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Páscoa: Da tradição judaica à vivência cristã

A festa Páscoa, tal como nós a concebemos, deve ser vista como um todo, de modo
integrado (Páscoa judaica e Páscoa cristã), o que nos ajuda a compreender e perceber a
simbologia da nossa Páscoa e da nossa liturgia, já que é das tradições judaicas que nós
recebemos o quadro de referência que dá sentido à linguagem e aos diversos símbolos
que usamos nas nossas celebrações. Por exemplo: Ceia pascal, Cordeiro pascal, a Noite
pascal, etc.

Além das referências directas às festas, temos também muitos motivos que são tomadas
da simbologia das festas e da sua fundamentação teológica, recorrendo aos textos do
Antigo Testamento. No caso da Páscoa, os textos mais significativos são: Ex 12; Lv
23,5-8; Nm 28,16-25; Dt 16,1-8.

Todas as festas têm na sua base e origem um sentido agrícola (ou agrário, se quisermos)
e nomádico. Correspondem às grandes etapas (ou fases) da vida agrícola, da vida dos
campos e dos nómadas. A Páscoa: saída dos rebanhos, após as chuvas de Inverno, no
início da Primavera, correspondendo também à época do germinar da vida e dos
campos.

Portanto, temos aqui duas perspectivas fundamentais: Celebrar a vida nova que renasce
e agradecer os dons recebidos, testemunhando assim que tudo isso é um dom que o
Povo de Israel, agradecido, vive e celebra.

A Páscoa Judaica: O que é?

A festa da Páscoa (Pesah) é de todas a mais significativa do calendário judaico e a
primeira das chamadas ‘festas de peregrinação’ (Ah harregalîm: Páscoa, Pentecostes e
Tabernáculos). Estas festas celebravam os principais acontecimentos da história da
salvação e, por isso, todo o israelita devia ‘subir’ a Jerusalém por ocasião de uma dessas
três festas, para aí festejar os dons de Deus e a Sua aliança. A celebração da Páscoa, na
noite de 14 de Nisãn, estava inserida e dava início a uma outra festa, a dos Ázimos que
durava sete dias e se concluía com uma convocação solene no 7º dia da festa (Dt 16,8)
que assim encerrava o ciclo da solenidade pascal.

Os textos que chegaram até nós mostram-nos duas tradições muito fortes que se
misturam e entrecruzam na sua redacção; falam-nos de origens nomádicas (tradições
pastoris) e da experiência da saída do Egipto (tradições do Êxodo). Estas fontes podem
ter existido separadas e durante muito tempo, tendo depois sido cruzadas e elaboradas
como uma narrativa conjunta. Quando e como?

O texto de Josué (5,10-11) leva-nos a supor que este cruzamento das diversas tradições
é tardio, talvez já ligado às escolas sacerdotais e teológicas que agora colocam em
evidência a experiência do Êxodo, já que com a sedentarização na terra e a centralidade
cultural no Templo não fazia sentido privilegiar o sentido nomádico, mas antes realçar a
acção libertadora de Yahwé que arrancou o Seu povo do Egipto.

Com a experiência do exílio da Babilónia e o regresso a Jerusalém, constituindo-se a
comunidade eleita dos judeus ‘santos e sacerdotes’, as tradições da libertação do Egipto
assumem ainda maior força e representam o verdadeiro padrão do Israel eleito que foi
resgatado e que de novo retoma a sua caminhada.

2. A celebração da Páscoa judaica

A festa da Páscoa (Pesah), de todas a mais significativa do calendário judaico, era
essencialmente um ‘memorial’ (Ex 12,14) da libertação do Egipto. Em Jos 5,10-11, após
a passagem do Jordão, os israelitas celebraram a 1ª Páscoa já na terra prometida,
‘comendo dos frutos da terra: pães ázimos e espigas tostadas’. Trata-se, naturalmente,
de uma espécie de ritual de ‘exorcização’ do local, para aí manifestar a supremacia
sobre os costumes dos cananeus. Os textos da tradição do Êxodo já combinavam as
diferentes tradições das tribos. Assim, Ex 23,15-19, que tinha a sua origem no Norte
conhecia a tradição dos ázimos mas desconhecia a Páscoa, enquanto que em Ex 34
encontramos já uma conjugação dos dois ritos, conjugação esta que depois está
consagrada em Lv 23,5-8 e Dt 16,1-8. Por sua vez, o livro das Crónicas faz-se eco de
duas celebrações da Páscoa: uma ao tempo de Ezequias (2 Cr 30,1) e a outra na época
de Josias (2 Cr 35,1). O seu ritual evoca a saída do Egipto com a imolação do cordeiro
no Templo e a aspersão do altar com o seu sangue.

