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CÃES NA BROADWAY DAMON RUNYON (1880-1946 - Estados Unidos)

Uma dessas madrugadas, aí pela hora dos quatro apitos, eu estou parado na frente do restaurante do Mindy, na Broadway, com um cara chamado Remorso, que parece ter esse nome porque ganhou uma pule alta no ano em que a inscrição de Whitney, Remorso, faturou o Derby de Kentucky; ele nunca mais esqueceu isso, talvez por ter sido a única vez na vida em que ganhou alguma coisa. O verdadeiro nome do cara é uma coisa que eu nunca soube, e de todo jeito, não me importa muito o nome das pessoas, especialmente na Broadway, onde, qualquer que seja o nome que um cara use, na maioria das vezes, não é o seu. Assim, no que me diz respeito, Remorso é um nome tão bom quanto outro qualquer para chamar esse cara de quem estou falando; no mais, é um cara gordo e falante, ainda que só fale de cavalos e de como perdeu ontem, por uma porcaria de nariz, em Belmont, ou seja lá onde for que os cavalos estejam correndo.

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Em todos esses anos, desde que conheço Remorso, o cara já perdeu por uns dez mil narizes; e, acreditando no que ele conta, é sempre uma porcaria de nariz. Nunca acontece perder para um nariz limpo, mas é claro que é só o jeito de falar dos caras viciados em corridas. O que Remorso faz, além de jogar nos cavalos, é uma coisa que não tenho idéia, mas, seja lá o que for, deve fazer bem, porque o cara está sempre montado e circulando, bem-vestido e com montes de grandes charutos aparecendo no bolso. Em geral, às quatro da madrugada, a Broadway é um lugar bastante tranqüilo, porque a maioria dos cidadãos a essa hora está nos bares clandestinos e nos clubes noturnos; e, nesse dia que estou falando, está tudo quieto, exceto por um cara de nome Marvin Clay, que está argumentando alto com uma gatinha porque ela não quer entrar no táxi e ir para o apartamento dele. Não dou muita atenção à cena, exceto que Remorso comenta de como a gatinha tem mais bom senso do que seria de se esperar numa gata solta na Broadway, às quatro da manhã. Porque é bem conhecido de todos que as gatas que vão ao apartamento de Marvin ou são muito burras ou estão procurando. Esse Marvin Clay é um cara da alta sociedade, da maior competência como desocupado e freqüentador de clubes noturnos. O cara é cheio da grana, que consegue diretamente do pai, que faz dinheiro com ferrovias e outros investimentos aqui e ali. Mas Marvin é um tipo dos mais desagradáveis. Acha que seu dinheiro lhe dá o direito de ser deselegante e barulhento, e é sempre

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grosseiro e abusivo com as gatinhas que trabalham nos clubes, que tem de aturar tudo porque o cara é um bom cliente. É raro ver a figura na área durante o dia, quase sempre está vestido para a noite, de smoking; tem uns cinqüenta anos e uma cara horrível, coberta de manchas vermelhas e espinhas, mas é claro que um cara como Marvin Clay, com toda aquela grana, não tem nenhuma obrigação de ser bonito, e ele é muito bem-vindo em todas as rodas da Broadway. Pessoalmente, não quero nada com um tipo assim, mas, com todos os meus anos por aqui, acho que já devo ter visto uns mil outros como ele, e sempre haverá caras como Marvin na Broadway enquanto houver pais, fazendo montes de grana nas ferrovias, para bancá-los. Bem, depois de algum tempo, Marvin Clay consegue colocar a gata no táxi, eles partem, e continua tudo em paz na Broadway. Eu e Remorso ficamos por ali falando disso e daquilo, e de coisa e loisa, quando surge um cara muito estranho com dois cachorros mais estranhos ainda. O cara é tão magro que eu acho que ele pesa dois quilos a menos que um saco de algodão. Tem um nariz comprido e uma cara triste e vem com um chapéu de feltro velho e desabado, camisa de flanela, umas calças largas de veludo e uma jaqueta “v-mais", que é uma jaqueta onde você vê mais bolsos que jaqueta. Pessoalmente, nunca vi um cara mais estranho na Broadway; e diria que, em todos esses anos, já vi caras muito estranhos por aqui. Mas, se o cara é estranho, os cachorros são mais estranhos ainda, com cabeças

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enormes, as bochechas caídas como as dos crupiês de antigamente e orelhas despencadas do tamanho de um lençol. Além disso, têm o rosto todo enrugado e uns olhos grandes e tão tristes que parecem prestes a explodir em lágrimas. Os dois cachorros têm o pelo negro com manchas amareladas, rabo comprido e estão tão magros que você pode contar as costelas de cada um. Dá para perceber com um olhar que tanto o cara quanto os cachorros saberiam o que fazer com alguns hambúrgueres, mas isso é uma coisa que, nos tempos que correm, se pode dizer de várias outras pessoas na Broadway, sem falar em cachorros. Bem, Remorso fica imediatamente interessado nos cães, porque é um cara que gosta muito de todo tipo de animais, e tem de parar o cara e perguntar que raça de cachorros é aquela, e eu também quero saber, porque, embora já tenha visto muitos viralatas na vida, nunca vi nada parecido com aqueles cães. - A raça são sabujo - diz o cara de ar tristonho, numa voz tristíssima e com aquele sotaque, que esses caras do sul sempre têm. - São farejadores de homens, lá da Geórgia. É claro que Remorso e eu sabemos o que são sabujos, porque vimos a perseguição de Elisa no gelo, na Cabana de Pai Tomás, quando nós éramos guris, mas nem eu nem ele nunca conhecemos um sabujo em pessoa, ainda mais na Broadway. Assim, ficamos conversando um bocado com o cara e ouvimos sua história, que era tão triste quanto sua cara, e nos fez sentir

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muita pena dele. Na verdade, dali a pouco, estamos com ele e os sabujos no restaurante do Mindy, alimentando a todos com bifes enormes, apesar das reclamações de Mindy por termos trazido os cachorros, perguntando o que é que nós achamos que o restaurante dele é. Mas quando Remorso começa a dizer o que ele acha do lugar, Mindy diz que não se importa e para de qualquer forma não trazermos nunca mais aqueles cavalos para a sua espelunca. Bem, parece que o nome do cara é John e ele é de uma pequena cidade na Geórgia, onde seu tio é xerife, e o nome de um cachorro é Nip, e do outro é Tuck, e os dois são treinados desde filhotinhos para perseguir os vagabundos que escapam do xadrez local e os negros ruins. Uma coisa depois da outra, e logo que John Wangle sossega as pontadas em seu estômago com os bifes do Mindy, começa a destravar a língua e ficar falante. Ouvindo o cara falar, das duas uma, ou ele é um mentiroso de primeira, ou seus cachorros são os melhores farejadores que o mundo já viu. Agora, olhando os cachorros depois de comerem seis bifes grandes de alcatra cada um, e uma quantidade de matzohts, que Mindy guardara da última festa judaica, e uma panela de goulash do menu do jantar, além de outras sobras, migalhas e restos, tudo que posso dizer deles é que comem com vontade; porque agora estão dormindo com a cara escondida debaixo das orelhas e roncando tão forte que mal se podem ouvir as próprias idéias.

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Como John Wangle terminou em Nova York com esses cachorros é, de fato, uma longa história. Parece que um cara de Nova York apareceu na cidade de John Wangle, na Geórgia, justo quando os sabujos estavam perseguindo um negro ruim. Daí o cara imaginou que seria um bom negócio trazer os cachorros para a cidade e alugá-los para o cinema, para perseguir os bandidos dos filmes. Mas parece que quando chegaram a Nova York, os caras do cinema já tinham outros métodos para perseguir seus vilões nos filmes. Resumindo, o cara ficou sem dinheiro e deu o fora, deixando John Wangle e os cachorros no desvio. Assim John Wangle ficou em Nova York, e estava vivendo, com Nip e Tuck, todos juntos, num quartinho alugado, lá na rua 49 Oeste, e as coisas ficaram complicadas para eles, porque John não sabe como fazer para voltar para a Geórgia, a menos que seja a pé, e alguém lhe disse que o caminho a pé fica difícil ao sul de Roanoke. Quando perguntei por que não escrevia para seu tio, o xerife, John Wangle respondeu que tinha duas boas razões; a primeira é que não sabia escrever, e a segunda é que seu tio não sabia ler. Quando pergunto a ele por que não vende os cães, diz que o mercado de sabujos anda meio parado em Nova York, além do que, se voltar para casa sem eles, corre o risco de ter as orelhas arrancadas pelo tio. De qualquer jeito, ele diz que ama profundamente os cachorros e que somente esse vínculo de afeição o impediu de comer um ou outro, ou quem sabe os dois, na última semana, quando a fome apertou. Bem, nunca vi Remorso tão interessado antes por

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nenhuma situação como pela de John Wangle e seus sabujos, mas eu, pessoalmente, estou começando a ficar de saco cheio deles, porque o que se chama Nip afinal acorda e resolve roer minha perna, talvez pensando em encontrar mais carne; e quando eu lhe dou um chute no focinho, John Wangle fica aborrecido comigo e Remorso me diz que só caras sem nenhum sentimento são capazes de crueldade com animais inocentes. Mas, para mostrar que nem John Wangle nem seus sabujos são tão inocentes, eles começam a passar todas as madrugadas, à mesma hora, diante do restaurante do Mindy, e Remorso está sempre ali, pronto para alimentá-los, ainda que agora tenha de trazer a comida até a calçada, já que Mindy não permite mais a entrada de sabujos em sua espelunca. Naturalmente, Nip e Tuck ficam muito amigos de Remorso, mas nem de perto tão amigos quanto John Wangle, que está começando a engordar, e, enquanto isso, os cachorros também ganham peso. Bem, então acontece que Remorso não aparece mais na frente do Mindy por várias madrugadas seguidas, porque, parece que finalmente chegou o dia, Remorso acerta uma bolada nos cavalos e compra um smokíng novo, e começa a passar mais tempo nos clubes noturnos, especialmente no Clube Trezentos, da Srta. Missouri Martin, onde existem várias gatinhas lindas que dançam ali vestidas com pano suficiente para fazer um lenço, e é bem conhecido de todos o fascínio que Remorso sente por essas coisas. Além do que, escuto comentários, aqui e ali, sobre o

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fato de Remorso demonstrar uma grande atração por uma gatinha, conhecida pelo nome de Lovey Lou, que trabalha no Clube Trezentos, da Srta. Missouri Martin, e de ter aprontado algum tipo de confusão com Marvin Clay, por causa dessa gata. Parece que Remorso enfiou um punho na boca de Marvin, o que me faz pensar que Remorso está ficando meio bobo, como acontece de vez em quando com caras que passam muito tempo na Broadway. Então, agora, quando John Wangle passa de madrugada, com Nip e Tuck, sonhando com uma refeição, não consegue muita coisa, já que ninguém na área do Mindy se interessa nem um pouco por sabujos, especialmente com aquele tipo de interesse que pudesse levá-los a comprar bifes; e em pouco tempo Nip e Tuck começam a parecer muito tristes outra vez; e John Wangle tem um aspecto mais que desanimado. É cedo de manhã outra vez, e faz calor; um grupo de cidadãos está ali na rua em frente ao restaurante do Mindy, respirando o ar fresco, quando aparece um inspetor de polícia chamado McNamara, e que é meu amigo, acompanhado de um grupo de policiais à paisana, e o inspetor McNamara me conta que está a caminho de um apartamento, a três quarteirões de distância, na rua 54, onde parece que um cara foi baleado. Na falta de outra coisa para fazer, resolvo ir com eles. Ainda que não tenha por hábito me associar com a polícia, porque é o tipo de coisa que poderia provocar a crítica de outros cidadãos. Bem, quem vocês acham que é o cara baleado, senão Marvin Clay? E está esticado ali, no chão da sala de seu apartamento, metido num smokíng e com a

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frente da camisa ensopada de sangue. Depois de olhar de mais perto, o inspetor McNamara constata que Marvin tem um furo de bala no meio do peito, e o aspecto de alguém bastante morto. Para completar, parece não haver nenhum traço de pista para elucidar a autoria do sucedido, e o inspetor McNamara comenta que sem dúvida trata-se de um grande mistério, e que vai ser a sopa no mel para a imprensa, especialmente agora, quando já faz alguns dias que não tem nenhuma morte misteriosa para se explorar. Bem, é claro que nada disso é problema meu, mas de repente acontece de me lembrar de John Wangle e seus sabujos, e me ocorre que seria uma grande oportunidade para eles, então eu digo para o inspetor: - Ouça Mac - lhe digo -, existe um cara aqui com um par de sabujos da Geórgia, especializados em caçar criminosos em situações assim, e - vou dizendo - talvez eles possam encontrar o delinqüente que baleou Marvin Clay, agora, enquanto o rastro ainda está mais quente do que mostarda. Bem, mais tarde tomo conhecimento que algumas pessoas ficaram muito indignadas com minha sugestão, porque muitos cidadãos acreditam que quem quer que seja que tenha atirado em Marvin Clay merece mais consideração do que ser caçado com cães. Na verdade, há muitos que pensam que este alguém merece uma medalha. Mas essa discussão só começou mais tarde. De qualquer forma, no início, o inspetor não bota muita fé na minha idéia e os outros tiras são mais céticos ainda, e propõe que a melhor coisa a fazer é

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prender todo mundo na área, e guardar os presos por um mês ou dois como testemunhas do fato. O problema é que não há ninguém na área para prender, exceto, quem sabe, eu. Mas o inspetor é um cara de mente arejada, e no final acaba dizendo que tudo bem, e que é para trazer os cachorros. Então, corro de volta até o Mindv, e, como esperava, lá estão John Wangle, Nip e Tuck na calçada, olhando no rosto de cada um dos caras que passam, na esperança que talvez um desses rostos seja o de Remorso. É uma coisa realmente patética de se ver, mas John Wangle se anima quando explico a ele do caso de Marvin Clay e parte comigo para o apartamento, tão rápido que a pele do pescoço de Nip vem toda esticada para frente na coleira, e Tuck se arrastando na barriga. Chegando ao apartamento, John Wangle leva Nip e Tuck até onde está Marvin Clay, e os cães farejam o cara por todo lado, porque parece que esses sabujos são muito acostumados com caras mortos. Então John Wangle solta os cachorros e grita alguma coisa para eles. Os sabujos começam a cheirar tudo em volta pelo apartamento, com o inspetor McNamara e os outros tiras observando com grande interesse. De repente, Nip e Tuck partem correndo do apartamento para a rua, com John Wangle atrás deles, e o resto de nós atrás de John Wangle. Entram pela rua 54 de volta na direção da Broadwav, e logo estão farejando tudo naquela área, na frente e nos arredores do restaurante do Mindy. Um pouco depois, começam a subir a Broadway, com os focinhos colados na calçada, e nós seguimos

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atrás, excitados, porque agora até mesmo os tiras estão convencidos de que os cães estão quentes, na pista do indivíduo que baleou Marvin Clay. No princípio, Nip e Tuck vão andando, mas logo começam um trote apressado, e nós, John Wangle, o inspetor, eu e o resto dos tiras, temos de correr atrás deles. É natural que uma cena assim atraia um bocado de atenção, e à medida que vamos passando pelos cidadãos, já nas ruas a essa hora, o leiteiro desce de seu carro, e os entregadores deixam os caminhões onde estavam, o garoto larga todos os jornais no chão, e todos eles se juntam à perseguição, e assim quando chegamos à altura da rua 56 já é uma enorme delegação correndo atrás dos cães, com John Wangle na frente, gritando. - Não perde a pista, menino ! Na rua 56, os cães entram no sentido leste e vão parar diante da porta fechada, do que parece ser uma garagem. Parece que os cachorros querem entrar ali; assim, o inspetor e os tiras põem a porta abaixo; e lá estão vários cidadãos proeminentes, bem no meio de um tranqüilo jogo de dados. Naturalmente, esses cidadãos ficam muito espantados com a chegada dos sabujos e de todos nós, e especialmente com a chegada dos tiras, e a primeira reação que têm é a de escapar dali, cada um para um lado, porque o jogo de dados ainda é bastante ilegal por esses lados. Mas o inspetor diz apenas "Ah-ha!", e começa a anotar nomes em seu caderninho, como para agir nisso mais tarde. Nip e Tuck, do jeito que entraram, saíram, e

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continuam cheirando a calçada pela rua 56. No caminho pararam em quatro portas, que depois de derrubadas pelos tiras revelaram não ser mais que quatro bares clandestinos, embora um deles fosse também uma boca, e os cidadãos em lugares assim são mais sensíveis à excitação e ficam superparanóicos, especialmente porque o inspetor McNamara continua fazendo anotações em seu caderninho. No final, o inspetor começa a olhar estranho para os outros tiras, e você pode ver que ele está muito descontente em encontrar tanta ilegalidade na área do distrito; e os tiras estão começando a odiar Nip e Tuck, sem nenhum disfarce. Um tira chega mesmo a dizer: - Cara, esses vira-latas não passam de dedos-duros! Bem, o barulho de John Wangle gritando com os cachorros e a massa de populares correndo atrás provoca a maior comoção e acorda a maioria das pessoas nos apartamentos e hotéis da vizinhança, especialmente agora no verão, quando quase todas as janelas estão abertas. Várias cabeças aparecem nas janelas, e ouvimos a voz de caras e gatas perguntando: - Que é que está acontecendo? Parece que, quando circula o rumor de que os cães estão perseguindo um delinqüente, uma sensação de forte mal-estar correu toda aquela área das ruas 50; na verdade, ouvi mais tarde que três pessoas foram levadas para a Policlínica com fraturas na perna e escoriações generalizadas por terem saltado das janelas de apartamentos e hotéis nas ruas onde passávamos,

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ou por cair da escada de incêndio. Bem, de repente Nip e Tuck voltam para a Sétima Avenida e começam a subir as escadas de um pequeno edifício de apartamentos, até o primeiro andar, e quando chegamos lá, os sabujos estão latindo e arranhando a porta do apartamento B-2, e ficamos todos excitados, mas afinal a porta se abre e quem está ali é senão uma gata que atende pelo nome de Maud Milligan, que é bem conhecida de todos, por ser a gata de Big Nig, o jogador de dados, que no momento está em Hot Springs, fazendo uma estação de águas, ou seja lá o que for que fazem em Hot Springs. Agora, Maud Milligan, geniosa como são todas as ruivas, não é uma gata com quem eu queira ter algum problema, e fico satisfeito que Nip e Tuck decidam ir embora logo depois de fazer um giro pelo apartamento indo do sofá para a cama, porque Maud já começa olhar atravessado para aqueles de nós que ela conhece. Mas Nip e Tuck entram e saem rápido do apartamento, que só tem duas peças, e antes que alguém tenha tempo de piscar um olho, estamos descendo a escada outra vez, atrás dos sabujos, e de novo na Sétima Avenida, enquanto o inspetor McNamara continua escrevendo em seu caderninho. E finalmente, para onde é que esses cachorros nos levam, com quase quatrocentos cidadãos atrás, senão para a porta do Clube Trezentos, da Srta. Missouri Martin? O porteiro, um cara conhecido por Soldado Sweeney, tenta enxotá-los, mas Nip passa no meio de suas pernas e o derruba, enquanto Tuck, passando por cima dele, pisa em seu olho, e boa parte dos populares,

