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NUM BOSQUE

RYUNOSUKE AKUTAGAWA

(1892-1927 I Japão)

I. O Testemunho de um Lenhador Interrogado
por um Alto Comissário de Polícia:
Sim, senhor. Certamente, fui eu quem descobriu o
corpo. Esta manhã, como semPore, fui cortar a minha
cota diária de cedros, quando encontrei o corpo em um
bosque, num vale nas montanhas. O local exato? A
cerca de 150 metros fora da estrada de Yamashina. É
um bosque de bambu e cedros, fora de mão.
O corpo estava deitado, estendido de costas, vestido
num quimono de seda azulado e um adorno de cabeça
amarfanhado, no estilo de Kioto. Um único golpe de
espada havia lhe trespassado o peito. As lâminas de
bambu caídas em torno estavam manchadas de brrotos
ensangüentados. Não, o sangue não escorria mais. O
ferimento havia secado, acho. E também, um moscão
estava atracado ali, sem nem notar minhas passadas.
O senhor me pergunta se vi uma espada ou
qualquer coisa assim?
Não, nada, senhor. Encontrei apenas uma corda
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junto à raiz de um cedro próximo.
E ... bem, além da corda, encontrei um pente. Foi
tudo. Aparentemente, ele deve ter lutado antes de ser
assassinado, pois a grama e as lâminas caídas de
bambu estavam pisoteadas por todo lado.
Um cavalo estava próximo?
Não, senhor. Já é bastante difícíl para um homem
entrar ali, ainda mais um cavalo sozinho.

II. O Testemunho de um Sacerdote Budista
Viajante Interrogado por um Alto Comissário de
Polícia:
A hora? Certamente foi em torno do meio-dia,
ontem, senhor. O desafortunado homem estava na
estrada de Sekiyama para Yamashina. Estava
caminhando em direção a Sekiyama com uma mulher
que o acompanhava a cavalo, que vim a saber que era
sua esposa. Um lenço que cobria sua cabeça escondia-
lhe o rosto da vista. Tudo que vi foi a cor de suas
roupas, uma veste cor lilás. Seu cavalo era um alazão
com uma bela crina. A altura da senhora? Oh, cerca de
um metro e quarenta e três centímetros. Como sou um
sacerdote budista, prestei pouca atenção nos seus
detalhes. Bem, o homem estava armado com uma
espada, bem como com um arco e flechas. E eu me
lembro que levava umas vinte flechas estranhas na sua
aljava.
Não poderia esperar que ele encontrasse tal destino.
Verdadeiramente, a vida humana é tão evanescente
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quanto o orvalho da manhã ou um raio de luz. Minhas
palavras são inadequadas para expressar a minha
compaixão por ele.

III. O Testemunho de um Policial Interrogado por
um Alto Comissário de Polícia:
O homem que prendi? É um notório assaltante
chamado Tajoomaru.
Quando o prendi, ele havia caído do cavalo. Estava
gemendo na ponte, em Awadaguchi. A hora? Foi nas
primeiras horas da noite de ontem. Para registro, posso
dizer que tentei prendê-lo outro dia, mas infelizmente
ele fugiu. Estava usando um quimono de seda azul-
escuro e uma grande espada simples. E, como vê, em
algum lugar ele tinha um arco e flechas. O senhor diz
que este arco e estas flechas se parecem com os que
pertenciam ao homem morto? Então Tajoomaru deve
ser o assassino. O arco curvado com tiras de couro, a
aljava laqueada de preto, as dezessete flechas com
penas de falcão - tudo estava em sua posse, creio. Sim,
senhor, o cavalo é, como diz o senhor, um alazão com
uma bela crina. Um pouco adiante da ponte de pedra eu
encontrei o cavalo pastando pela beira da estrada, com
seu longo arreio balançando. Certamente foi uma certa
sorte providencial ele ter sido arremessado pelo cavalo.
De todos os ladrões que perambulam por Kioto, este
Tajoomaru é quem tem dado a maior tristeza às
mulheres da cidade. No último outono, uma esposa que
voltava do Templo de Toriba em direção à montanha de
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Pindora, possivelmente para fazer uma visita, foi
assassinada junto com uma menina. Suspeitou-se de
que era ação dele. Se foi este o criminoso que
assassinou o homem, não se pode saber o que ele
possa ter feito com a esposa do homem. Pode ser que
sua senhoria queira também olhar para este problema.

IV. O Testemunho de uma Velha Interrogada por
um Alto Comissário de Polícia:
Sim, senhor, aquele cadáver é o homem que casou
com a minha filha. Ele não é de Kioto. Ele era um
samurai da cidade de Kokufu, na província de Wakasa.
Seu nome era Kanazawa-no-Takehiro, e sua idade era
26. Ele tinha um humor agradável, por isso tenho
certeza de que ele não fez nada para provocar a raiva
de outros.
Minha filha? Seu nome é Massago, e sua idade é
19. Ela é uma menina alegre, vivaz, mas tenho certeza
que nunca conheceu outro homem além de Takehiro.
Ela tem um pequeno rosto oval, moreno, com um sinal
no canto do olho esquerdo.
Ontem Takehiro foi embora para Wakasa com a
minha filha. Que má sorte essa que as coisas
chegassem a um fim tão triste. O que aconteceu com
minha filha? Estou resignada a dar meu genro como
perdido, mas a preocupação com a sorte da minha filha
me deixa doente. Por todos os céus, não deixe de
revirar cada pedra para encontrá-la. Odeio aquele
ladrão Tajoomaru ou qualquer que seja o seu nome.
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Não apenas o meu genro, mas a minha filha ... (Suas
últimas palavras afogam-se em lágrimas.)

V. A Confissão de Tajoomaru:
Eu o matei, mas não a ela. Onde ela está? Não sei
dizer. Ah, esperem um minuto.
Nenhuma tortura pode me fazer confessar o que eu
não sei. Agora as coisas chegaram a tal seriedade que
eu não vou esconder nada dos senhores.
Ontem, um pouquinho depois do meio-dia, eu
encontrei o casal. Naquele momento bateu um sopro de
vento, e levantou o lenço que a cobria, de tal maneira
que peguei um relance do seu rosto. Imediatamente ele
foi novamente encoberto da minha vista. Isto pode ter
tido uma razão: ela parecia uma Bodisatva [mulher que
pratica a virtude para, depois de morta, ser um Buda,
um espirito puro. (N. do Organizador.)]. Naquele
momento eu tomei a decisão de capturá-la, mesmo que
tivesse que matar o seu homem.
Por quê? Para mim, matar não é algo de tão grande
conseqüência como os senhores podem achar. Quando
uma mulher é capturada, de qualquer forma o seu
homem tem que ser morto. Para matar eu uso a espada
que levo ao lado. Sou eu o único que mata pessoas?
Vocês, vocês não usam as suas espadas. Vocês matam
pessoas com o seu poder, com o seu dinheiro. Às vezes
vocês matam-nas sob o pretexto de que estão fazendo
o bem delas. É verdade que não sangram. Estão
gozando da sua melhor saúde, mas, de qualquer forma,
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vocês as mataram. É difícil dizer quem é o pecador
maior, vocês ou eu. (Um sorriso irônico.)
Mas seria bom se eu pudesse capturar uma mulher
sem matar o homem dela.
Então, eu me decidi a capturá-la e fazer o possível
para não matá-lo. Mas isso está fora de questão na
estrada de Yamashina. Então eu consegui atrair o casal
para as montanhas.
Foi bastante fácil. Tornei-me seu companheiro de
viagem, e contei-lhes que havia um antigo monte lá na
montanha, e que eu havia cavado e encontrado muitos
espelhos e espadas. Continuei contando que havia
enterrado as coisas num bosque atrás da montanha e
que gostaria de vendê-los a preço baixo a qualquer um
que quisesse tê-los. Então ... vejam, a ganância é
terrível, não? Ele já estava começando a se interessar
pela minha conversa antes mesmo de perceber. Em
menos de meia hora, eles estavam conduzindo o cavalo
na direção da montanha, comigo.
Quando chegamos na entrada do bosque, eu lhes
disse que os tesouros estavam enterrados nele, e
convidei-os para entrar e ver. O homem não objetou -
estava cego de cobiça. A mulher disse que aguardaria a
cavalo. Era natural que dissesse isso, à vista de um
bosque cerrado. Para dizer a verdade, o meu plano
funcionou exatamente como eu queria, e então entrei
no bosque com ele, deixando-a atrás, sozinha.
O bosque é só de bambus, até uma certa distância.
Cerca de 15 jardas à frente existe um grupo de cedros.
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Era um ponto conveniente para o meu objetivo. Abrindo
meu caminho através do bosque, disse a ele de maneira
plausível que os tesouros estavam enterrados debaixo
dos cedros. Quando lhe disse isso, ele abriu caminho
com afinco em direção aos delgados cedros visíveis pelo
bosque. Depois de algum tempo o bambu escasseou e
chegamos onde alguns cedros cresciam enfileirados.
Assim que chegamos ali, eu o agarrei por trás. Ele era
um samurai. Pareceu-me bem forte; mas foi pego de
surpresa, de forma que não havia saída para ele. Logo o
amarrei na raiz de um cedro. Onde arranjei uma corda?
Graças aos céus, sendo um ladrão, eu tenho uma corda
comigo, uma vez que posso ter que escalar um muro a
qualquer momento. Claro que foi fácil impedi-lo de
gritar, enchendo sua boca de folhas caídas de bambu.
Depois de dar um jeito nele, fui até a mulher e pedi
a ela que fosse vê-lo, porque ele parecia ter ficado
subitamente doente. Desnecessário dizer que este plano
também deu certo. A mulher, sem seu chapéu de palha,
entrou nas profundezas do bosque, onde eu a levei pela
mão. No instante que ela vislumbrou o marido, ela
sacou do peito um pequeno punhal. Nunca vi uma
mulher com um temperamento tão violento. Se eu não
estivesse em guarda, teria levado uma facada no
ventre. Eu me esquivei, mas ela continuava me golpe-
ando. Ela poderia ter me ferido seriamente ou me
matado. Mas eu sou Tajoomaru. Consegui jogar no chão
o punhal, sem ter que sacar a espada. A mulher mais
esperta torna-se indefesa sem uma arma. Finalmente
consegui satisfazer meu desejo por ela sem tirar a vida
do seu marido.
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Sim ... sem tirar-lhe a vida. Não tinha vontade de
matá-lo. Eu estava quase fugindo do bosque, deixando
a mulher atrás, em lágrimas, quando ela frenética-
mente agarrou-se no meu braço. Com palavras
fragmentadas, ela pediu que seu marido ou eu
morresse. Disse que era mais aterrador do que a morte
ter sua vergonha conhecida por dois homens. Ofegante,
disse que queria ser a esposa de qualquer que fosse o
sobrevivente. Então um desejo furioso de matá-la
tomou conta de mim.
Contando aos senhores desta maneira, pareço sem
dúvida um homem mais cruel que os senhores. Mas isso
é porque os senhores não viram o rosto dela.
Especialmente os seus olhos ardentes naquele
momento. Quando eu a olhei, olho no olho, quis fazê-la
minha esposa mesmo que tivesse de ser atingido por
um raio. Queria fazê-la minha esposa ... Este único
desejo encheu a minha cabeça. Não era apenas luxúria,
como os senhores podem pensar. Naquela hora, se eu
tivesse apenas o desejo da luxúria, eu certamente não
me incomodaria em derrubá-la ao chão e fugir
correndo. Eu não teria então manchado a minha espada
com o sangue dele. Mas no momento em que olhei para
o rosto dela no bosque escuro, decidi não ir embora
sem matá-lo.
Mas eu não queria me escorar em meios desleais
para matá-lo. Eu o desamarrei e lhe disse que se
batesse comigo de espada. (A corda que foi encontrada
na raiz do cedro é a corda que foi abandonada naquele
momento). Enfurecido de raiva, ele sacou sua grossa
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espada. E rápido como um pensamento, ele atirou-se
ferozmente em mim, sem dizer uma palavra. Não
preciso lhes dizer como acabou a nossa luta. O
vigésimo terceiro golpe ... por favor, lembrem-se disso.
Ainda estou impressionado com este fato. Ninguém sob
o sol jamais resistiu a mais de vinte de meus golpes.
(Um sorriso animado.)
Quando ele caiu, virei-me para ela, abaixando a
minha espada manchada de sangue.
Mas para o meu grande espanto ela fora embora.
Fiquei pensando para onde ela teria fugido. Procurei por
ela no meio dos cedros. Apurei o ouvido, mas escutei
apenas um som gorgolejante da garganta do
moribundo.
Assim que começamos a cruzar as espadas, ela
podia ter fugido através do bosque para pedir ajuda.
Quando pensei nisso, decidi que era assunto de vida ou
morte para mim. Então, roubando dele a espada, e arco
e flechas, corri para a estrada da montanha. Ali
encontrei o cavalo dela ainda pastando tranqüilamente.
Seria gastar palavras à toa dizer aos senhores os
detalhes finais, mas antes de entrar na cidade eu já
havia me livrado da espada. Esta é toda a minha
confissão. Eu sei que a minha cabeça vai ser pendurada
nas correntes de qualquer jeito, portanto me condenem
à pena máxima. (Uma atitude desafiadora.)
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VI. A Confissão de uma Mulher que Chegou ao
Templo Kiyomizu:
Aquele homem de quimono azul de seda, depois de
me fazer ceder a ele, ria zombando ao olhar para o meu
marido amarrado. O quanto meu marido devia estar
horrorizado! Mas de nada adiantava a força com que ele
lutava em agonia, pois a corda apertada o cortava cada
vez mais. Apesar das minhas condições, eu corri
tropeçando para o seu lado. Ou melhor, tentei correr
para ele, mas o homem imediatamente me bateu,
jogando-me no chão. Exatamente naquele momento eu
vi uma luz indescritível nos olhos do meu marido. Algo
além da palavra ... Seus olhos me fazem estremecer
até agora. Aquele instante de olhar do meu marido, que
não podia falar uma palavra, me disse tudo que ia no
seu coração. O clarão nos seu olhos não era nem de
raiva, nem de tristeza ... Apenas uma luz fria, um olhar
de repugnância. Mais chocada pelo olhar nos seus olhos
do que pelos golpes do ladrão, eu gritei apesar de mim
mesma e caí inconsciente.
Decorrido tempo eu voltei a mim, e descobri que o
homem em seda azul fora embora. Vi apenas o meu
marido ainda amarrado à raiz do cedro. Levantei-me de
sobre as lâminas de bambu com dificuldade, e olhei
para o seu rosto; mas a expressão nos seus olhos era
apenas a mesma que antes.
Sob o frio desprezo em seus olhos, havia ódio.
Vergonha, pesar e raiva ... Não sei como expressar o
meu coração naquela hora. Arrastando-me com os pés,
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fui até o meu marido.
- Takehiro - eu lhe disse -, uma vez que as coisas
chegaram a este ponto, não posso viver com você.
Estou determinada a morrer ... mas você também deve
morrer. Você viu minha vergonha. Não posso deixá-lo
vivo da maneira que está .
Isso foi tudo o que pude dizer. Ele ainda continuou
me olhando com repugnância e desprezo. Com meu
coração partido, procurei sua espada. Deve ter sido
levada pelo ladrão. Nem sua espada ou seu arco e as
flechas podiam ser vistos no bosque. Mas, felizmente,
meu punhal jazia aos meus pés. Erguendo-o sobre
minha cabeça, mais uma vez eu disse:
- Agora me dê sua vida. Eu o seguirei logo depois.
Quando ouviu estas palavras, ele moveu os lábios
com dificuldade. Como sua boca estava cheia de folhas,
é claro que não se podia ouvir a sua voz de maneira
nenhuma. Mas num olhar eu entendi suas palavras.
Desdenhando-me, seu olhar apenas me dizia: "Mate-
me." Nem consciente, nem inconsciente, enterrei o
punhal dentro do seu peito.
Novamente, nessa hora, devo ter desmaiado.
Quando consegui abrir os olhos, ele já havia dado o
último suspiro - ainda nas amarras. Uma faixa de luz do
sol poente serpenteava através do grupo de cedros e
bambus, e iluminava o seu rosto pálido. Engolindo os
meus soluços, desamarrei a corda do seu corpo. E ... e
o que aconteceu comigo desde então, não tenho mais
forças para lhes contar. De qualquer forma, não tive
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forças para morrer. Esfaqueei minha própria garganta
com o punhal, joguei-me num lago ao pé da montanha,
tentei me matar de várias maneiras. Incapaz de acabar
com a minha vida, ainda vivo na desonra. (Um sorriso
desolado.) Indigna como sou, devo ter sido esquecida
até pelo mais caridoso Kwannon [Personificação da
Piedade, deus auxiliar de Buda. (N. do Organizador)].
Matei meu próprio marido. Fui violada por um ladrão. O
que eu posso fazer? O que eu posso ... eu ...
(Gradualmente, soluços violentos.)

