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FACULDADES OSWALDO CRUZ Curso: Ciências Contábeis Disciplina: filosofia, Ética Geral e Profissional Profa.

Elaine Constantino Santos _________________________________________________________________________ 1. FILOSOFIA

A filosofia tem-nos ensinado que termos sugestivos como beleza, justiça, amor, etc. não admitem definição. Quando muito, podemos apenas oferecer descrições a respeito, na esperança de que daí emirja alguma noção sobre o seu significado. Por certo, entre os termos indefiníveis, está a própria palavra ‘filosofia’. Porém, para fins didáticos, podemos conceituar filosofia como a busca racional dos princípios e causas das coisas, busca essa realizada de maneira sistemática, metódica e profunda, num esforço contínuo de generalização e síntese. Talvez a definição se aclare através do entendimento dos sentidos do termo ‘filosofia’. A palavra A palavra filosofia é grega. É composta por duas outras: philo e sophia. Philo deriva-se de philia, que significa amizade, amor fraterno, respeito entre os iguais. Sophia quer dizer sabedoria e dela vem a palavra sophos, sábio. A origem da palavra é incerta, mas, acredita-se que o primeiro homem a usar essa palavra foi Pitágoras, em cerca de 600 a.C. Ele referiu-se a pessoas chamadas sábias (no grego sófoi), embora negando que qualquer ser humano fosse realmente sábio, ao dizer: “nenhum homem é sábio, mas somente Deus, e as pessoas que têm interesse pelas coisas divinas são buscadoras da sabedoria”, isto é, são os filósofos. De maneira similar, Platão declarou: “Fedro, o nome sábio me parece demasiado grande, adequado somente para a divindade. Mas o amigo da sabedoria (o filósofo), ou outro parecido, ir-lhes-ia melhor, e não destoaria tanto”. (Fedro, 278 d). Sócrates empregava a idéia de buscadores da sabedoria (amigos da sabedoria), em contraposição àqueles que pretendem possuir a sabedoria, mas que, na realidade, não são

sábios, como os sofistas (segundo a sua estimativa). Na antigüidade, o vocábulo filosofia referia-se tanto à atividade do filósofo como também aos sistemas segundo os quais essa atividade tinha lugar. O apego à sabedoria leva o homem a buscá-la, e é, então, que aflora o conhecimento sobre os princípios fundamentais em qualquer campo do conhecimento humano. Portanto, há uma filosofia específica para cada ramo do conhecimento, embora a filosofia tradicional encerre seis sistemas a serem estudados mais adiante. Outras tentativas de definição Entre as muitas possibilidades de definir a filosofia, selecionamos algumas das mais representativas: 1. A definição da filosofia é decidida dentro da filosofia somente através de seus conceitos e meios. Ela é, por assim dizer, o primeiro dos seus próprios problemas. Cada sistema tradicional da filosofia fornece uma definição na tentativa de explicar a própria filosofia, através de olhos restritivos e especializados. Assim, surgiram os sistemas da gnosiologia, da ética, da estética, etc., cada qual com uma definição especializada. 2. Platão concebia a filosofia como aquela atividade que leva ao descobrimento da realidade, ou verdade absoluta, obtida através da dialética. 3. Aristóteles acreditava que a filosofia começa com um senso de admiração e respeito, diante da vastidão e grandiosidade das coisas. E a atividade filosófica sonda o conhecimento em geral. Portanto, a totalidade do conhecimento humano, bem como os modos de se chegar a esse conhecimento, é que constituem a filosofia. Mas isso envolve apenas a filosofia geral. Para ele, a filosofia fundamental seria a teologia, que aborda os princípios e as causas últimas, o que inclui a idéia da divindade, que é o principal de todos os princípios, a causa de todas as causas. 4. As definições restritas e clássicas ocorrem em pensadores de menor envergadura, como Hegesias, os quais pensam que a filosofia é aquela atividade mental que nos ensina como buscar os prazeres e evitar a dor. 5. Para o neoplatonismo, a filosofia, na realidade, seria uma religião, mediante a qual o indivíduo aprende como buscar e obter a união com o divino. 6. Durante a idade Média, para a maioria dos filósofos, a filosofia seria a grande serva da

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teologia, uma disciplina utilizada pela Igreja, mediante a qual os dogmas e as crenças religiosas são examinados, compreendidos e melhor defendidos. Para outros, porém. A filosofia é uma intrusa, que somente ameaça a fé biblicamente alicerçada. Para Tomás de Aquino, a filosofia teria sido uma provisão reacional de Deus, para que pudéssemos compreender melhor as realidades religiosas, capaz de abordar todas as coisas, exceto a explicação dos verdadeiros e mais profundos mistérios. Para ele, onde o raciocínio filosófico cessa a fé completa o curso a ser percorrido. Ele também pensava que a filosofia é aquele processo de raciocínio que examina o universo e obtém, acerca do mesmo, uma interpretação abrangente e plena. 7. Para Descartes, a filosofia é a elucidação da verdade final, através do método da dúvida e do conseqüente reexame. Só poderiam ser aceitas como verdadeiras aquelas coisas sobre as quais não restam mais dúvidas; e mediante a teoria da coerência da verdade, outras proposições são então estabelecidas. 8. Os positivistas concebem a filosofia como aquela atividade que procura definir um sentido prático e fornecer uma devida ordem ao método científico, e não aquela fútil tentativa de chegar à verdade final e a um conhecimento certo. 9. Os pragmatistas pensam na filosofia como aquela atividade que descobre, dentro da experiência humana, aquilo que é prático, benéfico e útil, e não apenas o que é teoricamente certo, verdadeiro e perfeito. 2. ORIGEM A filosofia originou-se da inquietação gerada pela curiosidade humana em compreender e questionar os valores e as interpretações comumente aceitas sobre a sua própria realidade. As interpretações comumente aceitas pelo homem constituem inicialmente o embasamento de todo o conhecimento. Estas interpretações foram adquiridas, enriquecidas e repassadas de geração em geração. Ocorreram inicialmente através da observação dos fenômenos naturais e sofreram influência das relações humanas estabelecidas até a formação da sociedade, isto em conformidade com os padrões de comportamento éticos ou morais tidos como aceitáveis em determinada época por um determinado grupo ou determinada relação humana. A partir da filosofia surge a Ciência, pois o Homem reorganiza as inquietações que assolam o campo das idéias e utiliza-se de

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experimentos para interagir com a sua própria realidade. Assim a partir da inquietação, o homem através de instrumentos e procedimentos equaciona o campo das hipóteses e exercita a razão. São organizados os padrões de pensamentos que formulam as diversas teorias agregadas ao conhecimento humano. Contudo, o conhecimento científico por sua própria natureza, torna-se suscetível às descobertas de novas ferramentas ou instrumentos que aprimoraram o campo da sua observação e manipulação, o que em última análise, implica tanto na ampliação, quanto no questionamento de tais conhecimentos. Nesse contexto, a filosofia surge como "a mãe de todas as ciências". Os historiadores da filosofia dizem que ela possui data e local de nascimento: final do século VII e início do século VI antes de Cristo, nas colônias gregas da Ásia Menor (particularmente as que formavam uma região denominada Jônia), na cidade de Mileto. E o primeiro filósofo foi Tales de Mileto. Além de possuir data e local de nascimento e de possuir seu primeiro autor, a filosofia também possui um conteúdo preciso ao nascer: é uma cosmologia. A palavra cosmologia é composta de duas outras: cosmos, que significa mundo ordenado e organizado, e logia, que vem da palavra logos, que significa pensamento racional, discurso racional, conhecimento. Assim, a filosofia nasce como conhecimento racional da ordem do mundo ou da natureza. Apesar da segurança desses dados, existe um problema que, durante séculos, vem ocupando os historiadores da filosofia: o de saber se a filosofia - que é um fato especificamente grego - nasceu por si mesma ou dependeu de contribuições da sabedoria oriental (egípcios, assírios, persas, caldeus, babilônios) e da sabedoria de civilizações que antecederam à grega, na região que, antes de ser a Grécia ou a Hélade, abrigara as civilizações de Creta, Minos, Tirento e Micenas. Durante muito tempo, considerou-se que a filosofia nascera por transformações que os gregos operaram na sabedoria oriental (egípcia, persa, caldéia e babilônica). Assim, filósofos como Platão e Aristóteles afirmavam a origem oriental da filosofia. Os gregos, diziam eles, povo comerciante e navegante, descobriram, através das viagens, a agrimensura dos egípcios (usada para medir as terras, após as cheias do Nilo), a astrologia dos caldeus e dos babilônios (usada para prever grandes guerras, subida e queda de reis, catástrofes como peste, fome, furacões), as genealogias dos persas (usadas para dar

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continuidade às linhagens e dinastias dos governantes), os mistérios religiosos orientais referentes aos rituais de purificação da alma (para livrá-la da reencarnação contínua e garantir-lhe o descanso eterno), etc. A filosofia teria nascido pelas transformações que os gregos impuseram a esses conhecimentos. Dessa forma, da agrimensura, os gregos fizeram nascer duas ciências: a aritmética e a geometria; da astrologia, fizeram surgir também duas ciências: a astronomia e a meteorologia; das genealogias, fizeram surgir mais uma outra ciência: a história; dos mistérios religiosos de purificação da alma, fizeram surgir às teorias filosóficas sobre a natureza e o destino da alma humana. Todos esses conhecimentos teriam propiciado o aparecimento da filosofia, isto é, da cosmologia, de sorte que a filosofia só teria podido nascer graças ao saber oriental. Essa idéia de uma filiação oriental da filosofia foi muito defendida oito séculos depois de seu nascimento (durante os séculos II e III depois de Cristo), no período do Império Romano. Tal idéia era defendida pelos pensadores judaicos, como Filo de Alexandria, e os Padres da Igreja, como Eusébio de Cesaréia e Clemente de Alexandria. Eles defendiam a origem oriental da filosofia grega em função de ter se tornado, em toda a Antigüidade clássica, e para os poderosos da época, os romanos, a forma superior ou mais elevada do pensamento e da moral. Assim, os judeus, visavam valorizar seu pensamento, desejando que a filosofia tivesse uma origem oriental, dizendo que o pensamento de filósofos importantes, como Platão, tinha surgido no Egito, onde se originara o pensamento de Moisés, de modo que havia uma ligação entre a filosofia grega e a Bíblia. Os Padres da Igreja, por sua vez, queriam mostrar que os ensinamentos de Jesus eram elevados e perfeitos, não eram superstição, nem primitivos e incultos, e por isso mostravam que os filósofos gregos estavam filiados a correntes de pensamento místico e oriental e, dessa maneira, estariam próximos do cristianismo, que é uma religião oriental. No entanto, nem todos aceitaram a tese chamada “orientalista”, e muitos, sobretudo no século XIX da nossa era, passaram a falar na filosofia como sendo o “milagre grego”. Ao usar a expressão “milagre grego” queriam dizer:  que a filosofia grega foi um acontecimento espontâneo, único e sem par, como

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não só porque as viagens colocaram os gregos em contato com os conhecimentos produzidos por outros povos (sobretudo os egípcios. desde o final do século XIX da nossa era e durante o século XX. nem antes e nem depois deles. bem como nas culturas que precederam a grega. Com relação aos mitos: quando comparamos os mitos orientais. isto é. sem nenhum outro semelhante a eles. Assim. formas de parentesco e formas de organização tribal dos gregos foram resultado de contatos profundos com as culturas mais avançadas do Oriente e com a herança deixada pelas culturas que antecederam a grega. como foram os únicos a criar as ciências e a dar às artes uma elevação que nenhum outro povo conseguiu. tanto a redução da filosofia à sua origem oriental. se nos afastarmos dos exageros da idéia de um “milagre grego”. depois. encontraram nos mitos e nas religiões dos povos orientais.  que os gregos foram um povo excepcional. música. literários e artísticos corrigiram os exageros das duas teses. micênicos. os estudos recentes mostraram que mitos. que até pareceria terem criado sua própria cultura a partir de si mesmos. nem antes e nem depois deles. sem que nada anterior a preparasse. percebe-se que. Retirados os exageros do orientalismo. minóicos e os que aparecem nos poetas Homero e Hesíodo. a filosofia tem dívidas com a sabedoria dos orientais. mas também porque os dois maiores formadores da cultura grega antiga. que. persas. lingüísticos. e por isso somente eles poderiam ter sido capazes de criar a filosofia. dança. instrumentos musicais. arqueológicos. quanto o “milagre grego”. Dessas mudanças. podemos mencionar quatro que nos darão uma idéia da originalidade grega: 1. Esses mesmos estudos apontaram. cretenses.  que a filosofia surgiu inesperada e espantosamente na Grécia. assírios e caldeus). No entanto. babilônios. porém. De fato. os gregos imprimiram mudanças de qualidade tão profundas no que receberam do Oriente e das culturas precedentes. poesia. seria transformada racionalmente pelos filósofos. de fato. podemos perceber o que havia de verdadeiro nessa tese. formas de habitação. cultos religiosos. os poetas Homero e Hesíodo. os elementos para elaborar a mitologia grega. estudos históricos. vemos que eles retiraram os 6 .é próprio de um milagre. nas regiões onde ela se implantou. utensílios domésticos e de trabalho. que.

as leis. Os gregos criaram a política porque separaram o poder político e duas outras formas tradicionais de autoridade: a do chefe de família e a do sacerdote ou mago. transformaram em astronomia (conhecimento racional da natureza e do movimento dos astros) aquilo que eram práticas de adivinhação e previsão do futuro. humanizaram os deuses. dos homens. contar e calcular. Assim. Os gregos inventaram a política (palavra que vem de polis. transformaram em matemática (aritmética. normas e leis de 7 . os gregos inventaram a idéia ocidental da razão como um pensamento sistemático que segue regras. 3. deram racionalidade a narrativas sobre as origens das coisas. por que não inventaram a política propriamente dita? Nas sociedades orientais e não-gregas. num conhecimento racional. porque estabeleceram instituições públicas (tribunais. entre autoridade políticomilitar e autoridade religiosa) e. separação entre autoridade do chefe da família e autoridade pública. Mas. Com relação aos conhecimentos: os gregos transformaram em ciência (isto é. das instituições humanas (como o trabalho. que. a saúde e a doença) aquilo que eram práticas de grupos religiosos secretos para a cura misteriosa das doenças. sem consultar a ninguém e sem justificar suas decisões para ninguém. mas inventaram também a política. divinizaram os homens. a moral). harmonia) o que eram expedientes práticos para medir. em nome de divindades. o poder e o governo eram exercidos como autoridade absoluta da vontade pessoal e arbitrária de um só homem ou de um pequeno grupo de homens que decidiam sobre tudo. 4. Com relação ao pensamento: diante da herança recebida. em grego. assembléias. 2. transformaram em medicina (conhecimento racional sobre o corpo humano. Com relação à organização social e política: os gregos não inventaram apenas a ciência ou a filosofia. abstrato e universal) aquilo que eram elementos de uma sabedoria prática para o uso direto na vida. Todas as sociedades anteriores a eles conheciam e praticavam a autoridade e o governo. significa cidade organizada por leis e instituições) porque instituíram práticas pelas quais as decisões eram tomadas a partir de discussões e debates públicos e eram adotadas ou revogadas por voto em assembléias públicas.aspectos apavorantes e monstruosos dos deuses e do início do mundo. sobretudo porque criaram a idéia da lei e da justiça como expressões da vontade coletiva pública e não como imposição da vontade de um só ou de um grupo. E assim por diante. geometria.

