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30/08/13

Diferentes Verdades, Uma Realidade | Drukpa Brasil

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Diferentes Verdades, Uma Realidade
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Lama Jigme Lhawang prestando homenagem a antiga e grande Universidade Budista Nalanda pelo convite a participar de um debate filosófico tradicional em língua tibetana com monges Gelugpas da Universidade Monástica Drepung, em 2010, Nalanda, Índia. DIFERENTES VERDADES, UMA REALIDADE Distintas Abordagens Espirituais rumo a mesma Meta Lama Jigme Lhawang Filosofia Budista, Trabalho de Pesquisa Universidade de Kathmandu, Centro de Estudos Budistas 13 de abril de 2012

file:///D:/Daniel/1.BUDA/1.Dharma-Tibet/Vjarayana/Diferentes Verdades, Uma Realidade Drukpa Brasil.htm

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“verdade toda coberta”) e paramārtha satya (literalmente “verdade do fato real”). rdzun pa). Verdade absoluta é a experimentada diretamente por aqueles que realizaram a natureza de todos os fenômenos. em oposição a irreal/inexistente (tib. aquelas propostas pelo mestre Gelugpa Je Tsonkhapa. aprofundaram ainda mais o entendimento daquilo que os mestres indianos haviam escrito. diferentes eruditos budistas tentaram entender os ensinamentos do Buda e sintetizá-los em uma forma mais clara e direta de se compreender a essência neles contida. tanto eruditos tibetanos quanto ocidentais. “Toda coberta” designa [o sânscrito] saṃvṛiti. significado e interpretação no pensamento e filosofia ocidentais que não são uma interpretação direta e fiel dos originais sânscritos saṃvṛiti satya e paramārtha satya. med pa). Ao longo dos séculos depois do falecimento do Buda. em que param (real ou genuíno) é um sinônimo para “melhor” ou “superior”.30/08/13 Diferentes Verdades.[3] De acordo com o verso de Chandrakīrti. tais convenções – relativa e absoluta – comportam um vasto âmbito de utilização. são. O que é visto de modo falso é a verdade toda coberta”. Além disso. que estruturou o que passou a ser conhecido no budismo tibetano como a escola da doutrina Prāsaṅgika Mādhyamaka. é um sinônimo para “objeto”. yod pa). Nos séculos seguintes. ou “verdade aparente” e “verdade definitiva”. em sânscrito. dngos po). palavra que equivale a existente (tib. yang dag). Embora sejam frequentemente traduzidas como “verdade relativa” e “verdade absoluta”. o que será analisado aqui é uma cuidadoso exame geral de três visões principais do Prasaṅgika Mādhyamaka referentes às duas verdades. a palavra sânscrita satya indica ambos os significados do que é real/existente (tib. Mais tarde. estas versões transmitem apenas um campo semântico parcial do significado pretendido pela tradição de onde provêm. Quanto a ārtha (fato). ou aquilo que é experimentado por alguém como real. veio Chandrakīrti. onde saṃ é sinônimo de “completamente assim”. As duas verdades podem ser analisadas pelas lentes de diferentes escolas não budista indianas e escolas de doutrina budista indianas e suas distintas interpretações tibetanas. yod pa). temos algo como “objeto superior.[2] A análise principal apresentada neste trabalho baseia-se na explicação das duas verdades dada pelo mestre indiano Chandrakīrti: “Uma vez que todas as coisas podem ser vistas de modo verdadeiro ou falso. pelo mestre Nyingma Ju Mipham e pelo mestre Drukpa Gyalwang Je (o segundo Gyalwang Drukpa Kunga Paljor). em oposição a falso (tib. uma coisa é apreendida como tendo identidade dupla. seguindo sua abordagem. Assim. são rotuladas como verdadeiras”. e a outra é definitiva – não existe uma terceira realidade”[1] Essas duas verdades (sânsc. saṃvṛiti satya (literalmente. Uma Realidade | Drukpa Brasil O caminho do Buda em sua totalidade pode ser entendido por meio da estrutura chamada de Duas Verdades – Verdade Relativa e Verdade Absoluta. Gyalwang Je diz que a diferença das duas verdades é a seguinte: “Fato real designa [o sânscrito] paramārtha. E verdadeiro/verdade (tib. satyadvaya).BUDA/1. uma realidade que parece genuína e file:///D:/Daniel/1. mencionados no verso como “coisas” (tib. bden pa) são as palavras equivalentes a “genuíno” (tib. Uma Realidade Drukpa Brasil. “verdadeiramente assim” ou “genuinamente assim”. que é reduzido para “fato real” em referência a uma “situação verdadeira”. o conhecedor do mundo distinguiu essas duas realidades. aparências que se tornaram diferentes do modo como realmente são. Verdade relativa é a que uma pessoa comum em confusão experimenta. Todavia.Dharma-Tibet/Vjarayana/Diferentes Verdades. a glória de pureza completa”. É ensinado que qualquer objeto visto de modo verdadeiro é talidade (tal como é). o Buda Śhākyamuni ensinou dois diferentes tipos de realidade. outros distintos professores budistas. Entre os que tentaram esclarecer o ensinamento do Buda estava Nāgārjuna. considerado o pilar fundador da visão Mādhyamaka. dizendo: “Sem ter aprendido isso com outros.htm 5/15 . e a palavra inteira é “toda coberta” ‑ quando aparências de confusão. Uma é aparente. O que alguém experimenta de alguma maneira específica é a verdade daquela pessoa. dando origem a outras linhas de interpretação. No Sūtra do Encontro de Pai e Filho.

[5] Outros seguidores das escrituras Vedas. rtsa ba’i rang bzhin) ou princípio primal (sânsc. bdag). dngos po kun) são apreendidas por meio de um percebedor deludido. file:///D:/Daniel/1. As transformações do princípio primal são afirmadas como sendo ocorrências (sânsc. “real é o si (sânsc. que é a talidade vista pelo conhecimento primordial (sânsc. Arhat. kun) como significando “todas” as coisas internas e externas. objeto. seu conteúdo de seres e tudo o mais – são ficcionais. uma fabricação mental elaborada pela mente conceitual. paramārtha.BUDA/1. é obscurecido ou velado (sânsc. tib.[6] portanto. saṃvṛiti). tib. por exemplo. sua natureza mera consciência (sânsc. e são consideradas instáveis e enganosas”. uma vez que. um jarro é experimentado como uma coisa diferente. rdzun pa). que é o significado do sânscrito saṃvṛiti e de sua tradução tibetana kun rdzob. paramārtha) é o si (sânsc. Portanto. bem como são um par perfeito de antônimos correspondentes à distinção primal das verdades em seus vocábulos sânscritos e tibetanos. trata-se do que foi denominado paramārtha em sânscrito (tib. rdzob) pelas cataratas da ignorância básica (sânsc. avidyā. Embora aparecendo como múltiplo. está traduzido como “Verdade Ficcional”. Todas as entidades aparecem como emanações mágicas delas. saṃvṛiti. enganosas. Por exemplo. É o fato. guna. tib. ma rig pa) o fato real (sânsc. tib. param. Īśhvara/Śhiva etc – permanente e real. não é verdadeiramente assim. tib. Aqui está claro que Chandrakīrti refere-se ao aspecto coberto ou oculto (tib. Para uma formiga ou mesmo um macaco. tib. rdzun pa). Além disso. tib. com uma utilidade distinta. o sânscrito paramārtha satya (tib. Também foram amplamente usadas em muitas escolas não budistas depois do Buda. pessoas distintas experimentam diferentes tipos de verdades ou realidades. rdzob) da mente com um objeto falso ou não verdadeiro (tib. Essas realidades não são verdadeiras por si mesmas. Também significa uma realidade não verdadeira e falsa. A aparência de entidades individuais parciais – o mundo que contém. āvarṇa. e assim é visto de modo falso (tib. ficcionais. tib. Quanto ao sânscrito saṃvṛiti satya. kun) as coisas vistas de