TRAJETOS BIOGRÁFICOS DE UM ETNÓGRAFO-EDUCADOR: Câmara Cascudo e o processo de institucionalização da antropologia no Rio Grande do Norte Luiz Antônio de Oliveira

Antropólogo (UFPI/CMRV) Introdução No percurso histórico-intelectual de Câmara Cascudo, assume destacada importância o final da década de 1920. Período de agitações e significativas transformações político-econômicas e intelectuais, nesse momento é iniciada a incursão etnográfica de Cascudo nos estudos de folclore. Fundando o que se poderia chamar de uma antropologia nativa, o “provinciano incurável”, nos dizeres de Afrânio Peixoto, fincou raízes no Rio Grande do Norte, personalizando acentuadamente a sua obra. Além disso, seus estudos históricos podem ser interpretados como exemplos de uma abordagem antropológica da história, tendo em vista o seu recorrente interesse em descrever os costumes do povo. É importante ressaltar também que a institucionalização da antropologia no estado, nos quadros da Universidade e do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte está ligada à trajetória de vida e intelectual de Câmara Cascudo. Desse modo, quando professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, nos anos de 1960, Cascudo participa da fundação do Instituto de Antropologia, órgão da Universidade, hoje conhecido como Museu Câmara Cascudo. Mas, o declínio de uma antropologia cascudiana na academia, não obstante o fato do mestre potiguar do folclore instituir uma forte tradição de estudos da cultura popular na região, pode ser tomado como um exemplo da não adequação das pesquisas folclóricas “tradicionais” na estrutura institucional “moderna” das Universidades. Tal fato reflete importantes aspectos, tanto do seu personalismo intelectual, quanto do contexto histórico que marca o nascimento das ciências sociais no Brasil. Talvez esta seja a razão tanto para o não reconhecimento de Cascudo como um cientista social no sentido estrito do termo, quanto, durante certo tempo, para a não visibilidade dos estudos etnográficos ou de antropologia no âmbito da UFRN. Quanto ao Museu Câmara Cascudo, vale lembrar que, após o período do Instituto de Antropologia, ele perde gradativamente o papel de espaço de ensino e pesquisa na área de antropologia e ciências sociais. Atualmente o Museu vive um novo momento com a criação do Núcleo Câmara Cascudo de Estudos e Pesquisas Norte-rio-grandenses,

fundado por um grupo de intelectuais ligados à elite local em 1902. e Antônio Cabral de Carvalho. Participaram também da fundação D. substituído logo em seguida por Veríssimo de Melo. Desse modo. nos fazem pensar em questões como a da “aclimatação” do pensamento tradicionalista de um estudioso do folclore e da etnografia no espaço moderno da academia. federalizada no dia 18 de dezembro do mesmo ano. odontólogo e diretor do Instituto por 16 anos. O Núcleo. a partir de 2006. o Núcleo se propõe a realizar alguns dos antigos propósitos da antropologia cascudiana. uma vez que tal mudança se processa a partir do momento em que Cascudo se afasta do Instituto de Antropologia. a passagem dos estudos de Etnografia Geral (leia-se folclore) para os de Antropologia Física (arqueologia e paleontologia) como principais linhas de pesquisa do Instituto. Em sua formação inicial. tendo como um de seus fundadores e primeiro diretor “o mestre Cascudo”. cultura e literatura potiguares. o Dr. o de “Antropologia Física”. em algum momento. gradualmente perdem espaço frente ao avanço da linha de pesquisa arqueológica. havia três departamentos: o de “Etnografia Geral” dirigida inicialmente por Câmara Cascudo. no âmbito da então Universidade do Rio Grande do Norte (URN). Cascudo empreende aí vários de seus estudos históricos e etnográficos. uma reflexão crítica sobre a produção intelectual produzida localmente a respeito da história. Talvez isto esteja ligado a breve permanência de Cascudo nos quadros de direção do Instituto. sendo reconhecido por eles como principal estudioso da cultura do povo e historiador oficial do estado e da cidade do Natal. Ao voltar-se também para o estudo das expressões culturais populares rurais e urbanas. História e Antropologia. Mas. dirigido pelo Monsenhor Dom Nivaldo Monte. malogrando um possível projeto de antropologia cascudiana na instituição. Do folclore à arqueologia: o Instituto de Antropologia No dia 22 de novembro de 1960. haviam se constituído em uma primeira orientação de ensino e pesquisa no Instituto. sediado no espaço físico do Museu. médico e reitor da Universidade. bem como junto a Pró-Reitoria de Planejamento da UFRN em 200?. que se devotava ao estudo das “áreas de cultura” do RN. Onofre Lopes. se os estudos do “folk-lore”. é criado o Instituto de Antropologia. dedicado aos estudos arqueológicos dos sambaquis potiguares e o de Genética. Mais ambientado no espaço do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte.originalmente fundado nos departamentos de Letras. dentre outros objetivos. . arcebispo de Natal. visa promover. Nivaldo Monte.