Para os gregos. mito é um discurso pronunciado ou proferido para ouvintes que recebem como verdadeira a narrativa. Há três maneiras pelas quais o mito narra a origem do mundo e de tudo o que nele existe: 1. do bem e do mal. etc. mythos. das raças. da saúde e da doença. Assim.é sagrada porque vem de uma revelação divina. dos animais. narrar. os heróis (filhos de um deus com uma 8 . etc.valor universal (isto é. O mito é. baseada. incontestável e inquestionável. Tal problema pode ser assim formulado: a filosofia nasceu realizando uma transformação gradual sobre os mitos gregos ou nasceu por uma ruptura radical com os mitos? O que é um mito? Um mito é uma narrativa sobre a origem de alguma coisa (origem dos astros. Os mitos são narrados pelo poeta-rapsodo e acredita-se que o poeta é um escolhido dos deuses.). Essas relações geram os demais deuses: os titãs (seres semi-humanos e semidivinos). servindo apenas para alimentar a fantasia. Mito e Filosofia Há um outro problema que também tem ocupado muito os estudiosos.) e que não é dotada de base científica. Sua palavra o mito . mesmo que ele pareça menor do que ela. dos instrumentos de trabalho. do fogo. na autoridade e confiabilidade da pessoa do narrador. E essa autoridade vem do fato de que ele ou testemunhou diretamente o que está narrando ou recebeu a narrativa de quem testemunhou os acontecimentos narrados. dos homens. nomear. das plantas. por exemplo. da água. das guerras. anunciar. o Sol sempre será maior do que a Terra. do poder. em qualquer tempo e lugar 2 + 2 serão sempre 4. o triângulo sempre terá três lados. Encontrando o pai e a mãe das coisas e dos seres. da morte. é uma narrativa feita em público. A palavra mito vem do grego. dos ventos. falar alguma coisa para outros) e do verbo mytheo (conversar. e deriva de dois verbos: do verbo mytheyo (contar. que lhe mostram os acontecimentos passados e permitem que ele veja a origem de todos os seres e de todas as coisas para que possa transmiti-la aos ouvintes. pois. designar). da Terra. válidas em todos os tempos e lugares. portanto. tudo o que existe decorre de relações sexuais entre forças divinas pessoais. contar. porque confiam naquele que narra. isto é.

os seres divinos. quer dizer: geração. por outros seres. o mito narra ou uma guerra entre as forças divinas. Teogonia é uma palavra composta de gonia e theós. quando reinava um grande otimismo sobre os poderes científicos e capacidades técnicas do homem. que são seus pais ou antepassados. Como os mitos sobre a origem do mundo são genealogias. 2. portanto. que a filosofia ao nascer. Dizia-se. os animais. belo-feio. bom-mau. significa: as coisas divinas. nascimento a partir da concepção sexual e do parto. a cosmogonia é a narrativa sobre o nascimento e a organização do mundo. Encontrando uma rivalidade ou uma aliança entre os deuses que tenha repercussão no mundo. A teogonia é. isto é.humana ou de uma deusa com um humano). as qualidades. fazer nascer e crescer) e do substantivo genos (nascimento. certo-errado. a partir de forças geradoras (pai e mãe) divinas. então. em grego. que. assim. no entanto. descendência. os deuses. que a Filosofia nasceu por uma ruptura radical com os mitos. justoinjusto. uma explicação racional sobre a origem do mundo e sobre as causas das transformações e repetições das coisas nesse aspecto a questão suscitada é: ela nasce de uma transformação gradual dos mitos ou de uma ruptura radical com os mitos? Continua ou rompe com a cosmogonia e a teogonia? Para esta questão foram dadas duas respostas possíveis. claro-escuro. a partir de seus pais e antepassados. como quente-frio. 3. ou uma aliança entre elas que traga conseqüências no mundo dos homens. os metais. Nesse caso. das qualidades. A narração da origem é. A segunda resposta foi dada a partir de meados do século XX. espécie). Gonia. seco-úmido. gênese. gerar. Encontrando as recompensas ou castigos que os deuses dão a quem os obedece ou desobedece. Assim. das coisas. etc. as plantas. sendo a primeira explicação científica da realidade produzida pelo Ocidente. a narrativa da origem dos deuses. A palavra gonia vem de duas palavras gregas: do verbo gennao (engendrar. narrativa da geração dos seres. diz-se que são cosmogonias e teogonias. portanto. A primeira delas foi dada nos fins do século XIX e começo do século XX. Vimos. Cosmos quer dizer mundo ordenado e organizado. quando os estudos dos antropólogos e dos historiadores mostraram a importância dos mitos na organização social e cultural das sociedades e como os mitos estão profundamente entranhados nos 9 . os humanos. uma genealogia. é uma cosmologia. gênero.

além disso. às técnicas e aos 10 . transformando-as numa outra coisa. • a invenção da moeda. Condições históricas para o surgimento da Filosofia Podemos apontar como principais condições históricas para o surgimento da Filosofia na Grécia: • as viagens marítimas. a exigir uma explicação sobre sua origem. uma capacidade de abstração nova. mas uma troca abstrata. • o surgimento da vida urbana. e diminuindo o prestígio das famílias da aristocracia proprietária de terras. acreditavam em seus mitos e que a Filosofia nasceu. uma troca feita pelo cálculo do valor semelhante das coisas diferentes. • a invenção do calendário. revelando. titãs e heróis eram. com isso. as horas do dia. do interior dos próprios mitos. vagarosa e gradualmente. que precisava encontrar pontos de poder e de prestígio para suplantar o velho poderio da aristocracia de terras e de sangue (as linhagens constituídas pelas famílias). os fatos importantes que se repetem. dando desenvolvimento a técnicas de fabricação e de troca. e que as regiões dos mares que os mitos diziam habitados por monstros e seres fabulosos não possuíam nem monstros nem seres fabulosos. foi reformulando e racionalizando as narrativas míticas. Por isso. como uma racionalização deles. assim. que permitiu uma forma de troca que não se realiza através das coisas concretas ou dos objetos concretos trocados por semelhança. com predomínio do comércio e do artesanato. No entanto. As viagens produziram o desencantamento ou a desmistificação do mundo. percebendo as contradições e limitações dos mitos. que passou. na verdade. numa explicação inteiramente nova e diferente. que é uma forma de calcular o tempo segundo as estações do ano. por quem e para quem os mitos foram criados. habitados por outros seres humanos.modos de pensar e de sentir de uma sociedade. que permitiram aos gregos descobrir que os locais que os mitos diziam habitados por deuses. uma nova capacidade de abstração e de generalização. dizia-se que os gregos. explicação que o mito já não podia oferecer. portanto. o surgimento de uma classe de comerciantes ricos. revelando. fez com que se procurasse o prestígio pelo patrocínio e estímulo às artes. Atualmente consideram-se as duas respostas exageradas e afirma-se que a Filosofia. ou uma percepção do tempo como algo natural e não como um poder divino incompreensível. como qualquer outro povo.

valorizando o humano. persuadi-los a tomar uma decisão proposta por ele. discussão e deliberação humana. A política. O surgimento de um espaço público. os hieróglifos dos egípcios ou os ideogramas dos chineses -. como a do calendário e a da moeda. 11 . A idéia de um pensamento que todos podem compreender e discutir. de tal modo que surge o discurso político como a palavra humana compartilhada. 3. O aspecto legislado e regulado da cidade . isto é. discuti-la com os outros. que introduz três aspectos novos e decisivos para o nascimento da filosofia: 1. surge a palavra como direito de cada cidadão de emitir em público sua opinião. • a invenção da política. ensinados. diferentemente de outras escritas . como decisão racional e exposição dos motivos ou das razões para fazer ou não fazer alguma coisa. que. como diálogo. • a invenção da escrita alfabética.polis . favorecendo um ambiente onde a filosofia poderia surgir. que faz aparecer um novo tipo de palavra ou de discurso. a discussão.servirá de modelo para a filosofia propor o aspecto legislado. 4. a persuasão e a decisão racional.como. por exemplo. A política estimula um pensamento e um discurso que procuram ser públicos.conhecimentos. valorizou o pensamento racional e criou condições para que surgisse o discurso ou a palavra filosófica. comunicados e discutidos. revela o crescimento da capacidade de abstração e de generalização. que todos podem comunicar e transmitir. é fundamental para a filosofia. A idéia da lei como expressão da vontade de uma coletividade humana que decide por si mesma o que é melhor para si e como ela definirá suas relações internas. supõe que não se represente uma imagem da coisa que está sendo dita. o pensamento. regulado e ordenado do mundo como um mundo racional. uma vez que a escrita alfabética ou fonética. mas a idéia dela. o que dela se pensa e se transcreve. transmitidos. 2.

desejamos. Quando pergunto "que horas são?" ou "que dia é hoje?". que o passado pode ser lembrado ou esquecido. dizemos que essa pessoa "é legal". me dê a resposta exata. dizendo. Vejamos um pouco mais de perto o que dizemos em nosso cotidiano. quando os ânimos estão exaltados. afirmamos. referindo-me a alguém que diz ou pensa alguma coisa que julgo impossível ou improvável. negamos. Avaliamos coisas e pessoas. situações. cada um diga o que viu e vamos nos entender". pessoas. São Paulo. que o que já passou é diferente de agora e o que virá também há de ser diferente deste momento. pode ser medido em horas e dias. por exemplo. ou "ela ficou maluca". quando aprovamos uma pessoa. querendo acalmar a briga. várias crenças não questionadas por nós. 2000. uma simples pergunta contém.TEXTO COMPLEMENTAR Convite à filosofia De Marilena Chaui Ed. ou "que dia é hoje?". tenho igualmente muitas crenças silenciosas: 12 . e o futuro. Fazemos perguntas como "que horas são?". minha expectativa é a de que alguém. aceitamos ou recusamos coisas. silenciosamente. Dizemos frases como "ele está sonhando". que ele passa. Numa disputa. Fazemos afirmações como "onde há fumaça. Freqüentemente. tendo um relógio ou um calendário. Também é comum ouvirmos os pais e amigos dizerem que somos muito subjetivos quando o assunto é o namorado ou a namorada. Ática. o que ela diz. há fogo". Assim. 1) Para que filosofia? As evidências do cotidiano Em nossa vida cotidiana. como ela age. Quando digo "ele está sonhando". ou "não saia na chuva para não se resfriar". (p. Em que acredito quando faço a pergunta e aceito a resposta? Acredito que o tempo existe. e alguém. pode dizer: "Vamos ser objetivos. desejado ou temido. um dos contendores pode gritar ao outro: "Mentiroso! Eu estava lá e não foi isso o que aconteceu". "esta casa é mais bonita do que a outra" e "Maria está mais jovem do que Glorinha".

Acredito. que. ora tais como nos aparecem. a chuva causa o resfriado como efeito). portanto. Na briga.acredito que sonhar é diferente de estar acordado. mas nem por isso diremos que estamos sonhando ou que ficamos malucos. Julgamos. ainda que não gostemos das mesmas coisas. no sonho. e também que o sonho se relaciona com o irreal. enquanto a vigília se relaciona com o que existe realmente. julgados pela qualidade (bonito. largura. os fatos. dissermos que "o sol é maior do que o vemos". menor). que a realidade é feita de causalidades. acreditamos que as coisas. assim. No exemplo do sol. alto. por exemplo. sei diferenciar realidade de ilusão. quando alguém chama o outro de mentiroso porque não estaria dizendo 13 . feio. o impossível e o improvável se apresentam como possível e provável. as situações. ruim) ou pela quantidade (mais. também estamos acreditando que nossa percepção alcança as coisas de modos diferentes. Quando alguém diz "onde há fumaça. ou que essa coisa é causa de alguma outra (o fogo causa a fumaça como efeito. há fogo" ou "não saia na chuva para não se resfriar". portanto. assim. posso percebê-la e conhecê-la tal como é. ora tais como são em si mesmas. os fatos podem ser comparados e avaliados. Acreditamos. também se nota que acreditamos que nossa visão pode ver as coisas diferentemente do que elas são. possui qualidades (perto. ao acreditar que sei distinguir razão de loucura. altura). de nossas condições de visibilidade ou da localização e do movimento dos objetos. dependendo da distância. que a realidade existe fora de mim. que onde houver uma coisa certamente houve uma causa para ela. A frase "ela ficou maluca" contém essas mesmas crenças e mais uma: a de que sabemos diferenciar razão de loucura e maluca é a pessoa que inventa uma realidade existente só para ela. ou que Maria está mais jovem do que Glorinha. que podemos conhecê-las e usá-las em nossa vida. controlar para o uso de nossa vida. Quando avaliamos que uma casa é mais bonita do que a outra. bom. as pessoas. Se. que a qualidade e a quantidade existem. Acreditamos. que as coisas. as situações se encadeiam em relações causais que podemos conhecer e. acredito também que a razão se refere a uma realidade que é a mesma para todos. Assim. até mesmo. menos. baixo) e quantidades. longe. podendo ser medido (comprimento. que o espaço existe. maior. afirma silenciosamente muitas crenças: acredita que existem relações de causa e efeito entre as coisas.

enquanto a segunda faz exatamente o contrário. também estamos cheios de crenças silenciosas.os fatos exatamente como aconteceram. esse alguém "perde" a objetividade. até brigando por isso. mas diferentes porque somente na mentira há a decisão de falsear. Na briga. Assim. ditada por sentimentos variados (amor. da loucura e do erro porque o sonhador. desejo). ou quando sente um grande afeto por outra pessoa. podem ser morais ou imorais. não estamos apenas nos referindo ao conhecimento ou desconhecimento da realidade. pessoal. manifestamos silenciosamente a crença de que somos seres dotados de vontade e que dela depende dizer a verdade ou a mentira. como ainda acreditamos que são 14 . mas também ao caráter da pessoa. ver novelas. acreditamos que a objetividade é uma atitude imparcial que alcança as coisas tais como são verdadeiramente. está presente a nossa crença de que há diferença entre verdade e mentira. distorcendo a realidade. No entanto. Com isso. nem sempre avaliamos a mentira como alguma coisa ruim: não gostamos tanto de ler romances. não seria uma mentira "no duro". ódio. medo. consideramos a mentira diferente do sonho. ficando "muito subjetivo". "pra valer". uma preferência. uma opinião. A primeira diz as coisas tais como são. Com isso. porém. considerando o primeiro uma ilusão ou um engano involuntários e a segunda uma decisão voluntária. Ao mesmo tempo. pois cremos que a vontade é livre para o bem ou para o mal. Acreditamos. quando uma terceira pessoa pede às outras duas para que sejam "objetivas" ou quando falamos dos namorados como sendo "muito subjetivos". acreditamos que o erro e a mentira são falsidades. Quando distinguimos entre verdade e mentira e distinguimos mentiras inaceitáveis de mentiras aceitáveis. enquanto a subjetividade é uma atitude parcial. a mentira é aceitável. Acreditamos que quando alguém quer defender muito intensamente um ponto de vista. Ao diferenciarmos erro de mentira. não só acreditamos que a objetividade e a subjetividade existem. o louco e o que erra se iludem involuntariamente. que as pessoas. à sua moral. portanto. enquanto o mentiroso decide voluntariamente deformar a realidade e os fatos. porque possuem vontade. assistir a filmes? E não são mentira? É que também acreditamos que quando alguém nos avisa que está mentindo.

há fogo”. Ao dizermos que alguém "é legal" porque tem os mesmos gostos. normas. suas afirmações por outras: “Onde há fumaça. da aceitação tácita de evidências que nunca questionamos porque nos parecem naturais. na diferença entre realidade e sonho ou loucura. nossa vida cotidiana é toda feita de crenças silenciosas. amigos. da sociedade. no tempo. religiosos e artísticos. Em vez de "que horas são?" ou "que dia é hoje?". na qualidade. “Esta casa é mais bonita do que a outra”. A atitude filosófica Imaginemos. escola. as mesmas idéias. acreditando que a vida com as outras pessoas .diferentes e que a primeira não deforma a realidade. silenciosamente. enquanto a segunda. Achando óbvio que todos os seres humanos seguem regras e normas de conduta. respeita ou despreza as mesmas coisas que nós e tem atitudes. por: O que é a objetividade? O que é a subjetividade? . política . ou “eles são muito subjetivos”. óbvias. hábitos e costumes muito parecidos com os nossos. sociedade. ou “não saia na chuva para não ficar resfriado”. do bem e do mal. Cremos no espaço. voluntária ou involuntariamente. agora. entre verdade e mentira. finalidades só podem ser estabelecidos por seres conscientes e dotados de raciocínio. a deforma. políticos.nos faz semelhantes ou diferentes em decorrência de normas e valores morais. na verdade. Como se pode notar. vivem na companhia de seus semelhantes e procuram distanciar-se dos diferentes dos quais discordam e com os quais entram em conflito. possuem valores morais. religiosos. regras de conduta. perguntasse: O que é o tempo? Em vez de dizer "está sonhando" ou "ficou maluca". alguém que tomasse uma decisão muito estranha e começasse a fazer perguntas inesperadas. por: O que é “mais”? O que é “menos”? O que é o belo? 15 . por: O que é causa? O que é efeito? . na existência da vontade. na realidade.família. pois regras. estamos. da liberdade. cremos também na objetividade e na diferença entre ela e a subjetividade. acreditamos que somos seres sociais. artísticos. finalidades de vida. políticos. na quantidade. valores. quisesse saber: O que é o sonho? A loucura? A razão? Se essa pessoa fosse substituindo sucessivamente suas perguntas. da moral. trabalho. “seja objetivo”. morais e racionais.

as situações. em vez de falar na subjetividade dos namorados. um dizer não ao senso comum. teria passado a indagar o que são as crenças e os sentimentos que alimentam. os mesmos gostos. os comportamentos. os comportamentos de nossa existência cotidiana. as mesmas preferências e os mesmos valores. silenciosamente. preferisse analisar: O que é um valor? O que é um valor moral? O que é um valor artístico? O que é a moral? O que é a vontade? O que é a liberdade? Alguém que tomasse essa decisão. 16 . as situações. uma interrogação sobre o que são as coisas. os fatos. em vez de afirmar que gosta de alguém porque possui as mesmas idéias. uma primeira resposta à pergunta “O que é filosofia?” poderia ser: A decisão de não aceitar como óbvias e evidentes as coisas.Em vez de gritar “mentiroso!”. certa vez. resolvesse investigar: O que é a quantidade? O que é a qualidade? E se. estaria interrogando a si mesmo. A segunda característica da atitude filosófica é positiva. os valores. E ele respondeu: “Para não darmos nossa aceitação imediata às coisas. estaria tomando distância da vida cotidiana e de si mesmo. isto é. por que sentimos o que sentimos e o que são nossas crenças e nossos sentimentos. desejando conhecer por que cremos no que cremos. A atitude crítica A primeira característica da atitude filosófica é negativa. aos pré-conceitos. jamais aceitá-los sem antes havê-los investigado e compreendido. Assim. aos pré-juízos. Ao tomar essa distância. as idéias. a um filósofo: “Para que filosofia?”. os valores. sem maiores considerações”. os fatos. aos fatos e às idéias da experiência cotidiana. em lugar de discorrer tranqüilamente sobre “maior” e “menor” ou “claro” e “escuro”. questionasse: O que é a verdade? O que é o falso? O que é o erro? O que é a mentira? Quando existe verdade e por quê? Quando existe ilusão e por quê? Se. ao estabelecido. nossa existência. Perguntaram. isto é. as idéias. ao que “todo mundo diz e pensa”. inquirisse: O que é o amor? O que é o desejo? O que são os sentimentos? Se. Esse alguém estaria começando a adotar o que chamamos de atitude filosófica.

Ou seja. professores. É também uma interrogação sobre o porquê disso tudo e de nós. A face negativa e a face positiva da atitude filosófica constituem o que chamamos de atitude crítica e pensamento crítico. afirmava que a primeira e fundamental verdade filosófica é dizer: “Sei que nada sei”. o filósofo Aristóteles. acreditava que a filosofia começa com o espanto. a filosofia não serve para nada. Para que filosofia? Ora. por exemplo. conhecida dos estudantes de filosofia: “A filosofia é uma ciência com a qual e sem a qual o mundo permanece tal e qual”. “Para que filosofia?”. para que matemática ou física? Para que geografia ou geologia? Para que história ou sociologia? Para que biologia ou psicologia? Para que astronomia ou química? Para que pintura. já o discípulo de Platão. o filósofo grego Platão. com a cabeça no mundo da lua. amigos. O que é? Por que é? Como é? Essas são as indagações fundamentais da atitude filosófica. por que é e como é o mundo. Por isso. por que somos e como somos. portanto. essa pergunta costuma receber uma resposta irônica. Essa pergunta. música ou dança? Mas todo mundo acha muito natural perguntar: Para que filosofia? Em geral. e uma interrogação sobre como tudo isso é assim e não de outra maneira. se costuma chamar de “filósofo” alguém sempre distraído. muitos fazem uma outra pergunta: afinal.nós mesmos. Não vemos nem ouvimos ninguém perguntar. a filosofia começa com a admiração. Para o discípulo de Sócrates. Admiração e espanto significam: tomamos distância do nosso mundo costumeiro. 17 . começa dizendo que não sabemos o que imaginávamos saber. e precisássemos perguntar também o que somos. o patrono da filosofia. como se não tivéssemos tido família. para que filosofia? É uma pergunta interessante. tem a sua razão de ser. por isso. A filosofia começa dizendo não às crenças e aos preconceitos do senso comum e. pensando e dizendo coisas que ninguém entende e que são perfeitamente inúteis. através de nosso pensamento. olhando-o como se nunca o tivéssemos visto antes. livros e outros meios de comunicação que nos tivessem dito o que o mundo é. literatura. como se estivéssemos acabando de nascer para o mundo e para nós mesmos e precisássemos perguntar o que é. o grego Sócrates.

de fato. costumamos considerar que alguma coisa só tem o direito de existir se tiver alguma finalidade prática. Ninguém. No entanto. consegue ver para que serviria a filosofia. porém. isto é. Assim. quanto porque nossa cultura vê os artistas como gênios que merecem ser valorizados para o elogio da humanidade. corrigindo-os e aumentando-os. porque podem ser corrigidos e aperfeiçoados. consideram também que a filosofia nada teria a ver com a ciência e a técnica. Todo mundo também imagina ver a utilidade das artes. o trabalho da filosofia. tanto por causa da compra e venda das obras de arte. o principal para a filosofia não seriam os conhecimentos (que ficam por conta da ciência). pretendem agir sobre a realidade. pensamento. a filosofia não serviria para nada. como apenas os cientistas e filósofos sabem disso. Por isso. Verdade. obtidos graças a procedimentos rigorosos de pensamento. Parece. mesmo que o cientista não seja filósofo. muito visível e de utilidade imediata. na racionalidade dos conhecimentos. obtendo lucros com eles. pretendem fazer progressos nos conhecimentos. donde dizer-se: não serve para coisa alguma. o trabalho das ciências pressupõe. Ora. muitos consideram que. de procedimentos corretos para bem usar o pensamento. na aplicação científica à realidade. nem as aplicações de teorias (que ficam 18 . através de instrumentos e objetos técnicos. correção e acúmulo de saberes: tudo isso não é ciência. na tecnologia como aplicação prática de teorias. o senso comum continua afirmando que a filosofia não serve para nada. que o senso comum não enxerga algo que os cientistas sabem muito bem. ninguém pergunta para que as ciências. O cientista parte delas como questões já respondidas. são questões filosóficas. todas essas pretensões das ciências pressupõem que elas acreditam na existência da verdade. As ciências pretendem ser conhecimentos verdadeiros. como condição. pois todo mundo imagina ver a utilidade das ciências nos produtos da técnica. se “servir” fosse entendido como a possibilidade de fazer usos técnicos dos produtos filosóficos ou dar-lhes utilidade econômica. relação entre teoria e prática.Em nossa cultura e em nossa sociedade. Para dar alguma utilidade à filosofia. todavia. Para quem pensa dessa forma. mas é a filosofia quem as formula e busca respostas para elas. procedimentos especiais para conhecer fatos.

independentemente do conteúdo investigado. é.perguntar por que a coisa.perguntar como a coisa. racionais e virtuosos? Por que a liberdade e a virtude são valores para os seres humanos? O que é um valor? Por que avaliamos os sentimentos e as ações humanas? Assim. Atitude filosófica: indagar Se.perguntar o que a coisa. nem o conhecimento da nossa capacidade para conhecer. existe e é como é. porém. não nos ajuda muito. por enquanto. a idéia ou o valor. por que e como . mas o ensinamento moral ou ético. o estilo filosófico e a atitude filosófica permaneceriam os mesmos. não importa qual. portanto. de um valor. mesmo se disséssemos que o objeto da filosofia não é o conhecimento da realidade. A filosofia pergunta qual é a realidade ou natureza e qual é a significação de alguma coisa. Pouco a pouco. os objetos com os quais a filosofia se ocupa. uma idéia ou um valor. ou o valor.o que.permanecem. de uma idéia. ou a idéia. ou uma arte do bem-viver. A filosofia indaga qual é a estrutura e quais são as relações que constituem uma coisa. De fato. A filosofia pergunta pela origem ou pela causa de uma coisa. deixarmos de lado. mesmo para ser uma arte moral ou ética. ainda assim. pois as perguntas filosóficas . 19 . a filosofia continua fazendo suas perguntas desconcertantes e embaraçosas: O que é o homem? O que é a vontade? O que é a paixão? O que é a razão? O que é o vício? O que é a virtude? O que é a liberdade? Como nos tornamos livres.por conta da tecnologia). mesmo se disséssemos que o objeto da filosofia é apenas a vida moral ou ética. a liberdade e a vontade. Estudando as paixões e os vícios humanos. a filosofia teria como finalidade ensinar-nos a virtude. . A atitude filosófica inicia-se dirigindo essas indagações ao mundo que nos rodeia e às relações que mantemos com ele. à nossa capacidade de conhecer. à nossa capacidade de pensar. afinal. analisando a capacidade de nossa razão para impor limites aos nossos desejos e paixões. Essa definição da filosofia. porém. que é o princípio do bem-viver. . ensinando-nos a viver de modo honesto e justo na companhia dos outros seres humanos. Essas características são: . A filosofia seria a arte do bem viver. veremos que a atitude filosófica possui algumas características que são as mesmas. descobre que essas questões se referem. a idéia ou o valor. é.

A reflexão filosófica organiza-se em torno de três grandes conjuntos de perguntas ou questões: 1. Por que pensamos o que pensamos.Por isso. dizemos ou fazemos? 3. um conhecimento? 20 . dizemos o que dizemos e fazemos o que fazemos? Isto é. Por ser uma volta que o pensamento realiza sobre si mesmo. os fatos e acontecimentos. dizemos e fazemos? Essas três questões podem ser resumidas em: O que é pensar. para o que dizemos e para as ações que realizamos nessas relações. interrogando a si mesmo. A reflexão é o movimento pelo qual o pensamento volta-se para si mesmo. as perguntas da filosofia se dirigem ao próprio pensamento: o que é pensar. as plantas. dizemos o que dizemos. o que queremos dizer quando falamos. para indagar como é possível o próprio pensamento. A reflexão filosófica também se volta para essas relações que mantemos com a realidade circundante. as razões e as causas para pensarmos o que pensamos. por que há o pensar? A filosofia torna-se. como é pensar. que se relacionam com os outros seres humanos. as coisas. fazemos o que fazemos? Isto é. A reflexão filosófica Reflexão significa movimento de volta sobre si mesmo ou movimento de retorno a si mesmo. Somos também seres que agem no mundo. qual é a intenção ou a finalidade do que pensamos. fazermos o que fazemos? 2. O que queremos pensar quando pensamos. A reflexão filosófica é radical porque é um movimento de volta do pensamento sobre si mesmo para conhecer-se a si mesmo. o que queremos fazer quando agimos? Isto é. com os animais. então. dizermos o que dizemos. Para que pensamos o que pensamos. o pensamento interrogando-se a si mesmo. e exprimimos essas relações tanto por meio da linguagem quanto por meio de gestos e ações. qual é o conteúdo ou o sentido do que pensamos. Não somos. a filosofia se realiza como reflexão. porém. somente seres pensantes. quais os motivos. pouco a pouco. falar e agir? E elas pressupõem a seguinte pergunta: Nossas crenças cotidianas são ou não um saber verdadeiro.

Não se trata de dizer “eu acho que”. a significação ou a estrutura e a origem de todas as coisas. formem conjuntos coerentes de idéias e significações. mas exige que as próprias questões sejam válidas e. Engana-se porque imagina que para “ter uma filosofia” basta alguém possuir um conjunto de idéias mais ou menos coerentes sobre todas as coisas e pessoas. Quando o senso comum diz “esta é minha filosofia” ou “isso é a filosofia de fulana ou de fulano”. São perguntas sobre a essência. a atitude filosófica inicia-se indagando: O que é? Como é? Por que é?. bem como ter um conjunto de princípios mais ou menos coerentes para julgar as coisas e as pessoas. engana-se e não se engana. Somente assim a reflexão filosófica pode fazer com que nossa experiência cotidiana. O conhecimento filosófico é um trabalho intelectual. dirigindo-se ao mundo que nos rodeia e aos seres humanos que nele vivem e com ele se relacionam. Para quê?. esclareçam umas às outras. Filosofia: um pensamento sistemático Essas indagações fundamentais não se realizam ao acaso. aos seres humanos no ato da reflexão. exige a fundamentação racional do que é enunciado e pensado. que as respostas sejam verdadeiras. Não é pesquisa de opinião à maneira dos meios de comunicação de massa. em segundo lugar. Que significa isso? Significa que a filosofia trabalha com enunciados precisos e rigorosos. As indagações filosóficas se realizam de modo sistemático. É sistemático porque não se contenta em obter respostas para as questões colocadas. 21 . mas de poder afirmar “eu penso que”. O quê?. A filosofia não é um “eu acho que” ou um “eu gosto de”. segundo preferências e opiniões de cada um de nós. busca encadeamentos lógicos entre os enunciados.Como vimos. nossas crenças e opiniões alcancem uma visão crítica de si mesmas. estejam relacionadas entre si. opera com conceitos ou idéias obtidos por procedimentos de demonstração e prova. sejam provadas e demonstradas racionalmente. dirigindo-se ao pensamento. Já a reflexão filosófica indaga: Por quê?. Não é pesquisa de mercado para conhecer preferências dos consumidores e montar uma propaganda. São perguntas sobre a capacidade e a finalidade humanas para conhecer e agir.

da educação. Ou seja. 2. de silogismos ilegítimos. seus erros e suas maneiras exatas de expressão. A Lógica Esse sistema aborda os princípios do raciocínio. ou partindo do particular para o geral (lógica indutiva). da sociologia. Há uma filosofia da biologia. todos os gatos são cães. mas os seis sistemas tradicionais. que há uma característica nas idéias e nos princípios que nos leva a dizer que são uma filosofia: a coerência. A lógica dedutiva foi formulada por Aristóteles. da história. com coerência e lógica. Há dezenove formas legítimas de silogismo. o senso comum pressente que a filosofia opera sistematicamente. Nela empregam-se os silogismos. Todos os cães são animais. suas capacidades. Vimos um silogismo legítimo. da ciência. Sistemas Tradicionais da Filosofia Todos os campos de pensamento e de pensamento e de atividades têm suas respectivas filosofias. seus limites. Mas o senso comum não se engana ao usar essas expressões porque percebe. Um silogismo contém três proposições. Trata-se de uma ciência normativa. ainda que muito confusamente. Mas também há silogismos que não são legítimos. da medicina. Logo. ainda maior. conforme segue: Todos os gatos são animais. ou partindo do geral para o particular (lógica dedutiva). Logo. seus métodos. conforme o exemplo abaixo: Todos os homens são mortais. da religião. as relações entre as idéias e entre os princípios. são os seguintes: 1.“Minha filosofia” ou a “filosofia de fulano” ficam no plano de um “eu acho” coerente. etc. As duas primeiras 22 . Sócrates é um homem. que entraram na filosofia por meio de Sócrates. Sócrates é mortal. que investiga os princípios do raciocínio válido e das inferências corretas. Platão e Aristóteles. além de um outro número.. que a filosofia tem uma vocação para formar um todo daquilo que aparece de modo fragmentado em nossa experiência cotidiana.

por quanto tempo pode ser usado. chega a ser reduzida a um mínimo mediante o uso rigoroso de símbolos. A primeira premissa é chamada maior ( todos os homens são mortais). e nem são descobertas verdades absolutas e finais. A lógica experimental é o nome aplicado ao sistema filosófico de John Dewey. A verdade que há em qualquer dada situação. as religiões orientais salientam a comunidade. e quais não o são. Seus limites e efeitos colaterais foram determinados. A lógica indutiva parte do particular para o geral. 2. A lógica formal é a arte do raciocínio dedutivo. e a terceira proposição é a conclusão. é mortal. cada um dos quais tem apenas um ponto de referência. onde cada conclusão torna-se uma nova premissa. A lógica dedutiva ensina-nos quais formas e manipulações dos silogismos são válidas. de acordo com leis específicas. Para exemplificar: a vibramicina tem sido submetida a muitos testes. bem como as operações mediante as quais deduzimos conclusões. pode-se formular uma declaração acerca da capacidade de cura desse medicamento. de tal modo que a experimentação nunca chega ao fim. Vejamos a seguinte ilustração: 1. com base nas mesmas. e o termo médio é homens. como no sistema de Hegel. a religião grega enfatizava o indivíduo. quanto ao fator tempo. aquele ramo da lógica que estuda somente a estrutura formal das proposições. que fazem parte da dialética. o termo menor é Sócrates. A lógica metafísica. nesse caso. Emprega partículas de raciocínio e. O termo principal.proposições (representadas pelas duas primeiras linhas) são as premissas. em que a ambigüidade das proposições verbais e das operações que se fazem com base nas mesmas. no caso de cada doença. dentro de um dado contexto. mediante esse modo de operação. Com base nesse grande número de particularidades. o cristianismo resultaria da tensão entre esses dois pontos de vista religiosos 23 . Cada verdade descoberta serve de motivo para novas investigações. que é a sua conclusão. esse medicamento pode curar certas enfermidades. ou o valor das idéias só pode ser determinado através de uma contínua experimentação. A lógica simbólica ou matemática é um desenvolvimento da lógica formal. circunstâncias e instituições. cada teste contribui com sua informação acerca das circunstâncias. tira uma inferência. ou aquilo que é universal. a segunda premissa é chamada menor ( Sócrates é um homem). pressupõe que há forças naturais que atuam através da tríada composta por tese. O Espírito Absoluto manifesta-se em todos os seres. e em que extensão. 3. que é a conclusão da questão. antítese e síntese.

em: • adultos brincando como novos brinquedos. Porém. Alguns dizem que arte consiste. • transmissão das emoções. em que as regras éticas são produtos da experiência humana. a palavra é empregada para designar a filosofia das belas artes: a música. existem aqueles filósofos que insistem em que o sentido básico da palavra indica a natureza essencial dessa atividade. a ética formal assevera que existem regras permanentes que são impostas ao homem. ethos. alguns filósofos pensam que a nossa moral é divinamente ordenada. A Estética Esse vocábulo vem do grego aisthesis – sensível. aponta para o fator humano como o elemento mais importante na produção dos costumes éticos. apresentando descrições da atividade que apontam para certos alvos. • discernimentos intuitivos quanto à natureza das coisas. A Ética Essa é a investigação no campo da conduta ideal. etc. supondo-se que o homem não é o originador das normas da ética. 3. ethos. Mas também há aqueles que apontam para a utilidade e para os resultados práticos e benéficos como esse alvo. Alguns pensam que o senso de dever é o guia da conduta ideal. O vocábulo português ‘moral’ vem do latim. hábito.(que seriam a tese e a antítese). • uma maneira de experimentar o prazer. que significa costume. capricho. A ética religiosa faz Deus ser o alvo de toda a conduta ideal. tal como o termo grego. Esse sistema procura definir qual seja o propósito ou ideal orientador das artes (a definição de beleza). E esse vocábulo. Por outra parte. mos. referir-se a costumes e disposições. voluntariedade. 24 . 2. que opera através de tentativa e erro. moris. e torna-se uma síntese do individual com o universal. Apesar da própria palavra grega. a escultura e a pintura. bem como sobre as regras e teorias que a governam. essencialmente. enquanto que outros opinam que o prazer é esse princípio. enfatizando ambos os elementos como uma unidade e uma qualidade resultante.

referindo-se simplesmente àquela seção de seus escritos que vinham após o seu tratamento sobre a física. o termo epistemologia fala sobre a teoria geral da verdade. Basicamente. procura. um sentido que. Em nosso idioma. A política. Ela procura definir quais são o caráter. O uso dessas duas palavras é levemente diferente em inglês e em português.4. pois. pelo que seria uma ética social. A Política O vocábulo política vem do grego. 25 . o dualismo. E a palavra epistemologia vem do grego episteme – conhecimento. A metafísica aborda assuntos como Deus. refere-se a considerações e especulações concernentes a entidades. Essa palavra teve origem nas obras de Aristóteles. o termo refere-se à investigação quanto à verdadeira natureza de qualquer coisa. a teleologia. a liberdade. a natureza e os alvos do governo. a antropologia. o idealismo. o determinismo. é dado à palavra gnosiologia. a imortalidade. visto que essa seção abordava assuntos que atualmente denominamos de metafísica. o materialismo. e phisica – física. a ontologia. métodos. o livre arbítrio. o destino. tal palavra veio a indicar o estudo das coisas que ultrapassam às entidades físicas. consideração. etc. A Gnosiologia (Epistemologia) Essa é a disciplina que estuda o conhecimento em sua natureza. A Metafísica No grego temos as palavras meta – após. Mas. limites. a alma. e logia – estudo. a cosmologia. determinar a conduta ideal do Estado. o propósito. A palavra gnosiologia vem do grego gnosis – conhecimento e logia – estudo. Trata-se do estudo do governo ideal. a epistemologia refere-se à filosofia do conhecimento científico. Popularmente. origem. o monismo. 6. 5. agências e causas não materiais. as causas. Em inglês. objetos e objetivos. em português. possibilidades. o problema do mal. polis – cidade.

como também podem diminuir esses campos. Teoria do Conhecimento: 1. Está na História. porque as respostas. a filosofia está na História e tem uma história. em cada época de uma sociedade. porque alguns de seus conhecimentos podem desligar-se dela e formar disciplinas separadas. sobretudo.Outra divisão das disciplinas estudadas na filosofia é: A. Principais Períodos da História da Filosofia A filosofia na história Como todas as outras criações e instituições humanas. Além disso. propondo novas perguntas. Teoria dos Valores: Axiologia (teoria geral) Ética Estética Filosofia da Religião C. seja criticando-o e refutando-o. Teoria do Homem e do Mundo: Antropologia Cosmologia (metafísica) Teologia 3. tornam-se novos problemas que outros filósofos tentam resolver. freqüentemente. do qual ela faz parte. Epistemologia B. oferecendo caminhos. as soluções e as novas perguntas que os filósofos de uma época oferecem tornam-se saberes adquiridos que outros filósofos prosseguem ou. fazendo surgir novas disciplinas filosóficas. respostas e. A filosofia procura enfrentar essa novidade. Tem uma história. seja aproveitando o passado filosófico. porque a filosofia manifesta e exprime os problemas e as questões que. as transformações nos modos de conhecer podem ampliar os campos de investigação da filosofia. num diálogo permanente com a sociedade e a cultura de seu tempo. Lógica 2. diante do que é novo e ainda não foi compreendido. Gnosiologia 3. os homens colocam para si mesmos. 26 .

no século XIX. julgando-se encontrar aí também o princípio unitário de todas as coisas. no século XX. Esses dois tipos de consciência coexistiram na sociedade grega. no século XVIII. às vezes de maneira mais distante. por exemplo. por conseguinte. no século XX. a filosofia costuma ser apresentada em grandes períodos que acompanham. mais ou menos. do Egeu (Jônia) e da Itália meridional. O primeiro período do pensamento grego toma a denominação substancial de período naturalista. da Sicília. porque a nascente especulação dos filósofos é instintivamente voltada para o mundo exterior. que marcam uma mudança e um desenvolvimento e. Principais períodos da Filosofia 1. a filosofia teve seu campo de atividade aumentado quando. Estudar o mundo exterior nos elementos que o constituem. e a filosofia da linguagem.C. Surge e floresce fora da Grécia propriamente dita. é a grande 27 . o começo de um novo período na história do pensamento grego. por exemplo. quando se desligam da filosofia a biologia. surge a filosofia da arte ou estética. a filosofia das ciências ou epistemologia. Pelo fato de estar na História e ter uma história. É o que acontece. nos fins do século V. o campo da Filosofia diminuiu quando as ciências particulares que dela faziam parte foram-se desligando para constituir suas próprias esferas de investigação. na sua origem e nas contínuas mudanças a que está sujeito. as chamadas ciências humanas (psicologia. a denominação cronológica de período pré-socrático. no século XVIII. e. e toma. porque precede Sócrates e os sofistas.Assim. às vezes de maneira mais próxima. favorecido sem dúvida na sua obra crítica e especulativa pelas liberdades democráticas e pelo bem-estar econômico.C. igualmente. a física e a química. antropologia e história).) A passagem da consciência mítica e religiosa para a consciência racional e filosófica não foi feita de um salto. Esse primeiro período tem início no alvor do VI século a. e termina dois séculos depois. a filosofia da história. Os filósofos desse período preocuparam-se quase exclusivamente com os problemas cosmológicos. Período Pré-Socrático ou Cosmológico – (séculos VII a V a. Por outro lado. nas prósperas colônias gregas da Ásia Menor. os períodos em que os historiadores dividem a História da sociedade ocidental.

mar.). Para estes filósofos. Em meados do século VI a. Escola Itálica. rio. era a água. O " arché" formaria todos os seres. o " arché" era um elemento natural. depois que estes se corrompiam. a partir do qual se tinha formado toda a matéria do Universo. Tudo vem da água. pois. que a tudo forma. que a tudo gera. Segundo Tales. Todas as coisas estão cheias de deuses. A Escola Jônica. Para Tales. abrangia tanto a acepção de 'fonte originaria' quanto a de 'processo de surgimento e de desenvolvimento'. ao se aquecer transforma-se em vapor e ar. chuva. a chefia da escola de Mileto passa a Anaximandro. Para os Jônicos. compreende os jônios antigos e os jônios posteriores ou juniores. que nos mata a sede. A água primordial e límpida que recobre os mares. A água é o princípio.. é também a primeira do período naturalista. "todas as coisas vivas são úmidas e vivem do úmido”. a água. que flui na calha dos rios. Tales de Mileto (fim do séc. vegetal e animal. Pelo modo de encará-la e resolver. Segundo a interpretação que dará Aristóteles séculos mais tarde. que retornam como chuva quando novamente esfriados.C. teria tido início com Tales a explicação do universo através da 'causa material'. A água seria a physis. Desse ciclo de seu movimento (vapor. Um dia. assim chamada por ter florescido nas colônias jônicas da Ásia Menor. torna-se densa e dá origem à terra. o primeiro filósofo. o elemento básico. assumiria uma nova forma. o qual denominavam " arché". A escola jônica. 28 . que no vocabulário da época. seriam descobertas leis que permitiriam compreender como a água era a origem de todas as coisas. ao se resfriar. Escola Atomística. Sua principal preocupação era com o princípio constitutivo de todas as coisas. todo o mundo natural seria formado por um único elemento. pensava ele.C. Escola Eleática. o identificava com a água. dando origem a um novo ser. VII a. constituindo-os durante a sua existência e. terra) nascem as diversas formas de vida. A cosmologia de Tales pode ser resumida nas seguintes proposições: A terra flutua sobre a água. A água é a causa material de todas as coisas. que nos forma. Existe o princípio uno que a tudo rege. segundo ele.questão que dá a este período seu caráter de unidade. classificam-se os filósofos que nele floresceram em quatro escolas: Escola Jônica.

Ao caos tudo volta. A plena homogeneidade. Tudo que vem a ser e é diferenciado emerge do homogêneo indefinido. ritual de ascensão e queda eis a pena eterna a ser cumprida. seria algo totalmente indefinido. Anaximandro estabeleceu que o princípio de todas as coisas é o ilimitado (o apeiron). O que do caos escapa com certeza nele acaba 29 . seria o " apeíron" (sem limites). fundamento que as constitui e as abarca pelo indiferenciado. infinita e invisível que é o apeiron. O total uno caos. Existe o princípio uno e simples. (Tales de Mileto) Anaximandro de Mileto (610-547 a. Ah! Quisera a infinita paz. Para o caos não há definições. pelo indeterminado.que se evapora para os céus e do céu cai como benção dos deuses. Do caos tudo sai. O perfeito silêncio de não ser um ser em particular.C. O caos a tudo chama. antes apenas uma pura e indizível homogeneidade. o ilimitado. O mundo o que é senão esta agressiva luta de emergir e florescer para de novo descer e ao caos baixar. dessa substância única que é o apeiron. completamente amorfo para que pudesse assumir a forma de qualquer ser. O princípio é o caos. e o principio é o fundamento da geração das coisas. Ampliando a visão de Tales. tudo provém dessa substância eterna e indestrutível. Para ele. A ordem do mundo surgiu do caos em virtude desse princípio. Um perpétuo moto. o indeterminado: "o infinito é o principio" ( arché). simples como água.) dizia que o "arché" não poderia ser identificado com nada. Quando algo emerge já nele se contém um germe de corrosão que o leva novamente ao caos. foi o primeiro a formular o conceito de uma lei universal presidindo o processo cósmico total.

por isso mesmo. mesmo apresentando qualidades diferentes entre si.C) concordava com Anaximandro quanto ao apeiron.) ele leva o discurso filosófico de Tales. a água. tudo muda. No entanto. a verdade não pode 30 . mas tudo se move.C. Tudo provém do ar. nada permanece imóvel e nada permanece em estado de fixidez e estabilidade. É na síntese dos opostos que está o princípio que explica toda a realidade e. reduzem-se a variações quantitativas (mais raro. segundo a concepção da época. Para ele. a unidade dos opostos. Mas postulou que esse apeiron fosse o Ar. As diversas coisas que existem. a pedra são formas cada vez mais condensadas do ar. sem cessar e sem exceção (“tudo flui”.(Anaximandro de Mileto) Anaxímenes de Mileto (585 – 528 a. tudo se transforma. mais denso) desse único elemento. o fogo é o ar rarefeito. Entretanto a filosofia de Heráclito está bem longe de se reduzir a mera proclamação do fluxo universal das coisas: esta é a constatação de partida. é exatamente nisso que consiste Deus ou o divino. e com as características desse princípio apontadas por Anaximandro. essa guerra é ao mesmo tempo paz e harmonia. Heráclito chamou este seu princípio de logos e. pois é o elemento presente em toda a natureza. só o devir das coisas é permanente. uma guerra perpétua. a multiplicidade das coisas se recolhe numa unidade dinâmica superior. Heráclito de Éfeso (cerca de 540-470 a. Para Heráclito. fazendo com que o fluir perene das coisas e o universal devir se revelem na síntese dos contrários. Anaxímenes afirmava ser o ar. a terra. é uma perene luta de um contra o outro. Segundo Heráclito. tornando-se o perene pacificador dos beligerantes. Deus é a harmonia dos contrários. conforme suas próprias palavras: "De todas as coisas o um e do um todas as coisas". ). para ele. Ele chamou a atenção para a perene mobilidade de todas as coisas. Segundo ele. através de seus movimentos: o ar é respiração e é vida. o devir é um contínuo conflito dos contrários que se alternam. Anaximandro e Anaxímenes a posições decididamente mais avançadas e em grande parte novas. E como as coisas só têm realidade no perene devir. no sentido de que as coisas não tem realidade senão justamente no perene devir. essa guerra se revela como o fundamento da realidade das coisas.

