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Giudice Narvaz, Martha Gênero: para além da diferença sexual - Revisão da literatura Aletheia, núm. 32, mayo-agosto, 2010, pp. 174-182 Universidade Luterana do Brasil Canoas, Brasil
Disponível em: http://www.redalyc.org/src/inicio/ArtPdfRed.jsp?iCve=115020838014

Aletheia ISSN (Versão impressa): 1413-0394 mscarlotto@ulbra.br Universidade Luterana do Brasil Brasil

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www.redalyc.org Projeto acadêmico não lucrativo, desenvolvido pela iniciativa Acesso Aberto

Post Structuralism. políticas e ideológicas do conceito de gênero em suas inscrições históricas. apesar das normatizações que lhes são impostas pelos discursos de gênero. 2010 Gênero: para além da diferença sexual – Revisão da literatura1 Martha Giudice Narvaz Resumo: Descrevem-se. especialmente a diferença sexual. entre outros. que poderiam produzir uma espécie de ‘feminismo sem mulheres’. são capazes de resistência. which could produce a kind of ‘feminism without women’. Gender: Beyond sexual difference – Literature review Abstract: This study describes the main theoretical epistemological. tomadas como científicas. exceeding the sexual difference. diferentes matrizes produtoras de divergentes significações quanto ao que se concebe por gênero. o que tem importantes implicações a diferentes campos de estudos em psicologia. sobretudo diante do sofrimento vivido por sujeitos. subvertendo e questionando tais normatizações.Aletheia 32. afetivas e sexuais. neste estudo de revisão. We conclude that to understanding contemporary production of subjectivities we have to transcend duality men-women. maio/ago. cabe destacar. as well as feminist criticism to post structuralist gender studies radicalization is also highlighted. ao mesmo tempo. Palavras-chave: Gênero. Introdução O interesse pelo desnudamento da produção ideológica das construções de gênero e seus efeitos sobre as posições possíveis de serem ocupadas por homens e por mulheres nas diversas instâncias sociais vem-se constituindo como objeto de nosso interesse há alguns anos. Há. construída como tal (Saraceno. excedendo a questão da diferença sexual. political and ideological gender concepts in its historical inscriptions. Sexual Difference. 174 Aletheia 32. Diferença Sexual. Pós-Estruturalismo. bem como as críticas feministas à radicalização pós-estruturalista dos estudos de gênero. what has important implications for different fields of study in psychology. A família é. como diferentes teorias. o que emerge. é assumida como base e. Keywords: Gender. Uma vez que.174-182. as críticas pós-estruturalistas às concepções binárias e biologicistas de gênero. 1 Este artigo faz parte dos estudos de doutorado da autora. Conclui-se que a compreensão da produção das subjetividades contemporâneas não se esgota na dualidade masculino-feminino. Apoio CNPq. 1997). homens e mulheres. que se sentem aprisionados a determinadas injunções em suas relações familiares. 2010 . p. de quaisquer gêneros e orientações sexuais. We present the classical sex-gender system. the post structuralism criticism to binaries and biologics conceptions of gender. as principais posições teórico-epistemológicas. maio/ago. no campo da ciência psicológica. No entanto. o lugar social e simbólico no qual a diferença. Apresentam-se o clássico sistema sexo-gênero.

Fraisse. Isto define a posição de homens e mulheres demonstrada por Beauvoir: “O homem é o Sujeito. a ‘mulher’ é construída como ‘o outro’ do ‘Um’. foi enunciada já em 1949. Na análise da economia política das relações de trabalho. 1996). através desse artigo de revisão da literatura. 2010 175 . o masculino (Arán. 2005). 2000. maio/ago. Enquanto o discurso de igualdade e de liberdade às mulheres. reduzidos(as) e marcados(as) por sua ‘diferença’. faz-se necessário resgatar a história da formação deste importante conceito. ela enfatizou o estabelecimento das relações de poder de um sexo sobre o outro. daí sua pretensão de universalidade. Estas perspectivas enfatizaram Aletheia 32. Ela demonstrou as estratégias de justificação da condição de subordinação das mulheres. quando publicou ‘O Segundo Sexo’.as teorias regulam a produção das subjetividades e arbitram possibilidades de existência. entre outras). com base nas funções biológicas e reprodutivas. fundada no sexo biológico/reprodutivo. em oposição ao seu aprisionamento à Biologia. ocupa a posição não específica. 1998). prazeres. sobretudo no trabalho com casais e com famílias. Este sujeito universal. foi sob o materialismo marxista francês que a antropóloga feminista Gayle Rubin (1975) sublinhou o sistema de opressão das mulheres. aprisionado(as) em suas especificidades. por Simone de Beauvoir. A dimensão cultural do gênero. dar visibilidade às diferentes produções discursivas sobre a categoria gênero e. o Absoluto. O sistema “sexo-gênero” O conceito clássico de gênero afirma que. Buscamos. o que tem implicações importantes em nosso fazer cotidiano. Estas diferenças. instituiriam esferas femininas privadas e masculinas públicas. desejos e relações (Butler. contribuir com a reflexão acerca dos efeitos produzidos pelas teorias e conceitos inscritos em nossas práticas. ou seja. ancoradas no discurso das diferenças biológicas. sem marcações (sexual. sistema de características psicológicas e culturais que marcam diferenças entre homens e mulheres (Strey. A heterossexualidade obrigatória é uma construção política. Ela afirma que o ‘segundo sexo’ é uma metáfora da alteridade. em Beauvoir. é construído o gênero. 2002). religiosa e de classe. assim. transpostas para a divisão sexual do trabalho. O deslocamento do discurso de naturalização da condição feminina em direção à construção cultural do gênero aparece na máxima clássica de Beauvoir: ‘Não se nasce mulher. aqueles e aquelas que são definidos (as). Pires. Rubin (1975) sistematizou o chamado ‘sistema sexo-gênero’: sobre a base material do sexo biológico/reprodutivo ergueram-se as construções culturais e ideológicas do gênero. esteve mergulhado na Filosofia Humanista de Sartre (Pires. Operando com a lógica marxista base material/superestrutura ideológica. o ‘Um’ masculino. 2003. sobre o sexo biológico e reprodutivo. 2002). cuja finalidade é manter a ordem social. torna-se mulher’. designam ‘o outro’ (Bordo. controlando corpos. sexista e patriarcal. 2004). racial. ela é o Outro” (Mariano. da diferença representada pelo outro.

uma invenção (Costa. 2001). Os gêneros podem ser ‘essencializados’ tanto do ponto de vista biológico. evidenciam que as características psicológicas e culturais atribuídas aos gêneros – masculino e feminino – seriam arbitrária e socialmente construídas. Embora não neguem as diferenças biológicas entre homens e mulheres. atributos biológicos determinam comportamentos. quais sejam: masculino/feminino. Tais teorias padecem do que Nicholson (2000. quando designamos diferença de sexo. homens e mulheres são categorias políticas. outras teóricas. Mariano. Pereira.11) denomina “fundacionalismo”: no determinismo biológico. homossexual/heterossexual (Swain. historicizaram e politizaram as raízes epistemológicas do gênero. questionando as categorias unitárias e universais e tornando como históricos conceitos tratados como naturais ou absolutos (Mariano. 1998) e Joan Scott (1986) radicalizaram as críticas ao sistema ‘sexo-gênero’ a partir das concepções pós-estruturalistas21. Gênero é. Gênero passa a ser concebido como efeito da linguagem. 2001. p. Ainda que tenham sublinhado a dimensão cultural do gênero em oposição ao determinismo biológico. 2005. 176 Aletheia 32. maio/ago. fruto de experiências intrinsecamente diferentes vividas por homens e por mulheres. 2003. racial e sexual (De Laurentis. nós a criamos. Nogueira. as ‘feministas ex/cêntricas’ – fora do centro – situadas na periferia do capitalismo e da hegemonia patriarcal. sobretudo de Michel Foucault e de Jacques Derrida. uma vez percebidos como construções individuais estáveis. Sob a influência do pós-estruturalismo francês. 2004). sobre a base biológica são construídas diferenças entre os gêneros a partir de diferentes experiências de socialização. 2010 .a construção social e cultural do gênero. Judith Butler (1987. no fundacionalismo. 2003. através de uma complexa e difusa rede de tecnologias e de sistemas disciplinares. 2000). 2005). como produção discursiva inscrita em uma rede complexa de relações de poder (Scott. quando do ponto de vista social. dentre elas. 1986). as teorias do sistema sexo-gênero não questionaram as categorias binárias e essencialistas do pensamento ocidental. portanto. opondo-se a todo determinismo biológico. constituindo-se o que Foucault (1995) chamou poder disciplinar: poder e saber – 2 As teorias pós-estruturalistas rompem o esquema conceitual binário e hierárquico das velhas tradições filosóficas ocidentais. Para Monique Wittig (1976). As relações de poder impõem-se aos sujeitos de forma sutil. As feministas não brancas e não heterossexuais. Nicholson. 1987/1994). e não fatos naturais. Os estudos pós-estruturalistas de gênero O paradigma binário do sistema sexo-gênero (sobre o qual estavam assentadas as teorias feministas liberais e eurocêntricas características das políticas de igualdade do feminismo original enunciado por Beauvoir) passou a ser questionado em meados dos anos 80 (Costa.

