You are on page 1of 14

CONSIDERAÇÕES ACERCA DA RELAÇÃO ENTRE O HABITUS INDIVIDUAL E A CONSTRUÇÃO DAS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS

Aluno: TATIANE DA COSTA ALMEIDA – n° 41906 Curso: Mestrado em Sociologia – Ramo Investigação Disciplina: Debates Contemporâneos em Teorias Sociológicas Professor: Renato do Carmo

ÍNDICE Objetivo Considerações acerca da noção de Habitus em Bourdieu e a Teoria das Representações Sociais em Moscovici A construção das representações sociais e o habitus individual Conclusão .

Nesse sentido é que se apresenta neste trabalho a hipótese de a Teoria Sociológica proposta por BOURDIEU. A REFLETIR UM VIÉS POLÍTICO IDEOLÓGICO ( LIBERALISMO X TOTALITARISMO). OU PELO “EMPOBRECIMENTO DO TRABALHO EMPÍRICO ”. XI. PP. exterior x interior. SOBREDETERMINAÇÃO DISCURSIVA EM DETRIMENTO DE UM APROVEITAMENTO DA ANÁLISE DAS RELAÇÕES ENTRE O TRABALHO TEÓRICO E EMPÍRICO . NA QUAL OS AUTORES INTERROGAM SE AS PREOCUPAÇÕES DELIMITADAS PELOS ANTAGONISMOS INDIVÍDUOS X SOCIEDADE . SOCIOLOGIA . 53. “AS ÁRVORES CONCEPTUAIS: UMA RECONSTRUÇÃO MULTIDIMENCIONAL DOS CONCEITOS DE ACÇÃO E ESTRUTURA”. SUBSTITUÍDO POR MARCAÇÕES DE IRREDUTIBILIDADES . SEJA PELA “BALCANIZAÇÃO CONCEITUAL‟. ESTRUTURAS X PRÁTICAS NÃO SERIAM FALSAS BALIZAS .é um objeto complexo.2 Não é por outra razão que as teorias sociais são diversas: pois. . enquanto a sociedade é uma sociedade de indivíduos. DE UMA ANÁLISE COMPARADA”. DETERMINISMO X LIBERDADE . da qual derivam inúmeras outras: objetivo x subjetivo. SEJA PELA MAIS QUE CONCORREM . no mais das vezes. OBSTÁCULO À ACUMULAÇÃO CIENTÍFICA É À COMUNICAÇÃO ENTRE AS TEORIAS . SUJEITO AUTÔNOMO / ATIVO X SUJEITO CONDICIONADO /PASSIVO . ação x estrutura. O QUE REPUTA PREJUDICIAL AO DESENVOLVIMENTO DESSA DISCIPLINA. pois enquanto as ciências naturais podem. não seria de certo simples e apreciável por um único olhar ou viés3. pode-se dizer que o objeto da sociologia é o indivíduo e a sociedade. JÁ QUE A NECESSIDADE DE REFORÇAR A LEGITIMIDADE DOS PROCEDIMENTOS TÉCNICO -METODOLÓGICOS . DIMINUI A POSSIBILIDADE DE CONSTRUÇÃO DE ENUNCIADOS GERAIS COM BASE NOS DADOS DA INVESTIGAÇÃO EMPÍRICA. D ‟ABOIM S OFIA: T RUNIGER . 11-50. AS QUAIS COEXISTEM “LIMITAÇÃO DO CONFRONTO CRÍTICO”. conjugada com a 1 C ABE AQUI REFERIR O ARTIGO “N OTAS SOBRE AS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS E O H ABITUS: ESBOÇO INGLEZ. que se constroem mutuamente. e o sol é só uma estrela .1. de forma a não ser perfeitamente balizável os limites entre um e outro. Desta forma. RUI PENA (2007). PROBLEMAS E PRÁTICAS . PUBLICADO NA REVISTA PSICOLOGIA. ai reside a complexidade das ciências sociais. VASCONCELOS . Ora.a astronomia pode dizer que a lua é só um satélite. 2/3. determinismo x liberdade 1 . 3 O PROFESSOR RUI PENA NO ARTIGO “ÁRVORES CONCEPTUAIS : UMA CONSTRUÇÃO MULTIDIMENCIONAL DOS CONCEITOS DE ACÇÃO E DA ESTRUTURA”. OBJETIVO A dicotomia é cara à discussão sociológica. realidades diferentes e indissociáveis. com seu conceito de habitus. UMA “CIÊNCIA PLURIPARADIGMÁTICA”. separar. 2 UMA DAS EXPRESSÕES MAIS SIMPLES E COMPLETA SOBRE O PARADOXO INDIVÍDUO X SOCIEDADE É DE N OBBERT E LIAS: “N INGUÉM DÚVIDA DE QUE OS INDIVÍDUOS FORMAM A SOCIEDADE OU DE QUE TODA SOCIEDADE É UMA SOCIEDADE DE INDIVÍDUOS”. se o homem . MÓNICA.e sua vida em sociedade . PIRES. definir e diferenciar seus objetos . P EDRO.em sociologia o indivíduo só é possível por meio da sociedade. e a terra é só um planeta. REFERE À AUSÊNCIA DE UM CORPO TEÓRICO UNIFICADO EM SOCIOLOGIA . No centro do debate está a relação indivíduo x sociedade.

pois enquanto se analisa o agente cuja ação está em certa medida “determinada” pelo habitus. Finalmente. e das representações sociais –as quais. mais contribuições estão aptas fornecer visando ao bom debate e à superação das dicotomias teóricas. Desta forma. . Assim. o indivíduo também é ator. seja a psicologia ou a sociologia. ser um dos muitos caminhos adequados para a conciliação das supostas antíteses. mas quantos mais não se limitarem a seus campos respectivos. ser por um lado Bourdieu enfatiza em sua teoria o ato inconsciente e pré-ordenado.Teoria das Representações Sociais de MOSCOVICI. observa-se que as Teorias em discussão pertencem a domínios científicos diversos. posto que age de acordo com a realidade que representa. sempre se deve ter em consideração – são representações da realidade. seguindo a linha bourderiana. esforça-se aqui por se entender os mecanismos de construção do habitus individual. a Teoria das Representações Sociais ressalta o indivíduo como ator que dá sentido a sua realidade social. que aponta a necessidade de a sociologia desvendar “o que há por trás”. e não a própria realidade.

5 Nota-se a preocupação do autor com a questão da reprodução das igualdades sociais. De fato. . perdiam seus referenciais. o que contribuiria para a perpetuação das posições no campo (classe social). interessou-se pelo processo de mudança da estrutura agrícola naquele país. ele constrói a noção dos capitais distribuídos desigualmente dentre do campo.1. Para tentar explicá-la.1 BOURDIEU Um dos sociólogos mais influentes da atualidade. torna-se de filósofo a sociólogo sob a influência de Raymond Aaron. De volta à França se preocupou com as questões relacionadas ao ensino universitário. que lutou na Guerra da Argélia. 2. Mais tarde. dentre outras. O autor.CONSIDERAÇÕES DA NOÇÃO DE HABITUS EM BOURDIEU. Seus estudos colocam em causa a igualdade de condições e o sistema de educação como promotor da igualdade social. foi descoberto relativamente tarde na tradição anglosaxônica. A questão dos excluídos e das (des)igualdades é a tônica da sua obra. ao qual o filho do operário não teria acesso. das artes. Foi na análise do desajustamento deste povo que. 2. ao passar do ambiente rural para urbano. É interessante como o autor aborda a questão da mobilidade social no EUA. ele fala do capital cultural. Os estudos realizados sobre os Cabilas estão. nas escolas. eis que as Universidades são caras. seja culturalmente porque os filhos das classes abastardas receberiam como herança o capital cultural que lhes asseguram a admissão nessas instituições de ensino. As famílias burguesas transmitem aos seus herdeiros este capital cultural. o que serve para excluir a classe dominadas e perpetuar as desigualdades. E A TEORIA DAS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS EM MOSCOVICI 2. nas obras Sociologia da Argélia (1968) e Esboço de Uma Teoria da Prática (1972). o que acabou por fortalecer a sociologia marxista. de familiar para industrial4. giz-se ainda a questão da violência simbólica. que em resumo pode ser entendida como a classe dominante impor seus valores. onde foi professor. a qual reputa estar duplamente controlada. Dentre vários tipos de capitais. que não só são econômicos. Nesse sentido. seja economicamente. apesar de ser desde há muito estudado na Europa. etc.5 Uma das suas grandes contribuições no campo da sociologia refere-se à noção de habitus. no caso agora considerada.1 HABITUS O termo cuida-se de uma tradução do termo hexis de Aristóteles e remete à idéia de um “Princípio gerador duradoramente constituído por improvisos regulados 4 Esteve na Argélia entre 1955 e 1962. que se tornou que a existência do habitus se tornou evidente para Bourdieu. a militância de Bourdieu era contra o credo neo-liberal e suas conseqüências perversas. o qual contém vários bens simbólicos. como por exemplo o conhecimento da língua culta.

Como se geram as práticas? O indivíduo. e torna possível efetuar tarefas infinitamente diferenciadas graças às transferências analógicas de esquemas que permitem resolver os problemas da mesma forma e graças às mesmas correcções incessantes dos resultados obtidos. A racionalidade no habitus é prática. integrando todas as experiências passadas. Pierre (1972-2002)... Cit. 164. de apreciações e de acções. Erwin. em suas práticas sociais. de acordo com suas experiências pretéritas é capaz de comparar as situações presentes e futuras com aquelas passadas e a partir daí antecipar suas conseqüências e determinar sua ação.) trouvent leur principe dans l'institution scolaire investie de la fonction de transmettre consciemment et. p. 168. de tal maneira que tendem sempre a reproduzir as estruturas objetivas cujo produto em última análise são.(principium importans ordinem ad actum. nem inova. isto é. