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Fichamento: STOLCKE, Verena. “A Introdução do Trabalho Livre nas Fazendas de Café de São Paulo, 1850-1890.

” In: Cafeicultura: Homens, mulheres e capital (18501880). São Paulo: Brasiliense, 1986. “A Introdução do trabalho livre na agricultura paulista é, com efeito, um exemplo da criação de uma força de trabalho livre numa situação de grande desenvolvimento agrícola, sob condições de oferta potencialmente escassa de mão-de-obra.” (p. 17-18) “A questão que os fazendeiros enfrentaram ao longo da segunda metade do século XIX não foi apenas a de encontrar uma nova fonte de mão-de-obra para substituir os escravos, mas também cada vez mais a de como organizar e controlar eficientemente o trabalho livre.” (p. 18) Entraves durante o processo de introdução da mão-de-obra livre imigrante: “O desenvolvimento e a organização da força de trabalho livre destinada às fazendas de café de São Paulo foi um processo ao mesmo tempo econômico e político determinado pelo confronto entre os interesses econômicos dos fazendeiros e a habilidade dos trabalhadores para resistir às imposições dos fazendeiros.” (p. 18) “As dificuldades iniciais com o trabalho livre têm sido repetidamente atribuídas à relativa não-rentabilidade dos trabalhadores imigrantes em comparação com os escravos, em primeiro lugar, induziu os fazendeiros a introduzir o trabalho livre foi a sua consciência crescente de que a escravidão estava condenada.” (p. 18-19) Questão que direciona a análise da autora: “A questão inicial mais interessante é por que os fazendeiros escolheram primeiramente a parceria como o sistema de trabalho em que se introduziria o trabalho livre, de preferência a um sistema de assalariamento puro ou a algum outro arranjo” (p. 19) Hipótese/Resposta de Verena Stolcke: “A Ausência de um mercado de trabalho consolidado também solapou o controle do trabalho. O êxito dos sistemas de trabalho introduzidos não foi apenas determinado por fatores de custo (no sentido estrito do custo de obtenção do trabalho imigrante), nem mesmo pela ideologia dos fazendeiros (seu suposto „atraso‟ ou, ao contrário, seu espírito empreendedor exemplar), mas sobretudo pela luta entre as atuações dos fazendeiros e as relações dos trabalhadores. Essa inter-relação entre sistemas de exploração do trabalho e tipos de resistência dos trabalhadores é responsável pelas transformações das formas adotadas de contratação de mão-de-obra.” (p. 19) (grifos nosso) O Sistema De Parceria As Condições do contrato de parceria: “De acordo com o contrato de parceria, o fazendeiro financiava o transporte dos imigrantes de seu país de origem até o porto de Santos, adiantava o custo do transporte de Santos até a fazenda, bem como os gêneros e instrumentos necessários aos imigrantes, até que estes pudessem pagá-los com o produto de suas primeiras colheitas.” (p. 20) – ou seja, os imigrantes chegavam às

o café é uma cultura de trabalho muito intensivo. “Ele cultivará com maior cuidado. em comparação com o trabalho assalariado. pelo menos no início. 27) “A questão não era simplesmente a de resolver problemas potenciais na oferta de mãode-obra.” (p. seriam necessários menos trabalhadores. de fazer com que os trabalhadores trabalhem mais e melhor. aceitará uma divisão do produto que não cobrirá plenamente o preço potencial do mercado da mão-de-obra familiar. Devido ao elemento de incentivo característico da parceria. Além disso. novamente porque parte do resultado reverterá para ele mesmo. 26) Síntese: “Reduzindo os custos da mão-de-obra por unidade.” Contraponto: “Isso pode ser verdade. na medida em que o controle do trabalho será exercido pelo próprio trabalhador. Além disso. e o fazendeiro lhes cedia um pedaço de terra onde cultivavam suas próprias culturas alimentares. Em consequência.” eles desviavam “cada vez . a supervisão será insignificante. Além disso. as esposas e filhos dos trabalhadores podiam cobrir satisfatoriamente essa demanda adicional. acima da dos trabalhadores assalariados. 26) “Como a necessidade de mão-de-obra durante a colheita era cerca de 1/5 maior do que durante o cultivo. mas de fazê-lo de forma lucrativa. devido à ausência de uma oferta local de trabalhadores. que. a parceria deve inicialmente ter-se apresentado aos fazendeiros como o substituto mais adequado para o trabalho escravo.” (p. 20) Por que do Contrato de Parceria?: A parceria “é uma forma de utilização do trabalho semelhante a um sistema de trabalho por produção cuidadosamente negociado. 27) A Resistência ao sistema de parceria: “à medida em que os imigrantes se desinteressavam em quitar suas dividas no prazo esperado. não podendo deixa-las sem que houvesse sanado a dívida. os custos de mão-de-obra eram elevados.” (p.fazendas já com dívidas contraídas. 26) O perfil de contratação dos parceiros: “Os parceiros são geralmente contratados em unidades familiares. e o investimento inicial seria menor. argumentando que as famílias eram menos propensas a abandonar a fazenda. uma forma de assegurar um esforço adicional por parte da mão-de-obra. em geral. contudo.” (p. 26) A parceria em São Paulo: “No caso de São Paulo. Os fazendeiros sempre se opuseram a recrutar homens solteiros. 25) Assim. em troca da apenas um pequeno acréscimo na remuneração total. “Os trabalhadores cuidavam de um número não-especificado de pés de café. era acrescido juros.” (p. poder-se-ia esperar que os parceiros tratariam melhor os trabalhadores assalariados.” (p. a qual de outra forma ficará subempregada ou desempregada. mas de igual importância seguramente foi o fato de que as famílias dos imigrantes constituíam ema reserva barata de mão-de-obra.” (p. Um parceiro.” (p. os imigrantes cediam gratuitamente uma casa.