VII. A História do Homem Assassinado, como
Contada Através de uma Médium:
Após violar minha esposa, o ladrão, sentado ali
mesmo, começou a dizer-lhe palavras de conforto. É
claro que eu não podia falar. Todo o meu corpo estava
amarrado, apertado à raiz de um cedro. Mas enquanto
isso, eu piscava muitas vezes para ela, como para dizer-
lhe "Não acredite no ladrão". Queria transmitir-lhe algo
neste sentido. Minha mulher, porém, sentada
desanimadamente nas folhas de bambu, olhava
fixamente o seu colo. Pela aparência, ela estava
ouvindo as palavras dele. Eu estava agoniado de
ciúmes. Enquanto isso, o ladrão continuava com sua
esperta conversa, de um assunto para outro. O ladrão
finalmente fez sua descarada e atrevida proposta: "Uma
vez que sua virtude está manchada, que você não vai
mais se dar bem com seu marido, por que então você
não se torna minha mulher? É o meu amor que me fez
ser violento com você."
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Enquanto o meliante falava, minha esposa levantou
o rosto como se em transe.
Nunca estivera tão linda quanto naquele momento.
O que disse minha bela esposa a ele em resposta,
enquanto eu estava ali, amarrado? Estou perdido no
espaço, mas nunca deixei de pensar na resposta dela
sem arder de raiva e ciúmes. Na verdade, ela disse
claramente: "Então me leve com você, seja para onde
for."
Este não é todo o seu pecado. Se isto fosse tudo, eu
não estaria tão atormentado no escuro. Quando ela
estava saindo do bosque, como num sonho, sua mão na
do ladrão, subitamente empalideceu e apontou para
mim, amarrado à raiz do cedro, e disse: "Mate-o. Não
posso casar com você enquanto ele viver. Mate-o!",
gritou ela várias vezes, como se tivesse enlouquecido.
Até agora essas palavras ameaçam me explodir
abruptamente no abismo sem fim da escuridão. Teria
algo tão odioso assim saido alguma vez de uma boca
humana? Tais palavras amaldiçoadas teriam alguma vez
atingido um ouvido humano, pelo menos uma vez? Pelo
menos uma vez, tal ... (Um súbito grito de escárnio.)
Diante destas palavras, o próprio ladrão empalideceu.
"Mate-o", gritou ela, pegando os seus braços. Olhando
duramente para ela, ele não respondeu nem sim, nem
não ... mas eu nem tinha pensado na resposta dele
quando ela foi atirada ao chão, nas folhas de bambu.
(Novamente um grito de escárnio.) Calmamente,
cruzando os braços, ele me olhou e disse: "O que vai
fazer com ela? Matá-la, ou salvá-la? Você tem apenas
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que balançar a cabeça. Matá-la?" Só por essas palavras
eu gostaria de perdoar o seu crime.
Enquanto eu hesitava, ela gritou e correu para as
profundezas do bosque. O ladrão imediatamente foi
atrás dela, mas falhou até mesmo em agarrar sua
manga.
Depois que ela fugiu, ele pegou minha espada, meu
arco e as flechas. Com um único golpe, cortou uma das
minhas amarras. Lembro-me dos seus resmungos.
"Meu destino está próximo." Então ele desapareceu no
bosque. Depois disso, tudo estava em silêncio. Não, eu
ouvi alguém chorando. Desamarrando o resto de
minhas amarras, ouvi cuidadosamente, e notei que era
o meu próprio choro. (Longo silêncio.)
Levantei meu corpo exausto do pé do cedro. À
minha frente estava brilhando o punhal que minha
esposa deixara cair. Peguei-o e o enterrei no meu peito.
Um fluxo sanguinolento subiu-me à boca, porém não
senti nenhuma dor. Enquanto meu peito esfriava, tudo
estava silencioso como os mortos nos seus túmulos.
Que silêncio profundo! Nem um único som de
passarinho era ouvido no céu sobre este túmulo no vale
das montanhas. Apenas uma luz solitária estendia-se
sobre os cedros e montanhas. Pouco a pouco a luz
tornou-se gradualmente mais fraca, até que a visão dos
cedros e bambus se perdeu. Caido ali, fui envolvido em
profundo silêncio.
Então alguém arrastou-se para junto de mim. Tentei
ver quem era. Mas a escuridão já vinha me acercando.
Alguém ... alguém que tirou suavemente o punhal do
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meu peito com sua mão invisível. Ao mesmo tempo,
mais uma vez o sangue fluiu para a minha boca. E de
uma vez para sempre afundei na escuridão do espaço.
Tradução de Fani Baratz

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