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----------------------- Page 1----------------------Alétheia - Revista de estudos sobre Antigüidade e Medievo.

Volume 1, Janeiro/Julho de 2009 - ISSN: 1983-2087

JUSTIÇAS ARCAICAS: OS CONCEITOS DE (IN)JUSTIÇAS NOS 1 ‘TRABALHOS E OS DIAS’ DE HESÍOSO . 2 Dênis Corrêa . Resumo: o artigo analisa as concepções de Justiça (díkē - δίκη) no poema “Os Trabalhos e os Dias” de Hesíodo, século VIII antes da nossa era. No contexto de quebra

de soberania e crise social da Grécia Arcaica, o poeta realiza a crítica do processo jurídico, que era então privilégio nobiliárquico do s reis-juízes (Basileús - βασιλ Abordando o campo semântico do conceito de Justiça no poema, procura-se r ealizar uma revisão bibliográfica do tema, bem como uma nova experiência de leitura da Justiça Arcaica. Palavras-chave: Hesíodo – Justiça – Grécia Arcaica. Se perguntassem: “O que é Justiça? O que é o justo?”, para Hesíodo, poeta beócio do século VIII antes da nossa era, certamente a resposta seria co mplexa, ambígua, e ao mesmo tempo enraizada nas concepções religiosas e sociais do seu tempo. O presente artigo aborda a representação do direito arcaico, e/ou de uma filosofia da justiça na obra hesiódica, e a ambigüidade e ambivalência dessas justiças cantadas por Hesíodo. Logo, propõe realizar uma revisão bibliográfica do tema, e também uma nova experiência de leitura da semântica das justiças arcaicas. a delinear a crítica realizada pelo poeta ao processo jurídico arcaico: “Ó Perses! Mete isto em teu ânimo: a Luta malevolente teu peito do trabalho não afaste

O cenário, construído por Hesíodo para expor sua noção de Justiça, começ

para ouvir querelas na ágora e a elas dar ouvidos. Pois pouco interesse há em disputas e discursos para quem em casa abundante sustento não tem armazenado na sua estação: o que a terra traz, o trigo de Deméter. 3 (Os Trabalhos e os D ias , 27-32). 1 O presente artigo é uma versão revisada urso defendido no final de 2008, sob orientação do Prof. deral do Rio Grande do Sul. Agradeço também ao apoio do Prof. 2 Graduando em História pela Universidade @gmail.com. 3 Todas as citações referem-se à tradução de Mary Ca margo de Neves Lafer, São Paulo: Iluminuras, 2002. Os grifos são meus. e abreviada de um trabalho de conclusão de c Dr. Francisco Marshall, na Universidade Fe Dr. José Augusto Costa Avancini. Federal do Rio Grande do Sul, dniscorrea

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Na série de admoestações que ele faz ao seu suposto irmão Perses, o aedo censura o péssimo e oportunista hábito de espreitar as querelas da ágora para proveit o próprio. A ágora do período arcaico – espaço de pacificação de conflitos através soberano julgamento do rei-juiz – é representada por Hesíodo enquanto antro de ambiciosos que procuram a malevolente Luta (Éris) das disputas e discurs os como modo de satisfazer suas ambições, ao invés da benevolente Luta do camponês, ao produzir, através do trabalho, o trigo de Deméter. Fartado disto, fazer disputas e controvérsias

