A O R IG E M D A O B R A D E A R T E

M a r tin H e id e g g e r

A O R IG E M DA OBRA DE ARTE

edições 70

ADVERTÊNCIA DA TRADUTORA
Fruto de três conferências realizadas em 1936 e publicadas em 1950 a abrir Holzwege, o ensaio de que agora se propõe uma tradução portuguesa, é uma obra da fase final de Heidegger. Perguntando ainda e sempre pela dádiva misteriosa do ser e da verdade, Heidegger visita-a através da meditação da natureza da obra de arte. A experiência profunda da obra de arte revela e esconde a verdade daquilo que é, de tal modo que a podemos ver. A verdade é artística e a arte poética, na sua essência fundadora. Através da obra, abre-se um mundo que indicia, que desprende o alhar cativo para o outro lado das coisas. A arte é um enigma. Longe de Heidegger querer resolvê-lo. O convite vem antes chamar-nos à difícil arte de olhar, para além do que se vê, aí onde algo de invisível se guarda. Mas sigamos a advertência do pr6prio Heidegger - não demorar na interpretação e representação do que aqui se diz: antes partir da silenciosa região do que s6i pensar-se. Maria da Conceição Costa

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1. e na sua relação recíproca. graças àquilo a que o artista e a obra de arte vão buscar o seu nome. de uma outra maneira que aquela em que a obra é a origem do artista. chamamos a sua essência. a origem ao mesmo tempo do artista e da obra. Ou não será o contrário? Porventura há obras e artistas apenas na medida em que há arte.já corresponde. Poõe valer como uma ideia colectiva na qual reunimos aquelas coisas que da arte somente são reais: as obras e os artistas.Origem significa aqui aquilo a partir do qual e através do qual uma coisa é o que é. Tão necessàriamente quanto o artista é a origem da obra de arte. ainda de um outro modo. graças a um terceiro. e como é. que é o primeiro. e mais precisamente enquanto sua origem? . A origem de algo é a proveniência da ~~~ ua essência. Artista e obra são. Mas pode alguma vez a arte ser a origem? Onde e como é que há arte? A arte não é mais do que uma palavra a que nada de real. Ao que uma coisa é como é. Nenhum é sem o outro. pois é pela obra que se conhece o artista. A origem da obra de arte indaga a sua proveniência essencial. Mas por meio e a partir de quê é que o artista é o que é? Através da obra. a saber. A obra é a origem do artista. nenhum dos dois se sustenta isoladamente. Mesmo se a palavra E:1e designasse mais do que uma ideia colectiva. Segundo a compreensão normal. graças à arte. o que é evocado através desta palavra só poderia ser tendo como base a realidade das obras e dos artistas. todavia. ou seja: a obra é que primeiro faz aparecer o artista como um mestre da arte. em si mesmos. assim tão certo é que a arte é.. a obra surge a partir e através da actividade do artista. E. O artista é a origem da obra.

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nem uma imperfeição. Para encontrar a essência da arte. só o podemos experienciar a partir da essência da . também não o pope ser através de uma dedução a partir de conceitos superiores. pois também esta dedução tem previamente em foco aquelas determinações que têm de ser suficientes para nos apresentar como tal o que de antemão tomamos como obra de arte. Nas colecções e exposições. O que seja a obra. Qualquer um nota com facilidade que nos movemos em círculo. acham-se acomodadas obras de arte das mais diversas épocas e povos. Pensa-se que se pode colher o que seja a arte através de uma observação comparativa das obras de arte existentes e a partir destas. Seguir este caminho é que é a força. sem sombra de dúvida. neste caso. Mas como poderemos estar certos de que são. nas igrejas e nas casas. O senso comum exige que se evite este círculo. igualmente impossíveis e aquele que os pratica engana-se a si próprio. toma-se evidente que as obras estão presentes de modo 12 . Toda a gente conhece obras de arte. porque constitui uma violação da lógica. enquanto passo da arte para a obra. Encontram-se obras arquitectónicas e pictóricas nas praças públicas. bem como a dedução a partir de princípios. obras de arte que pomos como fundamento para uma tal contemplação.• Qualquer que seja a resposta. se não sabemos antecipadamente o que é a arte? Mas a essência da arte. O que não é nem um expediente ante a dificuldade. Mas o que é e como é umá obra de arte? O que a arte seja. a pergunta pela origem da obra de arte converte-se em pergunta pela essência da arte. mostram-se. procuramos a obra real e perguntamos à obra o que é e como é. geral existe. temos de percorrer o círculo. um círculo. sem nos deixarmos influenciar por nenhum preconceito. A arte encontra-se na obra de arte. de facto. e permanecer nele constitui à festa do pensamento. a arte efectivamente reina. Não só o passo principal da obra para a arte é. Portanto. que reina realmente na <]bra. O coleccionar obras de entre o que existe. mas cada um dos passos que tentamos se move neste círculo.lrte. admitindo que o_pensamento é um ofício--ÍHandwerk). Se consideramos nas obras a sua pura realidade. tem de apreender-se a partir da obra. tal como não pode alcançar-se através da coleccionação de predicados das obras de arte existente~. tentaremos encontrar a essência da arte onde. Mas porque tem de se deixar em aberto a questão de saber se e como a arte em .

A obra musical está no som. ~«a. por exemplo. É certo. Há sonoridade na obra musical. é que constitui o artístico. uma coisa fabricada. uma vez que a obra de arte é ainda algo de outro. tal como as ::r 1 . À coisa fabricada reúne-se ainda. dir-se-á. ela é alegoria. Há pedra no monumento. que representa um par de sapatos de camponês. que devíamos até dizer antes ao contrário: o monumento está na pedra.tão natural como as demais coisas.À. é que é o elemento coisal na obra de arte. tal como as coisas da limpeza. Reunir-se diz-se em grego cr\)ll~áÀ. para além do seu carácter de coisa? Este outro. os troncos de árvores da Floresta Negra. uma coisa.!J'} . O que seriam sem ele? Mas talvez fiquemos surpreendidos com esta perspectiva assaz grosseira e exterior da obra. A escultura está na madeira. O carácter de coisa está tão incontornavelmente na obra de arte. J batatas na cave. . O quadro está na cor.e Ü ) .. A obra dá publicamente a conhecer outra coisa. que revela um outro. revela-nos outra coisa. Há som na obra falada. Há madeira na escultura talhada. que se reúne com algo de outro.o àYOPEÚEt». O quadro está pendurado na parede. A obra da palavra está no som da voz. que lá está. vagueia de exposição em exposição. os hinos de Holderlin estavam embrulhados na mochila do soldado. mas ela diz ainda algo de diferente do que a simples coisa é. Há que considerar as obras tal como se deparam àqueles que delas têm a vivência e as apreciam. Enviam-se obras como o carvão do Ruhr. como uma arma de caça.EtV. Em campanha. Quase parece que é o carácter de coisa na obra de arte_que constit~i como gue o suporte ~o 9-qu:1 e so~re o q~~~~~ o~. Um quadro como. o de van Gogh. na obra de arte.Â.~ro . Todas as obras têm este carácter de coisa (das Dinghaft). ou um chapéu. Mas também a muito falada experiência estética não pode contornar o carácter coisal da obra de arte. algc. essa unidade. Mas o que é este óbvio carácter de coisa na obra de arte? presumivelmente será ocioso e desconcertante prosseguirnesta pergunta.Â. Há cor no quadro. com efeito. Só essa unidade na obra. Os quartetos de Beethoven estão nos armazéns das casas editoras. Em perspectivas destas a respeito da obra de ~rte podem mover-se o vigia e a mulher a dias do museu. A obra de arte é. Evidentemente. A obra é símbolo. Alegoria e símbolo fornecem o enquadramento em cuja perspectiva se move desde há muito a caracterização da obra de arte.de outro.

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é ~ ã o . à folha no vento de outono e ao a bosque. a saber. temos de conhecer o âmbito a que pertencem os entes a que. com razão.s. Aviões e aparelhos de rádio pertencem hoje.!!g~ outro e ~u~~m~ rcotsa-:-. a 'o b ra d e a r te ta m b é m é u m a re o r s a '. As coisas derradeiras são: morte e Juízo. Uma tal coisa. a saber. E o que se passa com o leite no cântaro e com a água da fonte? Ta elas são coisas se. de facto. Temos. pois.lÍentão é possível õecidir s~ ~ 0. mas quando falamos das coisas derra então pensamos em algo de totalmente diferente. chamamos com o nome coisa. que não aparece. A pedra no caminho é uma coisa.E!a é.exp ciar o caráctercoisal (das Dinghaft) da coisa. no fundq. queremos conhecer o ser-coisa (Dingsein). é certo. Importa . Para tanto. uma vez que só assim encontramos nela tam verdadeira arte. . p e lo m e n o s p o r o ra . tal como a fonte no caminho.1 'le s te s e n tid o .Jldere_ainda alKo. aquilo ue não aparece. é preciso que saibamos de um suficientemente claro o que é uma coisa. na medida em que é uma coisa? Quando assim perguntamos..segundo Kan exemplo. n o n o s s o p r o p ó s ito d e d e lim ita r o e n te q u e é n o m o d o d e s e r d a 14 . se com este nome se designa o que não se mostra a si mesmo como o citado. de muito. E não é este carácter de coisa da obra o que o artista cria na sua manufactura? Gostaríamos de encontrar a imediata e plena realidade da obra de arte..~ a d a . uma tal coisa é até mesmo o próprio Deus. às coisas mais próximas. primeiro de examinar o carácter coisal da obra. Todo o ente que de.autêntico estão edificados.de. uma «coisa em si».-----A coisa e a obra O que é na verdade a coisa. se chama coisas à nuvem no céu e ao cardo no campo. No !QdQ&P-alavg cois_a des 9~e ~~ < tu e s e j. Só então se oode dizet.designalinguagem da filosofia. . Para tanto. todo em todo é.~ m ~ u to .L q ~ .S6a obra de arte é uma foisa ª qual. Tudo isto se deve.JlUtm. tal como o outeiro no campo.'"f ia m e d ld a e m q u e é e m g e d e c o is a n ã o n o s a ju d a . chamar coisa. a coisidade da coisa (di e Dingheit). uma COIsa. o todo do mundo. O cântaro é uma coisa.

o pedaço de madeira. en carácter coisal destas coisas? É a partir delas que se deve poder determinar a coisidade das coisas. O homem uma coisa. figuram como as coisas propriamente ditas. as ver dadeiras coisas são a pedra. Mas estas também não são simples coisas. portanto. Para nós. hesitamos também em chamar a Deus coisa. Uma coisa seria antes o martelo e o sapato. as coisas coisidade se impuseram sempre de novo como o ente padrão. neste caso.sas. para o âmbito estrito das meras coisas.coisa. Além disso. o machado e o relógio. m porque. excluindo até mesmo as coisas de uso. inclui coisas mais elevadas e derradeiras. podemos caracterizar aquela quase ta realidade da obra. Assim nos vemos trazidos de volta do âmbito mais vasto. As coisas inanimadas da Natureza e do As coisas da Natureza e do uso são. que não se suspeita por detrás nada que mere indagado. o outeiro. ao pró talo de erva. para estarmos dispensados do trabalho árido de nós próprios procurarmos o carácter coisal das cois respostas à pergunta acerca do que a coisa é são de tal forma familiares. aquilo a que chamos habitualmente coisas. Hesitamos inclusi vamente em chamar coisa ao cabrito montês na clareira da floresta. ao professor na escola. e pretendemos antestrar encon o que constitui o carácter coisal da coisa. portanto. «Mero» quer dizer. em sentido quase pejorati meras coi. em que tudo é uma coisa (coisa=res=ens=um ente). Igual hesitamos em chamar coisa ao camponês nos campos. Assim equipados. Em que consiste.É certo que chamamos a uma jovem. temos de encontrar nas interpretações cionais do ente já a delimitação da coisidade das coisas. logo que se fez a pergunta sobre o que é o ente em geral. na qual está ainda algo de outro. Por consequência. «Mero» quer dizer aqui primeiro: a pura cois é simplesmente coisa e nada mais. passamos ao lado do aspecto humano. depois. que realiza uma tarefa que a ultrapassa. A determinação põeem estado de reconhecer ocarácter de coisa enquanto tal. ao fogueiro diante da caldeira. uma coisa demasiado nova. em relação ao ente que é no modo de ser da obra. ao mesmo tempo: já só coisa. de nos certificar expressamente deste tradicional da coisa. Vale como facto conhecido que. 15 . ao escaravelho na relva. desde há muito. Só precisamos.

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Tudo o que acabamos de enumerar podemos encontrarna pedra. decerto.aUll~E~llKÓÇ toma-se accidens. Até ao momento. para outro modo de pensar. numa fonte comum mais original. todavia. São as suas propriedades. Todavia. o chamá-Ias e o 16 falar acerca delas. Através destas determinações. c . e isso quer dizer já modificação da compreensão. o que subjaz e já existe sempre.à aUll~E~llKÓm. . o que nelas há de espontâneo. Quem ousaria tocar nestas relações fundamentais simples entre coisa e proposição. sem que a própria coisa se tenha previamente tomado visível. mas na verdade muito precipitada. nem esta se reflecte pura e simplesmente naquela. Este inabitual. Ela começa com a recepção das palavras gregas no pensamento romano-latino. O que nos parece natural é unicamente o habitual do há muito adquirido. por mais corrente que seja. que 17 .Esta tradução dos nomes gregos na língua latina não constitui de modo algum o acontecimento sem consequência por que ainda hoje é tido. nem a estrutura da proposição serve de padrão para o projectar da estrutura da coisa. surpreendeu um dia o homem como algo de estranho.. por detrás da tradução aparentemente literal. chamam-se .c . a nossa estada vígil no campo das coisas diz-nos já que este conceito de coisa está longe de atingir a coisidade das coisas. justamente ocorre. mas para todo o ente. com isto. a experiência fundamental grega do ser do ente. então. A coisa tem -nas. maciço. Nelas fala' o que aqui já não se Pode mostrar. donde provém. no qual são enunciados os predicados da coisa. Ambas. uma tra-duçãoda experiência grega. podem reduzir-se a três. ainda não se decidiu a questão sobre o que é primeiro e serve de padrão. sem a palavra O desenraizamento grega. Permanece até mesmo duvidoso se a questão nesta forma poderá em geral resolver-se. que é a tradução latina. pesado. Fala-se. não pode jamais distinguir-se por seu intermédio entre o ente coisal e o ente não coisal. Ú1tOKEÍllEvov tomou-se subjectum. teria de mostrar primeiro como é possível esta transposição da estrutura da proposição para a coisa. fundou-se a interpretação. A coisa? Em que pensamos quando nos referimos aqui à coisa? Manifestamente. porém. segundo a opinião corrente. t íp A confiança na interpretação corrente de coisà só aparente. e que por isso preserva. A proposição enunciativa simples compõe-se de sujeito. É duro. a saber. a partir de então decisiva. Os gregos teriam chamado a tal . todavia. entre estrutura da proposição e estrutura da coisa? Todavia. Mas as caractensticas indicam que é peculiar à própria pedra. estão reunidas as propriedades. a estrutura da proposição ou a estrutura da coisa.~_. No fundo.mente é fundada. a coisa não é apenas o somatório das caractensticas. Em todo o caso. a estrutura da proposição e a da coisa radicam. Uma simples coisa é. aquilo em tomo do qual. ora brilhante. que fez esquecer o inabitual. extenso. não' é tão natural como pretende. este conceito de coisa (a coisa como . predominantes ao longo do pensamento ocidental. a primeira interpretação avançada sobre a coisidade da coisa. do pensamento ocidental começa com esta tradução. Estas designações não são quaisquer nomes. Por isso.O que sempre já aparece também com o que de cada vez existe e que. informe.v1tóamcrtç vira substantia. e levou o pensamento ao~ espanto. colorido. O pensamento romano recebe os nomes gregos sem a correspondente experiência original do que eles dizem. no seu modo de ser. rude. do núcleo das coisas. antes de todas as dúvidas. a coisa como suporte das suas caractensticas. temos de perguntar: será que a estrutura da proposição simples (conjugação de sujeito e predicado) constitui a imagem especular da estrutura da coisa (união da substância com acidentes)? Ou essa representação da coisa não é antes concebida a partir da estrutura da frase? O que é que é mais natural do que o homem projectar o modo como concebe a coisa no enunciado sobre a estrutura da própria coisa? Esta ideia aparentemente cntica. de ú1tOKEíllEVOV . Antes se esconde. Não admira que se tenha adaptado a esta perspectiva habitual de coisa também o comportamento corrente relativamente às coisas. A coisa é como todos julgam saber.~ suporte das suas caractensticas) não só vale para a mera coisa propriamente dita. este bloco de granito. Além disso. ~~V'~ C \. ora baço.. na sua possível relação recíproca. no sentido da presença.. Tomamos assim conhecimento das suas caractensticas. por exemplo.o Ú1tOKEÍllEVOV. tampouco a acumulação das propriedades através da qual somente surge o todo. há muito se tomaram evidentes e hoje estão em uso quotidiano. O elemento nuclear da coisa era para eles.As interpretações da coisidade da coisa que. A determinação da coisidade da coisa como substância com os seus acidentes parece.e de um predicado. corresponder ao nosso olhar natural sobre as coisas. da coisidade da coisa e estabeleceu-se a interpretação ocidental do ser do ente. As caractensticas.

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todavia. o conceito de coisa. mas. a fim de que possa manifestar directamente o seu carácter coisal. se tomou ratio. pelo contrário. quer dizer. no ouvido. por exemplo. Só então poderemos abandonar-nos à presença não mascarada da coisa. numa determinação da essência da coisa quando só o pensamento deve ter uma pala vra a dizer? No entanto. porque é mais aberto ao ser do que toda a razão que. Que esta unidade seja concebida como soma. ou mesmo de organizar. e eis que este conceito de coisa nos deixa de novo na perplexidade. não temos de o provocar. No que a nós vem na vista. Às vezes. talvez aquilo a que aqui e em casos análogos chamamos sentimento ou estado afectivo. através das sensações. não apreende na sua captação a coisa que está presente. da dureza. do som.idade. desde há muito. tota). Há muito que ele se produz. no tacto. entretanto. se aperceba mais. mais tarde. Mas este imediato vir ao encontro das coisas. Tudo o que se queira entrepor entre nós e a coisa como concepção e enunciado sobre a coisa deve ser afastado. nas sensações da cor. ouvimos a tempestade a assobiar na lareira. e como. em vez de fàzer um esforço por tomar o pensamento mais pensante. Meditemos a fundo no que procuramos. Por conseguinte. tenha mais razoabilidade. sons e ruídos. a ataca. razão pela qual se renega o pensamento. antes pelo contrário. como o aborto do racional não pensado. na ocorrência das coisas. e foi falsificada pela interpretação racional. por mais seguro que seja. temos ainda o sentimento que. evitar tal ataque? Só o conseguiremos se deixarmos à coisa como que um campo livre. a coisidade da coisa. da aspereza. Isso basta já para nos fazer duvidar da sua verdade. Aí prestou estranhos serviços o fascínio pelo ir-racional. se fez violência ao elemento coisal das coisas e que nesta violência o pensamento estava em jogo. ouvimos o avião 18 . Será possível. E. A coisa é o Ut0UT]tÓ V. as coisas não vêm sobre nós no sentido literal do termo. ou forma em nada altera o traço fundamental deste conceito. Ora. esta interpretação da coisidade da coisa é sempre tão certa e confirmável como a precedente.repousa em si. uma afluência de sensações. Mas o que é que pode valer um sentimento. Jamais. o que é perceptível nos sentidos da sensibilidade. percebemos primeiro e propriamente. É certo que o conceito corrente de coisa convém de cada vez a cada coisa. como ele pretende. tomou-se habitual. segundo o qual ela nada mais é do que a unidade de uma multiplicidade do dado nos sentidos.

Mas uma coisa nunca aí chega. es malmente encontrado o conceito de coisa. apresentado esta constatação evidente e conhecida. A matéria é o suporte e o campo para a enformação artística. Deve apreender-se no carácter de consistência que lhe é própria. Esta inte retação da coisa reclama-se da perspectlVa imediata. . É o que parece conseguir a terceira interpretação. ouvimos o Mercedes e o distinguimos imediatamente de ~ um Adler. que se aplica igualmente bem às coisas da Natureza e às coisas do uso. Em ambas as interpretações. Enquanto a primeira interpretação da coisa no-Ia mantém à distância e demasiadamente afastada de nós. que é tão antiga como as duas anteriormente nomeadas. Para quê este desvio pelos outros conceitos de coisa ainda vigentes? Porque também desconfiamos deste conceito de coisa que representa a coisa como matéria enformada. a consistência (di e Konsistenz) reside no facto de uma matéria se conjugar com uma forma.wpqn'j). enquanto lhe atribuirmos o que é percebido na sensação como o seu carácter coisal. para nós. o maciço é a materialidade. as próprias coisas. temos de deixar as coisas. a segunda fá-Ia vir excessivamente sobre nós. afastar o ouvido de as ouvir. MáSpodería!nos ler. Para ouvir um mero ruído. Muito mais próximo do que todas as sensações estão. Ouvimos em casa a porta a bater e nunca ouvimos as sensações acústicas ou mesmo os meros ruídos. A coisa deve deixar-se no seu estar-em-si. O que dá às coisas a sua consistência (das Standige) e a sua nuclearidade e que origina simultaneamente o tipo do seu afluxo sensível. Nesta determinação da coisa como matéria (üÀ T\)está já implicada a forma (J. Importa.8oç).A firmeza (das Standige) de uma coisa. Com a síntese e ma n a. ~ No conceito de coisa agora referido. a coisa desaparece. evitar os excessos destas duas interpretações. O carácter coisal na obra é manifestamente a matéria de que consta. a dureza. não há tanto um ataque à coisa. com a ual uma COIsa nos mterpe a a rav s o seu aspecto (Eí.trimotor. 19 . isto é. ouvir abstractamente . quanto a tentativa exagerada de trazer as coisas a uma imediatez tão grande quanto possível em relação a nós. o sonoro. b colorido. Este conceito de coisa coloca-nos na posição de responder à pergunta acerca do carácter de coisa na obra de arte. por isso. desae logo. A coisa é uma matéria ~.

Só que a interpretação teológica de todo o ente. se conceber de antemão a totalidade dos entes como algo de criado. A filosofia desta fé pode certamente asseverar que toda a actividade criadora de Deus se deve representar de modo diverso da acção de um artífice. então a f:l . o carácter de coisa. Foi a~sim que a interpretação da coisa pela matéria e fonna. q u e m undo .• complexo matéria-fonna). Mas nem por isso é menos um ataque ao ser-coisa da coisa do que as outras interpretações da coisidade da coisa. ainda resta. se tomou corrente e óbvia. quer pennaneça medieval.-/ acreditado na Fé. segundo uma predetenninação crida da filosofia tomista à exegese da Bíblia. com base numa fé.concepção do mundo como matéria e fonna . e isso quer dizer aqui fabricado. se bem que um apetrecho despido do seu ser-apetrecho (Zeugsein).pode. ou previamente. quando ao mesmo tempo. no entanto. A mera coisa é uma espécie de apetrecho (Zeug). importada de uma filosofia heterogénea . O ser-coisa (Dingsein) consiste no que. finalmente. alguma vez. Mas este resto não é expressamente determinado no seu carácter ontológico. uma vez estabelecida. a que tem como fio condutor o complexo matéria-fonna também traduz um ataque à coisa. A tendência para considerar o complexo matéria-fonna como a constituição de todo o ente encontra. É duvidoso que por via da abstracção do carácter instrumental (Zeughaft) venha a aparecer. Já o facto de chamannos às coisas propriamente ditas meras coisas trai a situação. uma motivação particular no facto de.· A metafísica da Idade Moderna repousa no complexo matéria-fonna cunhado na Idade Média. O «mero» significa o despojamento do carácter da serventia e da fabricação. se pensa o ens creatuma partir da unidade matéria e ~ fonna. a terceira interpretação da coisa. que só nas palavras recorda a essência esquecida de l':tO O e ç üÀll. Todavia. cuja verdade repousa n tr 1l n u m d e s v e l a m e n t o d o e n t e . 22 . continuar. quer se tome transcendental-kantiana. A ideia de criação que se fundamenta na fé pode. muito bem perder a sua força orientadora em prol do saber do ente na sea totalidade. então. Assim. não obstante. concretamente a bíblica.yfé é interpretada a partir de uma filosofia. todo o ente. É o que acontece na passagem da Idade Média para a Idade Moderna. agora. o ente que não tem o carácter de apetrecho. as coisas e obras e.

representar exactamente o contrário da indiferença que vira as costas ao ente a favor de um conceito de ser que não foi posto à prova? Devemos voltar-nos para o ente. a jortiori. tanto para o carácter coisal da coisa. Este facto é a razão pela qual se toma necessário conhecer estes conceitos de coisa. as referidas interpretações ainda se combinaram entre si. a obra em particular. pensá-Io em si mesmo. este nan-estã( compelido a nada em si repousando. Que haverá de mais fácil do que deixar ο ente ser o ente que é? Ou com esta tarefa não estaremos perante o mais difícil. pois que outro fundamento poderia ter o fracasso das tentativas referidas? O que há de mais discreto. tanto mais necessário. mas. é o que mais obstinadamente escapa ao pensar. na sua essência. deixar a coisa. deixá-Io repousar em si mesmo. Este esforço do pensar parece enfrentar a maior resistência na detenninação da coisidade da coisa. por exemplo. No decurso da história da verdade sobre o ente.Os três modos referidos de detenninação da coisidade concebem a coisa como o suporte de características. o apetrecho. uma coisa é precisa: mantendo afastadas as antecipações e os atropelos desses modos de pensar. bem como a aparência do seu carácter óbvio. como matéria enfonnada. sobretudo se um tal projecto deixar ser o ente como ele é . Ou será que o manter-se em reserva da mera COISa. de que cada vez se trata. reforçaram ainda a amplitude de que se revestem. Assim se constitui a partir delas o modo de pensar. no seu ser. Este conhecimento é. quando ousamos tentar trazer à luz e à palavra o carácter coisal da coisa. E assim que os conceitos dominantes de coisa nos barram o caminho. Nesta combinação. mas também sobre todo o ente em geraL Este modo de pensar. repousar no seu ser-coisa. segundo o qual pensamos. fará justamente parte da essência da coisa? O que há de estranho e de cerrado na essência 23 . o que agora não teremos em conta. para o apetrecho e para a obra. não só sobre a coisa. que há muito se tomou corrente antecipa-se a toda a experiência imediata do ente. Para tanto. de tal modo que valem igualmente para a coisa. quanto para o carácter instrumental do apetrecho e. para o carácter de obra da obra (Werkaften des W erkes). A antecipa~ão veda a meditação sobre o ser do ente. o carácter instrumental do apetrecho e o carácter de obra da obra. a coisa. para meditar a sua proveniência e presunção· ilimitada. como a unidade de uma multiplicidade de sensações. pois. ao mesmo tempo.

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Para a sua descrição. o carácter instrumental do apetrecho. Ao mesmo tempo percebemos nesta história um aceno. Ma limitamo-nos a constatar este facto. está -part cularmente próximo do representar humano. Escolhemos como exemplo um apetrecho conhecido: um par de sapatos de camponês. Para tanto escolhemos uma conhecida pintura de Van Gogh. Será porventura um acaso q interpretação da coisa. então. antes de mais. Este ente. que pintou várias vezes calçado deste género. Toda a gente os conhece. Temos somente de evitar fazer precipitadamente da coisa e da obra varieda apetrecho. entretanto. Mas como se trata de uma descrição d talvez seja bom facilitar a presentificação intuitiva (Veranschau lichung). segundo o qual o pensamento ocidental pensou até aqui o ser do ente. Para fornecer esta ajuda. Mas que caminho conduz ao carácter instrumental no apetre cho? Como é que devemos experienciar que é que o apetrecho n verdade é? O procedimento agora necessário deve obviamente manter-se afastado daquelas tentações que imediata trazem consigo os atropelos das interpretações correntes. Seguim aceno e procuramos. da possibilidade de reinarem também ainda diferenças históricas_essenciais no modo o apetrecho é apetrecho. porque vem a ser através da nossa própria produção. de passar a ser o familiar para um pensamento que tenta pensar a essência da coisa? Se assim fo devemos então forçar o caminho para o carácter coisal da coisa. Estamos mais seguramente ao abrigo disso se pura e simples sem qualquer teoria filosófica. basta uma representaçã pictórica. disso constitui a história das suas interpretações uma infalíveL Esta história corresponde ao destino. fizermos a descrição de um apetrecho. tem simultaneamente uma posição intermédia peculiar entre a coisa e a obra. Talvez a partir daqui nos surja algo sobre o ca coisal da coisa e o carácter-de-obra da obra. não é precis à frente autênticas peças deste tipo de apetrechos de uso.da coisa não terá. o apetrecho. O ente que no seu ser é modo mais familiar. Que a coisidade da coisa muito difícil e raramente se deixa dizer. tenha alcançado uma particular predo minância a que tem como fio condutor a matéria e a forma? Est determinação da coisa provém de uma interpretação do -apetrecho ser do apetrecho. Abstraímos. o apetrecho. que é que há aí de especial para ver? Toda a gente sabe o que faz parte 24 .

jamais apreenderemos o que é. pelo contrário. Enquanto. Este apetrecho pertence à terra e está abrigado 25 . E tanto mais autenticamente o são. o carácter instrumental de apetrecho deve realmente vir ao encontro. algo que pudesse denunciar a sua utilização.r . há uma sola de couro e o cabedal que cobre. ou olharmos no quadro os sapatos va não usados que estão meramente aí. sobre o qual sopra um vento agreste. ajustados um ao outro por cos pregos. No couro. ) campo no Inverno. o carácter instrumental do apetrecho. a silenciosa alegria de vencer uma vez mais a miséria. está a humidade e a fertilidade do solo. Neste processo de uso do apetrecho. Na gravidad rude e sólida dos sapatos está retida a tenacidade do lento caminhar pelos sulcos que se estendem até longe. tivermos presente um par de sapatos apenas em geral. Nem sequer a eles estão torrões de terra.. A da pintura de Van Gogh não podemos sequer estabelecer onde se encontram estes sapatos. não há nada em que se integrem.de um sapato. Um par de sapatos de camponês mais. Sob as solas. Mas o que se passa com esta? Apreendemos já porventura o ca instrumental do apetrecho? Para o conseguirmos. Por apetrechop~ o calado temor pela ~ lJI's egurança do pão. a que possam pertencer. a angústia do nascimento iminente e o tremor ante a ameaça da morte. Consoante a serventia. ou olha para eles ou até mesmo os sente. Se não são socos ou chanatos. Um apetrecho deste tipo serve para calçar os pés. a sua muda oferta do trigo que ama -A~ durece e a sua inexplicável recusa na desolada improdutividade do. Eis como os s servem realmente. fita-nos a culdade difi e o cansaço dos passos do trabalhador. insinu solidão do caminho do campo. O ser-apetrecho do apetrecho repousa na sua serventia. ou para d assim diferem matéria e forma~ Estas indicações adequadas apenas explicam o que já sabemos. ou do caminho do campo. sempre pelo campo. Na escura abertura do interior gasto dos sapatos. na verdade.. só um espaço indefinido. pela noite que cai. se para o trabalho no campo. Ela está de pé e anda com eles. não temos de curar pro o apetrecho que tem serventia no seu serviço? A camponesa no campo traz os sapatos. E todavia . Só aqui eles são o que são. Em tomo deste par de sapa camponês. quanto a camp durante a lida pensa neles. No apetrecho para calçar r v -impera v~ o apelo calado da terra..

Só por ela percebemos aquilo que o apetrecho na verd Todavia. na sua serventia. tira os sapatos e. É graças a ela que a camponesa por meio deste apetrecho é confiada ao ape calado da terra. de cada vez que. conjuga em si todas as coisas.do a cho é. a solidez. então. a camp com um cansaço forte. reside na sua solidez. Mundo e terra estão. O apetrecho par usa-se e gasta-se: mas. em diz de festa. desgasta-se e toma-se banal. apenas a consequência essencial da solidez. repousa na plenitude de um ser essencial do apet Denominamo-Ia a solidez (Verlasslichkeit). É a partir desta abrigada pertença que o próprio produto surge para o seu repousar-em-si-mesm Mas tudo isto o vemos possivelmente no apetrecho para calçar que está no quadro. por sua vez. como o seu único modo de ser. que repousa em si. remonta a uma origem mais funda. O repouso do apetrecho. o apetrecho. Assim. ainda não sabemos nada do que inicialmente pro26 . O ser-apetrecho do ape reside. aquele que aparentemente lhe é exclusivo e próprio. ainda escura. para ela e para os que estão ela. apenas aí: no apetre cho. porque a solidez do apetrecho é que dá a este mundo simples uma estabilidade e assegura à terra a liberdade do seu afluxo constante. de madrugada. e nada seria sem ela.no mundo da camponesa. Dizemos «apenas» e estamos errados. Pelo contrário. sem dúvida. De cada vez que. Como se este simples trazer fosse assim tão simples. mas saudável. o ser-apetrecho entra na desolação e decai. à qual então as coisas de uso ficam a dever a sua banalidade entediante e maçadora. tudo isto ela sabe sem considerar e observar. é já só a pura serventia que é visíve suscita a aparência de que a origem do apetrecho reside na mera fabricação. o próprio uso cai em usura. passa por eles. Uma tal desolação do ser-apetrecho é o desvanecimento da so Esta perda. a camponesa. vem de mais longe. no seu autêntico ser-ape trecho. O ser-apetrecho do apetrecho. e a distinção entre ambas. já noite alta. Aquela vibra nesta. Agora. volta a lançar mão ou de cada vez que. ao mesmo tempo. Aserventia. traz simplesmente os sapatos. graças à solidez do apetrecho. dá apenas mai testemunho da essência original do ser-apetrecho. Mas esta. todavia. convertendo-se em mero apetrecho. que imprime uma forma numa matér entanto. Matéria e forma. está certa do seu mundo. A banalidade sujeita à usura do apetre c ho inculca-se. segundo o seu modo e extensão.

como à primeira vista p parecer. Antes sucede que só através da obra. no sentido de obra de arte. Este ente emerge . ÇQ!1La.d_e_da_obI'a. Se aqui algum coisa é questionável é só esta. a arte tinha a ver com o Belo e a Beleza. ver Na obra de arte. Um ente. Nós dizemos verdade e pensamos bastante pouco \ com essa palavra. Ou será que. Mas.curámos. põe-se em obra a verdade do ente. Na obra.-A obra-d-eane fez saber o que o apetrecho de calçado na verdade é. também não medi observação da utilização real dada aqui ou ali a apetrechos de calçado. enquanto actividade subjectiva. Mas como? Não através de uma descrição e explicação de um apetrec calçado realmente presente. e s o ser-apetrecho do apetrecho vem expressamente à luz. não medi ante um relatório sobre o processo de fabricação de sapatos. no que é e no modo como é. O que se passa aqui? Que é que está em obra na obra? A pintura de Van Gogh constitui a abertura do que o apetrecho. Foi este que falou. ' 27 . inadvertida e marginalmente. se nela acontece uma abertura do ente. o par de sapatos da camponesa. Seria a pior das ilusões se quiséssemos pensar qu nossa descrição.prQx.imid9. já experienciámos algo sobre o carácter-de-obra da obra? Descobrimos o ser-apetrecho do apetrecho.n velamento do seu ser. para uma melhor presentificação intuitiva daquilo que é um apetrecho. --'. mas apenas graças ao facto de nos pormos per quadro de Van Gogh. a obra não serviu em absoluto. aced na obra ao estar na clareira do seu ser. O ser do ente acede à permanência do seu brilho.Werk-Setzen der Wahrheit des Seienden) Até I aqui. o carácter-d da obra. e de todo não sabemos o que propriamente e em exclusivo procuramos. antes de tudo. um par de sapatos de camponês. o carácter coisal da coisa. está em obra um acontecer da dade. na verdade é.estivemos de repente num outro lugar que não aquele em que habitualmente costumamos estar. de na proximidade da obra experienciar mos demasiado pouco e chegarmos à experiência de um modo por de mais grosseiro e imediato. A essência da arte seria então o pôr-se-em-obra da verdade j ente do (das Sich-ins. e não com a verdade. para depois o projectarno quadro. que tudorou figu assim. «Pôr» fica signi aqui erigir. Ao desvelamento do ente chamavam os gregos áÀ TÍVEta .

na obra. e a taça. Mas será ? que o que queremos dizer é que o quadro de Van Gogh copia um par de sapatos de camponês que realmente está aí. uma relação de cópia entre algo já real e a obra de arte manifestamente não tenha cabimento. confirma-se da melhor maneira a ideia. Nas belas artes não é a arte que é bela. A beleza está reservada à estética . superada. 28 . não é de uma reprodução do ente singular que de cada vez está aí presente. ~OUserá que com a proposição «a arte é o p6r-se-em-obra-daverdade» se pretende reanimar de novo aquela ideia. extravasa sobre o fundo de uma segunda taça. t' diz a Idade Média. que se trata.lOíffiatS. por oposição às artes de manufactura que fabricam apetrechos. e é uma obra porque consegue fazê-Io? De modo nenhum. Portanto. «O Reno». aliás. Meyer. todavia. chama-se assim porque produzem o belo. através de uma obra do tipo da que aponta o poema de C. Ou pensemos no hino de HOlderlin. ~rtence à lógica. mas sim da reprodução da essência geral das coisas. diz já Aristóteles. segundo a qual a obra copia qualquer coisa: A Fonte Romana Eleva-se o jacto de água e. F. A conformidade Vl'I~ com o ente vale. segundo a qual a arte seria uma imitação e cópia do real? A reprodução do que está perante nós (Vorhandenen) requer.. Mas onde está e como é essa essência geral. a conformidade com o ente. enche por inteiro o redondo da taça de mármore. ÓJ. e a segunda. como a essência da verdade.. adaequatio. O que é que aqui foi dado de antemão ao artista e como o foi para que depois se pudesse reproduzir no poema? Ainda que no caso deste hino e de outros poemas semelhantes. numa tal obra. para que as obras de arte lhe possam ser conformes? A que essência da coisa é que será conforme um templo? Quem ousaria afirmar o impossível que na obra arquitectónica está representada a ideia do templo em geral? E. é a verdade que está posta em obra. de há muitó. são chamadas belas artes. «A Fonte Romana». enchendo-se. A ver~lo contrário. se é uma obra. tomando água amais. a adaptação a este. caindo.. em boa hora .As artes que produzem obras deste género.

'" .'.( l.

o suporte coisal. que nela impera. nem sequer foi colhido da essência da coisa. deu o aceno para de novo fazer a pergunta pelo carácter instrumental. O conceito prevalecente de coisa.--por aqUIlo que está em obra na obra.õ· erra o. não pertence em geral desse modo à obra. Duas coisas se tomam claras. diz-se com efeito. mas evitando as interpretações correntes. são insuficientes. a coisa como matéria enformada. nem é o reflexo da essência geral de uma fonte romana. se acaso ainda a isso se pode chamar um resultado. todavia. Assim que na obra visamos qualquer coisa desse género. é algo intemporal e supratemporal. como que despercebidamente. Esta prevalência do ser-apetrecho que. ao esperarmos encontrar a realidade da obra primeiro no suporte coisal.procurar a obra de arte real na sua realidad ? Seguimos um cãmiíili. não foi expressamente meditada. apreender esta coisidade não bastam. Apurou-se também que já de há muito o ser-apetrecho impôs uma singular prevalência na interpretação do ente. ainda uma superstrutura que deve conter o elemento artístico. porque eles próprios passam ao lado da coisidade. Que verdade é que acontece na obra? Pode a verdade em geral acontecer e ser assim histórica? A verdade.-. os conceitos de coisa dominantes. mas sim a partir da essência ~o . apetrecho.dá à terceira. ao qual concedemos. em ondas. e cada uma ao mesmo tempo toma e dá 'e jorra e repousa.>ra: a abertura do ente no seu ser: o~~~ciIDe~ da verdade. Para. além disso. Estamos agora perante um esrranho resutrã<l<Jd'a:s-nossas retlexões. o que acontece com o nosso Qropós. passámos imediatamente a tomar a obra como um apetrecho. entretanto. Aqui não está retratada poeticamente uma fonte de facto existente. Em primeiro lugar: os meios de compreender o suporte coisal da obra. à luz aquilo que na obra está em o1. o seu jorro. Em segundo lugar: o que queríamos compreender como a mais próxima realidade da obra. Veio assim. Apurou-se como a realidade mais próxima na obra é o suporte coisal. os conceitos tradicionais de coisa. Mas a obra não é nenhum apetrecho 29 . Se a realidade da obra não pode ser definida a não ser --. Deixámos que fosse uma obra a dizer-nos o que um apetrecho é. Mas a verdade está posta em obra. para aí encontrar realmente a arte.i1o-de. Procuramos a realidade da obra de arte.

a saber. por uma coisa e. a verdade do ente. mas antes. procuramos. está dotado de um valor estético. A arte é o pôr-se-em-obra da verdade. mas este carácter coisal. O que importa é uma primeira abertura do olhar para o . A forma como ela considera antecipadamente a obra de arte está sob o domínio da interpretação tradicional de todo o ente enquanto tal. só se tomar mais próximo de nós. facto de o carácter de obra. tem de pensar-se a partir do carácter de obra da obra. por um apetrecho. Mas esta não foi u~a questionação que tenhamos sido os primeiros a desenvolver. Na obra. em parte. antes de mais. Em que é que consiste? As obras de arte mostram sempre. o desocultar. porque não perguntámos pela obra. A tentativa de apreender o 30 . realidade da obra. o caráçter instrumental do apetrecho. Eis porque foi preciso fazer um desvio. se bem que de formas completamente diferentes. o elemento coisal da coisa. acontece esta abertura. Mas o abalo desta questionação habitual não é o essencial. então o caminho para uma definição da realidade com carácter coisal da obra não é um caminho que leva à obra através da coisa. A obra de arte abre à sua maneira o ser do ente. E a questionação da Estética.que. um caminho que leva à coisa através da obra. a ela inerente. quanto a mera coisa é um apetrecho a que apenas falta o autêntico carácter dos apetrechos. Se assim é. Mas o que é a arte? A arte é real na obra de arte. a coisalidade (das Dinghafte). a. de tempos a tempos. aconteça como arte? Em que consiste este pôr-se-em-obra? A obra e a verdade A origem da obra de arte é a arte. se pensamos o ser do ente. o carácter de serventia e de fabricação. \ A nossa questionação da obra acha-se perturbada. Para tal é necessário que caiam primeiro as barreiras do que é óbvio (das Selbstverstandlich) e que os ilusórios conceitos habituais sejam postos de lado. A obra é tampouco isso. ou seja. O carácter coisal na obra não deve ser negado. além disso. Que é a própria verdade para que. Por isso. mas antes. em parte. se pertence ao ser-obra da obra. Mas ele leva-nos ao mesmo tempo ao caminho que pode conduzir a uma determinação do elemento coisal na obra. a verdade do ente pôs-se em obra na obra. Na obra de arte. ao invés.

O comércio de arte zela pelo mercado. acesso que a si próprio se anula na criação. são arrancadas ao seu espaço essencial. com a pergunta sobre o seu suporte coisal (dinglichen Unterbau). através da qual barramos o acesso ao ser-obra-da-obra. mas são aquelas que já foram (die Gewesenen). Não apenas porque estes conceitos de coisa não captam a coisalidade. Mas mesmo que nos esforcemos por suprimir tais transferências das obras. mas porque. como as obras que elas mesmas são. no meio de toda esta diversa manipulação. a Antígona de Sófocles. As autoridades oficiais tomam a cargo o cuidado e a conservação das obras. o artista permanece algo de indiferente em relação à obra. no museu de Munique. As obras não são mais o que foram. A subtracção e a ruína do mundo não são reversíveis. enquanto o puro estar-em-si-mesma (reine Insichstehen) da obra não se tiver claramente manifestado. constrangemo-Ia segundo uma apreensão prévia. fracassou. Através dele. Assim. . que se nos deparam. é certo. Mas é a obra alguma vez acessível em si? Para tal se conseguir. Mas é isso que visajá o mais autêntico intento do artista. a obra deve ser libertada para o puro estar-em-si-mesma. as próprias obras encontram-se e estão penduradas nas co1ecções e nas exposições. na grande arte. A investigação em história de arte transforma as obras em objectos de uma ciência. seria preciso retirar a obra de todas as relações com aquilo que é outro que não ela. por boa que seja a sua conservação. Mas. a transferência para uma colecção retirou-as do seu mundo. por exemplo. Mas estarão elas porventura aqui em si próprias. procurar no seu local o tempo de Paestum. A coisalidade na obra nunca poderá ser encontrada. e só ela está aqui em questão. o mundo destas obras que aí estão ruiu. vêm as próprias obras ainda ao nosso encontro? As esculturas de Égira. ou a catedral de Bamberg. através dos conceitos habituais de coisa. indo. São elas mesmas. Como 31 . Justamente.carácter coisal da obra. quase como um acesso para o surgimento da obra. por mais seguramente que estejam interpretadas. a fim de a deixar repousar por si própria em si mesma. ou não estarão antes aqui como objectos do funcionamento das coisas no mundo da arte (Kunstbetrieb)? As obras tomam-se acessíveis ao gozo artístico público e privado. Por maior que seja o seu nível e o seu poder de impressionar. . na melhor edição crítica. enquanto obras que estão. Críticos e conhecedores de arte ocupam-se delas.

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o acontecimento da verdade estava em obra. em tal abertura. Dissemos que. todavia. a obra permanece ainda obra.aquelas que foram. e por mais que empreenda tudo em prol das próprias obras. Fazemos agora a pergunta sobre a verdade em vista da obra. É a obra templo que primeiramente ajusta e ao mesmo tempo congrega em tomo de si a unidade das vias e das relações. um templo grego. Aonde é que uma obra pertence? A obra pertence enquanto obra ao campo que é aberto por ela. A referência ao quadro de Van Gogh procurava nomear este acontecimento. o deus advém no templo. infelicidade e prosperidade. se está para além de qualquer relação? Não é próprio da obra o estar em relações? Sem dúvida. nos possamos familiarizar com o que está em questão. O seu estar aí em frente constitui ainda. uma consequência do primigénio estarem -si. sem dúvida. A amplitude dominante destas relações abertas é o mundo deste povo histórico. no indefinido. Está ali. para o cumprimento da vocação a que se destina. Este esvaneceu-se. Um edifício. ganham para o ser humano a forma do seu destino. Mas isto não constitui o seu ser-obra. surgiu a questão de saber o que é a verdade e como é que ela pode acontecer. Em vista disso. O edifício encerra a forma do deus e nesta ocultação (Verbergung) deixa-a assomar através do pórtico para o recinto sagrado. simplesmente erguido nos vales entre os rochedos. e só advém. na obra. então. Para esta tentativa escolhemos uma obra que não se conta entre as obras arquitectónicas. Este advento de deus é em si mesmo o estender-se e o demarcar-se (die Ausbreitung und Ausgrenzung) do recinto como sagrado. por mais extremo que seja o seu desenvolvimento. Todo o funcionamento das coisas no mundo da arte. não imita nada.própria. permanecem apenas enquanto tais objectos. Graças ao templo. 32 . estão perante nós. atinge sempre somente o ser-objecto das obras. todavia. é necessário tomar de novo visível o acontecimento da verdade da obra. Porque o ser-obra da obra advém. resistência e ruína. no âmbito da tradição e da conservação. O templo e o seu recinto não se perdem. nas quais nascimento e morte. vitória e derrota. Mas. só que resta saber em que relações ela se encontra. A partir dele e nele é que ele é devolvido a si próprio. mas já não é esse mesmo estar-em-si. Para que. A partir daqui.

através dela. Naquilo que se ergue advém a terra como o que dá guarida. A obra que é o templo.' no seu estar-aí (Dastehen) concede primeiro às coisas o seu rosto e aos homens a. se pensarmos tudo isso de modo inverso. não dá nada. de sabermos ver. mas é uma 33 . são o que põe em evidência a claridade do dia. Ali de pé. A terra é isso onde o erguer alberga (bergen) tudo o que se ergue e. com a condição. O templo. ali de pé. a este levantar-se ele próprio e na sua totalidade chámavam os gregos. não forçado a nada. enquanto o deus dela não tivér fugido. como tudo se nos apresenta de outro modo..Ali de pé repousa o edifício sobre o chão de rocha. vem à luz como o solo pátrio (heimatlich Grund). abre um mundo e ao mesmo tempo repõe-no sobre a terra que. O seu seguro erguer-se toma assim visível o espaço invisível do ar. desde muito cedo. todavia. A árvore. A este vir à luz. reconhecidos como objectos imutáveis. a serpente e a cigarra adquirem uma saliência da sua forma. Não se trata de uma representação para que. a ambiência adequada ao templo. a < p ó c rtSEla . Esta vista permanece aberta enquanto a obra for obra. efectuada por si mesma. mas também a imagem puramente astronómica de um planeta. a imensidade do céu. a obra arquitectónica resiste à tempestade que se abate com toda a violência. Aproximamo-nos muito mais do que é. abre ao mesmo tempo a clareira daquilo sobre o qual (worauf) e no qual (worum) o homem funda o seu habitar.vista de si mesmos. como ele está bravo. jamais sucede que os homens e os animais. A simples viragem (Umkehren). Este repousar (Aufruhen) da obra faz sobressair do rochedo o obscuro do seu suporte maciço e. mais facilmente se conheça que aspecto tem o deus. as plantas e as cois?s estejam aí e. a treva da noite. a águia e o touro. Chamamos a isso a Terra. A imperturbabilidade da obra contrasta com a ondulação das vagas do mar e faz aparecer. sendo ela quem mostra a própria tempestade na sua força. antes de mais. evidentemente. a partir da quietude que é a sua. que sobressaem graças apenas à mercê do Sol. Porém. Do que esta palavra aqui diz há que excluir não só a imagem de uma massa de matéria depositada. que o vencedor lhe çonsagra no campo de luta.. O brilho e a luz da sua pedra. que um dia se acrescenta ao que lá está. só então. forneçam de seguida. enquanto tal. acessoriamente. claro está. e desse modo aparecem como o que são. ar erva. O mesmo se passa com a obra de uma imagem (Bildwerk) do deus.

não fala dessa luta. as orientações. Mas porque é que a exposição (Aufstellung) da obra é um erigir (Errichtung) que consagra rifica? e glo Porque a obra no seu ser-obra o requer. do (Errichtung) uma estátua. grande e pequeno honrado e cobarde. a de então. a obra abre mundo um e mantém-no numa permanência que domina. Para tanto. Erigir -richten) (Er quer dizer: abrir o justo. mento frag 53) Em que consiste. Da consagração faz p glorificação como o respeito (dir Würdigung der Würde) pela dignidade e esplendor de deus. nobre e vil. medida que o próprio essencial é. é instaladora. O mesmo é válido para a obra da linguagem (Sprach Na tragédia. na dignidade. nada se representa e apresenta. mas transforma de tal forma o dizer do povo que. Consagrar quer dizer sagrar no sentido de que. pelo contrário. no seu ser obra. cendo forne j enquanto tal. portanto. 34 . Semelhante instalação significa: o erigir. antes de mais. (cf. Como é que da obra resulta a exigência de uma tal instalação? Porque ela própria. e. é que advém o No reflexo deste esplendor reluz. Heraclito. Maslação esta inst (Aufstellen) é essencialmente difêreiiteda instalação no sentido de levantar (Erstellung) uma obra arquitectónica.. é o próprio deus. no s de consagrar e glorificar. o sagrado é aberto como sagrado e o deus é convocado para o aberto do seu advento. partimos do que é imediato no primeiro contacto obra. que fornece um apoio ao nosso portamento com habitual em relação à obra. no esplendor. no pela obra. i.(i obra que faz advir o próprio deus e que. Dignidade e esplendor n propriedades. Quando uma obra se acomoda numa colecção ou se coloca numa exposição. Instalar não quer dizer aqui o mero colocar. a par e por detrás das quais está ainda o deus. do encenar uma tragédia na celebração da festa. dois traços essenciais da obra. brilha o que chamamos mundo. mas trava~se a luta dos novos deuses contra os antigos. a coisalidade (Dinghaften). mestre e escravo. no sentido da medida que acompanha. diz-se também que se instala. Quando a obra guagem se levanta no dizer (Sagen) de um povo. cada palavra essencial conduz esta luta e propõe à decisão o que é sagrado e não-sagrado. orientando. o ser-obra da obra? Mantendo sempre em vista o que acabámos de indicar de modo bastante gro precisemos. então. é que a obra enquanto obra instala? Levantando-se em si mesma.

um mundo? Já foi dado a entenderna referência ao tem essência do mundo. todas as coisas adquirem a sua demora e pressa.. por nós são tomadas e deixadas.. Abrir espaço quer dizer aqui ao mesmo tempo: tar o livre do aberto e instituir este livre no seu conjunto de traços. Mas m também não é uma moldura meramente imaginada. onde não são reconhecidas e onde de novo são interrogada mundo mundifica. contáveis ou incontáveis. O m mundifica (Welt weltet) e é algo mais do que o palpável e apreensível. pode apenas car-se. li instalação Mas ·de um mundo é apenas um dos dois traços essenciais a referir do ser-obra.Ser obra quer dizer: instalar um mundo. Quando uma obra é produzida a partir desta ou daquela matéria _ pedra. amplidão e estreiteza. na sua fiabilidade.. Mundo nunca objecto. som . tentamos torná-Io do mesmo modo a partir do qut l1ais imediatamente se apresenta da obra. cor. Na medida em que uma obra é obra. a camponesa tem um mundo. a sua distância e proximidade. A pedra é destituída de mundo.:ridos. O apetrecho. que está ante nós e que pode ser intuído. em que se encontram ins. liIlguagem. O mundo é o sempre inobjectal a que estamos submetidos enqua caminhos do nascimento e da morte.tamb diz 35 . bronze. Pelo contrário. indi E mais ainda. A planta e o animal também não têm qualquer mundo. que nos guarda. madeira. em que nos julgamos em casa. Também esta fatalidade da ausência do deus constitui um modo como o mundo mundifica. confere a este mundo uma necessidade e uma dade proxim próprias. O outro traço que lhe pei:ence. Ao abrir-se um mundo. a princípio. é oferecida ou recusada a amplidão a partir da qual está congregada a benevolênc deuses. Onde se jogam as de essenciais da nossa história. A obra enquanto obra instala um mundo. Mundo não é a simples reunião das coisas existentes. Este in-stituir (Ein-richten) manifesta-se a partir do (Er-richten). poderia perturbar a visão essencial. representad'a em acréscimo à soma das coisas existentes. A obra mantém aberto o aberto do mundo. p se mantém na abertura do ente. No mundificar. da bênção e da maldição nos mantiverem lançados fio Ser. mas perten aglomeração velada de uma ambiência. no caminho que aqui temos de seguir. esta indicação deve cingir-se à defesa contra aquilo que. abre o espaço para aquela amplidão. conhecidas ou desconhecidas. Mas o que é isso.

no esplendor e na obscuridade da cor. A obra enquanto obra é.que foi produzida (herstellen) a partir daí. ao instalar um mundo. o homem histórico funda o seu hllbitarno mundo. produz a terra. porque o próprio ser-obra da obra tem o carácter da produção. Mas. na ressonância dos sons e no poder nomeador da palavra. Na medida em que a obra instala um mundo. na sua essência. Para onde a obra se retira e o que ela faz ressair. e manifesta assim o seu peso. A matéria é tanto melhor e mais adequada quanto menos resistência oferecer ao seu desaparecimento no ser-apetrecho do apetrecho. a linguagem obtém o dizer. por exemplo. machado. A pedra é usada e consumida na fabricação (Anfertigung) do apetrecho. Mas o que é que a obra produz? Só aprendemos a experienciar isto se acompanharmos a produção que mais imediatamente se apresenta e que assim é habitualmente designada. O produzir deve aqui pensar-se em sentido rigoroso. só então. A obra move a própria terra para o aberto de um mundo e nele a mantém. Tudo isto ressai na medida em que a obra se retira na massa e no peso da pedra. as cores ganham a luminosidade. Na e sobre a terra. eis o que chamámos a terra (Erde). ela 3n . na dureza e no brilho do metal. porque o ser-obra da obra reside numa instalação de mundo. longe de deixar esvanecer a matéria. A terra é o infatigável e incansável que está aí para nada. Pelo contrário. na dureza e na flexibilidade da madeira. Do ser-obra parte a instalação de um mundo. o som adquire a ressonância. A obra deixa que a terra seja terra. produtora. a saber. aquilo a que em regra se chama a matéria da obra? O apetrecho utiliza a matéria de que se compõe. Mas. porque é determinado pela serventia e pela utilidade. é rocha. do mesmo modo que a obra exige a sua instalação no sentido do erigir (Errichtung) consagrante e glorificante. os metais passam a resplandecer. também a produção (Herstellung) é necessária. pensada no âmbito daquela determinação. neste retirar-se. Mas porque é que este produzir da terra tem de acontecer de tal modo que a obra se retira para ele? O que é a terra para que só se ponha a descoberto justamente deste modo? A pedra pesa. Que essência tem. no aberto do mundo da obra: a rocha passa a jazer e a estar imóvel e. enquanto este peso pesa sobre nós. a obra-templo. Ela é o que ressai e dá guarida (das HervorkommendBergende). Esvanece-se na serventia. fá-Ia pela primeira vez ressair (hervorkommen).

recusa toda a intromissão (Eindringen) em si mesma. Se tentarmos isso, rachando a pedra, as partes nunca mostram algo de um interior e de um aberto. Logo, a pedra volta a retirar-se no mesmo abafamento e no pesado e maciço das suas partes. Se tentarmos compreender isso por outra via, colocando a pedra numa balança, aí só trazemos o peso (Schwere) ao cálculo de quanto pesa (Gewicht). Esta determinação talvez muito precisa da pedra não passa de um número, mas o pesar (Lasten) escapou-nos. A cor brilha e só quer resplandecer. Quando no uso do entendimento, medindo, a decompomos em números de frequências de vibração, ela já desapareceu. Só se mostra quando permanece oculta e inexplicada. A terra faz assim despedaçar em si a tentativa de intromissão nela. Leva toda a impertinência calculadora a transformar-se em destruição. Mesmo que esta se revista da aparência de um domínio e de um progresso, na forma da objectivação técnico-científica da Natureza, este domínio é, de facto, ainda uma impotência da vontade. A terra só aparece abertamente iluminada como ela própria onde é guardada e salvaguardada como a que é essencialmente insondável (Unerschliessbar), que recua perante toda a exploração (Erschliessung), a saber, a que se mantém fechada (verschlossen). Todas as coisas da terra, ela própria na sua totalidade, desembocam numa recíproca harmonia. Mas este desembocar não é um desaparecer (Verwischen)? Aqui desemboca a corrente da delimitação que limita cada presente na sua presença (Anwesen). Em cada uma das coisas fechadas acontece o mesmo desconhecimento de si. A terra é, por essência, o que se fecha em si (Sich~ V erschliessende). Pro-duzir (her-stellen) a terra significa: trazê-Ia ao aberto como o que em si se fecha. Esta produção (Herstellung) da terra realiza a obra, na medida em que se retira na terra. Todavia, este fechar-se da terra não é um manter-se fechado, uniforme e rígido, mas antes revela-se numa plenitude inesgotável de modos e formas simples. Sem dúvida, o escultor utiliza a pedra, tal como, à sua maneira, o pedreiro. Mas não gasta a pedra. Isso só acontece de uma certa maneira onde a obra é mal sucedida. Sem dúvida, o pintor utiliza a tinta, mas de tal modo que a cor não se gasta, mas passa sim a ganhar luz. Também o poeta utiliza a palavra, não, porém, como aqueles que habitualmente falam e escrevem têm de gastar as palavras, mas de forma tal que a palavra se torna e permanece verdadeiramente uma palavra. 37

Nunca na obra advém nada da matéria. É inclusivamente duvidoso se, na determinação essencial do apetrecho, aquilo de que é feito será aflorado na sua essência de apetrec caracterização como matéria. A instituição de um mundo e a produção da terra constituem dois traços essenciais no ser-obra da obra. Elas pertencem uma à outra, porém, na unidade do ser-obra. P esta unidade quando meditamos no estar-em-si (Insichstehen) da obra e mos tenta dizer aquela certa quietação fechada do repousar em si. Com os referidos traços essenciais, demos a conhecer, se de todo algo de pertinente, antes um acontecer e não um repouso; pois, o que é o repouso senão o oposto do m Não é, de resto, um oposto que exclua de si o movimento, mas antes o inclui. Só o que se move pode repousar. Consoante o tipo de movimento, assim é o tipo de re movimento entendido como pura deslocação de um corpo, o repouso é evidentemente apenas o limite do movimento. Quando o repouso inclui movimento, nesse caso um repouso que é uma recolecção interior do movimento e, portanto, suprema mobilidade, supondo que o tipo de movimento exige um tal É precisamente repouso. deste tipo a quietação da obra repousando em si mesma. Aproximamo-nos, por conseguinte, deste repouso se conseguirmos apreender pletamente com a mobilidade do acontecer no ser-obra. Perguntamos: que relação há entre o instalar de um mundo e o produzir da terra na própria obra? O mundo é a abertura que se abre dos vastos caminhos das decisões simples e decisivas no destino de um povo histórico. A terra é o ressair forçado a nada do que cons se fecha e, dessa forma, dá guarida. Mundo e terra são essencialmente rentes dife um do outro e, todavia, inseparáveis. O mundo funda-se na terra e a terra irrompe atravé mundo. Mas a relação entre mundo e terra nunca degenera na vazia unidade de opostos, que não têm que ver um com Oo mundo outro. aspira, no seu repousar sobre a terra, a sobrepujá-Ia. Como aquilo que se abre, ele nada tolera de fechado. A terra, porém, como aquela que dá guarida, tende a relacionar-se e a conter em si o mundo. O confronto de mundo e terra é um combate (Streit).tamente, Cer falsificamos com facilidade a essência do combate, na medida em que confundimos a sua essência c discórdia e a disputa e, portanto, só o conhecemos como perturbação ou 38

destruição. Todavia, no combate esseneial, os combatentes vam-se ele um ao outro à auto-afirmação das suas essências. A auto -afirmação da essência nunca é, por~m, a cristalização num estado ocasional, mas o abandono na oculta originalidade da niência prove do seu ser próprio. No combate, cada um leva o outro para além de si próprio O combate toma-se assim sempre mais com bativo e mais autenticamente o que é. Quanto mais duramente o combate se extrema por si próprio, tanto mais inflexivelmente se os que combatem na intimidade do simples pertencer a si mesmos. A terra não pode renunciar ao aberto do mundo, se ela própria tem de aparecer como terra na liv (Andrang) do seu encerrar-se em si mesma. Por seu turno, o mundo não pode libertar-se da terra se, como amplitude reinante e senda de todo o destino essencial, se f algo de decidido. Na medida em que a obra institui um mundo e produz a terra, é a instigação deste combate. Mas tal não acontece para que a obra esmague e aplane o combate, numa insípida, mas sim para que o combate permaneça combate. Ao instituir um mundo e ao produzir a terra, a obra realiza esteO combate. ser-obra da obra consiste no disputar do combate entre mundo e terra. Porque o combate alcança o seu auge na simplicidade da intimidade, é que a unidade da obra acontece na disputa do combate. A disputa do a recolecção(Sammlung) permanente e sempre supe rada da mobilidade da obra. Na intimidade do combate é que a quietação da obra, em si mesma repousando, tem essência. Só a partir do repousar da obra é que podemos entrever o que na obra está em obra. Até aqui permaneceu sempre uma afirmação antecipativa, a saber, a de que na éa obra verdade que está posta em obra. Até que ponto é que a verdade acontece no ser-obra da obra, isto é, em que medida é que ela acontece no disputar do combate entre mundo e O que é a verdade? A pequenez e a obtusidade do nosso conhecimento da essência da verdade evidencia-se na negligência com que nosmos abandona ao uso desta palavra fundamental. Por verdade entende-se, a maior parte das vezes, esta e aquela verdade. Quer isto dizer: algo de verdadeiro. O verdadeiro pode ser um conhecimento que se expressa num enunciado. M também dizemos verdadeiro não só um enunciado, mas também uma coisa, o ouro verdadeiro em oposiçãO ao falso. Verdadeiro quer dizer aqui o mesmo que autênt autêntico.O que é que aqui quer dizer real? Para 39

um abismo? Verdade deve pensar-se no sentido da essência do verdadeiro. A essência apresenta-se no conceito genérico e universal que representa o tino. e no facto de ela ter de deslocar cada vez mais o seu saber e dizer. E será para tal necessário um renascimento da filosofia grega? De modo nenhum. ente A essência verdadeira de uma coisa define-se a partir do seu ser verdadeiro.desocultação em vez de verdade . O círculo voltou a fechar-se. porque a história oculta da filosofia grega consiste. mas neamente simultaé o que determina. toda a adveniência do advento. 40 . que quer dizer a desocultação (Unverborgenheit) do ente. Mesmo que esta coisa impossível fosse possível. mantemo-nos numa troca de nomes. Uma estranha imbricação. O que quer dizer «na verdade»? Verdade é a essência do verdadeiro. então. Verdadeiro é o que responde cor ao real e real é o que é na verdade. Em que consiste a essência essencial de algo? Provavelmente consiste naquilo que é na o verdade. Mas esta essência (essência no sentido de essentia) é apenas a essência inessencial. acontecer. e po maioria de razão. um renascimento não nos ajudaria nada. ou antes de . desde cedo. desde o no facto de ela não permanecer conforme à essência da verdade que luz na palavra liÀ 1ÍVEtU.nós. Mas constitui porventura já uma determinaçã essência da verdade? Não queremos nós fazer passar a pura modificação do uso das palavras . Pensamo-Ia a partir da evocação da palavra dos gregos liÀ1ÍVEtU. é real aquilo que é na verdade. na filosofia posterior. ou tão-só da subtileza vazia de um jogo de conceitos. não procuramos agora a verdade da essên essência da verdade. da essência verdade para o apuramentode uma essência derivada de verdade. Trata-se de uma estranheza. indiferentemente válido para muitos.por uma zação caracteri da coisa? Em todo o caso. A essência da verdade ÚÀ1ÍUEtU como permanece impensada no pensamento dos gregos e. desde então. Em que é que pensamos quando dizemos essência? Considera-se habitualmente como tal algo de c que todo o verdadeiro concorda. a partir da verdade do respectivo ente. para tornar necessário essência dizer da a verdade na palavra desocultação. Todavia. enquanto não fizermos a experiência do que deve. A desocultação é para o pensar o que há de mais oculto no ser-aí grego.

deso a saber. Todavia. precisamente não somos nós que pressupomos a desocul tação do ente. para nós corrente. per manecemos inseridos. depende em . Acomodamo -nos às vezes ao reconhecimento de que. Como é que se deve manifestar. ficamos sempre a reboque da desocultação. na representação. compreendemos a verdade sempre e só como justeza. se torna deve já desenrolar-se totalmente na desocultação. e desde há muito. para que o conhecimento e o enunciado que o articula e o enuncia possam reger-se pela coisa. partem da dade ver como certeza. mas também todo o domínio em que se move este «ajustar-se a qualquer coisa». que decerto exige ainda uma condição prévia. se a desocultação do ente não nos tivesse já 41 . Os a chamados con ceitos críticos da verdade. Não aquilo a que (wonach) um conhecimento se ajusta. a conco conhecimento com o seu objecto. Ora.sabe Deus como e porquê.Mas porque é que não nos damos por satisfeitos com a essência da verdade. A verdade da proposição é sempre cada vez mais esta adequação. Nós e todas a nossas representações adequadas não seríamos nada e não poderíamos sequer pressupor que est manifesto algo a que nos ajustássemos. mas é assim a desocultação do ente (o ser) que nos determina numa essência tal que. no sentido de justeza. Enquanto falar mos e pensarmos assim. que. para que esta possa ser injun enunciado. Mas essência da verdade. naturalmente para documentar e conceber a justeza (verdade) de uma proposição. Quando nós aqui e de resto compreendemos a verdade como desocultação. são apenas variações da determinação da verdade como adequação. pelo verdadeiro. que nos é familiar desde há séculos? Verdade quer dizer hoje. que nós fazemos . é preciso que a própria coisa se mostre como tal. desde Descartes. Meditamos s enquanto não experimentado e não pensado subjaz à essência da verdade para nós corrente e por isso gasta. não nos refugiamos apenas numa tradução mais literal de uma palavra grega. absoluto da verdade como desocultação. se ela própria não pode assomar. temos de recorrer a algo que já está manifesto. se ela própria não está na desocu enunciado é verdadeiro na medida em que se regula pela cultação. bem como aquilo para o qual uma adequação do enunciado à coisafesta. deve já de algum mod descoberto. a justeza da representação (V orstellen). E que esta suposição é reveladora incontornável.

na medida em que ao mesmo tempo se retém sempre numa ocultação. que mal conhecemos. Só esta clareira confere e garante a nós. E. que nós próprios somos. acontece ainda algo de diferente. todavia: para além do ente. Este meio aberto não é envolvido pelo ente. Pensada a partir do ente.• exposto nesta clareira. tudo o que de algum modo é. O ente está no ser. mas não longe dele. mas é antes o próprio meio coruscante que engloba como o nada. todo o ente. suspensa entre o divino e o antidivino. mas sim a partir dele. é preciso dizer mais claramente o que é esta própria desocultação. pouco obstrui muito. Há uma clareira. O ente como ente só pode ser. Se meditarmos isto tudo conjuntamente. os dons e a oferta são. O ente só pode ser oculto no espaço de jogo do clareado. um vela o outro. Só pouco é conhecido. As coisas são. o ente é desocultado de certos e variáveis modos. de outro género é certo. o dominado algo de incerto. parece. Através do ser perpassa uma fatalidade velada. O homem é impotente para dominar uma larga parte do que há no ser. Mas há também ocultação. e não é apenas o limite que. está debaixo do nosso poder ou até na nossa representação. e a partir da qual todo o ente se retrai. A clareira em que este ente assoma é em si simultaneamente ocultação. Antes. ela tem mais ser do que o ente. O conhecido permanece algo de aproximado. Mas como é que isso se passa? Como é que a verdade acontece como esta desocultação. Todo o ente que vem ao nosso encontro e que nos acompanha mantém esta estranha oposição da presença. aquele obscurece este. Nunca o ente. ainda que o apreendamos de um modo bastante grosseiro. No seio do ente na sua totalidade advém um lugar aberto. Mas a ocultação reina no seio do ente de modo duplo. de cada vez. quando assoma e advém no clareado desta clareira. mas sim o princípio da clareira do clareado. os homens. onde todo o ente se salienta para nós. porém. homens. um acesso em direcção ao ente. o apetrecho e a obra são. então apreendemos. quando do ente já só podemos dizer que ele é. um eclipsa o outro. como poderia demasiado facilmente parecer. A ocultação como recusa não começa por ser. O ente recusa-se-nos até naquela coisa singular e aparentemente insignificante que facilmente encontramos. afecta o conhecimento. no interior do clareado. Graças a esta clareira. o animal e a planta são. o isolado 42 .O ente insinua-se diante do ente.

Aqui a ocultação não é o puro negar-se. Se ela fosse disto capaz. Nunca temos a certeza se é uma coisa ou outra. ao passo que. a clareira acontece apenas sob a forma desta dupla reserva. A ocultação oculta-se e dissimula-se a si mesma. nunca é um palco rígido. A proposição: a essência da verdade é não-verdade não deve. da desocultação é ~da por uma recusa. pelo contrário. A ocultação pode ser um enganar-se ou apenas uma dissimulação. perpassa através da clareira uma eclosão perpétua na dupla forma da recusa e da dissimulação. nenhuma falta e erro. A essência da verdade. não nos dispersaríamos e não transgrediríamos e. para mostrar com uma agudeza talvez deSconcertante que pertence à desocultação como clareira o negar-se sob o modo da ocultação. Não obstante. Esta ocultação é a dissimulação (Verstellen). A verdade é. como se a verdade fosse mera desocultação que se tivesse libertado de todo o oculto. a saber. Antes pelo contrário.nega o todo. é um abismo de inquietação. Isto diz-se assim. tranquilizante. enquanto dissimulação. sentimo-nos em casa. com o pano sempre levantado e sobre o qual o jogo do ente se representa. não tranquilizante. não erraríamos na visão das coisas e na nossa acção sobre elas. Querisso dizer: o lugar aberto no seio do ente. Esta recusa não é. então não seria mais ela mesma. O enunciado também não quer dizer que a verdade nunca é ela mesma. nem uma qualidade das coisas no sentido do ente. no fundo. Se o ente não fosse dissimulado pelo ente.. mas sempre um acontecimento. A desocultação (verdade) não é. À essência da verdade como desocultação pertence negar-se sob o modo da dupla ocultação. e não o inverso . O ente é familiar. Que o ente como aparência possa iludir é a condição para que nos possamos enganar. No círculo mais próximo do ente. na medida em que o negar-se ocultante enquanto a recusa confere originalmente a toda a clareira a sua constante proveniência. não-verdade. dá-se diferentemente do que é. sempre também o seu contrário. O tranquilizante é. mas é sim. em geral. confere originalmente a toda a clareira a 43 . na sua essência. querer dizer que a verdade seja no fundo falsidade. não nos enganaríamos na medida. A verdade manifesta-se justamente como ela mesma. nem qualidade das proposições. a clareira. representada dialecticamente. fiável. A desocultação do ente nunca é um estado que está aí. mas o ente aparece de facto. todavia.

Manifesta um traço essencial que já nomeámos. Mas o mundo não é pura e simplesmente o a corresponde à clareira. há entre clareira e ocultação. A verdade acontece no estar-aí-de-pé (Dastehen). Isso não quer dizer que algo que está aí representado com justeza. Sob a designação de negação ocultante procura-se nomeãr. que corresponde a ocultação. na essência da verdade. tanto 44 . não é apenas algo de verdadeiro. Ao um mundo e ao produzir a terra. cidade a recipro adversa que. na qual se dispõe toda Toda a decisão. c alcançar a desocultação. todavia. Ao aberto pertence um mundo e a terra. n~uál o ente advém e a partir do qual se retira. portanto. informam não só o que é que este ente isolado é enquanto tal. a obra é o travar desse combate no qual se disputa a desocultação do ente na sua dad6. quanto mais sóbria e puramente a fonte se erguem na sua essência. Mundo e terra são em si mesmos. na essência da verdade. Só assim participam no combate da clareira e ocultação. o mundo só se funda na terra. no sentid do termo. mas deixam acontecer desocultação como tal em relação ao ente na totalidade. mas sim que no tomar-se manifesto do ser-apetrecho do apetrecho sapato. mundo e terra. o poema que canta a fonte romana. ~ Este aberto acontece em pleno ente. Quanto mais essencial o calçado. A terra só irrompe através do mundo. Mas com verdade acontece? Respondemos: acontece em raros modos essenciais.sempre activa acutilância da ilusão. acontece a verdade. polémicos e beligeran tes. totali a verdade. O quadro. oculto. se funda em algo não dominado. Na obra. No quadro de Van Gogh. Manter significa originalmente proteger (hüten). O mundo é antes a clareira das sendas das orientações essenciais. na medida em que a verdade acontece como o combate original entre clareira e ocultação. Isto não quer dizer que qualquer coisa seja aqui representada e restituída com justeza. cada um segu essência. A essência da verdade é em si mesma o combate originário em que se conquista o meio aberto. desconcertante: de outro modo jamais seria decisão. que mostra os sapatos do camponês. Um dos modos como a verdade acontece é o ser-obra da j instituir obra. mas antes o ente na sua totalidad e mantido na desocultação. o ente na totalidade. no seu conflito recíproco. e a terra não é o fechado. a verdade está em obra.

se não quisermos que o enunciado: na obra está em obra a verdade. a partir da qual apenas se deixa avaliar em que medida o ser-criado lhe pertence e até que ponto é que determina este s obra? Criar é aqui sempre pensado em relação à obra. Temos agora de perguntar ainda mais essencialmente: em que medida é que. Só que o agora visível continua ainda sem nos dizer nada acerca da realidade mais próxima e premente da obra. A pergunta pela verdade e pela sua essência volta de novo . e isso quer dizer que é algo de produzido (Gewirktes). Qual é a essência mais íntima da própria obra. Isto é incontestável. o ser que se reia-se. O resplandecer disposto na obra é o belo. talvez se ten mais claro o que está em obra na obra. Da essência da obra. também o elemento coisal entra na obra. tivéssemos passado ao largo do facto de um sempre uma obra. por oposição a car fabri e ser-fabricado? 2.mais imediata e manifestamente todo o ente se toma mais ente conjuntamente com eles. faz parte o acontecimento da obra. na intenção exclusiva de apreender o mais puramente possível o estar-em-si próprio da obra. ~eleza é um modo como a verdade en uanto desocultação advem. permanece a pergunta: como é criado faz parte da obra? Tal só ficará elucidado quando duas coisas forem esclarecidas: 1. O que quer dizer aqui ser-criado e criar. Certamente. enquanto desocultação do ente. Destá forma. -O clãreadõ que tem esta natureza lS o seu esplendor na obra. Por conseguinte. Só que.• Temos de a fazer ainda uma vez mais. Quase parece como se. não obstante. continue a ser uma mera afirmação. oculta cla O clareado desta natureza na obra é o belo. A pertença do -criado ser à obra só pode ser iluminada a partir de um esclarecimento ainda mais originário da essênc verdade. A essência do criar determinamo-Ia de antemão a partir da sua relaç a essência da verdade. acerca do element obra. a essência da verdade está agora captada mais nitidamente em alguns aspectos. há um tender para qualquer coisa como uma obra? Qual é a essência para que possa ser posta em obra ou. Se algo caracteriza a obra como obra. é este ser-criado da obra. tenha mesmo 45 . em determinadas condições. Na medida em que a obra é cria criar precisa de um meio a partir do qual e no qual cria. na essência da verdade.

O que é a arte? Procuramos a sua essência na obra real.. por imposição das ( p~. pois. Aqui se fundamenta o repousarem-si (Insichruhen) da obra. o acontecimento da verdade está em obra. advém o repouso. entre todas a mais clara. Se agora nos afastafuos da obra para procurar a essência da criação. Por isso..r/~-A-zde ser posta em obra para ser como verdade? O pôr-em-obra da verdade determinámo-Io. nos depara a pergunta pelo carácter coisal da obra. A tentativa de determinar o puro ser-obra da obra a partir desta mesma mostrouse inexequível. Denominá-Ia assim parece ser o mais óbvio. finalmente. como a essência da arte. O carácter-de-obra da obra consiste no seu ser-criada (Geschaffensein) pelo artista. escapar a sua realidade. onde advém o ser de um ente. No movimento congregado deste combate. determinação da obra só agora seja referida. apesar disso. I f1v~ ~ ~7-. 46 .. Mas o ser-criado da obra só se deixa manifestamente compreender a partir do processo da criação. e depois sobre o templo grego. na obra. então devemos ter em mente o que se disse primeiramente acerca da pintura dos sapatos do camponês. ~ I ~~ Gt't ~~~~ O -. Assim se toma.. A realidade da obra determina-se a partir do que na obra está em obra. está também. temos de aceder a levar em conta a actividade do t artista para encontrar a origem da obra de arte. de facto. Logo. Pode parecer estranho que esta mais próxima e. que está perante nós. pressupõe-se a obra real como suporte deste acontecer. Imediatamente se . ou até mesmo tenha d~ lacontecer como arte? Em que medida há em geral arte? J A verdade e a arte A origem da obra de arte e do artista é a arte. a partir do acontecer (Geschehen) da verdade.• • I. A origem é a proveniência da essência. a pergunta feita em último lugar reza assim: ( O que é a verdade para que ela possa. na palavra Qbra ouvimos o produzido. enquanto não acedermos a tomar a obra como algo de produzido (Gewirktes). Na obra. claro: podemos perguntar e voltar a perguntar pelo estar-em-si da obra e deixarmos. Pensamos este acontecimento como o travar do combate entre mundo e terra. Assim. todavia. Mas o que assim está em obra.

designar a ~ factura. da ocultação para a desocultação do seu aspecto. notável jogo de linguagem. Seguindo a aparência imediata.fazer de manufactura. trabalho técnico no sentido actual. usarem a mesma palavra ./. Em que é que se distingue o produzir. Mas u n ipnxluzlr é também a fabricação (Ãnfertigung) do apetrecho. na desocultação ~ (Eritbergung) do ente. experiência grega do saber. sobretudo. a saber. Mas é justamente a alusão ao uso linguístico dos gregos. todavia. repousa. enquanto criação. (1 O f~ ( f i I Por isso. "C É xvT ). não cria obras nenhumas mesmo quando. errado e superficial. §~uer-dizer: ter visto. na medida em que traz o presente como tal. como é necessário.P~!lsamos a criação (Schaffen) como um produzir (Hervorbringen). e chamarem com o mesmo nome "C E X V Í"C T ao )Ç artesão e ao artista. A manufactura. nem arte e. pois. que nomeia a sua experiência da coisa. por si mesma. A criação da obra requer. a referência à denominação grega com a mesma palavra 'tÉ X V Tpara ) obra de manufactura e de arte. do marceneiro e do pintor o mesmo comportamento. encontramos na actividade do oleiro e do escultor. Ela suporta e dirige toda a relação com o ente. do produzir no modo da fabricação? Tão facilmente quanto distinguimos pelo nome o criar de obras (Schaffen von Werken) ea fabricação de apetrecho (Anfertigung von Zeug). é um produzir do ente. "C É X V T ) manufactura e a arte. o agir de manufactura (das hanwerkli~ che Tun). Os grandes artistas têm na maior estima o saber.-1ÍuEta. São os primeiros a exigir o seu cultivo cuidadoso a \ partir do pleno domínio.. nunca quer dizer um género de realização prát. 7 A palavra "C É X V Tquer ) dizer muito mais um modo do saoer. contrastamos o produto manufacturado (das handwerkliche Erzeugnis) como artigo de fábrica (die Fabrikware). 47 . assim tão difícil é seguir ambas as formas de produzir nos traços essenciais próprios de cada um. mais do que todos os outros. ainda menos. que indica: apreender o que está presente enquanto tal. que nos deve fazer reflectir.L.. A essência do saber / J I. que percebiam alguma coisa de obras de arte. na li. para o pensar grego. Já se fez suficiente alusão ao facto de os gregos. no sentido lato de ver. São eles. A "C É X V T enquanto ). "C É x vTnão ) significa nem manufactura. permanece. Por mais corrente e convincente que possa parecer. nunca significa a actividade de um fazer (Machen). que ~ se esforçam por um sempre renovado aperfeiçoamento da manupara . parece avisado determinar a essência da criação a partir do seu lado de manufactura.

