Adauto Lourenço defende a criação do mundo em entrevista ao JM Online

Por Gisele Barcelos, JM Online

Ciência e fé podem ser aliadas? Esta é a pergunta levada pelo pesquisador Adauto Lourenço em várias palestras realizadas no Brasil sobre a origem do universo e da vida. Nascido no interior do Estado de São Paulo e pertencente a uma família cristã, Adauto começou a luta internamente durante a faculdade e os questionamentos cresceram junto com as experiências acumuladas no currículo. Depois de buscar respostas na Física e na Matemática, o pesquisador abandonou a teoria da evolução para se tornar um defensor do modelo chamado criacionismo científico. O resultado dos anos de estudo foi registrado no livro "Como Tudo Começou". A obra contesta a preferência do evolucionismo no atual sistema de ensino e ainda garante: as evidências da criação são concretas. Jornal da Manhã - O senhor inicialmente era defensor do evolucionismo. Mudou de posicionamento por causa da conversão ao cristianismo? Adauto Lourenço - Eu sou de uma família evangélica e me converti aos 10 anos de idade. Então, a minha mudança saindo do evolucionismo para o criacionismo científico não se deu por causa de uma conversão religiosa. Durante a faculdade, eu estava muito relacionado com aquilo que a gente chama de evolucionismo teísta. Isso significa que de uma forma específica eu aceitava a teoria da evolução como totalmente verdadeira e acreditava que o relato bíblico era verdadeiro também. Só não sabia como juntar as duas coisas. Então, eu tinha tendência de pegar certos textos da Bíblia, como Gênesis, e pensar de uma forma mais alegórica e não como uma história literal. Porém, na época de mestrado,

é possível sim demonstrar cientificamente que o universo e a vida foram criados. Foi um processo mais ou menos de uns cinco anos migrar do evolucionismo para o criacionismo. Obviamente a escola é para ensinar ciência. No primeiro caso. quando falamos de criacionismo. Não foi assim: deitei evolucionista e acordei criacionista. O que discutimos é: processos naturais e leis da natureza teriam trazido à existência o universo. conhecem a respeito do criacionismo científico. eles me mostraram que aquela era a forma como se acreditava que poderia ter acontecido. chegou a um ponto que eu quase entrei em parafuso. O criacionismo científico trabalha apenas a questão se o universo e a vida foram criados ou surgiram espontaneamente. São duas coisas totalmente distintas. Independente de provar quem o criou.eu comecei a questionar algumas coisas com meus orientadores e eu percebi que muitas dúvidas que eu tinha. Enquanto anteriormente a teoria da evolução me foi passada como comprovada e sem problemas. Eu fui questionando e quanto mais eu questionava. não explica o porquê. Poucas pessoas. as pessoas associam apenas aos dois últimos.Existem três criacionismos distintos: o científico. Isso para mim foi uma grande surpresa. Já os religiosos tentam explicar por que uma determinada divindade teria criado o universo e a vida. E eu encontrei muitos criacionistas que são inclusive ateus. mais eu pude perceber que literalmente não havia uma consistência entre a evidência científica e o modelo evolucionista. Só não é possível demonstrar quem criou. Os nossos centros de ensino não permitem o ensino do criacionismo e existe um motivo para isso. a vida e toda a complexidade que encontramos neles? Existe uma satisfação intelectual em responder essa pergunta: tudo surgiu ou não espontaneamente? JM . Muitas pessoas não conhecem o criacionismo científico e querem ensinar a questão religiosa ou bíblica. de que forma isso pode ser refutado cientificamente? AL . Então. E o bíblico é descritivo. Porque eu pensava que quem era criacionista era religioso. eu fui encontrando outros que eram criacionistas. principalmente no meio acadêmico. E existe uma diferença entre acreditar que poderia ter sido assim e efetivamente ter acontecido.Mas o criacionismo é sempre apresentado nos livros didáticos como ficção. Normalmente. o religioso e o bíblico. mas não eram religiosos. Por exemplo. Durante esses anos de pesquisa pessoal. eles também tinham. Por quê? Não é uma questão de tentar provar que Deus criou o mundo ou que a Bíblia está correta. Não são todos iguais. . Foi passando o tempo e eu percebi que alguma coisa tinha que ser feita. eu pego um relógio e é fácil demonstrar de forma científica que o objeto foi criado e não surgiu espontaneamente. apenas cita o que Deus fez.

Daí. JM . gorilas e orangotangos. A interpretação é algo interessante. chimpanzés e talvez possivelmente aos orangotangos. é estabelecida em laboratório. não temos evidências genômicas para comprovar isso [O cientista argumenta em suas palestras que as pesquisas utilizaram um número reduzido de genes para fazer a comparação do homem e do macaco. Temos fósseis como o Australophitecus [na teoria da evolução. este animal é considerado o ancestral direto do homem moderno]. O desvio desses fósseis. é um desvio menor em função dos chimpanzés. falam que eram pequenas transições. Não era evolução da espécie para chegar ao ser humano. em que um dos mais conhecidos é a Lucy [fóssil encontrado em 1974 e apresentada como o elo perdido da sequência da evolução humana]. Não! Eram apenas pequenas variações entre chimpanzés. gorilas e orangotangos? Ou é menor com respeito ao ser humano? A resposta é óbvia: os Australophitecus são muito mais parecidos com chimpanzés. então. gorilas e orangotangos. sabemos que eles nunca foram criaturas que ficaram em pé como o ser humano fica. Agora. Não temos uma sequência que mostre seres humanos evoluindo de um ancestral comum aos gorilas e chimpanzés.A proposta do criacionismo científico não é religiosa. No entanto. com respeito a formas de vida que nós conhecemos hoje. seria a interpretação do registro fóssil.A teoria da evolução diz que os seres humanos. Mas eu entendo que não é essa a compreensão da maioria dos cientistas. Nós sabemos isso por várias publicações científicas de pesquisadores que têm trabalhado no estudo especificamente do sistema locomotor do Australophitecus. embora possua implicações religiosas. gorilas e orangotangos do que qualquer coisa . a verdade científica não é estabelecida por número de adeptos. Analisando o aspecto da ancestralidade. A evidência é que não houve evolução porque todos esses fósseis que estão sendo encontrados são muito semelhantes aos chimpanzés.Quais são então os argumentos para contestar a evolução? AL . Eles não são semelhantes aos seres humanos. não tem nada de ancestralidade do ser humano. A única possibilidade. É gigantesca ao comparar com o ser humano. se pegar esses fósseis e fizer um estudo. ou seja. principalmente os evolucionistas. Ou seja. A imagem de uma Lucy em pé nas suas patas inferiores não existe. o desvio da estrutura do fóssil é muito pequeno ao comparar entre chimpanzés. Por isso. principalmente o sistema locomotor inferior. a estrutura óssea mostra questões interessantes a respeito de suas patas. Esse sistema não permitia a esse animal ficar em pé. na análise total a semelhança genômica entre as duas espécies seria praticamente nula]. Por isso. teriam vindo de um ancestral comum aos gorilas. no caso os Neandertais e os Homo sapiens. gorilas e orangotangos.