Janeiro/Julho de 2009 .” (Id em. 2003. são as melhores.Revista de estudos sobre Antigüidade e Medievo. se nomeia no seu próprio canto. e declara a única forma de r emediar tal odiosa s ituação: a resolução da contenda através das “retas sentenças que de Zeus são as melhores”.18-9). porém. Volume 1. É esse princípio que agrega num só poema mitos e fábulas (como o de Prometeu e das Cinco Idades) com os problemas da pólis e.contra bens alheios poderias. 205-7). Já dividimos a herança e tu de muito mais te apoderando levaste roubando e o fizeste também para seduzir reis comedores-de-presentes. A temática da Justiça é sempre retomada. revelando-se um intermediário entre a épica homérica (por composição em hexâmetros e sob inspiração das líricos e musas) e as tradições posteriores de logógrafos. mas sim os reis-juízes: “Agora uma fábula falo aos reis mesmo que isso saibam” (Os Trabalhos e os Dias. através responsáveis pelo de reis comedores-de-presentes julgamento do litígio. uma disputa pessoal de Hesíodo pela herança paterna com seu irmão Perses. que este litígio querem julgar. que se nomeia no próprio texto (ver também TORRANO. Decidamos aqui nossa disputa com retas sentenças. Hesíodo. numa inovação poética. até mesmo. 33-39). 202 e seg. Essa questão “pessoal” do poeta com seu irmão é entremeada por mitos e fábulas que conjuntamente compõem o poema. onde a evocação das substituída pelo “eu” ajuizante do autor.Page 3----------------------Alétheia . Sempre tendo como pano de fundo a questão da reta Justiça. o aedo acusa seu irmão de roubar na partilha da herança.ISSN: 1983-2087 . p. que. 1999. decorrendo d aí a ----------------------. de Zeus. Mas não haverá segunda vez para assim agires.). embora de fato nunca tivesse sido deixada de lado. o alvo do discurso críti co não é mais somente o próprio Perses. poetas historiadores cujos proêmios se articularam em torno de um princípio onomasiológico (segundo terminologia musas é de PIRES.

Como um aedo de temática predominantemente agrícola consegue formar toda uma engenharia de significados para desqualificar re isjuízes – que representam a forma histórica da práti ca jurídica da época – em nome de uma reta justiça proveniente de Zeus. mas sim a forma de uma densa e complexa ética jurídica. arrastada por onde a levam os homens comedores-de-presentes e por tortas sentenças a vêem! Ela segue chorando as cidades (pólis) os costumes dos povos [vestida de ar e aos homens levando o mal] Que a expulsaram e não a distribuíram retamente”. não só sobre os reis. a quem esses mesmos reis-juízes dev eriam representar entre os mortais? A proposta consiste em compreender como os conceitos que envo lvem esse vocabulário e imaginário jurídico arcaico – isto é. os conceitos de Justiça-sentença (díkē . Somente uma maior compreensão dos conceitos utilizados por Hesíodo pode demonstrar que esses versos não são apenas censuras moralizantes. O aedo continua a acusar os efeitos deletérios das tortas sentenças/justiças . 263-264). 219-224). A linha do discurso não muda. (Idem. mas também sobre toda a pólis: “Bem rápido corre o Juramento por tortas sentenças e o clamor de Justiça. ó reis comedores-de-presentes.fábula do Rouxinol e o Gavião. até os categóricos versos: “Isto observando. um proêmio para o discurso de Hesíodo sobre a Justiça que compõem os versos seguintes. esquecei de vez tortas sentenças !” (Idem. alinhai as palavras.

rei-juiz (basileús – βασιλεύς).δίκη).δωροφάγος) – se articulam e se evidenciam no jogo de ambigüidades que o aedo impõe. mas uma lei que não se justifica porque é lei. conforme o ritmo do seu canto. Janeiro/Julho de 2009 . A noção fundamental é a de díkaion [justo] diretamente conhecida pelas consciências”. A administração das “provas” cabia inteiramente aos litigantes. No discurso de Demóstenes “Contra Eubúlides”. onde o processo litigante é um reestabelecimento da harmonia social. 67): “Do direito faz naturalmente parte a lei. sendo que os juízes apenas ouviam ambas as partes. comedor-de-presentes (dōrophágos . Volume 1. o problema da Justiça arcaica como colocado por tal autor é mais uma questão sobre a organização psicológica e social da comunidade. torto (skoliós – σκολιός). não l hes exigindo nenhum tipo de crítica ou investigação. Segundo o mesmo autor a idéia de Justiça na Grécia Arcaica e Cláss ica compreende a definição de posições na ordem social.ISSN: 1983-2087 4 adversidade ”. há uma referência de um trecho do juramento prestado pelos cidadãos atenienses ao tomarem suas d ecisões no julgamento. sem favorecimento nem ----------------------. Logo.Page 4----------------------Alétheia . mas porque ela é justa. 1. os quais “ votariam pela disposição a mais justa. .Revista de estudos sobre Antigüidade e Medievo. no seu “Dro it et Société dans la Grèce Ancienne” (1955. situar a emergência do conceito político de díkē (pré)figurada em Hesíodo. p. O vocabulário da Justiça. E m última análise. Uma idéia a corroborar a fórmula de Louis Gernet. do que sobre hermenêutica jurídica.εθύς). reto (euthús..

