. D e u tudo quanto tinha — Fugiu velozmente.232 VOCABULÁRIO Descochado — Desapontado. Diz-se. às vezes significa cauteloso (étimo: escote). N a Espanha é usada a expressão de grafas pelaãas. tomar tempo. de agouro. Depelar — Tirar a pele.° v. Emposão (num) — Cheio de si. além do significado conhecido de beber. D e pegar pra sair — Excelente. misteriosas.

não raro também no falar do povo. senão quando . de indivíduo preto. Estratagema (a) — Os nossos caipiras dão a essa palavra a forma feminina. o que é muito de uso nos cantos ao desafio. iniciar é muito usado pela nossa plebe. Escreceatar — Corruptela de acrescentar que por assimilação passa no linguajar caipira a ecrescentar e por dissimilação a escrecentar. Cf. isto é. procediam os clássicos. N ã o teve escuta de Deus.. de pessoa de côr preta. Fumeiro — Espaço entre o teto da cozinha o o fogão.VOCABULÁRIO 233 Encarapinhado (cabelo) — Cabelo retorcido. não foi dele ouvido ou escutado. Os nossos caipiras empregam ainda a forma entonces. Enconsiderando — Considerando. Cf. Espiar (Pegou ãe) — Começou a espiar. Era u m dia uns estudantes — 0 verbo ser é então empregado impessoalmente: era. Assim também. Confundem esse emprego com o da forma gerundial — e m considerando.. N ã o é brasileirismo como alguns pensam. iniciar u m a trova repetindo o último verso de outra anterior. e m nosso país. corruptela essa igualmente do plebeísmo lusitano. cabeleira retorcida. ou às escuitas. às vezes. Brasileirismo. toicinho. excelente. o que é escolhido como o melhor dentre outros que são oferecidos à venda. corrupto e m antão. Pegar no sentido de começar. não lhe mereceu atenção. isto é. g. às vezes. V. u m dia uns estudantes. vendi duas arrobas de escollui. g. a réplica popular: — Então. Encomendar — Popularmente usado e m vez de recomendar. Escolha designa também. m a s também sob a influência de excrescência. E' o português então. a fim de se curarem. Não é brasileirismo. Entonces — Este advérbio vem. V. o café de m á qualidade. Escuta — Atenção. — Antão era pastor e guardava gado. Entrementes — Entretanto (Entrementes). carta de alforria que a plebe diz carta de forraria. etc. e m vez de eram. Fritangada — Fritada. linguiças. cf. a observar. no faiar brasílico. Esborrachado (nariz) — Expressão com que se designa o indivíduo de côr preta. andar às escutas. Carapinha. sistema e outras. e m que se penduram de u m trapézio porções de carne ensacada. o que fica nas peneiras depois de escolhido o bom. de onde o verbo encarapinhar. Os pretos africanos. Escolha (cavalo ãe primeira) — 0 melhor cavalo. diziam na sua meia-língua fritangada por fritada. nos clássicos portugueses e é castelhano. Cf. pegou ãe gritar. Forraria — Está por alforria. Pegar o pê ãa cantiga. ótimo. assim como a eczema.

E m certas regiões portuguesas se diz ai água-. A grafia dino. substantivados. tendo e m vista o composto lobo e homem. G a m b á de galinheiro — Indivíduo que vive de furtos de galináceos e ovos. E' o h o m e m que. é clássica. que também registra essa forma popular. Graúdo — Pessoa de importância ou que possui haveres de valor. Jongo — Espécie de dança usada pelos negros. Os nossos caipiras dizem frequentemente : não hai alma que se saive sem confissão. e m lobo ou outro qualquer animal (no Brasil e m porco ou e m cão). desobriga. g. onde registramos janta) é anterior ao «Pequeno Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa». Hai — Por há. 0 vulgo muitas vezes altera para leu-leu. doente. o nome de qualquer bebida. Não é brasileirismo. pág. e m Portugal. à noite. para evitar o hiato (Sílvio de Almeida — 0 Antigo Vernáculo. E m Camilo C. se transforma às sextas-feiras. g. etc. pessoa que se presume entendida e m leis e chicanas. ainda que pareça também ser u m a alteração de jogo. dada como gratificação. também dizem de modos. Logo (não esteve pra) — Locução com que se exprime que u m ato foi executado imediatamente. v. não lhe dou nada. a alma. Ouve-se também lumisome. isto é. Isto (Um) — U m a insignificância: « C o m e u u m isto da fritada e adoeceu ». A etimologia é duvidosa. Indas — Inda. de forma que. de formas que. como o urucungo ou aricungo. por digno. pois o * de bis não se explicaria. brinco.234 VOCABULÁRIO o nome por extensão se refere ao próprio aparelho. Parece vocábulo africano. Inté — Até. Jururu — Triste. Lobisome — Por lobisomem. Deriva-se de gorja. Este verbete (V. . Dizem éi esta por é esta. e m vez de modo. g. Indinado — Indignado. este pau dá u m b o m fumeiro. 71). Cf. l. divertimento. por maligno. de maneira. de acordo com a crendice popular. 0 home é leu-leu de sabença. « Não lhe dou u m isto ». Jauta — Jantar. o Caxambu (tambor). ai alma por a água. quer dizer. fui consultar o leu-leu. sem hesitação. v. Leigo-leigo — Rábula. de maneiras. Origina-se da frase tupi Xe aruru. assim como malino. acompanhada de rudes instrumentos musicais. Branco vemos na linguagem popular de suas personagens: deita. intrometida. molhadura e tenha-se e m vista a expressão: tome lá isto para molhar a goela. Gorjeta é também. Lambisgóia — Delambida. mal humorado. pensativo. etc.a e 2. V. a minha roça éi esta.a edições de « Contos Populares ». Gorjeta—Gratificação. por lobisome.

assim como ynoimento por monumento. fantasia. Mártile — Mártire. engodo. ardil. u m molhe de chaves. Marimbondos — Maribondos. Mal feito — Perversidade.VOCABULÁRIO 23Õ Lusque-íusque — Lusco-fusco. velho. ainda que e m certas regiões se pronuncie fosfre. Matungo — cavalo peludo. sem valor. Referência talvez à manta ou capa com que se apresenta o demo quando quer iludir. pessoa de importância. u m molhe de couves. fazendo-se de santo. M u c a m b a — Escrava que servia no lar da família do senhor e não era mandada à roça. Manta (passar a) — Enganar a outrem n u m a transação qualquer. 25: . v. fingido. Matutagem. como por exemplo será inhapa. M a s o vocábulo é africano e designa o indivíduo que faz parte do séquito ou do conselho do soba. erro maldoso.. (isto é: há abundância»). Cf.«gente doente é mato. sem terem e m vista figuras de dição. também indica o que é hábil e m seu ofício ou profissão e o que é grande no tamanho. que indica o modo com que alguém age com ardiloso fingimento. tendo-se e m vista que pode ser u m a corruptela da frase . Maranha — Mentira. Notas finais). mártir.. Madalena (chorar como uma) — Chorar demasiadamente. Corruptela de manjar? Mamparreiro — Preguiçoso. M a c u m b a — origem africana (V. de matula. alusão à personagem bíblica Maria Madalena. D o espanhol marro que quer dizer engano. V. trapaça. Molhe — molho. a expressão com capa de santo. De mamparra. Manda-chuva — Magnata. é vocábulo africano. Madorna — 0 m e s m o que modorra. Caso de nasalação muito vulgar. ou pelo menos africanizado. g. principal n u m a localidade. Brasileirismo. Marosca — Enredo. Macota — Pessoa de prestígio ou influência n u m a localidade. M a m p a r — Comer. alevantar por levantar. por matulatágem. Dizem também os nossos caipiras fosque por fósforo. Maginando — Imaginando. Maginar é forma usada por poetas e também pelos prosadores clássicos antigos. imigo por inimigo. C o m o brasileirismo. artifício e é o nome de u m jogo de rapazes? Mato (como) — Expressão popular comparativa indicando grande quantidade. artifício. Visconde de Taunay — Inocência. Molhadura — Gratificação. Não é brasileirismo.

