A Época das Ordenações 
  As Ordenações do Reino Português 
               
Página original do preambulo das ordenações afonsinas 

                                     Capa Original das Ordenações Manuelinas     
Historia do Direito – Universidade Lusófona de Cabo Verde – Época das Ordenações – Carlos Ferreira Santos – Patrícia Estêvão 

                                    Capa das Ordenações Filipinas 

 

                         

Epigrafe 

"No tempo que o mui alto e mui excelente Principe El-Rei D. João de gloriosa memória, pela graça de Deus reinou em estes reinos, foi requerido algumas vezes em Cortes pelos fidalgos e povos dos ditos reinos que por bom regimento deles mandasse prover as leis e ordenações feitas pelos reis que ante ele foram, e acharia que pela multiplicação delas se recreciam continuadamente muitas dúvidas e contendas, em tal guisa que gravemente e com grão dificuldade os podiam direitamente desembargar...".*
  *extracto do Preambulo do Livro I das Ordenações Afonsinas 

 
Historia do Direito – Universidade Lusófona de Cabo Verde – Época das Ordenações – Carlos Ferreira Santos – Patrícia Estêvão 

 

  Resumo     
Este  trabalho  tem  como  objectivo  fundamental  fazer  uma  primeira  abordagem  “As  Ordenações  do  Reino”,  ou  seja  a  Época  das  Ordenações,  mostrando  o  enorme  interesse  que  esta  Época  teve  para  a  solidificação do Estado Português e do Direito Moderno.  Enquadra‐se ainda o trabalho numa série de abordagens temáticas sobre a Historia do Direito Português,  na  Disciplina  de  Historia  do  Direito,  no  1ª  Ano  do  Curso  de  Direito  na  Universidade  Lusófona  de  Cabo  Verde.   Tenta  também  o  trabalho  lançar  as  bases  para  um  posterior  estudo  mais  aprofundado  da  Historia  do  Direito  Português,  mostrando  a  forma  em  que  as  Ordenações  Afonsinas  contribuem  para  a  criação  efectiva  do  Estado  Português  e  a  sua  cabal  separação  do  Reino  de  Leão,  e  ainda  para  a  criação  de  um  Direito  Nacional  Português  e  a  forma  em  que,  já  com  as  Ordenações  Afonsinas  ou  Código  Afonsino,  lançam‐se  as  bases  para  a  criação  do  primeiro  Estado  Moderno  a  nível  Mundial,  mostrando  que  contrariamente  ao  defendido  por  vários  juristas  internacionais,  poderão  as  Ordenações  Portuguesas  terem sido o primeiro Código Jurídico Moderno Completo.  Mais  ainda,  irá  mostrar  o  trabalho,  que  terão  sido  as  Ordenações,  as  bases  dos  actuais  Códigos  Civis  vigentes  em  Portugal  e  no  Brasil  e,  por  uma  abordagem  feita  a  algumas  particularidades  dessa  Época,  mostrar‐se‐á  a  modernidade  do  pensamento  jurídico  da  Época,  no  que  concerne  ao  tratamento  das  lacunas  da  lei,  do  direito  subsidiário  e  da  interpretação  da  lei  em  si,  assuntos  ainda  hoje  actuais,  principalmente no que respeita ao ensinamento do Direito.  Para  conseguir  estes  objectivos,  limitou‐se  em  primeiro  lugar  a  Bibliografia,  para  evitar  um  campo  demasiado  vasto  de  pesquisa,  tendo  ficado  a  concentração  nos  tradicionais  autores  Portugueses,  no  entanto  com  consultas  e  reflexões  aos  textos  originais  de  Alexandre  Herculano,  Cândido  Mendes  de  Almeida (reprodução do frontispício original de 1870) e ainda José Isidoro Martins, estes últimos Juristas  Brasileiros de referência, muito estudiosos e entendidos na matéria da Historia do Direito Português.      Key Words/Palavras Chaves: Época das Ordenações, Ordenações do Reino, Códigos Afonsinos,  Manuelinos, Filipinos, Leis Extravagantes,.       
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1 – Introdução e Enquadramento Histórico da Época das Ordenações  É comum a afirmação que a História e o Direito andam de mãos dadas. De facto, o Direito prende‐se ao  homem pela sua evolução histórica e o acompanha. Assim, para um entendimento correcto da Época das  Ordenações,  torna‐se  necessário  um  acompanhamento  da  evolução  Histórica  de  Portugal  enquanto  Estado Independente, sendo que no entanto, no presente trabalho tentar‐se‐á concentrar os esforços na  evolução histórica do Direito em si. Comum a vários autores, é a periodização do processo evolutivo do  Direito Português da seguinte forma:  ‐  Desconsiderando  por  agora  os  antecedentes  de  Portugal,  identificam‐se  três  ciclos  básicos,  com  significado muito diversos e distintos, são eles;  a) o período da Individualização do Direito Português, que decorre desde a fundação da Nacionalidade, a  partir do momento em que D. Afonso Henriques se intitula Rei, até os começos do Governo de Afonso III  (1140 – 1248).  b)  O  período  de  Direito  Português  de  Inspiração  Romano‐Canónica,  que  abrange  todo  o  período  de  meados  do  Sec.  XIII  até  o  Sec.  XVIII,  período  onde  o  chamado  Direito  Comum  (Ius  comune)  nasce  e  consolida‐se, é o nascimento do Direito Português em si.  c) O Período da Formação do Direito Português  Moderno, que  coincide  com  o Governo de Marquês de  Pombal, portanto dos meados do Sec. XVIII até as datas carismáticas da emanação da Lei da Boa Razão de  1769  e  ainda  os  Estatutos  Renovados  da  Universidade,  onde  se  concretizam  viragens  expressivas  na  pratica da Ciência Jurídica e na pratica do Direito. A partir daqui, abre‐se o ciclo que conduz ao Direito e  Sistema Jurídico conforme o conhecemos nos nossos dias.   Para o presente trabalho, obvio que o período que verdadeiramente importa é o período de Inspiração  Romano‐Canónica,  que  subdivide‐se  em  dois  importantes  sub‐periodos,  nomeadamente  a  época  da  recepção  do  direito  romano  renascido  e  do  direito  canónico  renovado  e  a  época  das  Ordenações.  É  precisamente este último sub‐periodo o de real interesse para o desenvolvimento deste tema.    2 – As ordenações do Reino.  É frequente na Historia dos Povos a tentativa de consolidação de poderes instituídos, que possibilitam a  melhor  distribuição  da  justiça.  Principalmente,  é  frequente  esta  tentativa  de  compilar  legislações  após  longos  períodos  de  produção  espontânea.  É  por  exemplo  assim,  que  se  explicam  o  aparecimento  dos  Códigos  históricos  como  o  Corpus  Iuris  Civilis,  a  Lei  das  XII  Tábuas,  o  Código  Visigótico  (Fuero  Juzgo),  o  Código de Eurico e muitos outros.  Portugal sentiu de modo especial a necessidade de uma ordenação legislativa no início do século XV, em  consequência de seu amadurecimento  histórico.  É que na verdade, nos primeiros anos de formação do  Estado  Português  (1140‐1248),  existe  uma  característica  falta  de  Estado  estruturado.  A  Sociedade  que  surge  logo  após  o  desmembramento  do  Reino  de  Leão,  não  é  mais  que  uma  Sociedade  Militar,  em  campanha  permanente  para  a  reconquista  e  consolidação  territorial  do  seu  Estado.  Assim  sendo,  é  compreensível que uma organização administrativa e produção legislativa não sejam as principais tarefas  do  Rei.  Para  além  disso  e  segundo  defendem  alguns  autores,  esta  época  poderá  ter  sido  também  influenciada  por  uma  mentalidade  Germânica  (Código  Visigótico  ainda  vigente  em  toda  península),  que 

