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O HOMEM NA GALERIA G.K. CHESTERTON (1874-1936 Inglaterra)

Os dois homens apareceram simultaneamente nos dois extremos daquela espécie de galeria que corre ao lado do Teatro Apoio no Adelphi. A luz do entardecer nas ruas era forte e luminosa, opalescente e vazia. A galeria, em comparação, era longa e sombria, e cada um deles podia ver o outro apenas como uma silhueta obscura na outra extremidade da passagem. Mesmo assim, os dois se reconheceram, naquelas sombras recortadas, porque eram ambos homens de aparência inconfundível e se odiavam mutuamente. A passagem coberta dava em uma extremidade para uma das ruas que subia do Adelphi e, na outra, terminava num terraço sobre o rio colorido pela luz do poente. Um lado da galeria era a parede lisa do que fora um restaurante de teatro de pouco sucesso, agora fechado. Do outro lado havia duas portas, uma em cada extremidade. Nenhuma das duas portas era como normalmente se imagina uma porta de camarim. Eram portas de camarim, mas de um tipo particular e para uso privativo de atores muito especiais, e naquele momento eram usadas pelo astro e pela estrela do espetáculo de Shakespeare em cartaz. Pessoas famosas, em geral, precisam de entradas e saídas assim para receber amigos, ou para evitá-los. Os dois homens em questão eram sem dúvida esse tipo de

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amigos; era evidente que conheciam as portas e não tinham dúvidas de que se abririam para eles, pois ambos se aproximaram daquela na extremidade superior com a mesma tranqüilidade e confiança. Não com a mesma velocidade, mas o homem que vinha do extremo oposto da galeria era o que andava mais rápido, de forma que chegaram quase ao mesmo tempo àquela porta secreta de camarim. Cumprimentaram-se com civilidade e esperaram um momento antes que o mais rápido, aquele que parecia ser o menos paciente dos dois, se decidisse a bater na porta. Nisso, como em tudo mais, um era o oposto do outro, embora nenhum deles pudesse ser considerado inferior. Em suas vidas privadas, eram pessoas encantadoras, capazes e queridas. Como pessoas públicas, ambos eram bem-sucedidos e famosos. Mas tudo a respeito deles, da fama à bela aparência, era de natureza diversa e sem termo de comparação. Sir Wilson Seymour era o tipo de homem cuja importância era do conhecimento de todos aqueles que sabiam das coisas que importavam. Quanto mais alguém penetrasse nos círculos interiores do poder, em qualquer área, política ou profissional, mais esbarraria em Sir Wilson Seymour. Era o único membro brilhante em vinte comissões idiotas com uma variedade de interesses que ia da reforma da Academia Real ao projeto de atar o sistema monetário da Grã-Bretanha às cotações de ouro e prata. Nas Artes, em especial, era onipotente. Era uma figura tão singular que ninguém conseguira determinar se se tratava de um grande aristocrata que adotara a Arte ou de um grande artista adotado pela aristocracia. Mas seria impossível estar com ele por cinco minutos sem perceber qual dos dois realmente regulava a vida de todos nós. Sua aparência era "distinta" no sentido literal da palavra: ao mesmo tempo convencional e única. As regras da moda não encontrariam nada de errado com sua cartola de seda, que, no

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entanto, era diferente da cartola de seda de qualquer outra pessoa talvez um pouco mais alta e somando alguns centímetros à sua altura natural. Sua figura magra e alta era ligeiramente curvada e, ainda assim, dava a impressão oposta à de fragilidade. Os cabelos eram prateados, mas não pareciam envelhecidos, apenas um pouco mais longos do que o comum, mas não parecia afeminado; tinha ondas, sem parecer que fora ondulado. A barba, cuidadosamente cortada em ponta, dava-lhe uma aparência mais viril e masculina do que se fosse descuidada, como a barba daqueles velhos almirantes de Velásquez cujos retratos escuros cobriam as paredes de sua casa. Usava luvas cinzentas com uma tonalidade predominante de azul, e sua bengala era ligeiramente mais longa que as centenas de outras, que floresciam e se exibiam em teatros e restaurantes. O outro homem não era tão alto, embora ninguém pudesse descrevê-lo como baixo e, tanto quanto o primeiro, era belo e forte. Cabelos também ondulados, mas claros e cortados curtos sobre a cabeça maciça e forte - uma cabeça com a qual se poderia arrombar uma porta, como disse Chaucer a respeito da cabeça de seu moleiro. O bigode militar e a postura dos ombros faziam-no parecer um soldado, mas tinha um par de olhos azuis, atentos e francos, que são mais comuns em marinheiros. O rosto tinha algo de quadrado, o queixo era quadrado, os ombros eram quadrados, até mesmo o corte de seu paletó era quadrado. Na verdade, no estilo impiedoso então em voga, o caricaturista Max Beerbohm o representara como uma proposição no quarto livro de Euclides. Porque, embora devido a outro tipo de sucesso, ele também era uma figura pública. Não era necessário pertencer à alta sociedade para ter ouvido falar do capitão Cutler, do cerco de Hong Kong e da grande marcha através da China. Impossível não ouvir falar dele onde quer que se estivesse; sua fotografia estava em toda

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parte; seus mapas e batalhas ilustravam as revistas; cantavam-se canções em sua homenagem nos teatros e nos bares. Sua fama, embora provavelmente menos consistente, era dez vezes mais difundida, popular e espontânea do que a do outro. Em milhares de lares ingleses ele pairava enorme sobre o país, como Nelson. No entanto possuía infinitamente menos poder na Inglaterra do que Sir Wilson Seymour. A porta foi aberta para eles por um velho criado, ou "roupeiro", cujo rosto cansado e roupas humildes e sem cor contrastavam estranhamente com o brilhante interior do camarim da grande atriz. Havia espelhos em toda parte e cobrindo todos os ângulos de refração, de forma que pareciam as centenas de faces de um enorme diamante - se fosse possível penetrar o interior de um diamante. Os outros elementos de luxo, algumas flores, algumas almofadas coloridas, algumas roupas de palco, eram multiplicados pelos espelhos, numa loucura das "Mil e uma Noites", e dançavam e mudavam de lugar sem parar enquanto o roupeiro mudava a posição de um espelho ou empurrava outro contra a parede. Os dois homens se dirigiram a ele, chamando-o de Parkinson, e perguntaram pela senhora a quem chamaram de Srta. Aurora Rome. Parkinson disse que ela estava no outro quarto, mas que iria avisá-la. Uma sombra cruzou o rosto dos dois homens, pois o outro quarto era o camarim do grande ator com quem Aurora Rome contracenava, e ela era do tipo que não despertava admirações sem despertar ciúmes. Em meio minuto, no entanto, a porta se abriu, e ela entrou, como entrava sempre, mesmo na vida real, de um modo que até mesmo o silêncio parecia uma explosão de aplausos, e aplausos bem merecidos. Vestia um estranho robe de cetim colorido em verde e azul metálicos que lembrava as cores de um pavão, o tipo da coisa que deliciava crianças e estetas, e seu pesado cabelo, de um castanho profundo, emoldurava um daqueles rostos mágicos que são perigosos para todos os

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homens, mas especialmente perigosos para os meninos e os homens ficando grisalhos. Com seu colega, o grande ator americano Isidore Bruno, ela vinha interpretando uma versão especialmente poética e fantástica de Sonhos de uma Noite de Verão, centrada nas personagens de Oberon e Titânia ou, em outras palavras, em Bruno e nela mesma. Movendo-se numa dança mística, dentro do belo cenário de sonho, o costume verde, como as asas de um escaravelho, realçava a individualidade fugidia da rainha dos elfos. Mas diante dela e à luz do dia, um homem via apenas o rosto da mulher. Recebeu os dois visitantes com aquele sorriso misterioso e radiante que mantinha tantos homens orbitando à mesma perigosa distância em torno dela. Aceitou as flores de Cutler, que eram tropicais e caras como suas vitórias, e um presente de outro tipo, dado mais tarde, com displicência, por Sir Wilson Seymour, porque não era de seu feitio demonstrar ansiedade ou ser convencional a ponto de oferecer um presente óbvio como flores. Comprara por quase nada - dissera ele - uma antiguidade, uma adaga grega do período micênico, que poderia ter sido usada na época de Teseu e Hipólita. Era feita de bronze como todas as armas da época heróica, mas ainda era bastante afiada. O que o atraíra, na verdade, fora a forma da lâmina, como uma folha, e sua perfeição, como a de vaso grego. Se pudesse interessar à Srta. Rome, ou talvez ser usada no palco em alguma peça, esperava que ela aceitasse ... A porta de comunicação interna se abriu para um vulto enorme que conseguia contrastar com Seymour mais ainda que o capitão Cutler. Com quase dois metros de altura, um físico e músculos mais que teatrais e vestido no fantástico costume de Oberon, em pele de leopardo e dourados, Isidore Bruno parecia um deus bárbaro. Apoiava-se numa espécie de bastão pontudo, que, visto da platéia, dava a impressão de uma fina vara prateada, mas que no pequeno e congestionado espaço do camarim tomava a aparência ameaçadora de uma

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lança de caçador. Com os olhos negros e vívidos rolando nas órbitas, seu rosto bronzeado, apesar de belo, mostrava naquele momento uma combinação de maçãs altas e dentes muito brancos que parecia confirmar certas conjecturas americanas sobre sua origem nas plantações sulistas. - Aurora - ele começou a falar, naquela voz profunda, como um tambor da paixão que emocionara tantas platéias -, você poderia ... Parou indeciso porque uma sexta figura aparecera na porta - uma figura tão incongruente naquela cena a ponto de parecer cômica. Era um homem extremamente pequeno, vestido com a batina negra do clero secular da igreja romana, que parecia (especialmente na presença de Bruno e Aurora) mais fora de propósito ali do que Noé desembarcando da arca. Ele, no entanto, não parecia consciente de nenhum contraste e disse, com uma voz polida e inexpressiva: - A Srta. Rome pediu que eu viesse. Um observador atento poderia perceber um aumento na temperatura emocional dos presentes, em resposta a uma interrupção tão completamente destituída de emoção. O distanciamento de um celibatário profissional parecia revelar aos outros o fato de estarem todos em volta da mulher como um círculo de rivais amorosos; da mesma forma que a chegada de alguém com neve na roupa revelaria que o local estava quente como uma fornalha. A presença de um único homem não interessado nela fez crescer em Aurora Rome a sensação de que todos os outros a amavam, cada um perigosamente a seu modo: o ator com todo o apetite de um selvagem e as exigências de uma criança mimada; o soldado com o egoísmo simples de um homem com uma força de vontade maior que seu intelecto; Sir Wilson com a tenaz e cotidiana concentração com que os velhos hedonistas se entregam ao culto do prazer; até mesmo o abjeto Parkinson, que a conhecera antes de seu triunfo e que a seguia com olhos

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e solicitude pelo camarim, a amava com o idiota fascínio de um cão. Um observador atento perceberia algo ainda mais estranho; algo que o inexpressivo homenzinho de negro (que não era um observador completamente desatento) percebeu com um contido divertimento. Era evidente que a grande Aurora Rome, embora não fosse de nenhuma forma indiferente à admiração do sexo oposto, naquele momento preferia livrarse de seus admiradores para ficar a sós com o único homem presente que não a admirava - não a admirava naquele senso específico; porque, na verdade, o padre teve de admirar a firme diplomacia feminina com que ela conseguiu seu intento. Talvez fosse a única coisa de que ela realmente entendia, mas era metade da humanidade - a metade masculina. O pequeno padre pôde observar a rápida eficiência, como numa campanha napoleônica, com que ela despachou a todos sem banir ninguém. Bruno, o grande ator, era tão infantil que foi fácil fazê-lo partir, magoado e batendo a porta. Cutler, o oficial britânico, era lento na percepção de idéias, mas perfeitamente escrupuloso quanto ao comportamento. Poderia não perceber indiretas, mas seria incapaz de não atender ao desejo explícito de uma senhora. Quanto ao velho Seymour, esse foi tratado de forma diferente e deixado por último. A única maneira de fazêlo ir era tratá-lo como um velho amigo e torná-lo cúmplice da manobra. O padre foi obrigado a admirar a habilidade com que as três coisas foram conseguidas com alguns movimentos concatenados em uma única ação. Ela dirigiu-se ao capitão Cutler com sua voz mais doce: - É claro que adorei estas flores, porque sei que devem ser as que você mais gosta. Mas não estarão completas sem as minhas favoritas. Vá, por favor, até a flora na esquina e consiga-me alguns lírios-do-vale para que esse buquê fique realmente adorável. Falando assim com Cutler, conseguiu o primeiro objetivo

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de sua investida diplomática, que era irritar Bruno. Ele logo entregara sua lança, como um cetro, ao pobre Parkinson, e se preparava para sentar em uma poltrona, como num trono; mas, ao ouvi-la falar assim com seu rival, em seu olhar brilhou a sensibilidade insolente do escravo; por um instante, fechou os enormes punhos, e então se dirigiu para a porta e desapareceu em seu camarim. Enquanto isso, a tentativa da Srta. Rome de mobilizar o exército britânico não funcionou com a facilidade esperada. Cutler, é verdade, se levantara e partira para a porta imediatamente, sem seu chapéu, como obedecendo a um comando. Mas talvez houvesse alguma coisa ostensivamente elegante na figura lânguida de Seymour, encostado num dos espelhos, que provocou nele um repensamento e o fez parar na porta olhando de um lado para o outro como um buldogue confuso. - Tenho de mostrar a este idiota aonde deve ir - ela disse em voz baixa a Seymour e foi até a porta apressar a partida do outro. Seymour ouviu com uma aparente displicência a conversa dos dois, como era seu jeito, e pareceu aliviado quando ouviu a dama dar suas últimas instruções ao capitão e depois se voltar rápida e correr rindo para o outro extremo da galeria, que dava para o terraço sobre o Tâmisa. No entanto, um ou dois segundos depois, o semblante de Seymour voltou a anuviar-se. Um homem na sua posição tinha tantos rivais, e lembrou-se que na outra extremidade da galeria se encontrava a porta para o camarim de Bruno. Não se esqueceu de sua dignidade, trocou algumas palavras civilizadas com o padre Brown sobre a influência da arquitetura bizantina na catedral de Westminster, e então, com naturalidade, saiu e foi na direção do outro lado da galeria. Padre Brown e Parkinson ficaram a sós e nenhum dos dois tinha gosto pela conversação supérflua. O roupeiro girou pelo camarim puxando espelhos e os empurrando de volta contra as paredes; suas roupas

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surradas pareciam ainda mais velhas em contraste com a lança festiva do Rei Oberon, que continuava segurando. Cada vez que movia um espelho, aparecia uma nova imagem em negro do padre. A absurda câmara de espelhos se encheu de padres Brown, de cabeça para baixo no teto, como anjos dando saltos mortais, como acrobatas, como indivíduos mal-educados dando as costas às pessoas. Padre Brown parecia inconsciente dessa nuvem de testemunhas, mas seus olhos atentos seguiram Parkinson até que este desapareceu no camarim de Bruno, levando consigo a absurda lança. Então, ele se entregou àquelas meditações abstratas que sempre o divertiam - calculando todos os ângulos dos espelhos, os ângulos de cada refração, o ângulo em que cada espelho deveria ser colocado nas paredes ... Então ouviu o grito - sufocado, mas bastante alto. Ficou de pé em um salto e parou, ouvindo. No mesmo instante Sir Wilson Seymour entrou de volta no quarto, branco como gesso. - Quem era aquele homem na galeria? - gritou. - Onde está meu punhal? Antes que o padre Brown pudesse girar em seus sapatos, Seymour corria pelo quarto procurando a arma. E antes que pudesse achar aquela arma ou outra qualquer coisa, ouviu-se o ruído rápido de pés correndo no pavimento lá fora, e a cara quadrada de Cutler apareceu na porta. Ele ainda tinha grotescamente na mão um buquê de lírios-do-vale. - O que é isso? - gritou. - Quem é aquela criatura na galeria? É um de seus truques? - Meus truques? - sibilou seu rival, e partiu em sua direção. Enquanto tudo isso acontecia, padre Brown saiu para o topo da galeria, olhou através dela e imediatamente correu para o que viu.

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Os outros dois abandonaram a discussão e correram atrás dele, com Cutler perguntando: - O que está fazendo? Quem é o senhor? - Meu nome é Brown - disse o padre com tristeza, erguendo-se de sobre alguma coisa que chamara sua atenção. - A Srta. Rome me pediu que viesse e vim o mais rápido que pude. Mas cheguei tarde demais. Os três homens olharam para o chão, e no rosto de pelo menos um deles a vida desapareceu na luz fraca do fim de entardecer. Ela filtrava pelo meio da galeria como uma trilha dourada e em sua claridade difusa estava caída Aurora Rome, brilhante em seu vestido verde e ouro, com o rosto morto virado para cima. Sua roupa estava rasgada, provavelmente devido a uma tentativa de se defender do ataque, seu ombro direito estava nu, mas a ferida de onde o sangue corria era do outro lado. O punhal de bronze brilhava a pouco mais de um metro de distância. Houve um perceptível hiato de silêncio durante o qual puderam ouvir o riso de uma florista lá fora, em Charing Cross, e alguém assoviando com fúria, tentando chamar a atenção de um táxi em uma das ruas que saem do Strand. Então, o capitão, com um movimento rápido, que poderia ser tanto um gesto instintivo quanto uma encenação, pegou Sir Wilson pela garganta. Seymour olhou para ele com calma, sem reação ou medo. - Não precisa me matar - disse em voz fria. - Eu mesmo me encarregarei disso. A mão do capitão hesitou e caiu; enquanto o outro continuava com fria sinceridade: - Se me faltar a coragem para fazer isso com o punhal, eu o farei em um mês com a bebida. - Bebida não será o bastante para mim - respondeu Cutler. - Eu quero o sangue de alguém em troca disso. Não o seu,

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mas creio que sei de quem. E, antes que os outros pudessem perceber suas intenções, ele pegou o punhal e correu para a porta no outro extremo da galeria, que arrombou com fechadura e corrente para confrontar Bruno em seu camarim. Enquanto fazia isso, o velho Parkinson apareceu na porta; com seu caminhar hesitante, veio até o corpo caído na galeria, olhou para ele com uma face cansada e então voltou trêmulo para o camarim e foi sentar-se em uma das luxuosas cadeiras acolchoadas. Padre Brown correu imediatamente para ele sem dar atenção a Cutler e ao colossal ator, embora pudesse ouvir o ruído dos golpes entre os dois, que começavam a lutar pelo punhal. Enquanto isso, Seymour, que conseguira manter algum senso prático, fora para a saída da galeria sinalizar para a polícia. Quando a polícia chegou, foi apenas em tempo para separar os dois homens, presos num simiesco abraço de ódio; e para, depois de algumas perguntas, prender Isidore Bruno sob a acusação de homicídio feita contra ele por seu furioso oponente. A idéia de que o grande herói nacional do momento prendera um criminoso com as próprias mãos parecia, sem nenhuma dúvida, ter um apelo especial para a mente dos policiais, a quem não falta um senso jornalístico. Cutler foi tratado com uma certa reverência, e chamaram sua atenção para um pequeno corte na mão. Enquanto Cutler o atacava, entre mesas e cadeiras tombadas, Bruno conseguira torcer o punhal e o ferira com um pequeno corte abaixo do pulso. O ferimento era leve, mas, até a hora em que foi retirado do local pela polícia, o prisioneiro olhava como um selvagem para o sangue correndo, e tinha um sorriso fixo nos lábios. - Parece uma espécie de canibal esse sujeito, não é mesmo? - confidenciou o policial a Cutler. Ele não respondeu, mas um momento mais tarde disse, incisivo: - Temos de cuidar da ... da morta ... - e sua voz se desarticulou.

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- Dos dois mortos - era a voz do padre vinda do outro extremo da sala. - Este pobre homem já estava morto quando cheguei perto dele. - Estava de pé, olhando para o velho Parkinson, um vulto negro encolhido na bela cadeira. Ele também pagara um tributo eloqüente à mulher morta. O primeiro a quebrar o silêncio foi Cutler, numa demonstração de que mesmo sua aridez era capaz de ternura. - Gostaria que fosse eu - disse com sentimento. - Lembro a forma que costumava olhá-la onde quer que ela fosse, gostava dela mais que qualquer outra pessoa. Era o ar que respirava; e sem esse ar, morreu. - Estamos todos mortos - disse Seymour, numa estranha voz, com o olhar perdido na rua. Despediram-se do padre Brown na esquina, com algumas desculpas por qualquer indelicadeza que houvessem demonstrado. Os rostos de ambos eram trágicos, mas também eram enigmáticos. A cabeça do pequeno padre era como uma toca de lebres, cheia de pensamentos saltando rápidos demais para que pudesse agarrá-los. Como o rabo de um coelho branco, cruzou por sua mente a idéia de que estava seguro da tristeza que ambos sentiam, mas não que fossem inocentes. - É melhor nos despedirmos - disse Seymour com uma voz pesada. - Fizemos tudo o que podíamos para ajudar. - Será que entenderiam meus motivos - perguntou o padre Brown com calma - se dissesse que fizeram tudo para prejudicar? Ambos olharam para ele como culpados. Cutler foi incisivo: - Prejudicar a quem? - Aos senhores mesmos - respondeu o padre. - Não gostaria de trazer-lhes mais um problema se não achasse ser minha obrigação alertá-los. Caso esse ator seja inocentado, os

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senhores fizeram praticamente tudo que era possível para colocar o pescoço na forca. Seguramente serei chamado a testemunhar, e terei de contar que, logo após ouvir o grito, vi quando os senhores entraram no camarim, transtornados, e começaram uma discussão a respeito do punhal. Pelo que testemunharei, qualquer um dos senhores poderia ter cometido o crime. Isso os prejudica muito, e depois o capitão Cutler conseguiu um problema com aquele punhal. - O ferimento? - perguntou Cutler com desprezo. - É um corte idiota. - Que tirou sangue - respondeu o padre sacudindo a cabeça. - Sabemos que há sangue no punhal agora, e por isso não saberemos nunca se havia sangue antes. Ficaram em silêncio até que Seymour disse, com uma ênfase que não era normal nele: - Mas eu vi um homem na galeria. - Sei que o senhor viu - respondeu o padre com um rosto impassível -; o capitão Cutler também viu. E é isto que faz a coisa improvável. Antes que qualquer um dos dois pudesse atinar com uma resposta ou mesmo com o significado do que ele dizia, o padre Brown já se despedira e fora embora, com seu andar pesado, apoiado em seu guarda-chuva velho. Da forma que são administrados os jornais modernos, as notícias mais importantes e as mais honestas são as policiais. Assim, se nesse século vinte há mais espaço para o assassinato do que para a política, é porque assassinato é um assunto tratado com mais seriedade. Mas nem isso seria capaz de explicar a onipresença nem a riqueza de detalhes que "O Caso Bruno" ou "O Mistério da Galeria" ganhou na imprensa londrina e da província. Foi tão grande a excitação provocada pelo caso que por algumas semanas a imprensa realmente

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noticiou a verdade; e as reportagens, com os depoimentos e contradepoimentos, ainda que intermináveis e, às vezes, insuportáveis, eram pelo menos confiáveis. A verdadeira razão de tudo isso era, sem dúvida, a coincidência de envolver tantas pessoas importantes. A vítima era uma atriz popular; o acusado era um ator popular; e o réu fora preso, quase em flagrante, pelo soldado mais popular daquela temporada patriótica. Em tão extraordinárias circunstâncias, a imprensa fora paralisada pela camisa-de-força do compromisso com a verdade. Dessa forma o resto desse caso singular pode ser resgatado das reportagens sobre o julgamento de Bruno. O julgamento foi presidido pelo juiz Monkhouse, que era um daqueles juízes acusados de ter senso de humor, e que na verdade costumam ser muito mais sérios que os juízes sérios; porque seu senso de humor se origina numa vívida impaciência com a solenidade profissional, enquanto os juízes sérios são na verdade poços de frivolidade porque repletos de vaidade. Sendo todos os protagonistas personalidades públicas, os advogados não ficavam atrás. O procurador da Coroa era Sir Walter Cowdray, um homem pesado, mas que também era um jurista de peso, do tipo que sabia como parecer inglês e digno de confiança, e como ser retórico com uma aparente relutância. Pela defesa o Sr. Patrick Butler, que dava uma impressão de superficialidade àqueles que não entendiam o caráter irlandês - e àqueles que nunca haviam sido interrogados por ele. A evidência médica era incontestável; o médico, chamado por Seymour na mesma hora ao local do crime, concordava completamente com o laudo do eminente cirurgião que mais tarde examinara o corpo. Aurora Rome fora ferida de morte por um instrumento agudo e cortante, tal como uma faca ou punhal, com uma lâmina curta. O ferimento fora no coração e ela morrera instantaneamente. Quando o médico a vira pela primeira vez, ela estaria morta, no máximo, há vinte minutos.

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O que significava que, quando o padre Brown a encontrara, não poderia estar morta há mais de três. A isso seguiu um depoimento da polícia com evidências colhidas na cena, na tentativa de determinar se a vítima oferecera, ou não, resistência ao ataque. A única coisa que poderia sugerir isso era o vestido rasgado no ombro, o que também não parecia combinar com a direção e finalidade da punhalada. Depois de fornecidos esses detalhes, ainda que sem uma explicação satisfatória, foi chamada a primeira testemunha importante. O depoimento de Sir Wilson Seymour, como qualquer outra coisa feita por ele, não foi apenas bom, foi perfeito. Embora fosse figura pública mais importante do que o juiz, apresentou uma solicitude gentil diante da justiça do rei; e ainda que todos o olhassem como se fosse o primeiro-ministro ou o arcebispo de Canterbury, era impossível fazer qualquer reparo a seu comportamento no caso, além da constatação de que era o comportamento de um cavalheiro bem nascido. Mostrou também uma inteligência lúcida, como fazia nas comissões. Fazia uma visita à Srta. Rome no teatro, onde encontrara o capitão Cutler; tiveram, por um pequeno espaço de tempo, a companhia do réu, que voltara depois a seu camarim; enquanto estavam ali, juntou-se a eles um padre católico, que vinha à procura da vítima e dissera chamar-se Brown. A Srta. Rome fora então até o lado de fora, para mostrar ao capitão Cutler a flora onde deveria comprar outras flores para ela; a testemunha ficara no camarim, e trocara algumas palavras com o padre. Ouvira claramente quando a Srta. Rome, depois de orientar o capitão, voltou-se e correu rindo para o outro extremo da passagem, onde ficava o camarim do réu. Curioso com os movimentos de sua amiga, saíra até a passagem e olhara na direção da porta do acusado. Vira alguma coisa na galeria? Sim, ele vira alguma coisa. Sir Walter Cowdray se permitiu uma pausa de efeito,

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durante a qual a testemunha manteve os olhos baixos e, apesar de sua natural compostura, parecia mais pálido que de costume. Então o promotor perguntou num tom mais baixo, que misturava simpatia e algo de macabro: - Chegou a ver com clareza? Sir Wilson Seymour, embora emocionado, continuava com as idéias claras. - Vi claramente o contorno da figura sem poder determinar sua fisionomia ou detalhes. A galeria tem um comprimento que faz qualquer um dentro dela aparecer como uma sombra contra a claridade no fundo. A testemunha outra vez baixou seu olhar calmo e continuou: - Já reparara nisso antes, quando vi o capitão Cutler chegar. Houve outra pausa, e o juiz se inclinou para anotar algo em uma folha de papel. - Bem - disse Sir Walter, paciente -, como era esse contorno? Seria talvez a figura da vítima? - A mim me pareceu - respondeu a testemunha - um homem alto. Os olhos de todos na corte se mantiveram fixos em alguma coisa - na caneta, no livro, num cabo de guarda-chuva, no bico dos sapatos -, qualquer coisa para a qual estivessem olhando, que pudesse prender seus olhos e evitar que olhassem para o homem no banco dos réus, que sabiam gigantesco. Bruno, alto como era, ficava ainda mais alto quando não o olhavam. Cowdray voltava para a cadeira, alisando a toga negra com suas costeletas brancas e uma face solene; Sir Wilson se preparava para deixar o banco das testemunhas, quando o advogado da defesa se levantou e o interrompeu. - Vou retê-lo apenas por mais alguns minutos - disse o Sr. Butler, que era um homem de aspecto rústico, com

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sobrancelhas ruivas e uma expressão sonolenta. - O senhor explicaria a essa corte como soube tratar-se de um homem? Um sorriso refinado e distante pareceu cruzar o semblante de Seymour. - Acho que foram as calças - disse ele. - Quando vi a luz que passava entre as pernas longas, convenci-me afinal que se tratava de um homem. Os olhos sonolentos de Butler se arregalaram repentinamente como numa explosão silenciosa. - "Convenci-me afinal!" - repetiu devagar. - Então antes o senhor pensara que era uma mulher? Pela primeira vez, Seymour pareceu confuso. - Não estamos falando de fatos, mas de impressões - disse ele. - Mas se quer saber de minha impressão, havia algo naquela figura que não era feminino, e ainda assim não era exatamente como um homem, as curvas eram diferentes, e parecia ter cabelos longos. - Obrigado - disse o Sr. Butler, e sentou-se como se houvesse conseguido o que queria. O capitão Cutler era uma testemunha muito menos composta e plausível que Sir Wilson, mas seu relato dos fatos iniciais era exatamente o mesmo. Descreveu o retorno de Bruno a seu camarim, sua própria saída para comprar os lírios, seu retorno pelo lado de cima, o vulto que vira na galeria, sua suspeita de Seymour e a luta com Bruno. Mas não foi capaz de muitos detalhes sobre a figura que ele e Seymour haviam visto. Indagado sobre o contorno do vulto escuro, disse que não era um crítico de arte, numa óbvia indireta a Seymour. Perguntado se era um vulto de homem ou de mulher, disse que parecia mais o vulto de um animal, numa óbvia indireta ao réu. Mas estava claramente abalado pela dor e tomado de uma raiva sincera. Cowdray em pouco tempo o liberou, não vendo a

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necessidade de confirmar fatos já esclarecidos. Como já fizera antes, o advogado de defesa também foi rápido em suas perguntas, embora (como era seu hábito) mesmo sendo rápido, ele parecia perder um tempo enorme. O senhor usou uma expressão muito interessante - disse olhando para Cutler com ar sonolento. - O que quer dizer quando afirma que se parecia mais com um animal do que com uma mulher, ou um homem? Cutler parecia muito agitado. - Talvez não devesse ter dito isso - disse -, mas quando se trata de alguém com os ombros arqueados de um chipanzé e o cabelo duro como o de um porco ... - Esqueça se seu cabelo parecia o de um porco - Butler o interrompeu, impaciente de curiosidade; - era como o de uma mulher? - Como o de uma mulher! - exclamou o soldado. - Meu Deus, não! - A última testemunha disse que sim - retorquiu o advogado com inescrupulosa rapidez. - E seu corpo tinha as curvas sinuosas e semifemininas a que se referiu? Não? Não tinha curvas femininas? Era um vulto, se estou entendendo bem, mais para o corpulento e pesado? - Talvez estivesse curvado para frente - disse Cutler em voz fraca e rouca. - E talvez não estivesse - disse o Sr. Butler, e pela segunda vez foi sentar-se terminando abruptamente com a testemunha. A terceira testemunha chamada por Sir Walter Cowdray foi o pequeno padre católico, tão pequeno em relação aos outros que sua cabeça mal se via no banco das testemunhas, de forma a parecer que interrogavam uma criança. Por infortúnio, Sir Walter metera na cabeça (em boa parte devido a certos preconceitos religiosos) que o padre Brown estava do lado do

