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VOLÚPIA

Gregory Haertel

BLOCO 1 - CABARÉ (Paulo recepciona o público enquanto canta uma música brega, acompanhado por playback. Os outros 4 atores - os que representam Mônica, Charlote, Escritor e Aluno - estão em cena, dançando. Gilson serve os drinks para o público. O clima é de um cabaré. Os 4 atores recepcionam o público, dançando com alguns, cumprimentando outros). Paulo (recepcionando o público): Sejam bem vindos. Fiquem à vontade. Sejam todos bem vindos à nossa casa. Ao nosso cabaré ‘Volúpia’. Nós sabemos porque estamos aqui. Por favor, fiquem à vontade. (para alguém do público) Minha senhora, se quiser ainda tem um lugar aqui perto de mim. Será um prazer que estejas aqui perto. Ali, ali também tem outro. Podes passar por aqui. Fica à vontade. Nós sabemos porque estamos nesta noite no cabaré ‘Volúpia’. Aqui é o nosso lugar. Sejamos todos bem vindos à nossa casa. (A música continua tocando. Os 4 atores postam-se lado a lado, perto de Paulo, fazendo o coro da banda. Gesticulam e fazem as vozes de fundo. Gilson sempre olha para Paulo, que já aqui é tido como ‘superior’ do cabaré, pedindo a sua aprovação. Paulo apresenta os personagens um a um, como se fossem os integrantes de uma banda. Os atores, enquanto vão sendo apresentados, vão se dirigindo para o local de suas respectivas primeiras cenas e ’interpretam’ segundos de seus personagens). Paulo (apresentando): Boa noite, sejam novamente muito bem vindos Para começarmos essa nossa noite quente no Cabaré Volúpia, eu quero apresentar a vocês o meu velho amigo, o Escritor (o ator que interpreta o Escritor faz vênias ao público e vai para o seu local). O Escritor é um artista renomado, detentor de vários prêmios no passado, e ele é viúvo, hein! (enquanto vai ouvindo a descrição do seu personagem, o ator que interpreta o Escritor continua dançando feliz). Agora quero trazer ao cabaré Volúpia todo o frescor de Charlote! Charlote é a filha do Escritor (a atriz que interpreta Charlote cumprimenta o público. Gilson fica entusiasmado quando o nome de Charlote é citado e corre para perto dela. Oferece uma bebida para Charlote, que aceita. É admoestado por Paulo devido ao seu comportamento inconveniente, visto que está ali para servir o público. A atriz que interpreta Charlote corre na direção do Escritor e o abraça afetivamente. Os dois giram de mãos dadas, como se brincassem). Charlote é meiga e ingênua. É querida. É feliz. Daqui a pouco nós poderemos acompanhar um pouquinho de suas descobertas (como aconteceu inicialmente com o ator que interpreta o Escritor, a atriz que interpreta Charlote volta a dançar feliz). E agora com vocês, o Aluno (o ator que interpreta o Aluno cumprimenta o público e vai para o seu local. Fica de pé, arrogante como o Aluno). O Aluno conheceu o Escritor em um estágio da faculdade. E foi na casa do Escritor que o Aluno também conheceu Charlote. Que trio, hein? (acontece com o ator que interpreta o Aluno o mesmo que aconteceu com os outros atores quando ouviram a descrição de seus personagens – ele volta a dançar, feliz). E eu sou Paulo, o apresentador deste cabaré! (Todos aplaudem Paulo) Obrigado, obrigado,

Baseado em autores do romantismo alemão. Limpa a sua baba e o levanta. (Escritor fica incomodado. Somos muito felizes. o apresenta ao público) E esse é o Gilson. um Aluno (o Aluno cumprimenta Charlote com um meneio de cabeça e continua olhando para ela. querida. minha digníssima esposa. Cumprimenta o Escritor e oferece a ele uma colherada de iogurte) Escritor: Obrigado. quebrando o gelo): Eu estou escrevendo um livro. Essa é Mônica. Paulo o admoesta primeiro com um gesto e depois. Paulo. Assina pra mim essa declaração que eu te acompanhei as 30 horas que eu te deixo livre pra escrever o teu livro. derrubando também a bandeja. que cumprimenta o público. pai? Olha essa barriguinha (dá um tapinha na barriga do pai e comenta com o Aluno). se chega a Gilson e o acaricia. de vez em quando deixa escapar uma olhadela para o Aluno) Charlote (para o Escritor): Tens que comer melhor. A Mônica não.. (Gilson ri. encantado pela beleza de Mônica. Gilson. Nós nos amamos.mas eu guardei o melhor para o fim. Vai em direção a eles. Gilson oferece resistência e Paulo o joga bruscamente no chão. (pausa longa. Pausa. chega perto dela e começa a incomodá-la. tocando em seu corpo. Os dois ficam incomodados) Escritor (leve entusiasmo. Eu já tive todas as experiências que a vida pode dar.. porém. hein. terá. Charlote dá um ‘oi’ discreto e se volta para o pai. Goethe. Aluno continua) Olha. um pouco constrangido. mais bruscamente. Leva-o para perto do microfone e. Escritor: Eu tinha 20 anos. Pausa breve. Aluno chega) Escritor: Gostas do que eu escrevo? Aluno: O primeiro livro é muito bom. não quero te fazer perder tempo. Schiller. (Paulo beija Mônica. Estava apaixonado. Black quando Gilson faz menção de falar alguma coisa ao microfone. Depois ele fica reclamando que está cansado. Um retardado. BLOCO 2 – PASSADO Escritor e Aluno (Escritor está sentado em uma poltrona. (pausa) Quantos anos tu tens? Aluno: 19. como um pai zeloso.. (Aluno ri) Escritor: Que é que foi? Aluno: É que eu não consigo imaginar uma pessoa da tua idade escrevendo um livro assim. Todos saem de cena). (Charlote aparece com um pote com iogurte. . Esse é o. Começando.. tirando-o de perto de Mônica. Mas.

O meu nome está naquela lista junto com mais uns vinte. Charlote beija a testa do Escritor. é? Escritor (não respondendo à insinuação do Aluno. Pelo menos o teu primeiro livro é bom. acena para o Aluno e sai levando consigo o seu pote de iogurte) Aluno (irônico. Mas posso fazer. fracassados. Não falam. Fim de cena e black) Paulo e Mônica (Três travestis se exibem no fundo do palco. (Escritor sai. enquanto examina uma das travestis): O que é que tu achas? Mônica (alheia): Ã? Paulo: Te agrada? Mônica (pergunta a opinião de Paulo): Te agrada? Paulo: Meio magra. (pausa) Escritor: Escuta aqui. né? (Paulo passa a examinar outra travesti. Mônica está um pouco assustada) Paulo (para Mônica. Parecem mercadorias. Pergunta para Mônica): Queres? Mônica (repete. Charlote (Charlote toma o iogurte. Paulo aparenta segurança. mas durante a sua saída observa Charlote que está tomando o iogurte). Esta cena não tem texto. Escritor: Me mostra alguma coisa tua. porém deve ter grande erotismo. para o Escritor): Cansaço. Aluno (ameaçando): Eu ainda não fiz nada.(O Escritor dá um breve riso desconcertado. falando como se fosse retornar ao assunto anterior): Então? Aluno: Deve ser por causa da idade. perguntando a opinião de Paulo): Queres? Paulo (para a travesti): Quanto é? . Aluno sai. Aluno: Uns vinte falidos. Não fui eu quem te procurou. Paulo e Mônica entram abraçados.

Em um terceiro ‘trocador’ o terceiro travesti se masturba. Flash de cena de Gilson. Os atores. como se estivesse indo para um outro lugar da casa. Relaxa! (Mônica passa a se masturbar. Beija Mônica.Mônica (pensando): Fecha o olho Monica.. Os 4 focos ligados simultaneamente.. a gente pode. Flash de cena do Aluno.. querida. e na hora do embarque tivesse a sensação que o avião fosse cair. A gente pode o que a gente quiser. No último trocador. pintando as unhas. Charlote: Nada. relaxa. as travestis pulam sobre Mônica como se fossem animais em uma orgia. ensimesmado. A gente faz porque a gente pode. (O Escritor vira as costas para ir embora. A um sinal de Paulo. Charlote. Quando eles entrarem por aquela porta tu vais pensar: Relaxa Mônica. Os 3 travestis cercam Mônica. Paulo: Tu achas que isso tá funcionando? Tu achas que isso tá dando certo? Isto me excitava quando eu tava na sexta série. E nunca vou deixar nada de mal te acontecer. sabias? Eu sempre quis alguém assim. Isso é legal. filha. Besteira. o senhor viajaria mesmo assim? Escritor (entendendo a pergunta como se ela fosse uma preocupação da filha para consigo): Eu não vou viajar. Paulo e Mônica transam. Charlote Charlote (está no centro do palco.para excitálo. mas . Paulo anda em torno dela se insinuando com os travestis. Paulo canta e observa a cena. Está chorando. Black). Charlote volta a chamá-lo) Pai? Se o senhor fosse fazer uma viagem de avião. Paulo ergue Mônica ). que topasse tudo. Charlote: É. E eu te amo muito. Paulo (para Mônica): Tu és um sonho pra mim. (Paulo e Mônica saem de cena.. dançam e trocam de roupa. sem reparar em Charlote): Pai? Escritor: Oi. Eu sempre estarei contigo. os 3 travestis saem imediatamente de cima de Mônica. Paulo e Mônica (Mônica entra e dança para Paulo – que está sentado em uma poltrona . Após um segundo sinal de Paulo. Escritor entra. Os 3 travestis se ajeitam nas laterais do palco e saem de cena.). enquanto se masturbam. (Mônica tenta provocá-lo mais. Foco em uma das laterais do palco onde uma das travestis se masturba. Mônica. Nada de errado. vai ficar tudo bem. Como é que a gente vai saber se o avião vai mesmo cair? Escritor: Tu és linda. ninguém vai ficar sabendo de nada. Depois foco na outra lateral. onde outra travesti também se masturba. O Paulo está aqui.

Charlote: Que é que tu tás fazendo? Gilson: To dormindo. Mônica continua em cena. Gilson: Não pode dormindo. (Gilson ri. (Gilson fica irritado e dá um tapa na boneca) Gilson (está muito irritado. tendo uma ‘crise’) Não pode dormindo. Paulo a observa sem emoção. . Para. Charlote pega a boneca. ainda tenta se masturbar. Gilson. Charlote: Tás dormindo ali? Gilson: To dormindo. Começam a gritar ‘ôô cavalinho’. Gilson coloca a boneca entre ele e Charlote e a ajeita para que fique deitada igual a Charlote. Charlote (repreendendo): Aiaiai.mesmo assim continua tentando excitá-lo. Ao invés de inverter o cavalinho para o lado correto. com um cavalinho de madeira. (Gilson fica mais envergonhado. Tá ao contrário. hein? Tens namorada? (Gilson fica envergonhado) Charlote: A. imitando grosseiramente movimentos de uma relação sexual). que estava fazendo as unhas do pé. deita-se. depois de jogada ao chão. Ele levanta a boneca) Gilson: Qué vê? Qué vê? (beija a boneca e deita-se sobre ela. Charlote: 36? Nossa! Tu tás adulto. Mônica desiste. acabando de fazer as unhas. né? (Charlote faz um muxoxo) Não pode dormindo. que estava com Gilson. Charlote senta e. Paulo fala ela) Para Mônica. Ri – riso de divertimento. e faz a boneca beijálo no rosto e na testa. (Mônica pula no colo de Paulo. Gilson convida Charlote para ficar na garupa – em suas costas. O cavalinho tá ao contrário. tu tens namorada? Quem é? Me conta. Ela. chorando). que se livra dela jogando-a no chão. Os três ficam deitados iguais) Charlote: Quantos anos tu tens? Gilson: 36. Já deu. Estão se divertindo muito. Paulo sai. Charlote e Gilson (Gilson entra e começa a girar ao redor de Charlote. começa a girar para o outro lado. O cavalinho está do lado contrário) Charlote (para de fazer as unhas e presta atenção em Gilson. não de sarcasmo).

demonstrando grande inveja. todos os limites. mais verdadeiro. E ele me carregou nos braços e me colocou com carinho sobre a pedra e me segurou porque o vento era forte demais e pediu ‘fica descalço’. o Aluno fuma um cigarro atrás do outro. E ele repetia ‘não te sentes livre?’ e eu não mais me sentia. mas era ele. Ele disse ‘Te entrega pra isso. ‘Lindo. No cume daquele desfiladeiro eu me sentia livre. ‘Todos os limites’. (para o cavalinho) shhh. ele perguntou. Lindo. Empurrou-me para mais perto do penhasco. (Black) Escritor (Clima de Premiação. e apontou para o horizonte que corria até os azuis de céu e mar se confundirem. a pessoa que me prendia. Em um dos cantos do palco. ‘vou te levar até aquela pedra. (Paulo aproxima-se de Mônica. ‘Como é que tu te sentes?’. que está escutando o discurso do Escritor. (com um gesto de mão pede silêncio) Eu gostaria de mudar um pouco o protocolo. pode dormindo. Naquele instante aquilo que parecia liberdade transformou-se em algo muito doloroso. mas ó (coloca o indicador sobre os lábios) shhh. mais sincero. ele disse. que me impedia de sonhar o vôo de águias e andorinhas. A pedra sobre a qual eu pisava começou a machucar os meus pés. Pode. (para Charlote) shhh. Mônica está sentada no sofá. ‘É assim a tua liberdade?’. Gilson: Pode dormindo?? Charlote: Pode. Te entrega’. ‘Apaga os limites’. Ele não era mais ele. Olha. muito obrigado. Depois da pedra havia ar e queda. ‘É assim a tua liberdade?’. entre me jogar ou não. ‘Totalmente livre?’. E ele me deixou um segundo ou uma hora entre cair ou não. (pausa) Obrigado. e depois veio e me abraçou forte (Paulo abraça Mônica) e beijou a minha nuca e disse que me amava e eu acreditei e ele perguntou ‘vamos?’ e eu .Charlote (tentando consolar Gilson): Ta bom. ‘Todos os limites’. assistindo ao discurso do Escritor. ele perguntou. muito ansioso. Do fundo do meu coração. E ele falava ‘isso tudo não é lindo?’ e aquilo tudo era horrível. com aplausos e assovios. De onde vinha o vento eu passei a perceber o frio. quase caía. a pessoa a quem eu amava. e sorri e o meu sorriso pareceu mais largo do que o habitual. ele disse. não?’. Gilson: Pode dormindo. Em outro dos cantos. como se eu estivesse voando. e não pedra. eu gostaria que o meu agradecimento fosse a citação de um trecho do meu livro. E eu fechei os olhos e senti as pernas bambearem e senti o vento pelo corpo todo como se o vento me levasse. Paulo é carinhoso com ela) O horizonte não era mais o sonho que se persegue mas o alvo que não se alcança. ele disse. ‘Te sentes livre?’. ainda em black. pra essa sensação. entre ele ou não. “‘Olha ali’. E eu apaguei os limites. A pedra era menos fria do que o vento. vendo o discurso do Escritor diante de um aparelho de televisão. tendo em suas mãos um prêmio – troféu – agradece os aplausos) Escritor (agradecendo ao público): Muito obrigado. A minha liberdade era ar e queda. No foco principal está o Escritor que. ‘Então te joga’. estás vendo?’. E ele falou. Ele falava ‘te joga’ mas eu não conseguia. deixa eu te contar um segredo. Peço permissão à mesa. Ao invés de um discurso formal de agradecimento. A pedra que ele mostrava quase se jogava para o precipício. Depois da pedra.