modo falso que são percebidas pela mente deludida coberta (tib. yon tan) estão em equilíbrio natural. tib. tib. don dam bden pa) será traduzido como “Verdade Real” em todo este trabalho. ātman. se explicado por sua etimologia. tais como Brāmaṇas. sgrib pa). Portanto. cuja “visão dos olhos” está coberta (tib. muito embora seja exatamente o mesmo objeto material. afirma que “real” (sânsc. A respeito da verdade da talidade mencionada por Chandrakīrti. don) autêntico ou real (sânsc. jñāna. don dam). vijñāna. tib. Afirma-se nas escrituras que as realidades “ficcional” e “real” já eram encontradas na tradição indiana antes de o Buda fazer uso delas em seus ensinamentos.Dharma-Tibet/Vjarayana/Diferentes Verdades. mas dependem diretamente das tendências habituais e da estrutura mental do indivíduo. mas é o fato autêntico visto pelos olhos saudáveis daqueles que realizaram a natureza última da realidade. não existe objetivamente por sua própria identidade e não pode ser apreendido pela mente conceitual. tattvatā. O aspecto da verdade que tudo cobre está de fato permeando a relação de todas (tib. tib. dam). toma o sânscrito saṃ (tib. seguindo a explicação de Chandrakīrti. de kho nan yid). kun rdzob). ārtha. mūlaprakṛti. Uma Realidade | Drukpa Brasil existente à sua percepção. Ambas as traduções – ficcional e real – assemelham-se mais ao significado dos termos originais em sânscrito. dharmin. “verdade ficcional” encaixa-se bem como uma tradução para o sânscrito saṃvṛiti satya. tib. Viṣhṇu. rnam shes) que é toda-penetrante como o espaço vasto. rang bzhin can gyi gtso bo) no qual as três qualidades (sânsc. bdag) e a natureza fundamental (sânsc. Assim. um jarro e sua utilidade aparecem como tal dentro de uma esfera de experiência conceitual humana. tib. que é talidade (sânsc. seguidores do deus Brahmā. grangs can pa) de Kapila. ye shes). o termo “toda coberta” ou “totalmente encoberta” (sânsc. Quando todas as coisas (tib. Uma Realidade Drukpa Brasil.30/08/13 Diferentes Verdades.[4] Para os seguidores dos Vedas.htm 6/15 . tib. Por isso. bdag shes rig tsam). chos can) ficcionais (sânsc. ātman. don dam). como o si da mera percepção consciente (tib. Īshvara e Patañjali. Um objeto autêntico qualquer é por implicação um fato real. prakṛti pradhāna. O significado da palavra “ficção” ou “ficcional” no campo semântico abrange o que é produto da imaginação de alguém. como os Guhyaka. Vaiyākaraṇas e Vedāntins “consideram sua deidade de escolha pessoal específica ‑ Brahmā. rdzob). são tudo a mesma coisa. A tradição Sāṃkhya (tib. significado ou propósito (sânsc.

a tradição Sarvāstivāda Abhidharma desenvolveu a ideia de que os vários componentes do corpo.[16] Para Nāgārjuna. rtan pa) e da interrelação (tib. jamais poderia assumir essa forma e função sem a dependência de e a interrelação com outras causas e condições. se um jarro é quebrado com um martelo. um jarro seria apenas uma imputação designada. da mente e do mundo constituem o que chamaram de fenômenos elementares (sânsc. prajiiaptisat ). tais elementos são estabelecidos como substancialmente reais (sânsc. esclarecendo o significado pretendido das duas verdades propostas pelo próprio Buda Śhākyamuni e seguindo a tradição de Nāgārjuna. portanto.[14] define-as como “a verdade das convenções mundanas e a verdade absoluta”. dngos po smra ba) formula o conceito de verdade ficcional como “a apreensão mental grosseira daquilo que será descartado pela destruição ou exclusão de outro.[12] Por exemplo. avidyā). a tradição Abhidharma dos proponentes de entidades externas (tib. Uma Realidade | Drukpa Brasil No caso das escolas filosóficas budistas que interpretam as palavras do Buda.30/08/13 Diferentes Verdades. afirmando que “os ensinamentos do Dharma do Buda são baseados em duas verdades”. os mahayanistas da escola da doutrina Cittamātra afirmam que a verdade ficcional é “aquilo que aparece como a dualidade do apreensor e do apreendido. É ensinado que qualquer objeto visto de modo verdadeiro é talidade. Séculos depois. O que é visto de modo falso é a verdade toda coberta”.BUDA/1. “um fenômeno tal que a percepção que o apreende não é cancelada por de fato quebrá-lo ou separá-lo mentalmente em suas partes individuais”[11] é uma verdade real. ou seja. mas sim na dependência direta das partículas que o compõem. antepassado da escola Mādhyamaka. dravyasat ). Por consequência. Quanto à verdade real. uma vez que é meramente imputada. a cognição que apreende o objeto como um jarro é cancelada. não existe em si mesmo (sânsc. paramiirthasat ). as coisas constituídas por esses componentes e que podem ser reduzidas a esses elementos primários são consideradas reais apenas em termos de designação (sânsc. tal jarro é postulado apenas como um rótulo mental designado de forma convencional. a verdade ficcional é definida como “um fenômeno tal que a percepção que o apreende é cancelada por de fato quebrá-lo ou separá-lo mentalmente em suas partes individuais”. bral ba) para surgir. muito embora o que essa ignorância produza file:///D:/Daniel/1. permeada por uma espécie de ilusão da dualidade sujeito-objeto. é a natureza totalmente estabelecida”. designações conceituais e assim por diante. a consciência final dependente. tais como a qualidade da argila.[15] discordando da definição Abhidharma de componentes substancialmente existentes ostentando natureza própria de modo independente e por isso declarados como definitivamente reais.Dharma-Tibet/Vjarayana/Diferentes Verdades. a mera mente autociente e autoconhecedora. o que significa que é independente de outras causas e condições.[17] Chandrakīrti acrescentou que essa verdade toda coberta é assim por ser percebida pelas lentes da ignorância básica (sânsc. Por outro lado. De maneira distinta. cada fenômeno que aparece para a mente de alguém ostentando uma característica distintiva (tib. os chittamātrins afirmam que é “a base para essas aparências.[9] Por exemplo. Além disso. existindo essencialmente por si e em si. na tradição Abhidharma. se alguma coisa existisse “essencialmente”. Uma Realidade Drukpa Brasil. a quantidade de água. por exemplo. bem como definitivamente reais (sânsc. postula-se que uma coisa que existe substancialmente e é definitivamente real existe também em termos de sua própria natureza (sânsc.[10] Ou seja. Para Nāgārjuna. Mais uma vez. E a verdade real é formulada como uma apreensão mental “daquilo que não pode ser descartado. Vazia do apreendido externo e do apreensor [interno].[8] Em outras palavras. a cor. Nessa tradição.[7] Dessa forma. dharma). embora concorde com a noção de duas verdades.[13] O grande pandita e siddha indiano Nāgārjuna. tais como a ideia conceitual de uma pessoa sobre o que seja um jarro. a estrutura cognitiva do apreensor. são estabelecidas como reais apenas em termos convencionais (sânsc. khyad chos) deve ter os fatores essenciais da dependência (tib. tal coisa deveria ser estabelecida sem depender de qualquer outra coisa. vyavahiirasat ). Portanto. embora não exista”. o erudito indiano Chandrakīrti disse: “Uma vez que todas as coisas podem ser vistas de modo verdadeiro ou falso. uma coisa é apreendida como tendo identidade dupla. por exemplo. um jarro. svabhāvatah). Um jarro. um jarro existe apenas em termos convencionais. sendo simplesmente o instante indivisível de consciência e a partícula material indivisível”.htm 7/15 . svabhāva). para não falar de outros fatores.