Partida — (de linguiças) — Certa quantidade de linguiças. ombro. cheio de si. açúcar e farinha. e que se chama paçoca. na linguagem popular. e m e s m o depois de instalado definitivamente no Brasil. rua língua bunda. Passar a perna — Iludir. Diz-se também u m a partida de queijos ou de qualquer outro género ou mercadoria. a expressão — pegar o pé da cantiga. monte. Muito tal e qual — Equivale a estar de ponto em branco. enganar a alguém n u m a transação. M e s m o no sentido de festa e m que há danças ou divertimento qualquer não é brasileirismo. g. Palavra (pegar na) — Tomar a palavra. zombou dele. Aceitar u m a proposta. S a m Paulo e São Paulo. ou quando exprime quantidade excessiva. Corruptela de mulunáu. Sampaio e São Paio. metido e m papos de aranha. divertiu-se à sua custa. N a — Usa-se e m vez de à. Novato — Alcunha com que se designa o português chegado recentemente ao país (também lhe chamam candango). isto é. apresentável. Cf. Cf. tem dinheiro pra pagode. Murundu — Monte grande de coisas quaisquer. faz pagode. interromper a conversação do interlocutor. v. usado nesse sentido por extensão do significado que a palavra tem designando u m a espécie de templo pagão entre alguns povos asiáticos. N ã o nasceu hoje — Diz-se daquele que é experiente e que se não deixa enganar. Pagode — Festa constituída de danças e outros divertimentos como cantos ao desafio. Parece que o é quando exprime zombaria v.236 VOCABULÁRIO mimh'ama. g. tanto mais que existe a forma plebeia mucambra. Essa mistura é socada ao pilão. Pandeló — Pão-de-ló. a cantiga: «João Curutu atrás do murundu ». g.). Não é brasileirismo. assim como no por ao. de vmerus. Há também u m a mistura de amendoim tonado. Paçoca — Mistura de farinha de mandioca ou de milho com carne seca assada. . pagodeou à custa de Beitrano. e m dificuldades... e neste caso a introdução do b se explicaria facilmente. se não se tratar de u m hibridismo. F. N o = ao (apegou-se no braço. isto é. Palpos e m vez de papos nessa expressão é emenda pretensiosamente erudita. Papos de aranha — V. cf. F. pisada. Nossa Senhora da Aparecida — E' como popularmente se diz e m vez da expressão regular Nossa Senhora Aparecida. Cf.

por extensão. inhapa. o que muitas vezes ocorre. — E' forma clássica e popular tanto no Brasil. fazer saltar. a título de favor ou gratificação. dizem. pé sob pé. g. ganhou quinhentão de lambugem. Quarto (fazer) — Passar u m quarto. ser brasileirismo. habitação modesta ou miserável. corrompido eruditamente e m perguntar. pincliar u m objeto. Puí-puí — Voz onomatópica com que se indica o pouco ou nen h u m valor. etc. Verbo hoje quase que exclusivamente de uso plebeu. Nesse sentido parece. m a s c o m esse significado será de restrito emprego e m Portugal. Lambugem significa o que se recebe demais. A corruptela existe também e m Portugal. pediu-lhe para dizer a verdade do que sabia. relâmpago. Pinchar — Arremessar. Pêra é a forma preposicional histórica. per-l-a. cujo. na boca do povo. Tal emprego vai já predominando na linguagem geral. Do verbo lamber. relampo. ser inesperadamente acometido de pavor ou susto. Os nossos caipiras falam muitas vezes como clássicos. com os proparoxítonos. como e m Portugal do verbo preguntar. pé a pé. choro. V. Rancho — Casa de sapé. Cf. pedras preciosas. vendagem. barreada. prep. F. e m lugar de pediu-lhe que dissesse a verdade do que sabia. etc. Picuá — Vocábulo guarani (apiquá) — Saco de duas bocas. como sujo. Pruguntar ou proguntar. a simplicidade de alguém ou de qualquer coisa. Pelingrino — Peregrino. Quinhentão — Quinhentos réis. V. fazer quarto a um cadáver ou a um enfermo é velar junto dele durante a noite. P é que te pé — Pé que pé = pé ante pé. a caixa e m que se guardam minérios de valor. . Pramode — Corruptela da linda expressão por amar ãe. Pêra — Para. quebra.VOCABULÁRIO 237 P é de Pato — U m dos muitos apelidos dados pelo povo ao demónio. g. v. Petição de miséria (em) — N o último extremo da penúria. Lambugem é também a ração de sal que se dá aos cavalares e muares. certo tempo de u m a noite velando junto de u m cadáver ou de u m enfermo. ãiogo. As leis fonéticas repelem esta corruptela. por causa ãe. g. Não é brasileirismo. Hoje. coisa ruim. que a plebe pronuncia pêra). isto é. Raspar (mêâo ou susto) — Ter medo. alcova. Pedir para — Os nossos caipiras empregam o verbo peáir com objeto indireto e m vez de direto. Quarto nessa expressão nada tem que ver com a palavra quarto. Preposto — Forma contraída e alterada de propósito.

