Dez Mentiras Sobre a Performance Arte – Parte 1 [...

] acreditamos que o esquecido é o ser dois (être deux), o entre dois onde a cada um é dado o direito de ser e de ser com. É um pensar e fazer o mundo como algo que se dá entre, entre pessoas, entre sensibilidades, entre seres humanos, entre subjetividades fluídas. “O mundo sensível, que não é o da idéia e também não é o do olhar, mas é aquele do corpo inteiro acontece em performance, seja no vivo ou ao vivo.. O mundo sensível é o meu corpo, o meu corpo inteiro que me deixa experimentar o sensível, mas também entende, reage, despreza e roí as unhas.” M aria Beatriz Medeiros Para inverter crenças e aliviar os enganados sobre o que é, poderia ser ou viria a ser afinal de contas a performance arte, iniciamos aqui a coluna “Por Que Performance?”. Você que começa a ler seja bem vindo para finalmente parar de fazer longas pausas e gaguejar sempre que assistir e comentar uma performance, ou mesmo para erradicar os silêncios estranhos quando alguém comenta: “Isso tem a ver com performance, não é?”. Então, sem mais delongas, vamos às dez mentiras mais comuns sobre performances, sempre ouvidas em grupos que conversam sobre esta arte, algumas mais absurdas e obviamente desinformadas e outras simplesmente enganadas sem noção disso.

“Imponderabilia” (1977) de Marina Abramovich.

# Mentira Um – “A performance é aquela coisa com um monte de gente pelada”. Ao contrário do que muitos pensam a performance arte não depende da nudez, e esta não é pré-requisito para sua identificação. Devido ao fato de sempre ter envolvido em

# Mentira 3 – “Entendi nada! Pensei que fosse uma coisa. contudo nem sempre esta estratégia se faz necessária. ou seja. por exemplo. Assim embora a nudez seja utilizada como recurso para pensar o corpo. e a compreensão do espectador é fundamental. Nos estudos teóricos da performance a audiência se encontra no campo da recepção do trabalho. “Merda de Artista” (1961) e “Escultura Pneumática” (1958) de Piero Manzoni. Performance arte não é nenhum mistério para letrados. e a opinião de ninguém mais interessa. Essa brincadeira de “é arte porque eu digo que é”. onde a compreensão do espectador é fundamental para a proposta do artista. geralmente está associada a uma crítica ao circuito de arte comercializado. é uma arte como as demais. e nas ocasiões em que é utilizada deve ser pensada como componente de significados da proposta artística. dos ready-mades de Marcel Duchamp. todavia não se confundam. Esse é um caso mais claro de mentira por engano. Para o espectador da performance não . Não ocorre algo que se denomine de performance sem que haja uma compreensão e reflexão do público sobre as questões tocadas pelo artista. Da esquerda para direita. para a performance comunicar é importante.suas reflexões questões sobre o corpo e suas práticas sociais. # Mentira 2 – “A performance é uma coisa que não se explica. não há performance porque eu digo que é. sobretudo quando não concerne a proposta do trabalho do performer. não tem sentido”. Esta proposta. De longe uma das mentiras mais comuns. participam e criam um sentido para a ação) é o local de maior importância para performance. mas quando fui discutir com o artista estava tudo errado”. e é conceito sério na criação. no caso da performance. a performance utilizou e utiliza a nudez como recurso para discuti-lo em seu estado mais orgânico. não é uma “roupa” da performance. como “A Fonte” e “O Urinol”. ou ao próprio domínio das artes visuais e à alcunha e poder do curador. Este campo da recepção (daqueles que observam. já virou performance e das mais conhecidas com Piero Manzoni. Não há performance para o artista.

da dança e. mesmo que diferente dos demais pontos de vista. a performance ficou por muito tempo ligada as formas de leitura deste. não se desfaça tão rapidamente da sua compreensão. “Como Explicar Arte Para uma Lebre Morta” (1965) de Joseph Beuys. mas não inocente. criado por Alan Kaprow. é um recurso hoje muito comum nos palcos de teatro. A afirmação do artista de qual seria a leitura que tem sobre a proposta apresentada não anula todas as demais. compartilhe e discuta. a chegada a qualquer sentido para o que se vê. envolvimento do espectador na construção da ação na cena. Desde que com base nos elementos que constituíram a ação.Portanto. se não tiver não é”. # Mentira 4 – “Na performance tem que ter interação. A interação. não está incorreta. e talvez um dos maiores empecilhos para que esta compreensão aconteça seja a própria crença de que ela é bobagem e que nas discussões após a apresentação é melhor fugir ou permanecer apenas ouvindo em silêncio. o que há é uma pluralidade de indivíduos e compreensões possíveis diante da cena. pois ela é uma fonte de enriquecimento da performance realizada. tinha como uma de suas condições . Uma mentira comum. Na mentira anterior falamos da importância da compreensão do espectador para a performance. Devido a uma descendência do happening. “Perra” (2005) de Regina Jose Galindo. claro. também da performance.há entendimento errado. Explico-me: o happening. entretanto não é essencial para que se possa denominar de performance um trabalho artístico.

provavelmente ao escrever “performance” ele vai sugerir sua substituição por “desempenho”. a arte do “acabado de formar”. Mas não. ela é advinda do verbo da língua inglesa to perform que deriva possivelmente de duas formas latinas. “acabado de formar”. na presença do corpo artista. que participa sim da performance em outras vias. Embora pareça absurda. se observarmos que de fato a tradução da palavra “performance” do inglês para o português é “desempenho”. depende das reflexões daqueles que testemunham sua realização para se efetivar. pensamento da cena e do campo artístico. por se constituir numa arte que se realiza ao vivo. “dar forma”. inclusive se você estiver trabalhando no editor de textos Word. dependendo da participação física do público. Porém. mas grande influenciadora pelas suas formas de experimentação. a primeira formare. e a segunda performatus. . por exemplo. Justamente aí talvez o leitor possa observar uma significação mais interessante de “performance arte”. vamos refletir um pouco mais e procurar a raiz etimológica da palavra performance. e como falei é uma forma independente da performance arte. “Piedad post-Colonial” (2006) Guillermo Gomez Peña. constituindo compreensões e reflexões distintas para o trabalho através de sua forma de pensar a proposta do artista. como dito anteriormente. Não está de toda incorreta a afirmação. # Mentira 5 – “A palavra performance vem do inglês e que dizer desempenho. não é necessário que toda performance tenha caráter interativo.essenciais a participação do público. e que. Uma mentira mais fácil para concluir a primeira parte das dez mentiras sobre performance. a frase acima já foi pronunciada por sujeitos que explicavam a outros a performance arte. Logo performance arte é a ‘arte do desempenho’”.

tem por base no grupo citado a desconstrução de uma imagem social do corpo. Para além do objetivo da ação claramente não ser apenas chocar. ou seja.# Mentira 6 – “Esse é o problema da performance. especificamente na sociedade vienense. o performer tem sempre essa coisa de chocar público”. como discutimos ao falarmos da mentira sobre o entendimento do público. Essa é uma mentira de prestígio dentre as listadas aqui. Passeio Vienense (1965) de Günter Brus. por exemplo. mas expor um corpo pensado além das aparências e imposições sociais e políticas. nesse período de construção de suas práticas como linguagem a performance abrigou processos criativos marcados por uma forte violência em determinadas ações desenvolvidas por artistas. algo pontual”. # Mentira 7 – “Performance tem que ser algo curto. Em segundo lugar é preciso lembrar que a performance busca promover a reflexão sobre determinadas questões e produzir discussões sobre seus status. Todavia deve-se compreender que este “choque” causado por meio da violência realizada pelo e no corpo. demarcaram uma tendência observada também em trabalhos de outros artistas nos anos seguintes. é preciso reforçar em primeiro lugar que nem todo trabalho de performance segue tais direcionamentos. performance tem que chocar. marcada no referido período por fortes tendências políticas fascistas e grande conservadorismo elitista. como. Comece pensando que a história da performance remete a década de 1960 (quando os artistas passam a denominar amplamente sobre esta alcunha trabalhos de sua autoria). existindo na performance arte diversas formas de manifestação que produzem estéticas próprias numa linguagem artística compartilhada. pois sua repetição parece tê-la tornado um fato que não pode ser desmentido. os Acionistas Vienenses. . O grupo de performers Acionistas Vienenses ao operar ações em performance. consideradas chocantes em seu tempo e ainda hoje.