Xenófanes.) dizia que o ser absoluto. pela mente ou "nous”. Por isso aquele diz que o Um é limitado. com uma identidade abstrata. Esses princípios ou elementos são misturados ou separados pela ação do amor ou pelo ódio. Aristóteles em seu livro Metafísica. ar e água. e este.C. e Melisso ao Um segundo a matéria. nada esclareceu. nos relata: “Pois Parmênides parece referir-se ao Um segundo o conceito. de germes ou "sementes" ( omoiomerias). e não possui nenhum atributo 31 . Empédocles de Agrigento (cerca de 490-435 a. Sua doutrina pode ser vista como uma primeira síntese filosófica. precisamos adotar a hipótese de um número infinito de elementos. nem parece que vislumbrou nenhuma dessas duas naturezas. fogo.460 a. uma das fórmulas contidas nos ensinamentos de Xenófanes era: “Tudo é o Um e o Um é Deus” . o princípio de todas as coisas são essas "sementes" que se misturam e se separam.” Consequentemente. considerando todas as coisas como resultantes da fusão dos quatro princípios eternos e indestrutíveis: terra. pela inteligência. dirigindo o olhar a todo o céu. confundidas e sem ordem num primitivo caos. Substitui a busca dos jônicos de um único princípio das coisas pelos quatro elementos. Anaxágoras sustentava que. mas. Anaxágoras de Clasômenas (cerca de 499 – 428 a. Mas foram ordenadas pelo espírito.). essência de todas as coisas. de cuja combinação nascem todas as coisas. diz que o Um é o Deus. o primeiro a postular a unidade. entender e exprimir esse logos comum a todas as coisas. Assim. propôs uma explicação geral do mundo. era o Um. Considerado por Diógenes Laércio "o primeiro que acrescentou a inteligência ( nous) à matéria (hylé)".consistir senão em captar. Por conseqüência desse entendimento. para explicar tudo o que acontece e que muda. desprezando o saber dos outros filósofos. E de acordo com Teofrasto. Inicialmente.C. Xenófanes de Cólofon (cerca de 570 . que possuem propriedades irredutíveis. estavam "todas juntas". compreende-se a sua desconfiança nos sentidos e nas opiniões comuns dos homens. o pensamento comum era o de que todo movimento e mudança seriam apenas uma ilusão. o conceito Deus é então criado por Xenófanes como sendo um ser mais alto. Escola Eleática.C). que é ilimitado. combinando ao mesmo tempo o ser imóvel de Parmênides e o ser em perpétua transformação de Heráclito. salvando ainda a unidade e a pluralidade dos seres particulares. que se diferenciam entre si qualitativamente.

Tinha o caráter de um movimento religioso. tal como é infinito no tempo . São nossos sentidos que nos levam a crer no fluxo incessante dos fenômenos. demonstrando a incoerência do pluralismo e da noção de movimento. não se sabe todavia como teria tomado contato com as doutrinas da escola ocidental. além de mudar alguns pontos de vista.). foi o primeiro. e sobretudo contra Empédocles. Tratou de ajustar os extremismos do eleaticismo com a filosofia jônica. Zenão de Eléia (cerca de 504-? a. a estabelecer o confronto entre teses opostas e contrárias para provar que nenhuma delas é verdadeira ou que a tese contraditória seria falsa. é a mudança e o movimento que são ilusões. imóvel. ou seja. por conseguinte. eterno e oculto sob o véu das aparências múltiplas. imutável. substância permanente das coisas. Parmênides. O "não-ser" é a mudança. Para ele. Zenão foi o criador da dialética. ou seja eterno. essencialmente os pitagóricos. Melisso de Samos (cerca de 485 – 425 a. portanto antipitagórico.460 a. Representa o oposto ao pensamento humano de Heráclito. uma peculiar religião onde a geometria e a matemática possuíam um papel privilegiado. Parmênides de Eléia (cerca de 530 .nem quanto à figura. em filosofia. O devir não passa de uma aparência. O que é real é o Ser único. dizendo: "o ser é imóvel". Escola Itálica ou Pitagórica Desenvolveu-se numa colônia grega no sul da península Itálica. o não-ser não é". imutável e imóvel. Foi defensor da teoria de seu mestre. por intermédio do método de redução ao absurdo. que 32 .C. contra as críticas dos adversários. é o único que existe.C. nem quanto ao espírito. Pregava esta escola que durante a vida humana o corpo vivo seria a “tumba da alma’’. tornando-se responsável pela sistematização dessa doutrina. e tão pouco é semelhante a estes . e estabeleceu que o ser é infinito. com os quais pretendeu refutar o mobilismo e o pitagorismo. significa: o ser eterno. supostamente liderada pelo algo legendário Pitágoras. Segundo Aristóteles. Prova disso é a anedota de Diógenes andado de um lado para outro.C.).) foi discípulo de Parmênides e notabilizou-se sobretudo por seus paradoxos acerca do tempo.conhecido pelos homens. pois mudar é justamente não mais ser aquilo que era e tornar-se aquilo que não é ainda. "O Ser é. Pela sua obra depreende-se que foi mais um polemista e defensor das idéias de Parmênides de Eléia.

a sétima musica.). a física. típicas do pitagorismo. são véus que ocultam a verdadeira e autêntica realidade. em última instância no orfismo de procedência oriental. sendo o próprio Criador do Universo um geômetra.renasceria por ocasião de sua morte”. foi talvez o primeiro a praticar a pesquisa pela dissecação dos corpos e a aventurar-se a fazer uma operação nos olhos. bem como a filosofia em geral. Pitágoras é um dos primeiros filósofos a elaborar uma cosmogonia. Os fragmentos de seu livro conservam os mais antigos 33 . daquilo que percebemos pelos sentidos é o número.1:4. a existência real que está atrás dela é o número. Descobriu então a oitava. 450 a. mas. Infere de suas experiências. a quarta. Para ele.) foi um dos principais discípulos de Pitágoras e de primeira hora. 520 – c. Muito pouco resta de suas obras e poucas são as informações doxográficas. Pitágoras de Samos (c. as coisas estão distintas umas das outras pela diferença quantitativa e numérica. da metade do 5º séc. tornando-se filósofos. Havendo estudado a natureza como físico e como médico.C.C. Depois de medir o comprimento relativo dessas cordas. Tradicionalmente se aceita que este filósofo tenha escrito um livro em que expunha a doutrina pitagórica (que era secreta e reservada apenas aos discípulos).). Álcmeon de Crotona (c. mas os homens podem desejá-la ou amá-la. advertindo para a doutrina dos contrários. Isso foi o suficiente para concluir que tudo o que vemos e tocamos não existem de verdade. Na concepção de Pitágoras a essência última de todo ser. É muito difícil distinguir os aspectos da filosofia de Pitágoras dos seus discípulos. as quais todavia têm origem. um vasto sistema que pretende explicar o Universo. isto é. Sua doutrina previa uma série de práticas ascéticas destinadas a manter a alma livre da contaminação ocasionada por sua prisão'' durante a vida.1:5. Pitágoras ou algum de seus discípulos foi quem descobriu que na lira.C.496 a. o número é o primeiro princípio de todas as coisas. a quinta. Os números e figuras geométricas possuiriam poderes especiais. Filolau de Crótona (c. as notas das diferentes cordas soam diferentemente porque umas são mais curtas que as outras. a sabedoria plena e completa pertence aos deuses. Para ele. Para Pitágoras. 570 .1:3. que no cérebro está a sede do pensamento. ele concluiu que as notas da lira estavam entre si numa simples relação numérica de comprimento: na relação de 1:2. Praticou a medicina. a.

que em grego significa indivisível.) criador do atomismo ou teoria atomista. tamanho dos átomos. e supunha que a matéria seria constituída por átomos e vácuo. e o que é da autoria de outros membros da escola atomista. neste mundo material. pagando por ele uma razoável quantia. segundo a tradição. pois os átomos não se movem devido ao acaso. possuindo uma parte cheia e outra vazia. Escola Atomista foi iniciada por Leucipo (meados do século V a. Parece ter viajado muito e sabe-se que escreveu inúmeros trabalhos de física.C. Leucipo acreditava que o universo é infinito. Tais átomos seriam indestrutíveis e imutáveis. Sua doutrina física e cosmológica é elaborada com base em ensinamentos de seu mestre. enquanto as variações da matéria dependeriam de modos de agrupamento dos átomos (algo como nossas moléculas). entre outros.relatos sobre o pitagorismo e influenciaram fortemente Platão que.C. Autor da teoria de que o Universo é formado por partículas indivisíveis: os átomos. é certo ter sido reconhecido como um dos pensadores mais cultos de seu tempo. tudo tem uma razão de ser (determinismo). os átomos. Segundo Diógenes Laércio. declara: "Nada deriva do acaso. teoria essa desenvolvida por Demócrito. Leucipo de Mileto. mas devido à necessidade. Filolau sistematizou a doutrina pitagoreana. A parte cheia seria constituída por "elementos": os átomos girando em forma de torvelinho. Leucipo foi o primeiro pensador a formular uma teoria atomista para explicar a formação das coisas." Assim. julgando que o fogo seria o elemento básico em todas as coisas. matemática. uma entidade espiritual capturada pelo pecado.). são partículas 34 . Embora sejam raros os registros sobre sua vida. pouco se sabe sobre sua vida. É difícil saber o que foi escrito por Leucipo e o que foi escrito por Demócrito. Considerado discípulo de Parmênides ou de Zenão de Eléia. Esse movimento dos átomos não possui lugar. No dizer de Aristóteles. A alma humana seria uma prisioneira do corpo.). Ele supunha que a natureza é controlada e harmonizada pela oposição entre os princípios das coisas limitadas e das coisas ilimitadas. 460 -360 a. chocando-se mutuamente e rechaçando-se uns aos outros. Leucipo de Milleto (nascimento: cerca de 500 a. teria mandado comprar o referido livro.C. Demócrito de Ábdera (c. mas tudo de uma razão sob a necessidade. De acordo com Demócrito. dos quais só restam fragmentos esparsos. Existiam também variações na forma. ética e música. No único fragmento que nos restou. obedecendo à razão e à necessidade. embora fossem todos constituídos por uma mesma massa.

O êxito desses tutores foi extraordinário. marcando para sempre o vocabulário filosófico: argumento sofístico ou sofisma é o mesmo que falso argumento ou argumento intencionalmente falacioso. com o sentido original de habilidade específica em algum setor. que ofereciam seus conhecimentos para educar os jovens na prática do debate público. Passaram a ser então designados de sofistas. a percepção de cores e as sensações de sabores também são definidos pelo tamanho dos átomos. Nos séculos IV e III a. sábios capazes de elaborar discursos fascinantes. desde as atividades artesanais aos trabalhos de criação artística. embora vazio de conteúdo. dramaturgos como Aristófanes em sua comédia “ As Nuvens”.bastante pequenas e homogêneas. Por outro lado. com intenso poder de persuasão. Características gerais dos sofistas A primeira dificuldade em se falar dos sofistas em geral decorre do fato de não constituírem uma escola filosófica como os pitagóricos e os platônicos. portanto.C. A partir do século V a. O termo adquire um sentido pejorativo e desfavorável. Quando Atenas se envolveu na guerra do Peloponeso. Como veremos 35 .C. OS SOFISTAS A palavra sofista deriva do grego sophistés. um elogio. charreteiros. Xenofonte e Aristóteles.. sabedoria). oleiros e poetas. A educação tradicional era insuficiente para preparar o cidadão para a discussão política. vários profissionais eram sofistas: carpinteiros. o profissional era dito sofista. Era preciso o domínio da linguagem e de flexibilidade e agudeza dialética para derrotar os adversários. pensadores como Platão. O julgamento de Sócrates ocorreu neste clima de acusação e ressentimento. De início. ou homem que detém um determinado saber (do grego sóphos saber. diferindo entre si apenas na forma e na magnitude. foram recebidos com hostilidade e desconfiança pelos partidários do antigo regime aristocrático e conservador. todos passaram a atacar sistematicamente os sofistas. O termo era. eloqüência e retórica. os sofistas foram responsabilizados pela decadência moral e política da cidade. no sentido depreciativo de algo muito elaborado ou excessivamente ornado. Quando o domínio de uma técnica era reconhecido por todos. Ele afirma ainda que os sentimentos. surgiram os professores itinerantes de gramática. de sofista deriva sofisticado.

notadamente os pré-socráticos e suas preocupações com o mundo físico. mas são simples convenções dos homens para poderem viver em sociedade. De acordo com Guillermo Fraile (História de la Filosofia. se necessário. Em matéria de crença religiosa. não há nada que seja bom ou mau em si mesmo. Tudo muda. páginas 226/227). manipulando. g) Utilitarismo – Mais do que servir ao Estado. as características gerais dos sofistas são as seguintes: a) Relativismo – Tudo que existe é impermanente. epistemológicas e jurídicas. Agrupá-los pelo que têm em comum. tanto faz acatar estes ou aqueles deuses. d) Indiferentismo moral e religioso – Se as coisas são como parecem a cada um. (Protágoras) c) Ceticismo – Não podemos conhecer coisa alguma com certeza absoluta. Volume I. de ateísmo. devemos ser indiferentes. Alguns sofistas foram acusados. os sofistas seguem direções variadas e até mesmo opostas. pois não existe uma norma transcendente de conduta. “O homem é a medida de todas as coisas”. serve apenas para diferenciá-los dos filósofos anteriores. h) Frivolidade intelectual – Mais do que autênticos filósofos. os sofistas eram prestidigitadores intelectuais que encobriam o vazio do seu pensamento com uma 36 . O conhecimento humano é limitado às aparências. centrado em questões lingüísticas. gramaticais. todos os meios são bons para se atingir os fins que cada um se propõe. Os sofistas marcam a passagem do período cosmológico para o período antropológico. A eloqüência é a arte da persuasão e pode ser empregada indistintamente para o bem e para o mal. as essências das coisas são variáveis e contingentes. b) Subjetivismo – Não existe verdade objetiva. e) Convencionalismo jurídico – Acentuam a contraposição entre lei e natureza ( nómos – phisis). Não existem leis imutáveis. As coisas são como aparecem a cada um. mutável e plural. f) Oportunismo político – Se não há nada justo e injusto em si mesmo.adiante. isto é. O bom resultado justifica os meios empregados para consegui-lo. os sofistas ensinavam a empregar as habilidades retóricas a serviço dos interesses particulares. já que não possuem qualquer fundamento na natureza e nem foram estabelecidas pelos deuses. em conseqüência desta postura. os sentimentos e as paixões.