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correndo atrás, acaba de achatar o velho soldado. Nip e Tuck agora estão mais excitados que nunca, latindo forte quando irrompem no Clube, seguidos por John Wangle, a lei e os cidadãos. Há um mundo de gente presente, e a Srta. Missouri Martin está sentada nas costas de uma cadeira no meio da pista de dança e pronta para começar o seu número, quando vê a multidão que surge. No início, isso a faz ficar muito feliz, porque pensa que são novos clientes, e se existe algo que a Srta. Missouri Martin realmente gosta é de novos clientes. Mas antes que possa dizer "Olá, otário!", ou qualquer outra coisa, Nip, correndo, decide passar por baixo da cadeira e derruba a Srta. Missouri Martin na pista de dança, que fica ali gemendo bastante, enquanto a próxima coisa que acontece é que Nip e Tuck estão fazendo o maior alarido num canto e pulando para baixo e para cima de um cara gordo, que não é outro senão meu amigo Remorso! Bem, quando Nip e Tuck correram para Remorso, ele naturalmente se levantou da mesa tentando se proteger, mas os dois pularam juntos sobre ele, que caiu sobre a gata a seu lado, que não era outra senão a Srta. Lovey Lou. Ela vai sendo esmagada, com o peso de Remorso espalhado em cima dela, e grita apavorada, especialmente quando Nip estica quase meio metro de língua e limpa toda a maquiagem de seu rosto procurando Remorso. Na verdade, a Srta. Lovey Lou parece ter mais medo dos cachorros do que de ser esmagada, porque quando eu e John Wangle conseguimos tirá-la debaixo de Remorso ela diz gaguejando:

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- Oh, não deixem que eles me devorem! Eu confesso. Como ninguém, a não ser eu e John Wangle, ouviu o que ela disse, devido à confusão que todos estão fazendo, e como John Wangle não parece ter compreendido a coisa, eu a empurro para o meio da multidão e a levo para a cozinha, que está completamente deserta, enquanto estão todos lá fora vendo a confusão, e então digo a ela: - O que é que você quer confessar? - pergunto. Tem alguma coisa a ver com Marvin Clay? - Sim - ela responde. - É a respeito dele. O cara era um porco. Atirei nele e não me arrependo. Não satisfeito com o que fez comigo há dois anos, queria fazer a mesma porcaria com minha irmãzinha. Ela estava no apartamento dele, e quando descobri fui lá buscar ela. Ele me disse que não ia deixar ela sair e eu atirei nele com a pistola de meu irmão; peguei minha irmãzinha e espero que o cara esteja morto e no inferno, que é o lugar dele. - Bem - eu lhe disse -, não vou argumentar com você a respeito do lugar para onde Marvin deve ir, mas você vai sair daqui - continuei - e ir para casa; e vai ficar quieta lá até que a gente possa resolver essa situação. Vou voltar lá para dentro e dar uma mão a Remorso, que me parece estar num aperto. - Oh, não deixe que aqueles cachorros horríveis jantem o Remorso - e, dizendo isso, ela desaparece e eu volto para o salão, onde a confusão não terminou. Agora parece que Remorso está muito indignado

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com Nip e Tuck, especialmente porque um deles deixou a marca de uma pata em sua camisa branca, e enquanto se levanta, ele distribui punhos para todos os lados e com as duas mãos, e isso é uma coisa que não se pode dizer que ele faça mal, especialmente em se tratando de um cara que raramente solta punhos. Na verdade, ele apaga as luzes de Nip com um direito no maxilar, e derruba Tuck limpo com um gancho de esquerda, jogando o cachorro do outro lado da sala. Bem, o pobre Tuck escorrega na pista de dança para cima da Srta. Missouri Martin bem quando ela começa a se levantar e a derruba de novo, mas desta vez a Srta. Missouri Martin também está cheia de indignação e se levanta para chutar Tuck, de forma muito pouco feminina. É claro que Tuck não tem idéia do que passa pela cabeça da Srta. Missouri Martin, mas quanto ao seu amigo Remorso, ele tem certeza de que se trata de uma brincadeira e assim ele volta a pular sobre Remorso, com a língua de fora e o rabo abanando. Não se sabe quanto tempo isso ainda poderia durar se John Wangle não interferisse, segurando os dois sabujos enquanto o inspetor McNamara aponta uma arma para Remorso e diz que ele está preso pelo assassinato de Marvin Clay. Aí, é claro, todo mundo está vendo que Remorso deve ser mesmo o assassino, especialmente quando se lembram do problema que já teve com Marvin Clay, da outra vez, e todos olham para ele chocados, e começam a dizer que você pode ver em seu rosto que ele é mesmo um tipo degenerado. Para completar, o inspetor McNamara faz um

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discurso para os clientes da Srta. Missouri Martin, no qual se congratula com John Wangle, Nip e Tuck por seu magnífico trabalho de rastrear esse perigoso assassino, ao mesmo tempo fazendo elogios ao trabalho do Departamento de Polícia, enquanto Remorso fica ali prestando pouca atenção a tudo isso e tentando chegar perto de Tuck e Nip na tentativa de um último pontapé. Bem, os clientes aplaudem as palavras do inspetor McNamara, e a Srta. Missouri Martin faz uma coleta de mais de duzentos dólares para John Wangle, sem falar no dinheiro que ela embolsa. Além do que, o chefe leva John Wangle para a cozinha, junto com Nip e Tuck, e os entope de comida, o que é muito bom, embora eu pessoalmente prefira evitar a comida que servem no Clube Trezentos. Levam Remorso para a cadeia e ele não parece ter entendido ainda o motivo de sua prisão, tudo que sabe é que tem alguma coisa a ver com Nip e Tuck e tenta subornar um guarda para que coloque os sabujos na mesma cela que ele, mas é claro que o guarda não chega a considerar a proposta. Enquanto Remorso está sendo identificado, chega notícia à prisão de que Marvin Clay não só não está morto, mas provavelmente vai ficar bom, que é o que ocorre, afinal. Mais ainda, ele mesmo paga a fiança de Remorso, e não só insiste em não fazer queixa como abandona o país imediatamente. Remorso, de qualquer forma, passa algumas semanas em cana, sem abrir a boca para se defender, nem mesmo depois que fica sabendo o que aconteceu de verdade, não deixa escapar que não foi ele quem baleou Marvin Clay. A Srta. Lovey Lou,

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naturalmente, fica muito agradecida a Remorso por esse magnífico gesto de sacrifício e, sem dúvida, se tornará sua amantíssima esposa, no momento em que ele pedir, mas parece que Remorso começa a pensar bem a coisa, e acaba concluindo que talvez não seja uma boa idéia ter uma esposa tão rápida no gatilho; e afinal não faz o pedido. Enquanto isso, John Wangle, com Nip e Tuck, volta para a Geórgia com o dinheiro da coleta da Srta. Missouri Martin, e com uma enorme reputação de caçador de criminosos. E essa é toda a história, exceto que uma dessas noites eu esbarro com Remorso, com uma mala na mão e transpirando muito. Pergunto se está saindo da cidade, e ele responde que é isso mais ou menos o que tem em mente. Ele ainda me informa que pretende ir o mais longe possível daqui. Naturalmente eu pergunto por quê. Remorso me responde: - Bem - diz ele -, desde quando Big Nig, o jogador de dados, voltou de Hot Springs e ouviu contar como os sabujos seguiram a pista de quem baleou Marvin Clay, ele vem me olhando com o canto do olho. Na verdade continuou - posso imaginar o que é que Big Nig está revolvendo em sua mente; e, embora Big Nig não seja um cara capaz de pensar rápido, acho que com o tempo ele vai chegar a uma péssima conclusão. - Tenho medo - diz Remorso - que Big Nig comece a imaginar que Nip e Tuck estavam seguindo meus passos, e não os da pessoa que atirou em Marvin Clay, que é o que muitas mentes maliciosas vêm espalhando por aí, e que talvez Big Nig comece a ter idéias erradas

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sobre o porquê de a pista passar pela porta de Maud Mulligan. Tradução de Octávio Marcondes