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Diálogo entre um filósofo pós-moderno e uma imagem de São Francisco

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Diálogo entre um filósofo pós-moderno e uma imagem de São Francisco (Ensaio de iconologia sobre esculturas de Marco Aurélio dos Santos). Carlos Alberto Dias, 2002 Filósofo e artista plástico. “Nobile claret opus, sed opus quod nobile claret Clarificet mentes, ut eant per lumina vera Ad verum lumem, ubi Christus janua veras.”. Abade Suger de Saint Denis. 17 horas. Exausto encerro a aula. Despacho as praxes burocráticas do ofício. Saio às ruas. O relógio marca 17h23m. 21°C. Deixo me levar pelo doce flanar baudeleriano. A cabeça cheia de pensamentos. A aula parece não ter sido boa. O soar dos sinos me desperta. 18h. Paro diante do templo. Contemplo sua fachada. Os olhos embotados pelos diversos pensamentos parecem não ver. O rumor das ruas e das multidões espelha-se na confusão da mente. Transpassei o átrio e um silêncio repentino produziu estranha calma vazia. Do largo portal as figurações pareciam contemplar-me. Temeroso, retardei o passo. Mal adentrei o interior inobservado, e o coração se encheu das diversas cores de todo modo variadas que preenchem os altares e capelas. Os olhos não podiam decidir o ponto sobre o qual primeiro fixar o olhar. Os tetos floresciam como vestes adornadas. As paredes refiguravam a paixão. Contemplei os feixes de luzes que penetram através das janelas, admirei-me do inestimável esplendor do vidro e da variedade preciosa das diversas obras. Da variedade dos metais, da ornamentação do ouro e da prata, das gemas e dos marfins. Da sutileza das pedras e das madeiras. Do refinamento do barro modelado. O cheiro da fumaça do incenso inebriava-me. O silêncio dos cânticos se espalhava pelo templo absorvendo-me inteiro. O olhar seguiu um feixe de luz branca que descia do alto e iluminava a imagem de São Francisco. Enlevada pelo deleite das formas vigorosas e ritmos sutis que modelavam aquele barro, perfeitamente preparado, a sensibilidade perscrutava esta imagem que comovia a alma pelo que sua história instruía. São Francisco de Assis com seu hábito rústico amarrado à cintura por grosso cordame de duas voltas que, junto com o passo adiante da perna direita, define os ritmos geométricos das dobras e drapejados da vestimenta. Os semicírculos pendentes dos ombros definem a gola vincada na frente por dois arcos que emolduram o pescoço e concordam com o movimento da cabeça e com o sorriso nos lábios. Semicalva a cabeça se reclina para a esquerda. Olhos cerrados. O sorriso nos lábios vinca as linhas de expressão em torno da boca e fazem saltar as maçãs do rosto. Bigode, cavanhaque e os tufos de cabelos terminam por delinear os caracteres deste velho com traços joviais e quixotescos. Do braço direito, envolto por drapejado serpenteado, pende a enorme mão de grossos dedos e juntas exageradas. O braço esquerdo, igualmente serpenteado pelo drapejado, curvando-se na altura da cintura precipita-se para frente mostrando a mão de dedos finos curvados para trás. Da mão pende a lanterna acesa. Lanterna em tudo semelhante à lanterna de Diógenes, o cínico. Abrupta esta figura, ênfase hiperbolizada pela desproporção e disposição central, interrompe o

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Compus canções. Tu também quiseste renegar tudo? . meti-me em algumas aventuras cavaleirescas. pela leviandade. pela bebida.Tu. como meu pai. Francisco. pelas fabulações supervazias.Aqueles. . pela curiosidade. cantando aos seus companheiros a perfeita alegria da vida humilde.htm (2 of 4) [31/7/2010 19:51:23] . pelos perjúrios e outras ações que afastavam a mim e os meus dos olhos de Deus. lancei meus discípulos vestidos com uns trapos e as mãos vazias para viverem junto dos pobres. exagerando o exemplo socrático. Tu também mendigaste para constranger os teus? . Entristecido pelo ócio. pelos combates. trabalhando nas herdades e nas oficinas. à minh’alma falou o Cristo crucificado. como Jesus fizera com os seus.Inquietações agitaram minh’alma. renegaram a família. respondeu-lhe Diógenes.Que fazes. . por acaso ou por obras.Tocado pelo gesto de Pedro Valdo.Depois de ouvirem os nobres ensinamentos de Sócrates.Procuro um homem justo.Que fazes.Diálogo entre um filósofo pós-moderno e uma imagem de São Francisco enlevo da alma e nos devolve ao pensamento: São Francisco de Assis. pois aceitaste que o manto cardeal da igreja te cobrisse. não renegaste toda instituição humana.Tornei-me humilde servidor dos servidores de Deus e desposei uma dama: Dona pobreza. pelas futilidades. Diante da imagem modelada por Marcos Aurélio dos Santos poderíamos igualmente perguntar: .Vivestes e gozaste os luxos e as glórias das cidades toscanas como os nobres atenienses gozaram as glórias de Atenas? . alma tão diferente de ti nos propósitos e fins? file:///D|/CARLOS/FICÇÕES/Diálogo entre um filósofo pós-moderno e uma imagem de São Francisco1. mesmo nu diante de teu pai.Eu. . com a lanterna de Diógenes na mão? Foras.Então porque segurou a lanterna daquele Diógenes. um cínico? Que estranha disposição de figuras e lugares permitiria tal associação de significados? Qual perene atributo de alma poderia unir a história destes dois homens. tão distantes no tempo? Sabemos por obras e histórias que certa feita um cidadão ateniense encontrou Diógenes e com ele teve o seguinte diálogo: . com esta lanterna acesa na mão a plena luz do dia? . tornei-me jogral de Deus. . entreguei-me às alegrias da vida cortês.Aqueles cães vadios abraçaram a pobreza para nos ensinar a desprezar os reinos dos homens neste mundo. despi-me e depus aos pés de meu pai minhas vestes. pelos sacrilégios. tornaram-se inimigos de toda hierarquia e toda distinção social. . a propriedade e o Estado. Diógenes.Jovenzinho. Comerciei tecidos. cão vadio como o discípulo daquele Antístenes que freqüentara os círculos socráticos e fundara o sítio de Cinosargo para afastar a si e os seus da luxuriante Atenas? .Não deixei de cantar. pelas luxurias. aqueles cínicos perambularam descalços como mendigos constrangendo os atenienses. . . meus adornos e meus dinheiros. .