i) Venalidade – Ao cobrarem por suas lições. pequeno comerciante de mercadorias de primeira ou de segunda-mão(224e). a arte de vencer nas discussões.do combate (226a). arte do simulacro. mero ilusionista sem conteúdo. da natureza humana inserida na polis e na vida do Estado. os sofistas podem ser comparados aos humanistas da renascença (século XV). Outro discípulo de Sócrates e contemporâneo de Platão. na capacidade do discurso. da ilusão (236c). que os sofistas eram comerciantes da sabedoria. Platão reduz o sofista à condição de comerciante do saber. A erística é a arte de batalhar com palavras ( logomaquia. O que se percebe nesta caracterização? Apenas o último item é positivo. mercenário do espírito. 37 . e como tais comparáveis à venalidade da prostituição. Xenofonte escreve nos Ditos e Feitos Memoráveis de Sócrates. Tinham uma confiança ilimitada no poder da palavra. preocupados com os problemas práticos do homem político. Condenação e reabilitação dos sofistas No diálogo Sofista. por exemplo. os sofistas sofreram a crítica mais severa por parte dos atenienses. Platão qualificava os sofistas de “mercadores ambulantes de guloseimas da alma”. que não aceitavam fazer da atividade intelectual uma forma de negócio. da contradição. enquanto todo o restante é condenável. Como se vê. comerciante do ensino e das virtudes (224 d). 313c) j) Humanismo – Ao centrar seus interesses nos problemas humanos. para os gregos). (Protágoras. Aristófanes diz que o sofista possui a habilidade de pronunciar um discurso justo e um discurso injusto sobre o mesmo tema. No caso de um homicídio. Platão mostra Sócrates a debater diversas definições para os sofistas: • • • • • caçador interesseiro de jovens ricos (223b). Na peça As Nuvens. o sofista poderia argumentar com igual brilhantismo como advogado de defesa e como promotor de acusação. ou seja.pirotecnia verbal fascinante. mercenário da arte da erística.

sem dúvida alguma. (Arg. em que se baseiam o direito natural e o direito positivo. mas aparente. mas não se iguala. tendo sob seu encargo a educação do filho do rei. Sof. o que serviu para fundamentar a lei de modo mais igualitário e universalista. destacaram o caráter diverso e relativo das leis. às contribuições de Sócrates. Protágoras (490-420 a. I. Platão e Aristóteles. Podemos reconhecer aos sofistas gregos os seguintes méritos: a) iniciaram uma reflexão sistemática sobre os problemas humanos. dirige aos sofistas as mesmas denúncias de vendedores caros de uma ciência não real. 165a). ao invés das questões naturais e cosmológicas dos filósofos pré-socráticos. Não se pode esquecer a origem aristocrática de Platão e Aristóteles. Ao menos seja reconhecida a influência positiva dos sofistas no debate jus filosófico: a defesa do naturalismo permite assentar o direito numa perspectiva mais cosmopolita e equânime. O ideal sofístico de uma natureza humana que pode ser educada e constantemente aperfeiçoada deu início à ciência pedagógica e à formação humanista na antiguidade. Como se não bastasse. desenvolveram princípios educativos para o ensino de gramática e retórica. acusa os sofistas de “traficantes de uma sabedoria aparente. Não é pouca coisa. Protágoras considerava-se um mestre da sabedoria e da virtude política (politiké e) areté). posteriormente Alexandre Magno (O Grande). Acostumados a freqüentar palácios e imersos numa cultura que despreza o trabalho manual. próprias de cada cidade. como se fossem a ameaça contra o verdadeiro saber. aperfeiçoaram a dialética e a discussão crítica sobre as limitações e o valor do conhecimento. não real”.. lei (nómos) e pacto (thésis). enxergaram apenas os aspectos venais e as habilidades verbais dos sofistas. Este último era filho de um médico da corte de Felipe da Macedônia. enfatizando a contraposição entre natureza (phisis). ainda o mesmo Platão em diálogos como Ménon e Crátilo. o jovem Alexandre. b) c) d) defenderam o conceito de natureza comum a todos os homens. na obra ‘Argumentos Sofísticos’. formando os jovens para o debate público e o governo do Estado.E Aristóteles.C.) 38 .

exposição. através do famoso dito “O homem é a medida de todas as coisas”. Se algo existisse. Durante esse período desenvolveram-se os seis sistemas tradicionais da filosofia. seria incompreensível para nós. disposição. das coisas particulares ou mesmo do ser em geral. Protágoras e Górgias. a habilidade retórica deve prevalecer para que meu argumento seja vencedor. O fato é que ambos. nega a possibilidade de qualquer conhecimento.C) Considerado o período áureo da filosofia grega. para provocar os oponentes ou exercitar os alunos. 2. Atribuem-se a ele. se todas as percepções são subjetivas. A posição relativista conduz ao dilema da verdade e do discurso verdadeiro: vence a discussão quem tem razão ou tem razão quem vence a discussão? Górgias (485-380a. Levando as teses relativistas ao extremo. o primeiro estudo sistemático de gramática. não pode o conhecimento ser comunicado a alguém (este conhecimento seria totalmente subjetivo). seja do espaço e do tempo. tratado com respeito por Platão no diálogo que leva seu nome. Protágoras defendia o relativismo do conhecimento. pelo que a investigação filosófica cobria todas as possibilidades tradicionais de investigação. Um jogo dialético para questionar as afirmações dogmáticas ou pretensamente absolutas de muitos filósofos. refutação e conclusão. Platão também o foi. feminino e neutro e as partes da oração em substantivo. Se algo existe e pode ser conhecido. adjetivo e verbo. a gnosiologia. Se não há uma razão ou um bem imutável. discussão. Conserva-se de Górgias os três princípios: a) b) c) Nada existe (o ser e o não-ser não existem).) Górgias é famoso por seu niilismo exacerbado. um filósofo ético. ou seja. É possível que as teses de Górgias fossem um exercício de retórica. distinguindo os gêneros masculino. Em retórica distinguiu as partes componentes do discurso: preâmbulo.C. compartilham das mesmas teses céticas e reduzem o conhecimento ao jogo das aparências.O mais eminente dos sofistas foi Protágoras. mas adicionou a metafísica. não poderia ser conhecido. Sócrates foi. pois cobrava caro por suas lições. Ensinou durante quarenta anos e tornou-se muito rico. antes de tudo. Período Clássico (470 – 322 a. a 39 .

nos discípulos. Esses diálogos podem ser divididos em dois momentos básicos: a ironia. Com habilidade de raciocínio. chamados de naturalistas. tendo adicionado a lógica formal dedutiva. o princípio da sabedoria. atitude em que se assume a tarefa verdadeiramente filosófica de superar o enganoso saber baseado em idéias pré-concebidas. E por psyché Sócrates entende nossa sede racional. ou ainda. ironia quer dizer interrogação. Sócrates interrogava seus interlocutores sobre aquilo que pensavam saber.política e a estética. Na linguagem cotidiana. ‘O que é o bem?’. Sócrates percebe que a sabedoria começa pelo reconhecimento da própria ignorância. Sua filosofia era desenvolvida mediante diálogos críticos com seus interlocutores. do grego eironeia . em virtude de sua história.) O auto-conhecimento era um dos pontos fundamentais da filosofia socrática. Enquanto os filósofos pré-Socráticos. os novos problemas que surgiam a cada resposta. procuravam responder a questões do tipo: "O que é a natureza ou o fundamento último das coisas?" Sócrates. uma personalidade única. frase inscrita no templo de Apolo. Mas não é esse o sentido de ironia socrática.C. procurava responder à questão: "O que é a natureza ou a realidade última do homem?” A resposta a que Sócrates chegou é a de que o homem é a sua alma psyché. ‘ O que é a justiça?’ São exemplos de algumas perguntas feitas por ele. por quanto é a sua alma que o distingue de qualquer outra coisa. era a recomendação básica feita por Sócrates a seus discípulos. Seu objetivo inicial era demolir. a ironia tem um significado depreciativo. inteligente e eticamente operante. A ironia socrática tinha um caráter purificador na medida em que levava os 40 . No grego. o orgulho. “Só sei que nada sei” é. Esta colocação de Sócrates acabou por exercer uma influência profunda em toda a tradição européia posterior. Sócrates (470 – 399 a. sarcástico ou de zombaria. a consciência e a personalidade intelectual e moral. “Conhece-te a ti mesmo”. Aristóteles deu continuação a essas investigações. e antecipou a lógica em sua dialética e nos elementos de sua gnosiologia.perguntar fingindo ignorar e a maiêutica de maieutiké – relativo ao parto. até hoje. para Sócrates. por sua vez. a ignorância e a presunção do saber. procurava evidenciar as contradições afirmadas. dando-lhe.

pois o verdadeiro conhecimento tem de vir de dentro. 41 .discípulos a confessarem suas próprias contradições e ignorâncias. como: o conhecimento tem por fim tornar possível a vida moral. era chamada de maiêutica. contrariava os valores dogmáticos da sociedade ateniense. Derivam daí diversas conseqüências para a educação. em última instância. Ele nada ensinava. e que não se pode obter expremendo-se os outros. de acordo com a consciência. Sócrates costumava comparar a sua atividade com a de trazer ao mundo a verdade que há dentro de cada um. A doutrina socrática identifica o sábio e o homem virtuoso. Nesta segunda fase do diálogo. e tanto mais eficaz quanto maior for o interesse de aprender. mas. onde antes só julgavam possuir certezas e clarividências. nenhum conhecimento pode ser transmitido dogmaticamente. da própria cidade. destinada à concepção de idéias. não fazendo o próprio diamante. o professor nada mais pode fazer que orientar e esclarecer dúvidas. Libertos do orgulho e da pretensão de que tudo sabiam. termo grego que significa arte de trazer à luz. o processo para adquirir o saber é o diálogo. Sendo filho de uma parteira. Dialogar com Sócrates era se submeter a uma "lavagem da alma" e a uma prestação de contas da própria vida. A história de sua acusação. O processo de aprender é um processo interno. retirado do cotidiano. leva ao questionamento do modo de vida de cada um e. Até mesmo na atividade de aprender uma disciplina qualquer. o objetivo de Sócrates era ajudar seus discípulos a conceberem suas próprias idéias. Por isso. como condição para desenvolver a capacidade de pensar. Apologia de Sócrates e Fédon. recebeu a acusação de ser injusto com os deuses da cidade e de corromper a juventude. as finalidades do diálogo socrático são a catarse e a educação para o autoconhecimento. No final do processo foi condenado a beber cicuta (veneno). como um lapidador tira o excesso de entulho do diamante. Assim. Essa fase do diálogo socrático. os discípulos podiam iniciar o caminho da reconstrução das próprias idéias. Interessado somente na prática da virtude e na buscada verdade. e por ser auto-educação leva ao conhecimento de si mesmo. a análise radical do conteúdo das discussões. toda a educação é essencialmente ativa. apenas ajudava as pessoas a tirarem de si mesmas opiniões próprias e limpas de falsos valores. defesa e execução é contada nos diálogos de Platão.

autor de Anábase.Sócrates acreditava na superioridade da fala sobre as palavras escritas. Xenofonte. legou-nos de preferência o aspecto prático e moral da doutrina do mestre. sendo mais um homem de ação do que um pensador. Em teodicéia. A psicologia serve-lhe de preâmbulo. cabe-lhe a glória e o privilégio de ter sido o grande historiador do pensamento de Sócrates. podese dizer que Sócrates é o protagonista de todas as obras platônicas embora Platão conhecesse Sócrates já com mais de sessenta anos de idade. bem como o seu biógrafo genial. Sócrates professa a espiritualidade e imortalidade da alma. Os ensinamentos de Sócrates que encontramos foram escritos por seus discípulos. Platão. estabelece a existência de Deus: a) com o argumento teológico. O LEGADO DE SÓCRATES. nunca escreveu seus ensinamentos. nem sempre é fácil discernir o fundo socrático das especulações acrescentadas por ele. "Conhece-te a ti mesmo" . mas não define o livre arbítrio. O perfeito conhecimento do homem é o objetivo de todas as suas especulações e a moral. foi filósofo grande demais para nos dar o preciso retrato histórico de Sócrates. formulando claramente o princípio: tudo o que é adaptado a um fim é efeito de uma inteligência. identificando a vontade com a inteligência. distingue as duas ordens de conhecimento. 42 . Desta feita. sensitivo e intelectual. não entendeu o pensamento filosófico de Sócrates. a teodicéia de estímulo à virtude e de natural complemento da ética. o centro para o qual convergem todas as partes da filosofia. notadamente Platão e Xenofonte. pelo contrário. Com efeito.o lema em que Sócrates cifra toda a sua vida de sábio. em vez de viva. de estilo simples e harmonioso. Xenofonte. mas sem profundidade. dizendo que não se pode fazer perguntas a uma palavra escrita. em seus Ditos Memoráveis. Seja como for. Em psicologia. não obstante à sua devoção para com o mestre e a exatidão das notícias. Outra fonte importante são as várias referências feitas a Sócrates na obra de Aristóteles. Ele criticava a palavra escrita chamando-a de artificial.

se o fim da filosofia é prático. determinado 43 . o prático depende. sentimentalismo. ainda que com finalidade diversa. que declara auxiliar os partos do espírito. O fim da filosofia é a moral. Como os sofistas. mediante a razão. a favor da reflexão livre e da convicção racional. um legislador. conceptual é. pela razão imanente e constitutiva do espírito humano. também inteligente deve ser a causa que o produziu. a respeito da metafísica. a ciência. Deus não só existe. de um ceticismo de fato. Isto quer dizer que a instrução não deve consistir na imposição extrínseca de uma doutrina ao discente. no sentido de que o homem tanto opera quanto conhece: virtuoso é o sábio. O procedimento lógico para realizar o conhecimento verdadeiro. morais.bem como o conhecer humano . Apesar destas doutrinas elevadas. ele é cético a respeito da cosmologia e. mas é também providência. A única ciência possível e útil é a ciência da prática. não particulares. por sua vez. mas dirigida para os valores universais. a indução: isto é. Sócrates. trata-se. O moralismo socrático é equilibrado pelo mais radical intelectualismo. em geral. c) com o argumento moral: a lei natural supõe um ser superior ao homem. pragmatismo. É a famosa maiêutica de Sócrates. reivindica a independência da autoridade e da tradição. Mas. que está contra todo voluntarismo. apenas esboçado. dada a sua revalidação da ciência. remontar do particular ao universal. do teorético. Vale dizer que o agir humano . Sócrates aceita em muitos pontos os preconceitos da mitologia corrente que ele aspira reformar. é mister conhecê-lo. o ignorante.se baseia em normas objetivas e transcendentes à experiência. mas o mestre deve tirá-la da mente do discípulo. a qual é um valor universal. com finalidades práticas. que a promulgou e sancionou. racionalismo. depois. como sua mãe auxiliava os partos do corpo. para realizar o próprio fim.b) com o argumento. A seguir será possível realizar o conhecimento verdadeiro. governa o mundo com sabedoria e o homem pode propiciá-lo com sacrifícios e orações. não de direito. ativismo. espiritual. no entanto. da causa eficiente: se o homem é inteligente. científico. Gnosiologia O interesse filosófico de Sócrates volta-se para o mundo humano. totalmente. no dizer de Sócrates. da opinião à ciência. antes de tudo. da experiência ao conceito. para construir uma ética é necessário uma teoria. Este conceito é. malvado. porém. de par com os sofistas. a gnosiologia deve preceder logicamente a moral.

fim supremo do homem. O meio único de alcançar a felicidade ou semelhança com Deus.realizando-se o bem mediante a virtude.precisamente mediante a definição. pedreiro o que sabe edificar. ciência. A virtude adquire-se com a sabedoria ou. enfim. mediante a doutrina do conceito. Estes dois filósofos. representando o ideal e a conclusão do processo gnosiológico socrático. Tudo isto tem que ser criticado. Traçou. é a prática da virtude. superado. antes. subindo até à razão. identificando conhecimento e virtude . com ela se identifica. lei positiva. todavia. Esta doutrina. precisamente porque lhe falta uma metafísica.como ensinavam os sofistas. costume. Sócrates. tradição. logo. Conclusão: grandeza moral e penetração especulativa. mediante a doutrina de que eticidade significa racionalidade. nem pode precisar este bem. fonte primordial de todo direito positivo. 44 . uma moral. Moral Sócrates ensina a bem pensar para bem viver. ação racional. ignorância e vício são sinônimos.tornava impossível o livre arbítrio. uma das mais características da moral socrática.afora a teoria geral de que a ciência está nos conceitos . que seria percorrido por Platão e acabado. Virtude é inteligência. como a gnosiologia socrática carece de uma especificação lógica precisa . e nos dá a essência da realidade.bem como ignorância e vício . em prática.independente do arbítrio humano. sugere quase sempre a utilidade como motivo e estímulo da virtude. justo será o que sabe a justiça". pela ausência de uma metafísica. razão. Como Sócrates é o fundador da ciência em geral. virtude e ciência. uma grande metafísica e. Sócrates reconhece também.assim a ética socrática carece de um conteúdo racional. é conseqüência natural do erro psicológico de não distinguir a vontade da inteligência. não descendo até à animalidade . por Aristóteles. Entretanto. o itinerário. partindo dos pressupostos socráticos. "Se músico é o que sabe música. a existência de uma lei natural . assim é o fundador. opinião comum.Sócrates não sabe. Se o fim do homem for o bem . Sublime nos lineamentos gerais de sua ética. desenvolverão uma gnosiologia acabada. É sabido que Sócrates levava a importância da razão para a ação moral até àquele intelectualismo que. acima das leis mutáveis e escritas. e a virtude mediante o conhecimento . não sentimento. rotina. em particular da ciência moral. expressão da vontade divina promulgada pela voz interna da consciência. universal. esta felicidade.

