O ENTRETEMPO DE EMMANUEL LÉVINAS E A MORTE NA LITERATURA POLICIAL

RAQUEL PARRINE,
Universidade de São Paulo (USP) No livro La realidad y su sombra de 1948, o filósofo lituano Emmanuel Lévinas define a noção de entretempo:
El tiempo mismo del ‘morir’ no puede representarse la otra ribera. Lo que ese instante tiene de único y de punzante se debe al hecho de no poder pasar. En el ‘morir’ se da el horizonte del porvenir, pero el porvenir en tanto promesa de un presente de nuevo es negado – se está en el intervalo, para siempre intervalo. Intervalo vacío donde deben encontrarse los personajes de ciertos cuentos de Edgar Poe a los cuales les aparece la amenaza en su acercamiento, sin que sea posible ningún gesto para sustraerse a este acercamiento, pero no pudiendo acabar nunca este mismo acercamiento. Angustia que se prolonga, en otros cuentos, como miedo de ser enterrado vivo: como si la muerte no fuera nunca bastante muerte, como si paralelamente a la duración de los vivos corriera la eterna duración del intervalo: el entretiempo.//(...)El arte cumple precisamente ésta duración en el intervalo, en esa esfera que el ser puede atravesar, pero donde su sombra se inmoviliza. (LÉVINAS, 2001, p. 62) (Grifo meu)

Pensei em fazer um uso, talvez livre demais, deste conceito de entretempo, que é habitado pela literatura. Os contos de Poe a que Lévinas se refere poderiam ser, por exemplo, “The cask of Amontillado” , em que o narrador empareda o amigo em uma narrativa vertiginosa, cujo cúmplice é o leitor (mas um leitor que não está a par completamente das intenções do narrador); ou “The facts in the case of Mr. Valdemar” , em que este personagem é revivido por um magnetista, somente para lançar pela sala “a voice -- such as it would be madness in me to attempt describing” (POE, 2010). Nos dois casos, há o prolongamento da morte visto, pelo próprio narrador, como algo monstruoso. Em Amontillado, há o tempo até que se morra, e em Valdemar, o tempo depois da morte. No primeiro, a aproximação mais longa possível, antecipada mil vezes, ao emparedamento surpreendente. No segundo, a arte atravessando a morte e imobilizando sua sombra.

Se, nos primeiros contos, o entretempo como duração do intervalo, como o mais-além da morte que só a literatura poderia ultrapassar, é literal, o que proponho é pensar que nos contos policiais de Poe ocorre o prolongamento da morte pela investigação do crime. Essa morte literária que seria mais do que a própria morte, como se esta nunca fosse suficiente, seria, nos contos policiais, representada pelo trabalho do detetive, a reconstituição dos eventos do crime, a obtenção de provas, ou seja, da vivência do crime depois do crime. Na minha dissertação, desenvolverei a hipótese de que os contos policiais de Poe, além de terem lançado o gênero policial, definiram as linhas a que o gênero remeteria até hoje. Ou seja, eles seriam uma espécie de horizonte, ou até de molde do gênero. O detetive excêntrico e brilhante, os ambientes noturnos, os cenários citadinos, a narração em 1ª pessoa do companheiro amador do detetive: tudo foi definido ali, mesmo que para ser negado ou subvertido depois. O que pensamos em termos modelares sobre o que o gênero policial foi dado pelo escritor estadunidense. O que me parece mais modelar, ou até obrigatório, é a questão da estrutura – o que talvez seja o que está por trás da ideia de policial como fórmula, como estilo estanque. A respeito disso, crítico Tzvetan Todorov desenvolve uma ideia que será reproduzida por grande parte dos estudiosos de policial. Para ele, um conto deste

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O entretempo de Emmanuel Lévinas e a morte na literatura policial

E interpretação livre a que me referi – de fato, usando Lévinas como disparador de leitura – seria aproximar sua visão da obra de Poe a uma série de contos que parecem não ser evocados pela seleção do filósofo. Especialmente, seus três contos policiais (“The murders in the Rue Morgue” , “The mystery of Marie Rouget” e “The Purloined Letter”), que foram responsáveis por lançar os padrões deste gênero.

em que trafega a literatura. a morte do outro como ativador narrativo. inclusive da ética e do luto. e talvez retesando ainda mais as questões trazidas por Lévinas. mas no último momento. trocando a chave da tragédia pela chave do inquérito. 2003.gênero tem sua estrutura articulada em dois tempos: o do crime e o do inquérito. É importante notar. O relato esconde a perda e o sofrimento da morte atrás do raciocínio e da intriga. como diria Jacques Derrida. o horror pela razão do detetive. A primeira e a terceira partes são fragmentos do diário de um jovem chamado Juan García Madero. ou nem mesmo de compreender integralmente seu pensamento. não é um grito que “seria loucura descrever” . ao contrário: é descrito e pormenorizado racionalmente – assim. de início. Detectives é dividido em três partes: Mexicanos perdidos en México (1975). podemos dizer que a detecção. e não antes do começo. em que ocorre a narrativa. que é também a maior do livro. nos últimos parágrafos do texto (TODOROV. p. Este é o tempo presente. o entretempo. à sua morte. numa responsabilidade da qual nunca poderei estar quite” (LÉVINAS. o próprio eu “não desponta na sua unicidade senão respondendo por outrem através de uma responsabilidade para a qual não há fuga possível. (Apesar de que esse paradoxo é também clássico na literatura policial). como lugar do raciocínio e da virtuose. 2001. há uma inversão total da lógica policial clássica – mas não só isso. Se a morte acontece no final do livro. Pero por eso no es el valor supremo de la civilización” (LÉVINAS. 96). essa morte que é mais do que a morte. é o homem (note-se homem) para quem um fio de cabelo pode conter toda uma narrativa. gostaria de pensar num romance escrito em 1998 pelo chileno Roberto Bolaño: o romance Los Detectives Salvajes. a virtuose do detetive solapa a tragédia do crime. é o impulso de “conhecer tudo” que moveu o século XIX. ao fim e ao cabo.. 2003. Assim. Talvez não haja nada menos selvagem do que um detetive. 1970. O que seria um detetive selvagem? Não pretendo enganá-los dizendo que sei. a ética como filosofia primeira. podemos ler a morte do outro de uma forma muito contundente. sem a intenção de esgotar. do relato policial é possível. Ou seja. ela também está acima do bem e do mal. inclusive. Lévinas é pensado como o filósofo da ética. Para ele. que o título é um paradoxo. com mortes reais). Arturo Belano e Ulisses Lima. Los detectives salvajes (1976-1996) e Los desiertos de Sonora (1976). representa o entretempo. De outra forma. escondendo que a razão de existir do policial seja muitas vezes um assassinato premeditado e cometido por alguém. no livro. Entretanto. como se esta não fosse o suficiente. dentro do relato.. O detetive é o baluarte do raciocínio iluminista e cientificista.) comprometido por su propia virtud de arte. e tenta recobrar eventos passados e construir o relato de um crime posterior à investigação. O objetivo final da narrativa seria recontar o crime no presente. entrevistas? Testemunhos? Com pessoas que apareceram (ou não) na primeira parte e que acompanham de forma irregular – ou que nem mesmo acompanham – o paradeiro de dois amigos poetas. Que espécie de detetive provoca a morte que move a narrativa? Outro ponto que uma “leitura policial” de Detectives traz é uma análise estrutural pensada a partir de Todorov. Pensando em Lévinas. porque concebe a própria identidade através de um existir para o outro. é uma seleção aparentemente aleatória de relatos em primeira pessoa.. a morte do outro me afeta no meu próprio eu. A parte do meio são fragmentos de. mas relaciono essa ideia com o fato de que. ou seja. p. a segunda parte. a diferença entre o tempo do inquérito e o da narrativa. narra o mundo depois da morte de Cesaria e antes de termos notícias da sua Jornadas Andinas de Literatura Latino-americana | 2010 1662 . não é lido pela chave da tragédia ou do horror. 40).. p. ou de tratar. Se a arte pode em princípio “dizer tudo” . podemos dizer que essa dupla articulação. na medida em que a minha responsabilidade por ele é instransponível. 64). 46). ainda segundo Lévinas porque“El arte no es (. Assim. a busca selvagem pela primeira poeta real visceralista Cesárea Tinajero é o que leva. Se voltarmos brevemente a Lévinas. Transportando essa discussão ao nosso continente. A forma de apreender a morte do outro como gozo estético (pensando que isso pode ser feito. O evento de sua morte me circunscreve numa “culpabilidade de sobrevivente” (LÉVINAS. p.

E a tragédia talvez não seja só a morte de Cesária. 1663 O entretempo de Emmanuel Lévinas e a morte na literatura policial . ______. Que podemos chamar de pistas. porque obriga a uma releitura da segunda parte do livro como tragédia. REFERÊNCIAS BOLAÑO. Assim. o motor da leitura retrospectiva é. em que os poetas estão numa fuga frenética e numa busca aparentemente aleatória de Tinajero – que finalmente leva à sua morte. Esse luto também é impossível de ser lido em sua totalidade. da intriga. Madri: Editorial Trotta. nos leva a rememorar todo o livro. dadas na segunda parte. Los dectetives salvajes. Roberto. Há trechos. pp. mas de um tipo de vida e pensamento de uma geração que. novas histórias – o paradeiro de Ulisses Lima e de Arturo Belano – fios que não se conectam de jeito nenhum. mas que não constroem uma narrativa. num bom livro policial. estamos pensando na estrutura policial-ao-revés de Detectives como parte da sua dimensão selvagem. eis que chega a terceira parte. Emmanuel. inúteis. a obrigação de viver após a morte. como o inquérito. Também faz com que a vivência do entretempo policial. o fim do inquérito. na canção de uma geração). Deus. a retomada do diário que você já havia quase esquecido. Um livro policial clássico termina com a resolução do crime. e também no sonho de Auxilio Lacourte em Amuleto. se me permitem. Acesso em: 10 jun. La realidad y su sombra. agora realmente como pistas. não são interpretados por detetives hermeneutas. por nenhum intelecto superior. pistas do que aconteceu a ela durante esses testemunhos. E talvez essa seja mais uma faceta da dimensão selvagem. São Paulo: Perspectiva. Barcelona: Anagrama. não da solução. como bons leitores. 2003. POE. 2001.html. ou. assim. “Tipologia do romance policial” . o próprio assassinato. que não é só a morte de Cesária. portanto. portanto. 1970. Valdemar – não de inquérito. após a decepção e a falência de certos ideais e valores. como leitor pós-moderno. de uma restauração da “culpa de sobrevivente” perante a morte. viu suas utopias se transformarem em alguma outra coisa. em que você. do enredo. Somos obrigados a repassar mentalmente pelas pistas. E também. é automaticamente ativada quando ocorre a exposição de todos os elementos envolvidos na trama – o que.edu/~hyper/POE/ fact.morte. Uma leitura com o horizonte da tragédia. ao contrário. Edgar Allan. o prolongamento da morte. Com essa inversão do tempo diferente da do policial – passando a morte para o final – Detectives perde o horizonte do crime e se transforma. a experiência da leitura como luto. “The facts in the case of Mr. só deve acontecer no final. uma vez que a experiência de leitura de Detectives não nos permite juntar os fios e sintetizar essa vivência. Em Detectives. Depois de 400 páginas. TODOROV.virginia. uma experiência longa de leitura. que nos obrigam a remontar esse passado futuro. mas o luto. Coimbra: Almedina. e de uma profunda decepção. 93-104. nenhum segundo relato. volte a sua chave inicial de tragédia – o grito mórbido do Sr. solapada pelo policial clássico. Traz a organização de todas as pistas e os rastros confusos a que o leitor foi exposto durante a narrativa e os reúne em uma solução hermenêutica. In: As estruturas narrativas. nenhum inquérito. mas que também nos fazem viver a sua morte como detetives ignorantes. A morte colocada no lugar onde tradicionalmente haveria a solução do crime e a reviravolta surpreendente do policial clássico traz. em uma leitura retrospectiva das atitudes das personagens. como um mundo após a morte de Cesária e a destruição do sonho dos jovens poetas. 2007 . Disponível em: http://xroads. Na segunda parte do romance. aos personagens que nos foram apresentados. fios que nos liguem ao que lemos no diário. (Penso agora no episódio do duelo de Arturo Belano com o crítico literário. procuramos. outro tipo de surpresa: a própria morte. rastros. por parte do leitor. segundo Bolaño. a morte e o tempo. mas recebemos fios demais. confusos e incapazes. A solução do crime. Valdemar” . Naquelas páginas da segunda parte se contava uma experiência depois de uma morte. já se acostumou a não procurar o sentido. Essa retrospectiva. rastros soltos. LÉVINAS. 2010. inúteis. Tzvetan. O leitor é obrigado a voltar mentalmente a 600 páginas. com muitos esquecimentos e irregularidades.