mereceu participar do Seu engenho e de Seu conselho. Rogério. é a mesma Luz que brilhou no Espírito daquele irmãozinho de Ilchester. – buscaram domar volições e desejos artificiosos. que a piedosa devoção dos fiéis não esqueça as provisões legadas a nós por nossos predecessores. Donatário de prerrogativa recusada aos outros. às aves do céu. ódio! .Os favores de Deus são abundantes para todos. Animado pela inspiração divina.conheça a ti mesmo. Liberto do corpo. às sendas que passam. A industria humana apropriando-se desta capacidade transmitiu-a através dos tempos até os dias predestinados da religião cristã. que é o conhecimento do supremo bem.Simplesmente vivi pelos campos da Úmbria e todas as belezas criadas me acompanharam em alegre cortejo. viveste jubilante. vivi a gloriosa liberdade prometida a todos no filho de Deus. Às águas que correm. portanto.Acolhendo a natureza toda na criatura permitiu que aquele mesmo manto cardeal que um dia te cobriu domasse também as antigas crenças pagãs que se alimentavam do poder das forças agrestes. revelada. aos ventos e à morte.Ensinaram a virtude que é universal.Diálogo entre um filósofo pós-moderno e uma imagem de São Francisco . De Irmão e irmã chamava todas as criaturas. Venceram. levando-o a ensinar a todos os homens os primeiros passos da verdadeira ciência sobre as criaturas. com teu exemplo. sem ser específicos para ninguém. .Ao buscarem viver segundo o preceito socrático .Esta Luz. .Pagãos! Viveram na ignorância da Lei mosaica. que brilhou na alma de Diógenes e o guiou no caminho do conhecimento da natureza. dignificado pela sua excelência.Em tua vagabundagem lírica pelos campos da Úmbria.No seu imenso amor pelas criaturas. penetrava o segredo de todas as criaturas. . às vinhas e às hortas semeadas.Homens de vida simples buscaram na observação da natureza criada inspiração para ensinar o homem universal vivendo em igualdade com todas as criaturas. Cada criatura era para ti um sinal do poder e da bondade do criador.Panteístas! Dissolveram Deus na natureza. aos fogos dos engenhos. .htm (3 of 4) [31/7/2010 19:51:23] . Se visse uns campos incrustados de flores. . É justo. adquiriu prerrogativas sobre todas as criaturas. logo os exortava ao louvor do Senhor. . negligenciaste o vôo da coruja de Minerva? . . . Aqueles cães.Amantes da simplicidade intuíram Deus único. minhas irmãzinhas.Fostes puro amor. Buscaram a felicidade na vida virtuosa. as heresias cátaras.O que poderíamos aprender daqueles cães que pareciam amar tanto a si mesmos que desprezaram o próprio corpo? . por acaso. ao sol e à lua. . . às terras incultas.Lemos no exórdio da criação do mundo que o homem foi feito a imagem e semelhança de Deus.A lanterna de Diógenes que o escultor colocou em minhas mãos é o índice da perene Luz que. cheio do espírito de Deus.Aqueles? A quem aprendemos a desprezar por desprezadores da sociedade humana? . Francisco. dotado de razão pela Divina prudência. a tudo exortava ao amor e à obediência a Deus. . iluminara todas as criaturas. . file:///D|/CARLOS/FICÇÕES/Diálogo entre um filósofo pós-moderno e uma imagem de São Francisco1.

htm (4 of 4) [31/7/2010 19:51:23] .(.)? file:///D|/CARLOS/FICÇÕES/Diálogo entre um filósofo pós-moderno e uma imagem de São Francisco1..Diálogo entre um filósofo pós-moderno e uma imagem de São Francisco ..