Pé de milho e outros contos
Leandro Rizzi dos Santos

Maio de 2013.

athousandways.blogspot.com

Sobre

Esses 4 contos aqui reunidos, nessa espécie de mini antologia, foram escritos entre 2003 e 2006 e publicados em finados endereços hospedados pelo geocities e blogspot, respectivamente, um antigo site pessoal e um blog que eu adorei alimentar no inicio da década passada.

A qualidade dos contos é pequena. Bastante pequena, alguns dirão. Porém, é imprescindível se levar em consideração o contexto da época (19 - 22 anos, leitor de autores que hoje não leio mais e, por consequência, influenciado por eles) e o inerente amadorismo do autor. Mesmo assim, ao realizar a revisão deles, já com o devido distanciamento histórico, ainda me traz prazer e satisfação reler certas passagens e por isso acredito que alguns trechos hão de agradar você, corajoso leitor. Esses contos foram minhas únicas experiências na literatura até então, na época faziam parte de um destemido plano a longo prazo que vislumbrava a conclusão de um elaborado romance para dali 5 anos (mentira).

Como disse, realizei uma pequena revisão em todos os textos. Modificação alguma na estrutura geral, apenas a troca de algum adjetivo, a reformulação de um parágrafo, o acréscimo de uma virgula ou outra. Em resumo, o crime literário segue intacto.

Um conto dessa mesma época chamado Pato negro foi sumariamente descartado após a sua leitura depois de quase uma década da sua conclusão. Bastante ruim: um texto experimental que, definitivamente, não deu certo.

Feito o alerta, espero que a leitura de Pé de milho e outros contos seja de profundo regozijo, ou quase isso.

O autor.

A banheira
Havia uma semana que Carlos não deixava a sua banheira. Sua pele parecia não suportar mais o contato com aquela água imunda, e mandava esse recado através de pequenas manchas enegrecidas que haviam surgido nas últimas vinte e quatro horas. Fixadas pouco abaixo do umbigo, elas se estendiam até quase a altura do seu pênis. Para Carlos, o cheiro não era mais nocivo. Já não lhe fazia mais diferença alguma. Suas narinas tinham se acostumado aquele cabuloso odor que brotava d’água.

O televisor velho, uma das primeiras versões com controle remoto fabricadas pela Philips, estava posicionado acima do videocassete, sob uma precária mesa, herança de seus falecidos pais. Carlos só o desligava quando se sentia sonolento, não importava que horas fossem. Isso, sequer ele conseguia distinguir: nenhuma fresta de claridade ultrapassava as duas janelas daquele grande banheiro ao longo de todo dia. Às vezes, sem que desejasse, ficava sabendo do horário e da data do dia ao ligar a tv. Na diagonal superior direita, logo abaixo do número do canal, em inglês, apareciam em letras garrafais: june three, january four, 08:00 am, 10:00 pm ou seja lá que data ou horário fossem. Em certas ocasiões, após ligar a tv, Carlos instintivamente fechava os olhos, mantendo-os assim por tempo suficiente para que a dispensável informação desaparecesse da tela.

Até o momento, o filme pornográfico de pouco mais de duas horas de duração que permanecia dentro do quatro cabeças da panasonic, já tinha sido assistido quatro dezenas de vezes, e rendido exatas quarenta e quatro (por vezes descompromissadas, noutras frenéticas) masturbações. Sem dúvida uma coincidência, visto que o número quatro parece perseguir Carlos; cidadão nascido aos quatro de abril de setenta e quatro. Uma quarta-feira.

Tudo isso era descrito no seu pequeno bloco, mantido junto duma bic azul, ao lado da banheira. Utilizava-o também para se distrair com anotações de pensamentos variados que lhe visitavam vez por outra, principalmente quando se dispunha a dar umas tragadas em cigarros de maconha, previamente enrolados com admirável finesse por ele e armazenados a salvo dentro de uma niqueleira, do lado direito da banheira.

Parágrafos como esse, abaixo, sem o mínimo de nexo a não ser, suponha-se, para o seu autor, foram escritos com a pouca claridade que a televisão despejava nele, em momentos que não se sabe quais foram, pois, como já mencionado, brilho do sol ou breu da noite não adentravam àquele ambiente.