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defendia  o  Rei‐Juiz  e  não  o  Rei‐Legislador,  portanto  o  Rei  deve  observar  o  direito  criado  e  não  cria‐lo.  Domina  assim  esta  época  o  direito  consuetudinário  e  progressivamente  o  direito  foral  (também  designado foro municipal) nas terras reconquistadas, faltando‐lhe no entanto o carácter de generalidade  que, normalmente, é atributo da lei.   Após  a  conquista  do  Algarve  (1249),  logo  no  início  do  reinado  de  D.  Afonso  III  (1248‐1279),  Portugal  alcança  sua  definitiva  extensão  territorial.  Encerrada  a  Reconquista  inicia‐se  o  período  de  consolidação  (1248‐1495) caracterizado pela progressiva organização política do Estado Português e pela concentração  do  poder  nas  mãos  do  rei.  No  campo  jurídico  este  período  se  caracteriza  pela  influência  crescente  do  direito  comum,  recebido  num  primeiro  momento  através  da  legislação  castelhana  das  Siete  Partidas,  e  que ganha força mais tarde com os estudos realizados na recém‐fundada Universidade de Coimbra (Em  1289 D. Diniz fundou o 1º Estudo Geral em Lisboa, transferido em 1308 para Coimbra. Trazido de volta  para  Lisboa  em  1338,  ao  tempo  de  D.  Afonso  IV,  fixou‐se  definitivamente  em  Coimbra,  já  como  universidade, no ano 1354).  O  Direito  Romano,  com  seu  carácter  absolutista  e  centralizador,  serve  muito  bem  aos  propósitos  de  centralização  política  dos  monarcas  e  ao  desprendimento  da  Igreja,  e  por  isso  é  privilegiado  pela  coroa  portuguesa em detrimento dos direitos locais.   As Leis Gerais, que vinham sendo promulgadas pelo Monarcas, multiplicam‐se neste período. Por outro  lado, nas Cortes Gerais, cada vez mais frequentes, promulgavam‐se muitas respostas e decisões dos reis  sobre questões a eles apresentadas pelo povo. Essas respostas, embora não tivessem forma de lei como  passou a acontecer mais tarde, tinham força coercitiva.  Por  outro  lado,  inúmeras  disposições  dos  antigos  Forais  tinham  sido  reformadas,  diversos  costumes  mudados,  muitas  das  primeiras  Leis  e  Capítulos  de  Cortes  alterados  ou  revogados  por  decisões  posteriores.  Chamado  com  frequência  a  desempenhar  o  papel  de  árbitro  nos  inevitáveis  conflitos  de  regras, o rei intensificou sua produção legislativa, ora a favor do costume local, ora, mas cada vez mais  frequentemente, na defesa da norma romano‐canônica.   A  multiplicidade  de  normas  jurídicas  (representada  pelos  foros  e  cartas  de  foral,  pelas  disposições  do  direito romano e canónico, pelos capítulos de Cortes, leis régias, etc.), e as contradições originadas dessa  multiplicidade  (dificultando  sobremaneira  a  administração  da  Justiça),  foram  a  causa  imediata  das  Ordenações portuguesas.   Surgem, assim, as Ordenações do Reino de Portugal que representam, considerando a Europa do século  XV, esforço pioneiro de sistematização do que podemos propriamente chamar um direito nacional, fato  este que ajuda a caracterizar Portugal como um dos primeiros Estados da época moderna.       2.1 – Ordenações Afonsinas  Foi  no  tempo  de  D.  João  I  (1385‐1423)  que  se  iniciaram  os  trabalhos  de  compilação  das  Ordenações afonsinas. O Encargo foi dado a João Mendes, Corregedor da Corte, que continuou os  trabalhos mesmo após morte do Monarca, a pedido do seu sucessor, o D. Duarte (1423‐1238). No  entanto vem ele próprio a falecer pouco tempo depois, tendo sido substituído por Ruy Fernandes,  membro do Conselho do Rei. É precisamente nesta época que aparece uma primeira colecção de 

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leis, conhecida por Ordenações de D.Duarte, que juntamente com o Livro das Leis e Posturas, diz‐ se ter servido de base para a preparação das Ordenações em questão.   Estas ordenações tiveram um longo período de preparação e só terão sido concluídas em 1446, já  na menoridade de D. Afonso V, dai a designação de Afonsinas. Submetidas a breve revisão, que  reformou o texto em algumas partes, aprovou‐se a compilação por mandato régio, expresso no  mesmo Prémio.   Há  discordância  entre  os  historiadores  sobre  a  forma  de  vigência  das  Ordenações,  pelo  que  Henrique  da  Gama  Barros,  Grande  Historiador  (autor  do  Historia  da  Administração  Publica  de  Portugal  1922  –  Coimbra)  e  Governador  Civil  de  Lisboa  e  Presidente  do  Tribunal  de  Contas,  esclarece:   "os  juízes  utilizariam  as  Ordenações  não  como  uma  lei,  mas  como  uma  compilação  de  leis  de  vários  reinados,  aplicadas  na  forma  recolhida  pelos  compiladores.  A  compilação  era  um  registo  prático e autêntico dos diplomas vigentes, como a própria forma que lhe foi dada inculca.”   Quanto à sistemática  da codificação, a obra, dividida em 5 livros, parece seguir a  estrutura das  Decretais  de  Gregório  IX,  que  teriam  servido  de  modelo,  conforme  defendem  vários  autores,  podendo  no  entanto  esta  questão  merecer  análise  mais  profunda,  feita  mais  adiante.  O  Livro  I  ocupa‐se de um direito tipicamente administrativa, e traz os regimentos dos cargos públicos, quer  régios, quer municipais.   O segundo livro contempla a matéria relativa à Igreja, sobretudo quanto à jurisdição, pessoas e  bens  dos  eclesiásticos.  Trata,  igualmente,  dos  direitos  régios,  do  estatuto  dos  fidalgos,  da  jurisdição dos donatários e do estatuto dos judeus e mouros.   O  terceiro  Livro  cuida  da  ordem  judiciária,  da  regulamentação  dos  termos  do  processo,  dos  recursos, das seguranças reais.   O livro quarto regula o Direito Civil em sentido amplo, por exemplo contém determinações sobre  contratos, sucessões, tutelas, etc.   O  último,  portanto  o  Quinto  livro  enumera  os  crimes  e  as  penas,  incluindo  investigação  dos  crimes, prisão de delinquentes ou acusados, emprego da tortura nos processos, etc., portanto o  Direito Penal.  Quanto  ao  conteúdo,  as  Ordenações  recolhem  abundantes  leis  régias,  geralmente  reproduzidas  na íntegra, mencionando o monarca que as promulgou, a data e o local da sua publicação. São,  também, numerosas as respostas régias a artigos ou capítulos das Cortes. Nesses casos inclui‐se  breve  notícia  a  respeito  das  circunstâncias  em  que  se  deram.  A  compilação  mantém,  ainda,  normas  consuetudinárias  que  passam  a  valer  como  lei.  Aparecem,  finalmente,  regras  do  direito  romano,  interpretadas  pelos  glosadores  e  adaptadas  pelos  compiladores,  e  textos  do  direito  castelhano, notadamente das Sete Partidas.   Embora  a  maior  parte  das  leis  compiladas  sejam  transcritas  na  íntegra,  em  forma  narrativa,  algumas,  principalmente  em  quase  todo  o  Livro  I,  tiveram  seu  texto  reescrito,  muitas  vezes  de  forma resumida, no estilo legislatório ou decretório, ou seja, com forma imperativa, exprimindo a  vontade do Rei. Ou seja, pretendia‐se que o Rei legislasse “Ex‐Novo”. As diferenças na forma da 

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redacção do Primeiro Livro, podem ser consequência da autoria de João Mendes, enquanto que  os restantes Livros foram sistematizados por Ruy Fernandes.   Na época de promulgação das ordenações Afonsinas e visto que a imprensa tinha sido descoberta  havia  apenas  poucos  anos  (1438  por  Gutenberg),  o  texto  não  foi  impresso.  Acredita‐se  que  o  manuscrito original tivesse ficado na Chancelaria do rei D. Afonso V extraindo‐se dele cópias para  a  Casa  de  Suplicação,  que  andava  com  a  Corte,  para  a  Casa  do  Cível,  de  Lisboa  e  para  alguns  concelhos  ricos  que  tivessem  condições  de  custear  cópias  completas,  como  os  do  Porto  e  Santarém,  ou  mosteiros  poderosos  como  o  de  Alcobaça.  De  facto,  as  Ordenações  Afonsinas  só  vieram a ser verdadeiramente imprensas em Coimbra no ano de 1792.       2.2 – Ordenações Manuelinas (Código Manuelino)  Infelizmente  as  Ordenações  Afonsinas,  pelas  limitações  técnicas  da  época,  não  foram  amplamente difundidas e tiveram vida curta. É assim que D. Manuel (1495 – 1521), ensaia uma  nova  publicação  da  Ordenações,  sendo  que  terá  tido  a  necessidade  de  fazer  uma  revisão  às  Ordenações, antes de mandar imprimi‐la (a imprensa terá no entanto sido introduzida em 1487  em  Portugal).  Esta  revisão  foi  aproveitada  para  se  introduzir  a  vasta  lei  extravagante  que  no  entanto teria sido promulgada pelo seu antecessor D. João II e ainda por ele mesmo.   Dr.  Rui  Boto,  Chanceler‐Mor  da  Casa  da  Suplicação  foi  encarregado  de  tal  revisão  em  17  de  Dezembro  de  1512  é  publicado  o  Livro  I  das  novas  Ordenações,  intituladas  de  Ordenações  Manuelinas. Dois anos mais tarde os restantes Livros são publicados. Pretendia‐se com esta nova  compilação  acabar  com  certos  debates  dos  julgadores,  decorrentes  de  algumas  contradições,  defeitos e regras desnecessárias que ainda vigoravam na legislação anterior.  No  entanto,  o  furor  legislativo  da  época  continuava  em  alta  e  imediatamente  e  enquanto  as  Ordenações  Afonsinas  eram  revistas,  importante  legislação  extravagante  foi  publicada  e  D.  Manuel  decidiu  em  1521  publicar  uma  ultima  edição  revisada  das  novas  Ordenações,  esta  chamada  já  definitiva.  Temendo  que  a  proximidade  da  edição  anterior  pudesse  provocar  confusões, D. Manuel, por carta de 15 de março de 1521, determinou que fossem destruídos, no  prazo  de  três  meses,  todos  os  exemplares  da  edição  de  1514,  sob  pena  de  punir  os  transgressores.  Igualmente  a  mesma  carta  obrigou  todos  os  Concelhos  que  no  prazo  de  três  meses adquirissem essas novas Ordenações, garantindo assim uma ampla difusão dos mesmos.  Quanto a sistematização e conteúdo, Cândido Mendes Almeida explica que o Sistema das novas  Ordenações  é  idêntico  ao  das  Afonsinas.  A  matéria  encontra‐se  dividida  em  cinco  livros,  subdivididos  em  títulos  e  parágrafos,  seguindo  os  moldes  anteriores.  Quanto  ao  conteúdo,  desaparecem  tanto  a  legislação  relativa  aos  judeus  em  consequência  de  sua  expulsão  do  Reino  em  1496,  quanto  as  normas  relativas  à  fazenda  real,  que  passaram  a  formar  as  autónomas  Ordenações da Fazenda.   No  entanto  e  aqui  todos  os  Historiadores  são  unânimes,  a  maior  mudança  nestas  novas  ordenações terão sido a forma ou o estilo da redacção. Ao contrário das Afonsinas (excluindo o  Livro  I,  como  já  visto),  as  Ordenações  Manuelinas  não  são  mera  compilação  de  leis  anteriores,  transcritas  na  sua  maior  parte  no  teor  original  e  indicando  o  monarca  que  as  promulgara.  Em  geral, todas as leis são reescritas, em estilo decretório, como se de leis novas se tratasse, embora 
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não  passando  muitas  vezes  de  nova  forma  dada  a  leis  já  vigentes.  Fazendo  esse  esforço  de  abstracção  das  coordenadas  espácio‐temporais,  e  dando  à  redacção  cunho  mais  hipotético  e  abstracto,  as  Ordenações  Manuelinas  são  consideradas  por  alguns  como  precursoras  das  modernas codificações.    2.3 – Código Sebastónico, ou a Colecção das Leis Extravagantes de Duarte Nunes de Lião)  Neste  Século,  estava‐se  já  acostumado  a  necessidade  de  legislar,  visto  a  dinâmica  dos  acontecimentos. É assim que cada vez mais, legislação extravagante é publicada e entra em vigor  em paralelo as Ordenações. Assim sendo, muito rapidamente era sentido a necessidade de mais  compilações  da  lei,  tentando  a  sua  uniformidade,  bem  como  modernização.  Durante  a  menoridade de D. Sebastião, tendo em vista a confusão provocada pela abundância de novas leis  e  as  numerosas  determinações  da  Casa  de  Suplicação,  que  tinham  valor  de  interpretação  autêntica, encarregou‐se o licenciado Duarte Nunes do Leão, procurador da Casa de Suplicação,  de juntar toda a legislação extravagante e as determinações em uso, resumindo‐lhes o conteúdo.  Duarte  Nunes  compilou  as  leis  que  se  encontravam  nas  Casas  de  Suplicação  e  do  Cível,  na  Chancelaria‐mor, os regulamentos e capítulos das Cortes, fazendo‐lhes a síntese, como lhe tinha  sido determinado. A obra, adquiriu o carácter de compilação oficial em virtude do alvará de 14 de  Fevereiro de 1569 que a aprovou, conferindo‐lhe, assim, o valor de fonte de direito. A colectânea  se  compõe  de  seis  partes  que  disciplinam  sucessivamente  os  ofícios  e  os  oficiais  régios,  as  jurisdições e os privilégios, as causas, os delitos, a fazenda real e, na última, outras matérias.   Cada  uma  das  partes  compreende  vários  títulos,  cujos  preceitos  são  chamados  leis,  embora  extraídos  de  fontes  de  natureza  diferente.  As  leis  mais  extensas  encontram‐se  divididas  em  parágrafos.  Contudo, nem mesmo a publicação da Colecção de Leis Extravagantes de Duarte Nunes do Leão  (designado  por  muitos  autores  de  Código  Sebastónico)  conseguiu  evitar  que  nascesse,  aos  poucos, o desejo de realizar nova compilação à medida que se aproximava o fim do século.       2.4 – Ordenações Filipinas (Código Afonsino)  Por determinação de Felipe II da Espanha (Felipe I de Portugal, visto ser a época onde Felipe é Rei  de  Portugal),  foi  confiada  a  tarefa  de  nova  compilação  de  leis  aos  Doutores  Jorge  de  Cabedo,  Afonso Vaz Tenreiro e o próprio Duarte Nunes de Leão. Esta nova compilação terá sido terminada  em 1595, mas só terão entrado em vigor em 1603, já no reinado de Felipe III de Espanha (Felipe II  de Portugal), por uma lei promulgada a 11 de Janeiro, a qual dava o nome de Ordenações Filipinas  a esse novo código.  A posição oficial diz  não tratar‐se de obra inovadora, tendo como preocupação principal,  reunir  num  mesmo  texto,  as  Ordenações  Manuelinas,  a  Colecção  de  Duarte  Nunes  do  Leão  e  as  leis  a  esta  posteriores.  Como  factores  que  determinaram  ainda  essa  decisão  do  Monarca,  aponta‐se  para  além  da  crise  em  que  se  encontrava  à  época  a  cultura  jurídica,  a  preocupação  política  de  Felipe  II  de  não  ferir  a  susceptibilidade  dos  novos  súbitos  (Portugueses),  manifestando  assim  o  seu  respeito.  Por  isso,  a  legislação  filipina,  segundo  posição  oficial,  nada  mais  é  que  uma 
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actualização das Ordenações Manuelinas. No entanto, veremos mais a frente, que outros factores  poderão ter concorrido para a elaboração destas novas compilações.   A nova compilação acompanha o sistema das anteriores, dividindo a matéria também em cinco  livros. Também o esquema geral relativo ao direito subsidiário é mantido, mudando tão‐somente  sua  ubicação.  Poderá  parecer  insignificante  este  aspecto,  porém,  tem  enorme  importância.  Nas  compilações anteriores, o tema era tratado no Livro II, traduzindo de alguma forma o conflito de  jurisdições  entre  o  poder  temporal  ‐  simbolizado  pelo  direito  romano  ‐  e  o  poder  religioso  ‐  simbolizado  pelo  direito  canónico.  Ao  transferi‐lo  para  o  Livro  III,  consagrado  ao  Processo  Civil,  passa  ele  a  ser  encarado  como  mera  questão  processual,  de  determinação  de  critérios  para  o  julgamento das causas pendentes em juízo, superando substancialmente a ideia inicial do conflito  de  jurisdições.  Esta,  como  será  visto  mais  adiante,  poderá  ter  constituído  a  razão  principal  da  nova Codificação Filipina.  A  Revolução  de  1640  não  suspendeu  a  vigência  das  Ordenações  Filipinas.  Nesse  mesmo  ano  D.  João  IV  confirma  todas  as  leis  promulgadas  pela  dinastia  castelhana  em  geral,  e  em  1643,  especialmente,  as  Ordenações  Filipinas,  em  tudo  quanto  não  tivesse  sido  mudado  por  suas  próprias leis.   Desde  então  várias  foram  as  reformas  que  existiram  no  sistema  jurídico,  mas  no  entanto  as  Ordenações  Afonsinas  vigoram  em  Portugal  até  a  promulgação  do  Código  Civil  em  1867  e  no  Brasil  ainda  mais  longo,  portanto  até  1917.  As  ordenações  Afonsinas  são  sem  margem  para  dúvida o monumento legislativo com maior vigência em Portugal e no Brasil.      2.5 – Demais Legislação Extravagante  Em  princípio,  as  Ordenações  Afonsinas  deveriam  ter  revogado  os  demais  diplomas  vigentes  na  época,  o  que  não  aconteceu,  tendo  muito  continuado  a  abusivamente  utilizar  esses  diplomas.  Para além destes e como já visto, a necessidade de legislar trazia sempre novas leis. Essas todas  classificadas de Extravagantes, visto legislarem “por fora” das ordenações. É importante salientar  que  nesta  época,  qualquer  vontade  soberana  do  Monarca  em  produzir  efeito  jurídico  era  lei,  portanto  refere‐se  a  lei  no  seu  sentido  amplo.  Esta  legislação  extravagante  direccionava‐se  maioritariamente  à  manutenção  da  ordem  pública,  a  administração  da  justiça  e  a  cobrança  de  impostos, portanto aspectos dinâmicos da vida da sociedade, em constante evolução.  Essa  extravagancia  essa  produzida  quase  que  exclusivamente  pelo  monarca,  na  forma  de  cartas  de  lei  e  alvarás.  Existiram  ainda  um  grande  número  de  outros  dispositivos  jurídicos  de  menor  importância, no entanto cada um deles muito específico em relação a matéria que queria legislar.  Era por exemplo os decretos, as cartas régias, as resoluções, as provisões, portarias e artigos.         

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3  –  A  importância  Geral  das  Ordenações  e  as  reais  causas  que  levarão  o  seu  aparecimento.  (algumas  opiniões também contrarias aos juristas portugueses).  O que se acabou de expor é tão‐somente as razões e causas consideradas oficias e de opinião comum do  aparecimento  das  Ordenações  do  Reino  de  Portugal.  No  entanto,  conforme  mostra  a  própria  historia  e  diferentes  juristas  e  historiadores,  haverá  uma  série  de  diferentes  razões  que  concorreram  para  que  as  ordenações tomassem o rumo que tomaram.  Assim,  para  o  aparecimento  das  ordenações  Afonsinas,  não  terá  sido  apenas  a  necessidade  solicitada  pelas  cortes  de  uma  melhor  sistematização  do  Direito  para  melhor  aplicação  da  justiça,  a  razão  fundamental  que  terá  levado  D.  João  I  a  solicitar  a  dita  compilação.  Na  verdade,  o  aparecimento  das  primeiras  Ordenações  terá  sido  um  grito  patriótico  de  necessidade  de  afirmação  e  desprendimento  jurídico  do  reino  de  leão.  Era  a  necessidade  de  ter  um  Direito  próprio,  que  permitisse  a  consolidação  jurídica do Estado Português. Era também a oportunidade de consolidar a luta contra o poder da Igreja,  iniciado  com  a  recepção  do  Direito  Centralista  Justinianeu.  Assim  também,  pode‐se  perfeitamente  discordar  que  a  sistematização  das  Ordenações  tenham  seguido  o  mesmo  formato  das  Decretais  de  Gregorio  IX.  Porque  não  pensar  que  tanto  Gregorio  IX  como  os  autores  das  Ordenações  tiveram  as  mesmas influências das Escolas de Paris e Bolonha? Aliás Gregorio IX, jurista de formação nessas mesmas  escolas, é também fundador da Santa Inquisição, inicialmente chamado tribunal da inquisição, que mais  não  tenta  do  que  atribuir  conceitos  jurídicos  modernos  a  questão  eclesiástica,  com  a  perseguição  do  pecado e das heresias através de métodos jurídico‐civis.   Em  relação  as  Ordenações  Manuelinas,  as  razões  que  normalmente  se  apontam  para  a  sua  criação,  portanto a necessidade de abranger legislação extravagante é de longe insuficiente, visto ser necessário  considerar uma forte vontade do Monarca, que ao contrario de D. João I, não é a corte que lhe solicita ou  exige a nova compilação, mas é ele mesmo que decide. De facto e segundo um ponto de vista diferente  dos  juristas  portugueses,  D.  Manuel,  ofuscado  pela  prosperante  Época  das  Descobertas,  resolve  deixar  uma  eterna  marca  enquanto  Monarca,  solicitando  tal  compilação,  tão  pouco  tempo  depois  do  aparecimento das Ordenações Afonsinas.  No  entanto,  é  em  relação  às  Ordenações  Filipinas  que  a  História  comum  mais  peca,  principalmente  a  opinião  de  vários  historiadores  e  juristas  portugueses,  ao  decidirem  que  seria  apenas  a  vontade  do  Monarca  Espanhol  em  agradar  os  súbitos  portugueses,  que  teria  sido  a  motivação  e  desígnio  único  das  Ordenações Filipinas, portanto uma simples actualização das Ordenações Manuelinas. A leitura dos mais  variados extractos da história nesse período, mostra uma clara aversão a esse Monarca estrangeiro e um  exagero  na  crítica  técnica  a  essas  Ordenações  (chamadas  de  filipismos).  Na  verdade,  estas  observações  constituem autênticos insultos aos Monarcas Felipe II e III que seguiram um “nissus informativus” muito  mais  profundo  e  crucial  para  o  futuro  desenvolvimento  do  reino  de  Portugal.  Ora,  o  verdadeiro  motivo  que levou Felipe II a mandar actualizar as Ordenações Manuelinas para legislar Ex‐Novo foi a tentativa de  anulação das implicações dos decretos emanados pelo Concilio de Trento, estes completamente aceites e  proclamados no Reino por D. Sebastião. Este Concilio, um dos mais importantes da Igreja católica, mais  não foi do que um Concilio Anti‐Reforma que retrocedeu a mentalidade da Igreja para o inicio da Idade  Média.  Assim,  a  promulgação  dos  decretos  desse  Concilio  praticamente  anulam  vários  séculos  de  concordatas, atirando o Estado Português para a situação em que se encontrava D. Afonso II, portanto o  Direito  Canónico  realçou‐se  tanto,  considerando  a  legislação  civil  sem  nenhum  vigor,  sem  declaração  autentica.  Felizmente  Portugal  foi  salvo  da  Igreja  pelo  Monarca  Espanhol  Felipe  II  ao  publicar  as  Ordenações Filipinas que repunha a ordem jurídica anteriormente existente. 

