Cultura e Vida Urbana

Imaginando a democraodade: 1)0 passado da sociologia para o futuro das cidades

( lrlos Fortuna

1. Introdução É impressionante o volume de literatura académica produzida a partir da década de 1970 sobre a cidade e as questões urbanas. Essa reflexão está intimamente associada às mudanças económicas e sociais do pós-guerra e atravessa uma pluralidade de discursos, desde as ciências sociais e humanas,

à questões ambientais, passando pelo planejamento urbano e a arquitectura
até às abordagens artísticas e culturais. Este fluxo de ideias, fórmulas e discursos assinala, antes de tudo, a superação das diversas interpretações que atribuíam à questão urbana e à cidade muito em particular, um estatuto precário no que respeita à sua organização sócio-espacial e ao papel político e económico. Por detrás dessa percepção de uma cidade imponente mas frágil, precária embora poderosa, encontramos o nem sempre explicitado desejo de (re) construção de uma comunidade de valores e de práticas que se constituam como alternativa ao urbano despersonalizante e individualista dos nossos dias. Esta é a questão essencial deste texto. Será que existe e como se enuncia uma cidade futura em que se possa cultivar uma renovada relação entre cidade e comunidade? Poderá a sociologia ajudar-nos a equacionar os termos desse cenário futuro? Podemos admitir que, até ao último quartel do século passado, a questão urbana e a cidade não deixaram nunca de ser interrogadas na sua condição
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2. 1961. b. ter em conta uma primeira fase da propostas de prevenção urbana ~u de crítica ex-ante. O desenho de Brasilia foi influenciado pelos modelos de Le Corbusier. Isso permite-me enunciar alguns passos da capacidade de avaliação futurante da SO~~logiade hoje e o seu eventual contributo para a nossa percepção sobre que espinto de comunidade poderá estar contido na (noção de) cidade futura. Estas propostas ex-ante deram origem a intensos debates. Para tratar da questão da relação cidade-comunidade. São. com o intuito de instituir um novo estilo de vida e dar solução aos problemas que a industrialização e a urbanização anunciavam (Howard. 1946 [1902]). resistiria. Howard promovia a sua "Cidade Jardim" como modelo altern~tivo. algumas referências de passagem a cada deles de forma a situar temporal e epistemologicamente a minha discussão sobre a relação cidade-comunidade. a excepção à regra da reflexão urbana hegemonizada pela Escola de Chicago e os seus estudos etno-sociológicos (Fishman. o nosso segundo período de análise. tanto na Europa como na América do Norte. Com efeito. utópico das décadas anteriores. com maior ou menor grau de utopia.Imaginando a Democracidade (arlos Fortuna . 1970a e 1970b. Quero significar com isso o período em que a metrópole mdustnal começa tomar expressão. arrastando. Esta era afinal a sequência do pensamento anticidade que se instituira. com novas roupagens como a da sustentabilidade ambiental. embora quase sem expressão. a um I·empo realista e utópico. ideologias e políticas urbanas surgiram como forma de prevenir o que parecia ser o iminente colapso civilizacional que a moderna cidade industrial enunciava. O período de entre-guerras. a partir dos primórdios da industrialização europeia e norte-americana.' Nos Estados-U~~os da América. Na sua essência. Três momentos do pensamento sobre a cidade . forma e função.expoente Le Corbusier idealiza uma cidade de grande dimensão (3 milhões de residentes) com amplos espaços circundantes e um rigoroso planeamento funcional. podemos. onde as principais cidades md~strIalS cresciam e se espraiavam a ritmos sem precedente. numerosos projectos.Imaginando a Democracidade ontológica. por exemplo . 1962). às décadas de entre-guerras. 1977). Lees. Como veremos mais adiante. e apoiado em convicções morais e religiosas ou em representações políticas que denunciavam a quebra dos antigos vinculos e mteracções sociais fortes de uma imaginada "boa" comunidade pré-urbana (Sennett.(arlos Fortuna . esse pensamento anti-cidade começou por ser formulado em textos literários. no domínio das universidades e de grupos e associações 14 particulares. assi~riu à redução deste ímpeto anti-urbano e anti-cidade. 1985. portanto. no entanto. Hebenezer Howard é talvez o nome mais conhecido entre os entusiásticos visionários de finais do século XIX que buscavam uma solução global para a cidade industrial inglesa. No momento em que G:.em concreto a su~ "Cidade Radiante" a reflexão europeia sobre a cidade perdeu o anterior fulgor e o ingredient. assim como a Cidade de Chandigarth (punjab. Farei. Não vou concentrar-me aqui nesta dimensão do pensamento anti-cidade e as utopias urbanas recentes.S~el analisava os efeitos sócio-psicológicos da grande metrópole sobre os indivídus. nos tempos modernos.a. propostas e medidas políticas formuladas com anterioridade e como medida preventiva face aos primeiros sinais da intensa urbanização das primeiras décadas do século XX. Com a excepçao dos [ rojectos arquitectónicos de Le Corbusier . nos trabalhos de Robert Park . India) foi modelada pelo próprio arqwtecto.Nova Iorque. o arquitecto Frank Lloyd Wright sem esconder a sua rejeição pela~ grandes cidades . à semelhança do que Le Corbusier representa no cenário europeu. White. de criação de comunidades urbanas restritas. 15 . durante as três fases que passo a descrever. nesse seu crescimento inicial uma ideologia anti-cidade formulada como antecipação face ao que se pensav~ poder ser o efeito devastador da metrópole sobre a sociedade tradicional. neste período o pensamento acadêmico urbano deslocou-se da Euro~a para os Estados Unidos da América. baseada na articulação desta com o espaço rural e a propriedade colectiva erida por pequenas comunidades residenciais. Strauss. Não quer isto dizer que não se pressinta alguma rejeição à ideia do continuo crescimento da cidade. para ressurgir nestes inícios do século XXI. em primeiro lugar. Nos finais do século XIX.dedica grande atenção ao fenomeno da suburbanização e a sua utópica "Broadacre City" constitui.

entre eles) representam uma proposta de análise da cidade centrada no esgotamento e na hegemonia da condição urbana. 2001).Carlos Fortuna . Também a eventual preservação do espírito de comunidade retrocede perante a lógica dominante da racionalização urbana e do ordenamento da cidade modernista c. a da construção da democracidade. Estas reflexões são por isso feitas expost ao desenvolvimento urbano da cidade que começava a dar sinais de se tornar o modelo de vida dominante no globo. Se há utopia credível hoje. remetendo embora para universos de relações de vizinhança e. Em regra. mais próxima de gemeinschcift de Tonnies do que da gesellschcift de Simmel de quem fora estudante. abrindo caminho para uma forte teorização da cidade e do urbano. 1967). mas apenas e só sobre a idade e a democracia. difundiu-se no imaginário colectivo a representação de cidade e de metrópole da era industrial como arquétipos da anti-comunidade. Já não é 16 Podemos. assiste-se a uma viragem no equacionamento da relação cidade-comunidade. Trata-se de uma variante restrita do que podemos designar por espaçosocial deproximidade relacional que. de finais do século XIX. Dir-se-á então que H. para temas que em nada reflectem o que se passara cem anos antes. que. 3. num desfecho urbano sem outro retorno que não o aprofundamento da análise reflexiva sobre a cidade. 1977). principalmente. Por outras palavras. não s rá sobre qualquer equação de cidade-comunidade. Nesta fase. A utopia credível que temos à nossa frente é. Sem menosprezo por outros grupos e iniciativas (Archigram. com efeito. Team 10. na entrada para o século XXI.é clara a sua opção inicial pela sentido da colectividade e da partilha que está em causa. pretende sobretudo identificar contextos sócio-espaciais públicos em que se exprime a diversidade cultural e se pratica a negociação imer-grupos (Fortuna e Silva. Na terceira fase. A herança de H.anomia ou agorafobia. identificar três sentidos principais de comunidade: a comunidade como relação de proximidade física. 17 .?Também a cidade e a qualidade da vida urbana têm sofrido enormes alterações nas suas conceptualizações. A presença da utopia nestes finais dos anos sessenta e inícios dos setenta na Europa é pautada pela rebeldia política. companheirismo e interconhecimento pessoal ou profissional. como não é também a questão da individuação excessiva dos sujeitos ou das "doenças" urbanas . ou o grupo dos Metabolistas. Lefebvre desdobra-se. por isso. É antes o processo de politização da cidade. que imporia limites ao pendor descritivista dominante entre académicos urbanos americanos. ldela de comunidade e de família. é Guy Debord quem mais marca a cadência da crítica e desafia os parâmetros dominantes do pensamento urbano convencional (Debord. no domínio das questões sociológicas urbanas. o que está em causa é aquilo que estamos a fazer da cidade e do seu futuro. Durante os anos sessenta e setenta ocorreu o reforço da reflexão europeia sobre a cidade. Esses são eixos datados da história da reflexão sobre o urbano. em detrimento da cidade e do mercado (\'V'hite. artística e cultural da Internacional Situacionista. o que parece duvidoso. a comunidade como sistema de interrelação ou comunicação e a comunidade como comunhão de interesses e objectivos.Imaginando a Democracidade Carlos Fortuna . sobretudo a partir do trabalho de Henri Lefebvre (1970). a noção de "comunidade" tem sido largamente sobreporúvel ao que Lyn Lofland designa por "esfera paroquial" (parocbia! realm) que pretende enunciar o modelo relacional prevalecente em zonas residenciais típicas dos subúrbios das cidades norte-americanas (Lofland. Lefebvre e outros seus colegas ou discípulos (Manuel Castel1s. de amizade. 1998). Mas o primeiro problema que esta noção enfrenta é que a própria noção de comunidade não \ universal. da cultura urbana e do espaço público e ("direito à cidade") aquilo que mais deve assinalar-se neste período. De Chicago a Los Angeles: Alguns enviesamentos da sociologia urbana Como referi anteriormente. Não existe nesta terceira fase qualquer vestígio de discurso sobre a relação entre cidade e comunidade. por isso direi da crítica ex-post. o que torna deveras complexo a niestão de saber qual poderá ser o futuro desta relação cidade-comunidade. a alternativa discursiva que a cidade enfrenta nesta fase da primeira metade do século XX não traduz mais o sentido de precaução das propostas ex-ante. A sustenrabilidade (ambiental) urbana é um tema recorrente da análise contemp rânea deste início do rnilénio. ao longo do último século foi-se constituindo .Imaginando a Democracidade m~o da sociologia da Escola de Chicago . por exemplo). hoje já alcançado em termos da maioria da população mundial a residir em cidades. Mas o que mais merece a reflexão sociológia de hoje é a sustentabilidade sócio-cultural da cidade e não apenas a sua dimensão ambiental.

é possível concretizar na vida moderna" (lS. Sem me deter nas razões deste colapso do pensamento crítico e da utopia na 111 111 ciologia (Fortuna. passando pelo período de entre-guerras. portanto. denunciaram o que "está mal" de forma mais ou menos virulenta. O colapso da utopia impede-nos. muitos desses es(LI I s estão a suscitar a reflexão epistémica e a "testar" os princípios funda- dores da sociologia urbana tradicional. A ideia que melhor condensa esta falência do projecto de cidade é a da retracção do espaço público e. 1996. o desaparecimento do pensamento utópico empobreceu a reflexão. De seguida. independente- I ualmente mente do seu contexto geográfico. assim. Weber (1982 [1921]). Um dos sinais de que se estão a alterar as abordagens e os modos de ver idade à escala internacional. Sem evidentemente descartar a responsabilidade de quem "planeia" e "desenha" a cidade e os seus espaços. banalizou o discurso e despolitizou a análise da cidade e do seu futuro. ou L. especificamente entre consagrados "clássi s" como M. Parece ser tempo de (' rltivar o que os situacionistas chamaram de imaginação da ausência. difundiu-se um pouco por todo o lado a ideia de que a cidade que conhecemos se está esgotar enquanto projecto de libertação individual e de livre organização da vida colectiva. ou R. 2007). europeia e americana. mas no entanto. estes autores. 1995). Alguns falaram para os responsáveis políticos e sugeriram medidas. ou está esconlido. 19 L . Esta crítica pública parece ter sido cooptada ou estar a esvanecer-se entre os sociólogos dedicados à cidade no decurso das últimas três ou quatro décadas. Este é um ponto decisivo da nossa discussão sobre o futuro da cidade e da sua relação com uma difusa ideia de comunidade. Trata-se do resultado directo trazido pelo volume crescente de trabalhos e investigações sobre situações e g' grafias urbanas subalternizadas de países pobres ou em "vias de desenvolvimento" que se mostra inusitado aos olhos de quem tenha sido treinado Imsicamente na sociologia urbana ocidental. Seabrook. de I1 I1 ocorrer no corpus sociológico da sub-disciplina. é o reconhecimento dos progressos que estão (urdas sobre o conhecimento do mundo urbano de hoje estão a alterar-se. é o facto de as suas reflexões serem \11 (1997 [1938]). G. o estrangulamento do espaço público está intimamente associado ao processo de desurbanização decorrente das mudanças do regime de acumulação e da flexibilização da produção. a <':tI acidade de conceber "o que está em falta. Simone e Abouhani.rcorre um longo período de constituição. Como David Harvey sustentou recentemente. outros falaram para os derrotados da metrópole industrial e sugeriram acção revolucionária.Imaginando a Democracidade Carlos Fortuna . Apesar da escala diferenciada que estes factores assumiram. quando comparamos a cidade de hoje com a cidade/metrópole dos primórdios das sociologias. 2005).Carlos Fortuna . Wirth O que têm de comum. de concretizar alterna ti18 vas que não sejam as propaladas pelas fantasias tecnológicas e da cultura do xmsumo e da lógica da acumulação (Harvey. confronto e negociação pública de diversidades culturais e diferenças sociais. revelando insuficiências e enviesamentos importantes (Evans. Alguns destes enviesamentos encontram-se nos pressupostos dos trabalhes pioneiros da sociologia urbana. 1981: 81). De princípio. de posse do diagnóstico. sociólogos e outros cientistas sociais "chegaram" à cidade pela mão do estudo da calamidade social e moral que nela se expandia. Esta incompletude do projecto libertador que a cidade prometera e a sua incoerência de hoje são o diagnóstico mais crítico da nossa existência. mas sempre comprometida com a realidade da vida urbana. Stren l' eeu. Levados a rabo em instituições universitárias de mérito reconhecido. r sentadas como grandes sínteses e narrativas de alcance universal. desde os finais do século XIX e IIS I rimeiras décadas do século XX. 2005. Este "património" I . evenadaptáveis ao às mais diversas realidades urbanas. [uando o centro de reflexão urbana "emigrou" da Europa (Berlim. Park (1992 [1925]). 2002. político ou cultural. o que parece distinto é o modo como a sociologia e os seus praticantes se posicionam perante a incongruência da civilização urbana e os malefícios do crescimento da cidade. direi que há sinais de que as convenções instido dispomos de alguns sinais de que será "possível concretizar na vida derna" uma visão mais rigorosa da cidade de hoje e do futuro. da possibilidade da constituição da cidade como lugar de expressão. Tornaram-se mais analistas que críticos e em alguns casos sobra em soluções técnicas o que falta em propostas sociais de ambição. o que é proibido.Imaginando a Democracidade Com as mais diversas nuances. ou seja. Simmel (1997 [1903]). Londres.

Com efeito.dispersão geográfica. diz respeito ao facto de a matriz epistemológica original ter permanecido centrada na realidade urbana euro-americana. Apesar de Chicago dos princípios do séc. 1996: 1) Michael Dear (2001. A denúncia da pretensão da sociologia urbana ocidental de oferecer uma interpretação universalmente credível e holistica refere-se em grande parte aos trabalhos de Louis Wirth que expressamente declara ter esse objectivo em mente quando estipula os critérios do que deve ser entendido como cidade. negligenciando a experiência urbana fora destes contextos geo-politicos. adoptada aliás por outros colegas seus.como também Esta arrogante afirmação dos particularismos que se pretendem univer- se impõe como "protótipo" das principais cidades do globo (Dear.. 1995. (. na concorI' ncia intercidades pela especificidade dos modelos urbanos de ordenamensão vários os estudiosos que apresentam Los Angeles como a situação !O.Imaginando a Democracidade Carlos Fortuna . recorrentemente assinalado. lue inspirou a notável socio-etnografia urbana de Engels). nos nossos dias não apenas concentra em ~i!' dos os traços das grandes metrópoles . . cujas particularidades socioculturais inspiraram a sociologia urbana de Simmel. 2007. muito provavelmente. Jacobs. (. centrados num território particular (.) Uma visão estreita das relações espaciais e das situações mais directamente relacionadas com ela hão-de conduzir. na fase da reconstrução pós-bélica. de novo na Europa. etc.Imaginando a Democracidade Paris. !<ing. sob o impulso dos estudos pós-coloniais. 2002: 5). condomínios r . pl' totípica do crescimento urbano da era pós-fordista: A emergência de Los Angeles. utros aglomerados urbanos.) Aqui e ali. que consistia em usar de Chicago como arquétipo da condição urbana universal: Os estudos [da Escola] de Chicago são manifestamente k'gitimidade da transposição do modelo analitico para outros contextos urbanos. 2002) é o mais aguerrido arauto do particularismo 111"1 anista pósmoderno de Los Angeles.chados.. Yeoh. I na história e na geografia da evolução das cidades (Soja e Scott.. 1997. a questão reside na sais e tornados modelo a seguir por outros é um dos principais problemas lue merece a nossa atenção numa discussão acerca da sociologia e a cidade <. ou a industrialista Manchester. De forma categórica. a cidade de Los i\ngeles. a um empobrecimento da percepção do que é a vida urbana (Hannerz. Do lado american . para ser retomado mais tarde. cidades satélite (edge cities). parques imáricos. são os próprios Chicagoans que tornam ambíguo este sentido de lugar. Do lado europeu. A partir da década de 1980. Viena) para os EUA (principalmente Chicago).. 2001). tivemos Chicago primeiro eLos Angeles agora.. Para muitos teóricos e comentadores. Trad. como uma das regiões metropolitanas mais I' ilevantes do mundo contemporâneo confere à cidade um lugar muito espe- 'i. livre). multiplicaram-se as críticas dirigidas à "teoria urbana" e à sua "não aplicabilidade" a cidades do "terceiro mundo" (Amin and Graham. imigrantes e trabalhadores de baixos salários. Seabrook. Na sua perspectiva. mesmo que em condições semelhantes de acelerado crescimento urbano-industrial.. 1980: 57. esta deslocação da sociologia urbana da Europa para os EUA teve efeitos internos apreciáveis.Carlos Fortuna . marginal aos grandes momentos da história urbana estado-unidense cl • finais do XIX e principios do :XX. :xx ser uma metrópole de crescimento muitíssimo intenso e se ter constituído em destino de milhares de emigrantes oriundos dos mais diversos pontos do globo. ! "haussamanização invisível". 1990. a questão é controversa mesmo no interior dos EUA e reveste-se de alguma ironia. de entre um conjunto disperso de cidades .) o que levanta problemas específicos. É necessário interpelar a legitimidade teórica da sociologia urbana que ncede esta primazia a determinadas geografias de centralidade e de privilé- gi socio-económico. Um deles. a reclamarem destaque e a caucionarem a opção pela análise casuística de situações singulares e ao 21 20 . tivemos as situações particulares de idades que melhor tipificaram o fulgor industrial-capitalista e urbano do velho continente (a metropolitana Berlim. ao implicarem que a ordem espacial de Chicago era a ordem espacial de qualquer outra cidade.I futuro. Ulf Hannerz (1980) contesta a legitimidade dessa intenção que acusa de assentar na "visão provinciana". Vista a com a distância temporal de hoje.

Basta pensarmos como os cosmopofitanismos discrepantes de que fala James Clifford (1997: 36). Uma tal imposição de determinadas cidades e dos seus traços sobre outras localidades. as suas culturas e as suas espacialidades. em tempos de globalização e de intensa circulação de informação e conhecimento em que se tornou possível omo nunca antes promover a comparatividade e valorizar o contraste de situações. Las Vegas. africanas. ou seja. ou latino-americanas) que mal constam do quadro das referências analíticas e teóricas que se auto-definem como universais. O efeito inverso desta estratégia encontra-se no menosprezo atribuído pela teoria às geografias urbanas subalternas. a primazia dada às teorias do desenvolvimento per 'z regredir a preocupação com as "cidades normais" das periferias do li ( 'ma-mundo. inspirou-se sempre em cidades concretas e singulares e em geografias políticas bem delimitadas. O léxico da I . ]ennifer Robinson. 2006). destituindo-as da pertinência teórica anterior (Robinson. as "cidades normais" asiáticas. Esta circunstância viria a consumar-se pouco depois e. como argu22 11\ 'Ma 1/1. o que nssinala o modo como o recentramento analítico implícito no surgimento destas "cidades globais" conduziu. reorientado em torno das "world cities" . 02). em vez de os reduzir ou simplesmente eliminar. criam constelações complexas de relações entre cidades concretas cuja compreensão requer uma visão articulada de continuidades e de mpturas. 2002. Todavia. a um estreitamento da perspectiva sociológica. ()()6). Na verdade. 1978). em consequência. 1991. das "cidades globais". Nova lorque ou Miami (Beauregard. limitam-se fundamentalmente a fazer ressoar nos meios académicos internacionais singularidades e despiques particularísticos de cidades ou "escolas" de pensamento urbano. financeiras. fazer perder de vista a análise da cidade da periferia sul-americana. das culturas e dos modelos de governação que lhes estão associados (Bell e Jayne.Imaginando a Democracidade mesmo tempo que estimulam uma abusiva generalização e padronização universal dos seus traços singulares. A maior parte dos contributos mais inovadores da sociologia urbana americana actual.Carlos Fortuna . colonizadas ou pobres (maxime. ou de interacções culturais que recomendam a reconceptualização das construções teóricometodológicas que nos são mais familiares. muitas investigações sobre a matéria eram conduzidas de acordo com orientações teóricas e políticas que subordinavam a questão urbana e faziam acentuar as problemáticas do desenvolvimento económico tout court (Roberts. Resulta assim limitativa e parcial a visão dominante da sociologia urbana que ignora e separa ilegitimamente experiências urbanas que retroagem e se influenciam mutuamente. Esta invisibilização das "cidades normais" das agendas académicas dominantes corresponde a um renovado recentramento da dimensão sociológica obre as cidades vitoriosas e ricas da modernidade ocidental. que inspirou o trabalho pioneiro de Manuel Castells (2000 [1973]). em tudo semelhante ao que Ulf Hannerz denunciara a propósito da "visão provinciana" dos Chicagoans. 2003). assim como de histórias económicas e políticas compartilhadas. podemos pensar como as pequenas e médias cidades do mundo inteiro estão em regra ausentes das agendas de investigação mais divulgadas. O crescimento vertiginoso de cidades localizadas em regiões económicas deprimidas ou "em desenvolvimento". Trata-se de um retrocesso tanto mais gravoso para a sub-disciplina sociológica quanto ocorre a contra-ciclo. recusando recolher ensinamentos dessa experiência e dos modos de vida. a sociologia urbana. 23 . muito bem definidas. O enviesamento teórico operou aqui no sentido de uma reorientação d( objecto empírico e a preocupação desenvolvimentista acabou por ofuscar . Situação algo semelhante ocorreu nas décadas de 1960 e 1970. carece a maior reserva porquanto se revela a-histórica ao eliminar a existência e fazer tábua rasa de factores específicos que condicionam e estruturam os lugares. definidas por apertados critérios de recursos e capa-i lades competitivas muito selectivas e referidas a áreas tecnológicas e de inovação. mais uma vez. hoje alimentados por violentas conjunturas diaspóricas. De modo semelhante. empresariais e de serviços especializados (Sassen. Os casos paradigmáticos são Nova lorque. com a primazia das cidades latino-americanas. quando uma parte significativa da sociologia urbana ocidental se concentrou na análise do fenómeno do crescimento urbano registado em regiões do "terceiro mundo". Londres e Tóquio. transformou-se num dos topos por excelência da "questão urbana" universal. mesmo na actualidade.oria urbana seria. como Los Angeles.Imaginando a Democracidade Carlos Fortuna .

2002). A estatégia da dicotomização é problemática' porque. Os fundamentos desta "teoria da convergência" podem encontrar-se nos estudos de natureza histórica de largo espectro que sugerem que a história moderna comparada das cidades europeias e africanas está repleta de períodos de convergência (associada ao controlo económico e ~II das independências com efeitos sobre a degradação das infraestruturas Nos domínios das questões urbanas. b. sendo ambos invenções construídas na diferença e por oposição mútua. Stren.Imaginando a Democracidade 4. de estabelecer uma acção de planeamento urbano estável e coerente (Cannavó. ao mesmo tempo. tem-se argumentado sobejamente acerca dos malefícios da manutenção de esquemas analíticos dicotómicos como é o caso das oposições entre cidades do "norte" e cidades do "sul". tem sido salientada também a demografia hostil a que estão sujeitas muitas áreas urbanas periféricas do globo e os seus efeitos colaterais pobreza. enquanto traço revelador de uma surpreendente tendência convergente com a metropolitanização das cidades de todas as latitudes. in Cohen. 1994. 1991). uma renovada "aproximação" de modelos urbanos. e.4 São várias as tentativas de proceder a simbioses teóricas no campo das questões urbanas de cidades do "norte" e do "sul". centro/periferia ou norte/sul) nenhum dos termos pre-existe ao seu oposto. 2002). podemos enunciar algumas das áre- urbanas) (por exemplo. tanto no dominio sociológico e politico como. 25 24 . principalmente. 2000. sem que qualquer deles . em numerosas e recorrentes dicotomias (por exemplo. no acto de desqualificação do diferente e do "inferior". 1996. 1998). nomeadamente entre cidades da Ásia (Tóquio e novas cidades chinesas na liderança) e cidades do Ocidente.(por exemplo. 2000.shopping malls. por fim. Hall e Pfeiffer. Thorns. 2003. a vantagem do recurso a dicotornias reside apenas em desafiar os estudiosos a ensaiarem formas de articulação de categorias e simbioses teóricas que estejam para além da oposição das categorizações e possam. E em todas as cidades do norte existe uma cidade do sul e o contrário é também verdade". desenvolvido/ subdesenvolvido. a formas de investimento imobiliário e a projectos urbanístico-comerciais importados do exterior . mas como o recurso à chamada teoria da convergência requer uma cautela particular a respeito do risco da sua interpretação a-histórica das realidades "opostas" que procura associar na sua estratégia de aproximação (convergência). Said. Topalov. apesar do peso da economia informal.5 IIS que têm sido trazidas para o campo da "teoria da convergência" a. alternados com períodos de mais I· . temos construído na sociologia e noutras ciências sociais princípios de classificação. Phillips e Yeo. em virtude das contínuas e profundas oscilações do mercado imobiliário e da especulação. 2006) c. Çelik. O uso destas metáforas binárias implica uma ordenação da realidade que. reforçar a inteligibilidade do mundo (AlSayyad. opera a redução da complexidade da realidade social que surge convertida numa espécie de ordem natural das coisas (Chakrabarty. sem-abrigo. 2002). no Sul do Norte. 1998. condominios privados (Bishop.nruada separação (em resultado da ruína do projecto colonial e da afirma- Em meu entender. 1996: 26). d. Escobar. a desestruturação espacial de muitas "cidades normais" e as dificuldades. ordenamentos politicos e geografias imaginárias que são simples representações etnocêntricas do mundo. no que respeita a processos económicos e urbanísticos. Dick e Rimmer. Presidente da Câmara de Barcelona. dizia com frequência Pasqual Maragall. também repartidas no Ocidente. Como tem sido sublinhado.detenha qualquer legitima superioridade interpretativa perante o outro (Hall.Carlos Fortuna . assim. Orum e Chen.Imaginando a Democracidade Carlos Fortuna . em jeito de apresentação própria (cit. 2004). A partir desta premissa.o termo dominante ou o subordinado . droga e criminalização . oriental/ ocidental. como sustenta Stuart Hall. consumo que se generalizam e padronizam (jackson. da pobreza e da precária infraestruturação e tem-se assinalado a sujeição de muitas "cidades normais" do mundo "em desenvolvimento". 2003). Sivaramakrishnan. 2000). 1996. associada à intensificação das relações económicas e à generalização das telecomunicações (Dick e Rimmer. 1995. "Convergência" inter-cidades? político exercido pelas potências coloniais). refiro as "convergências" registadas nos estilos de vida e de "Eu venho de uma cidade que fica no Norte do Sul e.

continuaremos privados de uma resposta segura da sociolo26 f'. que a questão da vida urbana de hoje e do futuro está para além da simples solução de revitalização do espaço públi'o. Precisamos. diversa e múltipla de comunidade. evidentemente. E o sentido políti( ().Imaginando a Democracidade (arlos Fortuna . não podemos declarar 4ue a democracia e o sentido (comunitário) de partilha se encontram garantidos pela revitalização cultural. assinalado por muitos (por exemplo Zukin. reclama uma séria revisão de princípios filosóficos. sem excluir as cidades do futuro que estamos destinados a viver. A renovação dos nossos quadros analíticos é assim de extrema urgência. da criminalidade crime. um apelo à retoma do sentido utópico da vida urbana que. Evans. pressupostos teóricos e instrumentos metodológicos. ao mesmo tempo que se proclama de visão global do mundo urbano.ndogeneizadas . O nosso dever é fazê-Ias convergir e torná-Ias aptas para um projecto e uma narrativa global. 2005). assim.ln sobre o que nos poderá reservar o mundo urbano do futuro enquanto I'I/)(IFO social de proximidade relacional em que se inscrevam a n~gociação púb~ca 1\ -mocrática entre grupos social e culturalmente diversos. Em resultado. Que "outras" cidades? Certamente as cidades do passado da nossa modernidade urbana. e atratividade cívica do espaço público das cidades. Patel e Thorner. É essencial que o possamos recuperar e 27 . ociocultural e moral desta negociação feita no espaço público. Sem dúvida que esse é um requisito. Na ausência de uma teoria renovada e interdisciplinar que equacione o mundo urbano na sua globalidade só nos restam retalhos e apreciações particulares. A tentativa de incorporação na teoria sociológica urbana convencional de experiências de "cidades normais" da África. 2002). na sociologia e nas outras ciências sociais. em vez de trabalhar com ela.Imaginando a Democracidade a disseminação da percepção da insegurança pessoal. a terminar. colapsou na cultura contemporânea. Seabrook. Não creio. A ideia de comunidade e a 'spacialização dos seus atributos não resulta apenas das relações de proximilade ou da co-presença no espaços públicos da cidade. Estou convencido que este esforço de revisão epistémica se está já a desenrolar. que se possa recorrer a essa teoria para sabermos se no futuro a cidade vai ou não aproximar-se de uma comunidade de interesses e destinos colectivos partilhados. 1995. no embelezamento estético. a teoria sociológica convencional está a excluir a geografia da diferença urbana. 1996). Resgatar toda as cidades: imaginar a democracidade À força de produzir uma retórica feita de exclusivismos. mas não é a solução integral. sendo urgente. Doreen Massey assinala que a espacialização desta relação de proximidade (ou comunidade) tem de ter em conta um conjunto de especificidades s cioculturais sedimentadas não só na história e na cultura locais . Por isso. Simone e Abouhani. o que significa ser capaz c\e fomentar e manter uma relação social significativa entre as expressões culturais diversas e mesmo socialmente dispares que constituem a cidade. De outro modo. que há-de marcar o sentido do futuro da cidade como comunida- ti " mesmo que imaginada. também. assim. como comprovam os estudos mais recentes sobre as cidades das periferias do sistema. Dick e Rimmer. Este é. 1996. de mobilizar recursos analíticos que sejam capazes de engendrar uma noção mais fluida. mas também na articulação destas com as interacções e os fluxos a que estão expostas (Massey. incorporando as experiências das "outras" cidades. ou os sistemas locais de bem-estar social ou as estratégias de capacitação política e cultural dos cidadãos e o exercício de direitos dos residentes urbanos (perry e Harding. Lowder. a um tempo diversa e coerente sobre o futuro da nossa existência urbana. 1986. em relação com a deterioração dos espaços públicos urbanos (por exemplo. ganharão proeminência novos temas e investigações comparadas sobre os sistemas políticos e de governação das cidades. empobrecendo-a. cidades das outras latitudes que não as do universo euro-americano.(arlos Fortuna . 2002. das linhas de continuidade e de ruptura inter-cidades a uma escala global. como assinalei antes. 1998. mas também as pequenas cidades e as localidades que constituem cada uma delas e. O saldo de tal "convergência" teórica há-de traduzir-se na ampliação dos termos de comparabilidade analítica e. 5. É preciso que a interacção que esse espaço público proporciona tenha real sentido democrático. da Ásia e da América Latina. 1993). ou no que ( -sra dele. portanto. Quero com isto dizer.

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