Cercados - PÚBLICO

OPINIÃO

http://www.publico.pt/economia/noticia/cercados-1603061

Cercados
GUSTAVO CARDOSO 14/08/2013 - 09:31

TÓPICOS (/TOPICOS)
Zona Euro (http://www.publico.pt /zona-euro) Crise do euro (http://www.publico.pt /crise-do-euro) Conjuntura (http://www.publico.pt /conjuntura) Crise (http://www.publico.pt /crise)

As diferentes agências de notícias, TV’s e jornais, tanto internacionais como portugueses, preparavam-se na terça-feira para anunciar o fim da recessão na Europa. Por exemplo, o Financial Times escrevia que parecia claro que a pior crise económica em tempo de paz –desde a grande recessão –estava terminada para a Europa. Ou seja, havia-se atingido na Eurozona um crescimento de 0.2% e no Japão e Reino Unido de 0.6% (ou seja três vezes mais, mostrando o quanto a Europa ainda está debilitada).

Este crescimento na Eurozona é pequeno, mas parece portanto ser boa notícia, no geral é uma boa notícia, mas boa para quem? Para poder responder de forma concreta, precisamos de primeiro olhar para a capa do Le Monde, também do dia 13 de Agosto, o título que sobressai diz “Os bons resultados das grandes empresas mundiais”e lendo percebe-se que em média as 2600 maiores empresas mundiais apresentam um aumento das suas vendas no último ano na casa dos 2% e de lucros acima dos 12%. No global, segundo a Bloomberg, nos Estados Unidos os 500 primeiros grupos norte-americanos atingiram margens de 9.3% face ao seu valor de negócios e, assim, regressaram ao tipo de resultados do período pré-crise de 2008. Não há dúvida que as notícias são boas para os Governos Europeus da zona euro, sejam eles de esquerda ou de direita ou coligações de identidade difusa no espectro ideológico, pois todos os governos podem reclamar para si as boas notícias - apesar de na maioria dos casos a média de crescimento do conjunto depender tanto ou mais do parceiro europeu do lado do que si próprios. E, as notícias são também boas para as grandes empresas Europeias que disputam mercados dentro e fora da Europa. No entanto, as boas notícias não resolvem por si só duas dimensões estruturais dos problemas de cada país da zona Euro. Esses problemas são as dívidas nacionais dos países (todos, mesmo a Alemanha, têm uma gestão da dívida pública que teráfuturamente de ser feita de forma diferente da actual) e o que fazer a todos os bancos (todos, mesmo os alemães) e ao facto, confirmado pelas instituições de regulação europeias e internacionais, de a sua debilidade ser ainda extrema, apesar de quase seis anos de injecções financeiras de dinheiro público e de múltiplas tentativas de resolução negociada de novas formas de regulação a nível nacional e europeu. As boas notícias não resolvem também, o maior problema de todos, maior porque é-o em número de actores individuais e colectivos neste processo que assumiu o nome técnico de “grande recessão”e que na gíria se denomina “crise”, ou seja, os problemas dos cidadãos europeus e das pequenas e médias empresas europeias. Porque governar só faz sentido se for feito para as pessoas e não para grandes organizações (as quais poucas pessoas envolvem) e porque a riqueza e o emprego sóse gera (pelo menos na Europa) por via dos milhões de pequenas empresas, esta indicação de crescimento que alegra Governos e grandes empresas não deve trazer grande felicidade a todos nós, pois não

1 of 4

14-08-2013 11:40

há outro problema não resolvido. assistamos ao incrementar da tendência de concentrar a riqueza num cada vez menor número de pessoas e de grandes empresas.pt/economia/noticia/cercados-1603061 O crédito continua a não fluir. estamos todos a trabalhar para o médio prazo. háuma clara transformação da relação entre emprego e geração de riqueza numa série de actividades das nossas indústrias e dos nossos serviços . que é quando se espera que tudo fique mais ou menos como estava antes de 2008. no entretanto. E. não se gera riqueza porque as pequenas empresas não podem investir. neve ou campo geram contra-ciclos. aumentando a criação de emprego em ciclos de crescimento económico e. no actual contexto. Há de facto dinheiro a circular no sistema. consequentemente. Ficar contente. porque ninguém no sistema bancário confia ainda o suficiente nos outros bancos seus parceiros. no curto prazo. o do emprego. àperformance das grandes empresas no pré2008 e às taxas de crescimento de “0. seguros pelo BCE. errou também no grau de disrupção do know how industrial existente. Ou seja. ainda. E. não havendo crédito.e que esse é o manual de gestão utilizado na maioria das grandes empresas globais para apresentarem resultados aos seus accionistas mesmo em tempo de recessão. E. quer na Eurozona do Sul quer na do Norte. por outro. http://www. também. promovem a redução da destruição de emprego.publico. mas é aplicado no empréstimo aos Estados da zona euro que.Cercados . podemos dizer que são hoje precisas menos pessoas para garantir uma dada rentabilidade empresarial em certas actividades. Ou. que o experimentalismo europeu de e com as Troikas não fez apenas erros com multiplicadores. diminuindo assim a capacidade de criação de emprego e criando uma sociedade assente em cada vez maiores desigualdades. que todos os analistas das estatísticas de emprego sabem que. os períodos de férias de praia. em ciclos de crise. porque para todos os cidadãos e para todas as pequenas e médias empresas europeias (e espero que para os Governos atentos também o seja) quer dizer viver num cenário onde. Porquê? Porque todos os analistas e gestores financeiros sabem (embora acredite que nem todos os governantes europeus o tenham presente) que é perfeitamente possível. no medo de deixar de pertencer às classes médias (cada vez mais frágeis) e no condicionamento de facto do livre acesso ao empreendedorismo e àliberdade empresarial. muito mau mesmo. Mas.qualquercoisa%”é mau.PÚBLICO resolve ainda os nossos problemas. leva à destruição total e não parcial do emprego. É mau. por regressarmos. oferecem taxas de juro que permitem lucros certos e garantidos ao sistema bancário europeu. crescer o lucro das empresas despedindo pessoas –ou reduzindo salários quando possível . se nada mais fizermos (e contentes ficarmos) com o que estáa surgir no radar apenas podemos esperar que em Portugal e na restante Eurozona. há menos riqueza para ser distribuída e. por um lado. pois o downsizing/ajustamento é muito difícil de fazer com pequenas e médias empresas e. 2 of 4 14-08-2013 11:40 . Ou seja. deveríamos saber que produto da introdução das tecnologias de informação e no moldar das nossas sociedades em sociedades em rede.simplificando. tenhamos menor capacidade de criar riqueza. mesmo que contente com cautela e precaução. hámaior desigualdade de rendimentos para os cidadãos e redução de capacidade de alavancagem para gerar riqueza pelas pequenas e médias empresas.

