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A DANÇA F. SCOTT FITZGERALD (1896-1940 - Estados Unidos)

A minha vida inteira sempre tive um estranho pavor das cidades pequenas: não os subúrbios, que são completamente diferentes, mas pequenas cidades perdidas em New Hampshire, na Geórgia, Kansas ou no estado de Nova York. Nasci na cidade de Nova York e mesmo no meu tempo de menina não me assustava com as ruas cheias de estrangeiros. A única vez que me senti acuada, com a estranha sensação de que existia uma vida submersa, um feixe de implicações, significados e terrores secretos depositados praticamente na superfície da terra, foi quando estive numa dessas cidadezinhas do interior. Nas metrópoles tudo o que é positivo ou negativo acaba vindo à tona, aflorando ou sendo dito pelas pessoas; a vida sempre está em movimento ou em extinção. Nas cidades pequenas, destas que possuem entre 5 mil ou 25 mil habitantes, os velhos ódios, os casos antigos ou esquecidos, os escândalos das tragédias fantasmagóricas parecem não morrer, e continuam, portanto, embaralhados num fluxo e refluxo da vida cotidiana.

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Em nenhum outro lugar esta sensação se tornou tão insistente para mim do que no sul dos Estados Unidos. Assim que eu cruzo Atlanta ou Birmingham ou New Orleans, geralmente tenho a sensação de que não posso mais me comunicar com as pessoas. Homens e mulheres falam um dialeto em que o cavalheirismo e a cortesia vêm ligados à violência, ao fanatismo moral e à embriaguez, numa forma coesa que não consigo entender. No seu livro Huckleberry Finn, Mark Twain descreveu algumas destas cidades debruçadas sobre o Mississípi, cheias de antigas rivalidades, exacerbados sentimentos religiosos, e a verdade é que, a despeito do rádio e do progresso, permanecem iguais na sua essência. São profundamente anticivilizadas até hoje. Refiro-me ao Sul, pois foi numa pequena cidade deste tipo, ao sudeste dos Estados Unidos, onde eu senti a superfície se rachar durante um instante e vi, então, o aparecimento de uma coisa monstruosa e selvagem que deveria estar enterrada há anos. Logo em seguida, a superfície fechou-se novamente, e das outras vezes que lá voltei, fiquei surpresa ao encontrar o mesmo charme das magnólias floridas, dos negros cantando nas ruas e das sensuais noites de verão. Fiquei encantada com a generosa hospitalidade, a vida prazerosa ao ar livre e a quase universal boa educação da população. No entanto, volta e meia sou vítima de um pesadelo que lembra a experiência que há cinco anos eu vivi nesta cidadezinha. Davis (nome suposto) tem uma população de 20 mil habitantes, um terço dela de negros. É uma cidade

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algodoeira, e os trabalhadores deste setor, centenas de "brancos" ignorantes e enfraquecidos, vivem em cortiços misturados com os pretos num bairro conhecido como "Buraco do Algodão". A população de Davis vem mudando nos últimos setenta e cinco anos. Houve tempo em que ela foi considerada como provável capital do Estado, e uma pequena casta com seus parentes próximos formaram uma aristocracia local, o que significava que as pessoas não tinham dinheiro "mas eram de ótima família”. No inverno de 1921, eu estava cansada da agitação festeira de Nova York e, assim que chegou abril, resolvi não aceitar mais convites para coisa alguma. Queria ir para a Europa, mas como os negócios de papai tinham sido afetados por uma crise da Bolsa, fui aconselhada a visitar minha tia Musidore Hale, em Davis. Sem maiores preocupações a esse respeito, parti para o Sul, e confesso que fiquei surpresa quando vi um velho retrato meu na coluna social do jornal de Davis, ilustrando uma reportagem hilariante a meu respeito. Lá ia eu começar outra série de compromissos sociais, é bem verdade que em menor escala: danças sábado à noite, no clube; alguns jantares informais e dezenas de rapazes bem-apessoados e atenciosos para me fazer companhia. Não tive um minuto de folga, e quando resolvi voltar para casa, depois de três semanas, não foi porque estivesse me sentido entediada, mas sim porque estava interessada num jovem chamado Charley Kincaid, sem saber que ele estava noivo de uma outra moça.

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Acabamos nos aproximando porque ele era o único rapaz da cidadezinha que freqüentara uma universidade do Norte, e eu era ainda bastante tola para achar que os Estados Unidos se concentravam em três universidades: Princeton, Yale e Harvard. Ele também gostou de mim, achei eu, mas quando soube que seis meses antes ele tinha noivado com uma moça chamada Marie Bannerman, não tive outra escolha senão ir embora. A cidade era pequena demais para mudarmos de grupo, e embora ninguém ainda comentasse o fato, eu tinha certeza de que nossa aproximação, mais cedo ou mais tarde, iria dar margem a fofocas desagradáveis. Além de tudo, não sou do tipo que gosta de tirar namorado das outras. Marie Bannerman parecia uma beleza grega. Soubesse ela se vestir, talvez fosse perfeita; se não usasse tanto ruge, tanto pó no nariz e no queixo, deixando o rosto com uma palidez cadavérica. Os cabelos eram pretos, brilhantes; seus traços, belíssimos, e um probleminha qualquer no olho direito fazia ela manter os olhos semifechados, dando à sua expressão um ar irresistivel de faceirice. Na segunda-feira, eu estava para embarcar de volta; no sábado me ofereceram um jantar no clube, antes do baile. Estavam presentes Joe Gable, filho do antigo governador, um rapaz meio embriagado, mas bonito e encantador; Catherine Jones, uma garota bonita, dona de um corpo maravilhoso e que, pintada, parecia uma mulher de dezoito, vinte anos; Marie Bannerman; Charley Kincaid; e dois ou três outros

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rapazes. Eu adorava escutar as histórias locais, contadas com graça e malícia. Uma das convidadas, só para dar um exemplo, contou como havia passado a tarde com sua família tentando evitar que fossem despejados da casa por não pagarem aluguel. Ela contou a história sem nenhum pudor, como se fosse uma situação incômoda mas ao mesmo tempo engraçada. Eu adorava também o comportamento implícito das pessoas, que presumia que todas as mulheres fossem lindas e atraentes, e que todos os homens, desde o dia em que as conhecessem, estariam apaixonados por elas. Era uma noite quente de maio, noite silenciosa, céu recheado de estrelas. A densa fragrância noturna penetrava pelo salão onde nos reuníamos, e os únicos sons de fora eram os carros entrando no clube. Naquele momento, detestei ter de ir embora de Davis, como nunca antes sentira em relação a abandonar cidade alguma; senti que desejaria passar o resto da minha vida naquela cidadezinha, passeando e dançando, eternamente envolta pelas noites quentes e românticas. Mas ao mesmo tempo o horror já pairava sobre a festa, aguardando o momento de se instalar para valer como um convidado indesejável que preferiria aguardar algumas horas para, finalmente, revelar seu rosto horripilante. Algo acontecia por trás das conversas e risadas, algo secreto e obscuro que eu não conseguia ver nem entender. A orquestra de negros chegou um pouco depois, e os primeiros pares se formaram no salão. Um gigante

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avermelhado, vestindo botas cheias de lama e com um revólver na cintura, aproximou-se da nossa mesa, conversou um instante e logo subiu para o vestiário. Era Bill Abercrombie, filho do deputado Abercrombie. Alguns rapazes sussurraram algumas perguntas e ele respondeu numa inútil tentativa de falar baixo: - Sim ... ele está no pântano; um fazendeiro o viu numa loja da estrada ... gostaria de dar um tiro no cara ... Perguntei ao acontecendo. rapaz do lado o que estava

- É um negócio com um negro, lá pelas bandas de Kisco, a alguns quilômetros daqui. Está escondido no pântano, amanhã o pessoal vai à sua caça. - O que vão fazer com ele? - Enforcá-lo, com certeza. A idéia de um pobre negro escondido num pântano à espera da chegada de seus perseguidores me deixou deprimida. Mas logo já pensava em outra coisa. Depois do jantar, Charley Kincaid e eu fomos até a varanda. Ele soubera há pouco que eu me preparava para deixar Davis, portanto achei prudente ficar próxima do grupo, respondendo a suas perguntas com palavras e não com meus olhos. Uma coisa dentro de mim se insurgia e relutava em abandoná-lo de uma maneira tão formal. A tentação de acender uma centelha era grande, mais ainda naquele momento em que eu ia partir, queria que ele me beijasse, e meu coração prometia que se ele me beijasse naquele mo-

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mento eu aceitaria muito satisfeita o fato de não vê-lo nunca mais; como sabia também que isso não era verdade. As garotas passaram a subir e descer escadas, visitando o vestiário para retocarem a maquilagem; resolvi fazer o mesmo, ainda acompanhada de Charley. Naquela hora, tive vontade de chorar ... Talvez meus olhos já estivessem embaçados, ou quem sabe eu temesse demonstrar minha emoção em frente dele, o fato é que abri a porta de uma saleta de jogo por engano, e assim acabei ativando o trágico mecanismo daquela noite. Na saleta, a uns três metros de nós, estavam Marie Bannerman, a noiva de Charley, e Joe Gable, abraçados e esquecidos do resto do mundo, absorvidos enfim num intenso beijo. Fechei a porta rapidamente e, sem olhar para Charley, abri a porta certa e corri para o andar de cima. Minutos depois, Marie Bannerman apareceu no banheiro. Veio direto falar comigo, sorrindo com seu ar de eterno deboche, e quase sem fôlego. - Você não vai contar nada a ninguém, não é, meu bem? - Claro que não - respondi, pensando que importância isso teria, uma vez que Charley já sabia de tudo. - Quem mais estava com você? - Só Charley Kincaid. - Humm! - Marie pareceu um pouco espantada. -

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Ele nem esperou para falar comigo, meu bem. Quando saímos da saleta, ele já estava longe. Pensei que ele fosse dar uma surra no Joe. - Quem sabe ele não preferiria dar uma surra em você? - não me contive e falei. - Pode deixar que isso ele vai fazer, não tenha dúvida! - riu Marie, secamente. - Mas eu sei como acalmá-lo. Só tenho medo quando ele tem um rompante inicial ... Nessa hora seu gênio é terrível. Marie deu um assobio. - Eu sei, porque já aconteceu antes. Senti vontade de esbofeteá-la. Dei-lhe as costas e afastei-me, sob o pretexto de pedir um alfinete a Katie, a empregada de cor que cuidava do vestiário feminino. Ela estava ocupada com Catherine Jones, cuja bainha da anágua tinha se soltado. - O que aconteceu? - perguntei. - Meu vestido de dança - respondeu, com a boca cheia de alfinetes. - Está a ponto de se desmanchar. Também já o usei tanto ... - Você vai dançar hoje, aqui? - Vou tentar. Tinham me dito que ela queria ser bailarina profissional, que havia estudado em Nova York. - Posso ajudar? - perguntei. - Não, obrigada, a não ser que saiba costurar. Katie fica tão aflita com estas dancinhas de sábado à noite que não presta para nada, a não ser catar alfinetes. Mesmo assim, muito obrigada, meu bem.

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Como eu não estava querendo descer, sentei-me ao lado de Katie e fiquei ajudando na montagem do vestido, que durou bastante. Fiquei me perguntando se Charley teria ido para casa; se eu ainda o encontraria; se o fato de ele ter visto o que eu vi o libertaria de qualquer compromisso ético. Finalmente, quando resolvi descer, ele não estava mais no clube. Salão de dança apinhado; as mesas tinham sido retiradas e todos dançavam animadamente. Naquela época, logo após a guerra, todos os rapazes sulistas tinham a mania de dançar jogando os calcanhares para os lados, a rodopiar pelo salão, sempre dentro do ritmo. Levei horas treinando em casa para aprender esse passo; em geral havia vários garotos sem namorada, cheirando a gim feito em casa e prontos para bailar; sistematicamente eu recusava a bebida que eles me ofereciam, mas aceitava todos os convites de dança. Garotas como Catherine Jones, no entanto, continuavam aceitando um trago aqui, um trago ali, escondida na parte escura da varanda. Eu gostava de Catherine Jones; ela parecia ter mais energia do que as outras garotas da cidade, embora tia Musidore torcesse o nariz sempre que ela aparecia em casa de carro para me levar ao cinema ou a uma festa. Os comentários da minha tia eram sempre os mesmos, que "hoje em dia basta ter um pouco de dinheiro para entrar em qualquer lugar”. A família dela tinha enriquecido há pouco tempo, mas o fato de ter sido considerada emergente dava a Catherine uma vantagem em relação às outras. Exemplo tipico era o

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fato de todas elas quererem ir para Nova York para estudar ou trabalhar, mas a única que tinha realmente ido, e estudado dança, era Catherine. Fosse um número clássico, fosse alguma dança popular, ela sempre era convidada para dançar nas festas de sábado à noite. Certa vez chegou a escandalizar a direção do clube, fazendo uma exibição de shimmy, mas foi perdoada porque todos concordaram que ela estava tão bêbada "que não sabia o que estava fazendo”. Eu admirava seu espírito combativo e estava curiosa para ver o que ela iria dançar para nós naquela noite. À meia-noite em ponto a orquestra parava, pois era proibido dançar no domingo; portanto, às onze e meia um fraseado fantasioso de pistons e baterias anunciaram a próxima atração. Todos foram para o salão, vindos da varanda, dos jardins ou das salas de jogo. Uns trouxeram cadeiras, outros ficaram de pé, procurando o melhor lugar perto do estrado improvisado para a ocasião. A orquestra tomou posição num plano mais baixo e assim que as luzes iluminaram o palco, ouviram todos uma música estranha acompanhada pelo som monótono de um atabaque. Logo em seguida, Catherine Jones surgiu no palco, de vestido curto e com um enorme chapéu de sol amarelo; a dança consistia em rodar os olhos e rebolar, imitando a malemolência dos negros. Eu nunca tinha visto nada igual (aliás, só fui ver uns cinco anos depois); era uma espécie de charleston ritmado por "hei! hei” e pelas batidas dobradas da bateria, enquanto ela jogava os braços para o alto e as pernas para o lado. Vai-se saber onde tinha ela aprendido aquela dança.

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Aqueles que conheciam os ritmos africanos aplaudiam freneticamente, e marcavam o ritmo com os pés. A empolgação tomou conta do salão, e a bailarina, incansável, marcava o som com sapateado, e a orquestra aumentava o ritmo cada vez mais, os garçons se entreolhavam a sorrir e a música parecia invadir os jardins levando aquele som através da noite quente até os pântanos. Não sei em que momento uma certa tensão começou a tomar conta de mim. A dança não durou mais de dez minutos, mas quando terminou, eu ainda estava no mesmo lugar, rígida e ansiosa, procurando naqueles rostos estranhos uma segurança que não sabia como havia perdido. Não sou uma mulher nervosa, muito menos de ficar em pânico, mas naquele momento senti que se a música não parasse eu ia ter um ataque histérico. Alguma coisa estava acontecendo comigo, tinha certeza disso, como sabia que algo estava acontecendo no ar, querendo nos pegar, quase nos pegando. Quando uma mão, sem querer, passou raspando pelas minhas costas, quase gritei. A música finalmente cessou. Aplausos, gritos de bis, recusado por Catherine, agradecendo ao chefe da orquestra e à platéia. Os pedidos continuavam mas ela sacudia a cabeça, fingindo-se zangada. Naquele momento, um fato estranho aconteceu. Atendendo ao público, a orquestra tocou novamente a mesma melodia, como se quisesse tentar Catherine a repetir o número. - Não ouviram eu dizer que não? - falou ela,

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zangada, dando um tapa na cara do maestro. A música parou, seguiu-se um murmúrio geral de espanto, que foi interrompido pelo som inconfundível de um tiro. Todos se levantaram pois o som indicava que o tiro fora dado a pouca distância. Uma senhora deu um grito e uma engraçadinha qualquer gritou: - Vai ver o Horácio voltou para o galinheiro! desarmando o pânico com uma gargalhada geral. O diretor do clube, com alguns curiosos atrás, deu uma volta pelo jardim, mas outros pares já se ocupavam em dançar a valsa da despedida, se preparando para voltar para casa. Suspirei aliviada, louca para ir embora. Enquanto um dos meus acompanhantes foi buscar o carro, pedi ao garçom que apanhasse meus tacos de golfe lá no vestiário. Fiquei esperando na varanda, me perguntando se de fato Charley Kincaid tinha ido para casa. De repente, notei uma estranha agitação pelo clube. Algumas garotas gritavam: "Oh, meu Deus!" por todos os lados, e o som surdo de passos subindo e descendo as escadas, saindo e entrando pelas portas. Uma garota surgiu não sei de onde e desmaiou na minha frente; quase em seguida uma outra também desmaiava, enquanto eu ouvia um homem berrar ao telefone. Um rapaz pálido e descabelado apareceu na varanda e segurou no meu braço.

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- O que aconteceu? - gritei. - Um incêndio? O que aconteceu? - Marie Bannerman está morta lá em cima no vestiário. Levou um tiro na garganta. O resto da noite foi uma série de visões que não pareciam ter relações entre si, mas que se sucediam como cenas de um filme mal montado. Um grupo discutia, ora em voz baixa, ora excitado, falando das providências que precisavam ser tomadas em relação a todos os garçons negros, "até ao velho Moses", oscilando a pena entre a prisão perpétua e a forca. Que um "crioulo" tivesse assassinado Marie Bannerman era uma verdade tida por eles como indiscutível, e quem dissesse o contrário seria considerado suspeito. A maior suspeita era Katie Goldstein, a servente negra que tinha descoberto o corpo e em seguida desmaiado. Achavam também que talvez fosse "aquele crioulo que anda fugido lá por Kisco". Enfim, qualquer preto que estivesse à mão. Em meia hora, todos começaram a se retirar, cada qual dando sua contribuição criminológica sobre o acontecido. O crime deu-se com o revólver do xerife Abercrombie, que pendurara a cartucheira e a arma no vestiário, depois de trocar de roupa à vista de todos, antes de descer para o baile. A arma havia desaparecido - aliás alguns voluntários procuravam por ela. O veredicto do médico foi "morte instantânea", pois a bala fora acionada a pouca distância da vítima. Minutos mais tarde, um garoto subiu na plataforma e anunciou num tom grave que Charley Kincaid acabara

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de ser preso. - Prenderam Charley Kincaid! - Charley Kincaid! - Que absurdo, logo um rapaz branquinho como ele! - É a maior loucura que eu ouvi na vida! Outro jovem concordou, abalado como todo mundo com aquela notícia. - Ele não estava aqui embaixo quando Catherine Jones dançava no palco, aliás, ele disse que estava no vestiário masculino. Marie Bannerman havia comentado que eles tinham brigado e que ela estava com medo. Outro silêncio mortal. - Mas é a coisa mais absurda que eu já ouvi na vida! - repetiu uma voz. - Charley Kincaid! O jovem narrador ficou em silêncio por um instante. - Ele flagrou Marie beijando Joe Gable - acrescentou o informante. Não consegui me conter: - Eu estava com ele na hora. O que é que tem isso? Ele não ficou com raiva. Todos olharam para mim, espantados, confusos e tristes. Ouvi passos e virei a cabeça em direção à escada. Charley Kincaid, branco como cera, vinha acompanhado do xerife e de outros homens. Atravessaram a varanda e desapareceram na escuridão da noite. Logo, o barulho de um carro arrancando. Ao ouvir a sirene da ambulância, chamei meu acompanhante, do grupo da varanda. - Vamos embora -

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disse. - Não consigo suportar mais essa história. Ou você me leva pra casa ou eu arranjo uma carona com outra pessoa. Mesmo sem muita vontade, ele apanhou meus tacos de golfe e foi comigo em direção ao carro, enquanto a escura ambulância entrava pelo portão principal, desenhando uma sombra dentro da noite estrelada. Depois daqueles primeiros dias de confusão, protestos em favor de Charley Kincaid. O jornalzinho de Davis e outros jornais do estado publicaram suas reportagens: Marie Bannerman morreu no vestiário feminino do Clube Davis, vítima de um tiro à queima-roupa, às 11h45 de sábado à noite. Várias pessoas ouviram os tiros que saíram do revólver do xerife Abercrombie. Na hora do crime, o xerife estava no salão de dança, como podiam testemunhar muitos dos presentes. A única pessoa no andar de cima, na hora do crime, era Charley Kincaid, noivo da Srta. Bannerman, com quem havia brigado naquela mesma noite, segundo várias testemunhas. A própria Srta. Bannerman comentou a briga que teve com o noivo, dizendo que estava com medo dele e só se encontraria com ele quando estivesse mais calmo. Charley Kincaid declarou que estava no vestiário masculino quando ouviu o tiro, onde realmente ele foi encontrado. O acusado negou que tivesse discutido com a vítima, e acrescentou que, ao ouvir o tiro, pensou que fosse alguém tentando matar "um gato ou uma raposa”. Qual a razão de Charley Kíncaid ter ficado no vestiário? Nenhuma, simplesmente estava cansado e

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resolveu esperar a hora em que a Srta. Bannerman resolvesse ir embora. O corpo foi descoberto por Katie Goldstein, empregada negra, que desmaiou em seguida. Ao voltar da cozinha onde fizera um lanche, Katie encontrou a Srta. Bannerman encharcada de sangue no chão do vestiário, já morta. A polícia, assim como os jornais, deram a maior ênfase à topografia do segundo andar do clube. Eram três peças seguidas, uma para homens, outra para mulheres e, entre as duas, um pequeno depósito para tacos de golfe e material de limpeza. A entrada e saída para os vestiários eram feitas por esse quarto, que também era ligado por duas escadas, uma para a cozinha e a outra para o salão. Segundo testemunho dos três cozinheiros negros e um servente branco, ninguém tinha usado a escada da cozinha, a não ser Katie Goldstein. Este é o resumo das reportagens, segundo minhas lembranças; sei também que Charley Kincaid foi acusado do crime e preso. Outros suspeitos, negros na maioria, foram detidos por instigação dos amigos de Charley, mas como nada conseguiu ser provado contra estes infelizes, acabaram sendo soltos. Algumas pessoas levantaram rumores de que Marie teria se suicidado e sugeriram várias e engenhosas soluções a respeito do desaparecimento da arma. Hoje, depois que Marie Bannerman foi tão selvagem e violentamente assassinada, seria muito fácil para mim dizer que sempre acreditei na inocência de Charley

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Kincaid. Infelizmente, isso não é verdade. Apaixonada por ele na época, mesmo assim acreditei então que ele a tivesse matado. O fato de eu ter descoberto a primeira prova que eventualmente o libertou não foi devido à fé inabalável que eu depositara na sua inocência, mas a uma estranha vivência que, nos momentos de grande excitação, deixam certas cenas marcadas na memória, particularmente o detalhe que mais me chamou a atenção na época. Numa tarde de julho, quando o julgamento de Charley estava na ordem do dia e todas as provas pareciam incriminá-lo, pus-me a divagar e a pensar nos outros incidentes que ocorreram na noite fatídica. Alguma coisa que Marie Bannerman havia me dito no vestiário voltava à minha cabeça de tempos em tempos, me perturbando; não que achasse o fato em si importante, mas o que maís me intrigava era o fato de não conseguir me lembrar do que ela tinha dito. Era como se, durante alguns instantes, ela tivesse aberto uma cortina e depois fechado-a rapidamente, dando uma visão fantasmática dos horrores que aconteciam na cidade: velhas brigas, escândalos, crimes sem solução etc. Perturbava-me também um outro incidente, embora de menor importância. Depois da tragédia, a confusão reinante fez com que esquecessem a estranha atitude de Catherine Jones, ao se recusar a bisar a dança e chegando ao cúmulo de dar um tapa no regente da orquestra. Havia uma discrepância entre a boa vontade do maestro e a fúria da recusa de Catherine que

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persistia na minha cabeça. Não teria sido um ato espontâneo, ou melhor, não me pareceu um ato espontâneo. Apesar de Catherine ter bebido, e das pessoas terem considerado aquele tapa como uma mera manifestação etílica, a cena não me saia da cabeça. Resolvi fazer umas investigações por conta própria; consegui que um dos meus amigos me levasse até o maestro. O nome dele era Thomas, negro bem escuro, muito franco, bastante musical, e não levou mais de dez minutos para que eu descobrisse que ele também tinha ficado espantado com o tapa. Ele a conhecia há anos, desde que Catherine era menina; ensaiaram juntos várias vezes. Verdade é que dias depois ela viera lhe pedir desculpas. - Aliás, eu sabia que ela viria se desculpar; é uma menina de ouro. Minha irmã Katie foi babá dela, desde que ela nasceu. - Sua irmã? - Katie, que hoje é servente do clube, Katie Goldstein. A senhorita deve ter lido sobre ela nos jornais, no caso Kincaid ... Foi ela quem descobriu o corpo de Marie Bannerman. - Quer dizer que Katie foi babá de Catherine? - Foi, sim, senhora. Ao voltar para casa, estimulada pelas perguntas, mas não muito satisfeita com as respostas, virei-me para meu companheiro: - Catherine e Marie eram boas amigas?