"Mestre, estás cuidando bem da cidade ou delegaste o Valda para administrar nossa província? Quando voltar, não quero assistir gracejo algum de qualquer transeunte, tão pouco quadrúpedes de semblante fechado, desfilando e evacuando aquele fedorento material pastoso pelas árvores e flores de nossas humildes praças. É necessário ordem. Se for preciso contrate tiranos de outros vilarejos. Por vezes, políticos e pessoas de influência se fazem necessárias, contanto não confie cegamente em tais cidadãos, tratam-se de aristocratas, pertencem a alguma desconhecida oligarquia. Quanto ao povo, seja rude. Deveriam não dar as caras, no entanto sempre aparecem, vindos de todos os cantos, de todos os lugares. Nunca compreendi o motivo das pessoas saírem de suas casas".

O caderninho tratava-se da única coisa que ele fazia absoluta questão de não emporcalhar. Tentava limpar sua mão na lajota fria do chão do banheiro, sempre que julgava necessário escrever algo nele. Biscoitos de aveia e mel, bolachas de água e sal, bananas pouco maduras, alguns litros de um guaraná desconhecido e muitas balas de funcho era tudo que havia sobrado da espécie de rancho que Carlos havia posto ao redor de sua banheira quando do início dessa estranha semana. As embalagens de alimentos que ele havia consumido se encontravam aos montes jogadas no entorno da banheira. Carlos não podia ser considerado gordo em ocasiões anteriores, porém, tendo ingerido uma quantidade calórica mínima nos últimos dias, emagreceu substancialmente. Mesmo após algumas tragadas dispensadas nos seus baseados, a fome o assolava de maneira reduzida, sendo plenamente saciada com duas ou três bolachas e um gole de guaraná.

Qualquer um que pusesse os pés naquele ambiente, não suportaria o odor, a visão. Carlos não se importava, parecia sequer notar. Sua tarefa era mecânica, sem alterações. Apenas ligava a televisão e se deliciava com canais estrangeiros e de cartoon do sinal a cabo. Quando se sentia disposto a um orgasmo, trocava de canal, acionava o seu videocassete e dava play.

Por vezes, insatisfeito com o aspecto da água, tentava, em vão, retirar um pouco dos dejetos que ali se encontravam. Não conseguia, pois, tal como areia, aquele misto de fezes, urina, esperma e água, resvalava por entre seus dedos, sobrando, quem sabe, uma quarta parte do que ele pretendia retirar ao moldar as suas mãos em forma de concha. Isso, por que, provavelmente por conta de maus hábitos, seus excrementos eram semelhantes aqueles que defecamos quando atingidos por alguma intoxicação alimentar: mole feito um caldo pouco espesso.

Ao longo da semana, por diversas vezes ouviu o soar de sua barulhenta campainha. Em determinado momento, cogitou que algo de real importância pudesse ter ocorrido, tamanha a frequência e intensidade com que ela soou. Por alguns segundos pensou no que teria feito o cidadão dispensar quase um minuto de ininterruptas batidas a sua porta. Passado esse tempo, tornou a soltar gargalhadas com um desenho qualquer que assistia naquele instante.

Telefone convencional, Carlos não possuía. Celular, desligado. Seu e-mail pessoal, via de regra, recebia apenas correntes e forwards cretinos. Poucos sabiam da existência de seu blog, que sofria alguma atualização apenas quando desejava compartilhar certo texto ou imagem que julgasse interessante e não desejava fazer isso utilizando as más frequentadas redes sociais. Então, não é necessário dizer que notícia alguma acerca dele se ouviu falar em qualquer lugar, por mais inóspito ou frequentado que fosse, durante toda a semana.

Somos levados a crer que tudo que até aqui foi mencionado tenha acontecido numa época quente de verão. Em momento algum, pareceu Carlos sentir-se incomodado com a temperatura da água em sua banheira. Fosse época fria, ou até mesmo morna e, estando ele submerso até o pescoço naquela imundice, seria pouco provável que se sentisse tão a vontade quanto aparentava se sentir.

Ao acionar o power do controle remoto do seu velho Philips, notou a inscrição july seven, 06:33 am, ali, na diagonal superior direita, logo abaixo do número do canal. De imediato, retirou-se da banheira e foi tomar uma ducha. A pouca ingestão de alimentos parecia não o ter debilitado. As manchas davam sinal de que em breve desapareceriam de seu corpo. Nada com que se preocupar. Durante o banho, utilizou de tudo: xampu, sabonete e condicionador. Aproveitou, enquanto era massageado pelo forte jato d’água para barbear-se e escovar os dentes. Após, já seco, dê-lhe loções faciais, creme anti-acne e hidratantes variados. Carlos sempre foi muito reconhecido pelo cuidado com que tratava a sua aparência.

Depois de uma semana, abriu a porta do banheiro, e deixou suas narinas serem invadidas por um ar com teor reduzido de fedor, mas, ainda assim, reprovável à qualquer ser humano. O cheiro do banheiro de Carlos, provavelmente, tenha se estendido até os corredores do prédio. Incrível foi ninguém ter posto abaixo a sua porta, a procura de um qualquer em já avançado estado de decomposição.

Encaminhou-se até o quarto, abriu o grandioso armário de mogno e vestiu-se de um pulôver preto e calças brancas de veludo. O sapato que calçou era de um marrom escuro, engraxado com maestria. O relógio que prendeu ao braço esquerdo reluzia, trazendo centralizada a inscrição CK. Enquanto fechava os botões do blazer, ligou o celular e telefonou para Cristina, sua empregada, a quem determinou que viesse a sua casa na mesma tarde.

Sem se esquecer de sua pasta e da chave do Mercedez, saiu porta a fora. Suas férias haviam chegado ao fim. Dentro de menos de uma hora, Carlos teria de ocupar novamente o seu lugar na corporação. Vice-presidente.

Cinza
Não sei dizer a quantos dias me sinto assim. Estou péssimo, como nunca antes. Deve fazer quase dois meses que essa sensação ruim me acompanha, impregnada em mim, perturbadora e arruinante. De inicio, imaginei que tudo não tardaria a passar. Ledo engano. O misto de melancolia e frustração transformou-se numa torrente de sensações que desencadearam uma profunda angustia, humanamente intolerável, absolutamente desesperadora. Nunca havia me fixado tanto em algo. Suzana não saia da minha cabeça. Em momento algum.

Minhas tentativas de dormir cedo acabavam se refletindo em aborrecimento e incômodo. Quanto mais cedo dormia, mais cedo acordava. Não raro, despertava muitíssimo antes do horário que havia programado o alarme do radio relógio. Com frequência assistia da janela do apartamento o lindo clarão que o sol proporcionava antes de surgir. As cores variadas num céu em gradiente, que iniciava laranja e tornava-se rubro até obter uma tonalidade azul, primeiro esmaecida e depois quase como um azul marinho. Tão logo o astro-rei surgisse, tratava de fechar as cortinas. Nunca soube lidar com a sua ofuscante claridade.

Desconheço como conseguiria preencher os meus minutos se não houvesse a ocupação que o emprego me proporciona. Por pior que fosse a tarefa de trabalhar em um banco, mais especificamente em um dos caixas dele, sentia-me indiferente com relação a isso. Depois de uma saudação mínima ao cidadão postado à minha frente, eram necessários segundos para realizar alguns cálculos, ler códigos de barras, receber uma quantia e devolver algum troco quando fosse o caso. Não era necessário durante todo dia nenhuma ação do meu intelecto, minhas atitudes e movimentos eram realizados maquinalmente. É impressionante como a evolução dos aparelhos desenvolvidos pelos homens tem seus melhores efeitos no que existe de mais banal em nosso cotidiano. Teria desistido de qualquer emprego, não fossem os aparelhos que nos privam de ter de raciocinar lógica e sensatamente.