” (p. Ela permitia aos fazendeiros apenas rescindir o contrato ou requerer indenização por danos. e a indenização aumentava o débito sem. numa tentativa de desencorajar os imigrantes de desviarem trabalho para as culturas alimentares. 29) “Embora muitos observadores tenham chamado a atenção para a alegada preguiça e falta de interesse dos imigrantes. 31) “A fim de tratar com os problemas correlatos de controle da produtividade e amortização da dívida. De modo geral. 32) O Contrato: “Ao invés de uma parcela de valor da produção.” (p.” (p. os trabalhadores se sentiriam encorajados a se aplicar com maior empenho no cultivo do café. não tanto. fornecer os meios de obrigar os trabalhadores a trabalhar para pagá-lo. mas sim uma alocação alternativa de trabalho nas culturas alimentares. um sistema misto de .” (p. a parceria foi gradualmente substituída por um contrato de locação de serviços. reduzindo a incerteza sobre os ganhos e eliminando longos atrasos de pagamento. o tamanho da roça de subsistência foi estabelecido em proporção aos pés de café tratados e/ ou alugado por uma renda. mas este ainda não era capaz de assegurar um nível adequado de produtividade. alguns fazendeiros começaram a introduzir uma nova forma de remuneração. 32) “Além disso. o que de fato ocorria era.” (p. 33) “A lei que regulamentava a parceria era. em larga medida.” (p. 33) “a qualidade do trabalho parece ter-se deteriorado sob o contrato de locação de serviços. pois não resolvia o problema básico da dívida com o desincentivo. contudo. alegava-se que. 35) O Colonato Sobre as modificações da condição de trabalho: “Por fim. uma subutilização absoluta da capacidade de trabalho. dessa forma. pois afeta a qualidade do trabalho. ineficaz. cujos retornos lhes advinham direta e imediatamente.” (p. 30-31) O Contrato de Locação de Serviços “Após 1857 [com as manifestações dos trabalhadores imigrantes. 32) “O contrato de locação de serviços prosseguiu com o sistema de incentivo salarial.” (p. a rescisão implicava a perda da dívida dos imigrantes. 29) Afirmativa questionável: “O poder dos fazendeiros de controlar o trabalho e impor um nível satisfatório de produtividade no cultivo de café era limitado pela ausência de uma reserva local de mão-de-obra.” (p. o sistema de parceria foi gradativamente abandonado em São Paulo. principalmente em Ibicaba].mais seu trabalho para as culturas alimentares. os trabalhadores recebiam um preço pré-estabelecido por medida de café colhido. o trabalho remunerado por produção não é usado em muitas tarefas agrícolas.” (p.

visto que parte da remuneração dos trabalhadores pelo novo contrato dependia diretamente do número de pés tratados. Mantendo-se. porque „entre as medidas econômicas mais fortemente reclamadas pelo estado atual do país se acha a seu povoamento. e não mais de seu rendimento. 44) “As roças de subsistência reduziam o custo da reprodução da mão-de-obra. em vez de coagir os trabalhadores diretamente. 43) O sistema de contrato e a produção de alimentos: “Os fazendeiros continuaram a empregar o trabalho imigrante pelo sistema de remuneração por tarefa e por produção. com a mão-de-obra: “Anteriormente. combinado com o cultivo de alimentos. Como as culturas alimentares se desenvolviam durante o período de carpa do café. mas primariamente uma forma de o fazendeiro . a carpa do café era paga a um preço anual fixo por mil pés tratados. 37) Leis trabalhistas: “Em 1879.” (p. a lei de locação de serviços de 1837 foi substituída por uma nova regulamentação que cobria tanto os contratos de locação de serviço como os de parceria. era de se esperar que eles se sentiriam encorajados a cultivar um maior número de pés. 42) (grifos nosso) As dificuldades encontradas pelos fazendeiros. Em 1886. e o resultado foi praticamente imediato. os fazendeiros podiam usar plenamente o trabalho familiar dos imigrantes durante todo o ano. a „vexatória‟ lei de 1879 caiu em desuso e foi finalmente revogada em 1890. fórmula que prevaleceria nas fazendas cafeeiras desde os anos de 1880 até os anos 60 deste século. os custos de mão-de-obra poderiam ainda ser ajustados às flutuações anuais no rendimento. inundando o mercado de trabalho com imigrantes subvencionados. visto que a riqueza pública desenvolve-se na mesma proporção em que se expande a população. o sistema de remuneração por produção na época da colheita.” (p. o governo provincial havia encontrado uma forma eficaz de fornecer subsídio integral aos imigrantes.” (p.” (p. Nesse sistema. ‟” (p. o Estado procurou obter mão-deobra barata e disciplinada para as fazendas. estabelecendo penas de prisão não só pelo abandono da fazenda sem justa causa. 45) “As culturas alimentares constituíam não tanto um pagamento em espécie ou um mecanismo para fixar a mão-de-obra.” (p. 40) Medidas adotadas pelo Estado para sanar os problemas com mão-de-obra: “Após 1884. o colonato. mediante ameaças ou uso de violência. anteriormente.” (p. 43) “Como os fazendeiros agora não precisavam mais adiantar o dinheiro da passagem para os imigrantes e contavam com abundantes braços rurais garantidos pelo Estado. porém. 36) “Além disso. mas também por greves e incitamento de outros à greve. os fazendeiros haviam se defrontado com duas dificuldades no trabalho livre – a dívida e a disciplina do trabalho. e a colheita a um preço por alqueire colhido.” (p.remuneração por tarefa e por medida colhida. quando a demanda do trabalho era relativamente menor.

