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A BRECHA JACQUES FUTRELLE (1875-1912 – Estados Unidos)

- Os grandes criminosos de verdade jamais são pegos, pela simples razão de que os grandes crimes, por eles cometidos, jamais são descobertos - observou com autoridade o Prof. Augustus S.F.X. Van Dusen. - Há uma faísca de gênio na perpetuação de um crime, Sr. Grayson, assim como deve haver uma faísca de gênio no raciocínio que vier a descobrí-lo, a menos que se trate do trabalho superficial de um enganador. No último caso, tem havido crimes que até a própria polícia desvendou. Mas o criminoso experimentado, o homem de gênio, o profissional, por assim dizer, tem como perfeito só o crime que não aparece nem pode aparecer como crime, em absoluto; é portanto um crime que, em circunstância alguma, o ligue a ele ou a qualquer pessoa. O financista J. Morgan Grayson fixou os olhos no mirrado homenzinho de ciência - o Máquina Pensante - através da fumaça do charuto. - É um fato psicológico estranho que o criminoso ocasional cante vantagem do seu crime antecipadamente ou uns dez minutos depois de cometê-lo - continuou o Máquina Pensante. - Por exemplo, o homem que mata por vingança no fundo quer que o mundo todo saiba que o trabalho foi seu; mas dez minutos depois do crime, manifesta-se nele o temor, e aí,

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paradoxalmente, ele procura esconder o crime cometido e proteger-se a qualquer custo. Com o temor, vem o pânico, com o pânico, a irresponsabilidade, e é aí que ele vem a cometer um erro: acaba abrindo à força um caminho que uma mente bem treinada consegue seguir, partindo do motivo à prisão. "Estes são os que terminam por ser descobertos. Mas existem homens de gênio, Sr. Grayson, profissionalmente dedicados ao crime. Nestes jamais se ouve falar, porque eles nunca são apanhados, e jamais suspeitamos deles porque nunca cometem um erro. Imagine os grandes cérebros da história voltados para o crime. Bem, hoje em dia existem inteligências tão poderosas quanto estas. E acontecem homicídios, pilhagens, ladroagens bem debaixo dos nossos narizes sem que a gente nem mesmo os suspeite. Se eu, por exemplo, me tornasse um criminoso ativo ... " Máquina Pensante fez uma pausa. Grayson, com uma expressão meio estranha, continuava arrancando baforadas do charuto. - ... poderia matá-lo agora mesmo, aqui neste escritório prosseguiu ele, com toda a calma -, e ninguém jamais o saberia, jamais suspeitaria de nada. E por quê? Porque eu não cometeria erro algum. Do jeito que ele falou, não soou como uma fanfarronada. Era a simples enunciação de um fato. Grayson parecia meio assustado. Se antes manifestara apenas interesse mesclado de impaciência, agora mostrava-se fascinado com o que ouvia. - Me mataria como, por exemplo? - inquiriu. - Com um veneno, entre as dúzias que conheço, com germes poderosíssimos, ou mesmo com uma faca ou revólver - replicou placidamente o cientista. - Sei usar um veneno muito bem; sei como inocular germes; sei como dar uma perfeita aparência de suicídio, seja com uma faca ou com um

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revólver. E jamais cometo erros, Sr. Grayson. Na ciência, é indispensável que sejamos exatos, nada de aproximações; só tem valor o que é absolutamente exato. É preciso saber. Não é como a carpintaria. Um carpinteiro pode cometer um engano qualquer na juntura de uma peça sem enfraquecer a sua mesa; mas se o cientista comete um erro, toda a estrutura vai ao chão. É preciso saber. Conhecimento é progresso. E o conhecimento se adquire pela observação e pela lógica, a lógica inevitável. A lógica nos diz que dois e dois são quatro, não de vez em quando, mas sempre. Grayson bateu a cinza do charuto com ar ausente, e pequenas rugas apareceram-lhe em volta dos olhos enquanto fixava o inescrutável rosto do cientista. A cabeçona coberta de um amarelo de palha se achava recostada contra a cadeira, os olhos estrábicos de um azul aguado, voltados para cima, e os dedos finos e muitos brancos apoiados ponta contra ponta. O financista respirou profundamente. - Fui informado de que o senhor é um homem extraordinário - disse, por fim, lentamente. - Acredito. Quinton Frazer, o banqueiro que me forneceu a carta de apresentação para o senhor, me contou que lhe deve a solução de um estranho mistério no qual ... - Sim, sim - interrompeu o cientista, impaciente -, o roubo do Banco Ralston. Eu me lembro. - Por isso, vim solicitar a sua ajuda para algo ainda mais inexplicável - prosseguiu Grayson, hesitante. - Bem sei que quaisquer que fossem os honorários que lhe oferecesse, isso não teria influência sobre o senhor; mas farei o pagamento à beira do cofre e ... - Vamos ao caso - voltou a interrompê-lo o Máquina Pensante. - Não se trata de um crime, isto é, um crime punível por lei - acrescentou Grayson apressadamente -, mas custou-me milhões e ...

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Por um momento, Máquina Pensante baixou o olhar estrábico para o do visitante, logo ergueu-o outra vez. - Milhões! - exclamou. - Quantos? - Seis, oito, talvez dez - respondeu Grayson. - Resumindo, meu negócio está fazendo água. Meus planos são conhecidos por outros, assim que consigo elaborá-los. E são planos grandes, tenho milhões em jogo; e o segredo para isso é absolutamente essencial. Durante anos consegui preservar o sigilo, mas por meia dúzia de vezes, nestas últimas semanas, meus planos chegaram ao conhecimento de terceiros e eu venho perdendo ... A menos que conheça o mundo financeiro, não imagina a tremenda desvantagem de alguém adivinhar as nossas intenções; é a derrota a cada passo. - Não, não conheço o mundo das finanças, Sr. Grayson retrucou Máquina Pensante. - Me dê um exemplo. - Veja este último caso - disse o financista, sério. - Sem maiores tecnicidades, eu havia planejado vender uma grande quantidade das ações da Estrada de Ferro P.Q.&X., através dos corretores, e forçando o grosso do estoque a baixar de preço até um ponto em que outros corretores, agindo por mim, pudessem comprar muito abaixo do preço real. Desta forma, tinha a intenção de conseguir o controle completo das ações. Mas meus planos foram conhecidos e, assim que comecei a largar ações no mercado, tudo foi adquirido pelos concorrentes, e como resultado disso, em vez do controle da via férrea, acabei perdendo o grosso das ações que possuía. E a mesma coisa se tem dado, com variações, meia dúzia de vezes. - Deduzo que esta tática seja essencialmente honesta voltou Máquina Pensante, com um tom suave. - Claro, são negócios. - Não vou dizer que entendo disso tudo - continuou o

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cientista. - Mas, afinal, não vem ao caso. O senhor quer saber onde está o erro, a brecha nestas operações, não é mesmo? - Exatamente. - Muito bem, quem é que goza de sua confiança? - Ninguém, a não ser a minha estenógrafa. - Quem é ela? - Uma moça que está comigo há seis anos; mais de cinco anos antes de haver o que o senhor chamou de brecha. Confio inteiramente nela. - Nenhum homem está a par dos seus negócios? - Não - retrucou o financista com uma carranca. - Aprendi, e não é de hoje, que ninguém melhor do que eu sabe guardar os meus segredos: as tentações são inúmeras. Além disso, não toco no assunto com quem quer que seja. Nunca ... com ninguém. - Com exceção da sua estenógrafa - corrigiu o cientista. - Fico dias, semanas, até meses desenvolvendo e aperfeiçoando um plano e trago tudo na cabeça. Nada no papel - explicou Grayson. - Quando afirmo que ela goza da minha confiança, quero dizer que ela só fica sabendo dos meus planos meia hora antes de a máquina entrar em ação. Por exemplo, planejei esse negócio da estrada de ferro. Meus corretores nada sabiam a esse respeito; a Sra. Winthrop jamais ouvira qualquer referência a este respeito, a não ser quinze minutos antes de a Bolsa de Valores abrir as portas para o expediente do dia. Aí então, como sempre faço, lhe ditei umas breves instruções para os meus corretores. E isso é tudo o que ela sabe do negócio. - Chegou a delinear o plano nestas cartas? - Não. Dizia apenas aos meus corretores como agir. - Mas uma pessoa inteligente, conhecendo o conteúdo das

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cartas, poderia perceber o que o senhor estava pretendendo fazer, não poderia? - Sim, embora ninguém conhecesse o conteúdo das cartas. A Srta. Winthrop e eu éramos os únicos seres humanos que conheciam o que ia escrito nelas todas. Máquina Pensante ficou em silêncio durante tanto tempo que Grayson começou a se remexer na cadeira. - Quem estava na sala, além do senhor e da Srta. Winthrop, antes de as cartas serem enviadas? - perguntou, finalmente. - Ninguém - retrucou o financista, enfático. - Uma hora antes de eu ditá-las e pelo menos uma hora mais tarde, depois de os meus planos terem ido por água abaixo, ninguém pisou naquela sala. Apenas nós dois estávamos lá trabalhando. - Mas quando acabou as cartas, ela saiu? - insistiu Máquina Pensante. - Não - respondeu Grayson -, nem mesmo se levantou da sua mesa. - E não terá ela enviado alguma coisa para fora ... cópias das cartas por exemplo? - Não. - Não se comunicou com algum amigo pelo telefone? prosseguiu Máquina Pensante, tranqüilamente. - Nem isso - respondeu Grayson. - E não teria ela feito algum sinal pela janela? - Não - voltou a dizer o financista. - Terminou as cartas e pôs-se a ler um livro. Mal se mexeu por umas duas horas. Máquina Pensante baixou os olhos e fixou-os nos do financista.

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- Alguém não poderia ter escutado tudo pela janela? insistiu, depois de um instante. - Não. Meu escritório fica no décimo quinto andar, dando para a rua, e não existe escada de incêndio naquele lado. - Ou pela porta? - Se conhecesse meu escritório, veria que isso seria impossível porque ... - Nada é impossível, Sr. Grayson - retrucou o cientista, em tom seco. - Pode ser improvável mas não impossível. Não diga isso, que isso me irrita particularmente - ficou em silêncio por uns intantes. Grayson o encarava, esperando ... - Nem o senhor nem ela atenderam o telefone? - Não, ninguém nos telefonou nem telefonamos para ninguém. - Nenhuma fenda, buraco ou rachadura no assoalho, nas paredes ou no teto da sala? - insistia o cientista. - Detetives particulares, contratados por mim para tratar desse caso, revistaram a sala e nada encontraram - respondeu Grayson. De novo Máquina Pensante mergulhou nos próprios pensamentos. Grayson acendeu outro charuto e recostou-se pacientemente na cadeira. Finas linhas iam surgindo na fronte do cientista, e, aos poucos, os olhos estrábicos foram se entrecerrando. - As cartas que o senhor escreveu não teriam sido interceptadas? - sugeriu afinal. - Não - Grayson não hesitou. - As cartas foram enviadas aos corretores por uma dúzia de métodos diferentes e cada uma delas foi entregue faltando cinco minutos para as dez, hora em que a Bolsa abre suas portas. A última, mandei quando faltavam dez para as dez.

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Máquina Pensante levantou-se e começou a andar de um lado parta o outro. - O senhor não imagina as precauções que tomei, principalmente neste último negócio da estrada de ferro continuou Grayson. - Usei de todos os meios possíveis para manter o sigilo. E a Srta. Winthrop, sei disso, é inocente de qualquer ligação com o caso. Os detetives particulares, a princípio, suspeitaram dela, assim como o senhor, e ela ficou sob vigilância dentro e fora do escritório durante semanas. Quando não se achava sob meus olhos, era seguida pelos homens a quem eu havia prometido uma quantia extravagante caso encontrassem a brecha. Ela então de nada sabia, e continua ignorando o caso até agora. Me sinto envergonhado de ter agido assim, porque a investigação provou a sua inteira lealdade para comigo. Neste último dia, ela ficou sob minha observação pessoal durante duas horas. E não fez um único movimento que eu não tivesse notado, porque a coisa significava milhões para mim. Isso provou de uma forma cabal que a culpa não era dela. O que mais podia eu fazer? Máquina Pensante não respondeu. Parou diante da janela e durante muito tempo ali permaneceu, imóvel, olhos apertados formando dois traços. - Eu estava a ponto de despedir a Srta. Winthrop continuou o financista -, mas neste último caso, a sua inocência ficou de tal modo provada que seria uma injustiça da minha parte, e assim ... De repente, o cientista voltou-se para o visitante. - O senhor fala dormindo? - perguntou. - Não - foi a pronta resposta. - Também tinha pensado nisso. Não sei como explicar, professor, mas existe uma brecha neste caso que está me custando milhões. - Tudo se resume no seguinte, Sr. Grayson - informou Máquina Pensante, de um modo impertinente. - Se apenas o

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senhor e a Srta. Winthrop conheciam seus planos e eles foram utilizados contra o senhor, sendo impossível descobrir por onde se deu isso, a conclusão é que ou o senhor ou ela informaram alguém, intencionalmente ou não. Isso é lógica tão pura quanto a que dois e dois fazem quatro. Não há como discuti-la. - Bem, eu lhe garanto que não fui - disse Grayson. - Então foi a Srta. Winthrop - declarou Máquina Pensante. - A menos que se delegue a seus rivais o poder da telepatia, coisa que não se tem até hoje conhecimento. A propósito, o senhor se referiu à parte contrária apenas como "oposição". Os mesmos homens aparecem sempre contra o senhor ou tratase apenas de um homem? - É um grupo - explicou o financista - com milhões a sustentá-lo, encabeçado por Ralph Matthews, um jovem que considero primordial em se opor a mim - e seus lábios se apertaram. - Por quê? - insistiu o cientista. - Porque toda vez que me encontra, sorri - foi a resposta. E de repente, Grayson pareceu desconcertado. Máquina Pensante foi até a mesa, subscritou um envelope, dobrou uma folha de papel, colocou-a dentro do envelope, depois selou-o. Finalmente, voltou-se para o visitante. - A Srta. Winthrop encontra-se no seu escritório neste momento? - Sim. - Vamos até lá. Minutos mais tarde, o eminente financista conduzia o eminente cientista à sua sala principal em Wall Street. A única pessoa ali presente era uma jovem de uns vinte e seis, vinte e oito anos - que virou a cabeça, avistou Grayson e voltou à sua leitura. O financista indicou uma cadeira. Mas em vez de sentar-se, Máquina Pensante dirigiu-se à Srta. Winthrop e lhe estendeu o envelope selado.

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- O Sr. Ralph Matthews me pediu que lhe entregasse ... disse ele. A jovem ergueu os olhos e olhou-o com franqueza, embora com uma certa timidez: pegou o envelope e virou-o na mão. - Sr. Ralph Matthews - repetiu ela, como se o nome lhe fosse estranho. - Acho que não conheço ... Máquina Pensante continuou a encará-la ostensivamente, observando-a enquanto ela abria o envelope e retirava a folha de papel. A única expressão que lhe viu no rosto foi a de surpresa. - Ora, mas a folha está em branco - exclamou, intrigada. O cientista virou-se para Grayson, que olhava tudo aquilo com um autêntico assombro. - Posso usar seu telefone, por favor? - pediu ele. - Claro - respondeu Grayson. - Obrigado - falou o cientista. Inclinou-se para a mesa em que a Srta. Winthrop trabalhava e levantou o fone ao ouvido. Minutos depois, falava com o repórter Hutchinson Hatch. - Queria apenas lhe pedir que me encontrasse no meu apartamento dentro de uma hora - falou. - Assunto importante. Foi tudo. Desligou, parou admirando uma bela caixa de prata, uma espécie de estojo de maquiagem da Srta. Winthrop, ao lado do telefone, e pôs-se a discursar simpaticamente sobre as condições da meteorologia. Grayson limitou-se a encará-Io, ainda espantado. A Srta. Winthrop voltou à sua leitura. ***

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O Prof. Augustus S.F.X Van Dusen, eminente cientista, e Hutchinson Hatch, repórter, vasculhavam entre chaminés e outros obstáculos em cima de um telhado de um arranha-céu. Lá embaixo, a cidade adormecida se estendia como um panorama, as ruas pontilhadas de luz e telhados apenas entrevistos em meio ao nevoeiro noturno. Mais acima, a infinita escuridão se esparramava como um véu, estrelas brilhando aqui e ali. - Achei os fios - disse Hatch, baixando o corpo. Máquina Pensante ajoelhou-se no telhado ao lado dele e ficaram os dois na escuridão, apenas com a luz de uma lanterna a lhes denunciar a presença. - É esse o fio que o senhor precisa, Sr. Hatch - disse. - O resto fica por sua conta. - Está certo disso? - disse o repórter. - Como sempre - foi a curta resposta. Hatch abriu um pequeno saco e tirou dali diversas ferramentas de aparência estranha. E espalhou-as todas no telhado, ao seu lado. Depois, ajoelhando-se outra vez, pôs mãos à obra. Durante meia hora trabalhou com o auxílio da lanterna. Concluído, levantou-se. - Está pronto - anunciou. Máquina Pensante examinou a obra, grunhiu a sua satisfação, e juntos voltaram à clarabóia, deixando um fio fino e isolado a seguir-lhe os passos. Desceram do telhado para a escuridão do hall do último andar. Apagaram a luz do andar. Lá de baixo chegava o eco abafado dos passos do vigia, em meio ao silêncio do prédio deserto. - Cuidado - preveniu Máquina Pensante. Atravessaram o hall em direção ao quarto dos fundos,

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sempre com o fio a lhes acompanhar os passos. Pararam finalmente na última porta. Máquina Pensante remexeu numas chaves, depois abriu a porta. No interior da peça, uma luz acesa. Não se via um móvel e o único sinal de ocupação recente era um telefone na parede. Máquina Pensante parou, examinando o rolo de fio que vinha soltando à medida que caminhava, e seu rosto expressava dúvida. - Não acho prudente deixar o fio exposto assim - disse, finalmente. - Este andar está desocupado, é verdade, mas alguém pode passar por aqui e alterar a arrumação. Pegue este rolo, vá até o telhado enrolando o fio, depois balance o rolo pela beira do edifício que eu o apanho aqui pela janela. Será melhor assim, não irá chamar a atenção. *** Por duas vezes no dia seguinte, Máquina Pensante falou com o financista por telefone. Grayson estava em seu escritório, a Srta. Winthorp na sua mesa, quando soou a primeira ligação. - Cuidado ao responder às minhas perguntas - preveniu o cientista, assim que Grayson atendeu. - Sabe há quanto tempo a Srta. Winthrop tem a caixa prateada que ela deixa em cima da mesa, perto do telefone? Grayson não conseguiu evitar uma olhada para o ponto em que a moça estava sentada, lendo um livro. - Sim - respondeu -, há sete meses. Fui eu que lhe dei de presente no Natal passado. - Ah! - exclamou o cientista. - Isso simplifica a questão. E onde foi que comprou o presente?

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Grayson mencionou o nome de uma joalheria muito conhecida. Mais tarde nesse mesmo dia, Máquina Pensante voltou a ligar para Grayson. - Qual é a marca da máquina de escrever que ela usa? perguntou sem mesmo dizer "alô': Grayson respondeu. Enquanto o financista continuava sentado, sempre perplexo com o professor Augustus, o cientista foi procurar Hutchinson no seu local de trabalho. - Qual é a marca da sua máquina de escrever? - foi logo perguntando. - Quatro ou cinco marcas diferentes - respondeu ele. Temos uma meia dúzia delas. Atravessaram a redação quase deserta naquela hora, até que os olhos azuis do cientista se fixaram numa máquina. - É essa aí! - exclamou Máquina Pensante. - Escreva nela qualquer coisa - pediu ele a Hatch. Hatch puxou a cadeira e bateu diversas linhas da velha passagem que começa assim: "É chegado o momento em que todos os homens de boa vontade ... " Máquina Pensante sentou-se ao lado dele, com um ar completamente abstrato, enquanto ouvia com a máxima atenção. Voltara a cabeça para o lado oposto em que se achava o repórter, mas mantinha o ouvido preso à máquina de escrever. Ficou assim algo como meio minuto, depois sacudiu a cabeça de leve. - Bata nas vogais primeiro lentamente, depois com rapidez - quase que ordenou. Hatch continuou a obedecê-lo, enquanto o cientista apurava mais ainda o ouvido. E mais uma vez sacudiu a cabeça. Depois, cada máquina

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da redação foi testada da mesma maneira. Por fim o cientista levantou-se e despediu-se e partiu, com uma expressão de perplexidade estampada no rosto. *** Naquela noite, Máquina Pensante deixou-se ficar por horas e horas no seu laboratório, olhando para cima e perdido numa absoluta concentração. Mudança alguma ocorria no seu rosto, ou na posição assumida enquanto os minutos passavam; tinha o cenho franzido e a linha fina dos lábios contraída. O minúsculo relógio da sala de espera bateu dez, onze, meianoite e, finalmente, uma hora. À uma e meia, ele levantou-se de um pulo. - Mas, sem dúvida nenhuma, acho que estou ficando burro! - exclamou à meiavoz. - Claro! Claro! Como é que eu não pensei nisso logo de saída? ... Aconteceu que, pela manhã, Grayson não apareceu no escritório na hora de costume. É que correra, ansioso, à casa do Máquina Pensante, em resposta a um bilhete recebido em casa pouco antes de sair para o escritório. - Por enquanto, nada - disse o cientista, assim que ele entrou. - Mas você tem algo a fazer aqui, hoje. À uma hora, prepare ordem para uma transação de grande vulto; e deve agir exatamente como tem agido antes; nada de mudanças. Dite as cartas como de costume para a Srta. Winthrop, mas não as envie. Quando elas lhe forem entregues para assinar, guarde-as até falar comigo . - Quer dizer que a transação será totalmente simulada? perguntou o financista. - Isso mesmo - foi a resposta. - Mas dê suas instruções detalhadas para torná-las lógicas e convincentes.

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Grayson fez mais uma dúzia de perguntas, mas não obteve as respostas correspondentes. Assim, foi ele para seu escritório. Máquina Pensante voltou a falar com Hatch pelo telefone. - Descobri tudo - anunciou ele, em poucas palavras. Quero o melhor telegrafista que você conheça. Traga-o consigo e me esperem na sala do último andar onde está o telefone, exatamente às doze e quarenta e cinco de hoje. - Um telegrafista? - Foi o que eu disse: um telegrafista, o melhor! - retrucou o cientista, irritado. - Até breve. Hatch não deixou de sorrir quando ouviu o fone bater com força do outro lado do fio, sorriu porque conhecia os métodos daquele homem singular, cuja mente resolvia todos os problemas que lhe eram propostos, e com tamanha exatidão! Depois foi até a sala de telégrafo da redação e requisitou o principal operador. Quinze para a uma, precisamente, estavam os dois no quartinho do último andar. O telegrafista olhou em volta, atônito. A peça continuava vazia de móveis e utensílios, com exceção da caixa do telefone colocada na parede. - O que é que eu faço? - perguntou ele ao Máquina Pensante. - Eu lhe direi quando chegar o momento - respondeu o cientista, olhando para o relógio. Quando faltavam três minutos para a uma hora, estendeu uma folha em branco para o telegrafista e deu-lhe as instruções finais. O homem olhou-o, espantado. Apesar disso, obedeceu às ordens recebidas, sorrindo para Hatch enquanto mudava a posição do cigarro na boca para fugir da fumaça que lhe ardia

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os olhos. Máquina Pensante ficou a postos, cheio de impaciência, relógio na mão. Hatch não sabia o que estava acontecendo, mas nem por isso deixava de se sentir extremamente interessado naquilo. Finalmente, o telegrafista ouviu alguma coisa. Seu rosto pôs-se em estado de alerta na hora. Escutou durante alguns instantes e logo um sorriso se lhe iluminou o rosto. *** Menos de dez minutos depois de a Srta. Winthrop ter passado por cima da máquina as cartas de instruções para Grayson assinar, e enquanto ele punha-se a examiná-las em silêncio, a porta se abriu e Máquina Pensante entrava na sala. Atirou uma folha de papel em cima da mesa de Grayson e foi diretamente até a Srta. Winthrop. - Quer dizer que, no fim das contas, a senhorita conhecia Ralph Matthews? _ disse-lhe ele. A moça levantou-se e a sombra de uma emoção alteroulhe o rosto. - o que o senhor quer dizer com isso? - perguntou. - Pode afastar a caixinha de prata dali - continuou Máquina Pensante, sem perddão ou pena. - Não há mais necessidade de manter a ligação. A Srta. Winthrop olhou para a extensão do telefone na sua mesa e estendeu a mãe até ela. O estojo de maquiagem se encontrava bem debaixo do fone, amparando-o de modo que o peso ficava removido do gancho, deixando a linha aberta. Afastou a caixa, e o fone voltou ao lugar com um leve estalido. Máquina Pensante voltou-se para Grayson. - Era a Srta. Winthrop! - exclamou Grayson, levantando-

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se. - Não consigo acreditar! - Leia o papel que lhe dei, Sr. Grayson - reagiu Máquina pensante, com voz fria. Talvez isso lhe traga alguma luz. O financista abriu a folha de papel e correu os olhos pelo que nela estava escrito; leu lentamente em voz alta: "Peabody: venda dez mil ações da L.&W. por 97. McCracken e Cia: venda dez mil ações da L.&W. por 97." - E assim continuou até o fim da lista, espantado. Gradualmente, ao perceber a importância do que lia, seus lábios foram ficando severos, linhas duras em volta da boca. - Compreendo, Srta. Winthrop - disse, por fim. - Aqui está a substância das ordens que lhe ditei; e de uma maneira por mim ignorada, a senhora as transmitiu a terceiros, não autorizados a recebê-las. Embora desconheça como conseguiu isso, compreendo que serviu de intermediária ... - deu um passo até a porta e abriu-a com uma grave cortesia. - Pode ir, por favor. A Srta. Winthrop sequer se desculpou - limitou-se a curvar a cabeça e saiu sem dizer palavra. Grayson seguiu-a com o olhar, depois voltou-se para o Máquina Pensante e indicou-lhe uma cadeira. - O que foi que aconteceu? - perguntou, bastante curioso. - A Srta. Winthrop é uma mulher muito inteligente - disse o cientista. - Esqueceu-se, no entanto, de lhe dizer que, além de datilógrafa e estenógrafa, é também uma exímia telegrafista. É tão experiente em todas essas profissões, que combinou todas elas, por assim dizer. Em outras palavras, ao bater uma ordem sua à máquina, sabia dar a cada letra que batia o clique do código Morse, de modo que outro telegrafista, do outro lado do fio, ia escutando e traduzindo em letras os sinais emitidos. Incrédulo, Grayson apenas olhava para o cientista. -

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Continuo sem entender - murmurou. Máquina Pensante levantou-se e foi até a mesa da Srta. Winthrop. - Aqui tem uma extensão do telefone com o fone no aparelho. Acontece que a caixa de prata que o senhor lhe deu de presente é bastante alta para afastar o fone do gancho, e quando isso acontece, a linha continua funcionando. Quando o senhor se encontrava na sua mesa e a Srta. Winthrop na dela, o senhor simplesmente não enxergava o telefone. Ora, com o aparelho fora do seu campo de visão, nada mais simples para ela do que levantar o receptor com o auxílio da caixa de prata e manter assim a linha em funcionamento. Desta forma, o bater das teclas da máquina era transmitido pelo fio a quem quer que se achasse à escuta na outra ponta. E se, ao datilografar uma carta se observasse um código telegráfico simultaneamente com a cópia da referida carta, um operador preparado para isso receberia a mensagem da sua correspondência no mesmo momento em que ela a batia aqui nesta sala. Simples. Só era preciso uma grande concentração da parte dela para conseguir datilografar dentro de um ritmo de código Morse. - Entendi - exclamou Grayson. - Assim que percebi que a brecha no seu escritório não se definia pelos moldes usuais, procurei pelo o que seria fora do comum - continuou Máquina Pensante. - Nada parece agora muito misterioso: apenas um expediente mais inteligente, nada além disso. - Inteligente! - repetiu Grayson, furioso da vida. - É mais do que isso, é criminoso! Eu vou processá-la! -Não lhe aconselho, Sr. Grayson - falou o cientista, de cabeça fria. - Se considera honesto, uma simples questão de negócios, jogar na Bolsa como o senhor faz, isso não se pode chamar de desonesto. E não deve esquecer que a Srta. Winthrop tem o apoio das pessoas que fizeram fortuna nas suas costas. Quer dizer, no seu caso eu não processaria ninguém. É um abuso de confiança, não há dúvida, mas ... -

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Levantou-se como se tivesse dito tudo e encaminhou-se para a porta. - No entanto, aconselho-o a demitir a pessoa encarregada da central telefônica deste prédio. - Ela também participou do plano? - perguntou Grayson. Depois correu para a sala ao lado, mas esbarrou na porta com um empregado que entrava. - Onde está a Srta. Mitchell? - perguntou furioso o Sr. Grayson. - Pois eu estou vindo aqui exatamente para lhe dizer que ela acabou de sair com a Srta. Winthrop sem dar a menor explicação - explicou o rapaz. - Até outra hora, Sr. Grayson disse Máquina Pensante. O financista agradeceu e retornou à sua sala. *** Dias mais tarde, Máquina Pensante recebeu um cheque no valor de dez mil dólares assinado por J. Morgan Grayson. Olhou o cheque por alguns segundos e em seguida endossou-o com sua letra grande e mal desenhada: "Pague-se à Casa das Crianças Deficientes", e mandou que sua governanta o despachasse pelo correio. Tradução de Alves Moreira