A literatura apócrifa dá igualmente grande relevo à celebração da festa de Páscoa. O
livro dos Jubileus faz remontar a celebração da Páscoa a Abraão e estabelece uma
relação intrínseca entre o sacrifício de Isaac e a festa (18,13-19). Esta mesma relação
encontra-se também no Targum Lv 26,46, em que o sacrifício de Isaac é considerado
como o verdadeiro fundamento da Aliança.

Enquanto o judaísmo palestiniano destacava esta relação entre o sacrifício de Isaac e a
Páscoa, o judaísmo alexandrino sublinhava mais o sentido alegórico da festa, como
símbolo da primeira criação e anúncio da nova criação. É particularmente Filão de
Alexandria que desenvolve este sentido alegórico da saída do Egipto, fazendo desta
festa um ‘memorial’ e uma ‘acção de graças’ da libertação. Idêntica perspectiva
encontra-se no livro da Sabedoria com um sentido de reactualização do tema do êxodo
para a comunidade judaica de Alexandria.

O centro da celebração litúrgica da festa da Páscoa decorria no Templo e nas famílias,
com o Seder pascal: a refeição da família. É a partir da reunião familiar que se
desenvolve a Haggadah pascal que é, ao mesmo tempo, um ‘ordo’ da refeição e um
memorial do acontecimento celebrado que não se confina apenas à libertação do Egipto,
mas também abarca os principais momentos da história da salvação.

No que diz respeito à liturgia sinagogal, um dos textos mais belos e sugestivos sobre
esta festa é aquele que nos provém do Targum Neófiti. Trata-se de um comentário de
tipo midráshico que encontra o seu desenvolvimento a partir do facto do autor de Ex 12
referir 4 vezes o termo ‘noite’. Vejamos:

“Quatro são as noites que estão inscritas no livro das memórias. A primeira noite Deus
manifestou-se sobre o mundo para o criar. O mundo era confusão e trevas. As trevas
cobriam o abismo. A Palavra de Yhawé era a luz e brilhava. Chamou-se a primeira
noite.
A segunda noite, quando Yhawé apareceu a Abraão com a idade de 100 anos e a Sarah,
sua esposa, com a idade de 90 anos, para realizar a Escritura que diz: Será que
Abraão, com 100 anos de idade, vai gerar e Sarah, sua esposa, com 90 anos, vai dar à
luz? Isaac tinha 37 anos quando foi oferecido em sacrifício sobre o altar… Chamou-se
a segunda noite.

A terceira noite Yhawé apareceu aos egípcios no meio da noite: a sua mão matou os
primogénitos dos egípcios e a sua direita protegeu os primogénitos de Israel para que
se cumprisse a Escritura que diz: Meu filho primogénito, é Israel… Chamou-se a
terceira noite.

A quarta noite o mundo chegará ao seu fim para ser destruído; os jugos de ferro serão
destruídos e as gerações perversas serão aniquiladas. Moisés subirá do meio do
deserto e o Rei Messias virá do alto. Um caminhará à frente do rebanho e o outro
caminhará à frente do rebanho e a sua Palavra caminhará entre os dois. Eu e eles
caminharemos lado a lado. É a noite da Páscoa para a libertação de todo Israel” (1)

Quanto aos textos rabínicos, a Páscoa aparece bem documentada nessas fontes,
particularmente no tratado Pesahim da Mishná. Os capítulos 5º e 10º oferecem-nos uma
detalhada descrição dos ritos fundamentais da festa segundo a tradição rabínica, mas
recolhendo tradições que, provavelmente, são já do período posterior à destruição do
Templo, uma vez que não há alusões à celebração festiva no Templo e os rabinos
citados são, em geral, também do período posterior a 70. Os rituais festivos que este
tratado nos apresenta têm uma forte componente alusiva à celebração familiar e
assemelham-se em muito às tradições que se perpetuam na Haggadah pascal que é um
texto que condensa em si esse sentido da festa celebrada e vivida na família como
memorial da história da salvação.

