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Apelação Criminal n. 2011.080506-4, de Balneário Camboriú Relator: Des.

Jorge Schaefer Martins

RECEPTAÇÃO DOLOSA. AUTOMÓVEL. RECURSO DA DEFESA. ELEMENTO SUBJETIVO. ACUSAÇÃO QUE AFIRMOU QUE O RÉU ADQUIRIU O VEÍCULO COM RECEPTADORES NA CIDADE DE BLUMENAU. FALTA DE PROVAS DESSE FATO. RÉU QUE ALEGA ESTAR NA POSSE LÍCITA DO VEÍCULO. LAUDO PERICIAL QUE DECLAROU AUTÊNTICO O DOCUMENTO DE PORTE OBRIGATÓRIO DO VEÍCULO QUE ESTAVA COM O ACUSADO. AUSÊNCIA DE DOCUMENTOS LIGANDO A VÍTIMA AO VEÍCULO. INEXISTÊNCIA DE GRAVAÇÃO NO REGISTRO DO CARRO SOBRE A OCORRÊNCIA DE FURTO OU ROUBO. INSTAURAÇÃO DE GRANDE DÚVIDA SOBRE A EFETIVA EXISTÊNCIA DO DOLO DE RECEPTAR DO AGENTE. PREVALÊNCIA DO PRINCÍPIO IN DUBIO PRO REO. IDENTIFICAÇÃO DA FALTA DE PROVAS SUFICIENTES PARA SUSTENTAR ÉDITO CONDENATÓRIO. ABSOLVIÇÃO DO ACUSADO QUE SE IMPÕE. RECURSO PROVIDO.

Vistos, relatados e discutidos estes autos de Apelação Criminal n. 2011.080506-4, da comarca de Balneário Camboriú (1ª Vara Criminal), em que é apelante Celso Lindori e apelado o Ministério Público do Estado de Santa Catarina:

ACORDAM, em Quarta Câmara Criminal, por unanimidade, dar provimento ao recurso para absolver o réu por falta de provas. Custas legais. Participaram do julgamento, realizado no dia 27 de setembro de 2012, o Excelentíssimo Desembargador Roberto Lucas Pacheco e o Excelentíssimo Desembargador Substituto José Everaldo Silva. Emitiu parecer pela Procuradoria-Geral de Justiça o Dr. Carlos Eduardo Abreu Sá Fortes. Florianópolis, 4 de outubro de 2012. Jorge Schaefer Martins PRESIDENTE E RELATOR

adquirindo e transportando coisa que sabia ser produto de crime (fls. Julio passou pelo local e reconheceu seu automóvel. apondo outra de veículo com idênticos caracteres. e ao pagamento de 10 (dez) dias-multa. O denunciado agiu livre e conscientemente. o denunciado adquiriu o aludido veículo na cidade de Blumenau/SC (fl. 12/13). Irresignado.06. Celso Lindori foi denunciado como incurso no crime do artigo 180 do Código Penal. Através do submundo dos receptadores. Frise-se. Na sequência. a Procuradoria-Geral de Justiça. de dizer que para a consumação do delito de receptação simples. cujos agentes deslocaram-se ao logradouro supracitado e prenderam o denunciado em flagrante delito (fl. nesta cidade. o MM. no dia 18. Carlos Eduardo Abreu Sá Fortes.2009. com apresentação de alegações finais orais pelas partes. o réu apresentou defesa por meio de defensor constituído. acionou a Polícia Militar. 15). opinou pelo conhecimento e não provimento do recurso. o denunciado estacionou o automóvel acima citado na Rua 1950.2009. No entanto. fixados no mínimo legal. Termo de Entrega (fl. foi ouvida uma testemunha e interrogado o réu.RELATÓRIO Na comarca de Balneário Camboriú. 16). bem como pelas declarações constantes dos autos. Por sua vez. já o subjetivo Gabinete Des. VOTO A materialidade encontra-se demonstrada por meio do Auto de Prisão em Flagrante. há que constar os elementos objetivo e subjetivo consubstanciados no tipo penal. Instada. pelos fatos assim narrados na peça exordial: Conforme consta nos autos. O objetivo é a verificação acerca de a coisa ser objeto de crime antecedente. de placas MFE 1173. em seguida.02. Citado. 12-13). Na audiência de instrução e julgamento. no que tange à autoria. 12). no regime aberto. placas MEY 0818. bem como pela existência de provas nos autos que atestam a sua posse de boa-fé sobre o veículo. que estava estacionado na Rua Tailândia. os autos ascenderam a esta Corte. o réu apelou postulando a absolvição sob o argumento de falta de provas sobre autoria e materialidade do delito. assim como apreenderam o automotor (fl. em audiência. II-III). substituída por prestação de serviço à comunidade. Juiz a quo sentenciou julgando procedente o pedido para condenar o acusado à pena de 1 (um) ano de reclusão. pertencente a Julio Guilherme Haake Junior. em horário incerto. descrito no caput do artigo 180 do Código Penal. No dia 02. ainda. em parecer da lavra do Dr. Jorge Schaefer Martins . que um indivíduo ainda desconhecido também alterou as placas de identificação do automotor. 15). Com as contrarrazões. nesta cidade (fls. uma pessoa ainda não identificada subtraiu o veículo Fiat/Siena Flex. 06). Boletim de Ocorrência do furto (fl. Auto de Apreensão (fl.