N o Brasil também se emprega a forma repimponado. histórias. R o d a — Além de outros significados tem também o de divertimento e o de reunião para palestra. do verbo assentar que também se diz e escreve sentar. brigar. A Santa Luzia milagrosa dos cinco olhos já foi felizmente abolida das escolas. N ã o é exata a grafia resingar. Por analogia com instrumentos de cutelaria marca Roâgers. Senta — Assenta. e m vista dos cinco buracos que há na parte esférica desse instrumento e. Santa Luzia — E' o nome colegial e muito vulgar da palmatória. S a m b a — Jongo. a cruz está em riba da torre. tendo e m vista ruano. E' palavra castelhana. por analogia com a marca de cerveja de alta fermentação. R o g e — Excelente. Por analogia. o menino trepou em riba da mesa. como carneiros. matar. E m qualquer sentido não é brasileirismo. o que gosta de envolver-se e m discussões. galinhas. ocorrendo ainda a influência assimiladora ou atrativa do s inicial da palavra. ágil. ao m e s m o tempo. por supor-se que com pancadas se conseguirá do aprendiz preguiçoso melhor aplicação e aproveitamento. Sastifeito — Satisfeito. ótimo. V. de súbito. pessoa esperta. Assim aconselhava à antiga e e m versos o oratoriano Manuel Bernardes. R e p i m p a d o — Refestelado. o certo é rezingar. cujas garrafas traziam antigamente as rolhas adaptadas ou atadas a barbante. dança popular. . sítio e m que se trata de criação de animais. ao contrário do que já vi afirmado. ruão. Notas finais). Rezingar — Implicar. muito ordinários. Por extensão. inesperadamente. por causa dos canivetes desta marca. Riba (em) — E m cima. Serviço — E' também a designação popular de qualquer ação ilícita. E como já não há escravidão no Brasil só deve figurar hoje nos museus. menino travesso. de Cândido de Figueiredo. com pastagem onde se faz criação de gado e se cuida ao m e s m o tempo da indústria de lacticínios. (V. danças. como furtar. apressadamente. não registrada no Novo Dicionário. isto é. por analogia c o m outras palavras e m que entra o grupo st. cheio de si. Rezinguento é o indivíduo teimoso. Serelepe — 0 m e s m o que caxinguelê. R u a n a — Besta ou mula de côr mesclada. habitação roceira. etc. Origem africana. Metátese. Retiro — Sítio. ou marca barbante. o que alterca.238 VOCABULÁRIO R e l a m p o (de) — Quer dizer de relâmpago. etc. g. implicante. teimar. Pana dar ideia da m á qualidade de u m objeto qualquer dizem que é marca anzol. resmungar.

onde se fabrica aguardente e m larga escala). N o Diciorúrio Brasileiro. «solancar de sol a sol». Vai ao fogo até ferver. Temperada — Bebida preparada com água. Cândido de Figueiredo («Novo Dic. socar. . já de certa idade. caninha. num repente. Tapado — Estúpido.o suf. 94 leio: «e sobre o qual se bota o catiçal com vela». Tocar viagem — iniciar viagem.VOCABULÁRIO 239 Solancar — Trabalhar excessivamente. ocorrência fonética raríssima com o grupo st. abrideira. fazendo solanco e define esta palavra como sendo o m e s m o que solavanco. mata-bicho (extensivo a outra qualquer bebida alcoólica). João e José vão dar u m a sula no milho. pág. c o m o significado de mover-se. branca. e acredito que a palavra provém de sol -j. viajar. T a m o s — Por estamos. Sumiticaria (ou somiticaria) é ação própria da pessoa sumítica. T á — Corruptela de está. Sodade — Saudade. visto como parece provir o verbo da palavra sula que. E m tá por stá cai o s inicial. cravo. indica o ato de manejarem alternadamente duas pessoas outras tantas mãos de gral para atirar a trituração de qualquer género. Sodade se aproxima mais do étimo soledade. trabalhar excessivamente o dia inteiro). por aférese. de Macedo Soares. couro ou seja — trabalhar debaixo de pancadas de lonca. isto é. pinga. de onde sulancar. gengibre. vinda de sob-lonca. O vulgo também diz Crisótomo por Crisóstomo. Já ouvi popularmente a forma saãaãe. suportar com longanimidade algum incómodo ou labor excessivo. e extensivamente trabalhar? Também se supõe preferível essa etimologia à de solancar. Cf. (artigo bidé). branquinha. solanca (cf. Outra se verifica na palavra castiçal que o vulgo diz catiçal. Cf. g. SÔ moço — Senhor moço. Não concordo com os que propõem ser Soãoma a origem dessa palavra. segundo Rohan. anco — solancar.a edição) registra solancar. por dissimilação. Trabalhar todo o dia « de sol a sol». também num abrir e fechar de olhos. como verbo provincial minhoto. E' muito apreciada dos roceiros e é servida especialmente nas festas ou pagodes da roça. de súbito. canela e erva-doce. Seria melhor sulancar. Os poetas.» — 4. V. Tia — Mulher de côr preta. o empregam stá por está. Súbito (num) — Subitamente. Sumítica — Sovina. V. aguardente. etc. avaro. Parati (nome de u m a cidade fluminense. açúcar mascavo. mulher solteirona. V e m a propósito dar alguns nomes vulgares da aguardente ou cachaça: giribita. Penso que solanco adquiriu sentido extensivo no Brasil. Etimologia: — de suma ou soma. Tá.

g. dizem os filhos com referência aos pais. v. Não é brasileirismo. sob formas diferentes. Tremer como luz ãe candeia que está para morrer — tremer de medo. Trinta por sessenta — Penalidade militar — rebaixamento de posto e prisão. e muito popularizada. no Brasil. que horas são? — O relógio está zangado. «os meus velhos». m a s é peculiar a outras línguas. imitando nos movimentos dos membros os últimos bruxuleios da caadeia. Zunindo (sair) — Fugir ou sair velozmente. «zuniu u m a pedra na cabeça do caboclinho que saiu zunindo ». Mariquinhas. . Trabuzana — Tempestade. por levado da breca. Virada da noite — Depois da meia-noite. Velhos — Progenitores. Zangar — desconsertar. Zunir também é usado no sentido de arremessar.240 VOCABULÁRIO Tocador — (ãe tropa) — Tropeiro. Vezada (duma) — De u m a só vez. H á também a nossa frase popular — levado da trabuzana. g. U è — Interjeição muito de uso dos africanos. — « D. V. não dá horas. não».

les choses sur leurs pieds. prestam-se perfeitamente para fins pedagógicos. Perna Fina. Barriga Grande e Boca Pequena. por outras de redação própria. A lenda das miosótis. Muitos dos nossos contos. que traduziu para o francês o método de contar histórias às crianças de Miss Bryant. O pulo do gato. que os americanos com o seu espírito inovador elevaram o hábito de contar histórias e m classe à altura de u m princípio. E acrescenta: não se creia que o fato de contar diariamente u m a história às crian16 (tontos Populares Brasileiros . fazendo comentários. hga-se grande importância às narrativas orais. sauf pour mettre. O Bicho Ponãê. assinalando as locuções proverbiais. O monge da Serra da Saudade.NOTAS FINAIS Os leitores devem ter muito e m vista que procuramos imitar nos contos deste volume a linguagem popular. viciosas ou não. sans rien modifier. 0 vadvém. etc. A lição do Pajem. Nos Estados Unidos e já agora nos países europeus e na Argentina e outros da América do Sul. Dos Grimm escreve (Contes Choisis) Frederico Baudry: « Autant que possible ils ont écrit purement et simplement oe qu'ils avaient entendu. devendo os alunos notar e substituir as expressões populares. c o m m e on dit. observado ainda pelos modernos folcloristas. Procuramos seguir o processo dos irmãos Grimm. fornecendo dessarte elementos documentários aos que a estudam. Elisée Escande. A lição ão filho. Os mesmos temas podem servir também para composições orais e escritas nas lições de « Língua Pátria ». Diz Mine. como os que se intitulam — Quem tem asa para que quer casa?. Os onze pauzinhos. et en poussant le scrupule jusqu'à conserver le patois dans lequel chaque histoire leur était racontée ». redigindo livremente. Atrás ãe mim virá quem bom me fará. Os professores primários poderão aproveitar os respectivos assuntos para as narrativas que devem fazer aos alunos nas aulas de educação moral.