Em termos teológicos, podemos sintetizar a teologia da Páscoa em 3 grandes
perspectivas:

a) Sentido messiânico-escatológico da celebração pascal

A festa actualiza a saída do Egipto na vida da comunidade e, ao mesmo tempo, antecipa
a libertação definitiva. A simbologia dos ritos festivos têm uma dimensão escatológica,
prefigurada no vinho do banquete messiânico, tal como o deixa entender o Targum do
Cântico dos Cânticos. De acordo com Gn 49,11, o vinho tem um sentido profundamente
messiânico, pois o Messias lavará as suas vestes no sangue da videira (2). Esta
dimensão messiânica é também confirmada por Pesh 9,11 que refere que ‘os habitantes
de Jerusalém convidavam os pobres para a refeição pascal, já que Elias se manifestaria
sob a forma de um pobre, antes do advento do Messias que deve acontecer na noite
pascal.

A Páscoa é também a festa do anúncio da libertação que Yhawé concede ao seu povo,
fazendo-o passar da ‘casa da escravidão’ que era o Egipto para a libertação que é a Terra
Prometida. Não se trata de um anúncio celebrativo, memória do passado; ele é antes um
grito de esperança que percorre toda a história do povo e aberto ao futuro. De facto, a
perspectiva escatológica da liturgia pascal está bem presente num texto atribuído a
Rabban Gamaliel (3), em que cada um dos crentes judeus é convidado a celebrar a festa
como se ele próprio tivesse estado presente na altura da sua instituição. Diz o texto:
“Cada um de nós tem o dever de se considerar como se ele próprio tivesse saído do
Egipto, já que está escrito: Explicarás ao teu filho naquele dia, dizendo: ‘É pelo que o
Senhor fez em meu favor quando sai da terra do Egipto’. Por isso, estamos obrigados a
dar-lhe graças, louvá-lo, cantar, magnificar, exaltar, glorificar, bendizer aquele que fez,
em favor dos nossos antepassados e por nós, todos estes prodígios. Ele conduziu-nos da
escravidão à liberdade, da tristeza à alegria, do luto à festa, das trevas à luz, da
escravidão à redenção. Cantemos em Seu louvor, Aleluia”.

Esta dimensão escatológica da festa é aquela que melhor se coaduna e que mais
facilmente foi assumida pela liturgia cristã. De acordo com os Evangelhos Sinópticos, o
próprio Jesus tinha consciência da dimensão escatológica da Sua ceia pascal, quando
após a bênção da taça do vinho acrescenta: “Eu vos asseguro que já não beberei do fruto
da videira até ao dia em que o beba de novo no reino de Deus (Mc 14,25)” (4). Jesus
não só conferiu à refeição pascal com os discípulos este sentido escatológico, mas
também a própria comunidade cristã primitiva encontrou aqui a ‘chave de leitura’ da
vida do Mestre. O seu sangue, tal como o do ‘cordeiro pascal’, selou uma nova aliança,
a aliança escatológica que fora proclamada pelos profetas e que agora se concretiza no
mistério da sua Páscoa.

b) A Páscoa como nova criação

O judaísmo alexandrino cultivou muito o método alegórico e simbólico na sequência da
tradição platónica. Muitos dos acontecimentos da história do povo de Israel foram
interpretados e comentados como alegorias de realidades futuras ou, então, como
protótipos dos verdadeiros mistérios da salvação (5). Também com a festa da Páscoa
sucede o mesmo. Assim, sendo o mês de Nisãn o primeiro dos meses (Ex 12,2) [6],
Filão de Alexandria interpreta isso como sendo ‘um memorial da origem do mundo’ (7)
e a Páscoa, enquanto festa da primavera, era o memorial da nova criação que Deus
realiza, libertando o Seu povo da escravidão para a liberdade (8). A leitura do Cântico
dos Cânticos (Shir haShirim) que era feita na liturgia pascal confere a esta celebração
um sentido de ‘núpcias festivas’ entre Deus e o Seu povo e dessas núpcias nasce um
povo novo, o povo da aliança. A própria tradição rabínica também interpreta o “êxodo
como uma espécie de criação precedendo o nascimento de Israel” (9), já que para certos
rabinos a origem do mundo teria tido lugar no mês de Nisãn. A própria simbologia dos
pães ázimos’ (os matzot) confere o significado de algo novo, original à celebração,
determinando assim o começo de uma realidade que se inicia sem qualquer mácula, ou
seja, em santidade. O mesmo se pode dizer do ‘ovo’ que se coloca na ceia pascal,
simbolizando a origem da vida, mas também a vida nova da ressurreição. Podemos
dizer que a liturgia pascal é, por ela mesma, um apelo à esperança, não só a Israel, mas
também a toda a humanidade, que se renova num novo dinamismo de libertação. É esta
a mensagem que o texto de Pesh 10,5 nos deixa quando diz que a Páscoa é a passagem
‘das trevas à luz’, passagem que o Targum confirma pondo a noite pascal em ligação
com a noite da criação.

c) A Páscoa e a Aqedah de Isaac
A liturgia judaica, tal como se pode constatar pelo texto do Targum Neófiti a Ex 12,42,
estabelecia uma estreita relação entre a festa da Páscoa e o sacrifício de Isaac. Esta
relação foi também assumida pela liturgia cristã que na noite de Páscoa retoma a leitura
de Gn 22 como um dos momentos mais significativos da história da salvação e pré-
figuração do sacrifício de Cristo, o novo Isaac.

De facto, a teologia judaica sempre interpretou a entrega de Isaac no país de Moriá
como o nascimento do povo de Israel na pessoa do filho de Abraão. É em atenção aos
méritos de Isaac que Israel subsiste aos olhos de Deus. Para o Livro dos Jubileus (18,3),
o sacrifício de Isaac teve lugar a 15 de Nisãn. A intenção do autor dos Jubileus é a de
mostrar que as festas judaicas, especialmente a mais importante de todas – a Páscoa –
tinham já uma origem patriarcal através da concretização do apelo que Yhawé lhe
fizera. Os sete dias da festa de Páscoa eram a ‘memória’ dos sete dias da viagem de
Abraão até ao país de Moriá. O mesmo se pode deduzir desta haggadah a Ex 12,2 que
diz:

“Este mês será para vós o primeiro dos meses (Ex 12,2). O Santo, bendito seja Ele,
designou para os israelitas um mês de redenção no qual eles foram redimidos do
Egipto e no qual eles serão redimidos… Nesse mês nasceu Isaac, e nesse mês ele foi
‘ligado’” (10).

No entanto, a relação simbólica entre os dois acontecimentos não se restringe apenas à
data; é muito mais profunda. Assim, o cordeiro pascal recorda o cordeiro sacrificado por
Abraão em substituição do próprio filho, embora, como diz o Targum, Isaac é o
verdadeiro cordeiro para o sacrifício. Ele mesmo, quando está a ser atado ao altar,
suplica ao pai para que o ate bem, já que não quer remexer-se nem manifestar qualquer
recusa da sua entrega, a fim de que o seu sacrifício não seja inválido e desta forma Israel
possa ser redimido pelos seus méritos. Isaac é assim a perfeita imagem do ‘cordeiro
pascal’ que se oferece para merecer a salvação para Israel. Por sua vez, o Targum de Lv
22,27 reconhece que os cordeiros oferecidos no Templo o eram para ‘fazer memória’ do
sacrifício de Isaac. Desta forma, Isaac é o protótipo do crente israelita que se entrega a
Deus para expiar o pecado do mundo, tal como outrora ele se oferecera no altar. Foi em
atenção ao sacrifício de Isaac que Yhawé preservou, na noite pascal da libertação
através do sangue do cordeiro, os primogénitos dos israelitas.

Esta teologia fundada na Aqedah de Isaac foi também desenvolvida pelos autores
cristãos que a aplicaram ao sacrifício de Cristo, tal como nos mostra Melitão de Sardes
no seu Peri Pascha. O facto do judaísmo pós-rabínico e moderno ter transferido o
memorial da Aqedah de Isaac para a festa de Rosh haShanah (festa do ano novo, no mês
de Tishri) pode ser uma consequência da apropriação feita pelo cristianismo do tema do
sacrifício de Isaac e da sua releitura como chave interpretativa do sacrifício de Cristo,
novo Isaac.

Da Páscoa Judaica à Páscoa Cristã
No calendário das festas cristãs, a Páscoa é a maior de todas. Embora não ocorra num
dia fixo, como acontece com o Natal, a Páscoa celebra-se num Domingo do início da
Primavera, como acontece também na tradição judaica. Aliás, é na tradição judaica que
os cristãos enraizaram esta celebração porque os textos do Novo Testamento, tanto dos
Evangelhos como de S. Paulo, remetem os acontecimentos da morte e da ressurreição
de Jesus para o contexto da Páscoa judaica.

As origens da celebração da Páscoa judaica não são de todo claras. A opinião mais
seguida afirma que, nos inícios, antes da própria chegada dos israelitas à terra de Canaã,
existiria uma dupla festa: a da páscoa e a dos pães ázimos, ambas celebradas na
primavera. A primeira, própria das populações nómadas, seria celebrada por pastores e
consistia na oferta de um cordeiro à divindade, de um ano de idade, para que, por meio
desta oferta, os favores divinos se fizessem sentir dando novamente o número de
cordeiros necessários para compor os rebanhos e assegurar a subsistência das famílias.
A segunda, celebrada pelas populações sedentárias, consistia na eliminação de todo o
fermento (da farinha velha) comendo durante sete dias pão ázimo (sem fermento) para
augurar assim novas e grandes colheitas.

Quando os israelitas chegaram a Canaã tiveram conhecimento destas festas, assumiram-
nas e deram-lhe um novo significado, fruto da sua experiência histórica. Para eles, o
maior acontecimento foi o que sucedeu também numa primavera: a libertação do Egipto
por acção de Deus e que culminou com a chegada e instalação na terra que havia sido
prometida aos antepassados. Nessa altura, ter-se-iam unido estas festas, e Israel
projectou nelas a sua própria experiência: o cordeiro passa a representar a salvação
operada por Deus que livrou os israelitas do extermínio pois o seu sangue assinalou as
casas que haveriam de ser poupadas e a refeição com a carne do cordeiro é o memorial
desse acontecimento libertador; os pães ázimos recordam que Israel teve de fugir à
pressa, a tal ponto que o pão não teve tempo de fermentar.

Assim como as origens agrícolas da festa celebravam a passagem do velho, portador da
morte, para o começo do novo, portador da vida, assim também Israel interpreta estes
símbolos em termos históricos: como a natureza passa da morte para a vida, assim o
povo passou da escravidão para a liberdade; não porém, de forma automática, mas
comprometendo-se a seguir um caminho de solidariedade e de responsabilidade, criador
de uma nova identidade ao serviço do Senhor.

Supõe-se que, no princípio, esta festa fosse uma festa celebrada em família (ver Ex
12,3-4.21-23). Mas no memorial do êxodo e da libertação cada um torna-se solidário
com todas as gerações de oprimidos: “de geração em geração, cada homem deve
reconhecer-se a si mesmo, como se tivesse saído do Egipto”. Este sentimento de
solidariedade e as transformações históricas levaram a que no século VII a.C. esta
recordação e actualização se convertesse numa festa nacional e se passasse a celebrar no
templo de Jerusalém. Ao tempo de Jesus, era no templo que se imolavam os cordeiros.
Como é que desta Páscoa judaica surge a Páscoa cristã? A razão da mudança está em
Jesus. Como bom judeu, ele celebrou certamente a Páscoa segundo o ritual judaico do
seu tempo. Mas houve uma ocasião singular em que, no decorrer da celebração de uma
Páscoa, Jesus reuniu os seus discípulos em Jerusalém, antes de ser morto e, durante a
refeição pascal, pegou no pão e no vinho e deu-lhes um novo significado. Os discípulos
entenderam que aquelas palavras e o sentido daquela ceia eram totalmente novos,
sobretudo depois que Jesus foi morto e ressuscitou. Para eles já não fazia sentido outro
cordeiro depois que Jesus foi imolado na cruz: foi Ele que, com o seu sangue, nos
salvou. E o modo de tornar presente este acontecimento salvador é a refeição, à maneira
da que Ele celebrou antes, e onde o pão e o vinho, pelas suas próprias palavras,
significavam a entrega da sua pessoa para a salvação de todos. É isto que a Igreja
continua a fazer em cada Domingo, Páscoa semanal e, uma vez por ano, nos inícios da
Primavera, na festa da Páscoa.

Páscoa
Todos os cristãos sabem que Páscoa é o aniversário da ressurreição de Jesus. Muitos
ignoram que Páscoa foi uma festa, uma grande festa, muito antes de Jesus no mundo.
O Evangelho, entretanto, nos convida a nela reflectir. Ele não nos diz somente que cada
ano Jesus ia a Jerusalém para a festa da Páscoa; ele não fala somente que a paixão, a
morte e a ressurreição de Jesus tinham lugar durante as festas da Páscoa; ele nos mostra
o Cristo ensinando seus discípulos que "sua hora", era aquela da Páscoa: "Desejei
ardentemente comer esta Páscoa convosco". A Páscoa cristã saiu da Páscoa judaica
como de uma velha árvore um ramo cheio de seiva.
A Igreja aí não se engana. Durante a Semana Santa e especialmente na 6 a Feira e Sábado
Santo, ela multiplica suas alusões à antiga Páscoa. Se queremos com ela celebrar a
Páscoa Cristã, precisamos olhar a Páscoa judaica e retomar, para ultrapassar, a emoção e
a alegria dos judeus de quando eles iam cada ano a Jerusalém para festejar a Páscoa.

1. A PÁSCOA JUDAICA

Naquele tempo, quer dizer, doze ou catorze séculos antes de Jesus Cristo, os judeus
eram escravos no Egipto, sujeitos a duros trabalhos. O rei do Egipto, o Faraó, havia
ordenado fossem mortas todas as crianças do sexo masculino. Ele queria exterminar a
raça. Fatos recentes nos permitem compreender a grosseria da luta e o drama horrível
das famílias.

Deus intervém para salvar este povo, e não somente para salvar, mas para lhe dar uma
missão. Porque este povo devia preparar no mundo a vinda do Messias.

A libertação se faz em três tempos: (Ex 12,1-14; 21-28)

1- Uma preparação misteriosa. Sob a ordem de Deus em cada família, matava-se um
cordeiro e comia-se um cordeiro e comia-se às presas depois de ter colocado seu sangue
nos batentes das portas.

2- Uma situação desesperadora. Logo após esta ceia o povo colocar-se-ia sob a
condução de Moisés. Mas Faraó e seus exércitos alcançaram os judeus no momento em
que eles chegaram no Mar Vermelho. Encurralados no mar, sem armas, eles vão ser
aniquilados. Os sobreviventes deveriam se sujeitar a uma escravatura pior ainda que
aquela que já conheciam.
3- Um milagre se processa. É então que Moisés, sob a ordem de
Deus, estende a mão em direcção ao mar, e as águas se abrem para
dar passagem aos hebreus. Assim que eles terminaram de passar e
que Faraó quer tomar o mesmo caminho, o mar volta ao seu
percurso matando os egípcios e todo seu exército. A alegria brilha.
Um cântico de dação de graças ecoou. O povo está são e salvo, é
livre. Vai assim caminhar para a Terra Prometida.
b) Uma Festa anual
A passagem do Mar Vermelho é a maior data histórica
nacional dos judeus e uma das maiores da história religiosa do
mundo.

Este dia, graças à intervenção de Deus, os Judeus passaram (Páscoa quer dizer
passagem) da escravidão à liberdade, do exílio à pátria, da terra dos ídolos àquela do
verdadeiro Deus, do país de escravidão à terra prometida. Ontem eles esperavam a
morte, hoje a vida lhes é dada. Um tal acontecimento não poderia ficar na sombra.

Cada ano, na data do aniversário da passagem do Mar Vermelho, os judeus se dirigiam à
Jerusalém para ir celebrar uma festa: a Páscoa. Como outrora seus pais, antes de deixar
o Egipto, eles refaziam a misteriosa preparação, comiam um cordeiro, o cordeiro pascal;
depois durante a ceia, cantavam como seus pais outrora, depois da passagem do Mar
Vermelho, salmos de louvor a Deus que libertou seu povo.

2. A PÁSCOA DE CRISTO

Cada ano, Jesus celebrava a festa da Páscoa e comia o cordeiro pascal. Mas ele sabia o
que significava este alimento misterioso. Era Ele, o verdadeiro Cordeiro de Deus cujo
sangue derramado sobre o madeiro da Cruz nos abriria caminho do céu. Uma Páscoa,
uma outra passagem o esperava. Leiamos um
trecho do evangelho de São Lucas, que nos
coloca dentro desta realidade (Lucas 22,7-20).
É o início da Páscoa de Cristo...

a) Uma preparação misteriosa. Na Quinta-
feira Santa, com seus discípulos, ele toma a
ceia pascal, primeira vez celebra a eucaristia.
Ceia misteriosa também.

b) Uma situação desesperadora. Na Sexta-feira Santa, depois
de uma agonia, dois processos, a flagelação, o coroamento de
espinhos e a pregação na cruz, ele morre. Todas as esperanças
desaparecem. Tudo parece perdido.

c) Um milagre sem precedente. Mas na manhã da Páscoa,
Jesus ressuscitou. Ele só passou pela morte para entrar na
vida. Passou agora da morte à vida, da vida do tempo aquela
da eternidade, da escravidão para a liberdade, do sofrimento para a alegria, da terra dos
ídolos àquela de seu Pai, do exílio à Pátria. Esta passagem, esta Páscoa de Cristo, é a
verdadeira Páscoa. A Páscoa antiga não é senão figura da nova Páscoa.

3. A PÁSCOA DOS CRISTÃOS

a) O Baptismo: É o baptismo que nos associa à Páscoa
do Cristo e traz até nós seus benefícios. O baptismo nos
faz passar, nós também, da terra dos ídolos àquela do
verdadeiro Deus, do exílio à Pátria, do Império de Satã
ao reino de Deus, da vida da terra àquela do Espírito, da
escravidão do pecado para a liberdade dos filhos de
Deus. Ele nos introduz na Igreja, de que a terra
prometida era uma figura. Ele nos faz passar da morte
do pecado à vida da graça. Como a primeira Páscoa, ele
se opera na água. Como a Páscoa do Cristo ele nos dá a
vida eterna.

b) Uma Festa anual: A festa da Páscoa é a grande celebração anual da Páscoa de Cristo
e do Baptismo. Toda a nossa liturgia nos convida a seguir, passo a passo, os gestos de
Cristo durante os últimos dias de sua vida mortal e
durante as primeiras horas de sua ressurreição. E quando
chega o momento mais solene desta semana, no ofício
do Sábado Santo, o Baptismo se torna a grande
preocupação da Igreja. Pelo Baptismo nós reproduzimos
a morte e a ressurreição de Jesus. Páscoa é um
aniversário. Muito mais que um aniversário. Da mesma
forma que os judeus, celebrando a sua Páscoa, davam
graças a Deus por sua libertação, assim também durante
os dias da grande Semana da Páscoa, nós louvamos a
Deus que nos resgatou e que faz de todos nós o seu
povo. E desde já, sabendo que a paixão, morte e
ressurreição de Cristo nos merecem o céu, nós
aspiramos por esta última Páscoa, que, um dia fará todos
os baptizados entrarem no canto de acção de graças na verdadeira e definitiva Terra
Prometida.

Os dias da Semana Pascal formam um todo. Páscoa não é um dia. Páscoa é uma
passagem. A passagem da vida, restrita no tempo, à vida, marcada pela eternidade. A
celebração desta passagem, na liturgia da Páscoa, começa no Domingo de Ramos e
caminha até a aurora da ressurreição. Não se deve separar o que Deus uniu. Não se deve
olhar a cruz sem antever a ressurreição. Não se pode contemplar o Cristo Ressuscitado
sem ver o seu corpo glorioso marcado pelas cicatrizes da Paixão. São os sinais da sua
passagem pela morte. São as provas irrecusáveis de que ele nos mereceu a graça de
passar da terra dos homens àquela de Deus.

Pe. António Geraldo Dalla Costa, CS

O Concílio de Nicéia Decreta Esse Dia Como Sendo a Data Mais
Remota do Ano Para a Celebração da Páscoa Cristã

Qual é o dia mais importante do ano cristão? Pergunte isso a uma pessoa comum nos
Estados Unidos e você terá chances de ouvir "o Natal". Porém, o Dia da Ressurreição
era o mais importante dos dias cristãos nos primeiros séculos da Igreja.

Ressurreição de Jesus

A Igreja, desde os seus dias mais remotos, celebra, anualmente,
o aniversário da ressurreição de Jesus; e algumas vezes chama-o
de A Páscoa Cristã. (O nome grego para Páscoa é Pasch.)
Mesmo quando os apóstolos estavam vivos os cristãos mudaram
o dia de culto para o domingo porque Cristo havia sido
levantado da sepultura no primeiro dia da semana. Cristãos são,
por vezes, baptizados no Dia da Páscoa.

No segundo século, porém, foi levantado um debate sobre a
época de se celebrar a Ressurreição. Muitas igrejas festejavam a
mesma no domingo mais próximo da Páscoa Judaica. Algumas vezes havia dúvidas
acerca de qual dos dois domingos deveriam ser observados. As igrejas da
Ásia Menor frequentemente observavam a Ressurreição no mesmo dia da
Páscoa Judaica; mesmo quando o dia não caía num domingo. As igrejas em Roma
observavam esse dia em diferentes ocasiões!

Durante os três primeiros séculos da Igreja, por esta estar frequentemente sob
perseguição, não havia tentativas de se estabelecer as Festas Cristãs. Porém, quando
Constantino se tornou imperador, e o Cristianismo já não era mais ilegal, foi possível
considerar mais cuidadosamente a data da Páscoa. Um dos propósitos do Concílio de
Nicéia, em 325 D.C., era o de definir aquela data.

Constantino não queria que a Páscoa fosse celebrada no dia da Páscoa Judaica. Ele disse
que era uma "uma obrigação cristã não ter nada em comum com os assassinos do Nosso
Senhor" (embora tenha ignorado o fato de que a execução de Cristo foi um esforço
comum entre Judeus e Gentios).

Ao Concílio de Nicéia foi requerido determinar que a festa da ressurreição fosse
celebrada num domingo, e nunca no dia da Páscoa Judaica. A Páscoa Cristã seria
celebrada no domingo depois da lua cheia seguida do equinox da Primavera. Isso
significou que a data da Páscoa Cristã iria sempre cair entre 22 de Março e 25 de Abril.
Assim, o dia 22 de Março é a data mais remota na qual a Páscoa Cristã pode ser
celebrada. Porque acontece de haver, de vez em quando, lua cheia no dia 21 de Março, a
Páscoa Cristã não cai sempre nesse dia. A última vez foi 1818. No século vinte ela
nunca foi celebrada nesse dia.

O decreto daquele concílio não foi imediatamente aceito em todos os lugares; e não foi
bem recebido por aqueles que celebravam a ressurreição de Cristo no dia da Páscoa
Judaica. Por causa dessa oposição, aqueles começaram a ser chamados de heréticos. A
confusão também foi causada porque tanto Roma como Alexandria fixaram o equinox
da Primavera (que é o dia naquela estação em que o dia e a noite são iguais) através de
diferentes métodos. Mais tarde, porém, o decreto do Concílio de Nicéia foi aceito por
toda a igreja do Ocidente.

Existe alguma relação entre a Páscoa judaica e a Páscoa
cristã?
Existem alguns paralelos significativos entre os dois feriados. Ambos comemoram a
redenção: Pessach celebra a redenção de um povo, enquanto a Páscoa comemora a
redenção e ressurreição de um homem. Ambas ressaltam a liberdade: Pessach - um povo
libertando-se do cativeiro; Páscoa - um homem libertando-se do pecado e da morte.

O que se comemora em Pessach?

Pessach, a Páscoa judaica, comemora a libertação dos filhos de Israel após mais de dois
séculos de cativeiro no Egipto: sua miséria e sofrimento, a divina missão confiada a
Moisés e seu irmão Aarão, os incansáveis esforços de ambos para conseguirem libertar
seu povo da opressão, a obstinada resistência do Faraó, as pragas que Deus lançou sobre
os egípcios para que o Faraó permitisse a saída dos israelitas, e finalmente sua partida
do Egipto.

O Êxodo do Egipto tornou-se o ponto central da história judaica, pois cristalizou nossa
identidade nacional e marcou o nascimento dos judeus como um povo livre.

De onde vem o conceito do Messias?

A palavra "Messias" vem do hebraico Mashiach, que significa "ungido". Nos tempos
bíblicos, a unção com óleo santo era um ato de consagração. No sentido original do
termo, os "Messias" eram pessoas supostamente encarregadas par Deus para cumprir
uma missão especial, e sua unção expressava o carácter sagrado do seu cargo. Aliás, o
costume da unção com óleo santo persiste até hoje, na coroação de reis e rainhas
contemporâneos.

Com o passar do tempo, firmou-se entre os judeus a ideia Profética de que Deus faria
uma intervenção dramática na história em prol dos seus eleitos, por intermédio de um
descendente do Rei David, que libertaria o povo judeu do cativeiro e o restabeleceria na
Terra de Israel. A palavra Mashiach passou então a significar "o ungido de Deus", o
mensageiro do Todo-Poderoso que traria a redenção, não só para os israelitas, mas sim
para toda a raça humana. Com a vinda do Messias, todos os homens enxergariam uma
nova luz e passariam a viver de acordo com os Ensinamentos Divinos. Cessariam então
a discórdia e a guerra, e a humanidade entraria numa nova era de paz universal.