p. adquiriu o aludido veículo na cidade de Blumenau/SC". a acusação afirma na peça exordial que o agente "através do submundo dos receptadores. A pessoa signatária da declaração. notadamente a comprovação da efetiva existência da pessoa jurídica em nome de sua esposa que vende roupas íntimas. 115-130). receba ou oculte" (somente pode incidir o dolo direto. Código penal comentado. Nestes casos. conduzir ou ocultar" e "influir para que terceiro a adquira. que é a nítida intenção de tomar. não é possível concluir com a convicção necessária ao processo criminal de que houve receptação criminosa a partir dessa cidade. Jorge Schaefer Martins . No entanto. Guilherme de Souza. 2010. para si ou para outrem.consiste na identificação da existência do dolo específico de o agente ter o conhecimento sobre a origem ilícita do bem. Aliás. ser contraditada por elementos de prova produzidos pela acusação. por outro lado. extrai-se da doutrina de Nucci: Elemento subjetivo: é o dolo. Sobre o elemento subjetivo. sequer apareceu nos autos para confirmar os fatos ou. Acerca desse último documento. a análise da prova carreada nos autos deve pautar-se pela busca da exteriorização sobre o conhecimento da origem espúria da coisa por parte do réu. embora posterior à data do flagrante. Ao apresentar sua versão. no intuito de aferir a retidão ou não do réu em relação à posse da coisa. Não há notícia nos autos de que exista restrição por roubo ou furto no registro do automóvel. observa-se que o reconhecimento de firma é anterior ao oferecimento da denúncia. 46-52). cujo nome (Júlio Guilherme Haake Junior) sequer está gravado em qualquer documento relacionado ao carro que tenha sido apresentado no processo. Essa pessoa não é a vítima que veio aos autos. coisa alheia originária da prática de um delito. constata-se que no documento de porte obrigatório do veículo consta arrendamento mercantil gravado em favor de "Evaristo Hack" (fls. tampouco os números Gabinete Des. 842-843). Partindo-se dessas premissas. Na verdade. pois faltou à acusação comprovar o dolo do agente na realização da conduta narrada na peça exordial. tem conexões com a venda de carros furtados em Blumenau ou mesmo que o veículo é oriundo de Blumenau. ao compulsar os elementos de prova efetivamente produzidos nos autos e a perícia realizada. A forma culposa possui previsão específica no § 3. a defesa alega que o réu recebeu o automóvel em garantia de uma dívida de terceiro para consigo. Não há provas que indiquem que o réu esteve em Blumenau. Além disso. evidenciado pela expressão "que sabe ser produto de crime" (NUCCI. 10. Essa versão encontra guarida em alguns elementos de prova juntados aos autos (fls. ed. bem como na declaração com reconhecimento de firma do suposto possuidor que vendeu o automóvel para o réu. receber. essa narrativa dos fatos firmada na denúncia não encontra o menor espelho em qualquer elemento de prova produzido no autos. em face de relações mercantis informais. transportar. Assim. por meio de elementos diretos ou indiretos de averiguação. São Paulo: Revista dos Tribunais. é de ser dito que a autoria do crime não está suficientemente demonstrada nos autos.º Exige-se elemento subjetivo do tipo específico. deve-se destacar outra particularidade deste tipo penal: no contexto das duas condutas criminosas alternativas ("adquirir. contudo.

RECEPTAÇÃO.064764-4. do Código de Processo Penal. A simples posse da res furtiva. RECEPTAÇÃO DOLOSA. reforma-se a sentença para absolver o réu por falta de provas. RECURSO DO MINISTÉRIO PÚBLICO OBJETIVANDO A CONDENAÇÃO DO ACUSADO. resumindo-se a ouvir em juízo o acusado e a própria vítima. falou que o réu foi solícito ao tentar esclarecer a situação que envolvia o veículo. ao depor. rel. Nesses termos. SENTENÇA ABSOLUTÓRIA. por si só. DÚVIDA QUANTO AO ELEMENTO SUBJETIVO. quanto mais se existem elementos de prova indicando a licitude da posse sobre o bem exercida pelo acusado. ACUSADO QUE ADQUIRIU UM ESMERIL OBJETO DE FURTO. Des. Dessa forma. percebe-se que a acusação desistiu de ouvir as testemunhas policiais que atuaram no flagrante. de Balneário Camboriú. Torres Marques) E. RECURSO PROVIDO. ABSOLVIÇÃO DECRETADA. TODAVIA. de concluir que há grande dúvida sobre a existência de elementos probatórios que possam direta ou indiretamente comprovar o dolo do agente e. do conjunto dos fatos. especialmente nos moldes em que foi narrado na denúncia. DO CPP. nos termos do artigo 386. com isso. CRIME CONTRA O PATRIMÔNIO. ALEGADA A AUSÊNCIA DE PROVA QUANTO AO DOLO. a perícia existente nos autos concluiu que o documento de porte obrigatório do veículo é autêntico. PAGAMENTO DE PARTE DO VALOR ACORDADO CONDICIONADO À APRESENTAÇÃO DE NOTA FISCAL. não é possível utilizar a existência de pequenas divergências entre o relato prestado pelo réu no inquérito e aquele prestado em juízo como pilar para a condenação do acusado. NOS TERMOS DO ART. 386. Jorge Schaefer Martins . RECURSO DA DEFESA. MATERIALIDADE DO DELITO DEVIDAMENTE COMPROVADA.Renavam e Placa enumerados pela vítima no inquérito conferem com o sistema de registro do Detran/SC. a aplicação do princípio in dubio pro reo é medida que se impõe. Quanto às provas produzidas. 2012. não pode servir de substrato único para a condenação do agente. AUSÊNCIA DE PROVA DO ELEMENTO SUBJETIVO (DOLO). em caso semelhante. Da mesma forma. A QUAL. Rui Fortes).006008-9. pugnou desde o início do processo pela legitimidade de sua posse. a jurisprudência desta Corte: APELAÇÃO CRIMINAL. EM RELAÇÃO À AUTORIA. DÚVIDA. Gabinete Des. Essa última. também: APELAÇÃO CRIMINAL. de Bom Retiro. por seu turno. VII. FOI NEGADA PELO ACUSADO E CORROBORADA PELA PROVA TESTEMUNHAL. há muito mais indicação para a ausência do dolo de receptar do que sua efetiva comprovação. Enfim. 2008. APLICAÇÃO DO PRINCÍPIO IN DUBIO PRO REO. Logo. Nesse sentido. Des. O réu. E mais. sustentar édito condenatório. dada a anemia apresentada pelo conjunto probatório. ABSOLVIÇÃO MANTIDA. INCLUSIVE. RECURSO DESPROVIDO (Apelação Criminal n. visto que o interrogatório é um instrumento de defesa do acusado e não um meio para a produção de provas contra ele. rel. VII. (Apelação Criminal (Réu Preso) n. gerando dúvida total sobre quem é o efetivo dono do bem.

Jorge Schaefer Martins .Gabinete Des.