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O COLAR DA RAINHA

MAURICE LEBLANC (1864-1941 I França) Duas ou três vezes por ano, por ocasião de solenidades importantes, como os bailes da embaixada da Áustria ou os saraus de Lady Billingstone, a condessa de Dreux-Soubise colocava sobre seus alvos ombros "O Colar da Rainha'. Tratava-se realmente do famoso colar, o lendário colar que Bohmer e Bassenge, joalheiros da coroa, destinaram à Du Barry, que o cardeal de Rohan-Soubise imaginou oferecer a Maria Antonieta, rainha da França, e que a aventureira Jeanne de Valois, condessa de La Motte, desmembrou numa noite de fevereiro de 1785, com a ajuda de seu marido e cúmplice Rétaux de Villette. Para dizer a verdade, só o engaste era autêntico. Rétaux de Villette o tinha conservado, enquanto o Sr. de La Motte e sua mulher dispersavam aos quatro ventos as pedras brutalmente descoladas, as admiráveis pedras tão cuidadosamente escolhidas por Bohmer. Mais tarde, na Itália, ele o vendeu a Gaston de Dreux-Soubise, sobrinho e herdeiro do cardeal, salvo por ele da ruína quando da escandalosa bancarrota de Rohan-Guéménée e que, em memória de seu tio, comprou os poucos diamantes que restavam em posse do joalheiro inglês Jefferys, completou-os com outros de valor muito menor, mas de igual tamanho, e conseguiu reconstituir o maravilhoso "Colar em Grilhões", tal como havia saído das

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mãos de Bohmer e Bassenge. Dessa jóia histórica orgulharamse por mais de um século os Dreux-Soubise. Embora diversas circunstâncias houvessem diminuído consideravelmente a sua fortuna, eles preferiram reduzir seu padrão de vida a alienar a real e preciosa relíquia. O conde atual, em particular, era ligado a ela como se está ligado à casa de seus pais. Por prudência, havia alugado, no Crédit Lyonnais, um cofre para guardá-lo. Ia pessoalmente apanhá-la na tarde do dia em que sua mulher desejasse usá-lo e levava-o pessoalmente de volta no dia seguinte. Naquela noite, na recepção do Palácio de Castille - a aventura remonta ao início do século -, a condessa fez um verdadeiro sucesso e o rei Christian, em honra de quem era dada a festa, observou sua magnífica beleza. As pedras resplandeciam em torno do gracioso pescoço. As mil facetas dos diamantes brilhavam e cintilavam corno chamas sob as luzes. Nenhuma outra além dela, parecia, poderia suportar com tanta graça e nobreza o fardo de tal adorno. Foi um duplo triunfo, que o conde de Dreux apreciou profundamente e do qual se felicitou quando voltaram para o quarto da sua velha mansão em Saint-Germain. Ele estava orgulhoso de sua mulher e talvez igualmente da jóia que há quatro gerações fazia a glória de sua família. E sua mulher tirava dali uma vaidade um pouco pueril, mas que era bem a marca de seu temperamento altivo. Não sem pesar, ela retirou o colar de seus ombros e entregou-o ao marido, que o examinou com admiração, como se absolutamente não o conhecesse. Depois, tendo recolocado a jóia em seu estojo de couro vermelho com as armas do cardeal, passou para um compartimento contíguo, mais uma espécie de alcova, que havia sido completamente isolada do quarto e cuja única entrada se encontrava aos pés de sua cama. Como das outras vezes, ocultou-o numa prateleira bastante alta, entre caixas de chapéu e pilhas de roupa de

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cama. Fechou a porta e mudou de roupa. Pela manhã, levantou-se por volta das nove horas, com a intenção de, antes do almoço, ir até o Crédit Lyonnais. Vestiuse, tomou uma xícara de café e desceu à estrebaria. Lá, deu suas ordens. Um de seus cavalos o preocupava. Ele o fez marchar e trotar pelo pátio. Voltou então para junto de sua mulher. Ela não havia saído do quarto e se penteava, ajudada por sua criada. Disse a ele: - Vai sair? - Vou ... para aquele compromisso. - Ah! É verdade ... é mais prudente... Ele entrou no compartimento. Mas, alguns segundos depois, perguntou, aliás sem a menor surpresa: - Pegou o colar, minha querida? Ela retrucou: - Como? Não, não peguei coisa alguma. - Você mudou-o de lugar. - Absolutamente ... Nem abri essa porta. Ele apareceu, descomposto, e balbuciou, a voz quase inaudível: - Você não ... Não foi você? ... Então ... Ela correu até ele e os dois procuraram febrilmente, jogando as caixas no chão e demolindo as pilhas de lençóis. E o conde repetia: - Inútil ... Tudo o que fazemos é inútil. .. Foi aqui, nesta prateleira, que eu o coloquei. - Pode ter-se enganado. - Foi aqui, aqui, nesta prateleira e não em outra. Acenderam uma vela, pois a peça era um tanto escura, e tiraram toda a roupa de cama e todos os objetos que a atravancavam. E, quando mais nada mais havia no compartimento, foram obrigados a admitir com desespero que o

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famoso colar, "o Colar em Grilhões da Rainha", havia desaparecido. De natureza decidida, a condessa, sem perder tempo em vãs lamentações, mandou prevenir o comissário, o Sr. Valorbe, cujo espírito sagaz e clarividência já haviam tido a oportunidade de apreciar. Colocaram-no a par em detalhes e ele imediatamente perguntou: - Tem certeza, Sr. conde, de que ninguém atravessou seu quarto durante a noite? - Certeza absoluta. Tenho o sono muito leve. Mais ainda: a porta deste quarto estava fechada com o ferrolho. Precisei abri-la esta manhã quando minha mulher chamou a criada. - E não existe outra passagem que permita a entrada no compartimento? - Nenhuma. - Nem janela? - Há, mas está bloqueada. - Eu gostaria de verificar ... Velas foram acesas e imediatamente o Sr. Valorbe mostrou que a janela só estava bloqueada até a metade, por um baú que, ademais, não se encaixava exatamente na esquadria. - Está suficientemente encaixado - retrucou o Sr. de Dreux - para que seja impossível empurrá-la sem fazer muito barulho. - E para onde dá esta janela? - Para um poço de ventilação. - E há ainda um andar acima deste? - Dois, mas à altura do andar dos criados, o poço é protegido por uma grade de malhas pequenas. Por isto temos tão pouca luz. Aliás, quando o baú foi afastado, constatou-se que a

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janela estava fechada, o que não estaria se alguém houvesse penetrado por ali. - A menos - observou o conde - que esse alguém tenha saído pelo nosso quarto. - Caso em que o senhor não teria encontrado o ferrolho fechado. O comissário refletiu por um instante e, voltando-se para a condessa: - Alguém de suas relações sabia que a senhora usaria este colar ontem à noite? - Com certeza, não ocultei o fato. Mas ninguém sabia que nós o esconderíamos neste compartimento. – Ninguém ? - Ninguém ... A menos que ... - Por favor, senhora, seja objetiva. Este é um ponto dos mais importantes. Ela disse a seu marido: - Eu estava pensando em Henriette. - Henriette ? Ela ignora este detalhe, como as outras. - Tem certeza? - De quem se trata? - interrogou o Sr. Valorbe. - Uma amiga do convento, que brigou com sua família por se casar com uma espécie de operário. Com a morte de seu marido, eu a recolhi com seu filho e mobiliei para eles um apartamento nesta mansão. E ela acrescentou com embaraço: - Ela me presta alguns serviços. É muito hábil com as mãos. - Em que andar ela vive? - No nosso, não distante do resto ... No fim deste corredor