nativizada por um saber tradicionalista de província pouco ambientado no espaço da Universidade. 1990). A partir desse momento. Sílvio Romero. um modelo de intelectual que irá informar o perfil de nossa intelligentsia até o advento das universidades nos primeiros decênios do século XX. favorece o desenvolvimento das pesquisas sobre a cultura popular. literatura e história. por exemplo. obedeceram a esse cânone. que remonta às décadas de 30 e 40. invocada ainda hoje pelos nossos cientistas sociais como exemplos de alteridade. a “questão científica” dos estudos de folclore (CAVALCANTI. Desse modo. expressa essa desigualdade de condições. Situado nesse contexto intelectual. representantes de uma elite declinante que haviam tomado para si a tarefa de escrever a história oficial nacional e regional. a formação de grupos folclóricos.No ambiente do Instituto Histórico do Estado. então. a ideologia nacionalista que informa os estudos sociais no período. descrevendo ainda os costumes dos seus habitantes. Cascudo pôde dar vazão a um personalismo intelectual característico dos pensadores de finais de século XIX. Como exemplo da situação marginal do folclore no nascente mundo acadêmico das Ciências Sociais brasileiras. é discutida na década de 1950. a sociologia e a antropologia. apadrinhados e controlados pelas elites locais. influenciado por uma interpretação evolucionista . os precursores da antropologia no Nordeste. ainda marcado pela indistinção de fronteiras disciplinares rígidas entre o folclore. Cascudo participa ativamente do movimento folclorista que atua com força no Nordeste até os anos 70. Este é o momento da valorização da cultura nacional característica da era Vargas que teve como principal resultado. Parte dos estudos de etnografia da cultura popular e folclore são construídos. nos institutos estatais de pesquisa. sobretudo. período que antecede o momento de reprodução social dos antropólogos no Brasil. desse modo. O problema da “domesticação” do pensamento folclorista “tradicional” de Cascudo na instituição “moderna” da Universidade ilustra uma situação mais ampla ligada ao período da institucionalização das Ciências Sociais no Brasil. em todo o país. entendemos que a contextualização do pensamento de Cascudo ajuda a esclarecer importantes aspectos de sua antropologia. são travados diferentes debates a respeito das pesquisas folclóricas e etnográficas em espaços exteriores ao da academia. 1996). numa situação de marginalidade acadêmica que relega seus estudiosos a uma condição “literária” e não científica. Desse modo. Gilberto Freyre e Câmara Cascudo são pensadores intelectualmente situados nesse contexto. A idéia de folclore. Realizando estudos de folclore. É construído. VILHENA. voltados para a orientação de políticas públicas (VILHENA.

ainda persistente na Academia e nos salões literários. se não um reconhecimento acadêmico definitivo. sem. Desse modo. havia sido criado. Tais homenagens. em reconhecimento ao seu trabalho de etnógrafo. como o Instituto Histórico e Geográfico que realizou uma série de solenidades em dezembro de 1964 chamadas de Semana Câmara Cascudo e a Câmara Municipal de Natal que. consagrando. no mesmo ano. estendem-se a outros espaços. no próprio Instituto de Antropologia. chamada Arquivos do Instituto de Antropologia. caracterizado. a criação do Instituto de Antropologia representa. Dois anos antes. criou o Prêmio Literário Câmara Cascudo. ao menos a sua notoriedade intelectual. de fato. ainda em 1966. o Centro Rural Universitário de Treinamento e Ação Comunitária (CRUTAC). Veríssimo de Melo (1968) destaca a sua relevância como um possível espaço para o desenvolvimento dos estudos de folclore e de uma “antropologia aplicada” na região. principalmente. Além disso. pela prestação de serviços por estudantes universitários nas áreas rurais. a medalha cultural Câmara Cascudo. por exemplo. Num momento de consagração da carreira intelectual do folclorista potiguar. o título de Professor Emérito da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. conseguir produzir reflexões teóricas consistentes. Mas. a cadeira de Direito Internacional desde os tempos da Faculdade de Direito de Natal no início da década de 50. Sem sabermos ao certo quantos números foram publicados. Localizamos alguns números daquela que seguramente é uma das primeiras publicações da UFRN. assumindo. É o momento de sua institucionalização nos quadros da Universidade que será a responsável. pela reprodução social dos antropólogos “nativos”. também responsável por importantes experiências etnográficas no interior do Estado. a relação de Cascudo com a Universidade não é apenas de distância. No que diz . nos parece que os Arquivos devem ter surgido ainda no início dos anos de 1960. como a da resolução de fevereiro de 1965 do Conselho Universitário que rebatiza o Instituto de Antropologia como Instituto de Antropologia Câmara Cascudo. no período. no entanto. a busca sistemática da origem dos fatos culturais levou o mestre potiguar do folclore a realizar estudos comparados. O Instituto de Antropologia possuía ainda um periódico que divulgava os estudos realizados por seus pesquisadores. com a criação do Programa de Pós-Graduação em Antropologia em 1979. desde finais da década de 70. a Universidade Federal do Rio Grande do Norte lhe rende uma série de homenagens. em 1967. programa pioneiro no Brasil. ele recebe. No âmbito da UFRN é criado. Na década seguinte. um importante período na história da antropologia no Rio Grande do Norte.

respeito ao conteúdo dessas publicações são encontrados artigos que versam “do folclore a arqueologia”. como aquele cursado por Nássaro Nasser na Universidade de Colúmbia sob a orientação de Charles Wagley. Mais ou menos na mesma época é criado o Programa de Pós-Graduação em Antropologia. Há também uma espécie de apêndice chamado noticiário que trazia informações sobre o Instituto e as atividades de ensino e pesquisa realizadas. O Museu. bolsistas) irá compor. secundarizando os aspectos da vida cotidiana postos em primeiro plano nos estudos etnográficos de Cascudo. A partir desse período. de vida muito breve. a antropologia na academia passa a marginalizar os estudos . a partir desse momento. Passa a constituir-se. Essa seção se constitui em importante fonte etnográfica para a compreensão dos primeiros passos institucionais da antropologia dentro da Universidade. entre os anos de 1963 e 1964. mas. desenvolvendo diferentes linhas de pesquisa. Na década de 70. por Egon Schaden. Nesse curso era traçado o objetivo de. como órgão suplementar da UFRN. logo transformado “em Ciências Sociais”. vinculado diretamente à Reitoria. quando da realização das “expedições etnográficas” ao interior do Estado. afastando-se. é criado o Museu Câmara Cascudo. ligadas ao perfil da pósgraduação em Ciências Sociais. Napoleão Figueiredo e Estevão Pinto. por exemplo. a realização de um mapeamento das “áreas de cultura” do Rio Grande do Norte. Se antes o Museu nasceu adjetivado pela antropologia. Assim. Parte do grupo que atuava no Museu (professores. principalmente. os estudos de antropologia na Universidade entram numa nova fase. a realização do primeiro curso de “formação de pesquisadores” em antropologia. perdendo espaço e visibilidade na Universidade não apenas como importante lócus de realização de pesquisa e ensino. Nessa seção é noticiada. de forte vezo folclórico e tradicionalista. ministrado. destinando-se a manter o acervo do Instituto. ainda no início da década de 1980. outrora identificados com a antropologia. o Departamento de Estudos Sociais da UFRN que reunia os cursos de Psicologia e Ciências Sociais. com o passar do tempo vai distanciar-se cada vez mais dessa perspectiva inicial. da imagem de uma antropologia cascudiana. no contexto da reforma universitária. É noticiada também a realização de estudos nos cursos de pós-graduação no exterior por professores e pesquisadores do Instituto. a partir das reformulações do Estatuto da Universidade. cada vez mais. como berço dos estudos etnográfico-folclóricos. após o período áureo do Instituto de Antropologia. inicia um processo de declínio. dentre outros. realizadas em 1977. pesquisadores.

ao descrever a vida nos engenhos coloniais e antigos costumes do sertão. bebidas. o mestre potiguar do folclore constrói. redes de dormir. observamos. principalmente. definir Câmara Cascudo como etnógrafo ou antropólogo. estigmatizados como visões evolucionistas e redutoras dos fatos da cultura. 1990. a sua pouca visibilidade acadêmica. p. como vimos. pelas lentes do folclore. ocasionando. ainda que não possamos. que as experiências pioneiras de estudos a respeito da cultura local careciam de uma orientação metodológica mais sistemática. então. 2004). tais estudos foram. No entanto. Assim. ganham destaque temas como desenvolvimento econômico. as investigações identificadas com o “método folclórico de análise” foram obscurecidas dado o seu aspecto não científico. por exemplo. Privilegiando “o cotidiano e não o excepcional”. não podemos negar o valor etnográfico de sua obra a respeito das diferentes expressões culturais do povo. modernização. relevando – e revelando –. passaram a ser lidas. Associados ao nome de Câmara Cascudo. num sentido estrito. minimizando o seu interesse como objeto de uma reflexão acadêmica “séria”.85). aspecto secundarizado nas interpretações acadêmicas que tendem a descontextualizar o seu pensamento. VILHENA. cujo principal representante era Câmara Cascudo.“folclóricos”. Acreditava-se. que a sua obra histórica se aproxima do discurso da História Nova. dando destaque a figuras populares. políticas de Estado. Assim. além de interessar-se pela tradução dos relatos dos . por conseguinte. Desse modo. aspectos que os cientistas sociais só recentemente descobriram o seu interesse. partidos políticos etc. de forma pioneira. (GONÇALVES. por exemplo. as razões que explicam uma menor representatividade dos estudos de cunho antropológico a partir de então na instituição podem estar ligadas à recusa dos cientistas sociais “universitários” do projeto intelectual tradicionalista de antigas elites locais. opondo as abordagens “estética” e “científica” dessas reflexões (CAVALCANTI. dentre outras manifestações culturais do povo –. de fato. palavrões. jangadas. A história e as expressões culturais cotidianas das populações rurais. podemos dizer que em detrimento dos “aspectos vulgares” da vida cotidiana – como os estudos etnográficos clássicos de Cascudo sobre comidas. uma obra monumental. levantados por Florestan Fernandes. gestos. A exemplo do ocorrido com os debates sobre os estudos de folclore na década de 50. de um modo geral. conferindo-lhe o caráter de cientificidade encontrado apenas nos modelos canônicos de pesquisa em Ciências Sociais propostos na academia. projetados retrospectivamente no passado não institucional da antropologia no Rio Grande do Norte.

confundidos com os aspectos autobiográficos de seus relatos. por exemplo. estudando o universo cultural dos engenhos. como mote para as investigações. também ilustram instigantes reflexões de uma geografia histórica orientada por uma forte “sensibilidade etnográfica”. época áurea do movimento folclórico. como Henry Koster ou Ermano Stradelli. publicadas. destacam-se Helio Galvão. Cascudo realiza não apenas uma importante contribuição para os estudos da história colonial do estado. Jogos Populares do Brasil em Portugal. de 1953 e Xarias e Canguleiros. história e identidade No Nordeste. Assim. alguns estudiosos seguiram as pistas deixadas pelo “mestre Cascudo” na instituição de uma recorrente tradição de estudos históricofolclóricos que tomam os hábitos cotidianos do povo. dos ritos à tradição oral. em Londres. Ainda na década de 50. em 1956 e 1968. descrevem formas de comportamento e demais expressões culturais. na tradução de Travels in Brazil. publicado em 1816. Novas Cartas da Praia e Derradeiras Cartas da Praia & Outras Notas sobre Tibau do Sul. ao retratar a vida nos engenhos coloniais potiguares. Precursores do que hoje poderíamos chamar antropologia histórica no Brasil. seus estudos ilustram aspectos pouco valorizados pelas ciências sociais da época. Cultura popular. Veríssimo de Melo publica. Câmara Cascudo destaca-se também no ofício de tradutor dos relatos de viajantes estrangeiros. de 1968. mas ajuda a fundar uma antropologia histórica na região. e Veríssimo de Melo que seguiu de perto os passos do “mestre Cascudinho” em seus estudos de etnografia e folclore. Gilberto Freyre e Luís da Câmara Cascudo destacaram-se pela elaboração de reflexões acerca da cultura e da identidade regional. Obras como Geografia do Brasil Holandês e Nomes da Terra. O cavalo no adagiário .viajantes estrangeiros que se constituem em importantes documentos etnográficos do período. Podemos dizer ainda que. descrevendo a aventura sertanista do viajante aventureiro luso-inglês e senhor de escravos em Pernambuco. historiador que publicou memórias e crônicas de costumes locais em obras como Cartas da Praia. publicada em Natal em 1949. No Rio Grande do Norte. Rondas Infantis Brasileiras. Romanceiro: pesquisa e estudo. encontradas em todo litoral nordestino. bem como na escrita da História do Rio Grande do Norte. como. marcante herança de nossa experiência colonial. por exemplo. por exemplo. dentre outros. legando importantes contribuições para a compreensão histórica das manifestações culturais locais. respectivamente. Dentre eles. em Superstições de São João.