ou seja. passando a ser concebido como ato performático. Aletheia 32. históricos e intersubjetivos. sustentando determinados modos de dominação. Gênero não precisa estar necessariamente vinculado ao sexo. As relações de poder e de dominação têm no corpo o seu lugar central. na forma de uma totalidade acabada. Dado que “o que aparece exposto no corpo não é separado do discurso que o situa” (Pereira. 1991). Essa produção não ocorre de uma só vez. gênero não é uma construção que se dá sobre corpos materiais e naturais preexistentes. uma vez que o poder assujeita. masculinos e femininos – são. 1975/2002. Tal vinculação é também uma convenção da linguagem. p. mas constitui aquilo mesmo que representa.26). p. exigem-lhes sinais” (Foucault. de atos e gestos que remetem a determinadas encenações performáticas. 2003) que instauram. Tais performances são constantemente reafirmados ou (re)negociadas a partir de determinadas possibilidades (Butler. 2003. e tampouco é determinado pela natureza” (Butler. gênero é produzido através de práticas reiteradas. diferentes normas de gênero. mas também produz resistências contra esse mesmo regime de coerções (Foucault. O sujeito. enquanto efeito dos discursos e do poder. maio/ago. Não se pode dizer que os corpos tenham uma existência inteligível anterior à marca do seu gênero” (Butler. Butler (1998. obrigamno a cerimônias. constituindo-se a um só tempo.133). Não só o gênero. no ato mesmo de sua enunciação: “o corpo é em si mesmo uma construção (. Teatro incessante do corpo que (re) encena estilos e formas de habitar o corpo e o mundo. descreve ou representa a realidade.. nunca é completamente constituído no assujeitamento. Este processo de constituição da subjetividade – processo de subjetivação – faz-se através do assujeitamento do sujeito aos discursos considerados verdadeiros segundo os jogos de poder-saber que constituem os regimes de verdade de determinada época (Foucault. Os processos de subjetivação – que produzem homem e mulheres. p. Esta rede opera através de discursos e de práticas. que normalizam e normatizam não só os modos possíveis de existência singular quanto os modos possíveis de existência social para homens e para mulheres.. discursivos. 2003) desconstrói a categoria ‘gênero’ ao contestar a distinção entre sexo e gênero e a concepção segundo a qual gênero seria a interpretação cultural do sexo. 2005. 2010 177 . mas também o corpo/sexo é uma construção cultural. Corpo e gênero estão intrinsecamente articulados enquanto produções discursivas. o supliciam. 1995).entrelaçados – estabelecem normas para a constituição dos sujeitos. o gênero é (des)construído e (des)naturalizado.26). destacando-se aqui os discursos e as práticas psi. 1998. o marcam. “elas o investem.). sujeitam-no a trabalhos. uma vez que a linguagem não apenas reflete. portanto. em cada tempo. p. 1998. “o gênero não está passivamente inscrito no corpo. Não mais construído sobre o sexo enquanto suposta base biológica e natural inscrita na materialidade dos corpos. o dirigem. 1975/2002. Em cada repetição inclui-se a possibilidade de subversão e de resistência aos discursos dominantes.314).

de classe e de geração nas condições históricas específicas de sua produção (Haraway. A produção disciplinar do gênero não consolida subjetividades estáveis e homogêneas. portanto. retomando a dimensão relacional. em cada época. nacionalidade. A 178 Aletheia 32. entrelaçadas. tais como classe social. classe. Esta negociação ocorre dentro de determinadas possibilidades dentre um conjunto de normas às quais os sujeitos devem se submeter para serem reconhecidos como pertencentes a um determinado gênero (Butler. religiosidade e sexualidade) aparecem como indicativos das diferenças entre elas. A desnaturalização e a desconstrução do gênero binário – masculino/feminino – colocaram em causa as identidades fixas e estáveis dos corpos. estas relações vêm-se organizando com base nas diferenças percebidas entre os sexos. homens e mulheres completos e acabados. legítimas e aceitáveis de ser homem ou mulher. As armaduras invisíveis da identidade sexual e da sexualidade heteronormativa foram desestabilizadas. ao lado de outras categorias. Gênero: para além da diferença sexual Joan Scott (1986). gênero é uma maneira primordial de significar relações de poder. mas subjetividades complexas e inventadas que subvertem determinadas normas. religiosidade e sexualidade (Scott. nacionalidade. inscrevem-se na história da organização das relações sociais. tais como raça/etnia. servindo para dar visibilidade a complexos processos culturais e redes de relações de poder que demarcam a articulação (e não a simples justaposição) entre diferentes vetores de opressão. entretanto. 1986). A análise das relações de gênero deve abarcar a diferença racial. etnia e sexualidade.Assim. 2003). necessariamente. No que tange ao gênero. uma vez que não há posições discursivas monolíticas. Para ela. o poder é articulado. ou por meio do qual. homens/mulheres. desestruturando-se a categorização binária do mundo em masculino e feminino. 2002). diferenças que foram politicamente convertidas em desigualdades e assimetrias para justificar as diferenças de poder entre homens e mulheres. é de se pensar gênero como representativo dos aspectos comuns entre as mulheres (Braidotti. tanto de homens quanto de mulheres. Estas categorias. Contudo. A tendência. a diferença fundamental entre homens e mulheres. classe. 2010 . Gênero é uma categoria de análise que excede. 2003. gênero é um elemento constitutivo das relações sociais. amplia a abrangência desta categoria de análise. ou seja. 2004). determinados discursos vão instituir as possibilidades inteligíveis. enquanto os demais aspectos (raça/etnia. mais do que apontar para a diferença sexual. destacando-se aqui o poder dos discursos psi na produção das normas de gênero. Concebido como o campo no seio do qual. histórica e política do gênero. marcando diferenças de poder entre os sujeitos. 2000). dos desejos e dos sujeitos (Butler. Gênero não é. há espaço para negociações diante das prescrições de gênero. das diferenças intragênero (Nicholson. maio/ago. a relação masculino/feminino. 2004).