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... E ... estou pensando ... a janela de sua cozinha ... - Abre para este poço, não é? - É ... bem defronte à nossa. Um leve silêncio seguiu-se a esta declaração. O Sr. Valorbe pediu então para ser conduzido até Henriette. Encontraram-na costurando, enquanto seu filho Raul, um menino de seis a sete anos, lia a seu lado. Bastante espantado de ver o miserável apartamento que havia sido mobiliado para ela e que se compunha no total de um cômodo sem lareira e de um puxado servindo de cozinha, o comissário interrogou-a. Ela pareceu perturbada ao tomar conhecimento do roubo. Na véspera, à noite, ela própria havia vestido a condessa e fechado o colar em volta do seu pescoço. - Deus do céu! - exclamou. - Quem diria? - E a senhora tem alguma idéia? Nenhuma suspeita? É possível que o culpado tenha passado pelo seu quarto. Ela riu com gosto, sem ao menos imaginar que pudesse ser vítima de uma suspeita. - Mas eu não saí do meu quarto! Nunca saio. E depois, o senhor não viu? Ela abriu a janela do puxado. - Veja, há uns três metros até o lado oposto. - Quem lhe disse que admitíamos a hipótese de um roubo efetuado por aí? - Mas ... o colar não estava no compartimento? - Como a senhora sabe? - Céus! Eu sempre soube que ele era posto ali à noite ... Falaram disso na minha frente... Seu rosto, ainda jovem, mas que havia sido marcado pelas

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mágoas, trazia uma grande doçura e resignação. De repente, entretanto, teve em silêncio uma expressão de angústia, como se um perigo a tivesse ameaçado. Ela puxou seu filho para perto de si. Ele segurou-lhe a mão e abraçou-a com ternura. - Não acredito - disse a Sra. de Dreux ao comissário, quando ficaram a sós -, não acredito que o senhor desconfie dela. Eu respondo por ela. É a honestidade em pessoa. - Oh! Concordo inteiramente com a senhora - afirmou o Sr. Valorbe. - No máximo pensei numa cumplicidade inconsciente. Mas reconheço que esta explicação deve ser abandonada, ainda mais porque ela absolutamente não resolve o problema com o qual nos defrontamos. O comissário não levou adiante aquele inquérito, que a promotoria retomou e completou nos dias subseqüentes. Os criados foram interrogados, o ferrolho foi examinado, foram feitas experiências com a fechadura e a abertura da janela do compartimento, o poço foi explorado de cima a baixo ... Tudo inútil. O ferrolho estava intacto. A janela não podia ser aberta ou fechada pelo lado de fora. Mais especialmente, as buscas visaram Henriette, pois, apesar de tudo, retornava-se sempre a este lado. Sua vida foi minuciosamente revistada e constatou-se que, em três anos, ela só saíra da mansão quatro vezes, e as quatro vezes, para compras que puderam ser determinadas. Na verdade, ela servia de criada de quarto e de costureira para a Sra. de Dreux, que a tratava com um rigor do qual todos os criados deram testemunhos confidenciais. - Aliás - dizia a promotoria, que, ao fim de uma semana, chegou às mesmas conclusões que o comissário -, admitindo que conhecêssemos o culpado, o que não é o caso, não saberíamos mais do que sabemos sobre como o roubo foi cometido. Estamos bloqueados à direita e à esquerda por dois obstáculos: uma porta e uma janela fechadas. O mistério é

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duplo! Como alguém conseguiu entrar e como, o que seria ainda mais difícil, conseguiu escapar deixando atrás de si uma porta trancada por um ferrolho e uma janela fechada? Ao fim de quatro meses de investigações, a idéia secreta da promotoria era esta: o Sr. e a Sra. de Dreux, premidos por necessidades financeiras, haviam vendido o Colar da Rainha. O caso foi arquivado. O roubo da preciosa jóia foi para os Dreux-Soubise um golpe cuja marca eles conservaram por muito tempo. Seu crédito não sendo mais garantido pela espécie de reserva que constituía tal tesouro, eles se viram diante de credores mais exigentes e banqueiros menos benevolentes. Precisaram apertar os cintos, alienar, hipotecar. Enfim, teria sido a ruina se duas volumosas heranças de parentes distantes não os tivessem salvo. Eles sofreram também em seu orgulho, como se houvessem perdido um pedaço de nobreza. E, coisa estranha, foi contra sua antiga servidora que a condessa se voltou. Sentia contra ela um verdadeiro rancor e a acusava abertamente. Relegaram-na primeiro ao andar dos criados, depois despediram-na da noite para o dia. E a vida passou, sem acontecimentos notáveis. Eles viajaram muito. Um único fato deve ser mencionado no decorrer dessa época. Alguns meses após a partida de Henriette, a condessa recebeu dela uma carta que a encheu de espanto. "Senhora, Não sei como agradecer-lhe. Pois foi a senhora, não é mesmo, que me enviou aquilo? Só pode ter sido a senhora. Ninguém mais conhece meu esconderijo no fundo desta pequena aldeia. Se eu estiver enganada, desculpe-me e receba ao menos a manifestação de meu reconhecimento por suas