Esta. Assim. a condição de narrador dos feitos passados locais. que ele publica seus primeiros escritos eminentemente folclóricos. estudavam os problemas de formação da unidade nacional ou regional. Assim. junta-se à imagem do historiador – ligado a antigas estruturas oligárquicas de poder – a figura do etnógrafo. ganha destaque em seus textos. ao ser eleito membro da Société des Americanistes. pouco adaptada a modelos rígidos de pesquisa e análise. Na comunicação entre essas diferentes influências. aproximando-se mais de uma abordagem andradiana da etnografia e folclore ou mesmo culturalista de Gilberto Freyre. era buscada. o estudioso potiguar vai construindo a sua antropologia. no entanto. Ainda que influenciado pelo método “popular e étnico” de Sílvio Romero. Na trajetória intelectual de Câmara Cascudo. Mas. evidenciando a existência de um modelo de trajeto intelectual seguido pelos mestres do folclore na região. verdadeira ciência do povo. assume. buscando saber da “história de todas as cousas do campo e da cidade (. Cascudo recebe um de seus maiores reconhecimentos como etnógrafo. desde o final do século XIX. Isto fez com que sua obra. 1968). em suas experiências nativas de uma realidade cultural local.brasileiro na Espanha e Três aspectos da superstição brasileira na Itália. Sem indicar com clareza suas fontes. como vimos. É a partir dos anos 30. pondo em evidência intencionalmente os costumes ou a tradição. sugerimos. semelhante a um tipo benjaminiano. É também dessa perspectiva. Vale lembrar que tanto Hélio Galvão quanto Veríssimo de Melo tinham a mesma formação acadêmica de Cascudo. também celebrasse as histórias locais de personagens anônimos e seus feitos. Cascudo também está preocupado com a questão de uma identidade nacional. a partir da década de 30. que deve ser considerado o conjunto de suas obras históricas e não apenas como exemplos de estudos autodidatas que subvertem certas normas metodológicas “sacralizadas”. a cultura popular ou o folclore. apesar de inserida no contexto de discussões que. fundamentalmente. logo depois da visita de Mário de Andrade. construiu uma historiografia que celebra tanto personagens ilustres quanto populares.) que leva ao encantamento do passado” (CASCUDO. É importante lembrar que em 1934. como não poderia deixar de ser. como um verdadeiro bricoleur.. testemunha dos . sendo associados a uma predileção de Cascudo em descrever os diferentes aspectos da realidade em que vivia. Cascudo privilegia a dimensão cultural. Os ensinamentos etnográficos de um dos maiores incentivadores dos estudos de folclore no Brasil não se perderam. mais do que o conceito oitocentista de raça. a tradição..

Desse modo. Segundo Wanderley. não se pode esquecer suas inclinações políticas. o “Marquês de Olinda” ou o Príncipe Maximiliano. entusiasta declarado do regime . mouros. parece ter se constituído em importante referência na construção de seus textos. ligado à elite local. soube utilizar de certa licença poética ou mesmo “autoridade etnográfica” na elaboração de narrativas históricas que hoje poderiam ser consideradas pouco ortodoxas. Cascudo também participa ativamente da Ação Integralista Brasileira. Além disso. movido por um interesse etnográfico em apreender as condições de vida cotidiana desses personagens. Stradelli – duramente criticados por Mário de Andrade em carta escrita em 1937 –. além de personagens “universais” e de uma elite local. criada em 1932 por Plínio Salgado (ALBUQUERQUE Jr. escrita. com o objetivo “nobiliárquico” de consagrar as principais linhagens da elite local. No entanto. os pescadores. Mas. Auta de Souza. Gustavo Barroso ou Capistrano de Abreu para a brasileira e cearense. num único labor para a nossa intelligentsia ambientada nos Institutos Históricos e Museus do país. no contexto intelectual que data de finais do século XIX e primeiras décadas do seguinte. Henrique Castriciano. a historiografia cascudiana traz à tona. Nos últimos casos. a obra de Cascudo ocupa um lugar de destaque “na história” da historiografia potiguar e nordestina. 1999). não “domesticados” pela formatação canônica de uma historiografia moderna. No que diz respeito ao seu próprio trajeto biográfico. o ofício de jornalista. judeus etc. os sertanejos. história. literatura e etnografia ou folclore se constituíam. Cascudo constrói uma modalidade de história da cultura que se aproximaria da corrente historiográfica surgida no âmbito da “revolução” teórico-metodológica promovida pela École des Annales. Cascudo realizaria seus estudos movido. por um interesse diletante. Concebido como um representante desse momento intelectual. O historiador oficial. mais importante. os vaqueiros. em muitos momentos confundida com seus textos folclórico-etnográficos. Padre Miguelinho e. ao lado do relato biográfico sobre o Conde D’Eu. fundado por seu pai em 1914. Jerônimo Rosado. a exemplo do que representa a obra de Alfredo de Carvalho para a historiografia pernambucana. Simpático à monarquia. praticamente. Nesse sentido. jangadeiros. franceses. no jornal A Imprensa.saberes da história e da tradição. sobretudo. desfilam em seus textos personagens como Pedro Velho. figuras anônimas imortalizadas pela pena do historiador-etnógrafo. então. Também merece relevo o caráter memorialista de parte de sua obra histórica. na maioria das vezes anônimos.. exercido desde 1918. muitas vezes. de modo independente e autodidata. alguns escravos. até certo ponto refletidas nos textos.

Mas. no momento em que tomava corpo um movimento nacionalista – que caracterizará toda a era Vargas –. Cascudo. porém ligados às estruturas oligárquicas de poder em franco declínio. celebrando o passado e a cultura locais por meio da imagem de um historiador-etnógrafo. principalmente. Desde esse período até 1937. silenciando. podemos dizer que. sugerimos que as interpretações a respeito da historiografia cascudiana. Assim. Então. segundo um ponto de vista divergente. por exemplo. Em suma. Identificados com a “cultura do povo”. Pátria e Família. de um modo geral.fascista de Mussolini. Desse modo. os textos históricos de Cascudo ajudariam a completar o sentido de sua antropologia nativa. de estudos etnográficos e folclóricos. sem pensar a contradição presente. construindo uma obra de feições ao mesmo tempo popular e erudita. tais intelectuais projetavam funcionalmente no passado as relações entre “as sobrevivências” culturais do povo (as expressões folclóricas atuais) e as antigas formas de poder a que eles estavam associados. a seu modo. integralista. chega a Natal chefiando uma “bandeira integralista”. estejam associadas à proposta. para pensarmos a respeito de algumas das condições dos chamados intelectuais de província. Câmara Cascudo publica artigos doutrinários de crítica ao comunismo nos principais órgãos de divulgação das idéias integralistas. cresceram rapidamente. na condição de romântico. com base nessas considerações. regionalista e modernista. Cascudo teve como grande incentivador o historiador e folclorista cearense Gustavo Barroso que. arregimentando para suas fileiras parte de nossa intelectualidade. Escolhido como líder do movimento no Rio Grande do Norte já em 1933. o passado integralista de Cascudo não serviria apenas para mostrar a posição política reacionária de um representante da elite – já obscurecida – diante dos debates nacionalistas da época. lembrando da sua condição de intelectual regional. dentre eles o mestre potiguar. afasta-se do movimento. época do golpe varguista que institui o Estado Novo. servindo. Com o golpe que institui o Estado Novo. É desse modo que. busca estabelecer ou compreender as linhas de continuidade entre realidades que. os adeptos de um Estado corporativo. em 1934. seriam não somente diferentes. Sendo assim. assente na trilogia Deus. a partir de então. certos elementos simbólicos ligados a uma estrutura patriarcal de poder são consagrados por eles como as verdadeiras bases de nossa identidade. nacionalista. Tomando como objeto privilegiado de reflexão as . mas também desiguais. pensadores como Cascudo transitavam entre o mundo da cultura popular e das elites. como o jornal A Ofensiva e as revistas Anauê e Panorama. sobre essa fase de sua biografia. provinciana e nativa.

Referências Bibliográficas ALBUQUERQUE Jr. não apenas para pensar as constantes de nossa formação sócio-histórica. presentes no cotidiano das pessoas. Considerações finais Na história da antropologia no Rio Grande do Norte ganham destaque os trajetos biográfico-intelectuais de Câmara Cascudo. A invenção do Nordeste e outras artes. e. berço da intelligentsia nordestina desde finais do século XIX. mas a construção de uma obra complexa e multifacetada. Nesse trajeto não se deve esquecer da influência exercida por Mário de Andrade na orientação etnográfica dos estudos cascudianos. Natal: IHGRN. p. A relação epistolar estabelecida com o escritor paulista. iniciado em 1918. São Paulo. 1999. . para estudar medicina. CASCUDO. Belo Horizonte. fará surgir “um monumento” a etnografia brasileira e nordestina (ANDRADE. 1997. logo em seguida no Rio de Janeiro. ANDRADE. Villa Rica. para desistir de tudo na seqüência. quando sai da província. Massangana. João Pessoa: Idéia. então. em primeiro plano. experiências e vivências culturais regionais. Cartas de Mário de Andrade a Luis da Câmara Cascudo. Mário de. o autor da História da Alimentação no Brasil coloca. ANDRADE. primeiro em Salvador. 1991. Cultura e tradição nordestina: ensaios de história cultural e intelectual. 1968. Um provinciano incurável. Luis da Câmara. é importante lembrar do seu percurso acadêmico. É imbuído de vários dos questionamentos levantados pelos pensadores nacionais e estrangeiros do período que Cascudo inicia a construção de sua extensa obra folclóricoetnográfica. mas a própria idéia de identidade local e nacional. 5-6. voltar para Natal e seguir para Recife com o intuito de cursar direito na prestigiosa Faculdade de Direito pernambucana.. n° 2. Recife. Podemos dizer. suas reflexões antropológicas foram nativizadas a partir de suas experiências de província. conferindo-lhe um caráter particular. Ed. Durval Muniz de. Maristela Oliveira de.150). Província. 1997.expressões populares. Pp. que a obra de Luís da Câmara Cascudo pertence à cena intelectual brasileira do final do século XIX até os anos 1940. A sua dedicação aos estudos do folk-lore. Além do mais. favoreceu não apenas o acompanhamento dos principais debates a respeito dos estudos do folk-lore. bem como com outros pensadores nacionais e estrangeiros do período. FJN. Cortez. a cultura popular se constituiria no principal meio. Assim. Então.

José Reginaldo Santos. Maria Laura Viveiros de Castro. 33 GOUVEIA. 11 (32): 125-150. 1990. Os intelectuais regionais: o folclore e o campo das ciências sociais nos anos 50.1968. Top. Revista Brasileira de Ciências Sociais. 2004. 3(5): 75-92. GONÇALVES. . 1(3): 285-306. Traçando Fronteiras: Florestan Fernandes e a Marginalizaçao do Folclore. VILHENA. Veríssimo de. Estudos Históricos. A fome e o paladar: a antropologia nativa de Luís da Câmara Cascudo. UFPE. 1983. Xarias e Canguleiros: ensaios de folclore e antropologia aplicada. Luís Rodolfo. Marielza Campozana. VILHENA. Estudos Históricos. MELO.CAVALCANTI. Natal: EDUFRN. Educ. 1996. Luís Rodolfo. A Antropologia no Nordeste do Brasil.