cuja unidade é uma ficção. quer sejam interesses de classe. uma vez que fixa e restringe os próprios sujeitos que espera libertar”. ‘Mulheres’ é um falso e unívoco substantivo que disfarça e prejudica uma experiência de gênero variada e contraditória. negação. não universais. p. nesse contexto. A negação epistemológica de qualquer tipo de essencialismo associado ao sujeito não significa. senão mulheres. Desestabilizar as identidades essencialistas do sistema sexo-gênero implicou repensar a categoria ‘mulheres’. Mariano. em contextos históricos e políticos distintos (Haraway. nacionalidades. Há que se distinguir. no plural. na constituição da subjetividade. passa a ser pensada em termos históricos. demarcando a historicidade e a heterogeneidade dessa construção. homogeneidade e estabilidade das identificações de um sujeito – despindo-se de um sentido naturalizado e substancializado de interioridade. não há uma única possibilidade de existir como mulher.noção de identidade – que pressupõe unidade. 2003). 2000). gênero e idade. mas variadas possibilidades que vão se constituindo ao longo da história. posições estas constituídas na articulação com outras variáveis além do gênero (Costa. “a unidade da categoria ‘mulheres’ não é pressuposta nem desejada. que vivem suas sexualidades de diferentes formas (Wittig. ‘política de identidade’ de ‘política de coalizões’: a primeira implica a afirmação de uma unidade. mas uma forma de interrogar as premissas dadas e universais de sua construção (Butler. 2001). a constituição de alianças formadas a partir de articulações específicas aos interesses em causa (Butler. a filósofa e epistemóloga feminista Sandra Harding (1986) sugere a possibilidade de se pensar em um feminismo unido em seu compromisso universal de investigar e derrubar a opressão patriarcal Aletheia 32. raça. para ela. há mulheres de diferentes classes sociais. de raça/etnia ou de gênero. As teorias pós-estruturalistas assinalam que não existe ‘a mulher’. Maluf & Costa. Nessa linha de argumentação. simultaneamente. Nicholson. 2002. repúdio ou ‘morte’ do sujeito. sociais e políticos como produção de subjetividade (Prado Filho & Martins. traz à cena a possibilidade de ‘um feminismo sem mulheres’. reais e concretas. 1976). acarreta o reconhecimento da prioridade do gênero na articulação destas relações complexas. Falar como uma feminista. que ocupam múltiplas posições. entretanto. fundamento das políticas de identidade do feminismo original.213). ou seja. desnaturalizada e desconstruída. etnia. ‘Mulheres’ é uma categoria que deve ser compreendida como algo que é construído discursivamente. A desconstrução da categoria ‘mulher’ implica sua re-significação. 2003. 2007). entendido como movimento de reivindicação de direitos das mulheres. 2005. 2004. maio/ago. entre outros) que interagem. 1998). 2010 179 . A existência desta mulher enquanto identidade sobre a qual se fundamentam as políticas de identidade. A noção de ‘subjetividade nômade’ é a ficção política proposta por Rose Braidotti (2002) para articular estes eixos de diferenciação (como classe. Conforme Butler (2003. ou seja. O feminismo. e a segunda. pressupõe a existência de um sujeito mulher como origem dos interesses da categoria a serem representados pelo feminismo.

contra as mulheres e. o que poderia resultar “na neutralização do caráter mais ‘guerreiro’ e contundente do feminismo. É possível trabalhar com significantes coletivos. à rejeição absoluta do conceito de identidade. 2002) contestam a dispersão e a volatilização das identidades e dos gêneros propostas pelos estudos pós-estruturalistas. ao mesmo tempo. natureza/cultura. Compreender a complexidade da categoria analítica gênero é fundamental à compreensão dos processos de produção das subjetividades. afinal. Ao desconstruir a categoria mulheres. tais como classe trabalhadora. sujeitos políticos do feminismo. políticas e ideológicas. Uma vez que as lutas das mulheres devem ser travadas pelas mulheres. geração. obrigatoriamente. masculino e feminino. com a complexidade dos dilemas e dos paradoxos que envolvem o enigma da igualdade/diferença inscrita na categoria ‘gênero’ (Scott. articuladas a diversas outras marcações da diferença. mulheres. 2005. posição à qual nos alinhamos. p. na contemporaneidade. 2003). Considerações finais As diferentes concepções da categoria ‘gênero’. desde que tomados como identidades parciais e provisórios (Costa. e talvez nossa única identidade” (Schmidt. se concebida como fixação parcial de identidades que têm pontos comuns. etnia. História que é. 2002. As subjetividades são complexas. temem um ‘feminismo sem mulheres’. Cabe assinalar que a crítica a identidades essenciais não conduz. Costa. esvaziando-o de sua vinculação com uma história de lutas contra a subordinação das mulheres. Mariano. pensam gênero como paradoxo entre igualdade e diferença não somente entre homens e mulheres. 1987. que não podem ser reduzidas a identidades sexuadas estabilizadas no que se convencionou chamar homens e mulheres. heterogêneas e se constituem a partir de diversas marcações da diferença que 180 Aletheia 32. resultante da articulação das diferenças entre as mulheres com as estruturas de dominação que produziram essas mesmas diferenças (Costa. singulares. Buscou-se destacar as reflexões pós-estruturalistas que. ou seja. 2010 . religiosidade e sexualidade. constituídas a partir de diferentes posições teórico-epistemológicas. 2005). homens e negros. Outras posições (Benhabib & Cornell. 2004.19). 2000). um feminismo plurívoco em termos de uma diversidade de movimentos que enfatizam marcadores de diferença e lutas diversas. 2003. para além dos binarismos masculino/feminino. homens/mulheres. pelos sujeitos do feminismo. tais como classe social. O que se pretende aí é desacomodar o pensamento e trabalhar. o que de melhor temos. Negrão. raça. Nicholson. estas posições refutam a atomização das diferenças em favor de uma identidade positiva para as mulheres. 2002. mas também entre homens e entre mulheres. maio/ago. vêm-se modificando ao longo do tempo.

