O futuro a nós pertence – Carta Capital – 03 de Outubro de 2012 Como eliminar as contradições que empanam o definitivo e real desenvolvimento

– Por Ana Paula Sousa Foi entre as montanhas de Petrópolis (RJ) que o austríaco Stefan Zweig (1881-1942) se matou. Foi também lá que, com laivos de otimismo, concebeu o livro que expressaria o carma nacional: Brasil, País do Futuro. O que teria levado o escritor a, pouco antes de suicidar-se, lançar um olhar assim esperançoso sobre o lugar onde se exilou? Contraditório, Zweig acabaria por espelhar, ele mesmo, outro de nossos carmas: Brasil, país das contradições.Nação de imensas potencialidades econômicas e naturais - água à farta, recursos minerais a explorar e uma reserva de petróleo que os geólogos apostam ser a terceira do mundo -, o Brasil, a despeito dos avanços, caminha rumo ao" futuro com um dos maiores índices de desigualdade do mundo, com cidades que cresceram de forma caótica e um sistema educacional falho. Vivemos, até hoje, a contradição entre crescimento e atraso, beleza geográfica e feiura urbana, grandeza e pequenez. Para comemorar seus 18 anos, Carta-Capital resolveu usar a própria efeméride para sondar, mais uma vez, as hipóteses para esse futuro que Zweig rascunhou como redentor. Que país teremos daqui a 18 anos? Em busca de respostas, ouviu os economistas Delfim Netto, Luiz Gonzaga Belluzzo e Carlos Lessa, o ministro Celso Amorim, o embaixador Rubens Ricupero e os pesquisadores Luiz Antonio Oliveira (IBGE) e Renato Meirelles (Data Popular). Todos ponderaram, em primeiro lugar, que o futuro é opaco. E tanto Delfim quanto Belluzzo relembraram o conceito da incerteza de John Maynard Keynes (1883-1946): não podemos desenhar um futuro provável pela simples razão de que ele é incerto mesmo. Podemos, no entanto, analisar as potencialidades e fraquezas que o País acumulou e, inevitavelmente, carregará para o futuro. Podemos, também, fazer uma previsão demográfica. De acordo com os estudos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), teremos, em 2030, perto de 216 milhões de habitantes, 26 milhões a mais que hoje, com a população crescendo num ritmo mínimo, até chegar à estagnação, em 2040. A média de filhos por mulher, que passou de 6,2 na década de 1930 para 2,1 entre 1999 e 2004, deve chegar a 1,4, abaixo do indíce de reposição por casal. Em 2030, seremos 40,5 milhões com mais de 60 anos de idade e teremos 76,5 idosos para cada 100 jovens. Apenas 17% da população terá menos de 15 anos — o índice, hoje, é de 26%. Até lá, ainda teremos uma sociedade na qual o número de pessoas que trabalham é maior do que o dos que já trabalharam ou ainda vão trabalhar. Em 2040, a proporção se inverte. Isso significa que aqueles que estão no meio, entre 14 e 65 anos, terão de experimentar um aumento de produtividade para sustentar os demais. “Temos, portanto, de construir um Brasil que, em 2030, seja capaz de dar emprego de boa qualidade para 150 milhões de pessoas. Seguramente, não é com o modelo que temos hoje que conseguiremos”, diz Delfim. "Será preciso investir em indústria e serviços.” Tampouco é com o modelo atual que alcançaremos um sistema de saúde capaz de atender uma população cada vez mais velha e obesa. Um estudo feito pelo Ministério da Saúde, pela Fundação Oswal-do Cruz e pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) aponta evidências de que a “epidemia da obesidade” fará com que, até 2030, dobre a prevalência do diabetes no Brasil. Aumentará, sem dúvida, a busca por assistência médica. Diminuirá, no entanto, a procura por educação primária. Terá o Estado capacidade de se readequar a essas novas demandas? A seguir, o que alguns dos nossos mais importantes pensadores vislumbram para o País que, em 2030, mantido o crescimento de 4,5% a 6% ao ano, deve se tornar a quarta ou quinta economia do mundo. A GENTE NÃO QUER SÓ COMIDA O lugar que a classe C, quase um hit no Brasil atual, ocupará no alfabeto e na sociedade daqui a 30 anos é uma miragem. Há quem veja, lá na frente, muitos dos integrantes desse vasto grupo trocando de letra na escala social. “Haverá muito mais gente indo da classe C para as classes A e B do que da C para a D”, aposta Renato Meirelles, diretor do Data Popular, instituto de pesquisa que ganhou fama ao debruçar-se sobre esses novos consumidores brasileiros. Em vez de gastar com eletrodomésticos, a classe vai preferir serviços. Em 2030, eles já terão tudo o que é básico.” A inserção de mais brasileiros no mundo do consumo é um caminho sem volta. Como descreve Delfim Netto, o processo civilizatório brasileiro fez com que a empregada doméstica virasse manicure, a mani-cure fosse para o call center, a moça do call ccnter fosse para o supermercado e a caixa do supermercado passasse a trabalhar na loja de departamento. “Essa mulher que, quando era empregada doméstica, usava sabão de coco, hoje usa Dove. Mas a continuidade dessa mudança não pode se dar, simplesmente, com medidas econômicas, como acontece hoje, num processo que acaba pressionando a inflação.” E mesmo esse nível de consumo, apesar de ter explodido nos últimos anos, ainda pode ser considerado baixo. “Será preciso aguardar anos e anos de contínua expansão da renda e do consumo para poder falar em verdadeiras classes médias. Para isso, há uma dificuldade: conciliar o aumento da demanda e do consumo com a necessidade de aumentar substancialmente a poupança e o investimento, ainda insuficientes para garantir o crescimento da economia”, pondera Rubens Ricupero. Parte desse dilema reside no fato de que, no caso recente do Brasil, o endividamento não veio acompanhado de uma dinamização da economia. “Se a indústria tivesse usado isso para ampliar o seu parque, gerar emprego e renda, o endividamento poderia ter sido virtuoso”, pondera Carlos Lessa. “Acontece que o Brasil lançou o endividamento popular de forma irresponsável e está no limiar de uma bolha, que só não vai estourar lá na frente se houver retomada do crescimento.” O patrimônio construído pela classe C está, em muitos casos, atrelada a dívidas longas e a bens que se desvalorizam com o passar dos anos. Além da questão econômica, o que se coloca, para o futuro, é a ascensão educacional e cultural dessa fatia da população. “Minha maior preocupação é que, mesmo dando a essa classe média ascendente as condições econômicas de bem-estar, o País a mantenha como refém de um sistema de informação e de formação cultural que os empobrece, os torna incapazes de

o orçamento da Defesa. ninguém cuida. mas o Japão. será mesmo possível ter um país menos desigual e amador no que diz respeito à saúde e educação. Temos iniciativas tópicas.” DIREITO DE T0D0S.O ano letivo do brasileiro corresponde a 70% daquele de um europeu. simplesmente. diz Ricupero. Em 2030. Não. fortalecendo o Sistema Único de Saúde (SUS) e redirecionando os investimentos públicos no setor. completa. “Isso vai depender. mas estou certo de que esse processo terá caminhado”. petróleo. tomai* posições”. no fundo. a diplomacia também tenha de. ministro da Defesa e ex-ministro das Relações Exteriores. incluídos os pagamentos dos inativos. “O problema é conseguir construir um consenso mínimo”. e achar que não vai ter de cuidar. porém. “A forma de inserção que o capitalismo permite se dá pelo consumo e pelo endividamento. ansiedade. os brasileiros passaram a engordar e a adquirir doenças dos países ditos avançados. não conseguem construir uma hipótese a partir de uma situação concreta. cria uma sociedade republicana. Delfim Netto recorre à Constituição: “A sociedade que estamos construindo nasceu na Constituição de 1988 e tem algumas coisas que são mais sofisticadas do que parecem. “O Brasil. que trouxe para o primeiro plano não só o Brasil. Trata-se de uma Constituição que. que as duas grandes questões que o mundo desenvolvido enfrentará. “Quando virei reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro. POSSE DE ALGUNS “Temos um déficit educacional importantíssimo: estamos na rabeira do mundo. mas é um desejo muito interessante porque vai na direção do processo civilizatório. diz Amorim. professores universitários que já viram passar pelos bancos escolares diferentes gerações. e constrói um regime que prevê certa igualdade de oportunidades. a índia e a África do Sul. Não temos inimigos. mas não um projeto educacional”. A educação. esse índice. hoje. idealmente.quando o assunto é o preparo dos estudantes que chegam às universidades. onde todos estão sujeitos à mesma lei. a partir de agora. Em tese. e na prática. pontua Belluzzo. Tanto o consultor editorial de CartaCapítal quanto Carlos Lessa. E. em torno dos 2.” AOS OLHOS DOS OUTROS A imagem do País que não se mete em confusão e está sempre bem com todo mundo dificilmente persistirá até 2030. cada vez mais. Há. a quinta ou quarta. “Mas acho possível. uma maior presença do Brasil no cenário internacional começou a ser requisitada”. mesmo as mais concorridas. são: o tamanho e o papel do Estado e a escolha entre .e preocupação . Não é só a Amazônia que está em jogo”.5% do PIB.5%. Educação e saúde nivelam o ponto de partida de todos os cidadãos. diz Amorim. a revista The Economist apontou. além disso. foi assolada por certo senso de praticidade. “O Brasil tem energia. da eliminação dos vetos de grandes potências (como o da China em relação ao Japão) e da superação das rivalidades regionais (Argentina e México em relação ao Brasil). Enquanto. referindo-se ao encontro do presidente Lula com o líder iraniano Mahmoud Ahmadinejad. A possibilidade de morte é muito grande”. vai tendo mais influência no cenário internacional e isso fará com que. Achei que fosse por falta de emprego. ganhar relevância. descobri que engenharia era a carreira que tinha o mais alto índice de evasão. Eles estão excessivamente expostos a imagens e. é de 1. São ativos cobiçáveis. à medida que cresce. Caminho semelhante segue o sistema de saúde. Não temos nenhuma das duas coisas. o de incorporar as pessoas ao todo social. compara Belluzzo. Não podemos esperar que outros venham porque. também pode fazer com o que o País consiga uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU. O mesmo projeto que coletou esses dados . diz Amorim. apesar de todo mundo falar desse assunto. SOBRE POLÍTICOS E POLÍTICA Em duas capas recentes. infelizmente. biodiversidade e é um dos maiores produtores de alimentos do mundo. deve estar. mas o importante é ter isso como objetivo. em 2030. como câncer e problemas de natureza psiquiátrica (depressão. vão querer levar a parte deles. Isso pode até ser uma utopia. “Não se pode ser a sexta ou sétima economia do mundo.“Os alunos perderam a capacidade do raciocínio abstrato. “Entregar todas essas ferramentas tecnológicas nas mãos de uma sociedade com tamanha fragilidade cultural e educacional é como soltar um vírus da gripe em uma tribo que ainda não foi aculturada. a despeito de todos os benefícios. E por isso que educação é saúde são universais e gratuitas. se vierem. e não para adquirir conhecimento. t\ daqui a 18 anos. prevê Celso Amorim. a Alemanha. “Ao contrário do que boa parte da mídia brasileira achava. pedras a serem tiradas do caminho. e as vai empobrecendo. A política internacional brasileira deve. da própria defesa e contribuir para a paz mundial de uma forma efetiva”. exemplifica Belluzzo.” Ricupero acredita que. em 2010." Uma das consequências do protagonismo brasileiro é a necessidade de um investimento maior na defesa. Para embasar o “sim” que oferece como resposta à pergunta. mas devemos evitar que ameaças externas se concretizem. Só são capazes de lidar com o imediato”. inevitavelmente. entre outras coisas.A mudança no jogo de forças no mundo. relata Lessa. cada vez mais.compreender o mundo em que estão vivendo”. Vai aumentar a corrida por esses ativos? Pode haver um conflito entre duas superpotências que as leve a usar de meios não tão legítimos para obtê-los. “O País tem de estar preparado para se defender. transtornos alimentares). eu. porque se trata de uma estrutura rígida e complexa”. Isso se transforma numa máquina infernal que vai deglutindo as pessoas. primeiro a Europa como foco e depois os EUA. A causa era a reprovação em massa em cálculo no primeiro ano”. quem pode discordar de tais saídas? Mas. e eu não sei qual será a situação do mundo daqui a 20 anos. essa conquista é até provável -dada a nova realidade mundial. parece ter afastado ainda mais a educação do seu sentido mais amplo.chamado Brasil 2030 -conclui que o País só terá condições de enfrentar os desafios nesse campo se o Estado tiver uma ação efetiva. mais do que possível. E a tecnologia. com a influência dos BRICS em alta e a Europa encolhendo economicamente. Estuda-se para arrumar um emprego. “Não podemos ter certeza. A medida que foram tendo mais acesso a alimentos industrializados e a objetos capazes de garantir o bem-estar. de alguma maneira. diz Belluzzo. não estarei mais aqui. demonstram espanto .

e no Brasil especialmente. a solução para esse cenário de desagregação é uma reforma no sistema eleitoral. agora com preços e demanda mais positivos.” BRASIL. prossegue Belluzzo. vai encontrar gente de cabelos brancos. outra vez.” Para Celso Amorim. na Europa e nos Estados Unidos. prescindirmos de um tratamento mais adequado para essas pessoas. como no da população. que passaram de uma fase explosiva. na Europa e mesmo nos Estados Unidos. que pressionava excessivamente os recursos. mas o problema é que a mídia é incapaz de fazer o exercício de olhar para o que dá certo. A gente fala muito da corrupção. Até 2030. que vai depender de um crescimento do País a taxas mais satisfatórias e regulares. que o Brasil tinha dentro de si uma história maldita. “Isso vai levar tempo. alerta Lessa.” Os homens e suas vidas concretas. E nossa maior força é o povo.austeridade fiscal e investimentos públicos. Não é à toa que o livro do Stefan Zweig foi um sucesso imenso nos anos 1950. assumir o controle da economia. e o petróleo e a energia. Acho que o Brasil tem possibilidade de criar uma sociedade civilizada. Maranhão e Piauí. “Uma sociedade como a nossa não vai enfrentar o que vem por aí sem a política”. mas ninguém diria que os dois países tiveram a mesma sabedoria em usar essa riqueza. Nos últimos anos. que fará com que as sociedades tomem consciência de que elas precisam. que não existe ainda. como tem feito. hoje. tirou delas a capacidade de discernimento e julgamento. Renato Meirelles: As mulheres terão um papel fundamental na sociedade brasileira. Basta ver o que aconteceu com as da classe C: já estudam mais que os homens. “O homem foi encontrando mecanismos para administrar sua vida dentro de um Estado que deve ser limitado. mas não o produzem automaticamente. mas isso tudo tem a ver com o sistema eleitoral. Acho que a sociedade brasileira entendeu que a discussão sobre o tamanho do Estado não tem sentido. desse ‘moinho satânico’. dos quais o Brasil tinha sido sempre deficiente e hoje se converteu em autossuficiente. profundamente. O mercado não pode existir sem um Estado suficientemente forte para sustentá-lo. 0 PAÍS DO FUTURO Carlos Lessa: Sou de uma geração que acreditou. em alguns casos. vem a urna e corrige. massacrou as pessoas. Se o sujeito exagera na urna. com tendência até o decréscimo. Também espero. com suas necessidades e desejos. E falo. os congressistas eleitos pelo sistema não têm interesse em mudá-lo. Eu sei que não existe. o capitalismo. rapidamente ele vai para o buraco e vem o mercado e o corrige. da questão cultural. dentro do si. não será mais possível que ajustes fiscais e medidas do gênero sejam tomados a despeito do dia a dia real das pessoas. não só em busca de lazer. mas capaz de interferir nas questões econômicas. a pobreza absoluta e a extrema em bolsões localizados em estados como Alagoas. criativo ao extremo. que atinge praticamente todas as sociedades do mundo ocidental. como dizia Karl Polanyi. “Estamos atravessando um momento doloroso. a população deixou de acreditar na economia. As commodities. o que está por trás dessas discussões é um problema mais amplo. Foi importante trazer todos esses escândalos à to na. fatores estratégicos. Mas é importante lembrarmos que tais fatores facilitam o desenvolvimento. Com isso. mas não tenho certeza disso. Isso diz muito sobre nós.” Para Belluzzo. mas está muito claro. A juventude está muito cheia de dúvidas. O mercado só pode existir se a propriedade privada e os contratos forem obedecidos”. A mesma incerteza pesa sobre a continuidade de ganhos na redução da desigualdade. aqui a população criou uma aversão a congressistas e mesmo a ocupantes de cargos executivos. esse talvez seja o maior desafio para o futuro. Temos duas grandes instituições: a urna e o mercado. sobretudo através dos meios de comunicação de massa. É fácil perceber por quê: tanto a Noruega quanto a Venezuela são grandes produtores e exportadores de petróleo. um processo civilizatório potencial. mas o nosso é imperfeito demais” observa. desqualifica-se a ideia da política. e aí parece que todos são corruptos. mas que o futuro era nosso. Se já mandavam quando os homens ganhavam mais. com tendência a exportador de porte médio. que o Brasil continue a reduzir. que se tornaram agora propícios ao crescimento brasileiro: a demografia e a urbanização. terão de dar as diretrizes para a política econômica. que as pessoas não são mais os sujeitos de suas vidas”. Temos de lembrar sempre que somos um país onde toda e qualquer festa prospera. Ou seja. mas em busca de crescimento também. no mundo inteiro. E será possível corrigi-lo? “Teríamos de começar a pensar nisso Trata-se de algo complicado porque. Onde está o grupo etário que mantém a fé de que o Brasil contém. Rubens Ricupero: Vejo algumas condições objetivas. sistema eleitoral perfeito. de muitas perdas. Terá também o Brasil de tomar esse tipo cie decisão política nos próximos 18 anos? “O Brasil está enfrentado isso agora.” Essas mesmas pessoas terão. de recobrar a crença no sistema político. “Não vai ser mais possível. naturalmente. Se o mercado adquire muito poder. A minha geração aposta no Brasil ainda hoje. responde Delfim Netto. as mulheres representarão metade da economia brasileira. Enquanto. aqui no Brasil. sobretudo. “Na parte política. “O combate à corrupção era um fato que não existia no Brasil. no mundo. um presente cheio de problemas. para uma etapa de aumento lento. imagina o que vai acontecer? Também estou certo de que a sociedade vai cobrar equipamentos culturais. .

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