que tira o seu blazer) Aluno (para Charlote. Não liga. Perde a barriga. (Black na cena do Escritor. (para Mônica) Te levanta. Charlote (para Aluno): Eu to com medo. amor. Triste talvez. Paulo sai e cruza o foco do Aluno que já está em cena. Paulo pede as coisas com mais raiva. Aluno (para Charlote): Ta tudo combinado lá. (ela pega o controle mas. Fala mais baixo. Paulo fala) Espera. abraçado por ele e por diversas impossibilidades. Ele não deixa). Me beija. entregando uma sacola com um vestido): Te lembra. Atropela um pedido com outro. (tempo maior para o fim da cena. (Paulo não deixa Mônica concluir qualquer uma de suas próximas ações. Luz cai lentamente sobre o casal. Faz uma massagem nas minhas costas. Me beija. Aquilo deveria me completar. Paulo fala para Mônica) Me beija. (Na outra lateral do palco estão se encontrando o Aluno – que acabara de ver. Talvez não”. Malha. Vem cá. A cena vai ganhando ritmo. antes de Mônica ligar a TV. o discurso do Escritor – e Charlote. Transa comigo e com outra. Mônica vai ficando muito incomodada mas não deixa de fazer nada) Me beija. Eu to cansado. Liga a TV. Paulo (para Mônica): Faz uma massagem.disse ainda não e fiquei ali. Paulo ainda fala para Mônica) Me beija mais. As ações de Mônica também são entrecortadas). (Paulo faz um gesto para Mônica. Tira os meus sapatos. na TV. amor. Mistura as palavras. Chorando e sorrindo. Cuida das estrias. Aluno (para Charlote): Não precisa. me sentindo pequeno. Paulo ‘sai’ do personagem. Paulo grita. Escritor e Aluno . Mônica. Paulo e Mônica / Charlote e Aluno Paulo (para Mônica): Desliga a TV. Liga a TV. (Mônica liga) Desliga. Me beija (Mônica vai na sua direção para beijálo. Anda com classe. Entra o Escritor). aquilo deveria fazer sentido pra mim. Pinta o cabelo. amor. Põe silicone. ‘Pausa’ na cena): Não era pra ser assim. Ele pede) Liga a TV. (Mônica se desloca para trás de Paulo. Traz outra cerveja. veste isso. E se eu pedisse agora pra Mônica se levantar e me dar um beijo e ela se levantasse e me beijasse eu deveria ficar feliz. Nada muda. (No auge. Ela começa a massagear os seus ombros. Queima as gordurinhas. Tira os meus sapatos. (Mônica desliga. Mônica ‘congela’ deitada aos pés de Paulo. (Aluno e Charlote saem de cena) Paulo (para Mônica): Liga a TV. Emagrece. Paulo (para Mônica): Traz uma bebidinha. Quando eu pedisse ‘traz uma bebida’ e a Mônica trouxesse a bebida. Eu vou ficar feliz. Me beija. Traz outra cerveja.