Nunca fui adepto de droga alguma, exceto o álcool. Inusitadamente, tornei-me um usuário ferrenho daquilo que outrora abominava por apenas trazer-me sono e fome doentia; a maconha. Reconheço que nada tem me ajudado tanto a suportar esses dias cinzentos como ela. Até os vinte anos, sequer havia fumado um baseado. Hoje estou viciado nos efeitos que ela me proporciona; primeiro uma euforia incessante, uma vontade de me mover, fazer qualquer coisa, como se uma bateria fosse conectada ao meu corpo, inflado de um combustível sem fim. Depois aquela leveza corpórea, a vontade de sequer se mover, apenas ouvir, ler ou vislumbrar algo, perdido em pensamentos. Pensamentos bons, felizes e otimistas. O efeito acaba e o otimismo se esvai lentamente ou de forma abrupta. Sempre parte.

Final de semana, acordei cedo.

Uma barulheira incessante, proveniente do apartamento em reformas de algum vizinho, não permitiu que o meu sono fosse além das oito da manhã. Reconheço que, mesmo sob silêncio, não ultrapassaria esse horário.

Sem fome, empurrei uma banana e um copo de leite. Já havia notado que o domingo me reservava um céu azul lindíssimo, com traço algum de nuvens. Providenciei um chimarrão, reuni algumas guloseimas, fechei dois baseados pequeninos, juntei alguns cd's, o disc-man e sai de casa. Teria mentido se dissesse que possuía um destino específico. Estava disposto tão somente a me deitar numa grama em algum lugar calmo, sem barulho, pessoas e qualquer coisa que ousasse me impacientar. Pretendia esparramar-me, ouvir músicas, comer, fumar e beber. Encontrava-me estranhamente calmo, nem feliz nem triste, apenas dotado de uma tranquilidade reconfortante, uma sensação pouco assimilável caso ousasse descrevê-la a qualquer ouvido alheio, por mais que me esforçasse.

Ao término do domingo me dei conta de que um dos melhores lados de se viver em Curitiba são as mulheres. Não imagino um lugar onde elas possam existir em maior número e com tamanha qualidade. Basta ir até a padaria para se ter uma ereção.

Há duas semanas atrás, exatamente num domingo, pus fim a maior seca de minha vida. Desde a minha primeira foda nunca tinha ficado tanto tempo sem comer alguém. Convoquei uma puta por telefone, mesmo. Não estava disposto a ir até um desses prostíbulos fedorentos e, além do mais, a única serventia que um jornal dominical tem é a seção de acompanhantes dos classificados. Optei por uma cidadã de nome Martina. O anúncio chamava a atenção: um metro e setenta, cinquenta e três quilos, morena de olhos claros. Baita mentirosa essa Martina. Nada de olhos claros, sua retina era de um marrom escuro e o um metro e setenta do anúncio não passava de, vá lá, um metro e sessenta ali, na minha frente. Não tenho a menor noção de quanto ela pesava, mas ao menos nisso ela aparentava dizer a verdade. Seu corpo era belíssimo, suas medidas eram pequenas, dava gosto de ver, tocar, apalpar, beijar, lamber.

Passamos o dia trepando. À tardinha, acordei-me com os movimentos de Martina deixando a cama, partindo em direção a cozinha. Auxiliado pela luz do sol, que ingressava pela fresta da janela entreaberta de meu quarto, vislumbrei de relance o quão bela era a sua bunda, livre de qualquer traço de celulite, estria, ou algo que o valha. Não estava com tesão algum, mas foi o mínimo resquício que ainda existia dele que me fez questioná-la, assim da sua volta, quanto à possibilidade ou não de um sexo anal. Ela me disse que o preço aumentaria e eu julguei que o investimento era válido. Não foi nada muito entusiasmante. Martina ficou quieta ao longo de toda sodomia, sequer um gemido abafado saiu de sua boca até o meu gozo. No fim das contas paguei duzentos e oitenta reais pelas horas que Martina permaneceu comigo. Disse a ela que tornaria a entrar em contato, pechinchei um desconto para uma próxima vez, e disse adeus. Ao fechar a porta, dei-me por conta de que tinha acabado de utilizar os serviços de uma prostituta pela primeira vez na vida. Ao sentar na poltrona com uma lata de cerveja, notei que teria de me socorrer nos braços de uma puta ainda muitas vezes. Sem lamentos, portanto.

Conforme previra, necessitei dos serviços de Martina cinco vezes desde o natal. Nessas experiências foi interessante notar que ela pouco se importava com o seu período de menstruação. Nada mudava enquanto ela se encontrava menstruada. De certa forma, ela passava a impressão de que gostava ainda mais de receber o meu falo no meio de suas pernas. Seus gemidos aumentavam consideravelmente de volume, minhas costas sofriam com as suas compridas unhas e o meu lençol terminava a noite imundo de um vermelho mal cheiroso. Até cogitei ir a uma dessas festas que acontecem aos sábados à noite em qualquer canto da cidade, porém, a hipótese me deslocar a um lugar desses, assistir uma horda de pessoas desagradáveis desfilando suas caras roupas vestindo seus músculos enrijecidos pela academia da semana, voltar para casa sem ninguém e gastar quase a mesma quantia que Martina me cobraria para proporcionar horas de prazer, repugnou-me por completo.

Melhor ficar em casa. A cada contato que estabelecia com Martina, ela ficava mais e mais íntima, desabafando assuntos acerca da sua família, da faculdade que trancou e pensava em voltar, da cadela vira-lata que possuía, do filme brasileiro que havia assistido na semana passada, de todos seus problemas. Isso poderia não ser bem digerido por mim, reconheço,  porém a intimidade que ela demonstrava era correspondida integralmente. Carente como estava, acabava por despejar nela toda minha sofreguidão. Martina me ouvia, sem comentar qualquer coisa, apenas escutava minhas lamurias pacientemente. Seu semblante adquiria um traço da mais pura compaixão, fraternal o bastante para que se parecesse com algum familiar, uma irmã ou mãe disposta a me ajudar da maneira que fosse possível. No caso dela, trazendo-me prazer, proporcionando-me valiosas orgias, colaborando quem sabe da mais imprescindível forma que se possa conceber. Eu sabia que era um cliente especial. Isso ficava bem claro ao sempre me fornecer descontos, ou mesmo me cobrar dinheiro algum sob a desculpa de que não estava querendo me deixar sem nada nos bolsos. Era notório que, a maneira dela, ela simpatizava comigo.

Nesse ínterim, cheguei a receber uma correspondência de Suzana. O texto não continha nada de muito especial, tão somente pequenas informações de como andava a sua vida, suprimindo qualquer menção ao relacionamento que ela estava mantendo, e perguntas de praxe; como estão seus pais, por onde tem andado, o que tem feito, como vão as coisas. Não respondi. No último encontro que mantivemos, prometi que, sob hipótese alguma, manteria qualquer contato com ela. Antes disso fiz com que ela me prometesse ligar, assim que rompesse o seu namoro. Como uma marionete, nas mãos dela, quando e onde ela quisesse. E todas as noites, durante muito tempo, minutos antes de me deitar, tratava de levantar o volume da campainha do telefone, supondo que ela pudesse vir a ligar durante a madrugada. O desejo e a esperança pelo telefonema eram tão reconfortantes, que chegavam a auxiliar a dura tarefa que havia se tornado dormir.

Esforçava-me para manter distância de antigos retratos dela. Quando era abatido por uma sensação eufórica e alegre, na maioria das vezes após fazer uso de maconha, me concedia o prazer de pegar meu grosso álbum de fotografias. Rapidamente buscava as últimas páginas dele, repletas de nossas imagens ou retratos apenas dela. Bastavam poucos segundos para que me recordasse da forma do seu rosto, das suas expressões faciais, do seu sorriso, de tudo. Era como se ela estivesse ali. As recordações que em doses enormes abatiam-me naquele instante, proporcionavam um regozijo fora do comum. Nem mesmo as deliciosas tardes e noites desfrutadas com Martina se aproximavam daquilo. A atual situação em que ela se encontrava permanecia distante, não possuía significado algum ou esse significado não possuía importância, era desconsiderado. Meus pensamentos naquele momento, sejam eles quais fossem, davam lugar a um somatório infinito de boas lembranças, belas recordações, pensamentos profundamente felizes. Ao fechar o álbum, depois de vislumbrar por minutos uma fotografia dela, de corpo inteiro, na praia, fiquei momentaneamente de pau duro. Tratei de relaxar, resvalei minhas costas na macia almofada do sofá, tirei os tênis com o auxílio dos pés, fechei os olhos e esperei essa sensação passar. Não notei quando meu órgão tornou-se flácido, acabei dormindo antes, sendo acordado quando a sala já havia se enchido de uma densa escuridão e o interfone tocava estridentemente.

- Oi Ricardo, sou eu, Suzana.

Meus batimentos cardíacos multiplicaram-se de um segundo para o outro. Tenso, balbuciei a monossílaba resposta:

- Oi.

- Se não estiver ocupado, posso subir um pouquinho?

Não respondi. Pressionei a tecla do interfone por alguns segundos, possibilitando que ela entrasse no prédio. Salvo algum congestionamento, ou uma improvável falha em seu engenhoso mecanismo, o elevador atingiria o andar de meu apartamento no máximo em um minuto.

A mulher que tanto sofrimento havia me trazido, estaria ali, em minha frente, dentro de segundos. Uma espécie de formigamento toma conta do meu corpo. Mesmo não sentindo calor, transpiro intensamente.

A campainha soa. Abro a porta.

Na minha frente, a mesma mulher que conheci. Nenhuma mudança perceptível, a não ser a coloração de seus cabelos, agora mais negros. Suzana dispensa um beijo na minha face esquerda antes de eu lhe convidar para entrar.

Ela entra e se acomoda como se estivesse sozinha. Ela se estira sobre o sofá de modo atraente e sensual e permanece quieta. Um silêncio sepulcral toma conta do ambiente. Não arrisco abrir a boca, por mais que desejasse saber o porquê daquela inesperada visita. Sento e aguardo por uma má notícia, parece inevitável que isso ocorra, pressinto algo ruim.

Não suportando mais o silêncio formulo uma pergunta simplória:

- Deseja beber algo?

Mesmo antes de ouvir a resposta, já vou impulsionando meus braços da cadeira e me levantando. A cozinha, nesse instante, o único refúgio.

Foi enquanto eu enchia o copo com água mineral que ela me disse o porquê da visita, o porquê de ter vindo até mim. A notícia me anestesiara de tal forma que meus sentidos pareceram falhar por alguns instantes. Um vegetal, sem conseguir pensar, sem conseguir disfarçar o nervosismo que me consumia, e o mais acelerado batimento cardíaco que meu corpo já havia atingido. Ao terminar o seu relato, Suzana de imediato se levantou e caminhou em direção a porta. Provavelmente não queria que eu visse que ela também chorava. Nesse instante, motivado pelo temor de que saísse em fuga do apartamento, voltei a raciocinar. Alterado, gritei agudamente por ela. Suzana não possuía mais intenção alguma de parar, dissera o que, sabe-se lá por quais motivos, pretendia dizer quando foi até a minha casa, e partia agora numa corrida desenfreada ao longo do corredor do edifício, dirigindo-se para o elevador, ainda estacionado em meu andar.

Não conseguindo segurá-la a tempo, decidi ir pela escadaria, mas quando atingi o terceiro degrau notei que não devia ir além dali. Parei de supetão, colidindo com o corrimão. Agarrando-me nele, desabei no chão. Eu não podia ir atrás dela, não possuía o direito, e temia que se tornasse a ficar de pé, não possuiria forças para manter essa decisão. Meu desespero egoísta não permitiria. Eu sabia disso.

Só muito depois decidi me levantar. Havia novamente adquirido uma espécie de comportamento primitivo, pouco sensato, recheado de traços irracionais. Novamente uma sensação de anestesia tinha ínicio sobre mim, produzindo um desencadeamento em série de más sensações. Um momento bastante propício para um suicídio, fosse eu adepto, ou melhor, tivesse eu coragem, da infeliz prática.

Passados vários anos, ainda não me sinto curado. Sigo buscando-a em outras mulheres. O cheiro dela em outros pescoços, seus pequenos seios no peito de outras meninas. Sinto que em nunca conseguirei gostar tanto de alguém. Ainda sinto na carne o adeus e os tristes significados dessa expressão.