logo que as mesmas histórias lhe caiam sob os olhos impressas. Baudry que diz: « L a mythologie. et ils croient que cela porte malhe ur ». Sébillot (Le Folk-lore. de que tanto carecemos e que não raro procuramos adquirir por meios nem sempre os mais eficazes e recomendáveis. n'est 1'ceuvre ni des sages ni des poetes.° O n pourrait formuler aussi cette loi des trans- . se interessarão ainda mais pelos novos pormenores que se lhes deparem. 13): Quem conta história de dia. e m classe. convém ter e m vista o que informa P. os alunos das classes mais adiantadas terão naturalmente e m conta que não se lhes referiu tudo e. depois de várias e sábias considerações: « E m face destas alusões tão gerais e frequentes descobrimos imediatamente u m a outra excelente para não recusar às crianças essa parte do folclore. A narração oral será forçosamente condensada. Não precisamos insistir com outras razões para aconselharmos este livro às atenções dos dignos educadores da infância nacional. abandonner 1'élément inyíhologique et feèrique du folk-lore serait pour la culture intellectuelle une perte analogue à ce que représenterait pour des Anglo-Saxons. Assim é que havemos de criar o espírito de nacionalidade. les vieilles gens ont une répugnance marquée à dire des contes pendant le jour. Eles sabem perfeitamente quais as vantagens que as narrativas ou os contos populares lhes proporcionarão na educação de seus alunos.o Chez tous les peuples de m è m e capacite mentale. A propósito da fórmula a que nos referimos no texto (pág.242 NOTAS FINAIS ças. as impeça de tomarem gosto pela leitura pessoal. et de 1'esprit enfantin des h o m m e s primitifs. au moins dans ses parties essentielles. — § 2. allant à l'occasion jusquaux contes de nourrice ». pág. Miss Bryant diz no seu citado livro « L'liistoire racontée n'est plus reléguée dans la sphère d u kinãergarten. A propósito das lendas convém conhecer a teoria de Raoul Rosières: « O n peut formuler avec certitude la loi des origines: —. A o contrário. Seria privá-las de u m elemento de que terão necessidade mais tarde para apreciar totalmente a literatura». rimagination procede pareiltlement et arrive par fois à des créations légendaires semblantes. à divers degrés: en fait. § l. cria rabo de cutia. cujos espíritos e m flor não se podem desinteressar da poesia e da tradição. partout oú Ies enfants sont encore des enfants ». 1'abandon de la Bible ou de Shakespeare. 16): « E n Irlande.. mais du peuple. E tem depois este eloquente conceito que os professores patrícios devem ter sempre e m vista e que reproduzimos da tradução francesa: « E n ce qui concerne les enfants. » E a tradutora cita M. E mais adiante exprime-se c o m toda segurança. elle est admise pour toutes les classes.

p. 0 hérisson do conto de Basset acaba por dar a morte ao chacal. Paris.a parte).NOTAS FINAIS 243 positions: A mesure que la renommée d'un héros faiblit. coincidindo com o que v e m e m nosso texto.a parte. há nos Novos Contos Bárbaros. 87. pág. 30). de Basset.. Lusitana. la legende qui avait été formée pour 1'honorer le quitte et s'attache à un hèros plus fameux. 2. e ainda mais o seria se substituíssemos as por elas: « U m a vez o marido mandou preparar u m a partida de linguiças e colocou-as no fumeiro ». 216) há elementos muito significativos dele. l. Mas o queijo de nosso conto foi dividido e m quatro partes. no conto Le Hérisson et le Chacal u m episódio que se relaciona com o nosso. 20. a que já nos referimos (n.°. 77. Muitos outros da m e s m a coletânea são a confirmação do que observamos e comprovam a procedência africana de muitos dos contos populares que correm e m nosso país. 0 pulo ão gato (pág. E o coelho da nossa historieta não faz outra coisa com a onça. E m vez de queijo fala-se e m quatro marmitas de manteiga. isto é. se não é esta a sua fonte originária. publicado por Fernán Caballero (Cuadros. Às anotações que fizemos a este conto devemos acrescentar que entre as superstições de Turquel (Portugal) figura também. 43) — Do caso do queijo vem u m a variante na coletânea de Basset.o U y a aussi la loi des adaptations: Toute legende qui change de milieu se transforme pour s'adapter aux conditions ethnographiques et sociales de ce nouveau milieu» (Congrès International des traditions populaires. Casamento ãa raposa (pág. 0 Bicho Ponde (pág. Carlanco é u m monstro pavoroso e fantástico. 70). a de ser de b o m augúrio para noivos chover-lhes no dia das bodas (Rer. — § 3. n. de procedência africana. disseminando-se pelos países europeus. Ciclo ão coelho e a onça (pág. 37) — A respeito das astúcias ou recursos atribuídos a animais dos contos populares ou fábulas. U m a cabra deixa . 13). 0 mau marido (pág. nas competições dos mais fracos com os mais fortes. e m que se observa u m a concordância espontaneamente popular.. 1900. v. l. 54) — Este conto é u m a variante. 51) — Neste conto v e m a seguinte frase. colhido e m Harakta. N o conto El Carlanco.°.

O Colherão deste conto era a alcunha popular de certo presidente de antiga província nossa. diz: «Abrid. 58. As cabrinhas disseram que não podiam fazê-lo porque o Carlanco estava ali. pág. 62). le chacal et Vhomme: « La fable.» As cabrinhas. Z. no conto A Vingança do Padre (Casos Reais.. Tal variante foi publicada pelo escritor Carmo Gama. na qual e m vez de bicho Ponde. Vai a cabra e m busca de u m a abelha. Ainda recentemente a Revista da Semana (Rio) publicou o conto Frei Colherão. Neste conto está implícita a crença popular de que não se deve proferir o nome do diabo. dizendo com u m a voz terrível: « Abrid. » As cabrinhas abriram e o monstro entrou. Ciclo do diabo (pág. Martin. bateu à porta. abrid! Que soy la Madre que os pari. vient de la croyance qu'il ne faut pas nommer les betes fauves sous peine de les voir venir. onde êle não podia chegar. não atenderam. croyance qui date de la plus haute antiquité » (E. Mas as cabrinhas subiram para o sobrado. P. correlaciona-se com o tema do « Chapelinho Vermelho ». . como veremos da seguinte nota de Basset ao conto Le lion. 0 Carlanco. a quem havia certo dia beneficiado. segundo opinou exatamente Joaquim Ribeiro. nota a u m dos contos do Ciclo ão diabo). Outro dia volta o Carlanco e. Chegou então a m ã e que diz aquelas palavras convencionais para que as filhas lhe abram. 59). hijitas. o quibundo (lobo africano) é que persegue a menina. que soy el Carlanco Que montes y penas arranco. que tinham ordem da m ã e para não abrirem a ninguém. que é a reprodução estilizada de u m a anedota popular também aproveitada pelo escritor brasileiro Rev. porque este logo aparece.. Pede-lhe socorro e Carlanco é sacrificado aos ataques da abelha reconhecida. convém ainda notar que e m Minas corre u m a variante. Muitos escritores têm se servido de contos e anedotas tradicionais como assunto de peças de cunho literário (V.244 NOTAS FINAIS as filhinhas e m casa e vai lenhar. Este conto. de Júlio Dantas. Observations sur le roman de Penart. de A. A m e s m a crença também está adstrita a certos animais. págs. de Juiz de Fora. no « Jornal do Comércio ». há anos. 28). imitando a voz da cabra. aproveitando a ausência.

