CERIMÔNIAS DO ESQUECIMENTO/SERTÃO EM DIALOGO COM A MITOLOGIA GREGA

Ivete Ferreira Barbosa Corrêa PPGEL – UNEMAT.1

RESUMO
Este artigo tem como objetivo fazer um estudo da personagem Isabel, presente nas obras Cerimônias do Sertão (2011) e Cerimônias do Esquecimento(1995), demonstrando a relação metafórica existente na construção dessa personagem e a Deusa Hera, da mitologia grega, levando-se em conta características, principalmente com relação ao olhar: aspecto mais relevante e que foi largamente explorado nestas duas obras em estudo. PALAVRAS-CHAVE: Dicke; Mito; Deusa Hera; Isabel; dialogismo.

ABSTRACT This article has as objective to study the character of Isabel, presents in the books Hinterland Ceremonies and Ceremonies of the Forgetfulness, showing the metaphorical relation that exists in the construction of this character and the goddess Hera, finding in the Greek mythology, taking into account their characteristics, particularly with respect to her look: most notable among her features and has been widely explored in these two works in the study.

1 Mestranda do Programa de Pós Graduação em Estudos Literários (PPGEL), linha de pesquisa
História, Memória e Cultura, pela Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT) Campus universitário de Tangará da Serra. Orientadora Profª. Drª. Madalena Machado. Email: profivetga@hotmail.com.

o conceito candidiano de arte e literatura: A arte. Prêmio Nacional da Fundação Cultural do Distrito Federal 1979. Rio Abaixo dos Vaqueiros e O Salário dos Poetas (Secretaria de Cultura de Mato Grosso. como forma sistematizadora da fantasia. 2006). é uma transposição do real para o ilusório por meio de uma estilização formal. Cathedral/Carlini&Carniato. 4º lugar no Prêmio Walmap (1968). tem sua função social. Os Semelhantes. Cerimônias do Esquecimento (EdUFMT. como esse elo entre o vivido e o sonhado. 1968).803). O vivido. Conjunctio Oppositirium no Grande Sertão (Secretaria de Cultura de Mato Grosso. é dessas modalidades a mais rica. o sonhado. o homem tem uma necessidade de ficção e fantasia. 2006). 2008). mas. de início. a um elemento de vinculação técnica. 2011). 2002). no momento de sentir e apreciar. Caieira (Francisco Alves. Gratuidade tanto do criador. indispensável à sua configuração. porque ela não se aparta da realidade e.KEYWORDS: Dicke. nesse sentido. metaphorical . será o foco desta pesquisa destacando a relação entre sua personagem Isabel. porque alimenta a alma e nos faz bem. 1973. Toada do Esquecido & Sinfonia Equestre (Cathedral/Carlini&Carniato. Myth. Isabel. Prêmio Orígenes Lessa da UBE 1995. ( CANDIDO. se não de interferir. 2 . 1986). A literatura pode ser considerada. Como Silêncio. Cathedral/Carlini&Carniato. 1978). Ricardo Guilherme Dicke nasceu em 16 de outubro de 1936 no município de Chapada dos Guimarães/MT. presente nas duas obras e a deusa Hera. que propõe um tipo arbitrário de ordem para as coisas. INTRODUÇÃO A relação metafórica existente nas obras Cerimônias do Sertão (2011) e Cerimônias do Esquecimento (1995) de Ricardo Guilherme Dicke2. A Chave do Abismo (Fundação Cultura de Cuiabá. Nela se combinam um elemento de vinculação à realidade natural ou social. quanto do receptor. Segundo Candido (1972. e implicando uma atitude de gratuidade. no momento de conceber e executar. primitiva ou civilizada. 2º lugar no Prêmio Clube do Livro (São Paulo. 1999). a literatura. pelo menos. mas que. Deus de Caim (Afabrika. Cerimônias do Sertão. Último Horizonte (Marco Zero. Madona dos Páramos (Edições Antares. os seres. Utilizaremos. Prêmio Remington de Prosa (1977). e portanto a literatura. os sentimentos. Goddess Hera. portanto. Isto ocorre em qualquer tipo de arte. p. de denunciar mazelas sociais existentes. da Mitologia Grega. Deus de Caim (Edinova). p. 1981). 2001). 1988). Que elas vêm até nós nas mais variadas formas. de tal forma. A proximidade do Mar & A Ilha e o Velho Moço e outros contos (coleção. Publicou as seguintes obras Caminhos de Sol e Lua (1961). 53). Madona dos Páramos (reedição. que é impossível viver sem elas.

