O verdadeiro alvo Afinal de contas, quem exatamente o governo de Israel quer atacar?

Não há hoje assunto, ao mesmo tempo, mais urgente e mais bloqueado do que o conflito palestino. Mais urgente porque ele há muito deixou de ser um problema regional. Seus desdobramentos influenciam de maneira decisiva a relação entre os árabes e o que convencionamos chamar de ocidente. Esta é uma peça maior não apenas da pauta da política externa mundial. Levando em conta que os árabes e turcos compõem atualmente o conjunto mais expressivo de trabalhadores pobres em países europeus, além de parcela significativa da classe média de países sul-americanos, não é difícil compreender como a "questão árabe" tornou-se ou pode tornar-se, em muitos países, um assunto de política interna. No entanto, a urgência do assunto só não é maior que seu bloqueio. De fato, encontramos todos os dias textos e mais textos sobre o problema. Mas a grande maioria está bloqueada pela profusão infindável de preconceitos toscos, assim como amálgamas intelectualmente desonestos e apressados produzidos por ambos os lados. Isto quando não se entra no mais raso psicologismo. Assim, o palestinos são muitas vezes apresentados como crianças que não sabem escolher (já que votaram no Hamas nas eleições legislativas de 2006 "contra seus próprios interesses"). Os israelenses por sua vez seriam arrogantes e egoístas. Não se vai muito longe com análises deste calibre. Muito menos com análises que não cansam de repetir o mantra do "terrorismo islâmico" ou do "Estado assassino". Na verdade, não precisamos de julgamentos sumários nem pregações morais, mas de análises que demonstrem onde falham certos discursos oficiais hegemônicos que tentam definir a interpretação do conflito, onde a argumentação precisa parar a fim de que procedimentos de estigmatização possam começar. Talvez isto nos ajude a compreender como, em pouco mais de dez anos, conseguimos passar de uma situação de paz à vista a uma sucessão de ações militares cada vez mais chocantes. O argumento do direito de auto-defesa é consistente? Nos últimos dias, o governo de Israel tem patrocinado uma larga operação militar para, segundo Shimon Perez, "dar uma lição no Hamas". Até agora, o resultado são mais de 700 mortos, sendo 257 crianças. Contra críticas internacionais, o governo de Israel afirma ter o direito de agir em defesa de sua integridade territorial e da segurança de seus cidadãos. Tal segurança teria sido colocada em cheque devido a ataques com foguetes arcaicos operados pelo Hamas após uma longa trégua. Que tais ataques não tenham produzido vítimas, isto não significa que o governo de Israel não deveria lutar para evitar vítimas futuras. E, neste caso, lutar consistiria em "quebrar definitivamente a capacidade de ataque do Hamas", como disse o próprio governo. O raciocínio todo é correto desde que aceitemos que o direito de defesa se aplica à relação entre Israel e Palestina. No entanto, este direito não pode ser aplicado quando se trata de ações referentes à gestão de um território ocupado ilegalmente. Ou seja, não posso alegar direito de defesa quando reajo a ataques vindos de um território que invadi ilegalmente. Infelizmente, esta é claramente a situação em que Israel se encontra em relação à Palestina (composta, de maneira indissociável, da faixa de Gaza e da Cisjordânia). O direito internacional, representado pela ONU (diga-se de passagem, a mesma instituição que criou o Estado de Israel, o que lhe dá toda a legitimidade para enunciar uma lei sobre a situação), reconhece à Palestina o estatuto jurídico de "território ocupado", ocupação considerada totalmente ilegal pelas resoluções 242 e 338 há mais de quarenta anos. A decisão é tão claramente aceita por instâncias internacionais que, por exemplo, o Supremo Tribunal Federal brasileiro deverá indeferir o pedido israelense de deportação de um fanático que

os judeus procuraram refúgio no Império Otomano. Por isto. como muitas vezes se procura vender. XV que os judeus foram expulsos de lá.cometeu crimes na Cisjordânia e que veio a esconder-se em nosso território. em plena época de dominação muçulmana na península ibérica. Ainda mais com o crescimento do caráter beligerante do dito fundamentalismo islâmico. Algo nos moldes do que ocorreu com o Egito e a Península do Sinai. puderam aceder a cargos importantes na administração pública e no parlamento (séc XIX): fatos simplesmente impensáveis na grande maioria dos países europeus. Primeiro. não haveria maneira mais eficaz de defesa do que fazer aquilo que disse o Prêmio Nobel da Paz e ex-presidente norte-americano. Da mesma forma. não haveria atualmente as deploráveis bravatas anti-semitas de Ahmadinejad e o perigo real do Irã transformar-se em potência nuclear descontrolada se a política mundial não tivesse enveredado pelo caminho brutal da administração Bush. em 1948. a maneira mais eficaz de defender-se?". As guerras de 1967 e de 1973 são prova maior de que toda vigilância é necessária. tais advogados deveriam também tentar nos explicar porque. em grande parte. Lembremos que o Irã estava em um claro movimento de abertura de seu regime e normalização de relações internacionais. no qual Israel devolveria o território ocupado em troca da normalização das relações. vale a pena fazer duas colocações. onde. mas de um clássico conflito territorial derivado do mais catastrófico processo de descolonização do século XX. a luta dos povos árabes contra o Estado de Israel não é uma invenção paranóica. operada sobretudo pela Grã-Bretanha. Diga-se de passagem. haver algo como a “idade de ouro do pensamento judeu” (a respeito da qual Maimônides é o representante mais conhecido). Este movimento foi quebrado em 2005 como uma das consequências do recrudescimento das tensões produzidas pela invasão no vizinho Afeganistão. Mas é claro que virá a pergunta: não teriam os israelenses a obrigação de assegurar seus cidadãos contra ações de um grupo vergonhosamente anti-semita que assassina civis e prega claramente a destruição do Estado de Israel ao invés de pregar apenas a defesa dos palestinos contra a ocupação? Afinal. que além de ser mais uma afronta ao direito internacional. o estado contínuo de guerra contra Israel desde sua fundação. esta situação há muito perdeu força. Jimmy Carter: "negociar diretamente com o Hamas" e suspender o bloqueio a Gaza. foi apenas com a cristianização da península no final de séc. onde os critérios tradicionais de direito e justiça devem ser suspensos? Aqui. . uma situação ilegal anula a possibilidade de fazer apelo a um direito internacionalmente reconhecido. se a questão gira em torno da implementação de políticas sólidas de segurança nacional. alguém cuja grandeza de espírito só é comparável à sua inteligência musical impar: "Esta é. durante a história do império. que prometia reiteradamente a ambos o direito sobre as mesmas terras1. só podemos repetir uma pergunta de Daniel Baremboin. Povos que ainda nos anos 20 viam-se como irmãos semitas foram jogados em um conflito fratricida devido a uma descolonização. alimenta o desespero e humilhação dos palestinos: solo fértil para o crescimento do apoio ao grupo islâmico. nunca foi o resultado de algum pretenso ódio milenar irracional entre árabes e judeus provocado por fanatismos religiosos. ao serem expulsos da península ibérica. primeiro com Rafsanjani e depois com o reformista Kathami. Um histórico processo de negociação iria começar agora. Não estaríamos aí diante de uma situação de exceção. Todos estudos históricos sérios são unânimes em afirmar que as condições de vida dos judeus no Império Otomano eram. já que a jurisdição de Israel sobre os territórios ocupados não é reconhecida. O desejo 1 Os advogados da “tese do ódio milenar” deveriam primeiramente explicar como foi possível. Por outro lado. Ou seja. principalmente depois da antiga OLP de Yasser Arafat reconhecer as fronteiras de 1967. O único país que ainda está em estado de beligerância com Israel é a Síria devido a invasão israelense das Colinas de Golã. representado na região pelo Hamas. Mas a invasão da faixa de Gaza jogou uma verdadeira pá de cal em tudo isto. De qualquer forma. A resposta é simplesmente: não. muito melhores do que em qualquer outro país europeu. afinal. graças a mediação da Turquia. Na verdade.