vai dar u m a embigaãa. 129) pertence a u m conto oriental e corre e m diversos países europeus. Mas no que todos concordam. no . a qual vai para o meio do círculo. «o batuque consiste também n u m círculo formado pelos dançadores. com a significação especializada de certa composição musical de cunho popular. que. Brasileiro. indo para o meio u m preto ou preta. 21) referindo-se a sobrevivências religiosas bantus notadas por Artur Ramos. Benedito. introduziram os cacumbis (o auto dos Congos). Até se lhe tem atribuído u m a origem lendária. etc. o «louvar» a S. atualmente modificada. 23. por exemplo. depois de executar vários passos. E' sabido que as danças e outras manifestações míticas dos pretos africanos obedeciam a u m ritual de caráter religioso. as festas do boi. A respeito de samba que figura e m nosso vocabulário convém transcrever do Dic. indicando documentadamente as respectivas etimologias desses termos africanos: Samba 0 étimo de «samba» não está ainda completamente estudado. substituindo-o ». na coletânea italiana de L. Edison Carneiro e m seu ótimo livro « Negros Bantus » (pág. de Eça de Queirós (Contos. a «capoeira de Angola». a que c h a m a m semba. Recentemente (1946) publicamos no «Jornal do Comércio». ainda. autos. de caboclo ». d'Avignone. Vem. já estudados por pesquisadores vários e — conforme o resultado das minhas pesquisas pessoais — o samba. Nel mondo delle favole. assim se manifesta: « O s negros bantus. tão ricos de sugestões para o estudioso da etnografia religiosa afro-brasileira ». na Bahia. tanto assim que raro é o léxico que o consigna de modo positivo. pág. as festas do Imperador do Divino. danças de conjunto. através de u m conto e m que a palavra « samba» aparece decomposta e m « s a m » (pague) e «ba» (recebe). até então monopólio dos negros gege-nagôs — criando os atuais «candomblés. os seguintes comentários sobre as palavras samba e macumba. de Macedo Soares. o «batuque». na pessoa que escolhe. A sua influência se estendeu. 87: « E m Loanda e outros presídios e distritos. lutas e festas populares comuns a todo o recôncavo e m e s m o à zona litorânea do Estado. pág. à própria religião. é que «samba» seja a denominação de u m a dança de negros. Vemos pois que o nome que indica o ato da embigaãa deu a denominação à dança. que. do Rio.NOTAS FINAIS 245 0 assunto do conto 0 Tesouro. contudo.

134) e rezar (pág. Todavia — coisa curiosa! — na preciosa obra de Frei Bernardo Cannecattim — « A Língua Bunda ou Angolense ». Vem-nos. cuja significação tem-se ampliado rapidamente no domínio da música popular brasileira. os cadeados ». C o m o vimos. significava primitivamente dança e u m instrumento de música. por extensão. indivíduo cujas condições fisiológicas ou estado psíquico o eximem de receber fluidos maus. mensário paulista « Hoje». e. na Bahia. quando etnogràficamente estudados. Assim nada temos que modificar. termo que. Antes M. v e m registrada no «Dicionário Abreviado da Língua Conguesa». Filho havia escrito (apud Renato Mendonça — « A Influência Africana no Português do Brasil». no Brasil. o samba enquadra-se entre as sob revi vencias religiosas dos bantus. então. pois.. III): «Macumba». como fomos o primeiro a divulgar. pág. 146). mais se ampliou e acentuadamente se complicou ao contafo com formas de cultura religiosa desenvolvida e m nosso ambiente. como «macumba». o cadeado. à mente o que se diz da pessoa que tem o «corpo fechado». e m face da palavra « m a c u m b a » . invocar (pág.246 NOTAS FINAIS Brasil. consoante as argutas observações de Edison Carneiro. desde que se note que a palavra «samba» (grafada «sánba»). 102 — encontra-se registrado esse termo. cujos vestígios se nos afiguram ainda reconhecíveis. A conclusão resultante do que deixamos exposto documentadamente é que o termo samba (sánba) é m e s m o de procedência africana e se prende a práticas religiosas. que não o de instrumento músico. Estamos. Escreveu algures Artur Ramos (V. pág. c o m outro significado. tornando-se dessarte inacessível aos efeitos do m a u olhado. tendo-se e m vista o significado primitivo e o étimo da palavra de que se trata. g. Daí pode explicar-se facilmente sua origem africana. julho de 1928): « N o Brasil segundo o lugar. que saibamos. anexo à célebre obra de Frei Bernardo de Cannecattim « A Língua Bunda ou Angolense ». do feitiço e de outro qualquer malefício que o possa atingir ou lhe ser propinado. oração (pág. por ora. acerca de nossa anterior convicção. M. isto é. « C o Macumba ». a «macumba». Instrumento músico de negros».: « 0 Ricumba». da inveja. 163). A o passo que o indivíduo de «corpo aberto » é suscetível de . com os seguintes significados: de adorar (pág. v. Chama-se « candomblé ». Macumba Como ise sabe esta palavra é de incontestável origem africana. adquire várias expressões. 118).. no tocante à procedência africana de « samba ». como religião e ritual mágico. passou a designar a própria cerimónia religiosa dos negros».

ditongando-se a terminação e-o. entretanto. que. Seja como fôr. se este nosso modesto trabalho não visasse especialmente a simples vulgarização da nossa literatura oral de contos tradicionais. designa gelo pendente das árvores. Outros mais competentes fá-lo-ão com mestria e erudição. formada de fusis (Novo Dic). pois esta. o plural angolense Co m a c u m b a quer dizer cadeados. que. N ã o raro quem se julgava e m tais condições procurava. Os contos maravilhosos deste volume foram também apanhados da tradição oral. ou correntes. conforme o que referimos no prólogo desta obra. Muitas outras notas etnográficas e filológicas poderíamos registrar aqui. é frase muito mais empregada do que «tocar macumba». corrente.a ed. após certos estudos. ou dos penhascos (Op. como se sabe. tendo-se e m vista que « fazer macumba». se inclui a de abrir e fechar o corpo de qualquer que se julgue atingido por certos males ou que se deseje tornar a eles invulnerável? O assunto. o que condiz com o significado de Caramelo.. usando de certa prática ritual mágica ou do atualmente chamado baixo espiritismo. e. lhe fechassem o corpo. . A alteração fonética de carambelo para garambéu seria a permuta da gutural inicial C para G e a queda do l intervocálico. a verdadeira etimologia do designativo dado à religião ou ritual mágico. Novo Dic. e m éu. como brasileirismo. cit. só excepcionalmente aparece n u m a quadrinha. Não será m a c u m b a (cadeados). supomos. carambelo e carambina. é o m e s m o que Caramelo e significa Cararnbina. que o topónimo mineiro Garambéu seja alteração de Carambelo. os antigos « canjerês » (ou macumbas).NOTAS FINAIS 247 ser vítima de todos esses males. sendo. A região e m que está situada SanfAna do Garambéu é frigidíssima e sujeita a fortes geadas. a fim de que os feiticeiros o livrassem daqueles efeitos maléficos e. que entre as práticas da feitiçaria. talvez por influenciação do exorcismo religioso. segundo informa Cândido de Figueiredo. pelo menos no Estado do Rio e na Mata Mineira. por meio da magia. todavia. e cadeado se define como fechadura móvel.). que saibamos. Garambéu Não obstante o que ficou consignado no Vocabulário. merece ser devidamente examinado por especialistas e m estudos dessa espécie. por extensão. 4. de que temos conhecimento.