publico.pt /economia/noticia/bancosmelhores-nao-chega1602883) COMENTÁRIOS António Martins Caracteres restantes: 800 Critérios de publicação (http://www. não serápossível retomar nem a riqueza de ontem.publico. sem perceber que sem melhor repartir aquela.publico. qb (http://www.pt /economia/noticia /desemprego-dadossurpreendentesqb-1602541) Comércio a retalho cai 0. então continuaremos.pt/nos/criterios-de-publicacao) Submeter Aprovados 2 Pendentes 0 Ricardo (/utilizador/perfil/3bff9171-889c-4230-b936-d0c666fe91dc) Gostei de ler! 10:06 Responder 3 of 4 14-08-2013 11:40 . cercados numa sociedade que se contenta com tentar gerar riqueza.7% em Junho (http://www. nem o emprego que os que hoje têm 40 anos conheceram no final do século XX e no início do século XXI.publico.PÚBLICO http://www.publico. se acharmos que os que desde sempre acreditaram no crescimento não precisam de combater a desigualdade para conseguirem gerar riqueza. Gustavo Cardoso é docente do ISCTE-IUL em Lisboa e Investigador do Centre d'Analyse et Intervention Sociologiques (CADIS) em Paris.Cercados .pt /economia/noticia /comercio-a-retalhocai-09-na-zona-euro-emjunho-1602259) Bancos melhores não chega (http://www.9% na zona euro em Junho (http://www. para além do 1% que a acumula actualmente.pt/economia/noticia/cercados-1603061 Se acharmos que tudo está bem se todos os que eram fiéis à crença na austeridade passarem a professar agora o crescimento. em Portugal e na Europa (incluindo na Alemanha).pt /economia/noticia /producao-industrialna-zona-euro-sobe07-em-junho-1602968) Desemprego: dados surpreendentes. OUTROS ARTIGOS Produção industrial na zona euro sobe 0.publico.

No fundo.pt/economia/noticia/portugalsai-da-recessao-com-crescimento-de-11no-segundo-trimestre-1603064) 4 of 4 14-08-2013 11:40 . Preocupam-me duas coisas: 1) o facto de haver cada vez menos empregos. Há 40 minutos NOS BLOGUES Se comentar este artigo no seu blogue.com/)Twingly procura de blogue (http://www.publico.publico.pt/economia/noticia/cercados-1603061 patu (/utilizador/perfil/cef89fec-8e38-4389-b685-10d6825d441f) Também.1% no segundo trimestre (http://www. o link aparecerá aqui.PÚBLICO http://www.com/) Efectue o ping do seu blogue no Twingly para nós o encontrarmos. admito que possa não fazer sentido. (http://www. por haver mais eficiência. racionar o emprego.twingly. (http://www.com/ping) ANTERIOR França sai da recessão com crescimento de 0. 2) o facto da riqueza estar mal distribuida. acho (não sou economista nem gestor.5 % no segundo trimestre (http://www. Se a Europa não estivesse em concorrência com países de mão de obra quase-gratuita.twingly.Cercados .pt/economia/noticia/economiafrancesa-sai-da-recessao-com-crescimentode-05--no-segundo-trimestre-1603060) SEGUINTE Portugal sai da recessão com crescimento de 1.publico. Foi uma análise mais profunda. confesso-me ignorante) que o que fazia sentido era obrigar as empresas a baixar o número de horas de trabalho semanal e assim empregar mais pessoas. Com a concorrência desleal que temos.twingly.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful