You are on page 1of 3

Por Lucas de Francisco Carvalho Reconhecidamente, a avaliação psicológica é um processo largamente utilizado pelos psicólogos, independente do campo de atuação

profissional. Isto é, o psicólogo atuante como tal, de um modo ou de outro, por vezes necessita realizar a avaliação psicológica. A despeito das possibilidades reflexivas que o termo avaliação psicológica nos possibilita, o Standards for Educational and Psychological Testing (AERA, APA & NCME, 1999) define esse processo brevemente como aquele que integra as informações provindas de testes psicológicos e outras fontes de informação. No Brasil, um dos campos de atuação no qual o processo de avaliação deve ocorrer é o da psicologia do trânsito, entre outras possibilidades, para obtenção da Carteira Nacional de Habilitação (CNH). Em meio a outras deliberações, o Código de Trânsito Brasileiro (Lei 9.503 de 1997) e as resoluções do CONTRAN 51 e 80 de 1998 e 267 de 2008 (que alteram o Código) preveem como obrigatória a avaliação psicológica preliminar para o candidato à primeira habilitação. Vale ressaltar que o Conselho Federal de Psicologia deliberou resoluções que acompanharam de certa forma as resoluções do CONTRAN (Rueda, 2011). Entre elas, ressalta-se a Resolução CFP 012/2000 (instituindo o Manual para avaliação psicológica de candidatos à Carteira Nacional de Habilitação e condutores de veículos automotores), revogada pela Resolução CFP 007/2009 (instituindo normas e procedimentos para avaliação psicológica no contexto do trânsito) e a Resolução CFP 009/2011 (alterando o anexo II da Resolução CFP 007/2009, que tratava do uso de dados normativos para os testes psicológicos quando disponíveis). Além disso, a Resolução 267 de 2008 estabelece a natureza das técnicas e instrumentos que devem ser utilizados (entrevistas, testes psicológicos, dinâmicas de grupo e escuta e intervenções verbais) e explicitamente quais construtos psicológicos e atributos relacionados devem ser considerados na avaliação preliminar (e eliminatória) realizada. Em síntese, são eles, tomada de informação (atenção, detecção, discriminação e identificação), processamento de informação (orientação espacial, avaliação de distância, conhecimento cognitivo, identificação significativa, inteligência, memória, julgamento ou juízo crítico), tomada de decisão, comportamento (tempo de reação, coordenação viso e áudio-motora, coordenação em quadros motores complexos, aprendizagem, memória motora e capacidade para perceber que as próprias ações correspondem ou não ao que pretendia fazer) e traços de personalidade (equilíbrio entre os diversos aspectos emocionais, e socialização). Ainda, ressalta-se a necessidade de estabelecer a ausência de traços psicopatológicos. A situação que assim se configura é a verificação do perfil psicológico dos candidatos à CNH a partir de determinados elementos psicológicos. Portanto, cada um dos candidatos deve ser avaliado nos construtos identificados e podem, ou não, atingir pontos de corte adequados para serem considerados aptos para portar a CNH. Esse cenário pressupõe determinados conhecimentos, (a) existem construtos psicológicos relevantes para se considerar alguém com habilitado ao comportamento de dirigir e derivações, (b) os construtos referidos em (a) são conhecidos via pesquisas científicas, (c) existem dados empíricos demonstrando os pontos de corte ótimos para considerar alguém como adequado ou não (ou, especificamente no contexto aqui tratado, apto ou inapto) nas diferentes funções e atributos psicológicos, e (d) existem ferramentas psicológicas no país que avaliam adequadamente esses construtos para o contexto especificado. O primeiro ponto elencado (a), beira a intuição, isto é, dificilmente alguma atividade humana não implicará uma demanda psicológica e, como consequência, dificilmente o funcionamento psicológico não terá alguma importância nas atividades do dia a dia. Diferentemente, os pontos seguintes (b, c e d) não devem ser considerados no âmbito intuitivo, mas sim acadêmico-científico. O ponto b refere-se à relevância da realização de estudos em um dado contexto com dada população (neste caso, indivíduos avaliados como aptos ou não para portarem a CNH) visando investigar quais são os construtos psicológicos relevantes (teórica e empiricamente) para aquela situação. Esse tipo de estudo faz-se necessário para todo e qualquer caso em que se necessita realizar avaliação psicológica implicando tomadas de decisão. Infelizmente, esses estudos são mais escassos no país do que se espera do ponto de vista científico, o que pode ser notado por meio de levantamentos bibliográficos nas bases de dados nacionais. O próximo apontamento, c, é dependente do anterior, já que se refere ao estabelecimento de pontos de corte para os construtos reconhecidamente relevantes para o caso específico. Estabelecer pontos de corte demanda,

htm. Acessado em 05 de setembro de 2012 pelo link http://site. Por último.br/portal/orientacao/resolucoes_cfp/fr_cfp_007-09.detran. A problemática aqui levantada. Washington. Acessado em 05 de setembro de 2012 pelo linkhttp://www. então. apesar da importância do ponto b. Dispõe sobre os exames de aptidão física e mental e os exames de avaliação psicológica. avaliados nos construtos relevantes. Dispõe sobre o código de trânsito brasileiro. deve-se estabelecer pontos de corte (com base nos resultados obtidos pelos respondentes) em que a discriminação dos dois grupos de futuros motoristas é potencializada.rs. Por exemplo. Dispõe sobre os exames de aptidão física e mental e os exames de avaliação psicológica. o trabalho fornecido pelo psicólogo que deve cada vez mais fundamentar-se em evidências e no rigor científico. os instrumentos de avaliação já estejam disponíveis. de outro.br/cetran/resolucoes_contran/resolucao_051_1998. Resolução CONTRAN 80. Infelizmente. Resolução CFP 007. deve-se garantir que existam instrumentos avaliando adequadamente os construtos relevantes que compõem os perfis. Dispõe sobre alteração do anexo II da Resolução CFP 07/2009. Resolução CFP 012. Resolução CONTRAN 51. de 15 de fevereiro de 2008 (2008). de 19 de maio de 2011 (2011). Dispõe sobre normas e procedimentos para a avaliação psicológica no contexto do trânsito. uma vez que já se tenha conhecimento acerca dos construtos relevantes e dos pontos de corte ótimos e perfis esperados nos grupos. 9. de 19 de novembro de 1998 (1998). Acessado em 05 de setembro de 2012 pelo linkhttp://www.pdf . American Psychological Association.pdf . mesmo porque são essas ferramentas que instrumentalizam os pesquisadores nas pesquisas que embasam os referidos pontos.gov. estudos com o público-alvo. Resolução CONTRAN 267. Acessado em 05 de setembro de 2012 pelo link http://www. não é suficiente conhecer quais são os construtos relevantes para uma determinada demanda.br/mtm/legislacao/resolucoes/resolucao080. há o parâmetro social. de identificação de pontos de corte e perfis e a garantia de instrumentos com propriedades psicométricas adequadas para esse fim.aspx . é de se esperar que.org. uma sociedade em que cada vez mais as dificuldades com motoristas transgressores se fazem presentes e. a necessidade de se conhecer os construtos relevantes nas diferentes áreas de atuação do psicólogo. DC: American Educational Research Association.gov. Apesar da importância desse ponto. A problemática fica evidente no campo do trânsito. de 04 de agosto de 2009 (2009). que comete transgressões no contexto do trânsito e/ou exibe maior propensão para se envolver em acidentes). Dispõe sobre os exames de aptidão física e mental . b e c. Para além do parâmetro legal.gov. é necessário também conhecer os perfis dos diferentes grupos que se deseja discriminar.br/ccivil_03/leis/L9503.br/wpcontent/uploads/2011/05/resolucao2011_009. Acessado em 05 de setembro de 2012 pelo linkhttp://www. Acessado em 05 de setembro de 2012 pelo linkhttp://www3. Nesse sentido. Lei n. de 21 de maio de 1998 (1998). Referências American Educational Research Association. não é restritiva à avaliação psicológica no contexto do trânsito. de um lado. Nacional Council on Measurement in Education (1999). é uma lacuna que permeia diferentes áreas da avaliação psicológica em nosso país. demonstrando quais pontuações dos instrumentos possibilitam discriminar as pessoas que os responderam em relação ao que está sendo avaliado.crpsp.pdf . Objetivou-se traçar um rápido delineamento em uma perspectiva da ciência psicológica que possibilite responder à pergunta expressa no título deste texto.org. Resolução CFP 009.pol.htm .pr.cfp.planalto. Standards for educational and psychological testing . de 23 de setembro de 1997 (1997). uma vez que há uma demanda (legal) pericial para concessão (ou não) da CNH.minimamente.br/legislacao/pdf/resolucao2000_12. uma vez alcançados os pontos a. Dispõe sobre o Manual para avaliação psicológica de candidatos à Carteira Nacional de Habilitação e condutores de veículos automotores. caso existam estudos demonstrando que a memória é um construto relevante para discriminar um futuro motorista adequado de um futuro motorista inadequado (isto é. de 20 de dezembro de 2000 (2000).org.503.

F. . Brasília: Conselho Federal de Psicologia. (2011). de 2012 pelo Rueda.gov. J. M.pdf . Psicologia do trânsito ou avaliação psicológica do trânsito: faz-se distinção no Brasil? Em: Ano da Avaliação Psicológica: textos geradores.e os exames de avaliação psicológica.br/download/Resolucoes/RESOLUCAO_CONTRAN_267. Acessado em 05 de setembro linkhttp://www.denatran.