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boas ações do passado ... " O que ela queria dizer? As boas ações presentes ou passadas da condessa para com ela reduziam-se a muitas injustiças. O que significavam aqueles agradecimentos? Instada se explicar, ela respondeu que havia recebido pelo correio, num envelope não-registrado, duas notas de mil francos. O envelope, que anexava à sua resposta, trazia o carimbo de Paris e trazia apenas seu endereço, escrito com uma letra visivelmente disfarçada. De onde vinham aqueles dois mil francos? Quem os havia enviado? A justiça foi informada. Mas que pista poderia ser seguida em meio àquelas trevas? E o mesmo fato se repetiu doze meses depois. E uma terceira vez, uma quarta vez e a cada ano durante seis anos, com a diferença de que, no quinto e no sexto ano, o valor dobrou, o que permitiu a Henriette, subitamente doente, tratar-se como convinha. Outra diferença: tendo a administração do correio apreendido uma das cartas com o pretexto de não estar a mesma registrada, as duas últimas cartas foram enviadas conforme o regulamento, a primeira datada de Saint-Germain e a outra de Suresnes. O expedidor assinou primeiro Anquety, depois Péchard. Os endereços eram falsos. Ao final de seis anos, Henriette morreu. O enigma continuou total.

Todos estes acontecimentos são conhecidos pelo público. O caso foi daqueles que apaixonaram a opinião e foi um destino

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estranho o daquele colar que, depois de perturbar a França no final do século XVIII, provocou ainda tanta emoção cento e vinte anos depois. Mas o que vou dizer é ignorado por todos, salvo pelos principais interessados e algumas pessoas às quais o conde pediu segredo absoluto. Como é provável que um dia ou outro elas quebrem sua promessa, não tenho, pessoalmente, qualquer escrúpulo em rasgar o véu, e será então revelada, simultaneamente à chave do enigma, a explicação da carta publicada pelos jornais na manhã de anteontem, carta extraordinária que acrescentava, se isto é possível, ainda mais sombra e mistério às obscuridades desse drama. Tudo aconteceu há cinco dias. Entre os convidados que almoçavam na casa do Sr. de Dreux-Soubise, encontravam-se suas duas sobrinhas e sua prima e, de homens, o presidente d'Essaville, o deputado Bochas, o cavalheiro Floriani, que o conde conhecera na Sicília, e o general marquês de Rouzieres, um velho companheiro. Após a refeição, as senhoras serviram o café e os senhores tiveram a autorização para um cigarro, com a condição de não desertarem do salão. Conversou-se. Uma das jovens divertiuse pondo cartas e fazendo previsões. Depois veio-se a falar de crimes célebres. E foi neste contexto que o Sr. de Rouzieres, que jamais perdia a ocasião de implicar com o conde, lembrou a aventura do colar, tema de conversa do qual o Sr. de Dreux tinha horror. Imediatamente cada um deu seu palpite. Cada um recomeçou o inquérito à sua maneira. E, é claro, todas as hipóteses se contradiziam, todas igualmente inadmissíveis. - E o senhor? – perguntou a condessa ao cavalheiro Floriani. – Qual a sua opinião ? - Oh, eu não tenho opinião, minha senhora. Todos protestaram. Pois exatamente o cavalheiro acabara

