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O RIO DE JANEIRO QUINHENTISTA: DEBATES E ARMADILHAS

Mauricio de Almeida Abreu
Departamento de Geografia – UFRJ

Introdução

Na madrugada de 20 de julho de 1790, um grande incêndio atingiu o edifício que abrigava o arquivo do Senado da Câmara do Rio de Janeiro. Dos inúmeros documentos que formavam o acervo da municipalidade carioca àquela época, restaram apenas alguns poucos códices (cf. Haddock Lobo, 1863: 172-177). Embora suspeitas tenham sido levantadas de que o incêndio era suspeito, e que poderia ter sido provocado por indivíduos interessados em destruir documentos comprometedores, a investigação oficial concluiu que fora causado pela ação desastrada de um inquilino que habitava o andar térreo da edificação. O sinistro destruiu para sempre uma parte considerável da memória colonial carioca, mas não logrou apagá-la de todo. Muitos de seus vestígios ainda podem ser recuperados, mas isso exige que o pesquisador tenha uma “paciência de Jó” e que faça um “trabalho de chinês”. É preciso também que ele se contente em justapor peças de um quebra-cabeça cuja imagem final jamais poderá ser nitidamente vislumbrada.

Com que fontes ainda contamos? Em primeiro lugar, com os documentos guardados àquela ocasião em outros locais da cidade, em sua maioria hoje depositados no Arquivo Nacional e na Biblioteca Nacional. Em segundo, com os acervos das instituições religiosas, cuja Em terceiro, com milhares de

importância na vida colonial é sobejamente conhecida.

documentos, inclusive da municipalidade carioca, que estão nos arquivos portugueses. Em quarto, com os acervos de outros arquivos estrangeiros. Em quinto, e por incrível que possa parecer, com o próprio arquivo municipal, que é o depositário dos poucos códices salvos do incêndio - que hoje, por seu valor histórico, estão publicados - e guarda também documentos que foram copiados de diversos originais, numa tentativa de recomposição mínima do acervo perdido (Vieira Fazenda, 1921: 330). Finalmente, contamos ainda com diversas fontes

impressas (livros, extratos de documentos, relatos de viagens, etc.).

Seu intuito é demonstrar que ele é em grande parte fruto do século XX. A descoberta da . a verdade é que ainda há muito que fazer. 1988). pois é ela que poderá não apenas preencher lacunas do conhecimento. Dificuldades de acesso às fontes certamente tiveram aqui um papel importante. e contribuiu para que algumas “verdades”. tais como as de Fragoso (1992). A responsabilidade da pesquisa acadêmica é grande. foi bastante afetada pela produção de afirmações que se perpetuaram por longo tempo. até serem desacreditadas. Ainda que nos últimos anos tenham surgido contribuições de peso. seja pela exiguidade das fontes. seja pela dificuldade de encontrá-las. a verdade é que o Rio de Janeiro colonial não tem sido um objeto de estudo preferencial daqueles que se interessam pela história da cidade e do urbanismo cariocas. e de Alvarez (2000). a produção acadêmica recente não permitiu que fossem colocadas em debate algumas “explicações consagradas” sobre o período colonial. foram desacreditadas por novas descobertas arquivísticas ou pela análise correta de documentação já conhecida. ela também permitiu que diversas lacunas referentes aos primeiros tempos da cidade permanecessem abertas. Por razões de espaço. da pesquisa que se sustenta em fontes primárias confiáveis e criticamente analisadas. de Cavalcanti (1997). de Fragoso e Florentino (1993). Mas se essa tendência aumentou nosso conhecimento das duas últimas centúrias. Para realçar a importância da pesquisa de base. Conhecimento recente de um passado remoto De meados do século XIX às primeiras décadas do século XX travaram os interessados na história carioca demoradas discussões sobre o Rio de Janeiro do século XVI. muitas delas produzidas por pesquisas metodologicamente deficientes ou pela imaginação de cronistas do passado. este trabalho pretende discutir o processo de produção do conhecimento do Rio de Janeiro colonial. e que somente se consolidou depois que uma série de explicações há muito estabelecidas. ao negligenciar a análise dos três primeiros séculos.Pesquisar Apesar dessa variedade de informações. algumas delas feitas por historiadores de renome. época cuja análise. e direcionaram os esforços de pesquisa para o estudo dos séculos XIX e XX. permanecessem intocáveis. limitaremos a discussão aqui a alguns pontos polêmicos do conhecimento do Rio quinhentista. E o que é pior. mas dar resposta à crescente demanda de informação que se nota atualmente por tudo aquilo que diz respeito à “memória das cidades” (Abreu. de lê-las e de interpretá-las. não desafiou certas afirmações feitas sobre a cidade de então. isto é.

. entretanto. e outra penedia. As dúvidas quanto ao local de fundação derivavam da indefinição da narrativa do Padre Simão de Vasconcelos (1977: 118) que. que por outro lado cercava. (2) a de que o fundador teria sido o governador geral. até o início do século XX não havia consenso em relação a isso. e (3) a de que a povoação fundada por Estácio não era cidade. mais precisamente. que pela forma se diz Pão de Açúcar. diversos autores perpetuavam interpretações erradas há muito estabelecidas. razão pela qual a Comissão Executiva do Primeiro Congresso de História Nacional aprovou por unanimidade uma moção de Max Fleiuss. o status jurídico-administrativo do núcleo urbano primitivo. a origem do topônimo Rio de Janeiro. Repetindo-se uns aos outros.. entretanto. comemorando o lançamento aí dos "primeiros fundamentos da Cidade de São Sebastião do . Jayme Reis (1897). afirmara que Estácio e sua gente haviam feito uma fortificação ". opinião que foi seguida também pelo Barão do Rio Branco (1892).. já havia consenso em relação ao ano e ao local de fundação. a antiga Praia da Saudade. secretário perpétuo do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB).Pesquisar baía pelos europeus. de colocar um marco de pedra na várzea do Cara de Cão. junto a um penedo altíssimo. que penedia seria essa. por extensão. defendia que a várzea teria sido aquela entre o Pão de Açúcar e o Cara de Cão. por sua vez..". o local e a data da fundação da cidade. novos elementos de reflexão sobre os primórdios da urbanização brasileira. A descoberta posterior de fontes arquivísticas fundamentais acabou por desautorizar muitas dessas bem estruturadas argumentações e acrescentou. antes conhecido como “Cara de Cão”. As imaginações eram férteis e as hipóteses e conjecturas variadas. nota 4) isto queria dizer a “Praia Vermelha” ou. tudo enfim que se referiu ao Rio dos primeiros tempos foi objeto de longos e cansativos debates. dentre as quais sobressaíam três: (1) a de que a cidade primitiva teria sido fundada em outro lugar. no que foi seguido por Vieira Fazenda (1927). Hoje já não há dúvida de que a cidade do Rio de Janeiro foi fundada por Estácio de Sá em 1° de março de 1565. status que o Rio de Janeiro só teria alcançado depois que Mem de Sá transferiu a povoação original para o Morro do Castelo. Para Varnhagen (1981: 324. na pequena várzea existente entre o Pão de Açúcar e o Morro de São João. escrevendo no século XVII. Todavia. não precisando. Em junho de 1913.

cabendo a glória da fundação da cidade ao Governador Mem de Sá. o historiador carioca produziu. 1907). hipótese defendida por Morales de los Rios (1914: 1204). logo a seguir. já no fim da vida não deixou de reiterar que fora Estácio o verdadeiro fundador e que o estabelecimento da cidade se dera realmente em 1565 (cf. De todas as “verdades” que vinham do passado.Pesquisar Rio de Janeiro em 1565". partidário que era da hipótese da fundação por Mem de Sá... e que foi datado de ca. Este códice. Roteiro .. 1962). Desde o século XVIII que Rocha Pita (1976: 66). desd’o Cabo de Sãto Agostinho até o Estreito de Fernão de Magalhães. hoje bastante conhecido (Ver Figura 1). 1965. códice que convenceu-o de que o fundador fora mesmo Estácio (Mello Moraes. 1960). conhecimentos. valorizando suas argumentações. era Mello Moraes (1858: 230) que mantinha viva a crença. Também quanto ao fundador houve demora em estabelecer a verdade. Freitas. 1967: 55-62. cuja autoria Jaime Cortesão (apud Silva-Nigra. fundos. 1950: 12) atribuiu a Luiz Teixeira. 1574. esta parece ter sido a que mais demorou a ser desautorizada. que corrigiu o equívoco de Varnhagen. uns defendendo a várzea do Cara de Cão. 72. Sustentado nesse códice. que deu a precisão cartográfica necessária às conclusões de Reis e de Vieira Fazenda. Até Vieira Fazenda incorreu nesse erro. 44) que repetia essa versão. ainda não foi encerrada. Costa. Em meados do século. que foi reforçada ainda mais pela descoberta. da obra seiscentista de Frei Vicente do Salvador (1954: 179). 1916). Para esse acordo muito contribuiu o Roteiro de todos os sinaes. logo a seguir. ao que parece. "depois de esmerilhar todas as dúvidas". e derrotas que há na Costa do Brasil. era Pizarro de Araújo (1945: 38-39. Se afirmara em 1896. Paes Leme (1847: 319) e Nunes (1839: 104) ensinavam que Estácio estabelecera apenas uma “estância” ou “trincheira” junto ao Pão de Açúcar. baixos. contém um mapa da baía de Guanabara. Roberto Macedo vasculhou a imensa obra deixada pelo historiador e demonstrou como ele. que apontava para a mesma direção. acabou corrigindo o próprio rumo com o avançar de suas pesquisas. só mudando de opinião depois que descobriu o Livro de Tombo do Colégio de Jesus do Rio de Janeiro (Biblioteca Nacional. opinião sustentada por Vieira Fazenda. convencendo então Rodolfo Garcia. Em trabalho minucioso. os debates transferiram-se então para a determinação do local exatíssimo de estabelecimento da cidade. Nos meios eruditos. e outros o cimo do morro. códice quinhentista encontrado por Norival de Freitas em 1907 na Biblioteca da Ajuda de Lisboa (cf. 1879: 86). um artigo seminal sobre a fundação do Rio de Janeiro (Vieira Fazenda. Iniciado o século XIX. Macedo. alturas. . que a cidade surgira em 20 de janeiro de 1567. Esta disputa.