Aos métodos populares dos sofistas. que almejavam disseminar informações por meio de prestações formais. continha uma inevitável projeção moral. Sócrates nada tenha deixado escrito. justamente porque o conhecimento. como um mestre tradicional. ele podia mudar a opinião dos ouvintes e a "dele" através da retórica .principalmente para começar uma conversa . encerrava. Através da retórica e não sendo sofista. Em vez de dar aulas.como se nada soubesse. também uma concepção muito mais ampla do que o conhecimento dos filósofos primitivos. As contribuições permanentes e imediatas de Sócrates para a educação são estas: 45 . Nesta. Isto coincidiu com idêntica influência dos sofistas. pelo contrário. era dificilmente percebida pelo povo em geral. simplesmente fazia perguntas . embora se lhe atribua a autoria de alguns poemas. Mas. "Ensinar o homem é cuidar da sua própria alma" . sem precedentes. Ele convencia os que o escutavam de que o ponto de partida. em vez de dar-lhes conclusões já elaboradas. de formular a verdade por si mesmos. do que a informação dos sofistas e mesmo do que a concepção moderna do conhecimento. O diálogo permite que as idéias fluam mais facilmente do que através da escrita. podendo tanto arrebatar como irritar os seus ouvintes. que proclamam dar conhecimento exigido pelas novas condições da época. divaga-se e dispersa-se muito mais do que através da dialética. estes dois filósofos opuseram o método dialético ou de conversação.esta seria a principal tarefa a ser desempenhada por Sócrates. Talvez por isso. Para ambos. para Sócrates.o que seria mais difícil se tivesse usado a escrita. Sócrates achava que um livro era um mestre que falava. Em relação ao conteúdo constitui uma exaltação. porém. dava a impressão de querer aprender.Educação Sócrates não deixou textos escritos. era o mesmo para todos: saber que não se sabia. A influência imediata do ensino de Sócrates sobre a educação foi dupla. O objetivo desse método era gerar o poder de pensar. Sócrates tinha autoconfiança no que falava. talvez por isso. Sócrates preferisse debater os assuntos nas praças. pouco progresso mental se obtinha do simples fato de ministrar conhecimentos. Sócrates e Platão. na procura do saber. Ele parecia não querer ensinar. O seu alvo era formar espíritos capazes de tirar conclusões corretas. mas não respondia e. do conhecimento. debatia. Segundo o seu discípulo Platão. Tal distinção.

3. valoriza o pensamento dos pré-socráticos desenvolvendo-o em sistemas vários e originais. a ética une pela primeira vez e com laços indissolúveis a ciência dos costumes à filosofia especulativa. foi a influência das suas práticas nas escolas gregas daquele período. pela novidade de suas idéias. nem deixou algo de escrito. processo objetivo para obter-se conhecimento é o de conservação. Estas . desenvolveram exageradamente algumas de suas partes com detrimento do conjunto. mediante o pensamento socrático. Isto aparece imediatamente nas escolas socráticas.mesmo diferenciandose bastante entre si . 46 . o sub-objetivo é de reflexão e da organização da própria experiência. e culmina em Aristóteles. tenha. não apenas ministrar conhecimentos.juntamente com o elemento vital do pensamento precedente. dele depende. a educação tem por objetivo imediato o desenvolvimento da capacidade de pensar. Nesses aspectos.concordam todas pelo menos na característica doutrina socrática de que o maior bem do homem é a sabedoria. havia verdadeiros filósofos que se formaram com os seus ensinamentos. já aureolado pela austera grandeza moral de sua vida. descobriu o método e fundou uma grande escola. sua influência tem sido tão ampla e é ainda tão poderosa quanto 2. Fora desta escola começa a decadência e desenvolver-se-ão as escolas socráticas menores. o vértice e a conclusão da grande metafísica grega. Por isso. pois. Entre os seus numerosos discípulos. A reforma socrática atingiu os alicerces da filosofia. um valor funcional.1. saídos das escolas anteriores não lograram assimilar toda a doutrina do mestre. e consequentemente é de natureza universal e não individualista. no entanto. como Alcibíades e Eurípedes. a qual. isto é. A escola socrática maior é a platônica. de admirar que um homem. alguns. direta ou indiretamente. o conhecimento possui um valor prático ou moral. Sócrates não elaborou um sistema filosófico acabado. representa o desenvolvimento lógico do elemento central do pensamento socrático . como Xenofonte. toda a especulação grega que se seguiu.o conceito . Não é. Dentre estes. A doutrina do conceito determina para sempre o verdadeiro objeto da ciência: a indução dialética reforma o método filosófico. além de simples amadores. exercido sobre os contemporâneos tamanha influência. além dos vulgarizadores da sua moral (socratici viri).

provavelmente. Platão era um apelido que. mas julgava. poder construir indutivamente o conceito da sensação. da opinião. Dos 35 diálogos.diversamente de Sócrates. fundador da Academia e mestre de Aristóteles. A atividade literária de Platão abrange mais de cinqüenta anos da sua vida: desde a morte de Sócrates. ao campo antropológico e moral . de que o saber intelectual transcende. todavia. exasperando a doutrina da maiêutica socrática. ao contrário. que representa a evolução do pensamento platônico. muitos são apócrifos. em grego significa amplitude. desenvolvendo. outros de autenticidade duvidosa. imutável.Platão estende tal indagação ao campo metafísico e cosmológico. inatos no espírito humano.Platão (c. intelectualmente. Mas .C. exagerando. é a grande ciência que resolve o problema da vida. como também Platão. no seu valor.se possa de algum modo tirar o conceito universal.) Platão foi um filósofo grego. não admite que da sensação . A parte mais importante da atividade literária de Platão é representada pelos diálogos . Plátos. E. Discípulo de Sócrates.em três grupos principais. Sua filosofia é de grande importância e influência. fazia referência à sua caracteristica física. mutável. Este fim prático realiza-se. Sócrates estava convencido. a toda a realidade. do socratismo ao aristotelismo. Platão é o primeiro filósofo antigo de quem possuímos as obras completas. 428 – 347 a. e sustenta que as sensações correspondentes aos conceitos não lhes 47 . política. Platão. lógica e formal. tal como o porte atlético ou os ombros largos. moral. Platão ocupou-se com vários temas. conceptual. que limitava a pesquisa filosófica. diz que os conceitos são a priori. isto é. Acredita-se que seu nome verdadeiro tenha sido Aristócles. assim em Platão a filosofia tem um fim prático. largura. Pensamento platônico Como já em Sócrates. segundo certa ordem cronológica. que correm sob o seu nome. através da especulação.particular. metafísica e teoria do conhecimento. ou ainda a sua ampla capacidade intelectual de tratar de diferentes temas. até a sua morte. o saber sensível. porém. donde têm de ser oportunamente tirados. entre eles ética. relativa . no entanto. do conhecimento da ciência. dimensão. absoluto.

um conhecimento sensível verdadeiro . necessários.no dizer de Platão transcende inteiramente o mundo empírico. A ciência é objetiva. Ora. pois. racional . de um lado.constituem a origem. Platão aprofunda-lhe a teoria e procura determinar a relação entre o conceito e a realidade fazendo deste problema o ponto de partida da sua filosofia. no sentido platônico. no máximo.opinião verdadeira . devido à sua natureza inferior. material. são realidades objetivas. Pode haver conhecimento apenas do mundo imaterial e racional das idéias pela sua natureza superior. que são os conceitos. formas abstratas do pensamento. não há ciência. além do fenomenal. Assim a idéia de homem é o homem abstrato perfeito e universal de que os indivíduos humanos são imitações transitórias e defeituosas. pois algo que é não pode deixar de ser e algo que não é não pode ser. e sim a ocasião para fazê-los reviver. uma base real. portanto. representações intelectuais. As idéias não são. tudo está em constante movimento e é uma ilusão a estaticidade. dá ao conhecimento racional. o movimento é que é uma ilusão. mas apenas é possível. um objeto próprio: as idéias eternas e universais. ou alguns conceitos da mente. Estas realidades chamam-se idéias. objetivamente dotadas dos mesmos atributos dos conceitos subjetivos que as representam. não há mudança. tudo no mundo é individual. Do mesmo modo. sensível. Este mundo ideal. em que vivemos. 48 . ao conhecimento certo deve corresponder a realidade. diversamente de Sócrates. científico. à opinião verdadeira.que é precisamente o conhecimento adequado à sua natureza inferior. imutáveis e eternos (Sócrates). dá ao conhecimento empírico. um outro mundo de realidades. Deve. personalizados. contingente e transitório (Heráclito). os nossos conceitos são universais. o ser é a mudança. relembrar conforme a lei da associação. conceptual. logo. um objeto próprio: as coisas particulares e mutáveis. para o segundo. Sócrates mostrara no conceito o verdadeiro objeto da ciência. assim. modelos e arquétipos eternos de que as coisas visíveis são cópias imperfeitas e fugazes. Aqui devemos lembrar que Platão. do outro. como as concebiam Heráclito e os sofistas. ou a permanência de qualquer coisa. O problema que Platão propõe-se a resolver é a tensão entre Heráclito e Parmênides: para o primeiro. Deste mundo material e contingente. uma base e um fundamento reais. existir.

ou seja. e para Parmênides. chama-se anamnesis. A reminiscência Uma das condições para a indagação ou investigação acerca das idéias é que não estamos em estado de completa ignorância sobre elas. e sua mudança deve-se ao fato de ser uma pálida representação da idéia de árvore. e o que faz com que ela seja tão árvore quanto outra de outra espécie. o que faz com que determinada árvore seja ela mesma desde o estágio de semente até morrer. mais precisamente. a despeito de sua diferença daquilo que era quando mais jovem e de outras árvores de outras espécies (e mesmo das árvores da mesma espécie) é sua participação na idéia de árvore. Platão resolve esse problema com sua Teoria das Idéias. Platão recorre a um mito (ou uma metáfora) que diz que. Para Heráclito. a alma recorda-se da idéia daquele objeto que foi visto na Estrela. uma teoria que explica como se pode conhecer as coisas. Tal recordação. aos poucos. No exemplo da árvore. Segundo ele. em Platão. a participação desse objeto na sua idéia correspondente. e o impacto que ocorre faz com que esqueça o que viu na Estrela. Para explicar como se dá isso. uma pessoa lembra-se. o que faz com que ela seja ela mesma e seja uma árvore (e não outra coisa). Do contrário.Ou seja (por exemplo). E a mudança ocorre porque esse objeto não é uma idéia. Deste modo. não teríamos nem desejo nem poder de procurá-las. mas uma incompleta representação da idéia desse objeto. sua alma é "jogada" para a Terra. O que há de permanente em um objeto é a Idéia. é sempre a mesma e é uma ilusão sua mudança. Em vista disso. que viu no mundo das Idéias. da idéia daquele objeto. Mas ao ver um objeto aparecer de diferentes formas (como as diferentes árvores que se pode ver). a árvore está sempre mudando e nunca é a mesma. ou ainda. Platão também elaborou uma teoria gnosiológica. ao vermos um objeto repetidas vezes. onde localizam-se as idéias. ela nunca muda. uma teoria do conhecimento. tanto da árvore em relação a si mesma (com o passar do tempo ela cresce) quanto da árvore em relação a outra. antes de nascer. 49 . Quando uma pessoa nasce. com características tão diferentes? Há aqui uma mudança. é uma condição necessária (para tal investigação) que tenhamos em nossa alma alguma espécie de conhecimento ou lembrança de nosso contato com as idéias (contato esse ocorrido antes do nosso próprio nascimento) e nos recordamos das idéias por vê-las reproduzidas palidamente nas coisas. a alma de cada pessoa vivia em uma Estrela.

Podemos tomar como exemplo o Mito da Parelha Alada. madeira e toda espécie de matéria. homens que transportam objetos de toda espécie. no qual é investigada a natureza da justiça. Glauco – Estou vendo. do qual participam o filósofo Sócrates e os irmãos de Platão. de modo que não podem mexer-se nem ver senão o que está diante deles. 50 . No Livro VII Sócrates conta a Glauco o famoso mito da caverna como um retrato da ignorância humana. Tudo o que fazemos de bom. onde vivemos até hoje. Imagina homens numa morada subterrânea. com uma entrada aberta à luz. pois as correntes os impedem de voltar a cabeça. sem elas para nos sustentarmos. de perna e pescoço acorrentados. que deve ser superada pela educação: Sócrates – Agora imagina a maneira como segue o estado da nossa natureza relativamente à instrução e à ignorância. entre o fogo e os prisioneiros passa uma estrada ascendente. Sócrates – Imagina agora. Platão compara a raça humana a carros alados. Glauco e Adimanto. uns falam e outros seguem em silêncio. a luz chega-lhes de uma fogueira acesa numa colina que se ergue por detrás deles.toda a ciência platônica é uma reminiscência. em forma de caverna. Tudo o que fazemos de errado. dá forças às nossas asas. entre esses transportadores. tira força das nossas asas. A partir deste momento. naturalmente. Neste diálogo. Texto Complementar O Mito da Caverna Platão expôs o mito da caverna no Livro VII da República. que o transpõem: estatuetas de homens e animais. fomos condenados a vermos apenas as sombras do Mundo das Idéias. de pedra. A principal obra de Platão tem a forma de um diálogo imaginário. onde ele trata o tema da formação do ser humano. caímos no Mundo Sensível. Ao longo do tempo fizemos tantas coisas erradas que nossas asas perderam as forças e. semelhante às divisórias que os apresentadores de títeres armam diante de si e por cima das quais exibem as suas maravilhas. Imagina que ao longo dessa estrada está construído um pequeno muro. de Platão. esses homens estão aí desde a infância. ao longo desse pequeno muro. A investigação das idéias supõe que as almas preexistiram em uma região divina onde contemplavam as idéias. localizado no diálogo Fedro.

a dizer o que é? Não achas que ficará embaraçado e que as sombras que via outrora lhe parecerão mais verdadeiras do que os objetos que lhe mostram agora? Glauco – Muito mais verdadeiras. não sofrerá vivamente e não se queixará de tais violências? E. eles tenham alguma vez visto. se são obrigados a ficar de cabeça imóvel durante toda a vida? Sócrates – E com as coisas que desfilam? Não se passa o mesmo? Glauco – Sem dúvida. e o deslumbramento impedi-lo-á de distinguir os objetos de que antes via as sombras. mais perto da realidade e voltado para objetos mais reais. o obrigar. com os olhos ofuscados pelo seu brilho. se forem libertados das suas cadeias e curados da sua ignorância. vê com mais justeza? Se. Que se liberte um desses prisioneiros. sempre que um dos transportadores falasse. tais homens não atribuirão realidade senão às sombras dos objetos fabricados? Glauco – Assim terá de ser. naturalmente. Sócrates – Portanto. Sócrates – E se a parede do fundo da prisão provocasse eco. distinguir uma só das coisas que ora denominamos verdadeiras? 51 . a erguer os olhos para a luz: ao fazer todos estes movimentos sofrerá. Sócrates – Considera agora o que lhes acontecerá. não achas que tomariam por objetos reais as sombras que veriam? Glauco – É bem possível. a voltar o pescoço. por Zeus! Sócrates – Dessa forma. enfim. mas que agora. mais do que as sombras projetadas pelo fogo na parede da caverna que lhes fica defronte? Glauco – Como. à força de perguntas. a caminhar. o obrigarem a subir a encosta rude e escarpada e não o largarem antes de o terem arrastado até a luz do Sol. poderá.Glauco – Um quadro estranho e estranhos prisioneiros. achas que. de si mesmos e de seus companheiros. quando tiver chegado à luz. para começar. se pudessem se comunicar uns com os outros. mostrando-lhe cada uma das coisas que passam. Sócrates – Assemelham-se a nós. Sócrates – E se o forçarem a fixar a luz. que seja ele obrigado a endireitar-se imediatamente. Sócrates – E se o arrancarem à força da sua caverna. E. os seus olhos não ficarão magoados? Não desviará ele a vista para voltar às coisas que pode fitar e não acreditará que estas são realmente mais distintas do que as que se lhe mostram? Glauco – Com toda a certeza. numa tal condição. Que achas que responderá se alguém lhe vier dizer que não viu até então senão fantasmas. não julgariam ouvir a sombra que passasse diante deles? Glauco – Sim.