esta é a condição para a sobrevivência. Irlanda etc. foi este o destino das relações entre o governo de Israel e os "terroristas" da OLP de Arafat2. Alguns de seus líderes. Vietnã. no entanto. em Israel. Mas se há algo que a história das lutas de ocupação (Argélia. é verdade. em sua carta. deveríamos parar de vez com esta tendência nefasta. Primeiro. uma reedição das cruzadas ou uma luta do bem contra o mal radical. dificilmente pode ser chamado de "estado" pois não leva em conta princípios fundamentais de autonomia e auto-determinação. Que este amálgama tenha saído da boca de Bush Júnior. deveríamos lembrar da profusão de racismo que ultimamente sai da boca de políticos israelenses influentes. disse a frase: "Você acredita que venceríamos Hitler com diálogo e diplomacia?". Logo. na Irlanda do Norte: a transformação de um grupo armado em ator político. Se Arafat fez. Diga-se de passagem. Mas podemos ainda dizer. alguns comparando os árabes a "vermes" e "povo que tem a mentira no sangue". os políticos israelenses também podem fazer. Isto sem falar que foi com o adjetivo de "terrorista" que Albert Einstein e Hannah Arendt trataram o futuro primeiroministro de Israel. ele deu claros sinais. que entre o Hamas e a antiga OLP há uma diferença maior. O Hamas aceitou longas tréguas. eis algo de inaceitável. mas um conflito territorial que assumiu proporções que nunca deveria ter assumido. . partidos importantes como o Likud (atualmente na frente nas pesquisas eleitorais) cuja carta programática simplesmente não reconhece o direito à existência de um estado palestino. Melhor seria assumir o conflito por aquilo que ele é: não um conflito de civilizações. Assim. é oportuno contextualizar um dos dispositivos maiores que fundamentam a recusa do governo de Israel em negociar com o Hamas: "Não é possível negociar com alguém que não reconhece seu direito de existência". Ehud Olmert. bem. Gênese do fundamentalismo islâmico popular Mas voltemos à idéia de que a melhor política de segurança teria sido negociar diretamente com o Hamas. o Hamas é igual a Hitler e o "estado sionista" age como o "estado nazista". Outro chegou a propor uma "trégua de cem anos". além de ignorar frontalmente todas as resoluções da ONU a respeito dos territórios ocupados. isto não impressiona ninguém. De fato. como o Irgun e o grupo Stern. Sim. chegaram mesmo a afirmar: "queremos um Estado nas fronteiras de 1967". Por sinal. líder do futuro Likud do qual saiu o atual primeiro-ministro israelense. referindo-se a grupos judaicos de luta armada atuantes nos anos 40. Pode-se contra-argumentar. mesmo aquilo que o atual partido governista Kadima propõe aos palestinos. De qualquer forma. Em uma ironia maior da história. Por isto. Arafat não queria criar um estado islâmico às portas de Israel. não reconhecia o direito a um estado palestino a oeste do Rio Jordão. que sentaria à mesa de negociações. durante o governo do likudista Netanyahu. Francamente. quando perguntado sobre a possibilidade de negociar com o Hamas. juntamente com o atual governo de Israel: "Não negociamos com terroristas". Ou seja.) nos ensina é: chega uma hora em que você terá que negociar com os "terroristas". havia indícios de que poderia acontecer com o Hamas o que aconteceu com o IRA. presente em ambos os lados do conflito. desde que venceu as eleições legislativas de 2006. os palestinos também não têm seu direito a um estado reconhecido por todos os principais atores políticos israelenses. Seu grupo era 2 Bush Júnior. esta é uma maneira de simplesmente não querer discutir o problema. Ou seja. como o chefe do conselho político Kahled Mechaal. Menachen Begin (carta ao New York Times. ele repete as mesmas palavras usadas pela administração colonial britânica na Palestina. Arafat negociou com um partido que. mas que intelectuais inteligentes operem com ele. de comparar o opositor aos nazistas. como esta que terminou em 19 de dezembro. 4 de dezembro de 1948).iraniano de transformação em potência nuclear foi resultado de um cálculo simples: os EUA invadiram o Iraque mesmo sem mandato da ONU e não invadiram a Coréia do Norte (com suas ameaças à "ordem mundial") porque o primeiro não tinha armas nucleares e o segundo tinha. E se for para apoiarse nas infames declarações racistas dos radicais palestinos. é muito difícil avançar enquanto existir. No entanto.

11/01/2008). Neste ponto. Basta lembrar que. como se ela fosse um mero flanqueamento ideológico". Há tempos não se via uma análise tão fora de esquadro. No entanto. gostaria de esclarecer minha posição. Melhor seria eliminar fisicamente seus membros. Mas também de nada adianta eliminar apenas os membros. com um programa minoritário no início dos anos 90. mesmo relacionando-se com fanáticos religiosos. transformou-se hoje no partido mais popular da Palestina? Uma popularidade que irá aumentar significativamente após este conflito. em um artigo profundamente confuso (Folha de São Paulo. Robert Kurz. por si só. diz Kurz. Sim. Pois não se destrói um grupo armado aumentando seu apoio popular. convido que veja a versão inglesa do canal de TV mais assistido no mundo árabe (Al-Jazeera) e analise a maneira com que seus militantes são retratados. ela é assustadoramente alta. como representante legítimo da resistência à ocupação. Talvez Kurz pense em Foucault com seu fascínio inicial equivocado pela revolução iraniana e acredite que os críticos atuais da invasão a Gaza partilhem um erro simétrico. Rezemos para que este seja apenas um erro de tradução. Quem duvida do aumento do apoio ao Hamas. Não esqueçamos que esta recrudescência do sentimento religioso no Oriente Médio é o resultado direto de um longo bloqueio. . patrocinado pelo ocidente. Devemos ter a responsabilidade preventiva de eliminar também os filhos e irmãos. não justifica que o conflito palestino seja visto como uma situação de exceção. se não for este o caso. em 1994. só há uma maneira de "aniquilar" o Hamas e esta maneira não passa pela vitória militar. Juntar-se-ia a isto um velho neoestatismo [o fantasma clássico a assombrar a vida de Robert Kurz] que crê valer a pena pacificar as massas por meios autoritários de um estado forte. tal como aconteceu com o Hizbollah. Tenho todo o direito de acreditar que os filhos e irmãos dos membros alimentarão o ódio contra o inimigo e pegarão em armas na primeira oportunidade. nem sequer do ponto de vista da eficácia de medidas de segurança. Quer dizer. deveríamos insistir na necessidade de "aniquilamento" do Hamas e do Hizbollah. Hoje. as piores catástrofes são normalmente feitas com as melhores razões. Tudo isto demonstra que o ataque a Gaza não era justificado nem do ponto de vista do direito de defesa. E o que é expulso do campo simbólico da política retorna sob a forma de violência real. é assustador ver o vocabulário do "aniquilamento" sair da boca de um pretenso leitor da Escola de Frankfurt. como dizia o "neoestatista" Hegel. nem que seja um estado islâmico. só podemos dizer que ele é delirante. logo ele se recomporá. aos olhos dos palestinos. Ou seja. poderíamos dizer: sendo a ordem "aniquilar o Hamas" de nada adianta desmantelá-lo como se fez inúmeras vezes com o ETA ou o IRA. Como se esta tal esquerda pós-moderna defendesse o Hamas por confundi-lo com uma força dos antigos "movimentos anti-imperialistas" e misturasse isto com tendências culturalistas e relativistas. critica o que ele chama de "esquerda pós-moderna (?)" que estaria disposta a "identificar-se com a administração autoritária da crise mundial [do capitalismo] aceitando como inevitável a guerra islâmica contra os judeus. já que eles não se deixam prender facilmente. pois esta esquerda pósmoderna que apoia o Hamas e flerta com neoestatismo simplesmente não existe. Pois. Por sinal. Ninguém está aqui fazendo "vistas grossas" para os perigos do fundamentalismo islâmico. é verdade mas isto. seja lá o que isto possa significar3. na época dos acordos de Oslo. se este for de fato o esquema na mente de Kurz. mas procurando a melhor maneira de desativar a bomba que ele representa. Cada palestino morto significa a consolidação de um sentimento de humilhação e descrença em relação à negociação política.laico. Mas o que dizer também dos vizinhos que cresceram juntos com estes "eliminados" e que podem se ver na obrigação moral de continuar a batalha? Talvez devêssemos também cuidar dos vizinhos. esta foi a equação que sempre alimentou o Hamas e que continuará a alimentá-lo. a popularidade do grupo não passava de 15%. Pois a pergunta que deve ser respondida é: como um grupo como o Hamas. de modificações políticas 3 Diga-se de passagem. Como nestes dois casos. Ninguém está procurando defender um grupo claramente racista e reacionário. Trata-se simplesmente de constatar que todas as tentativas de "aniquilá-lo" militarmente só aumentaram sua força pois tais ações militares criaram o quadro narrativo ideal para que o Hamas aparecesse. Contra isto.

Jordânia. ela consegue atingir seu verdadeiro alvo: os judeus esquerdistas. Ou seja. o retorno à tradição religiosa com suas promessas de revitalização moral é sempre uma tendência. afinal para que eles servem? Algumas pessoas mal-intencionadas dizem que se trata de estratégia eleitoral para vitaminar os combalidos candidatos da coalização no poder. Se os ataques não são justificáveis do ponto de vista do direito de defesa. Por isto. membros do consórcio governista. Arábia Saudita. Só que todas as vezes que tais alternativas foram tentadas. "uma ideologia culturalista pós-moderna da crise de uma parte das elites há muito tempo ocidentalizadas nos países islâmicos". fruto de alguma espécie de delírio esquerdista diversionista.nos países árabes. chegando mesmo às héroicas ações dos refuseniks (israelenses que se recusavam a servir o exército na Cisjordânia e na faixa de Gaza). a experiência cotidiana de um árabe em relação aos valores modernizadores e democráticos ocidentais é que eles servem apenas para justificar o contrário do que pregam. Mas. Este sócio é a direita israelense que está ininterruptamente no poder desde a época de Benjamin Netanyahu (como gostaria de mostrar. tudo isto mudou. O que nos permite acreditar que apenas a construção do campo político no mundo árabe irá. Eles são movimentos de forte apoio popular e este é o caráter verdadeiramente dramático da situação. Tais proposições podem parecer gratuitas e profundamente arbitrárias. o governo do trabalhista Ehud Barak não foi uma exceção) e que nunca acreditou nos acordos de Oslo. estavam predestinados a perder a eleições de fevereiro. os regimes mais corruptos e totalitários da região são apoiados de maneira irrestrita pelo ocidente (Paquistão. Mas isto é certamente uma intriga da oposição. O Partido trabalhista de Barak estava condenado a ter uma das participações mais humilhantes de sua história. Tunísia. Não. graças a ele. o ocidente vem sistematicamente minando todos os movimentos políticos árabes de auto-determinação e independência. O caso da conspiração contra o líder nacionalista iraniano Mossadegh é aqui paradigmático. A direita israelense é o grande sócio do Hamas porque. Trata-se de um sintoma recente de bloqueio do potencial transformador do campo político. Ou seja. Desmontar este apoio popular só é possível criando alternativas políticas reais e com forte potencial de transformação social. com diz Kurz. nem são úteis como medidas de segurança. anti-comunitaristas e pacifistas de Israel e do mundo que sempre criticaram duramente e com os melhores argumentos a situação nos territórios ocupados. Desde os anos 50. Foi isto o que aconteceu. Elas podem voltar a ser sociedades indiferentes à religião. Tanto a direitista Tizpi Livni quanto o trabalhista Ehud Barak. Na verdade. a médio termo. elas não o são. Neste ambiente de cinismo e bloqueio do campo político. Egito . instaurar uma situação na qual o apelo à religião não terá mais ressonância social. que é circunstancial. não. Por outro lado. No entanto. este sócio não é o Irã. Por outro lado. Os árabes fizeram a prova do caráter formalista e "flexível" dos valores ocidentais. elas logo foram abortadas pelo ocidente. os movimentos islâmicos não são apenas. não se trata aqui de traço arcaizante algum típico de civilizações refratárias ao nosso "choque civilizatório". basta ver a Arábia Saudita para perceber que a criação de um estado islâmico nunca foi realmente problema a tirar o sono do ocidente O sócio do Hamas Mas voltemos à questão principal. Como em um passe de mágica. no entanto. . Ao invés de usar este argumento. de usar um argumento "estrutural". esta incrível ascensão do Hamas só foi possível porque eles têm um sócio poderoso e sempre pronto a fortalecê-lo. Não é possível que alguém íntegro como o primeiro-ministro Ehud Olmert possa ter tramado isto. teve índices tão baixos de popularidade (3% de aprovação em 2007) e foi tão acusado de incompetência como Olmert. É verdade que nenhum governante na história de Israel foi alvo de tantos processos judiciais por corrupção.cujo "presidente" Hosni Mubarak está no poder há meros 37 anos). gostaria.

não tem mais criatividade política alguma nem força suficiente para escapar de uma agenda securitária que foi posta em circulação pela direita e pela extremadireita. ela é assentada na criação de um estado moderno e laico onde haveria espaço inclusive para os árabes (mesmo que em número limitado). era hora de pegar o que estava sendo oferecido. No caso do governo de Israel. por exemplo. Afinal. E a melhor maneira para isto era alimentando a popularidade de um grupo de fanáticos islâmicos através de uma escalada de provocações. O governo Barak nunca conseguiu escapar de uma agenda securitária e de retaliação militar contínua já então dominante. Muitos hão de se lembrar. Este destino havia ficado muito claro com o governo Barak. Foi assim que a direita israelense e o Hamas cresceram juntos a partir do final do governo Rabin. uma oposição que tudo fazia para minar os acordos foi mostrando sua verdadeira face. tratava-se no fundo de adiar o processo de paz ad infinitum e retirar qualquer força de pressão social dos grupos pacificistas esquerdistas. de fato. tal como garantido pela resolução 194 da ONU. No entanto. com armas em punho. Mas pode-se dizer que o argumento aqui apresentado é falho. ficou claro que o avanço do processo de paz só seria possível através de uma confrontação corajosa com este núcleo teológico-político que sempre serviu de alimento para uma parte de seu imaginário como nação.000 refugiados palestinos a Israel. O argumento da recusa é que o acordo não tratava do direito de retorno dos mais de 900. Mas não foi Barak que propôs em Camp David o melhor plano de paz para os palestinos. Naquele momento em que a paz parecia possível. O final deste processo foi o chocante assassinato de Rabin por um colono judeu. diga-se de passagem. No entanto. foi um erro crasso de Arafat não o ter aceitado. O que levou alguns a acreditar que a unidade do povo israelense poderia ser seriamente ameaçada com o avanço do processo de paz. Foi ele que ganhou encarnação trágica com o assassinato de Rabin por um colono. e. porque talvez ele não tivesse nada mais a oferecer. por exemplo. O que vemos é um partido que. Nunca na história de Israel seu povo se mostrou tão dividido. isto seria simplesmente a morte da direita israelense com seu comunitarismo indisfarçável e seus partidos religiosos que visam colonizar o campo social com narrativas mítico-religiosas. como seus congêneres sociaisdemocratas na Europa.Voltemos. Foi assim também que os grupos judaicos pela paz. Pois hoje temos relatos de membros do gabinete Clinton . certamente sim. a OTAN havia invadido o Kosovo. com garantias de um estado com 92% da Cisjordânia e a divisão de Jerusalém? Sim. estado e povo. Tanto que hoje ele não passa de um sócio indistinguível do Kadima. para ela. Do lado de Israel. foram impiedosamente esvaziados. Mesmo que Arafat tivesse legalmente razão. Em nome de um direito estruturalmente semelhante. espalhados pelo mundo. vale a pena aqui também uma contextualização. à época dos acordos de Oslo. Poderíamos mesmo dizer que um espectro ronda o Estado de Israel: o espectro do teológicopolítico. víamos não apenas colonos judeus que afrontavam o exército israelense em processos de desocupação da assentamentos e discursos incendários de rabinos conservadores contra o próprio governo israelense. e o que dizer do Partido Trabalhista. Um precisa do outro para existir. destas inacreditáveis campanhas publicitárias feitas por organizações judaicas fundamentalistas que conclamavam os judeus do mundo. Pois há uma ambiguidade maior no cerne da concepção israelense de nação. ela é assombrada por fantasmas religiosos e comunitaristas no interior dos quais um messianismo redentor se mistura perigosamente com a tentativa de criar vínculos orgânicos entre nação. ações militares e humilhações ao governo da Autoridade Palestina. Por um lado. um fenômeno extrememante relevante mostrou toda sua amplitude. a impedirem a entrega de terras aos palestinos. Enquanto os governos de Rabin e Arafat tentavam implementar o plano. Por isto. até porque sua coalização era muito heteróclita para tanto e. mas de outro. que governou Israel com Ehud Barak e que está atualmente na coalização governista que comanda a invasão? Trata-se também de um membro da direita israelense? Hoje.

nação e povo. temos todo o direito de perguntar por que Barak esperou os últimos dias de seu governo para sentar-se à mesa de negociações4. de se auto-criticar impiedosamente. O Estado moderno deve ser uma construção que permita aos sujeitos serem reconhecidos para além de suas etnias. Sejamos fiéis à grandeza dos críticos de nossa própria tradição e digamos. isto significa dizer que o povo judeu (ou o povo palestino) não tem direito a ter um estado". um estado Gostaria de terminar este artigo dizendo que. federações comerciais que só conseguem estabelecer algum acordo político quando é questão de correr atrás de imigrantes. É verdade que nosso tempo parece particularmente triste para defesas desta natureza. . assim como devemos rejeitar as armadilhas que procuram nos aprisionar em identidades sociais construídas no bojo de tradições religiosas. os defensores da criação de um estado palestino esquecem de um dado simples: ele não seria viável economicamente e serviria apenas de dormitório para mão-deobra barata e sem direitos trabalhistas a ser explorada por seus vizinhos. Na verdade. Dois povos. devemos dizer claramente: nenhum povo tem direito a ter um estado pois o ímpeto fundamental do Estado moderno é a dissociação radical entre estado. Mas. na verdade. onde franceses criam Ministérios da identidade nacional. Bem. ver o artigo de Robert Malley (assistente especial de Clinton para o conflito palestino) e Hussein Agha: “Camp David: the tragedy of errors” (http://www. não poderiam garantir a implementação do que seria acordado. neste caso. Por isto. devemos rejeitar radicalmente todo o qualquer nacionalismo com seus motivos de conservação de hábitos e tradições enquanto guia de conduta.com/articles/14380) . Já a situação guardava algo de surreal: uma negociação daquela envergadura sendo feita por um presidente e um primeiro-ministro que iriam sair do cargo meses depois e que por isto. para além deste "detalhe" pragmático há uma questão maior.nybooks. religiões e culturas enquanto cidadãos indiferentes a suas diferenças. Sua luta incansável por um Estado bi-nacional entre judeus e palestinos deve nos servir de guia. Lutemos pois por uma época em que as nações sejam peças políticas do passado. de esquecer suas raízes 4 Para uma exposição clara do que realmente foram as negociações de Camp David. com um sorriso: "Então parem o carro porque eu quero descer. onde estruturas como a Comunidade européia são. De fato. Por acreditarmos no caráter emancipador desta indiferença. Um Estado binacional criaria uma dinâmica sócio-política realmente transformadora com poder irradiador para toda a região. Gaza é uma faixa de terra árida com 11 km de extensão e 44 km de largura. Mas talvez estes sejam sintomas de uma época esgotada que teima em não morrer. Já vi montanhas de cadáveres demais em nome desta civilização esclarecida". Diria que esta alternativa já havia sido sintetizada de maneira decisiva por um intelectual cuja grandeza faz falta em um momento com este: Edward Said. Pois vivemos em uma era onde belgas se digladiam a fim de se separarem. Muitos rechaçam a idéia dizendo: "No fundo. Acelerar seu desabamento é nossa tarefa. se o verdadeiro alvo desta invasão é o bloco pacifista e esquerdista judaico que um dia teve peso real na constituição da agenda política da região e que poderia começar a desatar o nó entre política e teologia que parece querer colonizar os dois lados. então cabe a todos realmente interessados na paz lutar por construir uma alternativa política real com forte poder de transformação social. em última instância. Não se constrói um estado com tão pouco.(então mediador do processo) a respeito das negociações de Camp Davis que deixam sérias dúvidas sobre as reais intenções de Barak. junto com eles: a civilização judaico-cristã só foi grande quando teve a força de suspeitar de seus próprios valores. contra aqueles que vêem no conflito palestino o último capítulo da luta milenar na defesa dos valores da civilização judaico-cristã. devemos afirmar. A Cisjordânia é do tamanho do Distrito Federal.

entre outros. 2006) . Com a inteligência que transforma sofrimento em criação. Talvez a criação de um Estado binacional nesta região carregada de tanto simbolismo como é o "oeste do Rio Jordão" seria o começo necessário para esta perda que emancipa. Então ela aprendeu. como disse Nietzsche. Vladimir Safatle. 2007) e A paixão do negativo: Lacan e a dialética (Unesp. a força dos que sabem que é necessário se perder para poder encontrar seu verdadeiro destino.religiosas. Cabe a estes dois povos igualmente vítimas do exílio. diremos: o exílio é nossa verdadeira força. 2008). Cinismo e falência da crítica (Boitempo. da perseguição e da humilhação a tarefa de ser fiel a essa experiência histórica comum e transformá-la na mola mestra de um novo momento de criatividade política. Professor de filosofia da Universidade de São Paulo e autor de. Lacan (Publifolha. do desterro.