ca. (1965).Pesquisar Figura 1: Carta do Rio de Janeiro de Luiz Teixeira... 1574. . In: ROTEIRO de todos os sinaes.

de Delgado de Carvalho. que só depois disso é que a cidade surgiu como instituição.. dentre outros). Todavia.. logo ao dia seguinte. Uma cidade real Alguns estudiosos defenderam no passado que a cidade do Rio de Janeiro. para o que se baseou em dois documentos deixados por Anchieta." (Anchieta. a data da vitória portuguesa com a efeméride da fundação da cidade. ou deixaram de fazer referência a um dia específico (caso do Padre Simão de Vasconcelos. Seguindo esse raciocínio. ou confundiram. Foi a partir de 1567 que a administração pública pôde se instalar plenamente. frase que confirmou informação de Frei Vicente do Salvador (1954: 173) e levou Capistrano a aceitar definitivamente o primeiro de março como a data da fundação (cf.". nota 274). que foi o último de Fevereiro. razão pela qual só a partir de então é que os documentos teriam valor legal. como visto. e no princípio de Março tomou logo terra. só depois da mudança para o novo sítio é que teriam sido instituídos os governos da capitania e do município. defendeu bastante esta tese para negar legitimidade à sesmaria de terras que Estácio doara à municipalidade na Cidade Velha. quando Mem de Sá transferiu a urbe para seu sítio definitivo. Mello Moraes (1881: 35-42).. Testemunha ocular dos acontecimentos. ofereceu o desafogo necessário para que os portugueses trocassem seu papel de conquistadores pelo de povoadores. o fundador e o ano. eufemismo que significava a subjugação final do indígena. o jesuíta dissera inicialmente que o desembarque havia se realizado ". ou primeiro de Março. Isto não quer dizer. O historiador ratificou essa convicção um pouco mais tarde. tornou [Estácio] ao Rio de Janeiro com os mais navios da armada. Durante muito tempo os historiadores. 1988a: 265. só teria surgido em 1567. Para ele... (Anchieta. 1988b: 315). porque não havia cidade. aquela carta de doação era nula de direito. de Baltazar da Silva Lisboa. . pois "Estácio de Sá não [podia dar] sesmaria à Câmara. e que a aparência de um bastião militar provisório deixou de caracterizar o Rio de Janeiro. Coube a Capistrano de Abreu precisar o registro histórico. 1988: 259).. nem câmara . de Monsenhor Pizarro. faltava apenas a determinação da data. que a apropriação efetiva da terra se concretizou. de Robert Southey. Não há dúvida que a "pacificação".". em especial. entretanto.... ao corrigir em nota uma informação equivocada de Varnhagen (1981: 326.Pesquisar Definidos o local. nota 9). Anchieta. como materialidade jurídica. documento mais tarde atribuído a ele relatou que "..

