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Maquiavel além do Príncipe: o povo como ator político

1. PROBLEMATIZAÇÃO

Sem dúvida alguma, a obra mais conhecida, comentada e controversa do pensador florentino Nicolau Maquiavel é O príncipe. Nela, o filósofo renascentista discorre sobre a criação e a conservação das formas de governo por ele chamada de principados. Maquiavel trata claramente de indicar os meios mais eficazes de fundar um Estado Absolutista. Seja O Príncipe um livro de conselhos ao monarca, um estudo histórico de que procura tirar as lições do passado, ou simplesmente uma constatação do que constitui a política de fato (aquilo que o florentino acredita ser a “verità effetuale”), ainda assim o ator principal da ação política seria o governante. O príncipe virtuoso no sentido maquiavélico não seria o piedoso cristão, mas o chefe capaz de concorrer com a impetuosa fortuna pelo comando dos acontecimentos. A virtù do príncipe está em aproveitar uma boa fortuna, o momento propício, e preparar-se de tal forma para todo tipo de situação indesejada de modo que seus danos seriam minimizados, seu ímpeto controlado. Cabe ao príncipe prudente tomar as melhores decisões para cada momento. Percebemos, portanto, que Maquiavel coloca o príncipe no centro da ação política. Que razões poderíamos invocar para empreender um estudo do papel desempenhado pelo povo no pensamento do filósofo renascentista? Mais de um motivo intimidaria tal empreendimento. Em primeiro lugar, o leitor d’O príncipe pode, com certa razão, interpretar que o povo de que trata o florentino não passa de uma massa de manobra, que deve ser utilizada oportunamente na defesa dos limites territoriais, ou tornada dependente do soberano, amando-o, se possível, mas necessariamente temendo-o. Um segundo motivo, não menos justo, é uma tendência de Maquiavel em afirmar, ao longo de sua obra, a natureza má e inconstante do ser humano. Essa antropologia negativa soa como um refrão nos seus escritos. Isso nos faz crer que não é possível pensar numa virtude política própria do povo. O que desejamos nesse trabalho é mostrar que, ainda que Maquiavel sustente a visão negativa da natureza humana, isso não é empecilho para que o povo desempenhe papéis importantes no jogo político. É possível constatar virtudes cívicas mesmo numa obra pautada pela ação do governante como é O príncipe. Mas o verdadeiro papel político do povo aparece sem rodeios quando o florentino escreve sobre o modelo de governo republicano.

É preciso reconhecer. Não pretendemos idealizar ou supervalorizar a atuação popular no jogo político. O papel da lei é ressaltado nos Discorsi I. apontar para aspectos históricos da fundação das cidades. Florença. 3) Um terceiro caso são as cidades fundadas unicamente para exaltar a glória do príncipe. movem-se conjuntamente para o novo local. provavelmente com melhor maestria que aqui. nem admite que o povo seria a peça principal da atuação política. no II capítulo de O príncipe. Um outro seria a própria cidade de Maquiavel. Além do mais. POVO COMO ATOR POLÍTICO EM MAQUIAVEL 2. acrescida de leis que impeçam o povo de esmorecer devido à facilidade de vida oferecida pelo clima natural. que o povo é fundamental para a existência e renovação da vida política. abordar a virtude política do povo sob o prisma da liberdade e sua ameaça pela corrupção. Alexandria é um bom exemplo. Os temas da liberdade e do povo como ator político já foram tratados por muitos estudiosos e.1. Várias cidades fundadas pelo povo romano encaixam-se nesse perfil.O pensador renascentista. INTRODUZINDO OS DISCORSI Maquiavel tenta. se entendermos que a cidade foi fundada por Rômulo. É que as leis precisam levar em consideração a natureza perversa do ser humano. para acomodar a população excedente ou para manter de modo mais seguro as novas conquistas. assim. Escolhemos. Maquiavel não propõe nada parecido com uma ascensão dos populares ao poder. o tema do povo está intimamente ligado ao conceito liberdade.2 de modo que haveria cidades fundadas com leis perfeitas em sua origem (Esparta) e outras. Seja qual for o caso. Tanto do primeiro caso. que conduziria qualquer forma de governo inevitavelmente à ruína: . Para o autor em questão.[1] Nos Discorsi. 2) As cidades erigidas por estrangeiros. no entanto. logo no início do primeiro livro. Trata-se dos Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio. resultam cidades livres. trataria de um exemplo de cidade fundada por habitantes naturais do país. como Roma. portanto. Atenas e Veneza são exemplos desse tipo de fundação. em seus Discorsi. Haveria três tipos de fundação: 1) As cidades fundadas por habitantes do mesmo país. evitar a corrupção natural de toda e qualquer forma de governo. se considerada fundada por Enéas seria um exemplo de cidade iniciada por um povo estrangeiro. A escolha do local da nova fundação implicaria também a decisão por estabelecer a nova cidade num local fértil. que buscando um refúgio mais seguro e mais cômodo. Essas cidades já nasceram dependentes. explica já ter tratado das repúblicas em outros lugares. nem esperar fazer aqui uma revelação. A própria Roma. quando do segundo. interessa discorrer sobre as cidades de origem totalmente livre. sua origem é livre. cuja legislação foi pouco a pouco se aperfeiçoando para equilibrar os poderes nobres e populares e. 1.

. Dentro do quadro geral do pensamento maquiaveliano. pois os bons exemplos nascem da boa educação.. a boa educação das boas leis. entre o desejo de dominação dos nobres e o desejo de não opressão da plebe. e promulga suas leis. Analisando a origem livre da forma política nos Discorsi. “[. Não querem perceber que há em todos os governos duas fontes de oposição: os interesses do povo e os da classe aristocrática. então não há porque não louvá-la. pela discórdia entre os diferentes setores da sociedade. [4] A tese de Maquiavel é que. em Roma. Pelo contrário. ou na habilidade do príncipe. e um meio para evitar a corrupção comum a um regime baseado unicamente na virtude do fundador. estando dispostos a agir com perversidade sempre que haja ocasião. Todas as leis para proteger a liberdade nascem da sua desunião.] pois o povo. assegurou participação no governo. bem como numerosos exemplos históricos.Como demonstram todos os que escreveram sobre política.. que precisam ser renovadas para acomodar as posições antagônicas. pela consciência de que a corrupção vai junto com a ilusão opressiva da estabilidade da forma política[6] . os conflitos são extremamente necessários para a conservação de uma vida política livre. A novidade dessa postura reside no reconhecimento do papel dos conflitos entre nobreza e povo. [. e estas das desordens que quase todos condenam irrefletidamente. O POVO COMO GUARDIÃO DA LIBERDADE O fato é que Maquiavel nega-se a concordar com a opinião comum de seu tempo. pela capacidade de seus cidadãos de contestar e renovar qualquer ordem legal e política. possibilitou a conservação da liberdade por um longo período..[2] 2. Miguel Vatter entende que Maquiavel aponta o desejo popular como animador da vida política e a estabilidade política como germe da corrupção: A tese que atribuo a Maquiavel é que uma república permanece em existência somente enquanto sua vida política é animada pelo desejo do povo de não ser dominado. como a dos tribunos. O antagonismo das duas classes.[3] Isso só seria verdadeiro se os homens fossem de índole boa. de que o impedimento para a liberdade de uma cidade encontra-se na desordem provocada pelos conflitos de interesses.2. Esses conflitos encontram um escoadouro nas leis republicanas. é da desunião entre os aristocratas e o povo que nasceram as boas leis de Roma: Os que criticam as contínuas dissensões entre os aristocratas e o povo parecem desaprovar justamente as causas que asseguraram fosse conservada a liberdade de Roma. E os tribunos foram os guardiães das liberdades romanas”[5]. se por essa desordem brotaram instituições boas. desta forma.] Não se pode de forma alguma acusar de desordem uma república que deu tantos exemplos de virtude. parta do princípio de que todos os homens são maus. prestando mais atenção aos gritos e rumores provocados por tais dissensões do que aos seus efeitos salutares. é necessário que quem estabelece a forma de um Estado.