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4 – Interpretação das Leis na Época das Ordenações  A  questão  da  interpretação  da  lei,  ainda  hoje  actual,  foi  legislado  por  uma  lei  extravagante  durante  a  vigência do Código Manuelino, tendo sido conservado nas Ordenações Afonsinas.   Assim, havendo dúvidas de interpretação da lei, a questão era levado a Casa da Suplicação. Ali, o regedor  do  tribunal  convocava  uma  assembleia  de  desembargadores  e  estes  fixavam  uma  interpretação  que  consideravam  a  mais  exacta.  Subsistindo  ainda  dúvidas,  a  questão  era  levado  ao  Monarca  que  decidia  então a interpretação.  As soluções determinadas eram registados no livro dos Assentos e tinha carácter de lei e com isso força  imperativa  os  casos  idênticos  do  futuro.  Assim  surgem  os  assentos  da  Casa  da  Suplicação  como  jurisprudência obrigatória.  Com a necessidade de descentralizar os poderes, principalmente os tribunais de recursos, foram criados  nas comarcas mais importantes as casas cíveis e as casas de relação, por exemplo no Porto, mas também  no  Ultramar,  portanto  Goa  (1544),  Bahia  (1609)  e  Rio  de  Janeiro  (1751).  Essas  relações  ganhavam  cada  vez mais importância e relevância, tendo eles mesmo exigido a faculdade de criar assentos. Obvio que tal  pratica veio a gerar enorme confusão e certa promiscuidade, que só veio terminar com a publicação da  Lei  da  Boa  Razão  (1769),  que  restabeleceu  a  faculdade  da  criação  de  assentos,  apenas  à  Casa  da  Suplicação, já sediada em Lisboa.    5 – Direito Subsidiário na Época das Ordenações  Como em qualquer ordenação jurídica, e por conseguinte, mas também especialmente nas Ordenações  do  Reino,  por  razões  óbvias,  haverá  sempre  a  problemática  da  integração  das  lacunas  da  Lei.  O  Direito  subsidiário  é  sempre  um  sistema  de  normas  jurídicas  que  é  chamado  para  colmatar  lacunas  em  outro  sistema de normas. Como também é óbvio, nas Ordenações era necessário este expediente.  É  precisamente  na  Ordenações  Afonsinas,  onde  pela  primeira  vez  na  história  jurídica  portuguesa  se  estabelece um quadro sistemático de utilização das fontes de direito, mais propriamente no Livro II titulo  9.  Ali  colocam‐se  no  mesmo  plano  as  Leis  do  Reino,  os  Estilos  da  Corte  e  os  costumes  antigamente  usados.  Estas  seriam  então  as  fontes  imediatas.  Só  quando  não  fosse  possível  “resolver”  recorrendo  a  essas fontes, seria licito recorrer ao direito subsidiário, que hierarquicamente previstas funcionavam  da  seguinte forma.  Na  falta  de  direito  nacional,  que  seria  representando  por  lei,  estilos  da  corte  ou  costume,  passaria  a  recorrer‐se ao:  a) Direito Romano em questões de matéria temporal   e  b) Direito Canónico, em questões de matéria espiritual (pecado).  C) Glosa de Acúrcio e Opinião de Bartolo. A estes recorria‐se quando não fosse possível resolver o  caso apenas com os Textos do Direito Romano e do Direito Canónico.   d) Resolução do Monarca. Esgotando todos os elementos acima descritos, impunha‐se então uma  consulta ao Rei, que ao resolver, impunha essa resolução para todos os casos futuros. 
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Estas determinações passaram‐se para as outras Ordenações, no entanto com alterações, não de forma,  mas  de  enquadramento.  Sabiamente  nas  Ordenações  Filipinas,  a  problemática  do  direito  subsidiário  passou a ser disciplinado no Livro III (âmbito de processos), em vez de  no livro II, que definia a relação  entre  o  Estado  e  a  Igreja.  Assim  rompeu‐se  sabiamente  a  problemática  anteriormente  existente  e  que  causava um conflito de jurisdição entre o poder temporal (Estado) e o poder espiritual (Eclesial).     6 – Publicação e Vigência das Leis na época das Ordenações  Sobre  a  publicação  e  vigência  das  Leis,  só  com  a  segunda  Ordenação,  portanto  as  Manuelinas  é  que  o  tema  é  abordado.  Aqui  atribui‐se  ao  Chanceler‐Mor,  que  era  o  intermediário  entre  o  Rei  e  os  súbitos,  também a tarefa de gerir a publicação das leis e o seu envio aos corregedores das comarcas. Assim, ficou  determinado em 1534 que a publicação de leis se fizesse no mesmo dia da emissão dos mesmos. Durante  algum tempo manteve‐se essa prática e os tribunais das comarcas mantinham livros de registos de leis,  onde as novas leis eram registadas entrando assim em vigor.   Com  a  invenção  da  imprensa  e  facilidade  que  esta  técnica  oferecia  para  a  divulgação  das  leis,  providenciou‐se  sobre  a  vigência  das  leis,  dizendo  que  todas  as  leis  teriam  eficácia  em  todo  o  Pais,  decorridos três meses sobre sua publicação na chancelaria, independentemente de terem sido publicados  ou não nas comarcas.  Mais tarde, ainda durante as Ordenações Manuelinas, reduziu‐se o tempo geral da “vacatio legis” para 8  dias,  enquanto  que  na  corte  era  de  entrada  em  vigor  imediata.  As  ordenações  Afonsinas  conservaram  esta directiva.  No entanto e devido as dificuldades para as leis atingiram os territórios no ultramar, estabeleceu‐se em  1749,  que  as  leis  apenas  tornassem  obrigatórias  para  esses  territórios  depois  de  publicados  nessas  comarcas.    7 – Fontes Internas e Externas das Ordenações.  Muito obvio que cada uma das Ordenações posteriores teve a anterior como principal fonte interna. No  entanto,  cada  uma  dessas  ordenações  teve  como  fonte  interna  as  decisões  da  corte,  as  leis  gerais,  as  municipais  (forais),  os  costumes  e  o  direito  consuetudinário  em  si  e  ainda  os  assentos  da  casa  da  suplicação.  Como  fontes  externas,  há  que  considerar  o  Código  Visigótico,  a  Lei  dos  Estilos,  as  Leis  da  Partidas,  o  Direito Romano e o Direito Canónico.           