As lágrimas escorrem pelos meus olhos, percorrem minha face e se espatifam na mesa enquanto eu lamento friamente não poder regressar no tempo, modificá-lo ao meu gosto, da minha forma e como eu bem entendesse.

Desistência
Às 8 : 11, como de praxe, levantara atrasado. Vestiu-se da forma mais rápida possível, tomou em três goles o copo de leite e urinou. Havia três dias que a pasta de dente tinha acabado, então, antes de partir, abriu a gaveta da cômoda e pegou um chiclete com a intenção de apagar qualquer traço de cheiro ruim que pudesse surgir de sua boca ao longo da manhã. Descarrilado, completou os 57 degraus do seu prédio em tempo inferior a um minuto. Já na calçada, enquanto caminhava em meio a outros de sua espécie, notara que o exercício havia lhe proporcionado, além da visível ofegância, traços de suor embaixo de seus braços. Rodelas d’água eram explicitas por sobre a camisa bege que vestia. Lembrou do desodorante que havia esquecido de usar. Apressado, continuou o seu caminho.

Trôpego, pôs o primeiro pé dentro do território da empresa quando o seu falsificado Cassio digital marcava exatas 08 : 30. Desferiu cinco acenos e três votos de bom dia ao longo do trajeto que levava do pátio ao seu cubículo. Nove, foram às vezes em que ligou, desligou, e tornou a ligar seu antiquado desktop. Todas, sem sucesso. Com auxilio do seu polegar opositor, pegou uma esferográfica e deu inicio ao preenchimento de quatro formulários que estavam dentro de sua pasta.

Ao primeiro bocejo, decidiu levantar e ir buscar uma xícara de café. Foi a exatos quatro passos da cafeteira que Victor, estagiário da empresa a três dias, esbarrou em seu corpo. O pulso, recém-vindo de cirurgia aguentou a queda, no entanto, seu membro não pôde conter as risadas que se iniciaram. Funcionários de segundo escalão, boys, e até mesmo um idoso faxineiro riam ruidosamente. Escárnio puro: o volume das gargalhadas era tanto que elas podiam ser ouvidas até no saguão. Recusando a ajuda de Victor, pôs-se de pé. Agora, munido de um sentimento inexprimível, servia-se do café. Sua xícara já estava a ponto de transbordar quando mergulhou naquele liquido negro dois torrões de açúcar. Ele sequer lembrava de que havia deixado de ingerir açúcar há duas semanas numa frustrada tentativa de redução de peso. Sua concentração, respeito e civilidade ainda não haviam voltado à dose normal. Aquela, utilizada pelos humanos no dia a dia.

O caminho de volta ao cubículo, antes percorrido em passadas lentas, agora, era cumprido com rapidez. A ofegância havia regressado, porém, não era nem um pouco parecida com aquela sentida minutos antes, quando saiu de casa. Era diferente na sua essência, era tensa e nervosa. Ela aumentava consideravelmente a vermelhidão de seu rosto, já rubro por natureza. Trêmulo, sentou-se, fixando os olhos no seu relógio. Quando ele marcava 08 : 43, a decisão.

Deixou a cadeira e, despropositadamente, chutou uma pequena lixeira - ainda vazia àquela hora da manhã - causando barulho e murmúrios de reprovação. O elevador demorou angustiantes dois minutos para chegar ao terraço do prédio. Houveram sete paradas ao longo dos 24 andares percorridos. Fixado num detalhe do piso, seu olhar não testemunhou ninguém enquanto avançava construção acima. Apenas teve a permissão para chegar ao parapeito do prédio porque já havia fumado um baseado com o guarda responsável por aquele turno. Relatou que precisava respirar um pouco, tinha tido uma péssima noite de sono. Seu corpo esfacelou-se contra o asfalto quando seu relógio, transformado em dezenas de pedaços, já não marcava mais hora alguma, mas o relógio da praça em frente não me deixava mentir. Eram 08 : 50.

Pé de milho
Dia após dia, Roberto defecava após o almoço numa pequena parcela de terreno, localizada bem abaixo de uma palmeira. Seus dois pés já haviam sido emoldurados fielmente naquela terra dura. Roberto não falhava. Dia algum.