Como diria o próprio Louis Gernet. O Vocabulário das Instituições Indo-européias. Pierre. p. possibilidades de significados limitadas pelo variado uso que dela s é feito. “hábito”. nos estudos de textos literários a filologia permanece indispensável. Édipo Tirano: a Tragédia do Saber.. no si te www. 42-4 4. na su as notas da tradução de A Constituição de Atenas. 61). 7 BAILLY. Dictionnaire grec-français. Na tradução para o português de Mary Camargo de Neves Lafer para “Os Trabalhos e os Dias” (1989) o termo δίκη (díkē) é traduzido ora como “sentença” ora como “justiça”. lexicólogos. 1995.perseus. F. Paul. São Paulo: Unicamp. tradutores. CHANTRA INE. Hugh G.tufts. Anatole. Paris: Hachette. distingue o significado próprio (o que a palavra efetivamente disse quando ela quis algo dizer naquele remoto tempo) e tradicional (o que dicionaristas. 1995. 1951.tufts.edu pude conferir o texto na íntegra. 1914. e MAZON. p 238. o significado genérico para díkē em todos os dicionários consultados 4 Utilizo a tradução conforme oferecida por Francisco Murari Pires. 1984. Paris: Lês Belles Lettres.edu. respectivamente. conforme instrui Louis Gernet (1955. Dictionnaire 7 é “costume”. Emile. comentaristas e intérpretes atribuem). São Paulo: Hucitec. 5 MARSHALL. No entanto. disponível em www. principalmente no caso de . O que não é o caso das 6 principais traduções do inglês e do francês que optam por “judgement” e “jugement” . 2000. p. Fora do âmbito da tradução de Hesíodo. 6 EVELYN-WHITE. BENVEN ISTE.perseus.Os dicionários podem oferecer-nos apenas informações gerais para o significa do das palavras. na tradução em inglês e no original em grego. Porto Alegre: UFRGS. mas inoperante por ela mesma: o estudo de cada aplicação da palavra se faz necessário. 5 e a imprecisão e ambigüidades inerentes à comunicação humana .

Dizem os dicionários e comentaristas: em Homero tal termo conco rre com outros de sentidos semelhantes. para quem existem dois desenvolvimentos paralelos para díkē. e a punição advinda do não cumprimento desses procedimentos. podendo a linha ser “reta ou curvada”.Revista de estudos sobre Antigüidade e Medievo.Page 5----------------------Alétheia . GAGARIN. podemos compreender como esse conceito desenvolveu a idéia hoje conhecida como “Justiça” ao unir o sentido genérico de “costume/tradição/hábito” com o mais pragmático de “sentença/decisão”. Essa posição não é unânime. logo a díkē hesíodica significaria somente o procedimento legal de resolução pacífica de conflitos. Esta última seri uma conseqüência do sentido de “fronteira. Palmer (1950. 19 73). 901-3). somente depois derivando o sentido moral e jurídico. as conclusões de Gagarin parecem ser demasiadamente fechadas nesse parâmetro etimológico. um que desembocaria na “díkē-característico/tradicional/costume” e outro na “díkē-sentença”. Têmis é . thémis. 8 discorda da etimologia de Hirzel (seguida por Chantrai Michael Gagarin ne. tendo a primeira um sentido originário de “direção. Somente cotejando as duas possibilidades de significado expostas .----------------------. por exemplo. Na Teogonia (v. constituindo um vocabulário para resoluções pacíficas de conflitos. linha divisória”. Janeiro/Julho de 2009 . Embora não utilize etimologia enquanto “o sentido verdadeiro da palavra”. Para Gararin esse desenvolvimento paralelo do s dois sentidos de díkē é a base de sua análise do termo. cf. linha divisória” entre dois pedaços de terra. Volume 1.ISSN: 1983-2087 Homero. R. Chantraine (1984) ressalta que (sentença/justiça) é proveniente de î (lançar). entre outros) em favor das conclusões de L.

uma nuance humana. 2 (Apr. 1984. Benveniste (1995. Dike in the Works and Days.Page 6----------------------Alétheia . no entanto. Porém. Michael. restando para díkē orientar toda relação inter-familiar. Louis Gernet (1917. Volume 1. Oxford: Clarendon Press [1940]. Henry George. O Dicionário de Bailly (1984) denota outra oposição: thémis (de caráter divino) e nómos. 8) já tinha as mesmas conclusões de Benveniste.uma titânida. certamente. 8 GAGARIN. p. LIDDELL.2. Vol. p. p. 68. “hábito” no âmbito divino. com quem Zeus possui três filhas. Robert. no âmbito do direito familiar.Revista de estudos sobre Antigüidade e Medievo.ISSN: 1983-2087 termo thémis se alarga. Chantraine situa thémis como “costume”. Utiliza o texto h omérico para demonstrar que thémis é “a tradição. tão fluídas quanto fronteiras entre um e outro significado das palavras.. Classical Philology. 1973). No . 82. o que é correto. A greek-english lexicon . SCOTT. tendo díkē o mesmo significado só que com uma nuance diferente. Paris: Klincksieck. indica que nos regimes onde os clãs não eram rigorosamente estrangeiros uns aos outros o valor do etymologique de la langue grecque: histoire des mots. as Horas: Paz. o autor também demonstra reservas para as conclusões de Benveniste sobre a relação entre o grego Díkē e o latim dico. ----------------------. Janeiro/Julho de 2009 . os bons costumes". a lei escrita (caráter humano). 101-6) é de opinião diferente. Harmonia e Justiça (Díkē). v. O que de certa forma demonstra que as fronteiras das células de sociabilidade da Grécia Antiga são. se concordarmos com a fórmul a de .

a díkē. ainda que corrompida. muralhas e navios da cidade (Os Trabalhos e os Dias. díkē (inter-familiar). 260. estas justiças tortas não poderiam ser ditas “injustas” (“ádikon”). mas sim porque é justa (díkaion) – a proposta de relacionar thémis e nómos sem a intermediação de díkē. A tortuosidade da Justiça. seria u m contra-senso chamar injusta uma justiça/procedimento legal efetuada e efet iva.a lei escrita não é válida porque é lei (nómos). privando as cidades do . s frutos da terra. No seu litígio com o próprio irmão. e. nómos (humano). a ordem estava (re)estabelecida. situado exatamente entre o significado geral homérico e a instituição jurídica clássica. parece infértil. e depois de Hesíodo se tor nará o fundamento de toda lei humana? Como Hesíodo testemunha essa terrível quebr a de soberania quando a potência oral. v. enraizando-se na ágora e na publicidade e ntre todos os cidadãos de uma pólis? 2. Gernet (e Benveniste) > thémis (familiar). 334).Gernet . De fato.. afastando a proteção divina. 272. A justiça torta só poderia provocar desordem cósmica. foi grafada nos signos da lei escrita. ainda que Hesíodo conhecesse muito bem esse termo (IDEM. v. a díkē do rei-juíz (basileús) pode ser reta ou torta. Bailly > thémis (divino). dest ruindo os exércitos. díkē (humano). causando fome e peste. 219 -251). Chantraine > thémis (divino). No entanto – os dicionários já alertam – para Hesíodo. formular e jurídica detida pelos reis-juíz es. i. mas o aedo não concordava com a decisão. Embora essa sentença fosse irrevo gável. No entanto. Qual a história da palavra que para Homero era genérica e qu ase apagada frente a outros termos concorrentes.

e. Torrano se limita a designar a “reta justiça” (“itheíeisi díkēisin”). ela é incorreta. Volume 1. i. desse direito formular e não-e crito representado pela díkē. ou não. mas sim uma potência. que designava primitivamente fórmulas pré-jurídicas. a natureza da justiça não era algo a ser de debatido. consagradas pela tra normativas da vida pública social.. . Para Torrano.e. do qual dependia a saúde do cosmos e da ordem social. No entanto. i. a oposição entre retas e tortas sentenças está ligada à aplicação correta.posto que divina. são guardadas pelos reis locais (basileús) que com elas julgam e resolvem os litígios. Hesíodo encontra o meio de sua crítica social ao privilégio judicante dos reis-juízes na (re)e ngenharia de significados que pretende-se assinalar: a torta justiça dos comedores-de-presentes ! Benveniste traz outro dado relevante. Janeiro/Julho de 2009 . ----------------------. No entanto. o erro do rei-juiz qu e.ISSN: 1983-2087 Até então. detida pelos juízes – um privilégio concedido por Zeus e as Musas – cujo efeito é restabelecer a saúde da sociedade e do cosmos. E a aplicação da “torta justiça” (“skoliêisi díkēisin”) seria apenas o oposto do que Torrano propõe para a “reta justiça”. O que está em jogo é natureza da Just iça. a aplicação (co)rreta desse direito formular não-escrito.Revista de estudos sobre Antigüidade e Medievo. também assinalado por Jaa Torrano no seu estudo da Teogonia ..Page 7----------------------Alétheia . e não somente um caso particular da vida de Hesíodo. argumentando que díkē é cognata do latim dico. dicere (=dizer). dição como 9 As fórmulas não-escritas.

é um sinal da pobreza do vocabulário jurídico hesiódico10. já foram criticadas por Matthew W. 1995. no texto hesiódico. não comportando um significado moral. por sua vez. cabe uma crítica às análises demasiadamente fechadas em 9 BENVENISTE. Essa e outras argüições desse autor. Gagarin realiza uma análise do termo díkē tendo por base dois desenvolvimentos etimológicos distintos do seu significado. o erro pela estupidez. v.levado pela sua estupidez. ao ardil. Aqui algumas (pré)dispostas possibilidades de significado. Janeiro/Julho de 2009 . 111 e seg. Como já dito. uma vez que comedores-de-presentes Hesíodo acusa tais reis de serem (dōrophágoi). o termo tem como único significado “procedimento legal”. São Paulo: Iluminuras. Qual a motivação dessa antítese na justiça de Hesíodo? Qual a natureza dessa sentença desviada e sua conseqüência para a semântica da justiça arcaica? 3. Dickie (1978) e outros11. o sentido dessa tortuosidade está mais ligado ao engano ativo.Page 8----------------------Alétheia . O Mundo como função das Musas.2. 2003. E. como “Justiça”. a conduta não reta). Michael Gagarin argumenta que o fato de Hesíodo utilizar o mesmo termo com significados diversos em diferentes momentos do Legalidade x Moralidade.Revista de estudos sobre Antigüidade e Medievo.ISSN: 1983-2087 seu poema. 35-8. Dickie. ----------------------. O Vocabulário (…). TORRANO. p. salie . pronuncia a fórmula jurídica erradamente? Provav elmente não. do que ao engano passivo. Volume 1. à conduta (co)rrupta (literalmente. p. in: Teogonia. Jaa. e acaba por concluir q ue.