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- Eram, sim - respondeu ele, sem hesitar. - Todas as garotas de Davis se dão bem entre si, a menos que uma esteja querendo tirar o namorado da outra ... aí, sim, sai briga na certa. - Por que será que Catherine não se casou até hoje? Ela deve ter muitos pretendentes. - Tem e não tem. Ela só gosta de alguém por uns dias, logo enjoa. O único cara que ela gosta mesmo é Joe Gable. E então uma cena se formou diante dos meus olhos com a rapidez de um raio. Trêmula pelo impacto, me lembrei das palavras que Marie Bannerman trocara comigo: "Quem mais estava com você?" Em seguida tive a impressão de ter visto, num átimo de segundos, um vulto que sequer consegui identificar quem fosse. Como destas imagens que a gente vê pelas ruas e mais tarde reconhece ser de um amigo. Pelo canto dos olhos, achei ter visto uma figura que poderia ter sido Catherine Jones. O estranho é que, na hora do tiro, ela estava lá embaixo diante da platéia. Seria possível que Katie Goldstein, uma senhora de mais de cinqüenta anos, conhecida e admirada como babá por três gerações, conseguiria matar uma garota a sangue-frio, somente para obedecer as ordens de Catherine Jones? "O estranho é que na hora do tiro, ela estava lá embaixo diante da platéia”. Esta frase ecoou na minha cabeça a noite inteira, tomando formas e variações das

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mais incríveis, dividindo-se em períodos, segmentos ou palavras. "O estranho é que, na hora do tiro, ela estava lá embaixo diante da platéia”. Que tiro? O tiro que todos nós ouvimos ... Quando se deu esse tiro? Às nove horas da manhã do dia seguinte, coberta de maquilagem para encobrir minhas olheiras e minha palidez devido à insônia da noite anterior, fui até o escritório do xerife. Entretido com sua papelada, Abercrombie ficou surpreso quando me viu. - Foi Catherine Jones que cometeu o crime - disse eu, tentando dominar meu estado de nervos. - Ela matou Marie Bannerman quando o tiro não podia ser ouvido, quer dizer, quando a orquestra estava tocando e as pessoas arrastavam as cadeiras para assistir ao show. O tiro que a gente escutou foi disparado por Katie quando a música parou, a fim de fornecer um bom álibi para Catherine! Eu tinha razão - hoje em dia todos sabem que eu tinha razão -, mas naquela semana, até conseguirem arrancar a confissão de Katie Goldstein, ninguém acreditava em mim. Nem Charley Kincaid ousou acreditar que isso pudesse ser verdade. Quais as ligações entre Catherine Jones e Joe Gable ninguém conseguiu até hoje precisar, mas o fato é que ela havia decidido acabar com o relacionamento clandestino de Marie e Joe. Naquela noite, Marie entrou por acaso no vestiário e encontrou Catherine se preparando para a dança; mais uma vez a história não

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ficou bem clara, mas parece, segundo Catherine, que Marie sacou um revólver e a ameaçou, e quando as duas se atracaram, o revólver disparou. No entanto, apesar de eu gostar de Catherine, devo dizer que só um júri muito burro e venal poderia condená-la a apenas cinco anos. Por isso, hoje em dia, sempre que eu e meu marido vamos a um show de música, ficamos procurando por Catherine por entre as coristas. Depois do tiro, ela provavelmente agiu com grande rapidez. Mandou que Katie esperasse o final da sua performance para só então dar o tiro e em seguida esconder o revólver; na pressa, Catherine com certeza esqueceu de especificar onde escondê-lo. Katie, enlouquecida de preocupação, obedeceu às instruções cegamente, mas até hoje não conseguiu se lembrar onde colocou o revólver. Um ano depois, quando eu e Charley estávamos em lua-de-mel em Hot Springs, é que descobrimos a arma dentro do saco de tacos de golfe. O saco devia estar perto da porta do vestiário e Katie deve ter enfiado o revólver na primeira coisa que viu pela frente. Hoje, moramos em Nova York. Detestamos cidades do interior, e apesar de diariamente lermos sobre as ondas de crimes nas cidades grandes, achamos que uma onda é alguma coisa de tangível que pode ser dominada. O que eu tenho medo são das correntes subterrâneas, o secreto fluxo e refluxo das marés, as formas secretas das coisas que nadam pela escuridão opaca, submersas nas profundezas do oceano.

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Tradução de Alves Moreira