Historia do Direito – Universidade Lusófona de Cabo Verde – Época das Ordenações – Carlos Ferreira Santos – Patrícia Estêvão 

 

8 – Parte conclusiva da Época das Ordenações.  Com  o  presente  trabalho  foi  possível  demonstrar  a  enorme  importância  da  época  das  ordenações  no  desenvolvimento geral do Direito Português. Terá sido a época onde mais produção e desenvolvimento  jurídico existiu, em toda a história do direito português. É também a época que permitiu a consolidação  do Estado Português, que uma vez separado do Reino de Leão por guerra, necessitava também de uma  independência  a  nível  do  direito.  Terão  sido  assim  as  primeiras  ordenações,  as  Afonsinas,  uma  exclamação  patriótica  de  libertação.  Ao  mesmo  tempo  que  a  época  das  ordenações  contribui  para  a  solidificação  do  Estado  Português,  ela  implementa  os  primeiros  pilares  para  um  Estado  com  um  Direito  verdadeiramente Moderno. É que as Ordenações precederam os actuais Códigos Civis de Portugal (1867)  e do Brasil (1917).  Na  Historia  do  Direito  Português,  pode‐se  afirmar  que  as  Ordenações  Afonsinas  terão  sido  o  maior  monumento  jurídico  de  toda  a  sua  história,  enquanto  que  as  Ordenações  Filipinas  terão  sido  o  monumento jurídico com maior vigência até a presente data.  Ao contrário do que contam vários historiadores europeus, talvez pela fraca divulgação das ordenações  Afonsinas  (questão  da  invenção  da  Imprensa),  Portugal  poderá  ter  sido  o  primeiro  Estado  jurido‐ moderno, portanto o primeiro Estado a apresentar uma codificação jurídica completa.   É portanto esta a importância das Ordenações do Reino, que para um bom entendimento do Estudo do  Direito, carácter crucial assume.      Bibliografia  Almeida Costa, Mário Júlio – Historia do Direito Português  Caetano, Marcelo – Historia do Direito Português Sex. XII – Sec. XVI  Martins, José Isidoro – Historia do Direito Nacional (Brasil)  Mendes Almeida, Cândido – Introdução a Historia do Direito Português (1870)  Herculano, Alexandre – Historia de Portugal  Pieroni, Geraldo – A Pena do Degredo nas Ordenações do Reino  Sites Internet: wikipedia, Jus Navigandi, etc.            Carlos Ferreira Santos                                      Patricia Estevão 

Historia do Direito – Universidade Lusófona de Cabo Verde – Época das Ordenações – Carlos Ferreira Santos – Patrícia Estêvão 

 

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