Na essência desta reside tudo. advém no seio do ente que. podemos caracteriz. Este fazer é determinado e afinado pela essência da criação. A partir da consideração da delimitação da essência (Wesensumgrenzung) da obra que foi alcançada. Por que outro fio condutor é que devemos então pensar a essência da criação. a essência da criação depende da essência da obra. . o que na criação da obra de arte tem um aspecto semelhante ao de fabricação de manufactura é de outro género. tratámos só da obra. na medida em que lhe pertence o domínio de proveniência do ainda-não-(des)-ocultado. mas é-o sim porque. todavia. Na des-ocultação como verdade advém simultaneamente o outro «des» de um duplo negar-se (Verwheren).Por conseguinte. a obra? Embora a obra só se tome real na realização da sua criação e. então devemos tentar compreender ainda mais essencialmente o que até aqui se deixou determinar como ser-obra da obra. um tender para a obra? Isto poderá conceber-se a partir da essência da verdade. a partir do fundamento da sua essência. e permanece retido nesta essência. primeiramente e durante bastante tempo.ar a criação como o deixar-~mergir (das Hervorgehenlassen) num produto (das Hervorgebrachtes). senão a partir do ter-se em vista aquilo que há a criar. Se o ser-criado pertence tão essencialmente à obra. por si próprio. apesar disso. no sentido da ocultação. Pelo contrário. tanto o ser criado como o criar têm de ser determinados a partir do ser-obra. elucidada até aqui? A verdade é nãG~erdade. Ainda que o ser-criado da obra tenha uma relação com a criação. tanto o pro-duzir de obras. Agora. assim.porsertambém artesão. para apenas agora pôr em foco o ser-criado. segundo a qual na obra está em obra o acontecer da verdade. a partir do seu aspecto. Mas o que é a verdade para que possa acontecer em qualquer coisa como algo de criado? Em que medida é que a verdade tem. como o produzir do apetrecho acontece neste pro-duzir que de antemão faz o ente aceder à sua presença. já não nos pode espantar porque é que. como também ressalta da própria palavra obra. A designação da arte como 1"ÉXVTJ não quer de modo algum dizer que a actividade do artista seja experimentada a partir da manufactura. o artista nunca é um n:xvÍ'tTJç. Tudo isto. surge da <púcnç. se não for pelo fio condutor da manufactura? De que outro modo. a saber. dependa desta na sua realidade. O tomar-se-obra da obra (das Werkwerden) é um modo do passar-a-ser e de acontecer da verdade.

se levanta. A verdade só acontece de modo que ela se institui por si própria no combate e no espaço de jogo que se abrem. o pensamento toca num domínio que ainda não pode aqui discutir-se. Isto é já impossível. no entanto. Clareira da abertura e instituição no aberto co-pertencem-se. . § 44). histórico. Ainda um modo como a verdade se funda é o saqifício essencial. pura e simplesmente.. onde a abertura obtenha a sua fixação (Stand) e consistência (Standigkeit). Este é. A abertura deste aberto. Um modo essencial como a verdade se institui no ente que ela mesma abriu é o pôr-em-obra-da~verdade. esta abertura. no qual tudo assoma e a partir do qual se retrai tudo o que se mostra e se erige como ente. de facto. que significa ? um instalar na desocultação. Mas a verdade não existe de antemão algures. 48 . só isto. Um outro modo ainda como a verdade vem à luz é a proximidade do que. como tal. a saber. para ulteriormente se alojar em qualquer ente. Quando e como quer que desponte e rebei:lte este combate. só a abertura do ente produz a possibilidade de um algures e de um lugar preeenchido por algo de presente. São uma e a mesma essência do acontecimento da verdade. Note-se. Ainda um outro modo como a verdade passa a ser ~. a partir da sua essência. A verdade é o combate original no qual. quando e enquanto ela própria se institui no seu aberto. é conquistado o aberto. Pôr (Setzen) e ocupar (Besetzen) são aqui sempre pensados a partir do sentido grego da uÉ<nç. Na medida em que a própria abertura ocupa o aberto. nas estrelas.A verdade advém. Um outro modo como a verdade está presente é oacto de fundação de um Estado. a verdade. É assim que é conquistado o aberto do espaço conflitual. só pode ser o que é. que a essência da desocultação do ente pertence de algum modo ao próprio ser (cf. a clareira e a ocultação. a seu modo. Sein und Zeit. Porque a verdade é a reciprocidade adversa entre clareira e ocultação.• ? Com a referência ao instituir-se da abertura no aberto. Eis porque é preciso haver de cada vez um ente neste aberto. porque. faz por isso mesmo parte dela o que aqui se chama instituição (Einrichtung). de cada vez a seu modo. mantém-no aberto e sustenta-o. a saber. de diversas maneiras. o espaço de jogo da abertura (a clarificação do aO. por ele se separam os combatentes. na oposição entre clareira e dupla ocultação. mas antes o mais ente entre os entes. este faz acontecer. e introdu-Io como algo no qual cada ente. não é um ente.

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por isso há na essência da verdade o tender para a obra. A verdade insere-se na obra. se mostra no seu domínio. No combate. A instituição da verdade na obra é a produção (Hervorbringen) de um tal ente que não era antes e não voltará a passar a ser depois. a dominação e a servidão. também não deve simplesmente alojar-se nele. a verdade. assim. a terra assoma. como o que está abrigado na sua lei e constantemente se fecha. conquista-se a unidade entre mundo e terra. que tudo sustém (alIes Tragende). mediante a apreensão e fundamentação do que de correcto. Uma tal produção é o criar (Schaffen). enquanto pensar do ser. mais propriamente. O mundo emergente traz a lume (V orschein) precisamente o ainda não decidido e imenso e abre. Pelo contrário. O combate não deve suprimir-se num ente produziôo ex~ente para esse efeito. ela é filosofia. Revela-se como o . a saber. Em que consiste então. a ciência não é um acontecimento original da verdade. por conseguinte. ter em si os traços essenciais do combate. e na medida em que. de um domínio da verdade já aberto e. para só então se tomar verdade. de cada vez. Onde a produção traz expressamente a abertura do ente. A produção (Hervorbringung) instala de tal maneira este ente no aberto que o que se intenta prOduzir clareia originalmente a abertura do aberto em que ressai (hervorkommt).é através do perguntar do pensar que. possível e necessário. a necessidade oculta da medida e decisão. por isso. uma ciência ultrapassa o correcto em direcção a uma verdade. um desvelamento (Enthüllung) essencial do ente como tal. A verdade advém como o combate entre clareira e ocultação. Como tal trazer. designa este no seu ser-digno-de-pergunta. ele é antes um receber e um tirar (Entnehmen) no interior da relação com a desocultação. Na medida em que se abre um mundo. o ser criado? Esclareça-se mediante duas determinações essenciais. Porque pertence à essência da verdàde instituir-se no ente. na reciprocidade adversa entre mundo e terra. a bênção e a maldição. aí o produzido é uma obra. A verdade quer introduzir-se na obra. como comhate entre m~do e terra. deve sim ser aberto justamente a partir dele. Sempre que. O mundo exige a sua decisão e a sua 50 . põe-se em decisão para uma humanidade histórica a vitória e a derrota. Este ente deve. como uma possibilidade eminente de a verdade ser ela própria ente no seio dos entes. mas sim a exploração. Mas ao abrir-se um mundo.

~as permanece sempre um utilizar da terra na 51. mas o combate é antes a intimidade da co-pertença recíproca dos combatentes. na dureza muda da madeira. Este rasgão atrai os combatentes para a proveniência da sua unidade a partir do único fundo. como o rasgar de um mero abismo. A verdade como combate só se institui num ente a produzir de tal forma que abre o combate neste ente. . A verdade institui-se no ente de modo tal que é este próprio que ocupa o aberto da verdade. emerge no aberto. Jamais ela o é. o que decerto tem um aspecto igual ao da utilização manufacturante de um material. a saber. . Na criação da obra. e é enquanto ela que o rasgão se dispõe. É um risco fundamental (Grundriss). Esta ocupação só pode acontecer de tal forma que o que se intenta produzir. como a qual a obra advém. reposto na terra e com isso fixado é aforma (die Gestalt). a própria terra deve. como algo que se fecha. O rasgão é a juntura (Gefüge) de traçado e risco fundamental. traz a adversidade da medida e do limite a um único contorno (Umriss). O rasgão deve repor-se no peso atractivo da pedra. posto naquilo que. É traçado (Auf-riss) que desenha os traços fundamentais da emergência da clareira do en~e.medida e deixa o ente aceder ao aberto dos seus caminhos. O combate não é um rasgão (Riss). liberta-a para si própria. Este rasgão não deixa os adversários romper um com o outro. no ardor sombrio das cores. na medida em que se instala e produz. ao que assoma nó aberto. O que aqui se chama forma deve sempre pensar-se a partir daquele estatuir (Stellen) e do conjunto daquilo que estatui (Ge-stell). ser estatuída na sua emergência (hervorgestellt). O combate trazido ao rasgão e. a saber. não desgasta nem gasta a terra como um material. Este usar. de diâmetro e de contorno. é que o rasgão é produzido (her-gestellt) e revelado e. Daqui resulta a aparência de que a criação da obra é também uma actividade de manufactura. e se resguarda. o rasgão. aspira a manter-se fechada e a confiar tudo à sua lei. Este usar da terra é um obrar com ela. b combate enquanto rasgão deve repor-se na terra. O ser-criado da obra quer dizer o ser estabelecido da verdade na forma. Só na medida em que a terra aceita em si o rasgão. de tal forma que ele próprio é trazido ao rasgão. A terra. Esta é a juntura. assim. como aquela que se fecha sobre si. todavia. se confia ao que se fecha. estabelecido assim. sustendo e levantando. antes pelo contrário. O rasgão disposto é a junta do aparecer da verdade.

claro está. de tal forma que sobressai expressamente a partir dele e do assim produzido. o ser-produzido. Tal toma-se claro a partir da segunda característica. a fabricação do apetrecho nunca é imediatamente a realização do acontecimento da verdade. para lá de si mesmo. Aliás. obra muito mais do que não é. Não N. que aqui se pode aduzir. relativamente a toda outra produção. podemos notar em tudo o que está perante nós que ele é. como esta obra. O estar-acabado do apetrecho quer dizer que este é. quanto mais discreto permanece. absorv serventia. Pelo contrário. este «que» do ser-criado da obra. Certamente. O mesmo não se passa com o ser-criado da obra. Mas este «que» não sobressai do apetrecho. pelo contrário.fi~ç. de algum modo. assim seja um tal martelo. tanto maismente exclusiva o apetrecho persiste no seu serapetrecho. mas na obra o s produzido é expressamente introduzido pela criação no criado. então devemo poder experienciar expressamente o ser-criado na obra. que talé. a peculiaridade especial de ser criado em vista da coisa criada.ã-º-da verdade na forma. pertence igualmente a todo o apetrecho ponível dis e a uso «que» seja fabricado. mas isto só se nota para logo de imediato permanecer esquecido no modo do habitual. O criado não deve atestar-se como o suce conhecedor. é que ma puramente ressai este choque. O ressair do ser-criado da obra não quer dizer que deva tomar-se notório na obra que foi feita por um grande artista. é um resultado? A tudo o que é.produzido está taneamente simul dado. O estar-acabado do apetrec enformado de uma matéria e. O choque resultante de que a obra. elevando-se assim o realizador ao prestígio público. o fecit que se deve tomar conhecido. mas sim o simpes «factum est»é que se deve manter no aberto: a saber. Onde o artista e o processo e as tâncias circuns da génese da obra permanecem desconhecidos. como a constituição do pronto para ser usado. se é que algo. Mas isto não vale também para tudo constituído e que. Se é assim. 52 . é e a continuidade d discreto choque constitui a constância do repousar-em-si na obra.é N. O ser-acabado do apetrecho (Fertigsein des Zeugs) e o -criado ser da obra (Geschaffensein des Werkes) têm em comum o constituírem um ser-produzido (Hervorgebracht Mas o ser-criado da obra tem. oculta-se na serv Quanto maisà mão está um apetrecho. por exemplo. que. Sem dúvida. que aqui aconteceu a desocultação do ente.

fixada na forma. para permanecer na verdade que acontece na obra. quanto mais parece dissolver todas as relações com os homens. pelo contrário. é. Quanto mais essencial choque irrompe no aberto. Seguir esta remoção significa: alterar as nossas relações habituais com o mundo e a terra e. Deixar a ob obra. está em si. tecimento O acon(Ereignis) do seu ser-criado não ressoa simplesmente na obra. este múltiplo choque nad violento. Na produção (Hervorbringen) da obra reside esta apresentação (Darbringen) do «que ela é». eis o que denominamos a salvaguarda (Bewahrung) da obra. 53 . Quanto mais essencialmente a obra se abre. tanto mais simplesmente irrompe no aberto o cho obra ser.Mas o que é que há de mais habitual do que isto. deste modo. A pergunta pelo ser-criado da obra devia aproximar-nos mais do carácter-de-obra da obra e. Esta contenção é o que primeiramente permite ao criado ser a obra que é. mas o carácter-de-acontecimento (Ereignishafte) do facto de que a obra. Mas a realidade da obra não se esgota também no s Muito pelo contrário. conhecer e observar. da sua realidade. Quanto m solitariamente a obra. a partir de então. Só para a salvaguarda é que a obra se dá no seu ser-criada como mente efectiva reà1. agora presente no seu carácter-de-obra. O próprio ser-cri aí expressa m ente introduzido na obra pela criação e está de pé como o silencioso choque do «que» sobre o aberto. tanto mais plenamente brilha a singularidade do facto de que ela é. nos arranca ao habitual. -criado O ser desvelou-se como o ser-fixado do combate na forma (Gestalt). Assim como uma obra não pode ser obra sem ser criada. tanto mais essencialmente embate o abismo intranquilizante e se subverte o que anteriormente parecia tranquilizante. em vez de não ser. suspender o com valorar. assim também o próprio criado não pode tomar-se ser s salvaguardam. projecta a obra para diante de si e sempre à ap sua volta. assim como precisa essencialmente de criadores. Todavia. que o ente é? Na obra. tanto mais simplesmente nos empurra e nos lança nesta abe mesmo tempo. através do rasgão. a consideração da essência do ser-criado da obra põe-nos em ção situa de dar agora o passo para que tende tudo o que até aqui se disse. enquanto obra. pois. o inabitual é que ela como tal seja. a saber. tanto mais estranha e solitária se toma a obra. quanto mais puramente a obra é arrebatada na abertura do ente por ele mesmo patenteada.

nem decide de antemão do saber. ou não os encontra imediatamente.próprio como um fim.L não consis todavia. enquanto saber. como exposição (Ausstehen) histórica do ser-aí a partir da sua relação com a deso54 . e só assim permanece um saber.da obra. cair não é ainda uma salvaguarda. sabe o que quer no ~o~re . ligada vaguardam.' Querer é a sóbria de-cisão do ir-além-de-si-mesmo existente.• Mas. seu estar não a arrasta para o âmbito da mera vivência e não a rebaixa ao papel de um estimulante de vivências. que não aplica.. mas sim a abertura do ser-aí. Sabe. Mesmo o esquecimento em que a obra pode é nada. em não é a acção decidida de um sujeito. e precisamente quando. mas fá-Ios antes entrar na pertença à verdade que aconte e funda assim o ser-com -e-para -os-outros (das Für -und Miteinandersein). a sóbria persistência no abismo de intranquilidade . concebe-se a partir da experiência fundamental do Ser pensar e Tempo. \f Y ' ( . isso não significa de modo algum que a obra permaneça obra. . a partir do aprisionamento no ente. Ela permanece sempre... aos que sal mesmo se. Mas a persistência da salvaguarda é um saber. A salvaguarda da obra não isola os homens nas suas vivências. Vive ainda da obra. Todavia. em O saber que permanece um querer e o querer que permanece um saber é a inserção ecstática do homem existente na desocultação do ser. na exi ')tência. o homem não sai de um dentro para um f essência da existência é a instância que se expõe na essencial expansão da clareira do ente. O querer aqui mencionado. a instância vem à lei. enquanto querer. só aguarda os que salvaguardam e espera alcançar a comunhão na sua verdade. Este saber que. Quem sabe verdadeiramente o ente. se aliás é uma obra. quando uma obra não encontra os que salvaguardam.. A salvaguarda da obra é. nem no querer. não arranca a obra do -em-si. Salvaguarda da obra quer dizer: in-stância (Innestehen) na abertura do ente que teceacon na obra. Nem na criação mente anterior referida. -da . verdade que acontece na obra.. de tal modo que eles respondam à verdade que acontece na obra. radica na verdade.Assim. mesmo sem os que salvaguardam. A de-cisão. num mero conhecimento ou re resentação de go. pensada Ser e Tempo. para a patenteação do ser. de que agora se fala. se está pensar na capacidade e na acção de um sujeito que se põe a aspirar a si . / que se expõe à abertura do ente como ao que se pôs em obra.