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de contar com brilhantismo diversas aventuras nas quais estivera envolvido com seu pai, magistrado em Palermo, e nas quais ficaram claros seu julgamento e seu gosto por estas questões. - Confesso – disse ele – que me aconteceu ter sucesso onde os mais hábeis haviam renunciado. Mas daí a me considerar um Sherlock Holmes... E, ademais, praticamente não sei do que se trata. Voltaram-se todos para o dono da casa. A contragosto, ele precisou resumir os fatos. O cavalheiro ouviu, refletiu, fez algumas perguntas e murmurou: - Engraçado... à primeira vista não me parece que a coisa seja tão difícil de adivinhar. O conde deu de ombros. Mas as outras pessoas se entusiasmaram em torno do cavalheiro, e este começou num tom um pouco dogmático: - Em geral, para chegar ao autor de um crime ou de um roubo, é preciso determinar como tal crime ou roubo foram cometidos. No caso atual, nada mais simples, na minha opinião, pois estamos diante não de diversas hipóteses, mas de uma certeza, uma certeza única, absoluta, e que se enuncia assim: o indivíduo não poderia entrar senão pela porta do quarto ou pela janela do compartimento. Ora, não se abre, de fora, uma porta aferrolhada. Então ele entrou pela janela. - Ela estava fechada e nós a encontramos fechada declarou o Sr. de Dreux. - Para tanto - continuou Floriani, sem considerar a interrupção - ele só precisou criar uma ponte, prancha ou escada entre o balcão da cozinha e a esquadria da janela e, assim que o estojo ... - Mas eu lhe repito que a janela estava fechada! exclamou o conde com impaciência. Desta vez, Floriani teve

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que responder. Ele o fez com a maior tranqüilidade, como um homem a quem uma objeção tão insignificante não perturba. Acredito que estivesse, mas não havia uma clarabóia? - Como sabe? - Primeiro, porque é quase uma regra, em mansões daquela época. E depois, é preciso que assim seja, pois de outro modo o roubo seria inexplicável. - Na verdade existe uma, mas estava fechada, como a janela. Sequer demos atenção a ela. - Foi um erro. Pois, se lhe tivessem prestado atenção, teria sido evidentemente visto que havia sido aberta. - E como? - Suponho que, como todas as outras, ela se abre por meio de um arame trançado, munido de um aro em sua extremidade inferior? - É. - E tal aro ficava pendurado entre a esquadria e o baú? - Sim, mas não compreendo ... - Veja bem. Por uma abertura feita no vidro foi possível, com a ajuda de um instrumento qualquer, digamos uma varinha de ferro munida de um gancho, alcançar o aro, puxar e abrir. O conde riu: - Perfeito: puxar e abrir! Perfeito! O senhor resolve tudo com perfeição, mas se esquece de uma coisa, meu caro, é que não havia abertura no vidro. - Havia uma abertura. - Ora, vamos, teríamos visto. - Para ver é preciso olhar, e ninguém olhou. A abertura existe, é materialmente impossivel que ela não exista, ao

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longo do vidro, encostada ao caixilho ... no sentido vertical, é claro. O conde levantou-se. Parecia muito excitado. Cruzou duas ou três vezes o salão num passo nervoso e, aproximando-se de Floriani: - Nada mudou lá em cima desde aquele dia ... Ninguém pôs os pés no compartimento. - Neste caso, meu senhor, é possível que o senhor se certifique de que minha explicação está de acordo com a realidade. - Ela não está de acordo com quaisquer fatos que a justiça tenha constatado. O senhor nada viu, nada sabe e vai de encontro a tudo o que vimos e a tudo o que sabemos. Floriani não pareceu absolutamente perceber a irritação do conde e disse sorrindo: - Meu Deus, senhor, procuro ver claramente, eis tudo. Se eu estiver enganado, prove-me meu erro. - Sem mais tardar ... Confesso que sua segurança ... O Sr. de Dreux resmungou ainda algumas palavras e então, subitamente, dirigiu-se para a porta e saiu. Nem uma palavra foi dita. Esperava-se ansiosamente, como se, de fato, uma parcela da verdade fosse aparecer. E o silêncio tinha uma extrema gravidade. Finalmente, o conde apareceu na soleira da porta. Estava pálido e singularmente agitado. Disse a seus amigos, com a voz trêmula: - Eu lhes peço desculpas ... as revelações do cavalheiro são tão imprevistas ... eu jamais teria pensado ... Sua mulher o interrogou avidamente: - Fale ... Eu lhe suplico ... O que há? Ele balbuciou: - A fenda existe ... exatamente no local indicado ... ao longo do vidro ...

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Ele agarrou bruscamente o braço do cavalheiro e disse-lhe num tom imperioso: - E agora, senhor, continue ... Reconheço que o senhor tem razão até aqui. Mas agora, não acabou ... responda ... O que aconteceu, na sua opinião? Floriani soltou-se suavemente e, depois de um instante, pronunciou: - Pois bem, na minha opinião, eis o que se passou. O indivíduo, sabendo que a Sra. de Dreux iria ao baile com o colar, providenciou sua passarela durante a sua ausência. Através da janela, ele o observou e o viu esconder a jóia. Assim que o senhor saiu, ele cortou o vidro e puxou o aro. - Seja, mas a distância é grande demais para que ele pudesse, pela clarabóia, alcançar a fechadura da janela. - Se ele não conseguiu abri-la foi porque entrou pela própria clarabóia. - Impossível! Não existe um homem magro o suficiente para entrar por ali. - Então não se trata de um homem. - Como? - Claro. Se a passagem era estreita demais para um homem, tem que ter sido uma criança. - Uma criança? - O senhor não me disse que sua amiga Henriette tinha um filho? - Com efeito ... um filho que se chamava Raul. - É infinitamente provável que tenha sido Raul quem cometeu o roubo. - Que provas o senhor tem? - Que provas? Provas não faltam ... Vejamos, por exemplo

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... Ele se calou e refletiu por alguns segundos. Então continuou: - Vejamos por exemplo, aquela passarela; não se pode acreditar que o menino a tenha trazido de fora e levado até lá sem que fosse notado. Ele deve ter utilizado o que havia à sua disposição. No puxado onde Henriette cozinhava havia, não é mesmo?, umas prateleiras presas na parede onde se colocavam as panelas. - Duas prateleiras, ao que me lembro. - Seria preciso verificar se tais tábuas estão realmente fixas nos suportes de madeira em que se apóiam. Caso contrário, estaríamos autorizados a pensar que o menino as despregou, depois juntou uma à outra. Talvez também, já que havia um forno, encontraríamos um gancho para forno, que ele deve ter usado para abrir a clarabóia. Sem dizer uma palavra, o conde saiu, e desta vez os ouvintes nem mesmo sentiram a pequena ansiedade do desconhecido da qual se viram presos da primeira vez. Eles sabiam, sabiam com certeza absoluta, que as previsões de Floriani estavam certas. Emanava daquele homem uma impressão de certeza tão firme que todos o escutavam não como se ele deduzisse os fatos uns dos outros, mas como se contasse acontecimentos cuja autenticidade era fácil de verificar à medida que eram narrados. E ninguém se espantou quando o conde declarou: - Foi mesmo o menino, foi mesmo ele, tudo o comprova. - O senhor viu as tábuas ... o gancho? - Vi ... as tábuas foram despregadas ... o gancho ainda está lá. A Sra. de Dreux-Soubise exclamou:

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- Foi ele ... O senhor quer dizer que foi sua mãe. Henriette é a única culpada. Ela deve ter obrigado seu filho ... - Não - afirmou o cavalheiro. - A mãe nada ter a ver com tudo isto. - Ora vamos! Eles viviam no mesmo quarto, a criança não teria podido agir sem o conhecimento de Henriette. - Eles viviam no mesmo quarto, mas tudo aconteceu no cômodo ao lado, à noite, enquanto a mãe dormia. - E o colar? - disse o conde. - Nós o teríamos encontrado nas coisas do menino. - Perdão! Ele saía. Na manhã mesmo em que os senhores o surpreenderam diante de sua mesa de trabalho, ele vinha da escola; e talvez a justiça, em vez de esgotar seus recursos contra a mãe inocente, teria sido melhor inspirada se procurasse por lá, na mesa do menino, entre seus livros de estudo. - Que seja, mas e os dois mil francos que Henriette recebia todos os anos não são o melhor sinal de sua cumplicidade? - Cúmplice, teria ela lhe agradecido por esse dinheiro? E mais, ela não era vigiada? Enquanto a criança estava livre, com toda a facilidade para correr até a cidade vizinha para se entender com um revendedor qualquer e ceder-lhe por um preço irrisório um diamante, dois diamantes, conforme o caso ... com a única condição de que a remessa do dinheiro fosse efetuada de Paris, mediante o que tudo se repetiria no ano seguinte. Um mal-estar indefinível oprimia os Dreux-Soubise e seus convidados. Na verdade, havia no tom, na atitude de Floriani, algo além daquela certeza que, desde o início, havia tão vivamente irritado o conde. Havia ironia, e uma ironia que mais parecia hostil do que simpática e amistosa como conviria.