Sobre a dádiva de objetos ou de dons prodigiosos. Dinis. sem perigo de qualquer incómodo. acrescento. e da viuvez.. invece una miracolosa proprietà: la donna que lo indossava. A Pandaréu. A piedosa rainha leva no regaço dinheiro para pagar aos obreiros. Ela restitui sem abrir a porta. 128) — Nas fábulas e contos populares de todos os países figura a dádiva. Cera una volta. nosso livro Nihil Novi. Dão-Ihe u m a vela. A noite batemlhe à porta.. autor do livro acima citado. publicada e m italiano. Foi. supondo a amante devorada pela fera. o objeto dado é u m véu: « Quel velo. Encontra-se com o marido. conforme u m a versão recolhida por D. por Nella di Santafior. por haver encontrado tinto de sangue e despedaçado pelas garras de u m a leoa o véu de Tisbe que Píramo. 20. Maria da Conceição P. el-rei D. De fora pedem-lhe o que lhe haviam dado na véspera. . que lhe pergunta o que levava. C o m o se sabe o véu sugere o mistério e é o símbolo da virgindade. as botas e a vela (pág.248 NOTAS FINAIS N o que tem por título O veadinho encantado fala-se e m alimentos que se transformaram e m flores que Genoveva destinava aos pobres. apereceram lindas rosas («Memórias das Rainhas de Portugal». se suicidou. Ceres lhe concedeu o dom de comer tudo quanto quisesse. convém ter-se e m vista o caso mitológico da boceta de Pandora. na narrativa / / mostro Turchino. 132-133). Segundo La Figanière. 125). e que e m resumo é o seguinte: Andava-se e m obras no convento de Santa Clara. Benedito (V. U m a mulher sai pela madrugada. tamb é m o há no de S. há u m caso semelhante no lendário de Santa Rosa de Viterbo e. Episódio semelhante figura no lendário da santa rainha Isabel. como agradecimento a u m a boa ação ou castigo a atos maléficos praticados. respondeu que eram rosas. e eis que encontra u m a procissão. a história de Genoveva de Brabante. O espelho.o. si innamorava instantaneamente di tutti gli uomini che le si paravano dinanzi ». Corre u m a variante deste conto e m Portugal. Acompanha-a. E e m vez de dinheiro. Lus. por exemplo.) e cf. N a coletânea. se branco. A mulher volta para casa e vê que a vela se transformara n u m a canela ãe defunto. A moça e a vela (pág. de Portugal. abrindo o regaço. De repente desaparece o préstito. Para encobrir o que fazia. se negro. pág.. de objetos prodigiosos ou mágicos. 308). la sua condizione. qualunque fosse la sua età. che in apparenza era un velo come tutti gli altri. Este conto é lá narrado como verídico. aveva. Dias (Rev. T e m o fato u m a expressão tradicionalmente simbólica.

Quanto à antífrase. como se sabe. com a variante: Três foi a conta que Deus fêz. Exemplos: a vara de Moisés que o Senhor tornou prodigiosa e a força de Sansão. Também. pág. O velho que virou rapaz (pág. Os cavalos mágicos (pág. v. Pode-se até organizar u m ciclo temático. que. tiraram àquela personagem o privilégio de invencibilidade. Cf. o número três dos inimigos da alma ». e m Portugal. C o m o m e s m o enredo Frei Luís de Sousa (História de S. 263: «Não pudera dormir nem abrir o Breviário.NOTAS FINAIS 249 O Velho Testamento oferece casos abundantes de dádivas ou concessões a que nos referimos. voz de Deus. com pequenas variantes. como prémio ou castigo. A lavadeira assombrada (pág. E ainda: acender uma vela a Deus e outra ao âiabo. 132) — E' popular este conto. sob o tema desta frase proverbial e a sua antífrase — Três âiabo fêz. Contos Tradicionais do Algarve. e Príncipe Porco. Basta pensar-se na lendária fonte ãe Juventa e no motivo principal do maravilhoso do Fausto. o que é muito c o m u m observar-se no do- . tal qual. cujo enredo é o mesmo. 55-58. 167) — Há numerosas variantes deste conto. 133) desenvolve-se. se nos depara a que se intitula La Messe des Morts. carne e diabo. com os títulos — Príncipe Leitão. Trindade. não se extrema das demais senão e m ligeiros elementos de adaptação. II). de Ataíde Oliveira. cf. que. Estes provérbios talvez se expliquem pelo número das pessoas da S. voz do povo. 0 príncipe encantado (pág. para exorcismar o diabo dos ataques. Três Deus fêz. A variante brasileira.) dá u m a lenda. no Eusébio Macário. que também são três. II. Branco. como tentara. mundo.: Voz ão povo. S. é conhecido e m Portugal com a denominação de 0 Príncipe Urso (V. cujo tema não raro se intercala de episódios tirados de outras histórias também populares. e no dos inimigos da alma. 0 conto Três Deus fêz (pág. três. resumidas n u m a só verdadeira. é essa m e s m a historieta. como diz Camilo C. são. de Marie-René Le Fur. que colhemos e m Minas. Domingos. e m o livro de lendas bretãs. 153) — Este conto que corre também na tradição. cujo segredo estava nos longos cabelos. parte 2. págs. a respeito. que u m a vez cortados. de Goethe. voz do diabo.a. 20 e seg. 138) — 0 assunto é muito encontradiço e m contos populares de diferentes países.