a. pode ainda à oferecer obra um lugar. enquanto por ele perguntarmos consideramos logo de antemão e definitivamente a obra objecto disponível. 55 . os esforços científicos para a sua recupera mais tocam o próprio ser-obra. podemo') retomar a pergunta inicial: o que se passa com o carácter coisal da obra. Perguntamos a partir de nós. é instância no combate que a obra diSpôs no rasgão. é. o saber no modo da salvaguarda nada tem a ver com aquele conhecimento do erudito que saboreia o aspecto formal da obra. Em absoluto. enquanto ter -visto. constância e luminosidade. o lugar da sua permanente estância em que a forma se deve estabelecer. Agora. como o que essencialmente se fecha sobre si. no sentido'dos conceitos habituais de coisa. A salvaguarda advém em vários degraus do saber com diferente alcance. pois. Quan se propõem ao simples gozo estético. O modo da correcta salvaguarda da obra é concomitantemente criado e indicado só e exclusivamente pela própria obra. a partir de agora. porque a obra advém em que a verdade está em obra. Assim. já não perguntamos mais pelo carácter coisal da obra. começou já o negócio da arte em tomo das obras. porém. na obra tomada como objecto. não se depreende ainda que elas se mantenham salvaguardadas enquanto obras. o carácter «terrestre» da obr. surge como o elemento coisal.cultação. Também esta. Logo que o choque para o abismo intranquilizante é amortecido no campo do habitual e do perito. abertura do aberto a sua resistência e. todavia. determinados «estados de alma». assim. as suas qualidades e Saber. e porque a verdade só advém na medida em que se institui num ente. A terra assoma na obra. é um ser-decidido. que deve garantir a sua realidade imediata? A sit que. nunca perguntamos a partir da obra. A própria transmissão cuidadosa das obras. mas sim a partir de nós. que nesse perguntar não deixamos a obra ser uma ob representamos como um objecto que deve suscitar. compreendido a partir da obra. O que. A realidade da obra é determinada nos seus traços fundamenÜÜs pela essência do ser-obra. Na terra. mas apenas uma sua recordação. A realidade mais autêntic da obra só vem à luz onde a obra está salvaguardada na verdade que através dela mesma acontece. a partir do qual faça história. encontra.

se fecha. fazemos a pergunta oposta: como é que o traço se p não surge no aberto como traço. a partir da sua essência. ou seja. E por isso que se determino~1 primeiramente a essência da arte como o pôr-em-o verdade (Ins.( gunta pela essência da arte. como combate ~ntre medida e desmedida? 56 • ( É certo que existe na Natureza um traço. e se este se conce como a uilo ue mente habiestá al ai 'ISpõíllVél. se sabemos.mera negação do ente. na procidade reci antag6nica de ambos. O olhar sobre a coisa. é o acontecimento da verdade ue está em obracisaménte. que é tão incapaz de uma compreensão da essência do apetrecho e da obr cego para a essência original da verdade. Este combate é estabelecido na forma da obra. finalmente. provém a verdade do nada? Sem dúvida. E. Toda a resposta s6 mantém a sua força de resposta enquanto permanecer enraizada na pergunta. mostra imedia tamente que. Para a determinação da coisidade da coisa não basta uma olhadela ao suporte de qualidades._ Foi então supérfluo entrar na consideração da pergunta sobre . a arte e a sua essência. É certo que o carácter -de-obra não se pode determinar a partir do carácter coisal. Ma ao mesmo tempo. e. o qu . A resposta à pergunta \ é. Mas poderíamos. não deve então a obra. a co-pertença essencial na obra dos que criam e dos que salvaguardam. graças ao projecto criador. com raZão. que dará medida e peso à interpretação do carácter coisal. que não compreendemos e apreendemos expressamente apetrecho senão através da obra.. Mas o que é a arte em si mesma para que. Mas esta determinação é const cientemente ambígua. por seu lado. ou ainda à estrutura matériaforma.o carácter coisal da coisa? De modo nenhum. pre no mo o e uma obra. e. deve primeiro trazer-se de novo a um fundamento. lhe chamemos uma o . que vale para o apetrecho. diz aquelas palavras conhecidas: «Pois. na obra real. por um lado: a arte é o estabelec' mento da verdade que se ins Isso acontece na criaçã' como produção (Hervor-bringen) da desocultação do ente. então. Na obra. Todavia. inserir-se numa relação com as coisas a Natureza. a pergunta pelo carácter coisal pode trazer-se ao caminho certo.------. ~e não surge antes. pelo contrário. é. está em obra o acontecimento da verdade. na v está na -. uma possibilidade de produção. tem de se dirigir para a pertença dasàcoisa terra. o facto de precisarmos da obra. Mas não é ) menos certo que esta arte na através da obra é que se toma manifesta. pôr-em-obra quer dizer: pôr em andamento levar a acontecer o acontece como salvaguarda. Ela diz. então s6 indeterminada mente. A realidade da obra tomou-se para n6s. a abertura do ente. Se a arte é a origem da obra. imediatamente.Werk-Setzen-der W ahrheit). A pois. se nos lembrarmos de que aquelas formas de pensar. se por nada nteOOe-a. Ao ser-criado da obra pertencem tão essencialmente como os criadores também os que salvagu obra é o que possibilita 'os criadores na sua essência. e quem daí a consemIe arrancar. a partir do saber acerca do car obra da obra. como toda a autêntica resposta.possu~>. a arte. Mas._. apenas a saída extrema do último passo de uma long de perguntas. então. porque originalmente está na obra.. objectar. na sua essência. não gado obri a nada. para que ela possa adequadamente pôr no aberto o carácter coisal? Alguém. que o deveria saber. precisa dos que a salvaguardam. facto de não termos um saber imediato da coisidade. para que encontremos. Albrecht Dürer. se revela . vale também para o carácter coisal da Ocoisa. e em vista deste. o camin seu respeito. e precisamente antes do seu ser-criada.-------" Natureza. à multiplicidade nem dos dados sensíveis na sua unidade.\yem a lume através do estar-aí da obra. no ser-obra da obra. mas também ao mesmo tempo essencialmente mais rica. e o que. uma medida e limites e. e toma-se manifesto atravésOdesta. em conformidade com o que dlssemos. ou seja. O esforço em vista da realidade da obra deve preparar o terreno. um devir e um acontecer da verdade. a partir do seu ser-obra não só mais clara. s6 se desvela na emergência num mundo. a saber. sustendo. A per. estrutura que é extraída do carácter-de~apetiecho. A arte é então: a salvaguarda criadora da verdade na arte obra. de há m subvertem o carácter coisal da coisa e fazem dominar uma interpretação do ente na totalidade. \ \"ligada a eles. então quer isto d surgir. Arrancar querãqürãlzer tãZer aparecer o traço e gravá-Io com o tira-linhas sobre a prancheta de desenho. a essência da terra como aquilo que. Isto não é de pouca monta.

. ~l a rtura do aberto e a clareira do ente só acontecem na ~57 • .e é abalado como\p apenas pretensamente verdadeiro ente. Nunca_ a verdade se po~e le .

Poesia. de tal modo que. não é nenhum oscilar da mera representação e imaginação no irreal. O que a Poesia. ela erige um espaço aberto. a obra da linguagem. Assenta numa mudança da desocultação do ente. do projecto. do ser. na sua essência. Perdeu a capacidade de garantir e manter o ser como medida. No olhar essencial sobre a essência da obra e sua relação com o acontecimento da verdade do ente é que se pode perguntar se a essência da poesia. é na sua essência Poesia. Graças «ao projecto posto em obra da desocultação do ente que se arroja sobre nós através da obra. se pode pensar suficientemente a partir da imaginação e da capacidade imaginativa.• • medida em que é projectada a abertura que advém na dejecção. enquanto interpretarmos as referidas artes como variantes da ~e da pala~. O estranho é que aí a obra não age de modo algum através da relação causal. isto é. todo o habitual. se converte em não-ente. \ Se toda a arte é. e isso quer dizer. por isso mesmo de uma forma não indeterminada. a escultura. tem um lugar eminente no conjunto das artes. do Poetar neste sentido lato. na suposição de que é permitido designar a poesia com este título. é o aberto que ela faz acontecer e. a Poesia em sentido estrito. é o p6r-em-obra-da-verdade. Todavia. a arte dos sons devem reconduzir-se à poesia. e até agora tido. 58 . Mas a Poesia não é nenhum errante inventar do que quer que seja. mas. que ainda importa agora pensar. desdobra na desocultação e lança no rasgão da forma. e isso quer dizer. ~c:~C A verdade. acontece na me I a em Iza. na qual repousam simultaneamente a obra ae arte e o artista. decerto. Isto é pura arbitrariedade. Certamente. no meio do ente. A essência da arte. em cuja abertura tudo se mostra de outro modo que não o habitual. susceptível de más interpretações. o a a arte. A partir da essência poetante da arte acontece que. ao mesmo tempo. A essência da Poesia experienciada agora muito amplamente. mundança que acontece a partir da obra.enquanto deixar-acontec r a adveniência da verdade do ente como tal. enquanto projecto c1arificante. O efeito da obra não consiste num operar. como a clareira e ocultação do ente. Mas a poesia é apenas um modo do projecto clarificado r da verdade. mantenha-se aqui como algo digno-depergunta. só agora o aberto em pleno ente traz este à luz e à ressonância. então a arquitectura.

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mas a linguagem é o que primeiro traz ao aberto o ente enquanto ente. a Poesia em sentido estrito.. A linguagem não é. numa união essencial tão íntima com a linguagem e a palavra que tem de perman~cer em aberto se a arte. Semelhante nomear nomeia o ente para o seu ser a partir deste. emerge historicamente o seu mundo e se salvaguarda a terra como reserva.{egUndO a concepção corrente. a sua pertença à história do mundo. para o entendimento. para o homem. a linguagem surge como um7f~rma de comunicação. para um povo histórico. a poesia. no qual se diz com que consistência o ente vem ao aberto. desde a arquitectura até à poesia. também aí não há abertura alguma do ente e. . ao mesmo tempo. como no ser da pedra.. Poesia. na qual o ente se vela e se recusa.desocu~açãQdo ent Cada língua é o aconteCImento do dIzer. é a Poesia mais original.e não é em primeiro lugar . ~ ~ia ~ . mas a 59 . enquanto tal. basta uma correcta noção de lingUage" . Um tal dizer é um projectar do clarificado. Num tal dizer é que se cunham de antemão. e mais propriamente em todos os seu~ modos. ' A Poesia é aqui pensada num sentido tão vasto e. ªJá?ula da. os conceitos da sua essência. também nenhuma abertura do Não ente e do vazio. O dizer projectante (Ansagen) toma-se ao mesmo tempo a recusa de toda a confusão. faz ao mesmo tempo advir. 0E?9~do. por isso. da planta e do animal. por ser a poesia primordial (Urpoesie). ~ O dizer projectante Poesia: a fábula do mundo e da terra. porque a linguagem é o acontecimento em que. Serve para a conversação e para a concertação em geral. no sentido do essencial. a saber. do lugar de toda a proximidade e afa~ mento dos deuses. o ente como ente se abre. Só na medida em que a linguagem nomeia pela primeira vez o ente é que um tal nomear traz o ente à palavra e ao aparecer.uma expressão oral e escrita do que importa comunicar. A própria linguagem é Poesia em sentido essencial. esgota a essência da Poesia. Onde nenhuma linguagem advém.~~ Para ver isto. para um povo. no qual. A linguagem não é apenas . Mas. consequentemente. a fábula do espaço de jo do seu combate e. assim. Projectar é a libertação de um lançar e é como tal lançar que a desocultação se ajusta ao ente enquanto tal. O dizerprojectante é aquele que. Não transporta apenas em palavras e frases o patente e o latente visado como tal. na preparação do dizível.

e para um povo histórico. de indeter Pelo contrário. pelo contrário. São em cada modo próprio de poetar dentro da clareira do ente. ser contrabalançado. para uma humanidade histórica. e mesm~sto só tanto quanto a anterior caracterização da essência da obra nos ofe para tal fim uma primeira indicação. a hão-de salvaguardar. a o fundo que se fecha sobre si mesmo. com tudo o que. Pelo contrário. O que assim se lança nunca é algo de arbitr exigido. porque esta guarda a essência original da Poesia. nunca é atestável deduzível a\partir do que até então havia. Não I I apenas é a criação da obra que é poética. nunca se realiza na direcção de algo de vazio e minado. e inadvertidamente. A v\rdade. ainda para 60 . na linguagem . já está lançado. uma . que se abre na obra.• • • poesia acontece na linguagem. O projecto verdadeiramente poemático é a abertura daquilo em que o ser-aí. Iobra só é real como obra na medida em que nos livramos do nosso próprio sistema de hábitos e entramos no que é aberto pela obra. \ O pôr-em-obra-da-verdade faz irromper o abismo intranqui lizante. Mas a essência da Poesia é a instauração da verdade. Precisamente por isso permanecem caminhos e modos próprios. é Poesia. o que até então havia é que é refutado pela obra. São por este regidos e conduzidos. que já aconte ceu. instaurar ~o fundar e ins taurar como começar. . 1_ A insta ração é um excesso. só que à sua maneira própria. a verdade projecta-se na obra para aqueles que. para assim trazermos a nossa essência a persistir na verdade do ente. sal Por issO:cõrresponde a cada modo d~ instaurar um modo de salvaguardar. que se estatui como forma na' obra. na sua realidade exclusiva. com efeito. como histórico. Construir e esculpir. Todavia. como a verdade se institui na obra. enquanto o pôr-em-obra-da-verdade. Entendemos aqui este instaurar tido em triplo: sen igstaurar como oJgecer. O \~e a arte instaura nu por isso. isto é. O projecto poemático da verdade. n m compensado pelo que simplesmente é e pelo disponível. A arte. acontecem sempre e só no aberto do nomear. podemos agora tornar visível esta estrutura essencial da arte em alguns traços. mas também é poética I 1 salvaguarda a da obra. Isto é a terra. a instauração ~ é real na vaguarda. sobre o qual repousa. uma oferta. A essência da arte é a Poesia. e subverte o familiar e o que se tem como tal. de futuro.

a partir da relação do ser-aí. por seu turno. Isto aconteceu n d Média. a imediatidade do princípio. porque nada contém de oculto senão aquilo em que está preso. se bem que veladamente. porque sem o salto doador e fundador e sem avan Nada é capaz de libertar a partir de si. l põe o O projecto poemático provém do nada. no sentido lfi'Y da actuação genial do sujeito soberano. no início e no decurso dos 61 . O que fut amente « dizer foi posto em obra de modo decisiv . isso que tudo o que foi dado'ao homem se deve. a peculiaridade do salto partir do não-mediatizável. contém sempre a plenitude pIorada inex do abismo intranquilizante. Por serum tal «trazer à luz» (Holen). Mas este ente. O princípio contém já oculto.moderno interpretou logo mal o elemento criativo. ~ que "fundamento. assim aberto nadade. pelo contrário. nunca vem do nada. foi de novo tr ormado. totali foi então transformado ente. em que o que ainda há-de vir já está utrapas sado. O autên enquanto salto (Sprung) é sempre um salto anteci pativo (Vorsprung). Só assim é que ele próprio se funda como fundo que sustém. A instauração da verdade é instauração não apenas na acepção da livre oferta. O ente. no sentido do que foi criado por Deus. Sempre que o ente na totalidad enquanto ele própri fundamentação na abertura. já é. primiO primitivo é sempre sem futuro. A arte como poesia é instaur no~rceiro sentido de instauração do combate da verdade. O autêntico princípio não tem o aspecto incipiente do Uvo. a e atinge a sua essência histórica como instauração. O princípio. isto é. expressamente nele posto. mas antes inclui que o princípio se prepare muito longamente e de uma forma inteiramente inconspícua. o fim. Esta a nteceu no Ocidente pela primeira vez na Grécia. do combate com o familiar. o subjectivismo JIf~ ~ rt. não exclui. Doação e fundação têm em si o carácter não mediatizado do que chamamos o princípio (Anfang). no sentido deste fundar. Todavia. é instau áção no sentido de princípio. Mas é o seu mundo que. toda a criação é um «tirar» (Schõpfen) (tirar a água da fonte). trazer à luz do fundo que se fecha. no ponto de vista de que nunca aceita a sua oferta a partir do habitual e do que até então havia. na medida em que o que por ele é lançado é só a determinação retida do próprio ser-aí histórico. Sem dúvida. tico princípio. Com efeito.si mesmo oculto. mas também ao ~ mesmo tempo instauração. no projecto. reina como a desocultação Édo por ser.

A arte é histórica e. histórica. Esta é a instauração no sentido triplo de oferta. a verdade do ente. A arte acontece na Poesia. 62 . irrompeu um mundo novo e essencial. pode e tem de o ser. do ser-aí histórico de um povo. a saber. produz-se na história um choque (Stoss). Nesta frase. é a salvaguarda criadora da verdade na obra. oferecendo à história aspectos mutáveis. porque a arte é. no nosso ser-aí histórico. Isto não significa apenas: a arte tem uma história. no sentido indicado. A arte faz brotar a verdade.Tempos Modernos. a história começa ou \ recomeça de novo. . Perguntamos pela essência da arte. no próprio ente. Mas. é a arte. Sempre que a arte acontece. a abertura do ente teve de instituir-se pelo estabelecimento da verdade na forma (Gestalt). História não quer aqui dizer o desenrolar de quaisquer factos no tempo. O ente tomou-se objecto calculável. quando há um princípio. oculta-se uma ambiguidade essencial. a partir da proveniência essencial. por mais importantes que sejam.eis o que quer dizer ~ a palavra origem. Como instauração.• "sua tarefa. quer dizer. A arte é histórica. a arte é essencialmente histórica. a arte é ou não uma origem. Ela põe-se em ~bra. se. no que e está dado. Impedem precisamente de pensar esta essência ambígua. ao lado de muitos outros fenómenos. e de aí se ver sujeita a transformações e perecer. isto é. na obra. segundo a qual a verdade é ao mesmo tempo sujeito e objecto do pôr (Setzen). \ ~ o despertar de um ~ . enquanto histórica. semelhante pôr é levado a cabo pela arte. De cada vez. Porque é que assim perguntamos? Perguntamos para poder perguntar mais autenticamente se . De cada vez. A origem da obra de arte. sujeito e objecto são aqui nomes inadequados. fundação e princípio. uma origem: um modo eminente como a verdade se toma ente. e em que condições. na sua essência. susceptível de ser dominado e devassado. aconteceu a desocultação do ente. tarefa que não incumbe à presente reflexão. A arte faz assim surgir. De cada vez. mais propriamente. a saber. no sentido exterior de ela ocorrer tam bém na mudança dos tempos. ao mesmo tempo a origem dos que criam e dos que salvaguardam. ---~-verdade. Istó é assim. Fazer surgir algo é trazê-Io ao ser no salto que \ instaura. como inserção . no sentido essencial de que í funda a História e.

