Para a história do pluralismo na RTP: Análise de deliberações e estudos da AACS e da ERC Francisco Rui Cádima* O comentário político e o pluralismo

político-partidário na informação do serviço público de televisão (RTP) têm merecido por parte dos reguladores da comunicação social – AACS e ERC – alguma atenção nos últimos anos. Propomo-nos nesta comunicação fazer uma análise do conjunto das deliberações e estudos produzidos sobre esta matéria, a fim de concluirmos sobre a aplicação do conceito e sobre as práticas do pluralismo em Portugal por parte do serviço público, ao longo designadamente do período 2002-2008. Pluralismo e concentração É sabido que a noção tradicional de pluralismo nos remete, naturalmente, para o campo clássico dos media, numa leitura que todos concordaremos que está hoje ultrapassada. A questão não é tanto obter a concordância sobre se existiu ou não essa mudança de paradigma. É, sobretudo, caracterizar o conteúdo dessa mudança e, desde logo, a própria evolução do conceito de pluralismo. De facto, como definir hoje o pluralismo, no contexto de transição dos media clássicos para os novos media? É isso que vamos tentar estruturar nesta introdução ao tema. Vejamos então como definir o conceito de pluralismo num quadro epistemológico coerente, pensando ainda no exercício prático da sua monitorização e em função também do enquadramento legal. Num primeiro momento, o pluralismo é interpretado no contexto dos mercados de media e é associado à lei do controlo da concentração, controlo que é exercido pela Comissão Europeia para as operações a nível comunitário e, a nível nacional, no caso português, por três entidades reguladoras, ou seja, pelos reguladores da concorrência, das comunicações e da comunicação social. A dita “preservação do pluralismo” é, nesta primeira instância, como que filtrada através de um conjunto de normas específicas para controlar a fusão de meios de comunicação numa dimensão simultaneamente sectorial e intersectorial, e isto levando prioritariamente em linha de conta a função que os media desempenham, em particular na formação da opinião pública. Pelo que, dizer que se pretende salvaguardar o pluralismo nos media, corresponde vulgarmente a dizer, à partida, e segundo o instituído, que está posto em prática um dispositivo normativo de “não-concentração”, como o legislador português prefere enunciar. No caso português, em termos mais recentes, foi aprovada na Assembleia da República, a 3 de Outubro de 2008, a “Lei do pluralismo e da não concentração nos meios de comunicação social”, proposta pelo Governo1, procurando dar resposta ao preceito
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Departamento de Ciências da Comunicação (FCSH-UNL) O diploma foi aprovado no Parlamento português a 3 de Outubro de 2008, com os votos favoráveis da maioria do Partido Socialista e os votos contra de todos os partidos da oposição, seguindo-se a sua discussão na especialidade na18.ª Comissão da Assembleia da República, enviado depois ao Presidente da
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constitucional que advoga genericamente que é imperativo do Estado assegurar a independência dos órgãos de comunicação social perante o poder político e económico e impedir a concentração das empresas de media, bem como a divulgação da titularidade e dos meios de financiamento dos órgãos de comunicação social.2 É curioso constatar o factor “não meramente económico”, enunciado, ainda que timidamente, nos “motivos” da proposta de Lei em apreço: assim, o executivo “partindo da constatação de que o segmento dos meios de comunicação social, fundamental para o funcionamento da democracia, não constitui um mercado meramente económico, carecendo de uma abordagem legislativa autónoma e complementar face às leis da concorrência, assume como objectivo central a defesa e promoção do pluralismo de expressão e da independência nos meios de comunicação social face ao poder político e económico.”3 Estamos, portanto, no centro da questão: defesa e promoção do pluralismo de expressão no quadro de um mercado que não é, claramente, tal como assumido pelo legislador, “meramente económico”. Vamos tentar ver como é que a proposta de Lei vai ao encontro desse desígnio maior, por assim dizer, e se é ou não consequente relativamente a esse princípio fundamental para a cidadania. Identifica-se, desde logo, que é à ERC que cabe a competência de monitorização das “fugas” ao sistema estabelecido: Será a ERC a «participar, em articulação com a Autoridade da Concorrência, na determinação dos mercados economicamente relevantes no sector da comunicação social; pronunciar-se, nos termos da lei, sobre as aquisições de propriedade ou práticas de concertação das entidades que prosseguem actividades de comunicação social; proceder à identificação dos poderes de influência sobre a opinião pública, na perspectiva da defesa do pluralismo e da diversidade, podendo adoptar as medidas necessárias à sua salvaguarda».4 Esta questão dos poderes de influência merece-nos um comentário específico, que nos parece decisivo não só para o quadro legal, como para o enquadramento e metodologia de monitorização. O facto é que há poderes de influência não somente quando há abuso de posição dominante, mas também quando o não havendo se verificar existir discriminação das vozes autónomas e de elevada competência da sociedade civil e, portanto, não apenas quando haja distribuição equitativa de tempo de emissão entre as vozes do espectro político-partidário. Sabemos, pelos motivos da Lei em presença, que cabe à ERC estruturar “um conjunto de indicadores legais passíveis de aferir o risco da operação de concentração, ou de uma prática proibida, quando justificável, para o pluralismo ou independência” no
República para promulgação, que não promulgou. Regressado à AR, o diploma seria finalmente aprovado com algumas alterações em 15 de Abril de 2009, e na especialidade em 22 de Abril, pela comissão parlamentar de Ética, Sociedade e Cultura (o texto aqui seguido é o da primeira aprovação, dado a comunicação ter sido apresentada ao VI Congresso da Sopcom a 17 de Abril). 2 Cf. n.º s 3 e 4 do artigo 38.º e alíneas b) e c) do n.º 1 do artigo 39.º da Constituição da República Portuguesa. 3 “Proposta de lei do pluralismo e não concentração nos meios de comunicação social” - Exposição de Motivos. Proposta aprovada em Conselho de Ministros de 19 de Junho de 2008. 4 Cf. alíneas o), p) e q) do n.º 3 do artigo 24.º dos Estatutos da ERC aprovados pela Lei n.º 53/2005, de 8 de Novembro.

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sentido de aferir do eventual não cumprimento, pelas empresas, das suas obrigações legais em matéria de pluralismo e independência. Mas qual é exactamente, para o legislador, a “matéria de pluralismo e independência”. Vamos tentar perceber: poderão ser à partida questões relativas à “identificação dos poderes de influência sobre a opinião pública”5; “consequências da eventual concentração de audiências em torno de um só grupo de comunicação”6, que num período de seis meses, as quotas de circulação ou audiência não podem ser iguais ou superiores a 50%; e em matéria de independência na área da informação, retomando princípios estabelecidos no Estatuto do Jornalista, referindo que “a orientação dos órgãos de comunicação social deve ser definida de forma genérica através do estatuto editorial, ficando vedada a intervenção ou intromissão de pessoa que não exerça cargo de chefia ou direcção na área da informação nos conteúdos de natureza informativa”.7 Digamos que estamos ainda longe do problema essencial, que é a própria definição do conceito. Realmente, face a esta “exposição de motivos” ficamos perplexos face a uma ausência substantiva de definição de “Pluralismo”. E mais perplexos ficamos quando no Artigo 1.º - “Objecto e finalidade”, se diz que “1 - A presente lei promove o pluralismo, a independência perante o poder político e económico, a divulgação da titularidade e a não concentração nos meios de comunicação social”, sem que essa definição surja de modo taxativo. Mais perplexos ficamos quando no Artigo 2.º - ele próprio intitulado “Definições”, nada volta a constar especificamente sobre o conceito de “Pluralismo”. Há, entretanto, um ponto de grande relevância, neste novo quadro, que é exactamente o domínio do online.8 Como se pode ver, no Artigo 3.º- “Âmbito de aplicação”, diz-se que estão sujeitos às regras estabelecidas na presente lei as pessoas e empresas que “editem publicações periódicas, independentemente do suporte de distribuição que utilizem”, bem como os “operadores de rádio e de televisão, relativamente aos serviços de programas que difundam ou aos conteúdos complementares que forneçam, sob sua responsabilidade editorial, por qualquer meio, incluindo por via electrónica”, bem como, ainda, “as pessoas singulares ou colectivas que disponibilizem regularmente ao público, através de redes de comunicações electrónicas, conteúdos submetidos a tratamento editorial e organizados como um todo coerente”.9 Onde aparece algo mais específico relativamente ao conceito de “Pluralismo” é na Secção II, intitulada “Da intervenção da ERC no âmbito da concorrência”, onde, no Artigo 18.º, sobre a questão do “Parecer vinculativo”, se diz que (1) tal parecer só é vinculativo “quando verifique existir fundado risco para o pluralismo ou para a independência perante o poder político ou económico” e (2) que a ERC deve proceder à verificação respectiva designadamente em matéria de “a) Existência de expressão e confronto das diversas correntes de opinião; b) Respeito pelo direito de constituição de conselhos de redacção ou por outras formas legítimas de intervenção dos jornalistas na
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“Proposta de lei do pluralismo e não concentração nos meios de comunicação social” - Exposição de Motivos, p. 3. 6 Idem, p. 4. 7 Ibidem, p. 4. 8 De qualquer modo, de acordo com o Artigo 23.º, nº 4, “Quando as empresas destinatárias das medidas de salvaguarda ofereçam redes e serviços de comunicações electrónicas, a decisão final da ERC deve ser precedida de parecer obrigatório, mas não vinculativo, por parte da autoridade reguladora das comunicações.” 9 “Proposta de lei do pluralismo e não concentração nos meios de comunicação social”, p. 8.

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respectiva orientação editorial; c) Existência de mecanismos de salvaguarda da independência dos jornalistas e directores; d) Respeito pelo exercício do direito de resposta ou de rectificação.” E ainda (5) que a ERC “pode ter em conta os antecedentes das empresas em causa, em matéria de respeito pelo pluralismo e de manutenção de independência perante o poder político e económico.” Na verdade, se este último ponto elucida um pouco mais sobre o que é matéria específica do âmbito do pluralismo, o facto é que não dilucida o que pretende dizer com expressões essenciais para o esclarecimento do problema, e que a serem escrutinadas a partir de um modelo analítico redutor, menorizando a amplitude do seu significado no âmbito da experiência da cidadania, acabam por não ter o efeito que aparentemente o legislador pretende, mantendo assim zonas relativamente cinzentas em matéria conceptual, as quais, naturalmente, em vez de serem efectivamente um modelo de regulação serão fundamentalmente um obstáculo à própria liberdade editorial e de expressão. Entre elas, veja-se, designadamente, a expressão “correntes de opinião” (serão correntes político-partidárias, só políticas, político-sociais, culturais?… etc.); e veja-se ainda que o corpo da lei tão pouco dilucida o que sugere como “independência perante o poder político e económico”. De que independência política se tratará quando é uma evidência que, por exemplo, a administração dos meios de comunicação social públicos é nomeada pelo “accionista” Estado, que por sua vez tutela o sector, sem que haja qualquer intervenção independente, e sem, tão pouco, um parecer prévio da ERC, tal como esta entidade pretendia, “de forma a garantir a ‘transparência da independência’ e a ‘coerência jurídica’ do processo”?10 Mais: de que independência política se tratará quando, por exemplo, há reguladores que emergem dos próprios regulados (no caso particular do sector público)?11 E face ao económico, de que independência se tratará? No plano da liberdade editorial de empresas de media detidas por grupos económicos que apenas permitem a “autopromoção” nos seus próprios títulos avessas ao questionamento crítico dos conteúdos de um operador generalista? Da independência das opções editoriais face aos grandes anunciantes e às grandes centrais de compras? Do défice de jornalismo de investigação face aos grupos de interesses e ao tráfico de influências? Da subordinação das práticas jornalísticas à influência de “spin doctors”orientados pelo poder político e económico?
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“ERC quer parecer vinculativo para nomear conselho de administração da RTP” (Público online/Lusa, 19.12.2006). 11 Veja-se que a própria CE tem sido inequívoca face a esta questão. Relendo, por exemplo, o Livro Verde da Convergência, em matéria de pluralismo e diversidade cultural, verifica-se que o sistema de radiodifusão pública nos Estados-membros deve directamente relacionado com as necessidades democráticas, sociais e culturais de cada sociedade e com a necessidade de preservar o pluralismo nos meios de comunicação. (...) E sobre a independência do regulador diz-se: "(...) A independência na regulamentação é particularmente importante nos casos em que o Estado detém uma participação num dado interveniente no mercado" (p. 45). Da mesma forma, a própria Comissão Europeia tem sido muito clara mantendo que quer reguladores independentes dos governos e dos operadores: “En ce qui concerne l’indépendance des autorités de régulation, la présidence a proposé d’ajouter dans un considérant une référence à la faculté pour les États membres de créer des organismes de régulation nationaux indépendants. Ceux-ci devraient être indépendants des gouvernements nationaux ainsi que des opérateurs” (in Communication de la Comission au Parlement Européen) conformément à l’article 251, paragraphe 2, deuxième alinéa, du traité CE concernant la position commune du Conseil sur l’adoption d’une proposition de directive du Parlement européen et du Conseil modifiant la directive 89/552/CEE du Conseil visant à la coordination de certaines dispositions législatives, réglementaires et administratives des États membres relatives à l’exercice d’activités de radiodiffusion télévisuelle (directive «Services de médias audiovisuels»). Bruxelles, le 18.10.2007 COM(2007) 639 final, 2005/0260 (COD).

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Do controlo de técnicas de “comunicação de crise” e de “gestão do consentimento”, através de verdadeiras centrais de informação e de marketing ou de “RP”, adstritas por vezes mais ao próprio poder político do que ao económico? De tudo isto se pode, portanto, retirar que o não esclarecimento, por parte do legislador, das múltiplas dimensões que a figura de subordinação mediática ao poder político e económico integra, é, portanto, eloquente. Daí ser muito insuficiente, muito redutor, o enunciado no Capítulo V da lei – “Do Exercício da Titularidade”, que no que concerne à “Proibição de interferência na orientação editorial”, começa por referir (Artigo 26.º, nº 1): “A orientação dos órgãos de comunicação social deve ser definida de forma genérica, através da aprovação, nos termos da lei, de um estatuto editorial, ficando vedado a qualquer pessoa que não exerça cargo de direcção ou chefia na área da informação, a emissão de directivas, instruções ou qualquer tipo de intromissão que incida sobre os conteúdos de natureza informativa veiculados ou sobre a forma da sua apresentação.” Ora todos certamente temos pelo menos uma leve ideia de como se abatem hoje sobre os media, vindas do exterior, todo um conjunto de pressões, e por vezes mesmo de ameaças e chantagens que são claramente limitadoras da liberdade editorial e que conduzem a um fenómeno dos mais críticos para a experiência democrática e para a formação da opinião pública, que é o fenómeno da auto-censura12, por vezes ditas mesmo de “medo” nas redacções. Este aspecto central de toda esta questão, curiosamente, ou não, passa também ao lado do pensamento do legislador. Como passa ao lado do próprio regime sancionatório, não estando previsto nos “ilícitos”, no quadro das contra-ordenações muito graves, graves e leves. Em nenhuma delas… Veja-se ainda também o Artigo 21.º - “Demonstração da inexistência de risco para o pluralismo e a independência”, onde, após constatação e notificação por parte da ERC de abusos de posição dominante verificados, a empresa em causa pode demonstrar o cumprimento das obrigações legais relativas ao pluralismo e à independência, não só em relação aos referidos acima (Artº 18º), como de outros, a saber: “a) Diversidade das orientações editoriais dos órgãos de comunicação social por si detidos; b) Existência de instrumentos de auto-regulação, tais como livros de estilo, códigos de conduta, provedores dos leitores, ouvintes, telespectadores, ou outros; c) Disponibilização de espaço ou de tempo de programação específicos a minorias”, sendo que havendo neste complemento matéria relevante no âmbito do cumprimento do pluralismo, a cumprir-se este modelo tal como está enunciado de forma dispersa, estaríamos ainda perante um modelo deficitário de cumprimento do pluralismo na sua mais lata acepção. Não encontrando na lei uma resposta clara e cabal à noção de pluralismo, ampla e forte, que venha ao encontro da emergente democracia participativa e deliberativa e também à nova experiência da cidadania, importa então tomarmos a tarefa em mãos e especificarmos um pouco melhor a questão do “conceito”, tal como julgamos que melhor se tipifica no contexto complexo dos media tradicionais face à Babel dos novos media e do digital, enquadrando a reflexão historicamente no âmbito do quadro regulatório nacional. Mas sobretudo levando em linha de conta esse aspecto decisivo já por nós referido, de que a verificação dos poderes de influência dos media ou se faz
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De referir que se pode pensar a autocensura nas práticas jornalísticas com efeitos idênticos a uma censura institucional, como defendia Edward Herman no seu artigo “A diversidade de notícias: ‘marginalizando’ a oposição”, in Jornalismo, Questões, Teorias, Estórias, N. Traquina (org.), Vega, 1993, p. 215: «A autocensura, as forças do mercado e as normas das práticas noticiosas podem produzir a manter uma perspectiva particular tão eficazmente como uma censura formal do Estado".

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prioritariamente através da análise do seu conteúdo ou ficará apenas limitada à questão da posição dominante num determinado mercado. É interessante ver como o Presidente da República (PR), na sua mensagem sobre o tema13, a propósito da devolução do diploma relativo à aprovação da Lei do pluralismo, embora tenha considerado – do nosso ponto de vista, sem o ter feito de forma fundamentada – que não parece existir entre nós “um défice de pluralismo da comunicação social que justifique a premência da emissão de um diploma desta natureza”, refere a questão central do problema: “O presente diploma, nos seus artigos 20º e 21º, parte de duas ideias essenciais: (1) a de que maior audiência é sinónimo de maior influência; (2) a de que a maior influência equivale necessariamente a um risco para o pluralismo e para a independência. Ora, nenhuma destas ideias se encontra demonstrada. Ainda que com escassa audiência, uma publicação pode ser extremamente «influente». E o facto de ser «influente» não significa menor independência – tal capacidade de influência pode decorrer justamente da sua marca de pluralidade e de independência em face do poder. Ao invés, a circunstância de uma dada empresa ter uma grande aceitação por parte do público não significa necessariamente que ela seja menos independente – o sucesso que possui pode justamente conferir-lhe maior solidez e, logo, maior independência face ao poder político ou outros poderes.” O PR acrescentava que a lei em causa poderia estar desadequada basicamente por três ordens de razões: i) porque decorria no âmbito da Comissão Europeia um estudo sobre o problema do pluralismo e da sua monitorização na Europa; ii) porque se tratava de uma matéria atinente ao domínio da liberdade de expressão que deveria estar consensualizada no quadro parlamentar numa dimensão idêntica à da própria entidade reguladora, na base do voto favorável de 2/3 dos deputados; iii) também a questão da densidade e fiabilidade dos indicadores: “daí que uma medida deste género só devesse ser aplicada após se ter obtido um reconhecimento generalizado dos instrumentos de aferição”. O PR referia ainda que uma das debilidades estruturais do mecanismo de assenta no modo de “averiguação dos poderes de influência” dado que se pretende “aferir um elemento qualitativo, difuso e algo intangível (a “influência”) através de padrões quantitativos que são aferidos por procedimentos técnicos que, nesta fase, ainda não possuem uma fiabilidade completa, necessitando de ser ‘reconhecidos pelo meio’.” No citado documento, o PR aproxima-se da verdadeira questão crítica da monitorização do pluralismo, sem contudo a identificar de forma cabal. A questão está, de facto, no poder de influência e nos instrumentos de medição, mas deve ser vista e regulamentada fundamentalmente através da análise do discurso dos media, bem como através da análise da pluralidade e diversidade das vozes dos sujeitos de enunciação, e não através da maior ou menor presença num determinado mercado relevante. Naturalmente, deverão existir limites à propriedade e à concentração dos media, mas esses limites, só por si, não são suficientes nem para legitimar a existência de pluralismo num determinado sistema de media, nem, muito menos, para permitir a identificação de um qualquer órgão de comunicação social como sendo inequivocamente pluralista.
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Ver “Mensagem do Presidente da República, a propósito da devolução do diploma relativo à aprovação da Lei do pluralismo e da não concentração dos meios de comunicação social”, de 2 de Março de 2009. http://www.presidencia.pt/?idc=10&idi=24646

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O pluralismo “redutor” O pluralismo nos media servirá tanto mais e melhor a opinião pública e a cidadania – e portanto a experiência democrática –, quanto mais amplo for o seu espectro. Quando escrutinado apenas do ponto de vista da posição dominante de mercado ou das “vozes” do tradicional sistema político-partidário isso significa que estamos perante uma noção de pluralismo muito redutora do próprio processo democrático e da experiência da cidadania. Vejamos três exemplos da história recente portuguesa que identificam, ainda que de modos diferentes, aquilo que acabam por ser “reduções” do conceito. A avaliação do desempenho da televisão do Estado feita pela ERC no “Relatório Intercalar de avaliação do pluralismo político-partidário na informação diária e não diária do serviço público de televisão”, surgido por sua vez em complemento ao anterior Relatório de avaliação do pluralismo referente a 200714, divulgado em Março de 2008, avaliação que consta da Deliberação 2/PLU-TV/200815 veio introduzir a discussão da questão do conceito redutor de pluralismo. E de novo a questão também da continuada limitação do comentário político na RTP1 ao chamado “bloco-central”, através de Marcelo Rebelo de Sousa, (aos Domingos) e de António Vitorino (às Segundas-feiras).16 Curiosamente, ainda que de forma um pouco envergonhada e claramente abaixo de todas as expectativas, este “monopólio” do comentário político só a partir de 20 de Março de 2009 foi alterado pela Direcção de Informação da RTP1 com a entrada de um novo programa na grelha do género “frente-a-frente” – o “Antes pelo Contrário”, com um leque de comentadores constituído por Garcia Pereira, Bagão Félix, José Manuel Pureza e um quase desconhecido – Carlos Rabaçal, ex-membro do Comité Central do PCP.
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Sobre esse primeiro relatório publicámos um artigo de opinião no Público, de 1.04.2008, intitulado “O ‘cerco’ ao Pluralismo”, onde alertávamos para o essencial: “(…) A avaliação do pluralismo na televisão pública, numa sociedade democrática, não pode ficar circunscrita ao plano político-partidário, sob pena de se perder a referência a uma dimensão mais alargada da Cidadania, integrada pelos grandes pensadores, académicos, actores sociais de referência, associações e organismos não-governamentais, etc., que são determinantes na nova esfera pública da democracia deliberativa e no reforço da opinião pública (…). De fora ficou o mais importante – aquilo que se pode interpretar como um “cerco” ao pluralismo: o não-lugar das vozes independentes, o défice de virtude civil, a actualidade trágica e o “faitdivers” como legitimação, os mimetismos informativos, a orientação das agendas e alinhamentos, a falta do jornalismo de investigação, enfim, a institucionalização da informação, que é, no fundo, um incumprimento da Constituição.” 15 Documento datado de 24 de Setembro de 2008, disponível online no site da ERC, em http://www.erc.pt/index.php?op=vernoticia&nome=noticias_tl&id=181 16 Não deixa de ser curioso verificar que esta posição da ERC surgia 32 meses depois (!) de dois dos seus membros terem abordado o assunto pela primeira vez. Veja-se o artigo “Membros indigitados para novo regulador dos media criticam comentário político da RTP” (Público online, 25.01.2006): “Dois dos quatro membros indigitados para o conselho regulador da entidade que irá controlar o sector dos media criticaram hoje, em comissão parlamentar, o modelo de comentários políticos da RTP, que consideraram ‘insatisfatório’ e ‘redutor’. “Para Estrela Serrano e Rui Assis Ferreira, o facto de os comentários políticos serem feitos apenas por duas figuras proeminentes dos dois principais partidos – Marcelo Rebelo de Sousa, do PSD, e António Vitorino, do PS –, representa uma situação ‘insatisfatória’.”

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Uma das observações mais pertinentes então surgidas, aquando da deliberação da ERC, foi a do politólogo Pedro Magalhães, no Público17, que foi claro: “(…) se o que está em causa é a ‘expressão e o confronto das diversas correntes de opinião', por que não dar peso igual a cada partido? E porquê pensar apenas nos partidos, e não em associações, grupos de interesse, minorias étnicas e religiosas, orientações sexuais, géneros, idade ou outra coisa qualquer susceptível de estar relacionada com diferentes preferências e opiniões? Espero que se perceba que estas perguntas são retóricas e que não defendo qualquer um dos métodos anteriores. Elas têm como mero objectivo demonstrar como o exercício é puramente arbitrário e como é simplista a interpretação adoptada pela ERC do conceito de ‘pluralismo político’.” Pedro Magalhães fazia também no seu artigo algumas sugestões aos reguladores, a mais importante das quais era justamente que repensassem “o que significam pluralismo, rigor e imparcialidade”, concluindo que “a transformação dos noticiários e da informação não-diária em ‘tempos de antena’ partidários impostos com critérios simplistas e arbitrários não é certamente a resposta. Ela poderá ter até efeitos negativos sobre a qualidade dos conteúdos noticiosos, tornando-os anódinos e indiferenciados. ‘Equilíbrio’ e ‘neutralidade’ não são a mesma coisa - e são certamente menos importantes - que rigor e objectividade.” Um segundo exemplo. Diria que mais incisiva do que o estudo da ERC relativo a 2007 Pluralismo Político-Partidário na RTP em 2007 - mantém-se ainda a Deliberação da AACS de 25 de Maio de 2005, sobre queixa alegando violação do dever de pluralismo a propósito do programa de Marcelo Rebelo de Sousa na qual se expõe claramente o essencial, revendo-se ainda falsas promessas da RTP, anos depois ainda por cumprir, e daí terem voltado à agenda da ERC. Em 2005, portanto, a AACS apreciava uma queixa da cidadã Gisela Rocha Martins, contra a RTP, alegando violação do dever legal do pluralismo, por parte daquele operador de serviço público televisivo, a propósito do programa “As Escolhas de Marcelo”, queixa entrada naquele órgão em 9.02.05. Face à queixa, a Alta Autoridade para a Comunicação Social deliberou: “a) considerar que – independentemente do facto daquele comentador ter o pleno direito de exprimir a sua opinião política – ser ele, com a sua inserção e carreira partidárias, o único comentador com um programa exclusivo na RTP, constitui uma violação por parte desta dos seus deveres legais de pluralismo e de abertura às diversas correntes de opinião; b) chamar a atenção do operador de serviço público televisivo para a necessidade do cumprimento rigoroso do legalmente estabelecido neste domínio; c) instar a RTP no sentido do cumprimento do anunciado propósito do Director de Informação (Luís Marinho, na altura), contido no seu esclarecimento entrado neste órgão em 17.05.05, de utilizar sucessivos comentadores políticos, ao longo da semana; d) acentuar uma vez mais – na sequência de outras tomadas de posição deste órgão relativas a debates e comentários políticos – que o pluralismo muito obviamente envolve as diversas correntes de opinião que exprimem e constituem a sociedade democrática”. Alteração que, como vimos atrás, só em Março de 2009, seria minimamente atendida pela RTP, mas ainda de forma insatisfatória, até pela não rotatividade de comentadores e pala não presença de outras vozes exteriores aos sistema político-partidário.

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Pedro Magalhães, “O pluralismo político-partidário, segundo a ERC”, Público, 7 de Outubro de 2008.

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Um terceiro caso, de Dezembro de 2002, ainda em matéria de comentário político, foi analisado na “Deliberação sobre a curialidade ético/legal do comentário político residente na RTP”18 aquando da "residência" de Pedro Santana Lopes e José Sócrates ambos políticos em actividade e ambos altos dirigentes dos seus Partidos, sendo o primeiro Presidente da Câmara Municipal de Lisboa e o segundo deputado. Tendo apreciado, por sua iniciativa, o espaço de comentário político residente apresentado pela RTP1 nos seus telejornais dos domingos, encarando-o na óptica da sua curialidade ético/legal e das obrigações de serviço público que incumbem à RTP, a Alta Autoridade para a Comunicação Social deliberou: “a) Considerar que constitui um desiderato prioritário do operador público o de promover, com regularidade e qualidade, programas ou episódios de comentário político e de debate político/partidário, de modo a assim contribuir para a informação e o esclarecimento políticos dos cidadãos; b) Chamar no entanto a atenção da RTP para a necessidade de preparar com o maior cuidado os formatos desses espaços e desses episódios, visando por um lado evitar a confusão de estatuto entre o comentário político, que subentende isenção, e o debate político, que envolve disputa assumida entre as diferentes sensibilidades político/partidárias, bem como, por outro lado e ainda, impedir o afunilamento da opinião política transmitida, o que violaria o dever de pluralismo que vincula a concessionária do serviço público de televisão.” Estes três exemplos, para além de configurarem uma regular e continuada, grave (apesar de sem consequências) violação do dever de pluralismo “político-partidário” por parte de um operador se serviço público, a RTP, em particular em diferentes momentos ao longo do período 2002-2008, colocam também a questão da necessidade de uma visão mais complexa e ampla do que significa o conceito de “pluralismo”. Digamos que não há sequer necessidade de citar um qualquer intelectual de uma qualquer escola crítica para sublinhar um tal desígnio. Basta citar a própria Comissão Europeia em referência, portanto, ao tema do pluralismo nos meios de comunicação. A Comissão sublinha, nomeadamente, a necessidade de transparência, liberdade e diversidade no panorama dos meios de comunicação da Europa: "A comunicação – entendida como um debate animado e civilizado entre cidadãos – é o elemento vital da democracia. Os meios de comunicação são as veias e artérias. As informações que estes facultam devem ser abrangentes, diversificadas, críticas, fiáveis, justas e de confiança. (…) A noção de pluralismo dos meios de comunicação é muito mais abrangente do que a propriedade dos meios de comunicação; refere-se ao acesso a informações variadas, de modo a que os cidadãos possam formar opiniões sem serem influenciados por uma fonte dominante. Os cidadãos precisam também de mecanismos transparentes que garantam que os meios de comunicação sejam considerados genuinamente independentes.”19 Nada a acrescentar. Naturalmente, poder-se-ia – e dever-se-ia – ir mais além. Poder-seia, inclusive, dizer que mais grave ainda do que a eternização na RTP/1 da dupla “Marcelo/Vitorino”, é a assunção de um conceito redutor de pluralismo. Um dos problemas da TV pública portuguesa – e designadamente do seu principal canal, a RTP1 – é que “apaga”, em particular no seu prime time, aquilo que a Deliberação da AACS de
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“Deliberação sobre a curialidade ético/legal do comentário político residente na RTP”, aprovada em reunião plenária da Alta Autoridade para a Comunicação Social, em 4 de Dezembro de 2002. 19 “Pluralismo dos meios de comunicação: a Comissão sublinha a necessidade de transparência, liberdade e diversidade no panorama dos meios de comunicação da Europa”, IP/07/52, Bruxelas, 16 de Janeiro de 2007.

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25.5.05 enunciava discretamente (sobre queixa alegando violação do dever de pluralismo a propósito do programa de Marcelo Rebelo de Sousa), ou seja, que o conceito de pluralismo na sua dimensão plena envolve “as diversas correntes de opinião que exprimem e constituem a sociedade democrática”. O que significa, do nosso ponto de vista, pensar na “opinião” em geral, sobretudo na opinião abalizada e distinta, de elevada competência nos diferentes sectores da sociedade e não somente na opinião político-partidária. De facto, para que as múltiplas vozes de grande mérito da sociedade portuguesa – de intelectuais, académicos, artistas, sociólogos, politólogos, pensadores, ecologistas, etc., etc., etc., ascendam à dignidade mediática no Serviço Público de Televisão, necessitam desde logo que seja a RTP1, o seu principal canal, a reconhecer essa sua dimensão “patrimonial” de decisivo valor e conselho estratégico, reflexivo, para a sociedade portuguesa, quer na interpretação da actualidade, quer na antevisão do futuro próximo, quer ainda no alerta para as crises desta democracia envelhecida e do transpolítico (crise do paradigma do progresso, crise da sociedade de abundância, crise social, financeira, climática, de valores, de autoridade do Estado, de regulação independente face ao Estado, etc., etc.). De facto, o fenómeno de “esquecimento” do pensamento português contemporâneo, por parte da RTP1, de forma mais gravosa na faixa de prime time e também nos telejornais, e nas diferentes áreas de actividade, integra um inaceitável “não-dito”, um enorme efeito de censura que se auto-reproduz quotidianamente, na informação e não só, o que vem reforçar o torpor reinante e os nevoeiros da “não-inscrição” de que falava José Gil20. Reafirmando a “cultura da irrelevância”, como lhe chamou José Pacheco Pereira: “A cultura da irrelevância está impante como nunca, espectáculo e pathos brilham no sítio que anteriormente ainda era frequentado, de vez em quando, pela razão, pelo bom senso, pela virtude. Esta é, obviamente, a melhor comunicação social, a melhor televisão para os governos, e o actual cuida bem que não lhe falte dinheiro para as suas quinhentas horas de futebol. Compreende-se: a bola não pensa, é para ser chutada.”21 Por seu lado, o sociólogo António Barreto, na mesma linha, escrevia: “Os serviços de notícias dos três canais ditos ‘generalistas’, sem excepção, são cada vez mais divertimento e espectáculo e cada vez menos informação. Desapareceram os comentários inteligentes e informados. Foram-se os especialistas que podem ajudar a compreender. Acabou o recurso a documentação e arquivo que permita colocar os factos em contexto e percebê-los melhor. A explicação serena e fundamentada foi abolida. As notícias internacionais, quando há, foram resumidas a rumores e resumos incompreensíveis, a não ser que se trate de terrorismo, pedofilia ou grande desastre. As notícias deixaram de ter o tempo necessário de reflexão. Os jornalistas fazem cada vez menos a ‘edição’ das ‘peças’, das imagens e das reportagens dos ‘enviados’ e ‘metem os brutos’, isto é, põem no ar as sequências em bruto, tal como chegaram dos ‘enviados’ ou das agências.”22 Ora, o que sucede, justamente, não anda longe daquilo que Antonio Tabucchi23 referia quando reconhecia que a intervenção dos intelectuais, a sua voz crítica, é actualmente
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José Gil, Portugal Hoje, O Medo de Existir, Relógio d’Agua, Lisboa, 2004. José Pacheco Pereira, “Futebol, futebol, futebol, fumei, pequei, vou deixar de fumar, a Esmeralda entre o pai afectivo e o pai biológico, futebol, directo do acidente na A1 que provocou três feridos, os pais da pequena Maddie, futebol, tenho um cancro-tive um cancro-vou ter um cancro, futebol, futebol, futebol”, Público, 17 de Maio de 2008. 22 António Barreto, “Futebol”, Público, 4 de Maio de 2008. 23 Antonio Tabucchi, “Intervenção dos intelectuais é ‘apagada’ pelo poder dos ‘media’”, Lusa/Sol online, 12 de Agosto de 2008.

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apagada “pelo imenso poder dos meios de comunicação”. Não anda longe, tão pouco, daquilo que Mario Perniola defendia. No fundo, é o mesmo modelo que “substitui a educação e a instrução pelo edutainment, a política e a informação pelo infotainment e a arte e a cultura pelo entertainment. Como fala directamente ao público, tudo isso tem, de resto, uma aparência muito democrática: não foi por acaso que para designar este fenómeno se forjou o termo democratainment.” 24 No actual contexto de “institucionalização” e “burocratização” do jornalismo é cada vez mais necessária a defesa intransigente do pluralismo e da liberdade editorial nos média, bem como a monitorização rigorosa de estratégias corporativas, de orientação de conteúdos e de coerção da liberdade editorial dos profissionais de comunicação social, com conhecidos efeitos censórios e auto-censórios. Nesse sentido, uma aposta na formação direccionada para as boas práticas e para a preservação, acima de qualquer suspeita, do estatuto de independência da profissão é fundamental para a saúde de qualquer democracia. Veja-se a propósito um documento do Comité Económico e Social da União Europeia25 onde se defendia “a educação e a informação objectiva do público mais vulnerável para que este tenha a capacidade de avaliar e de identificar os conteúdos da indústria dos meios de comunicação”. Sobre o tema da independência editorial e jornalística dos meios de comunicação através de estatutos editoriais com o objectivo de atalhar a possível influência sobre o conteúdo da informação dos proprietários ou dos accionistas, o documento reconhece que para garantir a qualidade da informação, “é aconselhável que os profissionais dos meios de comunicação (por exemplo, empresas de meios de comunicação, proprietários, editores e jornalistas) adoptem regras deontológicas’ (por exemplo, carta deontológica, códigos éticos, etc.)”. Num sistema de comunicação social em crise, marcado desde logo pela pressão da Internet e dos “produsers”, tendo por consequência o retorno a velhos hábitos, e em que as tendências mais evidentes são, por um lado, a concentração e, por outro, o controlo político, institucional e estratégico dos media (designadamente em termos de gestão de imagem26 e de “engenharia do consentimento”), compreende-se que seja o próprio Sindicato dos Jornalistas portugueses, através do seu Gabinete Jurídico, a colocar o dedo na ferida: “(…) os jornalistas estão mais pobres em todas as dimensões: têm menos salário, têm menos direitos, têm menos segurança no emprego; são menos livres enquanto criadores intelectuais. (… ) Estão desarmados para poderem assumir, individual ou colectivamente, a responsabilidade social e os valores éticos da sua profissão e a autonomia do seu trabalho. Em muitos casos transformados de mediadores responsáveis entre o acontecimento e o público em meros pés de microfone anunciadores acríticos do acontecimento ou produtores de conteúdos para serem usados à medida dos valores editoriais de quem representa na redacção o poder económico da empresa. (…) Os cidadãos também ficaram mais pobres: com a ‘domesticação’ dos jornalistas e o novo paradigma da informação perderam, de facto, uma informação de qualidade, instrumento indispensável à concretização de um Estado de Direito.”27
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Mário Perniola, Contra a Comunicação, Lisboa, Teorema, 2005. Comité Económico e Social, «Pluralismo e Concentração nos Meios de Comunicação», CES, 364/2000. 26 Veja-se que, no caso português, há acusações graves sem, aliás, quaisquer consequências no plano regulatório, sobre uma alegada “agência do regime". Cf. declarações de António Cunha Vaz, no Público, que faz um preocupante "Esclarecimento", em Cartas ao Director (Público, 24/5/2008): "(...) Em Portugal há uma agência do regime. São adjudicadas tarefas para o Estado sem qualquer transparência. E ou há moralidade...".

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Repare-se, sobre esta matéria, que o Conselho da Europa defendeu no seu documento “Indicadores para os média numa democracia”28 que os radiodifusores de serviço público, em particular, deveriam ter “códigos internos de conduta dos jornalistas e de independência editorial face às influências políticas”. Seria algo fundamental neste contexto, a par de um reforço dessa vertente da formação profissional e académica dos jornalistas. Há, certamente, muito que trabalhar nesse sentido, re-legitimando o serviço público de televisão, em particular – e sobretudo – em matéria de pluralismo na informação, com a exigência de práticas absolutamente transparentes, maior rigor e independência, abrindo-o à virtude civil, inscrevendo no seu modelo de informação, demasiado institucional e burocratizado, uma real dimensão de cidadania, francamente mais participada pelas vozes independentes e de elevado mérito da sociedade portuguesa, que nos poderão ajudar a compreender melhor o presente e o futuro próximo que nos aguarda. Referências bibliográficas CÁDIMA, F. Rui (2007), A Crise do Audiovisual Europeu – 20 anos de políticas europeias em análise, Lisboa, Media XXI. –, (2007) “Jornalismo e Jornalistas em Portugal: Desafios, Limites e Responsabilidades”, Revista Estudos do Século XX, nº 7, “O(s) Tempo(s) dos Media”, org. de Isabel Nobre Vargues, CEIS 20 – Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX, Faculdade de Letras - Universidade de Coimbra, pp. 147-165. –, (2006) A Televisão Light Rumo ao Digital, Lisboa, Media XXI. CHESNEY, Robert W. (2007), Communication Revolution, NY, The New Press. GIL, José (2004), Portugal Hoje, O Medo de Existir, Relógio d’Agua, Lisboa. MESQUITA, Mário (2004), O Quarto Equívoco, O Poder dos Media na Sociedade Contemporânea, MinervaCoimbra, Coimbra. PERNIOLA, Mário (2005), Contra a Comunicação, Lisboa, Teorema. TRAQUINA, Nelson (1993), Jornalismo, Questões, Teorias, Estórias (org.), Lisboa, Vega.

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H. Serra Pereira (Responsável pelo Gabinete Jurídico do Sindicato dos Jornalistas), “Estatuto profissional do jornalista e liberdade de informação”, comunicação apresentada no Encontro sobre o Estatuto Jurídico do Jornalista, Universidade Lusófona do Porto – 9 de Maio de 2008. Disponível online em http://www.jornalistas.online.pt/getfile.asp?tb=FICHEIROS&id=384. 28 Cf: “Indicators for media in a democracy”, Resolution 1636 (2008)1, Council of Europe, The Parliamentary Assembly.

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