que foram posteriormente detalhadas pelo governador geral e instrumentalizadas por Estácio. A criação de cidades. Reproduziu-se ali o processo tão bem descrito por Fustel de Coulanges (1975: 106) para caracterizar a cidade antiga. o Rio de Janeiro teve foro de cidade desde o início. é de se crer que. como antecedeu mesmo ao desembarque.. As demais surgiram da ação direta ou indireta do Estado. a partir de decisão de quem de direito. e por essa razão elas eram chamadas de cidades reais (Abreu. não se chegou a tal particularização. com a conquista foram transplantadas para o Brasil as praxes metropolitanas de controle territorial. Desde a Bahia a cidade vinha criada. logo [fez] surgir em sua totalidade moral e política a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. a alma estava formada.. a cidade.. Estácio de Sá.. cujas manifestações espaciais foram o arraial. Como ressaltou Carvalho (1893: 5). Ao contrário do que pensou Mello Morais. como instituição. resultando do agrupamento de famílias em residências (ou fogos) que apresentavam certa contigüidade e unidade formal. Em alguns casos. ou de ordem real para que se elevasse a essa categoria algum arraial. uma cidade real já vinha criada desde Lisboa e tinha a capital do Reino como modelo administrativo. mal pis[ou] terras do Rio de Janeiro. a terra carioca ainda estava por conquistar e o imponderável mantinha aí peso relevante." (grifado no original). entretanto. Obviamente. como o da primeira capital brasileira. . inteiramente. desde o início. Apenas o arraial teve origem espontânea. Na verdade. [mas que era fundada] de uma só vez.. a materialização poderia vir aos poucos. foi sempre direito exclusivo da Coroa.. só lhe faltava o corpo . em um só dia". O que é provável é que a Coroa tenha definido algumas orientações gerais de conquista. até mesmo a forma física foi pensada na Europa (cf. aquela que ". ". dentre as quais tomou vulto. o que se queria dizer é que a instituição cidade era criada de um só golpe. Por ter sido fundado pela Coroa.Pesquisar Como bem lembrou Costa Porto (1965: 158-159). As vilas resultaram da ação de donatários e governadores. 1968: 68).. a adoção de um sistema municipalista de base urbana e de raízes romanas.. que tinham poder para criá-las. Reis Filho. não se formava com o decorrer do tempo pelo lento desenvolvimento do número dos homens e das construções. Ao contrário de Salvador. 1997). não só existiu ao sopé do Pão de Açúcar. a vila e a cidade. Embora o regimento de Estácio tenha desaparecido. no Rio de Janeiro.o mundus .

onde seria exatamente. é fora de dúvida que este foi criado. Trabalhar com as toponímias – sobretudo indígenas . de Leripe.citadas em documentos quinhentistas é tarefa árdua. embora se assemelhasse a um arraial. porque muitas desapareceram com o tempo e são hoje de difícil localização. quase todas produzidas no contexto da França Antártica. como instituição. funcionou plenamente junto ao Pão de Açúcar. porque alguns topônimos repetiam-se amiúde no território. Todavia. a costa de Piraquanopã. Analisando excertos dos documentos oficiais que restaram daqueles primeiros tempos. porque o que chegou até nós foram as palavras que os europeus conseguiam entender. de Itaoca e de muitos outros. Em primeiro lugar. a maioria constituída de provisões e nomeações para funções públicas. é o caso de Sernambetiba. Discutiremos aqui duas delas: as toponímias então existentes e as poucas imagens que nos chegaram do século XVI. temos também que controlar os inúmeros erros que algumas fontes incorporam. . o que gera confusões. Há que se atentar também para as armadilhas que as fontes contêm. que podem desvirtuar bastante a análise de período tão recuado. por exemplo. o autor demonstrou que a palavra cidade. porque além de ficar atentos a todos esses obstáculos. Em terceiro. tão citada em documentos sesmariais cariocas? Em segundo. o que escapou da destruição é mais do que suficiente para comprovar que. como atestam diversas referências feitas à "Câmara" ou ao "Conselho". referindo-se ao Rio de Janeiro. Em quarto. na Cidade Velha. a cidade. e que hoje. o que dificulta sua interpretação e gera debates infindáveis entre os tupinólogos. É também significativo verificar que. Disto nos dá prova cabal um estudo minuciosíssimo de Roberto Macedo. É o que acontece com a longa relação de sesmarias que Monsenhor Pizarro preparou em fins do século XVIII. e não menos importante. Armadilhas das toponímias e imagens do século XVI A exiguidade de fontes não é o único problema que enfrentam aqueles que trabalham com o Rio de Janeiro do século XVI. embora ainda não produzisse bens sujeitos ao dízimo real. mesmo que embrionariamente. aparece neles nada menos que 129 vezes! E ainda que tenha desaparecido o auto de instituição do Poder Municipal. na maioria das vezes cheias de deturpações fonéticas. o Rio teve seu primeiro provedor da Fazenda Real antes mesmo da vitória final de 1567 sobre os indígenas (Macedo. 1967: 19-46).Pesquisar As fontes referentes à Cidade Velha são escassas.