Bastou uma semana longe de casa para que, o mesmo solo onde fielmente comparecia, parisse uma planta. Quando a viu, não soube definir o que era. Optou por despejar seu coco um pouco mais à frente, a uma distância segura para que ela pudesse sobreviver. Três semanas depois, já era possível distinguir que se tratava de algo além de um mero mato, parecia que a semente despejada ali era de algum vegetal qualquer. Naquele instante, lembrou-se que havia comido milho com uma frequência enorme no último mês. Safra boa igual a alimento em abundância, um mandamento da vida no campo. Rememorou às inúmeras vezes em que fitou perdido em meio à merda, um ou outro grão amarelo rejeitado pelo seu intestino. Parecia que a Terra não havia agido da mesma maneira.

Passados três meses, dispensava boa parcela do seu dia cuidando da planta. Por considerar-se o principal culpado por ele haver brotado ali, o pé de milho era tratado como um filho. Roberto havia se esquecido por completo de seus dois garnisés, a codorna e o seu idoso galo de tantas rinhas.

Após crescido, e contando com inúmeras espigas, o pé de milho continuava recebendo, com ainda mais assiduidade, a visitas de Roberto. Dias sucessivos de sol, motivavam-no a regar o vegetal de hora em hora com a água proveniente do poço de seu pai. Desde criança, Roberto não se dispunha a conversas, mesmo com familiares próximos. Na escola, não possuía amigo algum, ao contrário, seu comportamento introspectivo e por vezes agressivo não era tolerado pela grande maioria dos colegas. Ao longo de sua vida, já havia sido surrado quase uma dezena de vezes. Agora, não raro, Roberto sentava ao lado do pé e contava a ele suas felicidades, suas frustrações, suas infindáveis histórias. O pé de milho era como um conselheiro, porém, não possuía a faculdade de aconselhar nada.

A exatos seis dias do término do ano, na véspera do dia de Natal, Roberto e seus pais foram à casa dos avós para a costumeira celebração do nascimento dO Enviado. Avesso a todo e qualquer parente, Roberto assumiu um comportamento arredio logo de sua chegada. Dispensou cumprimentos e afastou-se dali rapidamente. Estava disposto a cagar no mato, como era de seu costume.

Próximo a uma imensa araucária, pôs-se de cócoras e, com as calças encostando no capim seco, aliviou-se. Ao longe, avistava em meio a imensa parreira de uva de seus avós, Anilda, sua prima por parte de mãe. De imediato, lembrou-se do dia em que a observou tomar banho, aproveitando-se de um descuido dela, que deixou a porta do banheiro, além de destrancada, entreaberta. Naquela ocasião deleitou-se com a visão do exuberante corpo de sua prima por minutos a fio até ser pego em flagrante pela falecida tia.

A lembrança daquela visão; a bundinha empinada, os seios fartos e aquele triangulo negro localizado bem abaixo do umbigo, fizeram com que Roberto aproveita-se do fato de já estar com suas calças arriadas para masturbar-se por longos minutos. Anilda, sequer poderia imaginar que, mesmo tão distante, estava sendo alvo de fantasias sexuais provenientes da mente do mais jovem de seus primos. Ela, por sua vez, também se masturbou, à noite, após a ceia. Curiosamente, Roberto sequer foi cogitado em ser utilizado na sua fantasia durante a pratica onanista. Marcos, torneiro mecânico, vizinho seu, foi o escolhido.

Na noite do dia seguinte a ceia, Roberto e sua família retornaram. Logo que chegou em casa, ele se deitou e dormiu por ininterruptas dez horas. Após o almoço, dirigiu-se para o local onde costumeiramente cagava. Firmou ambos os pés no chão e com as duas mãos agarrou o pé de milho. Foram necessários dois fortes puxões para que a raiz se desgarrasse do solo. Roberto julgou que estava mais do que na hora de voltar a cagar onde originalmente cagava. Onde ele sempre cagou. Não estava mais disposto a concessões. Que se foda esse pé, pensou.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful