162823.

doc

1 / 26

81
O LADRÃO DESCUIDADO JOHN DICKSON CARR (1906-1977 - Estados Unidos)

Dois convidados, que não iam passar a noite em Cranlegh Court, despediram-se pouco depois das onze horas. Marcus Hunt acompanhou-os até a porta e depois voltou à sala de jantar, onde as fichas de pôquer estavam então empilhadas em montes brancos, vermelhos e azuis. - Outra partida? - sugeriu Rolfe. - Não vale a pena - respondeu Derek Henderson. Seu tom, como sempre, era de tédio. - Somos só três. O dono da casa parou próximo ao bufê e ficou observando-os. O prédio todo, dando para a região de Kent, se achava tão silencioso que as vozes de ambos se elevaram num tom acima da média. A ampla sala de jantar era iluminada suavemente por velas elétricas presas à parede, o que destacava as cores sombrias do quartos. Não é com freqüência que se vêem na sala comum de uma casa de campo dois quadros pintados por Rembrandt e um de Van Dyck. Havia uma espécie de desafio naqueles quadros. Para Arthur Rolfe, o vendedor de antigüidades, os

162823.doc

2 / 26

quadros representavam dinheiro suficiente para deixá-lo inquieto. Para Derek Henderson, o crítico de arte, eles eram um problema. O que as obras representavam para Marcus Hunt era dificil de dizer. Hunt continuou parado ao lado do bufê, os punhos apoiando as ancas, a sorrir. Era um homem atarracado, do tipo mediano, rosto cheio e pele clara. Se alguém o enfeitasse com um par de costeletas, ele lembraria um holandês ideal para um pincel holandês. A frente de sua camisa se enfunava, mal-ajambrada. Ficou observando a cena com irônica alegria enquanto Henderson pegava um baralho; com as pontas dos dedos muito longos, separava-o em dois montes e embaralhava-os com um movimento rápido do polegar, fazendo as cartas entrarem uma dentro da outra, como um truque de prestidigitador. Henderson bocejou. - Você me surpreende, meu rapaz - disse Hunt. - Pois é essa mesmo a minha intenção - respondeu Henderson, sempre entediado. Levantou os olhos. - Mas qual o motivo desta sua observação? Henderson era jovem, alto, magro e sempre de aparência limpa; também usava barba. Uma barba ruiva que despertava a gozação de alguns. Mas ele a usava com absoluta naturalidade. - Fico surpreso - continuou Hunt - por gostar de uma coisa tão burguesa, tão ... plebéia quanto o pôquer.

162823.doc

3 / 26

- Gosto de descobrir o caráter das pessoas - disse Henderson - e o pôquer é o melhor meio de se fazer isso, como deve saber. Os olhos de Hunt se apertaram. - Ah, sim? E pode descrever o meu caráter, por exemplo? - Com prazer - respondeu Henderson. Ar distraído, serviu-se de uma mão de cartas, todas viradas para cima. Tinha um par de cinco e a última carta era um ás de espadas. Henderson fixou os olhos nela durante alguns segundos. - Consigo perceber - prosseguiu - que você é que me surpreende. Posso ser franco? Sempre o tive na conta de um colosso dos negócios; o sujeito de alta visão, o arrojado, o que joga em grande escala. Mas você não é nada disso. Marcus Hunt deu uma risada, mas Henderson continuou imperturbável. - Você é sabido, porém muito cauteloso. Duvido que tenha corrido um risco sério em toda a sua vida. Outra surpresa - serviu-se de mais um lote de cartas - é o Sr. Rolfe, aí presente. Ele é o homem que, dentro das devidas circunstâncias, é capaz de arriscar tudo. Arthur Rolfe ficou pensando sobre o que acabara de escutar. Parecia um tanto surpreendido, mas bastante lisonjeado. Embora em tipo físico se assemelhasse a Hunt, nada havia de descuidado em sua figura. Tinha um rosto moreno e quadrado, usava óculos e trazia a testa quase sempre vincada.

162823.doc

4 / 26

- Duvido - declarou, muito sério. Depois sorriu. Uma pessoa que corresse grandes riscos num negócio como o meu em pouco tempo estaria na miséria lançou um olhar pela sala. - Pelo menos, seria precavido demais para ter três telas que representam mais de cinqüenta mil libras penduradas numa sala desprotegida, com janelas francesas dando para um terraço. - Um tom um pouco mais alto lhe foi notado na voz: - Meu Deus! Suponhamos que um ladrão ... - Mas que diabo! - exclamou inesperadamente. Até Hunt se mexeu. Henderson,

Desde o final do jogo uma atmosfera de inquietação ia se infiltrando entre eles. Hunt apanhara uma maçã de uma fruteira em cima do bufê. E começava a descascar a fruta com uma faca de lâmina fininha e aguçada que brilhava à luz das lâmpadas da parede. - Você quase me fez decepar o polegar - exclamou ele, largando a faca. - Que foi que aconteceu? - É o ás de espadas - respondeu Henderson no mesmo tom lânguido de sempre. É a segunda vez que me aparece nos últimos cinco minutos. - Sim, e dai? - Arthur Rolfe foi meio brusco. - Acho que seu jovem amigo está saindo do sério observou Hunt, novamente de posse de seu bom humor. - Afinal de contas vai descrever caracteres ou ler a sorte da gente? Henderson hesitou. Seus olhos se voltaram para Hunt e depois passaram para a parede em cima do bufê

162823.doc

5 / 26

onde "A velha de touca" de Rembrandt o encarava com a imobilidade e o colorido de uma pele-vermelha. Depois Henderson olhou para as janelas francesas que davam para o terraço. - Não é da minha conta - murmurou, dando de ombros. - A casa é sua e suas são também a coleção e a responsabilidade. Mas o que acha de Cutler? O que sabe a seu respeito? Marcus Hunt pareceu se divertir. - Cutler? É um amigo da minha sobrinha. Harriet conheceu-o em Londres e pediu que eu o convidasse a vir aqui. Bobagem! Cutler é uma pessoa direita. O que é que você anda imaginando, afinal de contas? - Escutem só! - murmurou Rolfe, com a mão erguida. *** O barulho que ouviam vinha do terraço, porém não se repetiu. E não se repetiu porque a pessoa que o provocou, uma agitada e inquieta criaturinha, correu para o fundo do terraço, onde se debruçou no muro. Lew Cutler hesitou antes de sair atrás dela. O luar estava tão claro que se podia ver a argamassa que ligava as lajotas que pavimentavam o terraço e traçar um desenho das urnas de pedra, ao longo do muro. Harriet Davis vestia um vestido de noite todo branco. Saias longas e transparentes que arrastavam-se pelo chão enquanto ela corria.

162823.doc

6 / 26

Depois, ela lhe fez um sinal. Estava meio sentada meio inclinada no corrimão. Seus braços muitos brancos estendidos, os dedos agarrados à pedra. Os cabelos e os olhos escuros tornaram-se ainda mais vivos à luz do luar. Ele vislumbrava o arfar dos seios dela; podia até mesmo acompanhar a sombra dos seus cílios. - De qualquer maneira, o que ele disse foi uma mentira - falou ela. - Ele quem? - O tio Marcus, o que ele disse. Você escutou. - Os dedos de Harriet Davis se apertavam ainda mais na balaustrada. Mas ela sacudiu a cabeça com veemência. - Que eu o conhecia e que o convidei a vir aqui. Eu nunca o tinha visto na vida antes deste fim de semana. Ou o tio Marcus perdeu o juizo ou então ... Concorda em responder a uma só pergunta? - Se puder. - Pois bem. Você por acaso é um escroque? Ela lhe falou com a simplicidade de que se serviria para lhe perguntar se era médico ou advogado. Lew Cutler não era bobo para rir. Ela se encontrava naquele estado de espírito em que, para qualquer mulher, uma risada é o mesmo que sal numa ferida aberta; com toda a probabilidade, o teria esbofeteado. - Para ser absolutamente franco, não. Quer me dizer por que a pergunta? - Esta casa - respondeu Harriet, voltando os olhos para a lua - costumava ser protegida por alarmes

162823.doc

7 / 26

contra ladrões. Bastava tocar numa vidraça para que a casa toda badalasse como um Corpo de Bombeiros. Até semana passada - ela tirou a mão da amurada e apertou-as uma contra a outra - os quadros costumavam ficar lá em cima, num quarto trancado, ao lado dos aposentos dele. Agora ele mandou-os colocar aqui embaixo... Dá a impressão de que meu tio está querendo que sua casa seja roubada. Cutler percebeu que precisava usar o máximo de cautela. - Talvez queira mesmo - e ia levantar os olhos para ela, mas não fez nenhum comentário. - Por exemplo, suponhamos que um dos Rembrandt não passe de uma imitação. Seria um alívio não ter de expô-lo aos olhos experientes dos seus amigos, ótimos conhecedores de arte. - A moça sacudiu a cabeça. - Não, todos os quadros são autênticos. Também tinha me ocorrido essa idéia. Ali estava a ocasião para pegá-lo numa armadilha. Para Lew Cutler, na sua inocência, não parecia haver nenhum problema especial. Tirou sua cigarreira do bolso e a abriu. - Escute, miss Davis, creio que não vai gostar do que eu vou dizer, mas acredite que muita gente desejaria ver esta propriedade roubada. Se um quadro está segurado acima do seu valor, e é misteriosamente "roubado" certa noite ... - Esta teoria também seria aceitável - retrucou Harriet, muito calma -, mas acontece que nenhum dos quadros está no seguro. A cigarreira de metal polido escapou dos dedos de

162823.doc

8 / 26

Cutler e foi bater na lajota do chão. Os cigarros se espalharam, tal como havia acontecido com suas confusas teorias. Ao se curvar para apanhá-los, ouviu o relógio de uma torre na vizinhança marcar a badalada das onze e meía. - Tem certeza disso? - Certeza absoluta. Ele jamais segurou nenhum dos seus quadros por um só tostão que fosse. Considera seguro um desperdício de dinheiro. - Mas ... - Ah, eu sei! O que não sei é por que estou aqui falando com você destas coisas. O senhor é um estranho, não é? - ela cruzou os braços e encolheu os ombros como se sentisse frio. A incerteza, o medo e um toque de nervos lhe adejavam nas pálpebras. Mas acontece que tio Marcus também é um estranho. Sabe o que eu penso? ... Que ele caminha a passos lentos para a loucura ... - Ah, não chega a tanto assim ... - Sim, é fácil dizer isso. Mas o senhor não o observa quando seus olhos parecem ir diminuindo e todo aquele ar divertido e bonachão vai desaparecendo do seu rosto. Ele não está fingindo. Detesta falsidades e sai do seu caminho para desmascará-las onde as encontra. Mas se não é verdade que esteja ficando louco, o que então estará planejando? *** No final de mais ou menos três horas, eles

162823.doc

9 / 26

acabaram descobrindo isso. O ladrão só assaltou a casa lá pelas duas e meia da madrugada. Primeiro, fumou vários cigarros próximo aos arbustos ao pé da terraço. Quando ouviu o relógio da torre dar as horas, esperou mais alguns minutos, subindo logo em seguida os degraus que levavam às janelas francesas da sala de jantar. Um vento frio soprava naquela hora. Hora dos suicídios e dos pesadelos, sacudindo a grama e a copa das árvores com um leve sussurrar. Quando o homem olhou por cima do ombro, um raio de lua lhe iluminou o rosto, deixando à mostra menos uma face do que o pano negro de uma máscara sob a aba descida de um boné que o cobria até as orelhas. Pôs-se então a trabalhar na janela central, com um conjunto de ferramentas um pouco menor do que aquele usado por motoristas. Colou dois pedacinhos de esparadrapo no vidro, bem junto do trinco. Depois, com uma ponta de diamante, cortou um semicírculo dentro do adesivo. A operação não aconteceu sem ruído: a ponta arranhava como uma broca de dentista num dente, e o homem parou para escutar à sua volta. Não percebeu o menor ruído em resposta. Nenhum cão latiu. Com o esparadrapo segurando o vidro, e impedindo assim que caísse e se estilhaçasse, enfiou a mão com luva pela abertura e torceu a maçaneta. O peso de seu corpo amorteceu o estalar da porta quando a empurrou e a abriu. Sabia exatamente o que estava querendo. Guardou

162823.doc

10 / 26

as ferramentas no bolso e dali tirou uma lanterna. O facho de luz correu para o bufê tocando na prataria brilhante, numa bandeja com frutas e numa faquinha perigosa enterrada numa maçã, como se fosse no corpo de alguém; finalmente subiu pela parede, chegando ao rosto da velha do retrato. Não era um quadro muito grande e o ladrão soltouo da parede com facilidade. Tirou fora a moldura e o vidro. Ao tentar enrolar a tela com todo o cuidado, a tinta quebradiça ia largando pedaços minúsculos que feriam o rosto do modelo. O ladrão, tão absorvido pela operação, nem percebeu a presença de outra pessoa na sala. Era um ladrão descuidado: faltava-lhe o sexto sentido para preveni-lo do assassinato. *** Lá em cima, no segundo andar, Lew Cutler acordou com um ruído abafado, produzido pela queda de um objeto de metal. Não chegara a dormir profundamente. Sabia perfeitamente o que devia estar acontecendo, embora não tivesse a menor idéia do porquê, nem do como, nem de quem. Cutler saltou da cama e enfiou os chinelos assim que ouviu o primeiro barulho lá em baixo. Seu roupão, como sempre que tinha pressa, estava enrolado como um guarda-chuva, desafiando todas as tentativas para encontrar as mangas. Mas a lanterna estava a postos

162823.doc

11 / 26

num dos bolsos. O tal barulho não parecia ter despertado mais ninguém. Com certas possibilidades em mente, jamais em sua vida se movera com tamanha rapidez, assim que saiu do quarto. Sem usar a luz, desceu rapidamente os dois lances de escada coberta de espessos tapetes. No hall de baixo, sentiu uma corrente de ar que indicava que uma janela ou uma porta fora aberta em alguma parte. Dirigiu-se logo para a sala de jantar. Chegou, no entanto, tarde demais. Depois de rodear o aposento com a lanterna acesa, torceu a chave de luz. O ladrão continuava ali, nenhuma dúvida. Mas estava estendido completamente imóvel na frente do bufê. E a julgar pela quantidade de sangue que lhe empapava o suéter e as calças, jamais voltaria a se mover. - Bem ... Aconteceu - observou Cutler em voz baixa. Um serviço de prata, incluindo o bule de chá, fora derrubado em cima do bufê. Onde caíra o prato de frutas, a vítima jazia de costas, rodeada de laranjas, maçãs e um amassado cacho de uvas. A máscara ainda lhe cobria o rosto; seu boné ensebado estava mais enterrado nas orelhas e tinha as mãos enluvadas bem abertas. À sua volta, viam-se fragmentos de vidro, juntos com a moldura vazia, e o quadro de Rembrandt estava meio amassado debaixo do corpo. Pela posição das manchas de sangue mais em evidência, Cutler concluiu

162823.doc

12 / 26

que o intruso fora apunhalado no peito com a faquinha de fruta manchada que estava ao lado dele. - O que aconteceu? - perguntou uma voz bem perto. Ele não teria ficado mais assustado se a faquinha de fruta lhe tivesse tocado nas costelas. Não vira ninguém acender as luzes do hall nem escutara a chegada de Harriet Davis. Ela estava bem atrás dele, enrolada num quimono japonês, com o cabelo bem escuro a lhe rodear os ombros. Mas quando ele lhe explicou o que acontecera, ela não quis olhar para a sala de jantar; recuou sacudindo a cabeça com violência, como uma criança pronta para fugir. - É melhor ir lá em cima e acordar o seu tio - falou Cutler com energia, revelando uma confiança que não existia. - E os criados. Preciso usar o telefone - depois encarou-a bem dentro dos olhos. - Sim, você tem razão. Acho que você já tinha adivinhado. Sou da polícia. Ela concordou com um gesto de cabeça. - Sim, adivinhei. Quem é você? Seu nome é Cutler mesmo? - Sou sargento do Departamento de Investigação Criminal. E o meu nome é mesmo Cutler. Foi o seu tio quem me trouxe para este fim de semana. - Por quê? - Não sei. Não quis me falar tudo. A inteligência da moça, embora embotada pelo medo, era direta e desconsertante. - Mas se ele se negou a dizer por que precisava da presença de um

162823.doc

13 / 26

representante da polícia, como foi que o mandaram? Ele tinha de lhes dizer a verdade, não é mesmo? - Preciso falar com o seu tio - Cutler mudou de assunto. - Quer ir lá em cima e acordá-lo, por favor ? - Não posso - respondeu Harriet. - Bati na porta do tio Marcus quando desci e ele não estava lá. Cutler galgou a escada de dois em dois degraus. Harriet acendera todas as luzes ao descer, porém nada se mexia nos corredores superdecorados. O quarto de Marcus Hunt estava vazio. Sua dinnerjacket estava dobrada e colocada cuidadosamente no encosto da cadeira, a camisa estendida no assento com o colarinho e a gravata em cima dela. O relógio de Hunt tiquetaqueava audivelmente na mesinha de cabeceira. Seu dinheiro e suas chaves também lá estavam. Mas ele não chegara a se deitar, pois as cobertas da cama estavam incólumes. A suspeita que se levantou na cabeça de Lew Cutler, ali parado ouvindo o tiquetaque do relógio àquela hora mágica, pouco antes do amanhecer, era tão fantástica que ele mal podia lhe dar crédito. Desceu de novo a escada e no caminho esbarrou em Arthur Rolfe, que saía de seu quarto no fundo do hall. O negociante de antigüidades vestia o corpo atarracado com um roupão de flanela. Não usava os óculos, o que dava ao rosto um aspecto turvo e embaciado. Pôs-se à frente de Cutler e recusou-se a se afastar dali. - Sim - murmurou Cutler -, nem é preciso perguntar. É um ladrão.

162823.doc

14 / 26

- Eu sabia - retrucou Rolk calmamente. - Levou alguma coisa? - Não. Foi assassinado. Por um instante Rolfe nada disse, mas levou a mão ao peito do roupão como se sentisse uma dor repentina. - Assassinado? O senhor está querendo dizer que o ladrão foi assassinado? - Sim. - Mas por quê? Por um cúmplice, é o que quer insinuar? Quem é o ladrão? - É exatamente isso que eu pretendo descobrir. No hall de baixo encontrou Harriet Davis, agora parada à porta da sala de jantar olhando fixamente para a vítima. Embora sem mover um só músculo do rosto, seus olhos estavam rasos d'água. Pisando com cuidado para evitar as frutas e os cacos de vidro pelo chão, Cutler inclinou-se para o morto. Empurrou a ponta do boné sujo e levantou a máscara preta segura por uma tira de elástico, encontrando assim o que esperava encontrar. O ladrão era Marcus Hunt, apunhalado no coração quando tentava roubar sua própria casa. *** - Como o senhor está vendo - explicou Cutler ao Dr. Gideon Fell na tarde seguinte -, aí é que mora a dificuldade. Por qualquer lado que se encare, esse caso simplesmente não faz sentido.

162823.doc

15 / 26

Mais uma vez ele repassou os fatos. - Por que razão o homem assaltaria a sua própria casa, roubando coisas que lhe pertenciam? Cada um dos quadros tem um grande valor e nenhum deles tinha seguro. Conseqüentemente, por quê? O homem seria um lunático, simplesmente? O que imaginava estar ele fazendo? *** A vila de Sutton Valence, espalhada como uma branca cidadezinha italiana no ponto mais alto de Weald, estava aquecida e iluminada pelo sol. No pomar das macieiras, atrás da estalagem muito branca, o Dr. Gideon Fell sentou-se numa das mesinhas do jardim, com um canecão ao lado do cotovelo. O corpanzil do Dr. Fell estava vestido de linho branco. O seu rosto avermelhado fumegava de calor e a preocupação que lhe causavam as vespas dava-lhe uma aparência estrábica enquanto meditava. - O superintendente Hadley sugeriu que eu desse uma olhada por lá - disse ele. A polícia local está tratando do caso, não é? - Sim. Fiquei de mero espectador. - As palavras exatas de Hadley foram: "O caso é tão maluco que só o senhor mesmo poderá resolvê-lo." Lisonjeador demais, acredito eu - o Dr. Fell franziu o cenho. Me diga, não reparou em nada de especial nesta história? - Ora, muito simples: por que motivo alguém iria

162823.doc

16 / 26

roubar a sua própria casa? - Não, não! - grunhiu o Dr. Fell. - Você está se deixando obcecar por este ponto. Vai acabar hipnotizado por ele. Por exemplo, a moça parece ter levantado uma questão bastante interessante. Se Marcus Hunt se negava a dizer por qual motivo desejava a presença de um detetive em sua casa, como é que o Departamento consentiu em mandá-lo para lá? Cutler deu de ombros. - Porque o inspetor-chefe Ames pensou que Hunt estivesse planejando algum golpe e queria ver se conseguia impedi-lo. - Que espécie de golpe? - Um suposto roubo que lhe desse direito ao dinheiro do seguro dos quadros. É um velho truque recorrer antes à polícia a fim de desviar as suspeitas. Em outras palavras, senhor, exatamente o que parecia ser, até eu ficar sabendo, e hoje deixar provado, que nenhuma destas malditas telas foi segurada por dinheiro algum - Cutler hesitou. Mas logo prosseguiu: Não pode ter sido uma simples brincadeira. Olhe para os cuidados que tomou em relação a tudo. Hunt vestiu roupas velhas das quais todas as marcas de fábrica ou de lavanderia foram removidas. Vestiu luvas e máscara. Carregava uma lanterna e um moderno conjunto de peças que fariam a alegria de um ladrão. Saiu da casa pela porta dos fundos, que encontramos aberta. Fumou vários cigarros ao lado dos arbustos junto ao terraço encontramos suas pegadas na terra. Cortou um pedaço de vidro ... mas já lhe contei tudo isso.

162823.doc

17 / 26

- E aí - concluiu o Dr. Fell - alguém o matou. - Sim, esse é o último e o pior dos "porquês". Por que motivo alguém o mataria? - Hum ... algum indício? - Indícios negativos - Cutler tirou a caderneta do bolso. - De acordo com o cirurgião da polícia, ele morreu de uma punhalada direta no coração feita por uma lâmina tão fina que foi difícil encontrar o ferimento, provavelmente provocado pela tal faquinha de frutas. Havia uma série de impressões digitais, todas dele e de mais ninguém. Encontramos ainda alguma coisa bem esquisita. Peças do serviço de chá que estavam em cima do bufê estavam arranhadas, como se, ao invés de serem atíradas ao chão na hora da luta, elas tivessem sido empilhadas umas sobre as outras como uma torre e depois empurradas ... Cutler fez uma pausa, pois o Dr. Fell sacudia a cabeça com uma expressão clownesca de lástima. - Bem, bem, bem - murmurou ele. - Bem, bem, bem. E o senhor chama isso de prova negativa? - E não é? Não explica por que motivo um homem vai roubar a sua própria casa. - Escute - falou o Dr. Fell com suavidade. - Gostaria de lhe fazer apenas uma pergunta. Qual é o ponto mais importante desta história? Um momento! Não disse um dos mais importantes, e sim o mais importante de todos. Sem dúvida nenhuma é o fato de um homem ter sido assassinado. - Sim, naturalmente.

162823.doc

18 / 26

- Menciono isso - o doutor parecia contrito - porque me parece um tanto esquecido. Mal lhe despertou a atenção, por exemplo. O senhor se preocupa apenas com a tola encenação de Hunt. Pouco se lhe dá que uma garganta tenha sido cortada; o que não admite é que lhe preguem uma peça. Por que motivo não experimenta a outra face do problema e pergunta logo quem matou Hunt? Cutler ficou em silêncio durante algum tempo. - Os criados estão excluídos - respondeu finalmente. - Dormem numa outra ala, no último andar. E por alguma razão alguém os trancou à chave na noite passada. Foi preciso rebentar a porta quando a casa entrou em polvorosa. Mas, é claro, o assassino pode ser um estranho. - O senhor sabe que isso não é verdade - falou Dr. Fell. - Quer fazer o favor de me levar até Cranlegh Court? *** Saíram para o terraço na hora mais quente da tarde. O Dr. Fell sentou-se numa cadeira de vime, a abatida Harriet ao seu lado. Derek Henderson, de flanela branca, apoiava o corpo comprido no muro baixo. Só Arthur Rolfe vestia um terno escuro e parecia deslocado ali. Porque as terras da propriedade, em tons verde e marrom, os quais raramente tomavam um

162823.doc

19 / 26

colorido mais intenso, agora ardiam abrasadas pelo sol. Não soprava nenhuma brisa, nenhuma folha se movia naquele brilhante e concentrado calor. E lá embaixo no jardim, à esquerda deles, a água da piscina cintilava sob a luz do sol. Cutler sentia tudo aquilo como um peso nas pálpebras. A barba de Derek Henderson parecia ao mesmo tempo lânguida e agressiva, quando ele falou: - Não adianta estar aí a me perguntar por que motivo Hunt pensaria em roubar a própria casa. Mas talvez possa lhe dar uma sugestão. - Qual? - indagou Dr. Fell. - Qualquer que tenha sido a razão dele, foi uma boa razão. Hunt era esperto e cauteloso demais para fazer alguma coisa sem uma boa razão a sustentá-la. Foi o que eu lhe disse ontem à noite. - Cauteloso? Por que afirma isso? - observou Dr. Fell, vivamente. - Ora, veja só: peço três cartas numa rodada. Hunt pede uma. Eu pago para ver as cartas, ele me observa e aumenta a aposta. Cubro o seu lance e aposto mais ainda. Hunt desiste. Em outras palavras, é mais do que certo que ele estava com a mão cheia, mas não tem certeza se tenho mais do que um par. E mesmo assim entrega os pontos. Ganho de um straíght no blefe, com meus três setes. Ele jogou várias rodadas assim ontem à noite. Henderson pôs-se a rir. Mas ao perceber a expressão triste de Harriet, controlou-se e tornou-se

162823.doc

20 / 26

solene. - A verdade é que ele tinha muitas outras coisas na cabeça ontem, quando estava jogando - acrescentou Henderson, todos percebendo sua mudança de tom. - Sim, e o que tinha ele na cabeça? - Desmascarar alguém em quem ele sempre confiara - respondeu Henderson, num tom frio. - Foi por isso que não me agradou virar o ás de espadas tantas vezes durante o jogo. - É melhor o senhor explicar isso - disse Harriet, após uma pausa. - Não sei o que é que o senhor está insinuando. Ele lhe falou que tinha a intenção de desmascarar alguém em quem sempre confiara? - Não. Tal como eu, apenas sugeriu ... Foi o impassível Rolfe quem entrou na conversa para valer nessa hora. Tinha o ar de alguém resolvido a se ater apenas à lógica, mas com dificuldades de consegui-lo. - Escutem - exclamou ele -, sempre ouvi falar a respeito da satisfação com que Hunt desmascarava este ou aquele. Muito bem! Mas em nome da sanidade mental, onde vamos chegar com isso? Ele desejava arrancar a máscara de alguém. E para fazê-lo, enfia umas roupas velhas e se fantasia de ladrão. Isso por acaso é sensato? Para mim, o homem estava louco. Não existe outra explicação. - Existem outras cinco explicações - retrucou o Dr. Fell. Derek Henderson levantou-se lentamente do muro

162823.doc

21 / 26

baixo, mas voltou a sentar-se ante um gesto meio brusco de Rolfe. - Mas não pretendo tomar o tempo de vocês citando as quatro explicações restantes - continuou o Dr. Fell. A nós interessa apenas uma explicação: a verdadeira. - E o senhor conhece essa explicação? E desde quando? - perguntou Henderson, meio exaltado. - Creio que sim. Desde que tive a oportunidade de ver todos vocês - respondeu o Dr. Fell. Recostou-se com todo o seu peso na cadeira de vime, fazendo com que ela estalasse como a carcaça de um navio em mar tempestuoso. Seu vasto queixo avançou e ele sacudiu a cabeça como se acentuasse um detalhe qualquer que tinha muito claro na cabeça. - Já que troquei duas palavras com o inspetor local prosseguiu de repente -, sei que ele deve chegar aqui dentro de alguns instantes. E seguindo uma sugestão minha, fará um pedido a cada um dos senhores. Espero que ninguém se recuse a atendê-lo. - Pedido? - disse Henderson. - Que tipo de pedido? - Hoje está muito quente - disse o Dr. Fell, piscando os olhos, ao apontá-los para a piscina. - Ele vai sugerir que vocês nadem um pouco. Harriet, impaciente, parecia apelar com os olhos para Lew Cutler. - Isso será o meio mais delicado - prosseguiu Dr. Fell - de concentrarmos a atenção no assassino. Mas, no momento, permitam que eu chame a atenção de vocês para um ponto nas provas que parece ter sido

162823.doc

22 / 26

completamente ignorado. Sr. Henderson, o senhor sabe alguma coisa a respeito de ferimentos no coração feitos por uma lâmina fina como um fio? - Como no ferimento de Hunt? Não. - Praticamente não houve hemorragia externa respondeu o Dr. Fell. - Mas... - ia dizer Harriet, quando Cutler a interrompeu. - Na verdade, o médico da polícia se referiu à particularidade do ferimento, "tão difícil de se encontrar”: A vítima morre quase que imediatamente e os entornos da ferida se comprimem. - Mas nesse caso - insistiu Henderson - como é que Hunt tinha tanto sangue no suéter e manchas espalhadas nas calças? - É simples - respondeu o Dr. Fell, com toda a calma. - O sangue do Sr. Hunt lhe empapou as roupas. - Não agüento mais - e Harriet levantou-se de um pulo. - Desculpe, mas o senhor acha que todos nós somos um bando de malucos? Por acaso não vimos todos nós o corpo caído, ao lado do bufê, coberto de sangue? - Sim, claro que viram. - Nesse caso, podem deixar eu delirar à vontade exclamou um pálido Derek Henderson. - Eis aí um bom ponto de vista - disse o Dr. Fell. Mas com isso fica respondida a sua pergunta, quanto ao motivo de o homem eminentemente sensato que foi o

162823.doc

23 / 26

Sr. Hunt ter pensado em se disfarçar de ladrão. E a resposta é curta e simples: não foi isso o que ele fez. *** - Deve ser mais do que claro para todos vocês continuou o Dr. Fell, arregalando os olhos - que o Sr. Hunt estava armando uma cilada para alguém, isto é, para o verdadeiro ladrão. Acreditava que uma certa pessoa tentaria lhe roubar um ou mais dos seus quadros. Provavelmente, sabia que essa pessoa já tentara a mesma coisa outras vezes antes, em outras casas de campo; isto é, um trabalho feito dentro da casa que deixasse a impressão de ter sido realizado por alguém de fora. Por isso, procurou facilitar as coisas para esse ladrão a fim de apanhá-lo com um representante da polícia dentro de casa. "O ladrão, pobre coitado, caiu na esparrela. Na qualidade de convidado, esperou até às duas e tanto da madrugada. Depois vestiu as roupas velhas, máscara e luvas e saiu pela porta dos fundos. Percorreu todo o itinerário que erroneamente atribuímos a Marcus Hunt. Mas aí a armadilha funcionou. No momento em que enrolava a tela de Rembrandt, ele escutou um barulho. Passou a luz da lanterna em volta e deu com Marcus Hunt de pijama e roupão a encará-lo. "Sim, houve luta. Hunt atirou-se em cima dele. O ladrão conseguiu se apossar de uma faquinha de frutas e lutou para defender a sua pele. Durante a luta, Marcus Hunt dobrou o braço do ladrão, segurando-o

162823.doc

24 / 26

com força. A faca raspou no peito do ladrão infligindolhe um ferimento superficial mas que sangrou em profusão. Isso levou o assaltante à beira da loucura. Apertou o pulso de Marcus Hunt e conseguiu tirar-lhe a faca e o apunhalou no coração. "Depois, no silêncio da casa que dormia, à luz da lanterna em cima do bufê, o assassino percebe algo que o levará à forca. O sangue do seu ferimento superficial lhe empapara a roupa. Como se livrar dela? Não tinha tempo para destruí-la nem de levá-la para longe da casa. É claro que o prédio seria revistado e não deixariam de encontrá-la. Sem as manchas, passariam por velharias penduradas num guarda-roupa. Mas assim ... Só havia uma saída para ele ... " Harriet Davis, parada atrás da cadeira de vime e protegendo os olhos contra a luz excessiva do sol, não se conteve e falou: - E aí ele trocou de roupa com meu tio. - Isso mesmo! - grunhiu Dr. Fell. - Eis aí a triste história. O assassino vestiu a vítima com suas próprias roupas, fazendo um corte no suéter, na camisa e na camiseta. Depois enfiou o pijama do Sr. Hunt e o roupão, que, num momento de aperto, poderia dizer que eram seus. O ferimento de Hunt sangrara apenas de leve. Seu roupão provavelmente se abrira durante a luta, de modo que tudo o que poderia preocupar o ladrão eram apenas uns pingos no casaco do pijama. "Mas tendo conseguido isso, era preciso fazer crer a todos que não houvera tempo para uma troca de roupa.

162823.doc

25 / 26

Era preciso fazê-los acreditar que a luta se dera naquele preciso momento. Portanto, o remédio era acordar a casa toda. Fez barulho, atirando no chão uma pilha de objetos de prata, correndo para cima logo em seguida." Dr. Fell fez uma pausa. Depois, acrescentou: - O ladrão jamais poderia ter sido Marcus Hunt. Encontraram as impressões de Hunt por toda a parte, e no entanto a vítima usava luvas. Ouviu-se um arrastar de pés lá embaixo e logo um par de pesadas botas começaram a subir os degraus de pedra para o terraço. O inspetor da policia local, abotoado até o pescoço e suando em bicas dentro do uniforme, vinha seguido de dois guardas. - Ah! - disse o Dr. Fell, satisfeito. - Vieram para a brincadeira da piscina, com certeza. É fácil estancar um ferimento superficial com algodão e esparadrapo ou pano. Mas a coisa fica bastante visível numa pessoa de calção de banho, não é mesmo? - Mas não é possível que ... - os olhos de Harriet correram em volta e seus dedos se apertaram no braço de Lew Cutler, num gesto instintivo, que mais tarde ele iria recordar quando a conhecesse melhor. - Sim - concordou Dr. Fell -, não pode ter sido um sujeito alto e magro como o Sr. Henderson. Tampouco uma moça baixa e esbelta como a senhora. Só existe uma pessoa, segundo sabemos, que regula com Marcus Hunt, podendo assim ter enfiado suas roupas sem despertar suspeitas. É a mesma pessoa que, embora tenha conseguido tratar o ferimento que traz no peito, leva constantemente a mão ao bolso interno do casaco

162823.doc

26 / 26

a fim de se certificar de que a atadura continua no lugar. Assim como o Sr. Rolfe acabou de fazer agora. Arthur Rolfe estava imóvel na cadeira, com a mão enfiada no interior do casaco. Tinha o rosto afogueado pelo calor e pela situação, mas os olhos por detrás das lentes dos óculos continuavam imperceptíveis. E Rolfe, apesar dos lábios muito secos, falou apenas uma vez: - Eu devia ter escutado o que me disse o jovem Henderson. Foi ele quem me disse que eu iria me jogar numa empreitada arriscada. Tradução de Alves Moreira