forma a verificar que origem e fim se fundem. num “realismo mágico”. . baseando em que a característica mais forte da Deusa eram os olhos imensos. nasceu da observação que fazemos do esmero com que o autor cria a caracterização de suas personagens. independente de época e estilo. 404). como o boitatá: imensos. percebemos o quão é O desejo de estudarmos este tema – a relação metafórica com a Mitologia Grega – nas duas obras de Dicke. e tomando por base o traço mais peculiar da Deusa. sintetizam a impressão que temos quando lemos as duas obras de Dicke. a seus olhos parecem olhar um amanhecer em alto mar. Por meio de uma narrativa que mistura várias vozes. Isabel parece que vai adivinhando o que está pensando Catrumano. citada nos trechos acima.Os pensamentos de Antonio Candido. percebemos o papel humanizador da literatura. A construção dessa personagem. Sob a lâmpada febrenta e esverdeada. p. p. no tocante aos traços físicos. em estudo. de possível fazer pensar no fruir. misturando carnes. aqui estudadas. que vou te engolindo para te comer melhor. respectivamente. Ou. com personagens heterogêneas. Para elucidar. 2011. mostrando as várias facetas do humano. mastigando. 93) “ Que sabe essa mulher de balouçantes olhos imensos?”. p. este uso se faz de forma muito marcante. os olhos imensos. com um entrecruzar de histórias. de forma a construir. buscando reflexões para problemas sociais atuais através de metáforas filosóficas. 150). 149. foi caracterizada de forma destacada o 3  A partir desta página. (CS. numa relação metafórica bem construída pelo autor com a Deusa Hera. usaremos as abreviaturas CS e CE para identificarmos os títulos Cerimônias do Sertão e Cerimônias do Esquecimento. Em toda a história da literatura vemos. dando ao leitor a faculdade de desvelar essas relações. implicitamente. vejamos como Dicke reelabora esteticamente nos dois romances. Em Dicke. Dentro de um universo grande de possibilidades de estudo. o uso do olhar como recurso estilístico e expressivo. ou ainda: Isabel fita com seus olhos de grandeza as luminárias noturnas que afloram sobre as trípodes aruspiciais das pitonisas incógnitas. apalpando. como o caso da personagem Isabel. formando um círculo. quando o barco vai trêmulo sobre os abismos mais inumeráveis e mais inomináveis. optamos pela personagem Isabel. (CS. então: Isabel: aqueles olhos que te engolem com os olhos. vejamos Dicke (CS3. as relações similares.

AS CERIMÔNIAS DE DICKE Cerimônias do Sertão O livro é uma narrativa. falamos sobre as convergências entre a Deusa e a personagem estudada. ora é emotivo ou passional. Quem diz olhar diz. traçamos um paralelo entre os dois romances em estudo e as características da deusa em questão. Depois. no segundo. definidor. descreve. Para isso.no momento desempregado. e entendendo serem os olhos a característica mais marcante da Deusa. destinada a indicar o objeto da pesquisa. ora incisivo. nas considerações finais. Tem como espaço a região da Guia. A redação desse trabalho dividiu-se em quatro partes. em Mato Grosso. da Mitologia Grega. temos dois títulos. o porquê desse interesse e a forma como foi feito esse estudo. O olho que perscruta e quer saber objetivamente das coisas pode ser também o olho que ri e chora. percebemos que há uma universalidade nessa obra. ativemos mais às relações ligadas ao olhar de Isabel. sendo a primeira. serve para qualquer lugar e época. implicitamente. apontando as confluências entre obra/personagem/deusa. o que não é o caso. de início. que demonstram o diálogo entre esta e o mito relacionado. as denúncias sociais apresentadas. com o primeiro para situar o autor e as obras estudadas e. O autor cria. Todas essas características e possibilidades são largamente exploradas na construção do olho/olhar das personagens presentes em Cerimônias do Sertão e Cerimônias do Esquecimento. 10). como desenvolvimento. com a saúde abalada e que toma remédios. 2007. e de tal forma feito. tanto inteligência quanto sentimento. Não se sabe ao certo qual é a doença dele (suspeita-se que seja esquizofrenia . que: Olhar tem a vantagem de ser móvel. em Machado de Assis: O Enigma do Olhar (2007). admira ou despreza. Como fecho para este trabalho. a Introdução. de ponto de vista. O olhar é ora abrangente. pois os problemas apontados nela. Alfredo Bosi.olhar. uma personagem que é professor de Filosofia – Frutuoso Celidônio . através dessa caracterização. que conseguimos. como protagonista. o olhar é ora cognitivo e. por exemplo. retomamos o nosso objeto de estudo. Como o objeto deste estudo é a relação metafórica de Isabel e a Deusa Hera. mas sim. (BOSI. regional. ama ou detesta. visualizá-la no todo. não se aplicam apenas na região onde está caracterizada a obra. numa possível relação simbólica com a Deusa Hera. Na sequência. no limite. p.