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O conde fingiu rir. - Tudo isto é de uma engenhosidade que me encanta! Meus cumprimentos! Que imaginação brilhante! - Mas não, não - exclamou Floriani ainda mais seriamente -, não estou imaginando, estou evocando circunstâncias que foram inevitavelmente tais como as exponho. - O que o senhor sabe a respeito? - O que o senhor mesmo me disse. Imagino a vida da mãe e da criança, lá longe, enterrados no interior, a mãe que cai doente, as astúcias e invenções do menino para vender as pedrarias e salvar sua mãe ou pelo menos suavizar seus últimos momentos. A moléstia a leva. Ela morre. Os anos passam. A criança cresce, torna-se um homem. E então - e desta vez sou obrigado a admitir que minha imaginação segue seu livre curso, suponhamos que esse homem sinta a necessidade de voltar aos locais onde viveu sua infância, que ele os reveja, que reencontre aqueles que suspeitaram, acusaram sua mãe ... Pensem no interesse pungente de tal encontro na velha mansão onde se desenrolaram as peripécias do drama... Suas palavras ecoaram por alguns segundos no silêncio inquieto, e no rosto do Sr. e da Sra. de Dreux lia-se um esforço desesperado para compreender, ao mesmo tempo que o medo e a angústia de compreender. O conde murmurou: - Quem é o senhor, afinal? - Eu? Mas o cavalheiro Floriani, que o senhor encontrou em Palermo e que foi amável o bastante para convidar à sua casa por diversas vezes. - Então o que significa esta história? - Ora! Mas absolutamente nada! É um simples jogo que faço! Tento imaginar a alegria que teria o filho de Henriette, se é que ele ainda existe, em lhes dizer que foi o único culpado e

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que o foi porque sua mãe estava infeliz, a ponto de perder o lugar de ... criada do qual vivia e porque o menino sofria ao ver sua mãe infeliz. Ele se expressava com uma emoção contida, meio de pé e virado para a condessa. Nenhuma dúvida podia subsistir. O cavalheiro Floriani não era outro senão o filho de Henriette. Tudo, em sua atitude, em suas palavras, o proclamava. Aliás, não era sua intenção evidente, sua vontade mesmo, ser reconhecido como tal? O conde hesitou. Que conduta asssumiria para com o audacioso personagem? Chamar alguém? Provocar um escândalo? Desmascarar aquele que o havia roubado outrora? Mas fazia tanto tempo! E quem queria admitir aquela absurda história de criança culpada? Não, era melhor aceitar a situação, fazendo de conta que não compreendia o verdadeiro sentido de tudo aquilo. E o conde, aproximando-se de Floriani, exclamou com jovialidade: - Muito divertido, muito curioso o seu romance. Juro que me apaixona. Mas, na sua opinião, que fim levou esse rapazinho, esse modelo de filho? Espero que não tenha interrompido um caminho tão promissor. - Oh! Claro que não. - Não é mesmo? Depois de tal início! Pegar o Colar da Rainha com seis anos, o famoso colar cobiçado por Maria Antonieta! - E pegá-lo - observou Floriani, prestando-se ao jogo do conde - sem que lhe custasse o menor embaraço, sem que ninguém tivesse a idéia de examinar o estado dos vidros, ou perceber que o parapeito da janela estava limpo demais, aquele parapeito que ele havia esfregado para apagar as marcas de sua passagem sobre a espessa poeira ... Confesse que era coisa demais para a cabeça de um garoto de sua idade. Então é tão fácil? Basta querer e estender a mão? .. Minha nossa, ele quis ...