como sugere o próprio nome. e aparentem ser uma forma temporal ligada a performance arte. # Mentira 8 – “Performance é arte visual”. motivo pelo qual muitas vezes a performance apresentada por determinado artista está inclusa num evento com mais performances ou mais atrações de outras ordens. através da expansão no tempo de uma ação ou situação simples. Sim. Linda Montano e Marina Abramovic realizam em seus trabalhos. as performances. pois dentre os diversos elementos com os quais lida. Como em Time Clock Piece. Esta carência de espaços abertos especificamente para propostas em performance faz com que muitas vezes apenas ações pontuais acabem se tornando possíveis. / “Performance é arte cênica”. na qual o performer bate o ponto em um relógio a cada hora e sempre que o faz retira uma foto de seu rosto. operações que levam a repensar a relação entre a arte e a vida. Artistas como Tehching Hsieh. esta aqui trata de um engano provocado muitas vezes pela ausência de espaços para a apresentação de performances. assim como questionar as práticas que constituem o corpo ao sintetizar e explorar exaustivamente estas. a performance talvez tenha tornado justamente o tempo uma idiossincrasia muito interessante de se investigar no transcurso de sua história. ações desenvolvidas hora após hora por um ano. uma mentira. Apenas a título de exemplo.Time Clock Piece (1980-1981) de Tehching Hsieh. o performer Tehching Hsieh desenvolveu entre 1978 e 1986 projetos reunidos sobre o título geral de One Year Performance. tem duração de um ano inteiro. . Uma mentira mais simples do que a polêmica anterior.

ou como obra em si.Os editais voltados para a arte no país parecem dar voltas ao redor desta questão. uma arte nômade. nem outro. que está presente nas origens do teatro ocidental. outros também encontram nas construções de um teatro ritualístico. # Mentira 9 – “Performance é interessante porque é algo que você pode apresentar onde puder e quiser”. Uma mentira comum. Dadaísmo e Bauhaus. Acho interessante ao leitor observar então perspectiva de Maria Beatriz de Medeiros: a idéia de que a performance é uma ciência nômade. através da entrada do corpo do artista como parte da obra. a performance se desloca e flui. Embora alguns apontem a origem da performance nas artes visuais. que usam códigos múltiplos. para alguns a performance está contemplada como arte visual e não cênica. Futurismo. sobretudo no campo da produção de eventos culturais. se compondo por processos híbridos. que remontaria inclusive as vanguardas artísticas. se valendo de estratégias das artes visuais e cênicas para comunicarem o que desejam. a idéia de que uma mesma performance pode se . e ao mesmo tempo uma dúvida complexa: afinal performance é arte visual ou arte cênica? Respondo com uma esquiva. Uma mentira gêmea. para outros ocorre ao contrário. Na compreensão de Bia Medeiros. não se permitindo estagnar sobre determinado título ou nomenclatura por muito tempo.Toilette (2009) de Pilar Albarracín. a origem da performance. nem um. Devido a escassez de espaços de apresentação já comentada esse foi outro mal-entendido que se transformou em aparente fato.

o espaço é parte da ação e daquilo que esta enseja comunicar.The Great Wall Walk (1988) de Marina Abramovic # Mentira 10 – “Performance se faz assim. ou seja. a idéia de que o público produz sentidos sobre a ação que vê. The Lovers . Máscara Abismo (1968) de Lygia Clark Para encerrar cordialmente este mantra de mentiras escolhemos essa aparentemente .apresentar em qualquer lugar. Como discuti antes. o que tiver a mão”. com qualquer material. o espaço na maioria das performances atua como contexto de leitura própria a ação que nele se realiza. se dá não apenas segundo a referência ação isoladamente. Mesmo que determinadas propostas se abram a esta prática de itinerância. mas se produz junto a um contexto. e é desviado pela ação a pensar criticamente com relação a questões que tinha como postas. um lugar de onde o corpo do performer diz.

Essa relação de leitura parece muito própria da capacidade dos artistas latinos de reinventarem significados para objetos comuns. se muitas vezes vemos numa performance materiais comuns no dia-a-dia como fita adesiva. Assim. Os materiais são escolhidos pelo que comunicam nas relações buscadas pelo corpo do performer. pregadores. são aspectos que compõem o seu processo comunicativo.tão inofensiva. Os materiais da performance. . que movimentos ou conceitos este possibilita em relação com o corpo. não significa necessariamente que a performance se faz com qualquer material. não apenas porque são de fácil acesso. entre outros. frutas. embora possa se valer dessa escolha estética de composição da ação a ser apresentada a performance não se utiliza apenas de materiais baratos ou acessíveis. busca muito mais entender as políticas implicadas em cada objeto. mas observe que quando se trata de performance parece que temos de passar ponto a ponto para explicarmos uma idéia simples. papel filme. ou seja. afinal existem performances de tremendo rebuscamento de materiais. Sei que encerrarei me repetindo. assim como o espaço onde esta se realiza. uma espécie de forma distinta de arte povera. como os conhecidos Hélio Oiticica e Lygia Clark. o que ele significa.