e fique-se com um jarro que não é vazio de um jarro. como quando se diz que um olho [ou jarro] é destituído de um agente interno ou da dualidade de sujeito e objeto da percepção”. uma verdade real. Essa afirmação. conclui-se que para Tsonkhapa há um jarro que existe de forma absoluta e que há outro “jarro” que é vazio de existência verdadeira.[23] No entendimento de Mipham Rinpoche. das emoções perturbadoras e do sofrimento. significa uma separação das duas verdades e um entendimento errôneo da unidade de aparência e vaziez.htm 8/15 . eles não apareceriam. Tal causa “é a apreensão mental a uma natureza inerente ou si. Para ele. como a apreensão de um jarro. se os fenômenos convencionais fossem completamente vazios. portanto. Para ele. tal como a aparência de um jarro. requer ser removido. e eliminá-lo por meio da negação de seu objeto. ele explica que “o que deve ser refutado não é a base de negação (tib. ele argumenta. a existência verdadeira daquele fenômeno. se um jarro “não é vazio segundo sua natureza. Além disso. Tsonkhapa argumenta que é a apreensão mental à existência inerente que obstrui a realização da vaziez e é a causa das emoções perturbadoras e. ou seja. define-as da seguinte forma: “[Um objeto] encontrado por um conhecedor convencional válido que percebe um objeto falso de conhecimento é uma verdade ficcional”. quando é dito nas escrituras que “uma coisa é vazia de existência verdadeira”. em sua leitura do verso de Chandrakīrti define as duas verdade assim: o objeto percebido pela sabedoria primordial autêntica é a verdade real.[19] No Tibete. e não todos os tipos de elaborações conceituais. significa que tal coisa não existe de verdade. Ju Mipham. A razão disso. “É a base. não é necessário negar os objetos de tal apreensão”. É interessante observar que com essa afirmação um fenômeno único acaba dividido em dois fenômenos distintos.[20] É interessante notar que Je Tsonkhapa diferencia as duas verdades distinguindo um “conhecedor válido” que apreende um objeto falso como verdade ficcional. que não existe de verdade. “não se diz que os jarros são vazios de si mesmos. O mestre Gelugpa Tsongkhapa. no entender de Mipham. por exemplo. isto é. Caso se negue a existência verdadeira de alguma outra coisa que não o jarro. Na interpretação de Mipham.[25] Mais uma vez.30/08/13 Diferentes Verdades. o “objeto” da verdade real. e: “Um objeto que é encontrado por uma consciência racional que percebe. dgag gzhi). em sua interpretação da definição das duas verdades acima. dgag bya). compreende o significado da realidade. e o objeto dos que percebem a verdade real é a talidade (as coisas como elas são). mas sim vazios de existência verdadeira”. Para Mipham. entretanto. o fenômeno convencional.[22] Dessa maneira. Uma Realidade Drukpa Brasil. a coisa em si. isso não é vaziez. A interpretação de Tsonkhapa leva à ideia da existência de duas identidades diferentes e separadas de um objeto – a existência de sua identidade convencional e a existência de sua identidade absoluta. o que distingue as duas verdades não é o objeto apreendido. se alguém diz que um jarro não é vazio de jarro. Assim.”[27] file:///D:/Daniel/1. enquanto o objeto da percepção deludida é a verdade ficcional”. ou por meio da consciência deludida. mas aquele que o apreende.[21] Essa afirmação leva-nos a pensar que existe algo mais que o jarro que é destituído de existência verdadeira e que o jarro está verdadeiramente ali. Para Mipham. e um objeto como é “em si” como verdade real. é a talidade”. isto é. Para Tsonkhapa.[26] pois nesse caso sua natureza não é a vaziez. mas sim o objeto de negação (tib. que ou “percebe” a realidade por meio da sabedoria primordial. Uma Realidade | Drukpa Brasil apareça como verdadeiro[18]. sem ser postulado pela mente”.Dharma-Tibet/Vjarayana/Diferentes Verdades. é que é preciso identificar o fator mental conceitual que é a causa da ignorância. dois grandes eruditos ‑ Ju Mipham and Je Tsongkhapa – propuseram interpretações distintas ao apresentar as duas verdades e ao interpretar as palavras de Chandrakīrti.BUDA/1. “como a apreensão mental a coisas convencionais como um jarro não obstrui a iluminação. mas vazio de um atributo alheio. não pode ser vazio de existência verdadeira”. que ele descreve como aquilo que é estabelecido objetivamente por sua própria natureza. “vaziez não significa a ausência de algo em alguma coisa. conclui-se que temos um jarro que existe de verdade.[24] A chamada “ausência de existência verdadeira” só pode referir-se ou à ausência da existência verdadeira de um jarro ou à ausência da existência verdadeira de alguma outra coisa que não um jarro.