187-88. Vol. No. Vol. 3 (Jul. Dike in the Works and Days. 2 (Apr. Um balanço desse debate se faz necessário. e a concepção de Justiça da Grécia Arcaica é certamente distinta da que temos hoje. De fato. Segundo: Dickie tem toda razão ao criticar a ausência de contex tualização de Gagarin. no mesmo artigo ele insiste na distinção entre “moralidade” e “legalidade”. especialmente. e afirm ar que díkē significa isso ou aquilo. 1973). Em outro artigo Gagarin parece rever sua insistência em m anter separados os dois significados da palavra díkē (‘comportamento apropriado’ e ‘comportamento lícito’). que supr ime a complexidade ética e comportamental da Grécia Arcaica.. No entanto..nta a ausência de elementos contextuais na argumentação de Gagarin. a simples tradução jamais seria suficiente. 91-93. no dizer de Dickie) compreender o que um conceito como díkē possa vir a significar. 1974). e realiza várias leituras dos poemas de Homero e Hesíodo tentando comprovar que a palavra díkē possui sim um significado “moral”. considera-se a disponibilidade intelectual de Hesíodo p ara utilizar palavras idênticas com significados ligeiramente diferentes. Classical Phi y. conforme a disposição das 10 GAGARIN. p. No. e pretendo argum entar que essa distinção não é absolutamente necessária: “Díkē” in Archaic Greek Thought. 69. Tanto a proposta de “procedimento legal” quanto de “Justiça” (interiorização de são insuficientes valores para morais. Pode-se concordar com a argumen tação de Gagarin ao enquanto consolidar “moralista”. Não se pode simplesmente optar por um lado do debate. Na abord agem do presente trabalho. p. Primeiro: são inegáveis os avanços que o trabalho de Gagarin trouxe ao revisitar o significado deste ter mo. . Michael. a negação da poesia hesíodica principalmente devido à insuficiência de objetividade desse termo. 68. Classical Philology.

Volume 1. mas pensaria essas mesmas sentenças como simples procedimentos legais. Se um nosso contemporâneo afirma: “irei atrás da Justiça para resolver nossas questões”. não estaria ele referindo-se simultaneamente aos “procedimentos legais” e ao valor mais abstrato13 e moral? A proposta de Gagarin supõe um “grego de duas cabeças”. pp. Dike as a moral term in Homer and Hesiod. 35. como aquele descrito por Marcel Detienne14.ISSN: 1983-2087 palavras no discurso.Page 9----------------------Alétheia . Malcolm. especialmente as nota s 2 e 11. também é uma palavra insuficiente para a concepção dessa Justiça arcaica. A proposta de G agarin – de separar “legalidade” de díkē muito de “moralidade” – supõe uma concepção adstringente. . 1978). as concepções religiosas de Hesíodo se relacionam com os significados que ele concede aos procedimentos legais de sua época. Matthew W. Vol. Logo. Cla ssical Philology.11 DICKIE. “Os Trabalhos e os Dias” não pode ser dissociado de seu contexto histórico e etnográfico. 91-101. e à complexidade da realidade humana histórica. Em decorrência disso. 245-263. No. 2 (1985). The Classical Quarterly. Hesiod’s Didactic Poetry. Vol. “Moral”. No. 73. que contraria a teológica concepção poética de Hesíodo. das sociedades submersas em religiosidade. pp. New Series. Janeiro/Julho de 2009 .. abrindo margem inclusive à imprecisão e ambigüidades inerentes à poesia arcaica12. laicizados e abortados desta concepção t eológica que fundamenta a sua própria crença e devir existencial. ----------------------. no sentido dado por Dickie de interiorização de valores abstratos por parte do indivíd uo social. 2 (Apr. que simultaneamente a credita que as melhores sentenças são oriundas de Zeus. como eram as da Grécia Arcaica.Revista de estudos sobre Antigüidade e Medievo. Conferir também HEATH.

A díkē hesiódica está ligada ao termo “Zeus” (e sua soberania). argumenta que “termos abstratos são simplesmente su bstantivos empregados para dizer o que também pode ser dito. A “Moral” interiorizada pelo indivíduo pode ser substituída por uma ética imposta pelos . ----------------------. 1978). E cita um exemplo “Justice requires that we do this” pode tornar-se “What is jus t requires that we do this”. Cla ssical Philology. e ele encarna um significado ético 15 que os homens devem observar. Rio de Janeiro: José Olympio. Ambas as noções possuem relação com esse termo.A distinção entre “legalidade” e “moralidade” nos parece inaplicável numa concepção arcaica de Justiça. Zeus é quem “endireit a as 12 BEYE. Charles Rowan. A Invenção da Mitologia. p. 14 DETIENNE. p. 6. sendo ambas insuficientes para exprimi-lo. que faz tal poesia não somente uma expressão mais imediata e mais honesta do pensamento humano. seja qual for a nuance do seu significado. “a validade do pensamento pré-lógico tem sua força na confusão.Revista de estudos sobre Antigüidade e Medievo. Brasília: UN B. o significado é mais fluído do que isso. Dike as a moral term in Homer and Hesiod. Vol.Page 10----------------------Alétheia . Vol. Marcel. No. Não basta escolher entre uma das du as. 95-6. mas leva em conta também a possibilidade de audaciosas justaposições e combinações que o arquitetônico discurso filosófico não poderia tolerar”.. Volume 1. sequer somá-las. 76 (1972). v. 73. 9). que certamente não é apenas uma personagem com fins narrativos. sem perda de significado. 43. mas sim o princípio dirig ente de toda díkē. Janeiro/Julho de 2009 . The Rhythm of Hesiod s Works and Days. 13 DICKIE. usando uma ‘predica tive adjectival phrase’”. e é esta própria confusão. 1992. Harvard Studies in Classical Philology. Matthew W. ou então sofrerão as conseqüências de suas tortuosidades.ISSN: 1983-2087 sentenças” (Trabalhos e os Dias. 2 (Apr. cap.

sendo a ambigüidade uma característica do pensamento mítico. de que a construção basileús dōrophágos (rei comedor-de-presentes) não comporta um significado de corrupção. uma tentativa ilícita de influenciar o juiz. A concepção de étic a proposta está ligada à idéia de escolha numa dimensão de dualidade (bem e mal. a administração da justiça (ou das sentenças) é um privilégio do basileús. e enriquecer através da aplicação da díkē).. pois não se pode subentender a idéia de suborno desse termo. Por isso a palavra díkē exprime tanto o processo legal quando a punição divina caso esse processo não seja observado de forma reta. p. Gagarin admite que Hesíodo faça uma admoestação aos reis que enrique cem proferindo sentenças17 e.céus. e. Charles Rowan. no entanto. posto que presentear juízes fazia parte do procedimento legal de reso lução pacífica de conflitos. certo e errado). Vol. se isso não se configura enquanto crítica do “proce dimento legal” – da “Justiça” – como explicar os versos dos “Trabalhos e os Dias” (263-64)? 15 BEYE. a quem Hesíodo dirige seus versos. nota 19). i. Essa opção por ignorar certos elementos contextuais da obra nos faz rejeitar outra proposta de Gagarin (1974. 38 e 42. The Rhythm of Hesiod s Works and Days. Gagarin tem seu mérito. Logo a crítica da corrupção em Hesíodo jamais poderia s er advinda de uma idéia de “suborno”. para uma abordagem da ética nesse poema. Novamente. p. conforme testemunha o famoso trecho do Escudo de Aquiles16 (Ilíada. logo não se trata de uma crítica ao (ilícito) suborno. mas sim uma crítica do procedimento legal por si mesmo (isto é. 16 Cabe notar. o hábito lícito do juiz receber presentes dos litigantes. a série de diferenças entre a cena jurídica na Ilíada e em He síodo: na primeira . Ora. por Zeus. 76 (1972). 18. como Zeus exige. 109. para compreender a lógica da Justiça Arcaica. Comedores-de-presentes. 497-508). Harvard Studies in Classical Philology. 4.

e se opõem a tudo aquilo que é reto. 17 GAGARIN. “ádikon”).Page 11----------------------Alétheia . p. Michael. e sim um hístor. O juiz do primeiro caso não é o basileús. “skoliêisi díkēisin”) quanto comportamental (a desordem cósmica e social causada pela Hýbris e os homens injustos. pois são eles que devem esquecê-las. nota 19. enquanto que a sentença do basileús é irreversível. mas sua efetivação ou não independ e sua vontade. Janeiro/Julho de 2009 . ou . a injustiça e o excesso condenados por Hesíodo são parte integrante de uma ética tanto jurídica (palavreada na torta sentença. não somente no que d iz respeito à administração das “sentenças”. e ameaça-os com a punição divina caso escolham o outro lado. E o basileús dōrophágos aparece claramen te enfileirado na mesma coluna das tortas sentenças. a correlação entre as duas cenas jurídicas não pode ser levada de form a absoluta. Há mais de um hístor e aquele que profe rir a melhor sentença. mas também das “palavras” (“mûthos”18). e não uma disputa por herança entre dois irmãos.ISSN: 1983-2087 “Isto observando. alinhai as palavras. Hesíodo pode até chamá-la de sentença torta. Hesíodo incita os reisjuízes e os membros da pólis de optarem pelo lado justo e correto. Em suma. Os comedores-de-presentes aparecem intimamente ligados às tortas sentenças. Vol. ----------------------. Volume 1. que é díkaion (justo) e. aceita pelos dois litigantes. Transactions of the American Phi lological Association (1974). 104 (1974). esquecei de vez tortas sentenças !” Uma clara oposição entre o reto e o torto é estabelecida. a corrupção. do comportamento (in)co rreto. Hesiod’s Dispute with Perses. a tudo aquilo que é oriundo de Zeus. Logo.Revista de estudos sobre Antigüidade e Medievo. ó reis comedores-de-presentes. receberá o presente. 109. finalmente.trata-se de um caso de homicídio inter-familiar.

Tal definição está plenamente evidenciada no poema hesiódico “Os Trabalhos e os Dias”. sendo substituídos por dikás.Page 12----------------------Alétheia . posto que a idéia de Justiça expressa (1) uma prática social específica. como apresentada por Hesíodo. ou seja.perseus. no entanto. no entanto.seja. Na versão disponível no site http://www. Volume 1. 18 Utilizo para referência a versão do texto grego presente na edição bilíngüe da Iluminuras (2006). e deixa margem para significados que abraçam tanto a idéia de ‘processo legal’ quanto o de ‘valor ético’. o termo múthos é ausente. isto é. um princípio organizador da sociedade de natureza teológica.tufts.ISSN: 1983-2087 embora oriunda dos céus. e Hesíodo – enquanto poeta inspirado – detém disponibilidade para utilizar esse conceito contra os próprios homen s .Revista de estudos sobre Antigüidade e Medievo. ----------------------. onde os homens são incitados a optarem pela reta justiça. Janeiro/Julho de 2009 . pode ser desviada pelos homens. A Justiça arcaica. está inteiramente enraizada nas práticas sociais e religiosas da Grécia Arcaica. dess a forma ofendendo-a enquanto divindade e encarnação da ordem social. (2) um debate moral e ético sobre a condição humana perante os deuses e a ordem cósmica. e (3) a punição divina causada pelo ato de entortar a Justiça.edu. O conceito de Justiça arcaica se relaciona com inúmeros termos de signific ados semelhantes. isto não impede que o aedo utilize tal conceito para propor novos problemas e críticas sociais . os procedimentos de resolução pacífica de conflitos inter nos da pólis. abandonando assim a justiça retorcida. A Justiça. corrupto. Conclusão.

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