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- E ele estendeu a mão. - As duas mãos - continuou o cavalheiro, rindo. Houve um estremecimento. Que mistério escondia a vida daquele que se chamava Floriani? Quão extraordinária deveria ser a existência desse aventureiro, ladrão genial aos seis anos e que, hoje, por um refinamento de diletante em busca de emoção, ou no máximo para satisfazer um sentimento de rancor, vinha enfrentar sua vítima em sua própria casa, audaciosamente, loucamente e, no entanto, com toda a correção de um homem galante fazendo uma visita! Ele se levantou e se aproximou da condessa para se despedir. Ela reprimiu um movimento de recuo. Ele sorriu. - Oh! Minha senhora, a senhora está com medo! Terei então levado longe demais minha pequena comédia de mágico de salão? Ela se controlou e respondeu com a mesma desenvoltura um pouco provocativa. - Absolutamente, senhor. Pelo contrário, a lenda desse bom filho me interessou muitíssimo e estou feliz que meu colar tenha tido a oportunidade de um destino tão brilhante. Mas o senhor não acredita que o filho dessa ... mulher, dessa Henriette, obedecia principalmente a uma vocação? Ele teve um sobressalto, sentindo a agulhada, e retrucou: - Estou convencido que sim, e era mesmo necessário que tal vocação fosse séria para que a criança não desistisse. - E como isto aconteceria? - Mas é claro, a senhora sabe, a maioria das pedras era falsa. De verdadeiros só havia alguns diamantes recomprados ao joalheiro inglês, os outros tendo sido vendidos um a um conforme as duras necessidades da vida. - Continuava sendo o Colar da Rainha, senhor - disse a condessa com altivez. E eis o que, parece-me, o filho de

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Henriette não poderia compreender. - Ele deve ter compreendido, senhora, que, falso ou verdadeiro, o colar era acima de tudo um objeto de exibição, um emblema. O Sr. de Dreux fez um gesto. Sua mulher imediatamente se antecipou. - Meu senhor - disse ela -, se o homem ao qual o senhor faz alusão tivesse o mínimo pudor ... Ela se interrompeu, intimidada pelo olhar calmo de Floriani. Ele repetiu: - Se esse homem tivesse o mínimo pudor? ... Ela sentiu que nada ganharia falando com ele daquela maneira e, a contragosto, apesar de sua cólera e de sua indignação palpitante de orgulho humilhado, disse-lhe quase com polidez: - Senhor, diz a lenda que Rétaux de Villette, quando teve nas mãos o Colar da Rainha e retirou os diamantes com Jeanne de Valois, não ousou tocar no engaste. Ele compreendeu que os diamantes eram senão o ornamento, o acessório, mas que o engaste era a obra essencial, a própria criação do artista, e ele a respeitou. O senhor acredita que esse homem também tenha compreendido isto? - Não tenho dúvidas de que o engaste existe. A criança respeitou-o. - Pois muito bem, senhor, se lhe acontecer encontrá-lo, o senhor lhe dirá que ele conserva injustamente uma dessas relíquias que são a propriedade e a glória de certas famílias e que ele pode ter arrancado as pedras sem que o colar tenha deixado de pertencer à casa de Dreux-Soubise. Ele nos pertence como nosso nome, como nossa honra. O cavalheiro respondeu simplesmente: - Direi a ele, minha

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senhora. Inclinou-se diante dela, cumprimentou o cumprimentou todos os presentes, um a um, e saiu. conde,

Quatro dias depois, a Sra. de Dreux encontrou sobre a mesa de seu quarto um estojo vermelho com as armas do cardeal. Ela o abriu. Era o Colar em Grilhões da Rainha. Mas como todas as coisas, na vida de um homem preocupado com a unidade e a lógica, devem concorrer para um mesmo objetivo - e como um pouco de propaganda nunca é prejudicial -, na manhã seguinte o Eco da França publicava estas linhas sensacionais: "O Colar da Rainha, a famosa jóia outrora roubada da família de Dreux-Soubise, foi encontrado por Arsène Lupin. Arsène Lupin apressou-se em entregá-lo a seus legítimos donos. Só se pode aplaudir esta atenção delicada e cavalheiresca." Tradução de Celina Portocarrero