Isso significa que os fenômenos por natureza não estão além da existência e da não existência.30/08/13 Diferentes Verdades. com todos seus atributos. [31] “Posto que jamais é encontrada uma coisa que exista de verdade.[28] Para ele. Ju Mipham afirma que “as duas verdades são dois aspectos isolados e distintos de uma só realidade. correspondendo à visão do niilismo. a “gnose não conceitual é marcada pela dissolução da dualidade das duas verdades. e elas não significam a mesma coisa”. Aparência e vaziez seriam duas coisas diferentes.Dharma-Tibet/Vjarayana/Diferentes Verdades. nesse caso essa posição negaria a realidade interdependente. Uma Realidade | Drukpa Brasil Em seu comentário sobre o Madhyamakāvatāra de Chandrakīrti. O não reconhecimento subjetivo dessa unidade é o que se chama de verdade ficcional. Por fim. shes rab). cairia no extremo de uma existência verdadeiramente permanente. Posto que a realidade absoluta ou verdade real está além da dualidade de todos os construtos mentais. o fator por excelência que permite que as coisas apareçam e que é a evidência da natureza vazia de todos os fenômenos. Além file:///D:/Daniel/1. Porém. sems byung). sem uma natureza única. os fenômenos não seriam vazios”. da natureza última de todos os fenômenos e da própria essência de todos os ensinamentos do Buda. mas são vazias de uma existência verdadeira alheia vai contra a própria noção de surgimento interdependente. chos du ‘dzin pa). a aparência de um jarro só é possível porque é inseparável de sua vaziez. e não no significado real destacado nas instruções diretas de um professor espiritual. em completo isolamento da aparência. Uma Realidade Drukpa Brasil. separada da vaziez. A diferenciação é feita também a partir da perspectiva da eliminação de sobreposições externas e sua inseparabilidade de cortar a apreensão dualista interna.htm 9/15 . a realidade real só é realizada por gnose não conceitual (tib. fossem duas coisas distintas. a dualidade básica de uma consciência deludida pela apreensão mental ao “eu” (tib. enquanto a chamada aparência é apenas aparência por si. Se vaziez fosse diferente de aparência.BUDA/1.[33] Para Mipham. transcende os conceitos de negação e negandum. sua chamada vaziez é de fato o extremo do nada. é introduzida uma cunha entre a ausência de existência verdadeira e a vaziez. “se. na qual a aparência de um jarro. não sendo vazia. Sua natureza única compartilhada reside na inseparabilidade de aparência e vaziez”. Mipham argumenta que é a apreensão de um jarro. vaziez. A unidade do jarro e sua natureza vazia é a verdade real. Em outras palavras. “o que aparece é vazio. Se aparência e vazio de existência verdadeira.[29] E “essa natureza.[30] Em outras palavras. decorre que apreende também o “apreensor” do fenômeno. Gyalwang Je afirma que a distinção das duas verdades é feita do ponto de vista baseado nas palavras convencionais das escrituras sagradas e no raciocínio. que dá origem às emoções perturbadoras por meio da apreensão ao jarro como um fenômeno (tib.[36] Para Ju Mipham. sem a dualidade de objeto e sujeito. o jarro não é vazio em si. isto é. Se alguém apreende a um fenômeno externo distinto de si mesmo. ainda que sem existência verdadeira. Assim. então as duas verdades seriam diferenciadas. é que realiza a natureza última da realidade. decorre que o mero conhecimento da ausência de existência verdadeira apreendido pelo correto discernimento dos fenômenos não pode ser estabelecido como real.[34] Essa asserção de que as aparências não são vazias por sua própria natureza. seu vazio de existência inerente verdadeira. e aparência e vaziez”. ngar ‘dzin) tem lugar como a fundação do sofrimento na existência cíclica. e o resultado é que se é forçado a depender de uma vaziez alheia a eles. Em vez de adotar o raciocínio de Tsonkhapa do “objeto deludido” como causa das emoções perturbadoras. rnam par mi rtog pa’i ye shes). é a verdade real em si”.”[32] Esse resultado parece uma consequência inevitável da posição de Tsonkhapa.[35] Mipham também argumenta que a mera ausência de existência verdadeira é apreendida por um conhecimento dual discriminativo (tib. enquanto a gnose não conceitual. A mente conceitual que apreende a negação absoluta da existência convencional é um evento mental (tib.[37] enquanto a mera apreensão discriminativa das duas verdades dentro da esfera de sujeito e objeto consiste de características convencionais que não podem alcançar o absoluto. e por outro lado a vaziez cairia no extremo do nada. que é estabelecida como a indivisibilidade de aparência e vaziez. a indivisibilidade das duas verdades. sujeito e objeto. correspondendo ao eternalismo. como quando alguém diz “isso é um jarro”.

Mipham. não surgem a cognição válida e definições epistemológicas da realidade. 2004. Além disso. diz Gyalwang Je. ele revela que toda noção de existência de samsara e nirvana. as emoções perturbadoras e o sofrimento por completo. New York: Snow Lion Publications. mas de fato inseparáveis é a coisa que determina a indivisibilidade do samsara como o campo puro do nirvana. Gorampa on the Middle Way. Ju Mipham percebe-o como uma experiência não dual além de todas as elaborações mentais da cognição válida. Uma Realidade Drukpa Brasil. Tony. a visão de unidade das duas verdades é o estado de fruição tomado como caminho no mantra secreto do vajrayana. e esta última segue o princípio do sistema do Mantra. Boston: Wisdom Publications. são tomadas com base na liberdade das elaborações mentais de estabelecimento e negação. Boston: Shambhala Publications. Jamgon. e não a mera negação da existência verdadeira de um fenômeno objetivo como um jarro. Uma vez que as duas verdades sejam realizadas pela sabedoria não dual. escravidão e liberação. coisas a serem abandonadas e coisas a serem adotadas. Maps of the Profound: Jam-yang-shay-ba’s Great Exposition of Buddhist and NonBuddhist Views on the Nature of Reality. conforme postulado por Tsonkhapa. Oxford: Oxford University Press. “Madhyamaka in India and Tibet”. é essa experiência de sabedoria primordial que vê a realidade como ela é em seu modo de permanência absoluto que faz cessar a ignorância.htm 10/15 . 2003. aflições deludidas e sabedoria ocorre a partir do ponto de vista das duas verdades como sendo coisas diferentes. Karl. Jeffrey. não ontológica. por Lúcia Brito. The Center of the Sunlit Sky: Madhyamaka in the Kagyu Tradition. 2011. Nova York: Snow Lion Publications. e revisado pelo Comitê de traduções Drukpa Brasil) Bibliografia Brunnholzl. Duff. a visão de que não são diferentes. ao passo que Mipham certifica-se de que o significado sugerido nas palavras dos sutras seja interpretado de modo correto.[38] Em conclusão. J. a escravidão como uma expressão natural de liberdade. Introduction to the Middle Way: Chandrakirti’s Madhyamakavatara with commentary by Jamgon Mipham.BUDA/1. Portanto. Edelglass. Hopkins. Oxford Handbook of World philosophy. Dentro da sabedoria não conceitual primordial que realiza o absoluto. Garfield e W. De sua parte. file:///D:/Daniel/1. Dunne. One Reality”. Kathmandu: Padma Karpo Translation commitee. e na liberdade de aceitação e rejeição. é a cognição deludida subjetiva epistemológica que oculta a realidade em sua natureza real. a distinção convencional das duas verdades é epistêmica. enquanto Je Tsonkhapa entende o discernimento da realidade absoluta como um processo cognitivo consistindo de características epistemológicas como compreensão subjetiva e objetiva. A diferenciação anterior das duas verdades. Por isso. Por consequência. porém. segue o princípio do sistema do Sutra. e as aflições deludidas como uma exibição espontânea da sabedoria primordial. “A Juggernaut of the Non-Dual View: Ultimate Teachings of the Second Drukchen Gyalwang Je. escravidão e liberdade. Os fenômenos em si não podem obscurecer o absoluto. ed.30/08/13 Diferentes Verdades.Dharma-Tibet/Vjarayana/Diferentes Verdades. 2011. Gyalwang Je revela que a simples noção de samsara e nirvana. (Traduzido do original “Different Truths. Tsonkhapa faz de tudo para transmitir as duas verdades seguindo as palavras apresentadas e explicadas nos sutras. os fenômenos não possuem natureza ontológica. 2002. Uma Realidade | Drukpa Brasil disso. John. 2007. aflições deludidas e sabedoria é uma mera projeção mental dualística e deludida. 206-221.