Esse episódio v e m mais ou menos nas Mil e uma noites e na Bíblia. 99 da coleção Stead). A. outra há que se intitula a Bela. Les Contes Populaires (pág. A Bela e a Fera é também u m a adaptação do conto da Grécia antiga — História de Psique (Book for the Baiirns. do conto tradicional A Bela e a Fera. 173) — E m o n. e m 1923. A variante que publicamos. publicado. se é que não surgiram através da história grega de Psique. apareceu impresso. n. e m Minas.. foram por esta visivelmente influenciados.. também. Coelho aparece com o titulo de A Bela Menina. E' o episódio de Aefte.4 Bela. E m nenhuma das versões lusas ou nacionais que conhecíamos até há pouco figurava o episódio referente à condição que a Fera estabeleceu ao mercador. Outra identificação interessante é a de que se existe u m a versão com o título de A Bela e a Fera. que e m alguns pontos difere das versões fixadas por outros folcloristas de aquém e de além mar. N a de A. 1920) publiquei u m a variante. O tema relaciona-se com o dos antigos torneios dos jogos cavalheirescos. que tem popularizado tantos outros e decerto pertence a u m a antiguidade tradicional remotíssima. segundo informa A. 91) o notável folclorista francês Gédéon Huet. se e m troca lhe trouxesse a criatura que primeiro avistasse ao chegar a casa. m a s que condiz perfeitamente c o m o que v e m no conto A Bela e a Fera (segundo a versão que colhemos) e no Colhereiro. e m 1806. e a Fera (pág. 63). Port. C o m o acabamos de ver. todavia é u m a das mais interessantes. identifiquei (em 1920) parte do conto da Bela e a Fera.250 NOTAS FINAIS mínio das narrativas folclóricas. Outros contos. por isso. de deixá-lo levar u m a rosa. como Vénus. como o da Gata Borralheira. Este conto que recolhemos da tradição oral.° 6 da Revista de Língua Portuguesa (Rio. Sempre u m a referência muito clara à beleza da personagem. que recolhi e m Minas. . Coelho. de que as nossas cavalhadas mantêm os principais característicos. deusa da beleza. o que concorda com a particularidade de ser Psique considerada. que se submeteu às conveniências de u m a adaptação. na coleção de M. de Adolfo Coelho. não foi senão cotn inesperado gosto que vi fazer a m e s m a identificação e m seu livro. Mas figura no conto O Colhereiro (Contos Pop. com os dos Amores ãe Psique. Menina. c o m m e l ' a bien établi E. Coelho. e. H á entre ambos similitudes que não deixam nenhuma dúvida a esse respeito. Beaumont c o m o título La Belle et la Bete. . C o m este m e s m o título figura também na coletânea de Perrault (1628-1703). que escreveu o seguinte: « E n réalité la Psyché d'Apuiée est.

Perrault. c o m m e dans le récit latin. De fato. voara. Ficou êle admirado ao ver a minúscula sandália e fêz procurar por todo o reino o pé que nela serviria. o que aliás também acontece com quase todas as nossas narrativas maravilhosas. H á outras conjeturas. na conhecidíssima coletânea de Ch. « Gaia Borralheira » Este conto.NOTAS FINAIS 251 Cosquin. apelidando u m génio diabólico. qu'on trouve souvent reunis. estando por isso destinada ao mais alto e auspicioso futuro. Disseminou-se por muitos países e nomeadamente pela Península Ibérica. E assim aconteceu. deixando-a cair no jardim do rei e m Mênfis. com o título « Cendriilon». u m a águia veio ler ao lugar. mais qui peuvent aussi se présenter c o m m e des contes distincts. onde sua beleza era geralmente admirada. membro da Academia Francesa. la combinaison de deux thèmes. passando à América e ao Brasil. la Jeitne filie et la Sorcière. Servira perfeitamente no da jovem. nascido e m França e m 1628 e falecido e m 1703. quando por acaso o soberano ali passava. Segundo afirmam alguns etnógrafos. notável literato. casou-se com ela o rei e fê-la rainha do Egito. le premier peut s'intituler la Belle et la Bete. reproduzindo-se e m muitas variantes. A o episódio principal do tema reuniram-se os de outros contos ou narrativas. O conto estendeu-se logo por vasta área geográfica. onde Ródope deixara suas roupas e apoderando-se de u m a de suas sandálias. o tema de « Cendriilon » ter-se-ia originado de u m relato do célebre historiador Estrabão. natural da Trácia. e parece exato. Certa vez e m que se banhava c o m outras jovens. cham a d a Bódope. » Calicote Esse nome que aparece no conto Os Sete Sapatos da Princesa. Estrabão narra que u m a jovem. algo semelhante ao nosso Saci. como o Príncipe encantaão e parte da Bela e a Fera. e m vista de certos episódios entremeados . le second. fora vendida como escrava. no Egito. que deve ser considerado internacional. conto e m que há elementos correlacionados a outros das MU e uma noites. apareceu pela primeira vez. Deslumbrado c o m a beleza de Ródope. onde corre com os títulos «Gata Borralheira» e «Maria Borralheira ». deve ser de origem árabe ou persa.

por exemplo.° volume. para salvar a Borralheira da ira e vingança da madrasta. Adolfo Coelho («Contos da Avozinha» ou «Contos Nacionais») publica a história da Vaquinha. N a m e s m a versão aparece também e m conjunto a história da vaquinha que se deixou sacrificar. pág. não tendo filhos. na parte superior. de Ataíde Oliveira. o que faz pensar e m outros de u m ciclo de temas aproximados. v e m esta quadrinha: Meu santo San António. ainda que fosse do tamanho de u m grão (ou bago) de milho. e branca na inferior. tanto assim que nos Cantares Galegos. . José dei-Rei. com o título História ão Grão ãe Milho — no livro de Adolfo Coelho — «Contos Populares Portugueses ». confundindo-se a forma francesa vair (Petite Pantoufle de vair) com verre. N a versão que recolhemos e m Minas. fala-se e m sapatinho de cristal. Anqiio tamano tena D'un gran de milho. Burgain. o tradutor do conto e m português. Senhora. diz J. 80 — e outra. 226. A. O equívoco. o que. pediu a Deus (ou a N. município de Rio Novo. n u m a das belas composições líricas dessa grande poetisa. 147. J. 0 tema é também conhecido na Galícia. Sílvio Romero registra o conto com aquela simbiose. Grão de Milho Há variantes deste conto. ou a Santo António) que lhe desse um. cujo pêlo é côr de pombo. encontra-se no 1. de Rosália de Castro. que nos foi narrado por um senhor de S. Depois ouvimo-lo do violeiro Elias. zona da Mata Mineira.252 \OTAS PINAIS no conto da «Borralheira». m a s não expressamente o da Gata Borralheira. Dáime un homino. pág. E m Portugal correm variantes com acentuadas diferenciações da que publicamos no texto desta obra. o que não v e m no tema francês e e m alguns outros. nas « Mil e u m a noites » e e m alguns de diversas procedências. sendo atendida. dos Contos Tradicionais ão Algarve. à pág. entre roxo e violeta. « Deve-se ter e m vista que vair é u m a espécie de esquilo. e m Goiana. intitulada 0 Bago de Milho. apesar do citado equívoco. « 0 sapato perdido pela Borralheira não era de vidro (de cristal) como se diz e m algumas versões. U m a de tais variantes vem. é a forma mais popular. E' o que os franceses c h a m a m petit gris (felpa de esquilo) muito e m uso outrora para guarnição de sapatos. e m 1909. Essas versões se desenvolvem e m torno do tema: u m a mulher que. encontrados. ocorreu m e s m o na França.

