MINISTERIO DA EDUCAÇÃO UNIVERSIDADE FEDERAL DE PELOTAS

Centro de Educação a Distância Curso de Licenciatura em Educação do Campo

Livro Didático: problematizações sobre a escolha e utilização nos Anos Iniciais
Antônio Maurício Medeiros Alves1 Vânia Grim Thies2 Um dos materiais didáticos mais largamente utilizados nas escolas, em particular na educação básica, é o livro didático. Esse texto pretende abordar esse objeto escolar a partir de algumas questões geradoras: • • • • • O que é livro didático (LD)? O que caracteriza o Programa Nacional do Livro Didático – PNLD? Como se processa a escolha dos LD nas escolas? Como esses LD são utilizados no ambiente escolar? Uso do LD: críticas, potencialidades e limitações.

Esse objeto com características próprias, tão comum no ambiente escolar e, também, no ambiente doméstico, visto que essas publicações circulam no trajeto escolacasa-escola, pode, apesar da familiaridade com que o tratamos, apresentar diferentes conceituações. Pensar o livro didático como um objeto com características próprias implica na necessidade de conceituá-lo, ou seja, procurar responder a questão: o que é o livro didático? Para responder essa questão recorremos a dois estudiosos dos livros didáticos. O primeiro é o francês Alain Choppin 3, falecido em 2009, foi professor do Instituto Francês de Educação (INRP) das disciplinas História da Educação e Pesquisa de História do Departamento de Educação, tendo desenvolvido o programa EMMANUELLE, que apresenta a produção de livros na França, desde 1789, com foco sobre a história dos livros escolares e universitários estudando seus múltiplos aspectos: produção, a regulação, economia, design, recepção e uso, etc. O segundo autor de referência para esse estudo é o brasileiro Antônio Augusto Gomes Batista4, professor da Universidade Federal de Minas Gerais, onde
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Professor Assistente do Departamento de Matemática e Estatística do Instituto de Física e Matemática da Universidade Federal de Pelotas. Doutorando do PPGE da mesma universidade. 2 Professora Assistente do Curso de Licenciatura em Educação do Campo, do Centro de Educação a Distância da Universidade Federal de Pelotas. Doutoranda do PPGE da mesma universidade. 3 Para outras informações acessar http://www.inrp.fr/she/pages_pro/choppin.htm. 4 Para outras informações acessar https://sites.google.com/site/posfaeantoniobatista/.

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por exemplo. constata-se que são utilizadas conjuntamente hoje várias expressões que. na maioria das vezes. mas constata-se que a maior parte deles se omite em definir. é difícil até impossível de determinar o que as diferenciam. 2009. o “livro didático” é designado de inúmeras maneiras. Alguns pesquisadores se esforçaram em esclarecer essas questões e estabelecer tipologias. são múltiplos. até de estilo. p. causada pela diversidade de vocabulário e pela instabilidade dos usos lexicais. e nem sempre é possível explicitar as características específicas que podem estar relacionadas a cada uma das denominações. os termos aos quais recorrem as diversas línguas para designar o conceito de livro escolar. e a perspectiva diacrônica (que se desenvolve concomitantemente à evolução do léxico) aumenta ainda mais essas ambigüidades. e sua acepção não é nem precisa nem estável. com variações. tanto mais que as palavras quase sempre sobrevivem àquilo que elas designaram por um determinado tempo. Leitura e Escrita (Ceale) da UFMG. com que muitos pesquisadores dos livros escolares se omitam em definir seu objeto de estudo: Na maioria das línguas. p. como a Avaliação de Livros de Português e de Alfabetização do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) tendo ainda. imprensa didática e manuais escolares assim como das práticas culturais e do perfil social dos docentes de Língua Portuguesa. libri per la scuola ou libre di texto. Choppin (2009) afirma que o conceito de livro didático é historicamente recente e comenta sobre as variações provenientes da língua. (CHOPPIN. a utilização de uma mesma palavra não se refere sempre a um mesmo objeto.549) referências à dificuldade de se definir os livros e as edições didáticas. Essa dificuldade faz. no quadro da implantação do Ensino Fundamental de Nove Anos. mesmo que sucintamente.19) Segue o autor discutindo as diferentes formas de nomear o livro didático de acordo com a língua considerada: em francês. Dessa forma. Tudo parece ser uma questão de contexto. libros de texto 2 . Encontramos em Choppin (2004.MINISTERIO DA EDUCAÇÃO UNIVERSIDADE FEDERAL DE PELOTAS Centro de Educação a Distância Curso de Licenciatura em Educação do Campo desenvolve pesquisas sobre alfabetização. já os espanhóis alternam entre libros escolares. manuels scolaires. o que lhe atribui certa instabilidade: Hoje. ainda. cultura escrita. para a Secretaria de Estado da Educação de Minas Gerais. de uso. Foi também diretor do Centro de Alfabetização. de acordo com o tempo. em italiano são recorrentes as expressões libri scolastici. a elaboração de diretrizes didáticas para a organização do Ciclo Inicial de Alfabetização. livres scolaires ou livres de classe. Inversamente. seu objeto de estudo. Percorrendo a abundância bibliográfica científica consagrada no mundo do livro e da edição escolar. em diferentes mandatos. de acordo com o autor. quando coordenou projetos articulados a políticas públicas educacionais. o autor indica a existência de diferentes conceitos desse objeto. Em outro texto.

que vai sendo utilizado à medida que avança o ano escolar e que. Seria. meio digital). folhas soltas). O autor indica. 2009. O “manual” é. finalmente. por fim. portanto. Segundo Batista (2009. a variação dos meios de produção (diferentes formas de reprodução: mimeógrafo. essa conceituação passa a apresentar um conjunto de problemas. os lusófonos5 preferem as expressões livros didáticos. não há muitos problemas na tarefa de conceituar livro didático. segundo o autor. imposto à escola. características materiais ou mesmo ao contexto institucional no qual a obra é utilizada ou mesmo destinada. é progressivamente um objeto planetário: ele se impôs no mundo. xerox.41). 2009. manuais escolares ou textos didáticos. romances.) e. reflete “a complexidade do estatuto do livro escolar na sociedade” (CHOPPIN. sendo esse um tipo de livro que faz parte de nosso cotidiano: é adquirido. Choppin (2009) ainda apresenta outras questões que interferem numa conceituação de livros didáticos como.43-49). como a Bíblia. por exemplo. adotado pela maior parte dos países de sistemas educativos e de métodos de ensino inspirados no modelo ocidental. O livro didático pode ter sua compreensão alargada também para os materiais produzidos na própria escola desde que atendam a determinadas características. p. mas que acabam fazendo parte do universo escolar. em livrarias e papelarias quase sempre lotadas. sob suas diversas denominações. Finalmente o autor apresenta uma conclusão derivada da “rápida incursão de horizonte léxico”: Em última instância. suas funções. fichas. em geral. que dizem respeito: ao suporte (livro. poderá ser reutilizado por outro usuário no ano seguinte. 25). de alguma forma. frequentemente designado por termos que são a transcrição. que ao suspendermos a familiaridade com os termos ou expressões em itálico (na citação acima). a diversidade nos modos de encenar sua leitura e utilização (que diz respeito a uma espécie de “contrato de leitura” imposto pelos textos ou impressos didáticos aos seus leitores) (BATISTA. p. etc. o manual. no início do ano. 3 . a tradução ou a transposição das designações as mais comumente utilizadas nos países desenvolvidos (CHOPPIN. 2009. o que. com alguma sorte.MINISTERIO DA EDUCAÇÃO UNIVERSIDADE FEDERAL DE PELOTAS Centro de Educação a Distância Curso de Licenciatura em Educação do Campo ou textos escolares. como sendo produto de uma 5 Falantes da língua portuguesa. pelo viés da evangelização e da colonização. afinal aquele livro ou impresso empregado pela escola . para o desenvolvimento de um processo de ensino ou formação. p. a variação nos processos de produção (obras que não foram produzidas para a escola. à primeira vista. p. porém. sua organização interna.20). Dessa forma podemos concluir que o livro didático vai além daquele objeto produzido pelas editoras e.

Enfim.usp. mimeógrafo. Uma das primeiras ações estruturadas do governo acerca do livro didático remonta ao ano de 1929 com a criação pelo Estado de um órgão específico para legislar sobre políticas do livro didático. produzidos industrialmente em diferentes editoras. responsável pela coordenação das ações sobre a produção. o governo institui a Comissão Nacional do Livro Didático (CNLD) caracterizando a primeira política de legislação e controle de produção e circulação de obras didáticas no País. edição e distribuição de livros didáticos. o livro didático ao construir diferentes modos de articulação com o trabalho de ensino caracteriza-se na verdade como um objeto multifacetado. tem sido foco de diferentes implementações políticas do Ministério da Educação e Cultura. Assim. período dos acordos MEC-USAID7 é criada a Comissão do Livro Técnico e Livro Didático (Colted).MINISTERIO DA EDUCAÇÃO UNIVERSIDADE FEDERAL DE PELOTAS Centro de Educação a Distância Curso de Licenciatura em Educação do Campo organização textual que contenha o texto didático. a distribuição dos livros didáticos. desde que contenham o texto didático poderão ser considerados como livros didáticos. Porém não se pode perder de vista que os livros didáticos são mercadorias. ao contrário do que muitos pensam. pois mesmo em diferentes suportes materiais como cartazes. o que acarreta na ação do Estado. o que além de contribuir para uma maior legitimação das produções didáticas nacionais também auxiliou no aumento dessa produção. folhas avulsas ou fichas. Outra possibilidade é que os livros didáticos não se apresentem no formato livro.ime. impressa ou não (mesmo que por meio de Xerox. sendo dependente das relações de força entre os diferentes grupos sociais e políticos. tendo esse acordo garantido recursos para que o MEC distribuísse 6 7 Informações do texto disponíveis em http://www. no formato digital). com diferentes dimensões que estão relacionadas ao contexto no qual é construído. em 1938. sendo o Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) uma das maiores políticas públicas de distribuição de livros didáticos do mundo. e como tal. ou mais atualmente. O envolvimento do governo com a compra e distribuição de LD para as escolas públicas. segundo Batista (2009).br. Já na década de 1960. não é uma política nova 6. 4 . o Instituto Nacional do Livro (INL). dependem tanto do mercado ao qual se destinam (a educação em geral) como das suas condições de produção (junto às editoras). Menos de dez anos depois. que legitima sua produção e distribuição. álbuns. Agência Norte-Americana para o Desenvolvimento Internacional.

de contribuições de contrapartidas mínimas originadas nas Unidades da Federação. com os de geografia e história. Nas próximas duas décadas o programa dos livros didáticos fica por conta inicialmente da Fename (Fundação Nacional do Material Escola) que é posteriormente substituída pela Fundação de Assistência ao Estudante (FAE). o que deu um caráter de continuidade às políticas públicas de distribuição de livros didáticos para as escolas. No ano 2000 são incluídos dicionários para distribuição nas escolas e os livros didáticos são entregues ao final do ano letivo para serem utilizados a partir do ano seguinte. seguidos em 1996. Nos dez anos seguintes problemas orçamentários irão prejudicar a distribuição dos LD que começa a ser normalizada a partir de 1995 com a distribuição dos livros de matemática e língua portuguesa. tendo o programa sido ampliado aos estudantes do ensino médio através da criação do PNLEM (Programa Nacional do Livro Didático para o Ensino Médio).mec.br/index. também.MINISTERIO DA EDUCAÇÃO UNIVERSIDADE FEDERAL DE PELOTAS Centro de Educação a Distância Curso de Licenciatura em Educação do Campo gratuitamente 51 milhões de livros em um período de três anos. Finalmente em 1985 é então criado o Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) que apresenta algumas mudanças como o término da participação financeira das unidades da federação. sendo os recursos sob a responsabilidade do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) e. em 2004.gov. pelos de ciências e. Na década de 1980 começa a participação direta dos professores para a escolha dos livros didáticos o que leva a ampliação do programa para todas as séries do ensino fundamental. As obras didáticas são produzidas pelos autores e submetidas a uma comissão formada pelo MEC especialmente para avaliação dos Livros Didáticos que 8 http://portal.php?Itemid=668&id=12391&option=com_content&view=article 5 . Atualmente encontramos no site do MEC 8 que “o Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) tem como principal objetivo subsidiar o trabalho pedagógico dos professores por meio da distribuição de coleções de livros didáticos aos alunos da educação básica”. Gradativamente o programa vai sendo ampliado passando a atender alunos com deficiência visual por meio da distribuição de livros em braile além da inclusão de atlas escolares para a disciplina de Geografia. em 1997. critérios de escolha dos livros para utilização nas escolas definidos pelos professores e reutilização dos livros didáticos por 3 anos seguidos o que acarretou em maiores exigências de durabilidade para sua fabricação.

e será objeto de análise pelos professores nas escolas. a título de ilustração. ciências. anos finais do ensino fundamental ou ensino médio. apresentando as resenhas das coleções consideradas aprovadas. é fundamental para a melhor exploração dos acervos complementares. aqueles que melhor atendem ao seu projeto político pedagógico. Para o PNLD de 2013. editado pelo MEC e distribuído às escolas.mec. história regional e geografia regional. ciências humanas. No ensino médio. Os livros aprovados pela comissão de avaliação do PNLD irão compor o Guia de Livros Didáticos. é intitulada “O que fazer com tantos livros?”. entre os títulos disponíveis. . Com exceção dos livros consumíveis (dicionários. geografia e língua estrangeira moderna (inglês e espanhol). que estudam do 6º ao 9º ano. sociologia. biologia.mec. história. que deverão escolher. O manual foi encaminhado a todas as escolas e pode ser acessado clicando sobre sua capa em http://portal. Para os anos iniciais há também a distribuição de acervos complementares 9. geografia. já tendo sido distribuídos cinco acervos distintos (com 30 títulos diferentes) e um manual10. livros de literatura ou consumíveis dos anos iniciais). ainda. Após a distribuição do Guia de Livros Didáticos pelo MEC às escolas. destinados às turmas de 1º e 2º anos do ensino fundamental de todas as escolas públicas cadastradas no censo escolar. a responsabilidade da escolha dos LD – que serão usados pelos alunos nos próximos três 9 Conheça os acervos em http://portal. história. Já os estudantes dos anos finais do ensino fundamental.pdf O conhecimento desse manual. alfabetização matemática e obras complementares (ciências da natureza e matemática.MINISTERIO DA EDUCAÇÃO UNIVERSIDADE FEDERAL DE PELOTAS Centro de Educação a Distância Curso de Licenciatura em Educação do Campo serão fornecidos posteriormente. linguagens e códigos). no site do MEC: Os estudantes dos anos iniciais do ensino fundamental recebem as seguintes obras didáticas: . por parte dos professores.1º e 2º ano: alfabetização lingüística.gov. de forma que a cada ano o MEC compre e distribua livros para todos os alunos de um dos segmentos: anos iniciais do ensino fundamental.br/index. geografia.gov. os alunos recebem livros didáticos de língua portuguesa. em ciclos trienais alternados. língua portuguesa.php? option=com_content&view=article&id=15166&Itemid=1130 10 6 . física. sendo um importante auxiliar no planejamento dos professores. filosofia e de língua estrangeira (inglês ou espanhol). A primeira parte do manual. Encontramos. os livros deverão ser conservados e devolvidos para utilização por outros alunos nos dois anos subsequentes. matemática. química. história.3º ao 5º ano: língua portuguesa. matemática. matemática.br/dmdocuments/acervos_obras_complementares1. recebem coleções de ciências. a previsão é de distribuição de obras complementares do 1° ao 3° ano do ensino fundamental.

para tanto é importante um cuidadoso manuseio e leitura do Guia do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD). o que acaba acarretando no abandono do livro escolhido “por não estar adequado à proposta da escola”. Na medida em que os professores e a equipe pedagógica da escola analisam atentamente as resenhas contidas no guia. A seleção dos livros a serem utilizados em sala de aula é realizada pela internet. infelizmente. pode ser um desastre. Os professores contam ainda com o volume “Apresentação do Guia”. pela falta de tempo decorrente das grandes jornadas de trabalho dos professores. Dessa forma. Entretanto é fundamental alertarmos para uma importante questão: um bom livro. sendo obrigação da escola apresentar duas opções na escolha das obras para cada ano e disciplina. a uma escolha nem sempre apropriada ao projeto políticopedagógico da escola. ao aluno e professor e à realidade sociocultural das instituições. que conhecendo as leis de mercado fazem um forte merchandising junto aos professores oferecendo suporte online. no portal do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). bem como um livro de baixa qualidade nas mãos de um bom professor pode resultar numa ótima 7 . no qual se encontram as orientações detalhadas referente à escolha das coleções. o que em alguns casos leva novamente ao não uso dos livros. cd’s e dvd’s promocionais. Assim os professores tem a possibilidade de escolha dos livros didáticos entre os aprovados na avaliação pedagógica. por mero descaso. os professores mais inexperientes podem ser levados. Entretanto muitas vezes essa escolha se dá pelas melhores “ofertas” das editoras. por meio desses mecanismos. mas que muitas vezes. aqueles que constam no Guia. o FNDE envia à escola a segunda coleção escolhida. não é sequer folheado no momento da definição dos livros para a escola. o que faz com que a escolha da segunda opção deva ser tão criteriosa quanto a primeira. caracterizando um grande desperdício de dinheiro público e também levando a perda da possibilidade de contar com o apoio desse importante material didático: o livro didático. nas mãos de um professor despreparado. entre outros “agradinhos”. tem melhores chances de escolher adequadamente os livros a serem utilizados no triênio.MINISTERIO DA EDUCAÇÃO UNIVERSIDADE FEDERAL DE PELOTAS Centro de Educação a Distância Curso de Licenciatura em Educação do Campo anos – é do coletivo de professores juntamente com a equipe gestora (ou diretiva) da escola. ou. Nos casos em que não é possível a compra da primeira opção.

fato que ainda é presente em muitas realidades educativas. não é determinante para uma aprendizagem satisfatória. Neste sentido. Em seguida. o livro escolar. o LD poderá ser explorado de maneira que estabeleça comparações e possíveis semelhanças (quando possível) entre os diversos contextos sociais. ou seja. as críticas são/foram ainda maiores com a alegação de que os livros didáticos não contemplavam as realidades locais. os livros didáticos tiveram muitas críticas nas escolas brasileiras. nem poderia. ou seja. sem questionar se não será a resposta exposta no livro que está incorreta. nem sempre o que é apresentado pode ser o correto. principalmente quando há atividades e nas quais se pode buscar sozinho as respostas. pois. Outro limite que impõe o cuidado do professor é que o LD é passível de erro. Em se tratando das escolas localizadas na zona rural. inicialmente procuram o erro na SUA resolução. apesar de um material didático potencial. podemos dizer que na sua grande maioria o LD não é adequado a proposta pedagógica da escola. Ou seja. pois mesmo que não esteja de acordo com a realidade vivenciado pelo aluno. assim. Começando pelos limites. professores e/ou alunos ao conferir o resultado encontrado e verificar que o mesmo se difere da resposta indicada no livro. é extremamente importante o cuidado do professor na hora da escolha do livro didático. tivemos a “curvatura da vara”. Vamos entender melhor sobre este aspecto: o LD passou por uma fase de ser usado e entendido como um “amuleto pedagógico” nas escolas. então.MINISTERIO DA EDUCAÇÃO UNIVERSIDADE FEDERAL DE PELOTAS Centro de Educação a Distância Curso de Licenciatura em Educação do Campo aprendizagem (LOPES. Um exemplo dessa situação pode ser visualizado ao pensarmos no uso de livros de Matemática nos quais os exercícios e demais atividades tem as respostas que podem ser conferidas pelos próprios alunos. se não o único. se caracterizou como principal recurso didático. 2000). Quantas vezes ao resolver uma questão proposta. teríamos que ter um livro para cada escola tendo em vista que as propostas se diferem para atender as peculiaridades de seus contextos. 8 . O questionamento que nos parece muito pertinente nos dias atuais é (sem desmerecer ou criticar o livro didático): como podemos usufruir do livro didático sem desconsiderar as temáticas locais e sem usá-lo como única fonte para desenvolver os conteúdos escolares junto às crianças e/ou jovens brasileiros? O que nos leva a refletir sobre as potencialidade e limitações do livro didático. Foi neste período que se achava que o livro didático por si só ensinaria as crianças e os jovens e.

Mesmo com as críticas quanto a não contextualização dos textos e imagens trazidas. por outro.MINISTERIO DA EDUCAÇÃO UNIVERSIDADE FEDERAL DE PELOTAS Centro de Educação a Distância Curso de Licenciatura em Educação do Campo Mesmo quando o erro não é encontrado na resolução ainda há. podemos “fazer do limão uma limonada”! Já ouviram este ditado? O limão para nosso caso seria o LD e. a limonada. Vejamos o exemplo a seguir: Imagem 1: atividade no Livro Didático 9 . é fundamental destacar. que o professor é a pessoa que vai mediar o processo do uso correto do LD. Se por um lado o LD apresenta limites. seria o cuidado do professor no uso e na adequação dos materiais contidos nele. dado o status ocupado pelo LD como “detentor da verdade”. comumente. uma resistência antes de aceitar que a resposta do livro é que está incorreta. há muitas possibilidades no seu uso. Por isso.