2007. pesquise sobre a tese da beleza. expressa por um “eu” racionalmente configurado: o “eu” social é uma máscara e uma ficção.o grupo do qual. de Mário de Andrade). com isso. Mas o conflito continua. Esse uso vai ao encontro da ideia de que a Mitologia Grega é o sustentáculo para o pensamento ocidental e. A personagem de Frutuoso Celidônio vive em conflito. é muito forte. um “inconsciente coletivo”: explicação dada por Jung (2000). o valor dado ao olhar presente nas obras dickeanas aqui estudadas . mitos e expressões próprias da Grécia Antiga. para isto. as metáforas criadas com os deuses do Panteão Grego. O uso dos mitos na obra de Dicke. Sob a influência da psicologia de Ribot. mais uma vez. O enredo é feito de forma meio complexa. pois aparece mais de uma voz narrativa. portanto. vários e conflitantes. . do intuicionismo de Bergson e das teorias de Freud. pois o lugar propicia que estude. encontra-se a crise da própria noção filosófica de pessoa. ciganas e bíblicas. nesta em especial. p. sólido nos seus contornos e fundamentos. Usa o tempo forçosamente disponível para observar – e vale notar. de forma inerente. Vemos que existe nela. pois a definição da beleza sofre uma crise. detentora do comando para o entendimento de nosso mundo.(AGUIAR e SILVA. mostrando. mas ao mesmo tempo sem querer sair. conta com a personagem Leonora – personificação do belo. Afastado. viu-se fazendo parte. casualmente. em Teoria da Literatura: Subjacente a esta crise da personagem romanesca. no tocante à religiosidade e à racionalidade. na comparação do exterior e interior da moça. contra a vontade dos seus labores habituais. O livro é como se fosse uma rapsódia (lembra um pouco Macunaíma. ilhado em um local do qual não consegue sair. Não é possível definir o indivíduo como uma globalidade ético-psicológica coerente. Vemos em todo o transcorrer do texto. ao mesmo tempo que introduz práticas indígenas. que existe uma ligação – feita através dos mitos – dos planos materialistas. A construção dessa personagem nos remete ao pensamento de Vítor Manuel de Aguiar Silva. o romancista descobre que a verdade do homem não pode ser apreendida e comunicada pelo retrato do tipo balzaquiano. quando comparou a Mitologia Grega a várias outras mitologias. O desenvolvimento se dá como se fossem histórias diferentes. 708). e em todas as histórias dentro da história. inteiriço. mas ao mesmo tempo se entrecruzam.– o que justificaria os seus devaneios). Aproveita para aprofundar seu estudo sobre a beleza e. pois trabalha com uma mistura de personagens. psíquicos e espirituais. sob as quais se agitam forças inominadas e se revelam múltiplos “eus” profundos.