por exemplo. essa versão. em 11/8/1590. da costa de Pina Sapê (que o original indica como sendo costa de Piragepe) e do sesmeiro Gonçalves Jorge (na verdade..”. Seguiram-se Crispim da Cunha. As primeiras referências que temos desse topônimo remontam ao mapa de Luiz Teixeira. Gastão Franco. do “Morro Cara de Cão”. Publicada na revista do IHGB. e a Gabriel Soares de Souza (1851: 83) que.. se constitui em fonte fundamental para o estudo do Rio quinhentista e seiscentista. na verdade uma pequena sesmaria de 20 braças de frente por 35 de fundos.Pesquisar pelo desaparecimento dos originais. juiz do peso do pau brasil. de feição do nome que tem.. Domingos Lourenço. essa relação (Pizarro e Araújo. que foram corretamente lidas. 1900) contém vários erros de leitura e de tipografia. Examinando-se. foi o primeiro a receber terras ali. foi abandonado o sítio original da urbe. e Diogo Rodrigues Ferreira. Documentos sesmariais desmentem. E o que falar de toponímias que surgiram em textos do século XVI. a documentação sesmarial mais a fundo. Vamos por partes. entretanto. que acabaram dando origem a topônimos e nomes próprios que jamais existiram e que foram difundidos por outros pesquisadores devido à autoridade da fonte: é o caso. em 30/7/1609. mas que depois sofreram acréscimos interpretativos.. instituição que guarda o manuscrito do pesquisador. bombardeiro. bibliotecário do IHGB. descobre-se que o nome teve origem bastante diversa da que lhe tem sido tradicionalmente atribuída. em 15/8/1609. o Cara de Cão quinhentista acabou se incorporando ao imaginário coletivo da cidade pela suposta aparência canina que a elevação teria quando avistada de alto mar. entretanto. que lograram. já comentado. Dessa armadilha não escapou nem mesmo o grande estudioso de minudências cariocas que foi Vieira Fazenda (1923: 425). por exemplo. entretanto. se estabelecer? É o caso. que está da banda de fora da barra. ao descrever o contorno da baía de Guanabara em 1587. Nenhuma dessas cartas de sesmaria faz menção ao topônimo "Cara de Cão". começa a fazê-lo a partir do Pão de Açúcar. que passou então a ser solicitado por alguns moradores para o estabelecimento de roças. do qual à ponta da barra que se diz de Cara de cão há pouco espaço. Gomes Eanes). . “. Hoje conhecido como “Morro de São João”. junto ao qual foi fundada a cidade. aliás. tendo registrado sua carta em 15/10/1568. Gaspar de Figueiredo. em 21/1/1574. Com a transferência da cidade em 1567. que é um pico de pedra mui alto.