J. Benhabib & D. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos. familiares e eróticas. (2003). Cadernos Pagu. Undoing gender. (2000). D. 4(1).22). nossas certezas sobre os gêneros. Variações sobre sexo e gênero: Beauvoir. Feminismo como crítica da modernidade (pp. C. Rio de Janeiro: Rocco. Foucault. (1987).). O sujeito e o poder. 59-90.unb. Wittig e Foucault. (Original publicado em 1975). O sujeito no feminismo. M. suas parcerias afetivas. 22. J. B. Rabinow (Orgs. (1996). Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos. 399-422. S. (2002).206-242). destacando-se aqui as possibilidades inventivas dos sujeitos de constituírem-se a si mesmos. ‘Gênero’ para um dicionário marxista. R. (Original publicado em 1987). Saber y verdad. & Cornell. A feminista como o “outro”. desafiando.html> Acessado: 27/12/2008. D. London: Routledge. Butler. para além da diferença apenas sexual. Em: H. Homens e mulheres vêm habitando seus corpos e o mundo de diferentes formas ao longo da história. Michel Foucault: Uma trajetória filosófica – além do estruturalismo e da hermenêutica (pp. 169-177. Haraway. Costa. S. o que não implica negar a existência de homens e de mulheres enquanto sujeitos empíricos concretos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. L. Cadernos Pagu. Tendências e impasses: O feminismo como crítica da cultura (pp. Diferença. Fundamentos contingentes: O feminismo e a questão do “pósmodernismo”. Costa. Aletheia 32. Além da política do gênero. (1994). 201-246. Petrópolis: Vozes. Butler. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Cornell (Orgs. M. (2004).231-249). Madrid: La Piqueta. Estudos Feministas. Dreyfus & P. 8(1).. Benhabib. Bordo.br/ih/his/gefem/labrys1_2/rosi1. J.139154). maio/ago. A tecnologia do gênero. Braidotti.). (1991). Os destinos da diferença sexual na cultura contemporânea. Rio de Janeiro: Forense. C. diversidade e subjetividade nômade. (2004). Paris: Presse Université de France. J. 2010 181 . (2002). que se desnaturalizar e problematizar tais categorias. 11-42. (1998). Butler. Em: S.). Foucault. G. 19. Há. Estudos Feministas. Butler. Cadernos Pagu. em cada tempo. De Laurentis. (2003). (1995). Labrys. 11. New York. (1987). Em: H. Fraisse. 11(2). (2003). 10-29. L. portanto. M. M. La différence des sexes. Problemas de gênero: Feminismo e subversão da identidade. de Hollanda (Org.07.excedem à diferença sexual. Foucault. Referências Arán. Cadernos Gênero. Estudos feministas. T. Disponível em: <http://www. Paradoxos do gênero. Em: Feminismo como crítica da modernidade (pp. (2002).

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