professor de Filosofia. o uso constante desta deslocação. esse dialogismo entre a história contada e os mitos nossos conhecidos. O princípio fundamental da deslocação é este: o que pode ser identificado metaforicamente num mito pode apenas ser vinculado. associação significativa.] Tirésias . de deslocar o mito numa direção humana. fazendo alusões à Filosofia. ou de forma declarada.138-139) Vemos. p. e semelhantes.. mas Afrodite. usando-se esse termo para significar.. como a heroína de Beethoven. relacionando ou usando os mitos na construção de seu enredo. como se chama na realidade. Ah. eternos. imagem incidental agregada. onde está a dama dos Unicórnios? (DICKE. em contraste com o “realismo”. Rosaura do Espírito Santo – prostituta. é a formação de um grupo em um bar – “Portal do Céu”. 1957. Não Leonora.] Porque a vi. por alguma forma símile: analogia. portanto. João Ferragem – Andarilho que veio do sertão. na estória romanesca. como argumento de autoridade.. p. Ela existe. (FRYE. e no meio estende-se toda a área da estória romanesca. 2011. sem Antiguidade nem Idade Média. o naturalismo é o outro. Onde está Leonora. E eu lhe dei um nome: Afrodite. buscamos. comprovando esse veio sócio-filosófico que é característico no livro. e todavia. João Bergantin – fugitivo do Hospital . com o desiderato de trazer para reflexão problemas atuais. numa forma de desvelar relações cíclicas existentes no mundo “de sempre”.. não o modo histórico do primeiro ensaio.78) As referências a diversos deuses e mitos permeiam toda a história. em sua obra Anatomia da Crítica (1957): O mito. Ali encontram-se o protagonista.. como podemos perceber em: [. se entornando para a morte e para o fim.[. 2011... fazendo dos inícios os meados e dos fins os começos . Sociologia ou Literatura. respaldo em Northrop Frye. Porque quem não a viu com seus olhos que verão a morte e as últimas terras e o último chão não poderá nunca imaginar que existe no mundo tal beleza incomparável. geralmente de forma metafórica. que antes de morrer.. pobres de nós. 181) Outro fato marcante. Para entendermos a construção desta obra dickeana. no romance. é um extremo da invenção literária. vai morrendo. na obra Cerimônias do Sertão. isso de Tirésias são coisas da Grécia. de convencionalizar o conteúdo numa direção idealizada. Isabel – esposa do vendeiro. cujo nome lhe deram seus pais. e nós não estamos na Grécia e sim nas divisórias entre sertão e cidade desta perdida civilização. E o que vejo permanece. mas ao mesmo tempo atemporais. (DICKE. Frutuoso Celidônio.

Estas pessoas estão reunidas. É preciso. O grupo heterogêneo serve para dar voz às reflexões que o autor incita em nós. No caso da personagem principal. Tal atitude não pode ser tomada facilmente na primeira leitura. em A Poética do Espaço: [. ou. vemos o valor do olhar nesta obra. temos a ilusão de que o problema e a solução são nossos. como a distância.. (BACHELARD. Há uma mistura com o texto bíblico – o rei Saul – e seu eterno dilema: ser substituído no trono por Davi – pessoa a quem ama e odeia ao mesmo tempo. 2000. João Valadar – o ferreiro. deve ser relido imediatamente. Assim como Tirézias. Eles não sabem o que vai acontecer. João Quatruz – o vendeiro.. A presença constante da coruja. Então. Mas todo bom livro. pois a moça não sabia nem sequer o que era “Filosofia”. Após o esboço que é a primeira leitura. local longíquo.percebemos uma denúncia reflexiva. a ideia do tudo ver. então. cantando. uma criança que a leitura distrai. gritando. Dois cegos cantadores adivinhos. numa associação direta com Tirézias – mais uma vez aqui. Na questão dos cegos – e vale observar que ficaram cegos por causa do contato com o branco . apesar de pontuarem bem o momento e o porquê dessa perda. O leitor é ainda um pouco criança. os dois cegos cantadores – os Manuéis. Todas possíveis. p. mas sabem que vai acontecer. a terceira.. em uma noite – Noite da Predestinação – esperando o momento em que haverá a revelação. ao ter contato com ela. pois o tempo todo trabalha muito com isso: a reflexão sobre vários pontos da vida em sociedade. sorrindo.] Que nos aconselha a atitude fenomenológica? Pede para instituir em nós um orgulho de leitura que nos dará a ilusão de participar do próprio trabalho do escritor. conhecer o problema do autor. 39). A primeira leitura é feita com excessiva passividade. o príncipe – Karl Gustav von Hohen und Lowen e João Cerração – o catrumano misterioso. dá-nos uma ideia das várias representações que este significante traz. . Celidônio teve que reelaborar a sua ideia inicial do que era a beleza suprema. o símbolo da sabedoria. ainda. Insensivelmente. O livro é intrigante de tal forma que lê-lo é um exercício que não pode ser feito de uma única vez. vem a obra de leitura. vão nos ensinando pouco a pouco a solução desse problema. na angústia de entender.Psiquiátrico. etc. e para fundamentar essa ideia vamos nos apoiar em Gaston Bachelard. eles têm o poder da adivinhação e associam a perda da visão a ações sobrenaturais. a beleza se desfaz. A segunda leitura. assim que terminado. sobre seus valores. Frutuoso Celidônio. Mas. conceituar o que era a beleza suprema e encontra a personificação desta beleza na personagem Leonora.

vemos em Cerimônias do Sertão a construção de um enredo no qual o leitor é instigado a buscar sentidos. titubeante. mitológico. É o resultado da globalização e do mundo midiatizado. via rádio.. assim como agora Nietzshe descobriu que quem a matou está morrendo também.”. sociológico. p. Deusa Palas Atena e Apolo. onde.. 2011. Elas são de todas as partes do mundo. realiza seus âmbitos no âmbito aéreo de uma atmosfera possível. segundo Platão. de vez em quando. Nesta obra de Dicke. 2011.78) “a beleza real dá alegria. de forma (in)consciente no desvelar dos significados possíveis. Em todo o livro vemos. ias escutando. ou. . Anaxímenes – é o ar -. ou como póssocráticos (DICKE. até mesmo. Então.95) “[. de forma muito expressiva. Que pode estar ilhado fisicamente do resto do mundo. p. taciturno. os atuais. começa com uma notícia. mas comovido. desde os pré-socráticos.” A maioria das personagens do livro. como vemos em. participando. ia te servindo. silenciosamente. a Verdade. o fim da beleza é o Bem. nem a terra. A marca da filosofia é muito forte no livro.Como na explicação de Bachelard. nem a água. porque. como vemos em (DICKE. forma recorrente nas obras deste autor no intuito de universalizar os temas levantados na narrativa. fazendo ligações diversas. ou ainda (DICKE. enfim. referências à Deusa Hera. ao mesmo tempo. p. somente aparecia a cara de olhos enormes daquela mulher que. diz Descartes”. mas.212-213 “[. O que virá depois?”. há muitas referências a vários pensadores. tem acesso a informações de locais muito distantes. há um passeio no texto de Ilíada. de Homero. p..”.] Veio-lhe uma imagem dos tempos de estudante. E a luz morta aureolada de moscas daquele bar quase em ruínas. quando caracterizadas. como transcendental do ser que é. como em (DICKE.] Vênus Afrodite morreu há quinze séculos atrás. a simbologia do olhar como em (DICKE. que se formulou assim: nosso elemento não é o fogo. ora no campo bíblico.20) “Tu. ora no campo filosófico.133) “’Há algo como um muito poderoso e astuto enganador que usa de todas as manhas para ter-me constantemente enganado’. entre outros. ganha destaque a caracterização do olhar. porque a Terra flutua no espaço.. 2011. 2011. 2011. P. é um sertão que não é tão sertão. De forma metafórica. em todas as vezes que o texto refere-se a Frutuoso Celidônio. quando associa os cegos cantadores a Tirézias.

Acontecimentos inusitados vão se sucedendo. A personagem Isabel. Algumas personagens ganham mais destaque nesta obra. Ainda o objetivo é o mesmo. o homem de olhos de bruma. ( DICKE. talvez? Talvez o príncipe Von Hohen und Lowen. Deve ser o Ferreiro ou o então o pai da noiva. espaço e tempo.Mas quem te conta essa história? É o homem dos olhos nublosos ou o escudeiro de dom Saul? Mestre Cipriano do Pau dos Machados. como Leonora. contado por Anelinho Abbas. por exemplo. Cerimônias do Esquecimento Este livro de Dicke. o Catrumano. ora pela relação mítica. é estritamente o bar “Portal do Céu” e lá se encontra o mesmo grupo heterogênico de Cerimônias do Sertão. toma corpo com a chegada do próprio rei Saul ao local da revelação. é posterior ao Cerimônias do Sertão( 2011). numa associação possível à Deusa Palas Atena.31) O livro traz um caráter de denúncia. como é o caso da prostituta Rosaura do Espírito Santo. personagem do nosso trabalho. a noite da revelação – Noite da Predestinação – acontecimento que se dará na casa do ferreiro – João Valadar. sobre o rei Saul. permanece presa em seus devaneios. apesar de publicado em 1995. pois percebemos que há uma continuidade ao relato deste. com seu olhar arguto. O Catrumano não pode ser. conforme atestam as várias passagens metafóricas da morte de cães e gatos. mas é necessário citar para justificar o uso tão intenso da caracterização do olhar. com as mesmas personagens. contada pelo pai da noiva. causada pelos caminhões jamantas e automóveis. como. As denúncias sociais continuam sendo expostas no livro. Esta personagem também ganha mais destaque nesta obra do que na anterior. mais explorada em Cerimônias do Sertão (2011) e apenas citada de forma superficial em Cerimônias do Esquecimento ( 1995). A personagem principal. mas em todos os outros. Frutuoso Celidônio. Ou o Catrumano. bovinos. que não é o tema de nosso estudo. O espaço. um entrecruzar dessas histórias. em detrimento de outras. cataractantes. que dizem trazer o progresso junto com a velocidade. temos a impressão que seja uma continuação. não só em Isabel. numa alusão à Deusa Hera. 2011. Também temos a figura constante da coruja. agora. assegurando. que ora se explicam pelo excesso de álcool consumido por todos. assim. é descrita como de olhos imensos. Como os dois livros tratam do mesmo assunto. p. o pai da noiva. A história do rei Saul. Outros . ouvindo uma história sem fim. João valadar ou João Ferragem? Talvez o próprio dom Saul. nas proximidades do bar. mulher do vendeiro João Quatruz. Mais informações são acrescentadas à caracterização das personagens.

acima citado. ao ver que Zeus estava apaixonado por ela. traz as bandejas repletas de copos e garrafas e todos bebem abundantemente. leitores. conforme já nos foi explicado por Frye. principalmente com os deuses gregos. de forma específica com a deusa objeto deste trabalho. Apesar das relações metafóricas serem várias.personagens continuam presentes como João Ferragem e João Bergantin. mostrando o poder do mito como forma de códigos de linguagem. vemos Isabel descrita de tal forma que ratifica plenamente a associação.A DEUSA HERA Um mito utilizado nas obras em estudo é o da Deusa Hera. 199 e CE. p. que eram descritos como imensos. Através de uma forma metafórica. que parece extasiada pelas fontes inesgotáveis da noite onde brotam todos os mistérios. Nas Cerimônias do Sertão / Esquecimento. A Deusa tinha. Ao longo dos romances. que conforme Bulfinch (2006). exigiu casamento. Hera era muito ciumenta e Zeus. apesar de construída como num “realismo mágico”. A ira de Hera. 136) Ou ainda: . imensos. o “passeio” que o autor faz na mitologia grega. canta-a com o epíteto de olhos bovinos. Vejamos: Isabel. RELAÇÃO METAFÓRICA NAS OBRAS Nas duas obras estudadas vemos o dialogismo com a Filosofia. Zeus casou porque não viu outra saída. claramente. A história. muito abertos e que Homero. como característica física marcante. como não podia voltar-se para Zeus. a dos olhos obumbrados e bovinos. dona de grande beleza. ater-nos-emos às que implicam a personagem Isabel. por razões claras como as já referenciadas. os olhos. A mitologia é pródiga nessas histórias. Os dois livros estudados são ricos em passagens nas quais isso acontece. em Ilíada. era dirigida às suas várias amantes e seus filhos. apresentados a nós. era irmã e mulher de Zeus. dava motivos para isso. celestes. A MITOLOGIA GREGA . (CS. está cheia de questionamentos sócio-filosóficos. Dicke chama à reflexão todos nós. constantemente. vemos.

em clara deferência à Deusa Hera / Juno. p. 48) No trecho abaixo. verificamos o uso do tratamento “Dona” antecedendo o nome de Isabel. (CE. No balcão. em silêncio. fica claro a intenção do autor de transmitir a ideia da respeitabilidade. uma moça envelhecida.. Mas.) (CS. 85 e CE.. p. podemos usar a passagem abaixo: [. por ter se casado com Zeus. Quando se cansa. agora. 83) A Deusa Hera. Isabel parece que vai adivinhando o que está pensando. apalpando. Vemos estas informações em situações similares nas obras em questão. Gatas entre as sombras pardas.. o mês de junho o mês das noivas. p. de olhos imensos. o vendeiro. (CS. gata parda no pardo borralho da noite..] O vendeiro faz um aceno à mulher. segue o silencioso elipse dos mundos e das esferas que giram perpetuamente no ilimitado céu da noite das profundidades.] de vez em quando. abre-a e deixa-a ao lado de um copo na frente do homem de nuca inclinada. (CS. São mais . 100 e CE. que vou te engolindo para te comer melhor. p. lá. Na mitologia romana. que surge numa névoa de volumes misturados com escuridões. p. chama a mulher lá no fundo da venda. 404) E mais: [. p. gata entre as cinzas. encanecida. mastigando. hierática. talvez. atenta ao galope sonâmbulo das coisas que acontecem nas sombras atrás do perfil dos reinos soterrados.. de grandes olhos assustados. como o boitatá: imensos. como uma gata fatigada. Catrumano. misturando carnes. é tida como protetora da vida e da mulher. 40) Como mais um exemplo. preparando. devagar. é denominada de Juno. com ares de cansada. quando observamos que: [... sonambulismo cujos ecos se propagam. o jantar tardio. de imensos olhos abertos. adquirida por Isabel com a condição de casada. sendo. franze o grande bigode canoso e coça o nariz quadrado.Isabel: aqueles olhos que te engolem com os olhos. esta vem com uma garrafa. seus ombros quadrados (. ela está do outro lado das paredes. A nós.] Isabel. Sob a lâmpada febrenta e esverdeada. sua mulher. como sonâmbula..

em Bulfinch (2006). com seus olhos imensos. 64 e 65) Do excerto acima. e que deixam “um rastro de ecos agudos como cristais retinindo” – a ira de Hera. como se estivesse atrás de cada um. nas obras de Dicke. numa luta já sabida perdida. ao ouvir o pio prolongado daquele vivente habitante das noites. no sentido de comprovar a relação entre a personagem e a Deusa Hera. podemos associar aí o cansaço de Isabel.características que se somam às já citadas. na hora em que ela vai deixando cada xícara de café ao lado de cada um. Neles. p. uma sombra densa de corujas imensamente velhas em plumas e plumagens se desenha. Ela.. num estudo mais voltado à Semiótica. 124-125 e CE. das corujas que ainda ressoa nos ouvidos. olheirosos e tristes. especialmente atrás dela em particular.. mas que passam e desaparecem – por que as amantes se sucedem. se ouvem risos femininos na noite: aparecem mulheres. Também vimos. onde retumba a noite e. podemos associar. passam e a risada delas se apaga. a: . [. Dona Isabel aparece com uma bandeja com xícaras de café. longa como a noite. como mariposas noturnas. do eco. p. como se ela tivesse secretas comabida perdida unicações com o mundo das corujas que cantam da meia-noite para as madrugadas. como as traições eram sempre reincidentes. desaparecem na noite como rastilhos de fogo-fátuos ou fogos de artifícios se incrustando na escuridão. das duas obras de Dicke aqui estudadas e o mito da Deusa Hera. Vejamos: o ciúme que Hera sentia de Zeus e suas constantes traições justificaria a relação com a tristeza descrita acima. E. enormes como as bolas do circo onde as moças fazem piruetas. parece-lhe que abre ainda mais os olhos já grandes.] Silêncio. a coruja canta agudamente. o trecho que se refere às mulheres como mariposas noturnas – aí aparece a ideia da relação sexual implícita no sentido da palavra “noturnas” /noites . (CS. receber pessoas em sua casa. no fundo das meninas. e se prolongasse uma sombra imensa atrás de cada um. poderíamos fazer uso de outros elementos mais para justificar a nossa defesa de que há uma relação metafórica entre a personagem Isabel. no fundo. vêm rindo e deixando atrás de si um rastro de ecos agudos como cristais retinindo. A esse aspecto da deusa estudada. que outra característica da Deusa Hera era o gosto por dar festas.

100 e CE. profundo e sinuoso. com o abridor. conforme se verifica em sua predileção pelos aqueus na Guerra de Tróia. com penumbras nos olhos. onde. Até entontecem seus olhos de tão grandes. como sonâmbula. abre-a e a põe na mesa. se vão os carros. E a luz morna aureolada de moscas daquele bar quase em ruínas. que vem com a brisa que sobe em murmúrios e sussurros de águas [. atrás de cujos matagais. de vez em quando... p. hierática. rugas precoces em volta. como que entontecida com o peso de tantos olhos que se lhe saem da cara. em: [. Isso pode ser comprovado com: [. entorpecida. na noite. vão até lá longe. temos: [. como um pergaminho em garranchos selado pelo destino. 20) Ou. Vem em silêncio. p. olhos de girassóis. Seus olhos passeiam imensos pela varanda.. 42)) Ainda. p. giros das estrelas. abre-a e deixa-a ao lado de um copo na frente do homem de nuca inclinada. com uma possibilidade leitura aproximada.relação dos tempos longíquos/antiguidade com o nosso momento atual. 48) Também podemos usar. ias escutando. abre a garrafa na frente de homem João Ferragem e. (CS. em sombras a cara. mas comovido. debruçados do negror que se derrama lá fora. tonta. ainda.. anônima e infinita. como quem viu prodígios. como que imensamente cansada. 87 e CE. ao lado de um copo. de imensos olhos abertos. como flores que vêm das sementes. sonambulismo cujos ecos se propagam. ia te servindo... nas olheiras e em volta do rosto macilento. volutas dos cometas. olhos de borracha com o poder das meninas pesadas de tanta velhice do Tempo interior.] O vendeiro faz um aceno à mulher.] Isabel. parece abarcar mistérios que borbulham e borboleteiam. ou seja. com a boca fechada. tem olhos imensos. órbitas dos astros.] Tu taciturno..dialogismo entre a personagem Isabel e a Deusa Hera . em silêncio. (CE. 41. silenciosamente..] O outro fala alguma coisa enevoada à mulher através da cortina encardida e brumosa que separa os cômodos lá dentro. como defesa à teoria do nosso estudo . esta vem com uma garrafa.[.. Esta característica é . e sai a mulher envolta como que em sombras. 134) Esta Deusa também teve muita participação nos assuntos humanos. bêbada do grave transmigrar da noite. somente aparecia a cara de olhos enormes daquela mulher que. p.]. p. p. Era mesmo o pai da noiva quem contava aquela história? (CS. (CS.. titubeante. com o momento/tempo no qual se passam as ações da obra estudada.

Alfredo. permeando os dois livros. Izabel se ocupa dos assuntos humanos justamente pela observação.ed. fizemos observações com o intuito de comprovar a ligação existente entre a personagem Isabel e a Deusa Hera. Isabel. 3. 1973.explorada de forma implícita por Dicke. o “entrecruzar” de Isabel e a Deusa Hera. recebe todos os demais personagens. 4ª Ed. de Dicke e a Mitologia Grega. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CANDIDO.. CONSIDERAÇÕES FINAIS A proposta deste artigo era demonstrar. São Paulo : Nacional. Essa afirmação foi devidamente apresentada no título dois. Dicke chama à reflexão todos nós. BACHELARD.São Paulo : WMF Martins Fontes. Através de uma forma metafórica. a mesma que Dicke quer fazer o leitor enxergar. A Poética do Espaço. São Paulo : Martins Fontes. mas delimitamos nosso trabalho a estudar a relação metafórica de apenas uma personagem. através da exposição do nosso estudo. A cada recorte apresentado. mas que traz em si um manancial de reflexão – os olhos imensos – está sempre por perto. o dialogismo existente entre as obras Cerimônias do Sertão (2011) e Cerimônias do Esquecimento (1995). nos recortes destacados dos livros.. Nas duas obras estudadas vemos esse diálogo constante com a Filosofia. mostrando sua relação similar com a Deusa Hera. deste trabalho. A literatura e a formação do homem. BOSI. Machado de Assis : o enigma do olhar. As relações metafóricas são várias. 2007. e isto é facilmente percebido pelo destaque que ela tem na obra. Antonio. . leitores. Gaston. _____ Literatura e Sociedade. mostrando o poder do mito como forma de códigos de linguagem. principalmente com os deuses gregos. 2006. São Paulo : Nacional. 1972. aquela que “serve” os demais. espreita. É uma personagem que está sempre quieta. avalia. ver.

Portugal : Edições Almedina SA. MT : Carlini & Caniato. Cuiabá. MT : editora da UFMT. Cerimônias do Sertão. . 2011.BULFINCH. Teoria da Literatura. DICKE. 2007. Coimbra. 1995. _____ Cerimônias do Esquecimento. Cuiabá. O livro de oura da mitologia: história de deuses e heróis. –Rio de Janeiro : Ediouro. Ricardo Guilherme. 2006. Vitor Manuel Aguiar e. Thomas. SILVA.

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