(Charlote balança negativamente a cabeça) Charlote: Tu tens a tua boneca. Para Charlote): A gente (Gilson mostra a boneca) viu o teu pai na TV. Gilson percebe que Charlote não está bem) Tu tas triste. Eu senti aqui dentro o que tu nunca vais sentir. ou até mesmo da bosta de um cavalo.. Escritor: Presta atenção. De me pedir. Aluno (continua fumando): Eu não tenho motivo nenhum para comemorar. não era? Eu vi como tu me olhavas. Pega o objeto e o estende ao Aluno). vamos comemorar. Quero que tenhas coragem. Um cabeção na TV. mas isto poderia ter vindo de uma música. Vem. que chegues perto de mim. o prêmio é teu! Escritor: Bom. Mas nunca tiveste a coragem de me propor. vem aqui e me mata. com a boneca na mão.. né? Gilson: A minha namorada. Eu vi. Aluno (acendendo outro cigarro e se aproximando): Velho patético. Escritor: Não estás conseguindo me deixar mal. não era? Era esse o teu sonho. Se me deres licença. (Charlote dá um risinho desanimado. . vem. Eu não te comi e nem te comeria. Fumando) Bravo. Aluno: ‘Te entrega’. Foda-se o que tu pensas que é romantismo. Escritor: Apaga esse cigarro. seu pirralho.. Agora. Vais continuar preso? Que lindo Schiller. que me toques. O o o teu pai. hein? Que lindo Goethe. ou de uma pintura. O teu pai tava na TV de casa.Aluno (aplaudindo sarcasticamente. Não tens motivo nenhum pra orgulho. Aluno: Não quero que te sintas mal. se fizer bem pra porra da tua teoria (tira a camisa) vem aqui e me chupa. Porque se tu não me matares agora eu vou ficar aqui sentado lendo uma revista de fofocas. Escritor sai) Charlote e Gilson Gilson (entusiasmado. Escritor: Como não? Tu sabes que tu fazes parte. (estende a mão com o cigarro) Meus sinceros parabéns. vindo de lados opostos. Tu suscitaste coisas em mim que eu adorei. Tu nunca vais saber o que eu vivi. (procura algum objeto com que possa ser sufocado. Era isso que querias que eu te dissesse. (Aluno sai) (Gilson e Charlote se encontram. Vem. O que tu és é aquilo que eu imaginei de ti. ou que tenha sido por um quadro. Aluno: Eu não faço parte de porra nenhuma! O livro é teu. eu tenho muita coisa pra fazer. Vamos. Em paz e tranqüilo. ‘Te joga’.. Dane-se. Que tenha sido por ti. pela imagem que eu tenho de ti. Parabéns.

em Mônica. como se saído de um transe. e no outro canto. Alegria. sejam bem vindos de volta ao Cabaré Volúpia. Ele está envolto em plástico filme. isso. Charlote: É um segredo. e fumando. sorriam. Se o Gilson te pegar com a mão direita eu vou usar. (coloca a boca da boneca perto do ouvido de Charlote) Charlote: E ela te escuta? Gilson: Aaaaaaaa (grita no ouvido da boneca. Ele começa balbuciando a música. Gilson: É a minha namorada. Com o passar do tempo é que se consegue compreender o que Paulo está cantando. tá feliz. Paulo está no centro do palco. e ainda deitado no chão. (Paulo se levanta) Isso. sem saber o que fazer. (Gilson vai para um canto do palco. Charlote fala para a boneca) Eu ganhei um vestido. Após alguns segundos observa-se Charlote em outro canto do palco. Foco também. Isso Escritor (vai até o Escritor) alegria. A alegria está de volta. Ele é tão bonito que dá até medo de usar. alegria. mas alheia. A fumaça do cigarro do aluno se acumula entre o rosto e o plástico filme. Puxa os próprios cabelos e cai ao chão. Gilson: Dá minha namorada Charlote: Só mais um pouquinho. olha (encaminha o Escritor até Charlote). Boa noite. Ó.. que está sentado em sua poltrona. Aluno! (observa o Aluno tirando o restante do plástico filme de sobre . Paulo percebe que está no Cabaré Volúpia. A música é alta. Se for com a esquerda eu não uso. cantando uma música sobreposta à musica da trilha. não te preocupes.. a Charlote. Como se falasse para si mesma) Uso ou não uso? Fala. Só um pouquinho. ele olha para os outros personagens) é. e as palmas. (com a boneca na mão. Espera só um pouquinho. Sem graça. em um dos cantos do palco. inclusive o rosto. mas empresta) É que eu preciso contar um segredo pra ela.Charlote: Ela fala contigo? Gilson: Fala. Para Charlote) Viu? Charlote: Me empresta a boneca um pouco? (Gilson titubeia. Gilson: Me dá a minha namorada! (Black) BLOCO 3 – RETORNO AO CABARÉ (O Aluno está em um dos cantos do palco. (para Gilson) Vai pra lá pra tu não escutar. isso.) Paulo (assim que acaba a música da trilha.. palmas porque o Cabaré Volúpia está de volta. (perdido. tá bem. deitado encolhido. estamos de volta ao Cabaré Volúpia. Momentos de solidão dos personagens. Por baixo do plástico filme o Aluno está nu. Um televisor transmite a premiação do Escritor. que está sozinha. enrolada em seu vestido. Então vamos combinar assim. Gilson. sem que consigamos saber que é ele quem está cantando. Ta bom. no Escritor. (com dificuldade tenta reanimar a todos e à platéia) Isso sorrisos. Paulo fala para o público): Boa noite.