Central do Brasil. há tempos. antes de chegarão rancho do Marmelo. na E. com aplicação fescenina. mais extensa : nem na terra. ou por outra muito do domínio da crendice popular (Rev. e. e m suas impressões de viagem a Minas (1816). m e foi oferecido faltavam justamente as páginas e m que deviam estar aqueles versos. T a m b é m na lenda há referências ao aparecimento de cruzes a certas horas da noite. reproduzindo-se u m a descrição feita por certo padre Faro. China seco é expressão que corre e m todo o Brasil para indicar u m a entidade misteriosa. aludindo àquele local. e jamais pude depois avistá-lo completo. E' proverbial o dizer: hás ãe ver o china seco. Pedro). local nas proximidades da cidade de Juiz de Fora. e a tais cruzes já se refere Saint-Hilaire. Pedro (pág. fala-se no aparecimento fantástico de u m china seco. nem no inferno. v. Sinto não poder comparar os textos popularizados com o original que vem no livro Segredos do Coração. Cantigas de Adormecer A última quadra da cantiga — 0 sonho ãa criancinha coligi-a ultimamente. . como que significando: hás de ver o diabo ou algum ente fantástico. Lusitana. de que trata Lino de Assunção. às vezes. e talvez o fosse. 0 Morro da Boiada antigamente era coito de salteadores e bandidos. A mãe de 8. Pedro é tradicional. 0 fato de pessoas jogarem com o diabo e que vem referido no conto do Ciclo de S. frase que devia ser logicamente. outrora Morro dos Arrependidos ou da Boa Vista. 20. que o publicara na segunda metade do século passado. Conheci esse livro e m minha infância. pois do exemplar que.NOTAS FINAIS 253 N a lenda do Morro da Boiada. nem no céu. 195) — Neste conto reproduz-se o modismo popular — nem na terra. onde atualmente existe o túnel do mesmo nome. nem no céu (como a m ã e de S. do poeta Vilas-Boas. F. que foi à Guiné. que cada qual descreve a seu modo.° — 134). China é u m ídolo africano. e m sua obra O Catolicismo da Corte ao Sertão.

Lavava os paninhos De seu bento filho. Que o fio que corta Dá golpes sem dor.): Nossa Senhora.. talvez.° 18. 6 recolhi a seguinte variante. 207. E a Virgem sorrindo Assim lhe dizia: Não chores. nome que procede do fato de a Virgem Nossa Senhora ter feito nascer aquela água no tempo e m que esteve e m Belém (Frei Pantaleão de Aveiro. E m palhas deitado. José estendia. do 8. . Dada a corruptela fio (por frio) o povo teria usado da forma «faca». Não chores... amor. pág.. E a neve caía.254 NOTAS FINAIS Da canção n. 333. é tradicional. Os filhos dos ricos E m berço dourado E vós. (V. A pocinha de Belém. Itinerário ãa Terna Santa. nosso livro já cit. considerando.° verso (V. E o menino chorava C o m o frio que tinha. menino. A senhora lavava. Deve ser aquele Poço de Santa Maria. Nihil Novi. 138 e seg. da qual se fala nos versinhos da canção n. pág. e m que vemos que a palavra fio deve ser u m a corruptela da palavra frio. À beira do rio. de Coimbra). pág. da ed. m e u menino. O menino chorava-. tratar-se de u m a abreviatura da expressão fio de faca. no presente livro).

« E estamos certos. « JOÃO RIBEIRO » Da Crónica Literária. « Q u e mais se poderia desejar? «Certamente u m a só coisa. desde Sílvio Romero. aproveitado estudo e discreta erudição. do « Jornal do Brasil». pelo conhecimento de outros trabalhos do nosso colega. João Ribeiro: « Dedicado « folclorista » é o nosso confrade Lindolfo Gomes. « O s «Contos Populares» de Lindolfo Gomes terão vida longa. e é que esse livro seja apenas o primeiro de u m a série e m que todos os aspectos da vida do nosso «nosce te ipsum». Alexina Magalhães e poucos outros têm já publicado contribuições de inestimável preço e m livros que hão de ser cada vez mais queridos e buscados pela curiosidade perene e crescente dos interesses da nossa cultura popular. G. indiferentes ou desanimados. Alberto Faria. A par de ilustração essa obra popular indica e m seu organizador a competência. « O s nossos folcloristas. Pereira da Costa. de que essa esperança não será vã. venham a lume por m ã o tão carinhosa e hábil como as de Lindolfo Gomes. lindamente impresso. « Lindolfo Gomes é o nosso mais completo folclorista. do « Imparcial». . com abundantes notas instrutivas.Contos Populares e Cantigas de Adormecer Opinião do eminente filólogo Dr. vem aparelhado este volume. m a s andam dispersos. tão variados e interessantes. que nos « Contos Populares e Cantigas de Adormecer ». « JOÃO RIBEIRO » Da Crónica literária. não são numerosos. criou u m dos mais formosos livros que temos nesse ramo da ciência popular. Notemos ainda o precioso vocabulário regional e as observações finais. do Rio de Janeiro. Francisco). Melo Morais. neste sentido de ter a dupla erudição linguística e filológica. Eugênio Romero (da região do S. a vocação e a simpatia pelo nosso folclore. « C o m grande carinho. Barroso.

e com Notas finais. Lindolfo Gomes. fonte em que muitos espíritos irão beber inspirações e temperar o estro.256 CONTOS POPULARES Palavras do consagrado folclorista Dr. explicando os significados dos principais modismos. plebeísmos e brasileirismos empregados no texto. encerra-o com um Vocabulário. « Já. as suas metamorfoses. sem ãúvida. foi arquivar com todo o escrúpulo científico. na simpliciãaãe ingénua ãas concepções anónimas. Colheu-as évretamente da tradição oral e dividiu-as em Contos Populares e Cantigas de Adormecer. « GOMES RIBEIRO» Da « A União ». com os seus encantamentos. mas atinente. Joaquim Ribeiro: « Os Contos Populares e Cantigas de Adormecer constituem já u m livro clássico. São muito característicos. Parecer de um critico autorizado: «O trabalho do ilustre e paciente investigador. locuções populares. ãe 20-2-919. « 0 livro do sr. no género. imprescindível aos estudiosos. diário do Rio de Janeiro. aí. Dispõe-nas em ciclos. « Dando ao livro um caráter erudito e mesmo pedagógico. inverossímil. compara-as com outras congéneres de outras localiãaães. sobre este aspecto é o mestre mais completo do nosso folclore. « Lindolfo Gomes reúne e m si as qualidades de perspicaz coligidor e as de eruditíssimo investigador. e a moralidade que sempre têm em vista. portanto. com um fino sabor de lenda e magníficos dotes de imaginação. Lindolfo Gomes é. sr. refletindo eclèticamente as doutrinas de Sílvio Romero e João Ribeiro. Lindolfo Gomes não só é u m folclorista de valor como filólogo de renome. ilustra-as com referências e produções literárias que nelas se originaram. os contos maravilhosos. e. E' uma das formas de literatura mais popular e mais espalhada nas aldeias. um ãos nutis notáveis no género. como simples arquivista. com anotações filológicas e gramaticais. « 0 autor não se limita a amontoar proãuções. ^££^ . divisamos as três escolas de nosso folclore: a de Sílvio Romero (ou de colecionadores) a de João Ribeiro (ou dos investigadores) e a de Lindolfo Gomes (ou escola eclética). repertório erudito ão que há ãe mais popular em literatura. « JOAQUIM RIBEIRO » Do livro A Tradição e as Lendas. as produções anónimas de Minas Gerais. como se tem feito na Europa.