Ora. o oceano e a enseada de Botafogo se comunicassem pelo que é . de alcunha ‘Cara de Cão’. e dada a um Domingos Fernandes. e que a toponímia nada tem a ver com a aparência canina da elevação.. 1575). o autor descartou a possibilidade de a cidade ter sido fundada na Praia Vermelha. isto não se deveu ao fato de que. doada a Antonio da Fonseca em 9/2/1568 e que.. foi perdida por este [por residir na Bahia]. só poderia indicar que ali estava um lago ou. a sesmaria dada a Antonio da Fonseca. Querendo se precaver da ganância de terceiros. Nessa imagem. em meados do século XVI. que a vendeu ao sogro dele [João Botelho]. ainda mais.. tudo indica que este Domingos Fernandes é o mesmo que recebeu as terras que partiam com Crispim da Cunha na Cidade Velha. está indicado que. Ao mirar num pássaro. que lhe concedeu "toda a terra que houver na cidade velha começando no porto e praia dela correndo assim pelo sul até costa do mar brabo. Para terminar há que se falar brevemente das imagens. que são justamente as do “Morro Cara de Cão”. O segundo documento trata de uma sesmaria no rio Inhomirim. que só mesmo uma imaginação muito fértil poderia vislumbrar. Por essa razão... ao que parece não muito agradável. dizendo que ". em 1603. para Morales de los Rios. dentre outras coisas. Com efeito. Num longuíssimo artigo que escreveu no início do século XX. junto ao Pão de Açúcar.Pesquisar Dois documentos sustentam esta conclusão. e quinze depois do fim da França Antártica (Thevet. conclui-se então que Domingos Fernandes. de um dos primeiros sesmeiros do lugar. este último pediu que a terra lhe fosse oficialmente concedida. como sustentara Varnhagen (Morales de los Rios. 1914: 1182-1185). " (Arquivo Nacional.. toponímia que. qual seria a topografia carioca à época da fundação da cidade. pertencia a João Botelho. Morales de los Rios estava certo ao refutar a tese da fundação na Praia Vermelha. 1997). que tem muitos alagadiços. que reproduz o ataque português ao forte de Coligny (Figura 2). mas. e pela banda do nordeste partirá com Domingos Fernandes" (Biblioteca Nacional. estaria “le lac”. O primeiro é a já citada carta de sesmaria de Crispim da Cunha. o autor acertou noutro.. à fisionomia. cuja carta perdeu-se. separados do continente por um “istmo em formação”. que os morros da Urca e do Pão de Açúcar estavam ilhados à essa época. isto sim. 1967: 171-174). Morales de los Rios despendeu grande esforço tentando explicar. Sustentou várias de suas assertivas a partir de uma imagem que o franciscano André Thevet apresentara numa obra que publicou quase vinte anos após seu retorno à pátria. Todavia. havia recebido antes as terras a nordeste das de Crispim.

entretanto. Há também representações cartográficas detalhadas. É preciso tomar cuidado. hipótese que as pesquisas geomorfológicas não confirmam. especialista da cartografia do renascimento. Figura 2: Isle et Fort des Français In: THEVET (1575). como de resto de muitos dos que se dedicaram à pesquisa geográfico-histórica no passado. foi não assumir um posicionamento crítico frente aos documentos utilizados. Retratam os usos e costumes dos indígenas que habitavam a região e destacam as maravilhas da fauna e da flora. as mais antigas que temos da baía de Guanabara.Pesquisar hoje a Praia Vermelha. com efeito. todas as . ainda que Thevet tenha assegurado que ali estava “le lac”. A França Antártica deixou-nos. com todas essas imagens. O grande erro de Morales de los Rios. Como bem demonstrou Lestringant (1981). imagens de valor incalculável.

não podemos dar crédito integral a esse documento (Figura 3). as representações cartográficas se transformam depois da derrota para os portugueses. entretanto. Apesar de continuar a ser utilizado por pesquisadores modernos (cf. O mesmo cuidado merece. Seguindo essa linha de pensamento. deva sua origem à reconhecidamente fértil imaginação do franciscano (cf. Embora alguns queiram atribuir sua autoria a Jean de Léry. Amador. In: HEULHARD (1897). 1999). não seria descabido imaginar que “le lac” poderia ser a atual lagoa Rodrigo de Freitas. por exemplo. sabe-se. calvinista que esteve na França Antártica e que deixou-nos um livro fundamental para se entender o Brasil do século XVI (Léry. que não deve ter sido desenhado por ele.Pesquisar representações da França Antártica apresentam deturpações. 1975: 44). Inicialmente reveladoras de um espaço geográfico sob controle. metamorfoseando-se então numa imagem sonhada do território perdido. um mapa das aldeias indígenas da Guanabara. finalmente. 1997: 208). impropriamente localizada. Comparando a produção cartográfica thevetiana. mas sua origem é até hoje desconhecida. foram lançadas diversas edições da obra. . assim como outros que aparecem na obra de Thevet. esse autor concluiu que há uma progressiva perda de confiabilidade dos documentos quanto mais nos afastamos da experiência concreta e datada da França Antártica. 1961). esse mapa surgiu pela primeira vez na obra de Heulhard (1897). também Abreu. em 1611. Pretensamente do século XVI e conhecido como "Carta Factícia". ou que o topônimo lagunar. Figura 3: Carta Factícia do Rio de Janeiro. "de vez que até à morte do autor. não tendo Léry nessas edições feito quaisquer referências sobre a Carta Factícia" (Teixeira Filho.

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