. destacamos algumas: . etc.desenhar o lugar onde o aluno mora (assim o professor poderá perceber como ele interpreta o lugar em que vive). cada localidade do município precisaria de um livro adequado. Daí decorre nosso primeiro questionamento (observando as imagens e o exercício a seguir): se o aluno que utiliza o livro mora no campo e não conhece a sua própria cidade. São Paulo: Nova Geração. 10 . MACHADO. Português. retomando a importância de o professor estar atento a exploração dos materiais contidos no livro didático. Carmem Lucia Bueno.. 1ª série. porque cada lugar é próprio tanto em seus aspectos físicos. então. geográficos e culturais. cada aluno de uma sala de aula precisaria ter um livro diferente. Lucinéia.discutir com os colegas as semelhanças e diferenças entre o lugar desenhado e as imagens. Vamos para a “limonada”. 2005 (Coleção Nova Geração).MINISTERIO DA EDUCAÇÃO UNIVERSIDADE FEDERAL DE PELOTAS Centro de Educação a Distância Curso de Licenciatura em Educação do Campo Imagem 2: atividade no Livro Didático São duas imagens de um livro de Português 11 de 1ª série que podem ser usadas nas escolas do campo ou da cidade. .. como vai fazer as associações? Aqui poderíamos dizer que há uma incoerência? Sim? Não? O aluno precisaria um livro que demonstrasse o “seu” contexto? Se a sua resposta é sim. . 11 VALLE. As duas imagens nos dariam uma gostosa limonada! Entre as possibilidades de explorar a atividade.fazer um levantamento sobre quais os alunos que conhecem uma cidade movimentada como aparece na imagem 2.

uma limonada” como já foi referido anteriormente.30. é uma forma de “fazer do limão. pode ser bem aproveitado e explorado. pp. Para finalizar é indispensável reafirmar a importância do livro didático no contexto escolar. entretanto há de se destacar que seu uso deve ser sempre acompanhado de uma reflexão crítica por parte dos educadores. 41-76. o livro didático é o único recurso disponível ao professor. O conceito de “livros didáticos”. REFERÊNCIAS BATISTA. Campinas: Mercado de Letras. História dos livros e das edições didáticas: sobre o estado da arte. 2009. 2004. n. v. p. São Paulo. CHOPPIN. o professor usará o livro didático com a possibilidade de mostrar aspectos diferentes da realidade com a qual o aluno está habituado. Ana Maria de Oliveira (orgs). Entretanto é sabido que. Alain. 549-566. Estes exemplos apresentados na imagem 2 podem auxiliar na discussão. Como já foi dito. em muitas escolas. só terá acesso através dos livros didáticos que a escola lhe fornece.discutir quais os aspectos que se aproximam e quais se diferenciam do município onde moram (há semáforos no município? há faixa de pedestres? Há camelódromos na rua?). o que lhe aumenta a responsabilidade de um uso cuidadoso e crítico. um excelente livro didático nas mãos de um profissional despreparado não é garantia de uma boa aprendizagem enquanto que um péssimo livro (se é que existem livros dessa categoria) nas mãos de um bom profissional. o uso que é feito deles é que irá definir seu valor educativo. tendo em vista que em muitos município pequenos não há estes aspectos. Acreditamos que contextualizar o “seu lugar” antes de problematizar as questões que o livro didático apresenta. Educação e Pesquisa. Nenhum material didático é “bom” ou “mau” por si mesmo. Livros escolares e de leitura no Brasil: elementos para uma história. 11 .MINISTERIO DA EDUCAÇÃO UNIVERSIDADE FEDERAL DE PELOTAS Centro de Educação a Distância Curso de Licenciatura em Educação do Campo . Antônio Augusto. In: BATISTA. dando a ele a oportunidade de conhecer contextos que. em busca de uma aprendizagem significativa para seus alunos. muitas vezes.3. set/dez. Antônio Augusto Gomes & GALVÃO. Desta maneira.

Português. LOPES. 12 . jan/abr. São Paulo: Nova Geração. Pelotas. Campinas: UNICAMP/FE (Tese de Doutorado). MACHADO. Carmem Lucia Bueno. O Manual Escolar: uma falsa evidência histórica. 2005 (Coleção Nova Geração ).MINISTERIO DA EDUCAÇÃO UNIVERSIDADE FEDERAL DE PELOTAS Centro de Educação a Distância Curso de Licenciatura em Educação do Campo ______. História da Educação. 2000. n. Lucinéia. p. 2009. Livro Didático de Matemática: Concepção. 1ª série.9-76. Seleção e Possibilidades frente a Descritores de Análise e Tendências em Educação Matemática. VALLE. Jairo de Araújo.27.

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