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réu, já que o réu era um ímpio, um estrangeiro e até meio negro. Por isso, tratou-o de modo ríspido todas as vezes que o sacerdote tentava explicar qualquer coisa, dizendo a ele que respondesse com um sim ou não, e relatasse os fatos sem sofismas e jesuitismos. - Uma figura negra foi vista na galeria. E o senhor diz ter visto essa figura. Bem, que forma tinha essa figura? Os olhos do padre piscaram diante do tom agressivo, mas ele tinha anos de treino em obediência. - A figura - ele disse - era pequena e corpulenta. Tinha duas projeções agudas na lateral da cabeça, ou do chapéu, curvadas para cima, que se pareciam muito com chifres, e ... Oh! Com chifres? Era o diabo, sem dúvida! - exclamou Cowdray, sentando-se com um riso de triunfo. - O diabo que veio para comer os protestantes. - Não, não era o diabo - disse o padre sem se alterar. - Eu sei quem era. A audiência fora tomada pela idéia irracional de uma realidade monstruosa. Havia esquecido o homem no banco dos réus e pensava apenas naquele vulto da galeria. E o vulto, descrito por três testemunhas oculares, capazes e respeitáveis, era um pesadelo mutante - uma testemunha o descrevera como uma mulher, a outra como uma besta, e a terceira como o demônio ... O juiz olhava para o padre Brown com olhos atentos e avaliadores. - Seu testemunho é dos mais fantásticos - disse -, mas alguma coisa nele me faz pensar que o senhor está tentando dizer a verdade. Bem, quem era o homem que viu na galeria? - Era eu mesmo - disse o padre Brown. Butler levantou-se e quebrou o extraordinário silêncio na sala com a voz calma: - Meritíssimo, permita que eu

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interrogue a testemunha. E então, sem esperar, fez uma pergunta aparentemente desconexa a Brown: - O senhor ouviu os depoimentos sobre esse punhal; sabe que os peritos dizem que o crime foi cometido com uma lâmina curta? - Uma lâmina curta - concordou Brown, balançando a cabeça como uma coruja - mas com uma longa empunhadura. Antes que a audiência pudesse descartar completamente a idéia de que o padre vira a ele mesmo cometendo o crime com um punhal curto e de longa empunhadura (o que de alguma forma parecia aumentar o horror da coisa), ele se apressou a explicar. - O que quero dizer é que punhais não são as únicas armas com lâminas curtas. Lanças têm lâminas curtas. As pontas das lanças são muito parecidas com punhais, especialmente essas lanças estilizadas para o teatro. Como aquela que o pobre Parkinson usou para matar sua esposa; e logo no dia em que ela me chamara para tentar resolver seus problemas conjugais. Cheguei tarde demais. Deus me perdoe! Mas ele morreu arrependido, na verdade morreu de arrependimento. Não conseguiu suportar o que fizera. A impressão da audiência, ouvindo o interminável fluxo verborrágico do pequeno padre, era a de que ele enlouquecera no banco das testemunhas. Mas o juiz continuava olhando para ele com olhos que brilhavam de interesse, e o advogado de defesa continuou imperturbável com suas perguntas. - Se Parkinson cometeu o crime com a lança de pantomima - disse Butler -, fez isso a alguma distância da vítima, como o senhor explicaria os sinais de resistência e luta, como o vestido rasgado no ombro? - Ele começara a tratar a

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testemunha como se fosse um perito, mas naquele momento ninguém deu atenção a isso. - O vestido da pobre senhora se rasgou - disse a testemunha - porque ficou preso num painel que deslizou da parede ao lado dela. Estava tentando soltar o vestido quando Parkinson saiu do camarim do acusado e a matou com a lança. - Um painel? - perguntou o advogado. - Pelo lado de dentro era um espelho - explicou o padre Brown. - Quando estive no camarim, notei que alguns espelhos podiam deslizar para o lado de fora, quero dizer, para a galeria. Outra vez houve um grande silêncio na sala, e desta vez foi o juiz quem falou. - Então quando o senhor olhou na galeria o que viu foi ao senhor mesmo, refletido num espelho? - Sim, meritíssimo; era o que estava tentando dizer, me pediram que descrevesse o contorno do vulto; e nossos chapéus têm abas que se parecem chifres, assim eu ... O juiz se inclinou para frente, seus olhos estavam ainda mais brilhantes, e ele disse numa voz com um traço de ironia: - O que o senhor realmente está dizendo é que quando Sir Wilson Seymour viu aquela coisa estranha com curvas e cabelos de mulher, mas vestindo calças de homem, o que viu na verdade foi Sir Wilson Seymour? - Sim, senhor - disse o padre Brown. - E quando o capitão Cutler viu um chipanzé, com ombros arqueados e cabelos de porco, simplesmente olhava para ele mesmo? - Sim, senhor. O juiz se recostou na cadeira com ar de satisfação, no qual era difícil separar o cinismo irônico da admiração. - E o senhor tem alguma idéia da razão - ele perguntou -

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de ter reconhecido seu reflexo, quando dois homens tão brilhantes não conseguiram fazer o mesmo? Os olhos do padre Brown piscaram mais ainda do que antes, e ele balbuciou: - Realmente não sei, senhor, a menos que seja porque não me olho no espelho com tanta freqüência. Tradução de Octávio Marcondes