o Aluno desvenda os olhos de Charlote. (o Aluno se dirige ao ambiente onde o Escritor está. Volta a tocar ‘My Funny Valentine’.. solta a música. o Gilson. Ela volta a gritar) Pelo amor de Deus. O Aluno venda Charlote. (O Aluno liga o som. meus queridos. (Escritor desliga a música no outro ambiente. (para o público) Gente.. põe para tocar no seu aparelho de som. Depois que o estupro se consumou. um brinde! Um brinde para que vocês voltem ao Cabaré Volúpia. Paulo vai definhando. Mônica! Mônica. Esta cena do estupro é longa. mas se ouve apenas a voz sufocada pela máscara.o rosto) Aluno. O que seria do mundo sem as crianças como o Gilson? (para Gilson) Serve o público. Ele se afasta. meu amado. Solta a música. Este jogo passa a se tornar agressivo. meu querido. Mônica se senta em um banco ao lado do local onde Paulo canta. Black). nós nos amamos. Monica e percebe que Paulo. sem a música. após ter espontaneamente coberto os olhos com uma venda. Gilson serve as bebidas. Começam a dançar no centro do palco. O Aluno e Charlote se preparam para um encontro amoroso. Vai ficar tudo bem. (para todos) E agora. (Nada acontece. Gilson volta a servir o público. Paulo uma máscara sobre o rosto e continua cantando). (Paulo continua cantando e Mônica tenta chamar a sua atenção). está morrendo.. Paulo está deitado em seus braços. Mônica continua falando com Paulo). (pega um cálice) Um brinde a vida! (faz um gesto para parar a música de fundo e começa a cantar. Para que curtam o Cabaré Volúpia. Para de cantar. Nós nos amamos. Gilson também participa do estupro. Paulo começa a respirar com mais facilidade. Para de cantar. (entra Gilson) Vem aqui. Ninguém mais precisa fingir. Gilson. (beija Mônica várias vezes) O que é que eles vão pensar de nós? Nós não somos assim. Gilson. isso. vai dar tudo certo. com o Aluno estuprando Charlote. (para o público) O Gilson é uma criança. Tu não tens mais que fingir. Para. Mônica (para Paulo): Psss. Paulo continua deitado nos braços de Monica. Para que tragam os amigos à nossa casa. Charlote continua encolhida. Tu tens um coração de ouro. a gente consegue. que chora muito. não te preocupes. Mônica fica muito incomodada com o que vê. O Aluno continua sem retribuir o abraço do Escritor. Paulo continua cantando. A gente consegue (Conforme a música continua sem ser tocada. FIM . A gente é forte. O Escritor fica girando o Aluno em seus braços.) Paulo! (grita para qualquer um) Solta a música. Paulo vai ao microfone e começa a cantar ‘My Funny Valentine’. No outro ambiente Charlote continua chorando) Solta a música. como se lhe faltasse ar. assim está bem melhor. mesma música que o Escritor. meu amor. (para os atores) Isso: dancem. chorando. O Aluno permite que o Escritor o abrace. O Escritor chega perto do Aluno para abraçá-lo. Mônica também começa a ficar angustiada. Porque a nossa casa é uma casa de alegria e de vida. mas não retribui. O Aluno vai até o som.

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