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na nossa relação com a arte. o caminho para os que criam. então. incontornável. se pode ser um salto antecipativo (Vorsprung). na origem? Sabemos nós. por isso. Estaremos nós. que só pode crescer devagar. \ Dificilmente O que habita perto da origem abandona o Lugar. só pode transportar-se como uma manifestação corrente da cultura. Mas este saber meditativo é a preparação prévia e. em seguida. A Migração IV. ou se deve permanecer apenas um suplemento e. isto é. decide-se se a arte pode ser uma origem e. o lugar para os que salvaguardam. ainda só para conhecimentos eruditos do passado? Para esta alternativa e sua resolução há um sinal inequívoco. o poeta cuja obra ainda cabe aos alemães enfrentar. Hõlderlin. ao dizer: \. no nosso ser histórico. 167 63 .Uma tal meditação da arte não deveria forçar a arte e o seu devir. para o devir da arte. Num tal saber. Só um tal saber prepara o espaço para a obra. respeitamos a essência da origem? Ou apelamos. referiu-se a isto.

e com ela a sua essência. nas Lições Sobre Estética. Tudo é vivência. A estética toma a obra de arte como um objecto e. É certo que se fala das obras imortais de arte e da arte como um valor para a eternidade. não leva as coisas a rigor. Que medo é maior nos nossos dias do que o que há perante o pensar? Falar de obras imortais e do valor eterno de arte terá sentido e conteúdo? Ou tudo isto não são mais do que modos de falar. A tarefa consiste em ver o enigma. porque receia que levá-Ias a rigor signifique. da apreensão sensível em sentido lato. mas também para a sua criação. abandonou o homem? Na mais abrangente meditação . Vivência é a fonte determinante. no final de contas: pensar. a respeito de tudo quanto é essencial.que o Ocidente possui acerca da essência de arte. o enigma que a arte em si mesma é.porque pensada a partir da metafísica . mais precisamente. Longe de nós a pretensão de resolver tal enigma. de Hegel. talvez a vivência constitua antes o elemento em que a arte morre. semipensados. numa época em que a grande arte. O modo como a arte é vivenciada pelo homem é que deve fornecer a chave sobre a essência da arte. Desde o tempo em que despontou uma reflexão expressa sobre a arte e os artistas tal reflexão se chamou estética. não apenas para o apreciar da arte. pode ler-se o seguinte: 65 . Fala-se assim naquela linguagem que. como o objecto da àíaullO'lÇ. O morrer ocorre tão lentamente que leva alguns séculos.POSFÁCIO As considerações precedentes concernem ao enigma da arte. Todavia. Hoje esta apreensão denomina-se vivência (Erleben).

A beleza não ocorre ao 66 .«Para nós. Trata-se de trazer à luz o carácter-de-obra da obra de arte. O que a palavra origem aqui significa é pensado a partir da essência da verdade. resta então a questão de saber porque é que isto acontece.. com efeito. A decisão final acerca do veredicto de Regel ainda não foi proferida. no Inverno de 1828-29. se assim for. a partir da própria verdade do ente e a propósito dela. A verdade de que aqui se fala não coincide com o que se designa comummente por este nome e que se atribui como uma qualidade ao conhecimento e à ciência. Mas até lá. desde que Rege! pela última vez apresentou a Estética. a arte já não figura como o modo supremo em que a verdade a si mesma proporciona existência (W. ao fazer a pergunta pela origem da obra de arte. 135). Não conseguimos esquivar-nos ao veredicto que Regel emite nestas frases. que o veredicto enuncia. «Pode certamente esperar-se que a arte se eleve e se aperfeiçoe sempre mais. A verdade é a verdade do Ser. 16). e o que se passa. ora vago. se o chegar a ser. será definitiva. Todavia. algo que. pensamento que corresponde a uma já acontecida verdade do ente. só podem fazer-se quando previamente meditamos a essência da própria arte. Tais perguntas. do ponto de vista da sua mais extrema destinação. já passou» (X.8. 134). A verdade é a desocultação (di e Unverborgenheit) do ente como ente. a arte é e continua a ser. «Em todas estas conexões. ou deixou a arte de ser tal? Mas se já não é. X.~constatando que. que valem como designações para os valores do comportamento não teórico. W. o veredicto de Rege1 permanece válido. p. para nós. por forma a dela distinguir o Belo e o Bom. p. que nos ocupam de modo ora incisivo e directo. Mas esta foi uma possibilidade que Regel nunca quis negar.l. mas a sua forma deixou de ser a necessidade suprema do Espírito» (Ibid. A decisão acerca do veredicto de Regel será proferida. assistimos ao nascimento de muitas e novas obras de arte e correntes estéticas. na Universidade de Berlim. por detrás deste veredicto acha-se o pensamento ocidental desde os gregos. 1. Ensaiamos alguns passos. Só por isso é que é necessária a pergunta sobre se a verdade. a pergunta permanece: é a arte ainda uma forma essencial e necessária em que acontece a verdade· decisiva para o nosso ser-aí histórico.

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A ioÉu insere-se na ~opq)lí. O ser aconteceu então como E'iooç.o todo unido da ~opq)1íe da vAll. e objectividade toma-se vivência (Erlebnis). que constitui a beleza. No modo como. enquanto ser da verdade na obra e como obra.O aúvoAov. mas apenas porque outrora a forma clareou a partir do ser. na suposição de que o conceito metafísico de arte possa alguma vez alcançár a essência da arte. a saber.lado desta verdade. A realidade converte-se em objectividade. aparece. o epyov é no modo de êVÉPYEtU. o ente manifesta o seu ser enquanto real. enquanto a entidade do ente. A actualitas toma-se realidade. como a partir da vivência. Se a verdade se põe em obra na obra. O belo não é somente relativo ao agrado (das Gefallen) e apenas como o seu respectivo objecto. para o mundo determinado à maneira ocidental.Este modo de presença toma-se a actualitasdo ens actu. É este aparecer. Esta última é tão pouco compreensível a partir da beleza tomada só por si. esconde-se uma particular junção da beleza à verdade. o belo reside na forma. À transformação da essência da verdade corresponde a história da essência da arte ocidental. 67 . O belo pertence assim ao auto-acontecimento da verdade (das Sichereignen der Wahrheit). Todavia.

sobretudo na determinação orientadorade «pôr-em-obra». Por isso se diz na pág. Estatuir (stellen) e dispor (legen) têm o sentido de pro-duzir (Her-vor-bringen): trazer (bringen) para fora (her-). O sentido grego de «pôr» (setzen) diz: pôr como deixar-surgir (Erstehenlassen). Ao «estatuir» (stellen) e ao «pôr» (setzen) pertencem também o «dispor» (legen). por exemplo. que quer dizer um instalar na desocultação». «Estatuir» (stellen) devemos pensá-lo no sentido de uÉO"lç. no «estabelecimento» encontra-se um querer que fecha. um não-querer que liberta. Pelo contrário. para a presença (vor). O estar-de-pé (das Stehen) da estátua (i. portanto. simultaneamente. 61 «pôr e ocupar são aqui sempre pensados a partir do sentido grego deuÉO"lÇ. a saber. Pôr (setzen) e estatuir (stellen) nunca significam aqui o conceito moderno do contrapor-se (ao eu-sujeito) provocador. devido ao facto de as expressões «estabelecimento da verdade» (Feststellen der Wahrheit) e «deixar-acontecer da adveniência da verdade» (Geschehenlassen der Ankunft von Wahrheit) nunca se usarem em sentido uníssono. no «deixar acontecer» (Geschenlassen) anuncia-se uma disposição (sichfugen) e assim. barra a chegada. todos os três se traduzem em latim pela palavra ponere. e. significa: colocar.SUPLEMENTO Nas págs. 64 e 73 uma dificuldade essencial se impõe ao leitor atento. Com efeito. a presença do olhar 69 . uma estátua. A dificuldade resolve-se se pensarmos o «estabelecer» no sentido que é usado em todo o texto. e. para a desocultação. depor (Niederlegen) uma oferenda..

agora «Hegel und die Griechen». onde «dução» se deve entender no sentido indicado na pág. na plenitude da mobilidade . Pois. trazer para dentro do contorno (Umriss) (p. no sentido grego de E P Y O V .tudo isto é válido para a obra. então o «Fest-» do verbo Feststellen (Fixar) nunca pode ter o sentido de fixo. assim rigorosamente pensado. se no ensaio sobre a obra de arte mantemos sob mira o sentido grego de 'uÉcnç: deixar-estar no seu brilho e presença. a limite. o próprio presente enquanto produzido.que congrega em si muito mais movimento que as modernas «energias». 70 . Este «movimento» exige mesmo uma fixação no sentido de produção. mais precisamente ainda. não pode de modo algum contradizer o «deixar acontecer» (Geschenlassen). Este pôr (Setzen) é. no seio da dialéctica de Kant e do idealismo alemão. no presente ensaio (p. Gadamer. que a montanha persiste no seu erguer-se e repousar. Todavia. a limite constituinte é o que repousa . no sentido deuÉcnÇ.no seu brilho) é diferente do estar-de-pé no sentido do objecto. p. Vortriige und Aufsiitze. antes traz somente ao aparecer. este deixar (Lassen) não é nenhuma passividade. ainda não verdadeiro. antítese.O seu «ser» é a EvÉpyeta. do qual provém toda a luz. não restringe. se caracteriza como «a inserção» (Sicheinlassen) ec-stática do homem existente na desocultação do ser. na medida em que a produção criadora é antes um receber e um deduzir (re-tirar) no interior da referência à desocultação (Unverborgenheit). um «obrar» (wirken) e um «querer» que. «Estar-de-pé» (Stehen) é (cf. [68]). Pelo contrário. para ele. imóvel e seguro. [30]) é a constância do brilho. 62 sgt. Deste modo. o «acontecer» (Geschehen) no deixar-acontecer da verdade é o movimento que reina na clareira e na ocultação. G. mas sim a suprema acção (cf. por um lado. tese. Hegel interpretou com justeza a partir do seu ponto de vista . é pelo seu contorno. porque ainda não mediatizado pela antítese (cf. 49). querem dizer um estatuir(stellen) no interior da esfera da subjectividade da consciência. na sua unidade. na luz grega. «Fest-» quer dizer: contornar. p. por isso. no sentido grego. a limite liberta para o desvelamento. o movimento da iluminação do ocultar-se como tal. deixar dentro do limite (1tÉpaÇ). a saber.a saber. a «fixar» (Feststellen) da verdade. 1960). Festsch11ft für H. [63] sg).a uÉcnç grega no sentido da posição imediata do objecto. Por outro lado.

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(cf. a «instituir» está antes do lado da atracção da verdade para a obra» a fim de que. [61] sobre o in-stituir (Einrichten) e a «instituição da verdade no ente» (Sicheinrichten der Wahrheit in Seienden). da 1toíllcnÇ e uÉcrtç gregos. no Ge-stell. determina-se o sentido da palavra usada na pág. e que a representação se reúne. Le. afastar o sentido moderno de estatuir e aparelhar e. [62]).. ao ouvir as palavras fixação (Feststellen) e Ge-stell em A Origem da Obra de Arte. No pôr deste Ge-stell. é pensada a partir do Ge-stell que se determinou no ensaio sobre A Origem da Obra de Arte (e não a partir do sentido corrente de Gestell: aparelho e aparelhagem). ágora: na provocação para tudo colocar em segurança (Sicherstellung). porque tem a ver com o destino do ser. Vortriige und Aufsiitze pp. provém do destino ocidental do ser e não foi excogitado pelos filósofos. por outro lado. 28 e 49) É difícil explicar as determinações dadas brevemente na pág. sendo ela mesma no modo da obra. segundo o modo da conferência sobre a essência da técnica. e simultaneamente. por um lado. Devemos. 64 Ge-stell: a reunião da produção. num estabelecer seguro e firme. não devemos deixar passar por alto como é o que o ser que determina os Tempos Modernos. a dominação do incondicionado. tenha mais ser (pág. a verdade. a Ge-stell como essência da técnica moderna deriva do deixar-estar diante (Vorliegenlassen). Se meditarmos em que medida a verdade como desvelamento do ente nada mais quer dizer do que a presença do ente enquanto 71 . Esta coesão é essencial. do ).de tal maneira que agora esta interpelação toma sobre ela. experienciado pelos gregos. do deixar-vir ao relevo de uma presença no traçado como contorno (1tÉpaÇ).óyüv Otõóvat. a palavra Ge-stell. E de facto. quer dizer. É pelo Ge-stell assim pensado que se aclara o sentido de ~oeq)lí como forma (Gestalt). fala antes de mais a interpretação da ratio reddenda. no seio do ente. mas antes dispensado aos que pensam. o ser como Ge-stell. usada mais tarde expressamente como a palavra para a essência da técnica moderna. De novo devemos evitar compreender o «instituir» no sentido moderno e. a partir da percepção grega.De acordo com o que até agora se esclareceu. como «organizar» e aprontar.

Ambas as caracterizações são «inadequadas». 37 sgts). cuja relação já foi pensada inadequadamente sob esta forma. as primeiras páginas do Posfácio). pertence ao Acontecimento (Ereignis). [74]). O que seja a arte é das perguntas a que nenhuma resposta se pode dar. A meditação sobre o que a arte é está inteira e decisivamente apenas determinada pela questão do ser. p. Porque verdade é. no ente aflora a questão da diferença ontológica (cf. Por isso. «sujeito» e. a arte é simultaneamente determinada como o «pôr-em-obra-da-verdade» e a verdade é agora «objecto»: a arte é o trabalho humano de criação e de salvaguarda. isto é. «objecto». então. 73. (cf. então. nem como uma das manifestações do espírito. por outro. obra de arte e artista repousam em conjunto no essenciante da arte. Na página 79. a saber. p. em 72 . p. dissimula-se a relação do ser e da essência do homem. Se a verdade é o «sujeito». Todo o ensaio de A Origem da Obra de Arte se move conscientemente e. falar da instituição da verdade. a determinação «pôr-em-obra-da-verdade» quer dizer: pôr-se-emobra-da-verdade (cf. Ser e Tempo). mas determinável. se denomina como criação e salvaguarda. 74 e 30). «/dentitiit undDifferenz». Mas o ser é interpelação ao homem e não é sem este. o pensamento move-se num âmbito que não pode aqui explicitar-se». em que permanece indeterminado. 1957. A estas instruções pertencem duas indicações importantes (p. p. menciona-se uma «ambiguidade essencial» que se reporta ao facto de determinar a arte como o «pôr-em-obrada-verdade». por um lado. Em ambas as passagens se fala de uma «ambiguidade». 73 e 79). Segundo as páginas 73 e 56. 61): «Com a alusão à instituição da abertura no aberto. a partir do qual se determina somente o «sentido do ser» (cf.dificuldade esmagadora. produz-se a outra ambiguidade do pôr-em-obra-da-verdade que.I tal. Na expressão: «pôr-se-em-obra-da-verdade». do ser. A arte não se toma como domínio especial da realização cultural. sem o dizer. no caminho da pergunta pela essência do ser. ser (cf. Por isso se diz cautelosamente (Da Origem da Obra de Arte. na pág. A arte é assim pensada a partir do acontecimento (Ereignis). que é clara para mim desde Sein und Zeit e que depois veio à linguagem em vários textos. E o que parece ser uma resposta é apenas um sinal que guia a pergunta (cf. todavia. No interior da relação humana com a arte. quem ou o que de que modo «põe».

») O que aqui se impõe como digno de questão reúne-se então no genuíno lugar da explicação. onde se toca a essência da linguagem e da Poesia.. tendo apenas em vista a pertença recíproca do ser e da palavra. no entanto. que naturalmente aborda o ensaio a partir de fora. represente e interprete primeiro e demoradamente o que aí está em questão. Para o próprio autor subsiste. 73 . uma vez mais. todavia. que . mas não a partir da silenciosa região fontal do que importa pensar.último lugar «Zur Seinsfrage» e o presente ensaio página 61 «Note-se. a necessidade de. falar justamente na linguagem que convém. Continua inevitavelmente a ser penoso que o leitor. tudo isto.. nas diferentes etapas do caminho.

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