estrutura óssea. Existem registros que se desviam um pouquinho da maioria. Eles teriam existido no passado e provavelmente estão extintos atualmente. Podemos estudar o tamanho da caixa craniana. peso e estatura. Quando se compara ser humano. Os Australophitecus seriam nada mais.O que temos encontrado até o presente momento nos fósseis dos chamados hominídeos é um desvio praticamente zero comparado com gorilas. para os criacionistas. nada menos que pequenas variações dos gorilas. Estão mandando olhar o registro fóssil e é exatamente isso que estamos fazendo. Ao fazer a interpretação disso não é possível ver no registro fóssil uma sequência que mostre peixes evoluindo em anfíbios. Não há peixes com patas nem anfíbios com nadadeiras. é a forma daquele organismo. JM . É praticamente a mesma estrutura das mãos. Daí. Aquilo não é um pé. É apenas um . duas coisas ficam evidentes imediatamente: existem formas de vida fossilizadas que não existem mais hoje e existem formas de vida fossilizadas que continuam existindo até hoje. Isso é importante porque permite comparar como esses organismos foram no passado com aquilo que são hoje. Lucy seria apenas um tipo de macaco primitivo? AL . A estrutura morfológica dos artelhos das patas inferiores do Australophitecus é exatamente igual à de chimpanzés. mas isso não significa evolução. A própria estrutura dos Australophitecus mostra que eram extremamente preparados para subir em árvore como os gorilas e chimpanzés. Quando estudo o registro fóssil. As pessoas argumentam que é porque estava no início do processo evolutivo. gorilas e orangotangos. o desvio é enorme.Primeiro. JM . Existem peixes com características diferentes e anfíbios com características diferentes. O nosso centro de gravidade não funciona assim. Não! Isso não é o início do processo evolutivo.com seres humanos.Mas os fósseis não são justamente a prova da existência da vida na Terra há milhões de anos e da evolução de diversas espécies ao longo do tempo? AL . chimpanzés e orangotangos. a pergunta passa a ser a seguinte: qual delas é predominante? E aproximadamente 75% do registro fóssil é composto de plantas e organismos que ainda estão vivos. precisamos observar o registro fóssil e depois interpretar os dados.Então. Chamá-los de ancestrais humanos ou hominídeos é um exagero. O ser humano não é preparado para subir em árvores. Os macacos inclusive têm centro de gravidade diferente do nosso para facilitar essa atividade. chimpanzés e orangotangos que temos hoje. Observar está relacionado à quantidade de fósseis que nós temos e o que eles nos mostram. por exemplo. A nossa coluna vertebral não funciona desse jeito.

Muitas pessoas argumentam: “Várias microvariações iriam produzir o quê?”. vai ter um momento em que ela seria primeiro uma pata que não andaria e uma asa que não voaria.Se fôssemos procurar dinossauros hoje. JM . deveríamos fazê-lo nas regiões de florestas tropicais. por todos os criacionistas. O registro mostra uma pata com uma membrana grande para facilitar o deslocamento na água. que podemos dizer que já foi nadadeira no passado. até os pulmões. pois os desenhos mostram dinossauros. Por que os homens das cavernas não desenharam ossos? A resposta é óbvia: eles foram contemporâneos.E a existência dos dinossauros é admitida dentro desta teoria? AL . pois uma pata em mutação não seria mais uma boa pata. a seleção natural é um dos maiores aliados que o criacionismo tem dentro da biologia.Sim. Tem outro ponto muito legal ao analisar as pinturas rupestres em muitas cavernas. uma boa pata sempre será escolhida pela seleção natural ao contrário de uma pata em mutação. Existe um balanço que no planeta Terra . Para que uma boa pata se transforme numa boa asa. seria eliminado. Segundo o modelo da seleção natural. Também não há um desejo que os dinossauros não tenham existido. como apatossauros. Apenas várias microvariações.Pelo contrário. Agora você não vai me dizer que isso seria uma vantagem seletiva.Então. Estamos falando de megaconstruções desde os músculos e nervos. você está falando de estruturas espetaculares. a teoria criacionista nega também a seleção natural? AL . mas um pouco diferenciada com membranas grandes entre os dedos. O problema principal é a interpretação do registro fóssil. A quantidade de informação genética que teria que ser acumulada para chegar a algo assim é fabulosa. JM . por exemplo. Não tem nada a ver. o que aconteceu com eles? Foram extintos? AL . Desta forma. Não teria como construir estrutura tão grande como essa por meio de pequenos saltos evolutivos. JM . Para a gente.pequeno desvio. Os dinossauros são uma evidência muito grande de criação. os dinossauros são evidência muito grande da criação. a seleção natural eliminaria possibilidades evolutivas e favoreceria microvariações e microadaptações. Por exemplo. Pelo contrário. para sustentar o peso. Não é porque você tem um anfíbio que tem a pata óssea. Agora como essa megaestrutura teria vindo à existência espontaneamente a partir de pequenos répteis? A estrutura mostra claramente um design e um planejamento absurdo. A quantidade de fósseis é inegável e não tem como escapar.Dentro dessa lógica. que eram gigantescos e tinham acima de doze metros de altura. Para chegar aos grandes dinossauros.