” (p. a lançar as bases para um efetivo mercado de trabalho capitalista.” (p. Aqueles que sustentam a tese capitalista geralmente tomam como seu ponto de referência o sistema . assim. 47) “Na virada do século. ao nível do trabalho.” (p. após meados da década de 1880. 47) A transição dos contratos de trabalho: “A transição da parceria para o sistema misto de remuneração por tarefa e por produção. [.” (p. uma população excedente de trabalho livre que mantivesse os trabalhadores intimidados e submetidos à exploração.” (p. na forma de greves. foi um processo de exploração cada vez mais sistemática do trabalho. 49) A solução para a disciplina e produtividade cafeeira: “O problema permanente da produtividade e disciplina do trabalho sé se resolveu na década de 1880. Contraditoriamente criaram as próprias condições para a ação coletiva – e. mas.” (p. o colonato. potencialmente muito mais ameaçadora – dos imigrantes.” (p. 45) A resistência e a luta dos trabalhadores imigrantes e livres: “Enquanto prevaleceu a parceria. e instruída uma rígida disciplina de trabalho. mais usualmente. reduzidos os direitos de plantio ao mínimo básico.. desaparecem efetivamente as condições de uma luta individual. auxiliado pela importação maciça. 47-48) (grifos nosso) O aspecto empresarial dos fazendeiros do Oeste paulista: “Os fazendeiros que inicialmente se encarregavam de encontrar algum substituto para o trabalho escravo foram os primeiros de um notável grupo de empresários agrícolas e comerciais. contra os rendimentos considerados insatisfatórios. resistiam retirando o trabalho do cultivo cafeeiro. Excepcionalmente. os trabalhadores imigrantes constituíram uma massa homogênea.apropriar-se de uma renda em trabalho adicional ao valor excedente obtido no cultivo do café.] Para aqueles que permaneciam na agricultura. podiam produzir uma ação coletiva. os trabalhadores se revoltavam. os baixos salários ou quaisquer outras extorsões por parte do plantio alimentar. 49) (grifo nosso) “O fato de que alguns deles tenham se desencantado com a experiência e tenham temporariamente retornado ao trabalho escravo deveu-se fundamentalmente à ausência de um pré-requisito essencial. submetida a condições mais ou menos uniformas de miséria. ou seja. 47) Consciência de classe e o desenvolvimento capitalista: “Uma vez criado o mercado de trabalho capitalista..” (p. a luta entre trabalhadores e fazendeiros centrou-se em torno da partilha do lucro líquido do café. portanto. 50) Duas interpretações a respeito do desenvolvimento econômico brasileiro para a época: “Aqueles que endossam a tese feudal enfatizam os traços distintivos dos sistemas de trabalho agrícola em comparação com trabalho assalariado puro como prova do caráter não-capitalista da agricultura brasileira [de Jacob Gorender]. quando o estado começou a subsidiar a imigração em massa e. ou uma redução salarial.

pela forma específica da luta de classes por ela gerada.” (p. 50-51) (grifos nosso) Conclusão da autora: “As formas do capitalismo não são determinadas pelas necessidades da acumulação de capital. criou novas formas de luta. e defendem a identidade subjacente entre os sistemas de trabalho específicos empregados e trabalho assalariado.econômico mais amplo no qual está inserida a agricultura brasileira. mas.” (p. A resistência dos trabalhadores à taxa de reapropriação do trabalho excedente imposta pelos fazendeiros provocou reajustes na forma de exploração do trabalho. por sua vez. como uma espécie de deus ex machina. [Economia-mundo]. 52) (grifos nosso) . o que. como se demonstrou no caso específico das fazendas cafeeiras paulistas.