52 . Sócrates – Depois disso. contemplar mais facilmente. Sócrates – Imagina ainda que esse homem volte à caverna e vai sentar-se no seu antigo lugar: não ficará com os olhos cegos pelas trevas ao se afastar bruscamente da luz do Sol? Glauco – Por certo que sim. e que por isso era o mais hábil em adivinhar a sua aparição. os corpos celestes e o próprio céu do que. necessidade de se habituar a ver os objetos da região superior. Sócrates – Por fim. é a causa de tudo o que ele via com os seus companheiros. no seu verdadeiro lugar. a respeito do Sol. com o olhar mais vivo. da sabedoria que aí se professa e daqueles que foram seus companheiros de cativeiro. poderá. na caverna. Glauco – É evidente que chegará a essa conclusão. e que provocasse a inveja daqueles que. Glauco – Necessariamente. Preferirá sofrer tudo a ter de viver dessa maneira. enfrentando a claridade dos astros e da Lua. durante o dia. Sócrates – Terá. será o sol. Começará por distinguir mais facilmente as sombras. Depois disso. as imagens dos homens e dos outros objetos que se refletem nas águas. lembrando-se de sua primeira morada. ou virem juntas. de certa maneira. se tivessem recompensas para aquele que se apercebesse. que governa tudo no mundo visível e que. entre os prisioneiros. que é ele que faz as estações e os anos. a voltar às antigas ilusões e viver como vivia? Glauco – Sou de tua opinião. creio eu. os próprios objetos. durante a noite. pelo menos de início. com certeza Sócrates. o Sol e sua luz.Glauco – Não o conseguirá. em seguida. mas o próprio Sol. não preferirá mil vezes ser um simples lavrador. e não as suas imagens refletidas nas águas ou em qualquer outra coisa. suponho eu. são venerados e poderosos? Ou então. como o herói de Homero. que melhor se recordasse das que costumavam chegar em primeiro ou em último lugar. da passagem das sombras. poderá concluir. e sofrer tudo no mundo. Glauco – Sem dúvida. por último. não achas que se alegrará com a mudança e lamentará os que lá ficaram? Glauco – Sim. Sócrates – Ora. Sócrates – E se então distribuíssem honras e louvores. que poderá ver e contemplar tal qual é.

pois estas são corruptíveis. se pudesse fazê-lo? Glauco – Sem nenhuma dúvida. a idéia do bem é a última a ser apreendida. as verdadeiras causas. pois logicamente a verdade não pode variar. Conhecimento Platão não buscava as verdadeiras essências da forma física como buscavam Demócrito e seus seguidores. que seja além do físico (metafísico). e é preciso vê-la para se comportar com sabedoria na vida particular e na vida pública. Sócrates – Agora. variam. no mundo visível. tendo ido lá acima. e com dificuldade. ela engendrou a luz. esse alguém não o mataria. mas do além das coisas. não das coisas. Quanto a mim. deveria buscá-la em algo estável. sob influência de Sócrates buscava a verdade essencial das coisas. pois habituar-se à escuridão exigirá um tempo bastante longo.Sócrates – E se tiver de entrar de novo em competição com os prisioneiros que não se libertaram de suas correntes. isto significa buscar a verdade no interior do próprio homem. Platão não poderia buscar a essência do conhecimento nas coisas. esta imagem ao que dissemos atrás e comparar o mundo que nos cerca com a vida da prisão na caverna. ou seja. surgem e se vão. Como o filósofo deveria buscar a verdade plena. não fará que os outros se riam à sua custa e digam que. é preciso aplicar. no mundo inteligível. Quanto à subida à região superior e à contemplação dos seus objetos. mudam. ponto por ponto. voltou com a vista estragada. mas não se pode apreendê-la sem concluir que ela é a causa de tudo o que de reto e belo existe em todas as coisas. Logo. pelo que não vale a pena tentar subir até lá? E se alguém tentar libertar e conduzir para o alto. 53 . e a luz do fogo que a ilumina com a força do Sol. Porém o próprio homem não é meramente sujeito particular. se a considerares como a ascensão da alma para a mansão inteligível. a forma de buscar estas realidades vem do conhecimento. Nas coisas devem ter um outro fundamento. Glauco – Concordo com a tua opinião. a minha opinião é esta: no mundo inteligível. visto que também tu desejas conhecê-la. estando ainda sua vista confusa e antes que seus olhos se tenham recomposto. é ela que é soberana e dispensa a verdade e a inteligência. até onde posso compreendê-la. a verdade deve ser buscada em algo superior. meu caro Glauco. não te enganarás quanto à minha idéia. Só Deus sabe se ela é verdadeira. mas como um participante das verdades essenciais do ser. para julgar essas sombras. Esta busca racional é contemplativa. se há uma verdade essencial para os homens esta verdade deve valer para todas as pessoas.

função que exerceu até 336 a. ética. lógica. muitas vezes sob as árvores que cercavam o Liceu. poesia. Apesar de todos terem a alma perfeita. o homem pode ter a épisthéme (verdadeiro conhecimento).. porém este formalismo só é reconhecível na experiência sensível. Em 336 a. 54 .Platão assim como seu mestre Sócrates busca descobrir as verdades essenciais das coisas. que faria o homem dar-se conta das verdades que sempre já possuía e que o levavam a discernir melhor dentre as aparências de verdades e as verdades. metafísica. Aristóteles (384–322 a.) Foi um filósofo grego nascido em Estagira. política. um dos maiores pensadores de todos os tempos e considerado o criador do pensamento lógico. ou verdadeiro conhecimento filosófico. chamado por Filipe II. Ao contrário da Academia de Platão. O conhecimento era assim o conhecimento do próprio homem. A alma humana enquanto perfeita participa do mundo perfeito das idéias. A obtenção do autoconhecimento era um caminho árduo e metódico. Platão não defendia que todas as pessoas tivessem iguais acessos à razão. assim em Platão também a técnica e o mundo sensível eram secundários. Seu trabalho cobria os campos do conhecimento clássico de então: filosofia. levar o homem à bondade e à felicidade.C. fundou o Lykeion. quando Alexandre subiu ao trono. mas enquanto alma. isto é. Também o conhecimento tinha fins morais. Referente ao mundo material o homem pode ter somente a doxa (opinião) e téchne (técnica). O conhecimento que continha na alma era a essência daquilo que existia no mundo sensível.C. nem todos chegavam à contemplação absoluta do mundo das idéias. origem da palavra Liceu cujos alunos ficaram conhecidos como peripatéticos (os que passeiam). Assim a forma de conhecimento era um reconhecimento. No ano de 343 a.C. tornou-se preceptor de Alexandre (o Grande). nome decorrente do hábito de Aristóteles de ensinar ao ar livre. retórica. mas sempre ressaltando o homem não enquanto corpo.C. ao passo que referente ao mundo das idéias. o Liceu privilegiava as ciências naturais. que permitia a sobrevivência do homem.

sentindo-se ameaçado. Aristóteles é o criador da lógica. o universal e o necessário. as formas são imanentes na experiência. mas o ponto de partida da dedução é tirado . a poética em estética e técnica. Aristóteles criou o núcleo propulsionador de toda a filosofia posterior. Teofrasto (371 a. por sua vez. destarte. em face do qual a atitude inicial do espírito é o assombro do mistério. a filosofia é essencialmente teorética: deve decifrar o enigma do universo. O seu problema fundamental é o problema do ser. prática e poética. Segundo Aristóteles. divide-se em física.287 a. da ética à poesia.C. pouco depois da morte de Alexandre. . o seu mais importante comentarista.) e retirou-se para Cálcis. pois. Trata 55 . Mais realista do que o seu professor. mas parte da experiência. zoologia. é denominada por ele analítica e representa a metodologia científica..mediante o intelecto da experiência. dividir-se-ia em teorética. sobre a base socráticoplatônica. são as essências imutáveis e a razão última das coisas. Apenas algumas idéias. A teorética. isto é. A filosofia. todo o saber humano. Depois. segundo Aristóteles. Entretanto. não o problema da vida. no século XIII. Aristóteles dirigiu a escola até 323 a. conceptual como a de Platão. na Eubéia. deixou Atenas afirmando não permitir que a cidade cometesse um segundo crime contra a filosofia (alusão ao julgamento de Sócrates). onde morreu no ano seguinte. abrangendo. Aristóteles percorre todos os caminhos do saber: da biologia à metafísica. quando é conhecida a versão (orientalizada) de Averróis. Deixou a escola aos cuidados de seu principal discípulo. Pensamento aristotélico – A Gnosiologia Com Platão. a filosofia prática divide-se em ética e política. em que está a solução do seu problema.C. S. as formas e suas relações. Tomás de Aquino vai incorporar muitos passos das suas teses no pensamento cristão. A obra Aristotélica só se integra na cultura filosófica européia da Idade Média.C. através dos árabes. matemática e filosofia primeira (metafísica e teologia). Os sentimentos antimacedônios dos atenienses voltaram-se contra ele que. racional. da lógica à política. medicina e não só estabeleceu as bases de tais disciplinas quanto sua metodologia científica. é dedutiva.biologia. A filosofia aristotélica é. de que constituem a essência. O objeto próprio da filosofia. como ciência especial. nos indivíduos. da psicologia à retórica. Impossível resumir a fecundidade do seu pensamento em todas as áreas. portanto.

que subsistem por si e os acidentes. desaparece. A ele se deve a origem da linguagem técnica das ciências e o princípio da 56 . É a filosofia cristã que vai dar à divindade o poder da Criação. a matéria fica. Os objetos sensíveis são constituídos pelo princípio da perfeição (o ato). Quando se morre. uma posição no tempo e no espaço.Aristóteles os problemas lógicos e gnosiológicos no conjunto daqueles escritos que tomaram mais tarde o nome de Órganon. como idéia era o objeto da ciência platônica. As ciências platônica e aristotélica são. A sua observação da natureza. a filosofia aristotélica é dedução do particular pelo universal. Mas para Aristóteles a divindade não tem a faculdade da criação do mundo. Há duas espécies de Ser: os verdadeiros. A teoria das causas. porquanto o primeiro elemento depende do segundo. a causa eficiente (a que transforma a matéria) e a causa final (o objetivo com que a coisa é feita). Objeto essencial da lógica aristotélica é precisamente este processo de derivação ideal. a multiplicidade e a mudança. Aristóteles opõe-se. o objeto da ciência aristotélica é a forma. No sentido estrito. Também aqui se segue à ordem da realidade.a causa material (aquilo de que uma coisa é feita). sem dispor dos mais elementares meios de investigação (o microscópio. realistas: tudo que se pode aprender precede a sensação e é independente dela. através do qual se lhes permite a aquisição de novas perfeições. uma causa não causada. onde o fenômeno particular depende da lei universal e o efeito da causa. Sob o ponto de vista metafísico. este existe desde sempre. Aristóteles é o criador da biologia. a forma. apesar de ter hoje um valor quase só histórico não deixa de ser extraordinária. a causa formal (aquilo que faz com que uma coisa seja o que é). etc. O que mais o interessava era a natureza viva. que corresponde a uma derivação real. portanto. ambas objetivas. uma quantidade. a potência. frequentemente. o que caracteriza as qualidades particulares das coisas. uma passividade. a divindade. Todas pressupõem uma causa primeira. O conhecimento é o conhecimento das causas . a substância plena que determina o movimento e a unidade do universo. que é a realidade suprema. o motor imóvel do cosmos. explicação do condicionado mediante a condição. Para o estagirita não é possível pensar uma coisa sem lhe atribuir uma substância. O ato explica a unidade do ser. por exemplo). a Platão e à sua teoria das Idéias. uma qualidade. uma atividade. são enquanto são e pelo princípio da imperfeição (a potência).

Todas as coisas se separam.sua sistematização e organização. Uma pessoa virtuosa é a que possui a coragem (não a covardia. provavelmente inacabados por serem apontamentos para as lições. não a audácia). assim chamada posteriormente (ele preferiu sempre a designação de Analítica). Um dos vetores fundamentais do pensamento de Aristóteles é a Lógica. porém.não a covardia ou a temeridade). o justo meio. a cidade. Para Aristóteles é também o que percepcionamos ou sentimos. corretamente. ou é um Deus ou uma besta. O verdadeiro homem virtuoso é o que dedica largo espaço à meditação. 57 . na alma dos homens. A vida da razão é a virtude. sempre. as suas tarefas. A Lógica é a arte de orientar o pensamento nas suas várias direções para impedir o homem de cair no erro. Tudo se move e existe em círculos concêntricos. Enquanto Platão age no plano das idéias. o filho de Nicómaco usa também os sentidos. Daí a diferença de estilos: Platão é poético. usando só a razão e mal reparando nas transformações da natureza. em função do lugar próprio que ocupam determinado pela natureza. preferindo. O que vive. deve viver usando. a riqueza. A razão orienta o ser humano para que este evite o excesso ou o defeito (a coragem . O fim último do homem é a felicidade.é o reflexo do que existe no mundo das idéias. Aristóteles é pormenorizado. O Organon ficará para sempre um modelo de instrumento científico ao serviço da reflexão. Aristóteles interessa-se por estas e pelos processos físicos. Esta se atinge quando o homem realiza. à reflexão. prudentemente. Mas nem o próprio sábio se pode dedicar. Não deixando de se apoiar na razão. O Estado deve ser uma associação de seres iguais procurando uma existência feliz. O homem é um ser social. na polis. devidamente. a competência (a eficiência). isoladamente. totalmente. tendente a um fim. Para Platão a realidade é o que pensamos. Aristóteles dirá: o que está na alma do homem é apenas o reflexo dos objetos da natureza. moderadamente os prazeres e conhecer. o seu trabalho. O que vemos na natureza diz Platão . a qualidade mental (a razão) e a nobreza moral (a ética). o fragmento ao detalhe. o que deve temer. a razão está vazia enquanto não sentimos nada. ou seja. Chegaram até nós 47 textos do fundador do Liceu. O homem deve encontrar o meio-termo.

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