Temos muito a pesquisar e o que vamos encontrar lá dentro só podemos dizer depois disso (risos).Para responder de forma adequada. podemos ver que durante o movimento houve uma grande explosão de conhecimento.. mas eles não representam o cristianismo verdadeiro e nem entenderam a essência do cristianismo. na Inglaterra. o ateu não está numa posição melhor do que o religioso. De . Sem dúvida. JM . a resposta sempre tem que ser sim. Como seria possível? É só demonstrar que processos naturais e leis da natureza teriam feito toda a complexidade da vida e do universo. O cristianismo verdadeiro e autêntico é literalmente o berço onde a ciência prospera porque a proposta que vem da Bíblia é que os crentes examinem as escrituras diariamente para ver se as coisas eram de fato como estavam sendo ensinadas. JM . Porque existem religiões que realmente fazem isso.existem 13. outras ganharam a forma que têm atualmente – como Oxford e Cambridge. na época da chamada reforma protestante. Como matemático. Então.. eu poderia dizer que a probabilidade de os dinossauros estarem extintos não é zero. JM . Aceitar como dogma não faz parte do cristianismo e nunca foi. Porque dentro da comunidade científica existe uma ideia de que se você é religioso. nos Estados Unidos –. O senhor concorda com isso? AL . o ateu tem uma percepção baseada na sua cosmovisão. O cristão também. Basta apenas ter uma evidência ou um grupo de evidências que destruam ou desmontem o modelo no qual eu e outros temos trabalhado. o cristianismo do século XX perdeu a sua autenticidade e a sua capacidade de ser questionador. Os cristãos esqueceram a essência do cristianismo. você é tendencioso.Uma afirmação que existe é que a religião e a fé inviabilizam a ciência. Sendo ambos cientistas.Sim. Ou seja.O senhor pode voltar ao posicionamento antigo e retomar a defesa do evolucionismo? AL .5 milhões de quilômetros quadrados de florestas tropicais e menos de 1% foi pesquisado. É só provar que estamos errados. Infelizmente. O cristianismo nos ensina a questionar. pesquisar faz parte da mentalidade do cristianismo. seria preciso responder qual religião. Daí é que você encontra alguns grupos que são literalmente anticiência. Grandes universidades surgiram – como Yale.Como um pesquisador e como cientista. Como se o ateu não fosse tendencioso. outras não.O senhor enfrenta preconceito dentro da comunidade científica? AL . Quando olhamos a história. Princeton e Harvard. Tanto um ateu como alguém que acredita na existência de Deus trabalham em cima de preconceitos.

Até o presente momento não recebemos um único sinal vindo do espaço sideral que indicasse que foi produzido por vida inteligente.Para que vida exista no planeta Terra são necessários pelo menos dois milhões de variáveis perfeitamente balanceados até onde nós sabemos. Primeiro porque é praticamente impossível publicar no Brasil. . trabalha na área de Design Inteligente e tem mais de 600 publicações científicas e mais de 6. O problema é se o modelo proposto descreve a realidade. independente da tendenciosidade do cientista.O senhor acredita que isso pode mudar? AL . Isso não significa que não tenha criacionistas publicando seus trabalhos.Vida extraterrestre: possível ou não? AL . Estados Unidos e Europa pelos meios convencionais. JM . vida fora do planeta Terra. não parece ser inteligente.E existem publicações científicas tratando do criacionismo? AL . Quanto a isso. não temos como detectar até agora. Se tentar algo sobre Design Inteligente – como tentou –. Não é uma questão de capacidade e nem de titulação. JM . Se existe vida fora da Terra. Os dois trabalham em cima de ideias preconcebidas. Mas existe um posicionamento preferencial pela academia que evita publicações relacionadas com qualquer coisa envolvendo criacionista ou Design Inteligente.Haveria possibilidade de mudança se fosse possível. A outra possibilidade seria vida biológica não inteligente. Para achar um outro planeta que tenha só 10% disso – o que não permitiria a existência de vida –. Isso foi calculado há pouco tempo pelo pessoal da Nasa que trabalha na área de exociência. ou seja.forma alguma. por exemplo. não é aceito. JM . da Unicamp.000 citações dos trabalhos dele na área de espectrometria de aceleração de massa.Não. a probabilidade é de aproximadamente uma em um quatrilhão. criar uma academia brasileira de cientistas independentes. O professor doutor Marcos Eberlin.

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