não constitui. Entre aristocratas e plebeus. Aquele que alcança o principado com o apoio dos poderosos conserva-se mais dificilmente do que aquele que é eleito pelo povo. Ele pode ser . Bignotto[7] adverte que. no capítulo 5 do livro I dos Discorsi. para manter-se seguro com a autoridade deste. seja por ter menos esperança de alcançar o poder. As palavras do autor são eloqüentes para retratar o principado surgido desses apetites: O principado é instituído ou pelo povo ou pelos grandes. Dessa forma. A verdadeira intenção de Maquiavel é mostrar que “o povo. As cidades livres conservam a memória das antigas leis e da liberdade. liberdade ou desordem. sob sua sombra. Ao analisar esse capítulo. para. Já Veneza ou Esparta. Por essa razão. seja por desejar não ser oprimidos.” [8] 2. são casos do poder dado aos nobres. satisfazer seus apetites. O mesmo podemos dizer com relação às armas. de cujos apetites brotam um dos seguintes: principado. a princípio. não devemos nos deixar enganar de que se trata de escolher entre uma república que quer conquistar (Roma) e uma que quer conservar (como Esparta ou Veneza). nas duas obras de Maquiavel. um mero joguete nas mãos dos governantes. tendentes à conservação. principiam a formar a reputação de um de seus elementos e o tornam príncipe. os últimos teriam menos avareza na salvaguarda da liberdade. Trata-se dos casos em que um cidadão torna-se príncipe pelo desejo dos seus conterrâneos. pois depende dele. Estes seriam os melhores defensores do principado. A LIBERDADE EM O PRÍNCIPE A atuação política do povo não se restringe somente à reflexão sobre as repúblicas. os grandes ao descobrir que não podem resistir ao povo. reconhecemos que o povo. Os populares têm mais motivo para resguardar a forma livre de governo. cria a reputação de um cidadão e o elege príncipe. como o próprio Maquiavel ressalta. Maquiavel retrata novamente as duas tendências. Dessa maneira. IX) é ainda mais exemplar. e. Quando a matéria em questão é a conquista de uma república. percebendo não poder resistir aos grandes. o príncipe deve destruí-las ou será por elas destruído[9]. Ele alcançaria o poder pelo favor do povo ou dos nobres. apesar de causar perturbações na cidade. de acordo com a oportunidade que se apresentar a uma dessas partes. Maquiavel não esconde as dificuldades que se impõem. a virtude política do povo inclui o serviço militar. dos poderosos e do povo. é mister dar poder ao povo. Roma seria um exemplo de república com objetivos expansionistas. de modo a presentear-lhes com o que desejam e evitar dissensões do povo. pois lutariam por sua liberdade.Interrogando. o príncipe apoiado pelos grandes precisa conquistar em primeiro lugar o povo. o florentino escolhe a plebe.[10] Obviamente. se devemos confiar com mais segurança a defesa da liberdade aos aristocratas ou ao povo. Também o povo.3. tem um desejo mais verdadeiro de salvaguardar a liberdade do que os nobres que desejam sempre conquistar novas posições na ‘polis’. como à primeira vista. que para o florentino devem ser dadas aos súditos. Também no Príncipe encontramos trechos que demonstram o papel desempenhado pelos cidadãos. dessa forma. O caso do principado civil (cap.

“o povo romano já estivesse então corrompido. diríamos que o povo é sujeito-matéria da política. os mesmos que necessitaria combater. reivindicando espaço nas leis para assegurar que não será oprimido pelos grandes. Maquiavel admite terem surgido as melhores leis republicanas e as maiores barreiras para a tirania e a corrupção. Já aludimos que Maquiavel não faz nenhum tipo de idealização do povo. Os tribunos não hesitaram em unir-se com a aristocracia para condená-lo à morte. Sujeito enquanto exprime seu desejo por liberdade e ausência de opressão.4. Seria necessária uma ação extraordinária. o povo é considerado o guardião da liberdade.considerado um dos atores políticos fundamentais. dando-lhe más instituições. Se. Da virtude política popular. na reforma gradual ou imediata do todas as leis.[13] 1. Tratar do povo como ator político implica reconhecer que uma grande parcela dos cidadãos. pelas pretensões deste trabalho e por diversas limitações. [12] É fundamental tocar aqui no tema da corrupção. Nos Discorsi III. LIBERDADE E CORRUPÇÃO O filósofo renascentista exprime a dificuldade de corromper um povo que estima sua liberdade. 8. aqueles destituídos de posses e honrarias (em oposição aos aristocratas) exerce coletivamente um papel fundamental na condução da vida política. a menos que ela se revigore com muitos exemplos de virtude. de geração em geração. é também sujeito da corrupção. ou seja reconduzida pelas leis ao início do seu desenvolvimento. não foram contemplados aqui. não teria agido assim. Isso deveria ser feito por um cidadão virtuoso. é preciso que essa república já esteja depravada: que tenha sido levada à desordem gradualmente. abrindo caminho à tirania. É quase impossível que um povo corrompido volte a gozar plenamente da liberdade. sendo sujeito da liberdade política. Maquiavel é extremamente pessimista. em lugar de levantar-lhe um obstáculo. Cássio quis subornar o povo em troca de vantagens às expensas do tesouro público. 2. A corrupção é o seu destino final. A lição tirada por Maquiavel dos relatos de Tito Lívio é incisiva: Portanto. No mesmo capítulo dos Discorsi o autor afirma ser tão difícil corromper um povo habituado com a liberdade quanto libertar um povo acostumado à escravidão. pois ele chegaria ao poder por meios desvirtuados e violentos.”[11] O caso de Mânlio é também interessante. Seria uma tarefa nada fácil e provavelmente frustrante. Um desses aspectos seria dar um conceito bem definido do que Maquiavel entende por “povo”. Maquiavel cita os casos de Spúrio Cássio e Mânlio Capitolino. diz Maquiavel. se se pretende usurpar o poder numa república. Disso decorre necessariamente que o povo. Nessa questão. . PARA NÃO CONCLUIR Há diversos aspectos importantes que. Seguindo uma tradução literal de Vatter. o que implicaria contradição. Alimentado pelo desejo de nãoopressão. No capítulo 40 do livro I a tirania é apresentada como causada pelo “desejo ardente de liberdade por parte do povo e o desejo não menos vivo que tinha a nobreza de dominá-lo”. fato que foi rejeitado pelos possíveis beneficiários. apesar dos inúmeros benefícios do passado.

é evidente que Maquiavel inclui essa categoria tão difícil de definir. que provêm. O Príncipe. . Between form and event: Machiavelli’s theory of political freedom. Miguel E. Olívia Bauduh. I. 1979. Dordrecht/Boston/London: Kluwer Academic Publishers. É matéria por constituir a maioria do corpo político a ser governado e conduzido. São Paulo: Loyola. Trad. Sérgio Bath. Douglas Ferreira. p. p. Trad. (MACHIAVELLI. como os guardiães da liberdade e. 2. Sérgio Bath. (Coleção Filosofia.87 [7] BIGNOTTO. Para ilustrar essa opinião defendida desde Dante até os humanistas. 2000. cap. 8. cujo conjunto dos membros é nomeado indistintamente por “povo” como um ator político fundamental. Discorsi I. 85) [4] MACHIAVELLI. referir-mo-emos a essa obra como Discorsi. MACHIAVELLI. BIGNOTTO. Miguel E. IX. 4 [6] VATTER. é da discórdia . rev. da própria essência da forma republicana de governo. Nicolau. No.” (in: BIGNOTTO. Maquiavel Republicano. há uma citação de Marsílio de Pádua que transcrevemos aqui: “Mas como os contrários engendram os contrários. Newton. Comentários sobre a primeira década de Tito Lívio. O príncipe.91 [9] MAQUIAVEL. Discorsi. [5] MACHIAVELLI. Newton. p.ed. São Paulo: Loyola. v. Trad. Discorsi III. 1979). traduziu o título como Comentários sobre a primeira década de Tito Lívio. por estar ameaçado pela opressão dos nobres e pela corrupção. as piores conseqüências e inconvenientes. Os populares aparecem no Príncipe. 1991. BIBLIOGRAFIA BARROS.enquanto exige leis que impeçam a tirania e instaurem os tribunos. mas principalmente nos Discorsi. da Universidade de Brasília. In: Discutindo Filosofia especial: Maquiavel. O príncipe. 2. Between form and event: Machiavelli’s theory of political freedom.4.87 [1] A edição brasileira. V. cit. 2000. [10] MAQUIAVEL.19). para toda a sociedade civil ou reino. Brasília: Editora Universidade de Brasília. [2] MACHIAVELLI. por isso mesmo. São Paulo: Nova Cultural. p. 3. VATTER. De qualquer forma. como o demonstra – o que não é segredo para ninguém – o exemplo do reino da Itália. 1999. Ano 1. [11] MACHIAVELLI. Brasília: Editora UnB.91 [8] Idem. contrário da tranqüilidade. op. Nicolo. Newton. I. Maquiavel republicano. cap. MAQUIAVEL.4. Comentários sobre a primeira década de Tito Lívio. Para efeito de padronização. p. Disposição à oposição. Discorsi.ed. Escritos políticos. Nicolo. 1991. [3] Bignotto registra bem o senso comum do “trecento” e do “quattrocentro” de que a existência de conflitos internos era condenável. Dordrecht/Boston/London: Kluwer Academic Publishers.

[13] MAQUIAVELLI. Discorsi I. 17-18. Autor: Tiago Luís Oliveira .[12] Idem.