You are on page 1of 4

JESUS E O GRANDE JUBILEU

As expectativas do ano jubilar apresentadas em Lv.25 e continuadas em Is.61:1-2, são
retomadas por Jesus na apresentação do seu ministério público na sinagoga de Nazaré
(Lc.4,16-20). Neste Evangelho, a proclamação do Reino de Deus está relacionada com a
proclamação dum "ano de graça do Senhor" (v. 19). A intervenção do profeta, ungido por
Deus, que anuncia a libertação aos pobres, aos presos por dívidas, a vista aos cegos e a
liberdade a todos os oprimidos, é como um ano de jubileu (Lv.25,10). E o ano de
benevolência do Senhor, um ano agradável a Deus porque foi escolhido por Ele. O ano da
graça, como qualquer dia de Yahweh, é um acontecimento que traz a justiça porque Deus vai
devolver aos homens a dignidade que outros lhe tinham arrebatado. Ano da graça porque é um
tempo que permanece, não passará, e constituirá um tempo definitivo. O tempo do ministério
de Jesus vai ser assim um GRANDE JUBILEU.

Alguns aspectos importantes de Lc.4,16-20

A evangelização dos pobres

Os pobres desempenham de tal modo um papel central no Evangelho de Lucas, que se pode
definir como «o Evangelho da pobreza».
A primeira bem-aventurança, «Felizes de vós, os pobres, porque o Reino de Deus vos
pertence» (Lc.6:20), adverte imediatamente acerca de uma perspectiva espiritual da pobreza
mas como em Is 61,1, Lucas também considera que os pobres são os ‘anawím’ que não têm o
necessário para sobreviver porque foram obrigados a vender as suas terras (Lv 25,35).
Naturalmente, essa condição de dependência socio-económica expõe os pobres às injustiças
dos ricos, tornando-os indefesos perante o seu poder.

É precisamente essa situação de injustiça e de opressão que grita ao Senhor que, por sua vez,
não pode deixar de assumir a defesa dos pobres. Por causa desta sensibilidade especial pelas
consequências sociais da pobreza, pobre não é tanto quem pouco ou nada tem, mas sobretudo
(como para o nosso ambiente cultural) quem não tem meios para se defender dos ricos. Por
isso, muitas vezes Lucas escolhe as viúvas como exemplo de pobreza: estão em situação de
fragilidade económica (Lc 2,37; 4,25-26; 21,1-3), social (Lc 7,11-17; Act 6,1) e jurídica (Lc
18,1-7). Nesta perspectiva, o restabelecimento da justiça em relação aos pobres concretiza-se
na relação dos pobres com o reino dos céus, expressa na primeira bem-aventurança: eles já
possuem o reino de Deus (cf. Lc 6,20), embora não possuam nenhum património económico.

Tal pobreza é negativa porque, de facto, põe os que são obrigados a vivê-la em condições de
opressão e de injustiças permanentes. No entanto, a pobreza torna-se positiva quando, por um
lado, leva os pobres a esperar na justiça de Deus e, por outro, conduz ao seguimento de Cristo,
como demonstram os «ditos» de Jesus sobre a pobreza, que encontramos, sobretudo, na
secção da viagem para Jerusalém. O episódio do homem rico, não disposto a renunciar às suas
riquezas para seguir Cristo (Lc. 18,18-23), demonstra a profunda conexão entre a pobreza e o
seguimento no Novo Testamento.
Portanto, na perspectiva de Lucas, evangelizar os pobres não significa simplesmente falar do
Evangelho, mas anunciar e realizar uma justiça divina que não é prometida para um futuro
ultraterreno e distante, mas sim para o hoje da salvação (Kairos) e que deriva do próprio
Evangelho, isto é, da relação com Jesus Cristo que realiza as esperanças e as utopias do ano
jubilar.
A libertação dos prisioneiros

Do texto de Lucas poderia parecer que os prisioneiros se distinguem dos pobres e que
qualquer prisioneiro seria destinatário da libertação, independentemente do crime cometido.
Na realidade os prisioneiros são também os próprios pobres obrigados a viver em condições
de escravidão ou de prisão, dada a sua impossibilidade de saldar as dividas. A importância da
libertação, no cumprimento das expectativas proféticas, é confirmada pelo quarto grupo de
pessoas a quem Cristo é enviado: «... para libertar os oprimidos». Trata-se, uma vez mais,
daqueles que, enquanto pobres e prisioneiros, não podem resgatar-se a si mesmos e esperam
do Senhor a libertação definitiva anunciada para o ano jubilar(Goel). E dado que em Israel
não havia distinção entre a sociedade religiosa e civil muita dessa gente era considerada
pecadora pública. Jesus promete-lhes assim o perdão que produz libertação.

A importância do perdão dos pecados é realçada, especialmente, pelo pedido do Pai-Nosso:
«Perdoa-nos os nossos pecados, pois também nós perdoamos a todos aqueles que nos
ofendem» (Lc 11,4). Há uma relação profunda entre o perdão que recebemos de Deus e o que
somos convidados a conceder a quem nos ofende. Infelizmente, muitas vezes, entendemos o
Pai-Nosso numa perspectiva errada porque pensamos que Deus só nos perdoará, depois de ter
verificado que já perdoámos aos nossos irmãos, e deixamo-nos cair no desânimo porque, de
facto, não sabemos onde encontrar as razões e o motivo para perdoar a quem nos fez mal.
Mas, se mudarmos a perspectiva da invocação do pedido, tornar-se-á possível perdoar ao
outro: só podemos encontrar a razão e a força de perdoar aos outros, no amor e perdão de
Deus para connosco. Por isso, o itinerário evangélico não começa em nós a caminho de Deus,
mas parte de Deus e chega até nós. Para se perceber com maior clareza em Lucas esta
perspectiva do perdão poderemos ler a narração do encontro de Jesus com a adúltera, descrita
em Lc. 7,36-50: «... os muitos pecados que ela cometeu estão perdoados, porque
demonstrou muito amor» (vers. 47).

Portanto, não é só o perdão económico e social, mas também o dos pecados ou das culpas que
começa a fazer parte das instâncias do ano jubilar segundo a nova compreensão de Lucas, a
partir da acção e da salvação realizada por Cristo.
Nesta relação entre o perdão de Deus e o perdão dos homens, uns aos outros, existe o mesmo
percurso identificado pela santidade de Deus em Lv. 25: a santidade de Deus torna-se a do
seu povo quando a pessoa, a família e a terra são respeitadas na sua dignidade; assim, o
perdão de Deus atinge o homem e torna-o capaz de perdoar todas as dívidas ao seu
irmão. Nesta nova compreensão do perdão pode notar-se uma passagem do perdão das
dívidas materiais para o da ofensas ou das culpas espirituais, para indicar que a
remissão visa a pessoa humana na sua integridade e não apenas uma área da sua
existência, quer económica quer social.

A vista aos cegos

No sumário narrativo de Lc.7,21, o evangelista observa que Jesus «fez com que muitos cegos
recuperassem a vista»; por isso, a constatação da cura dos cegos representa a primeira
resposta de Jesus aos discípulos de João Baptista, para confirmar que o oráculo de Is 61,1-2 se
cumpriu inteiramente.

A cura do cego de Jericó, que «estava sentado à beira do caminho, a pedir esmola»
(Lc.18,35), mostra que a cegueira representa uma das formas mais visíveis da pobreza: os
cegos não só são excluídos da sociedade e, portanto, sujeitos a injustiças socio-económicas,
mas também do próprio sector religioso e cultural do templo e dos sacrifícios. Por isso, Jesus
não só exorta aqueles que organizam banquetes a convidar «pobres, aleijados, coxos e cegos»
(Lc.14,13), mas também declara que estes farão parte do banquete final do Reino (Lc.14,21).

Contudo, Lucas nunca se fecha a uma cegueira física, como condição concreta de pobreza;
mas põe, ao lado desta, a cegueira espiritual e interior. A sobrevivência destes dois níveis de
cegueira é exemplificada, sobretudo, nos Actos dos Apóstolos, pela tríplice narração da
vocação de Paulo (Act 9,8; 9,18; 26,17-18), nesta última é bem clara a cegueira espiritual.

Portanto, também os cegos, como destinatários da missão de Jesus, são objecto de um
processo análogo ao dos pobres: são realmente cegos que esperam que o Senhor os cure
fisicamente, pois já perderam as esperanças; contudo também se trata, e talvez sobretudo, de
cegos de espírito, chamados, a reconhecerem, no partir do pão e no entendimento da
Escritura, o Senhor na pessoa de Jesus.

A libertação dos oprimidos

A citação de Is 58,6 permite-nos acrescentar novos destinatários à missão profética e real de
Jesus: os «oprimidos». Este grupo está intimamente ligado ao dos presos por causa do termo-
chave, aphesis (= remissão, perdão) e que tanto os oprimidos, como os presos, são, antes de
mais, aqueles que não podem libertar-se das cargas socioeconómicas, esperando, por isso, que
o Senhor lhes conceda a libertação definitiva, no ano de graça.

O verbo thrauein (= oprimir) só aparece aqui, no Novo Testamento e, no Evangelho de
Lucas, nunca mais se fala de oprimidos. Todavia, são muitas as situações de opressão de que
Jesus liberta os homens, realçadas, principalmente, pelos relatos evangélicos dos milagres. A
opressão fundamental, de que Jesus liberta os homens, é a de satanás, sublinhada pelas curas
dos endemoninhados, como demonstra o primeiro milagre contado por Lucas no seu
Evangelho: o do endemoninhado na sinagoga de Nazaré (Lc.4,31-37).

A par destas libertações de satanás, que significam libertações do mal, devem-se colocar as
libertações da doença (Lc.5,1 7-26), a morte (Lc.7,11-l7) e do pecado (Lc.7,36-50).
Consequentemente, com a promulgação do ano de graça, Jesus anuncia ao homem a sua
libertação do pecado, da doença, da morte e de satanás; e, desse modo, a libertação
económico-social torna-se também física e moral para todos aqueles que estão
sobrecarregados com qualquer forma de escravidão.

A pregação do ano de graça

Jesus não só anuncia o ano de graça que, em suma, pode ser realizado por Ele ou por qualquer
outro, mas também o realiza, enquanto o anuncia. Por isso, embora Is 61,1-2 seja lido na
sinagoga de Nazaré, quando Jesus ainda nem sequer tinha evangelizado nenhum pobre nem
realizado nenhum milagre, é considerado cumprido pela sua presença: «Hoje cumpriu-se
esta passagem da Escritura que acabais de ouvir». A expressão «ano de graça», refere-se a
um ano que anuncia a salvação em relação aos homens. Jesus não só realiza um ano agradável
ao Senhor, mas também e sobretudo um ano definitivo em que a salvação do Senhor atinge
todos os homens.
Conclusão

As expectativas e as instâncias sociais do ano jubilar, legisladas em Lv 25,8-55 e
personalizadas por Is 61,1-3a, consideram-se definitivamente realizadas por Jesus em Lc
4,16-30. Por isso, os pobres, os cegos, os presos e os oprimidos, a quem Jesus foi enviado,
não são pessoas que vivam em condições espirituais, mas sim destinatários concretos,
apanhados numa situação de indigência: é precisamente a eles que, antes de mais, é anunciado
o ano de graça do Senhor.

No entanto, à primeira vista, parece que entre o ano jubilar e o de graça, anunciado por Jesus,
existe a diferença fundamental representada pelo ritmo cíclico do primeiro e pelo acaso do
segundo.
Na realidade, esta diferença é superada pela identidade escatológica ou definitiva do ano de
graça; para Lucas nunca mais haverá um ano jubilar, porque todos os anos, e até todos os dias
em que se encontra Jesus de Nazaré, representam o ano da libertação.
Por conseguinte, não é o ano jubilar que determina o envio do Filho de Deus, mas o Filho de
Deus é que torna possível cada ano jubilar.Estas celebrações jubilares ao longo da história
constituem somente a representação do único evento da morte e ressurreição de Jesus,
realizado no hoje da salvação.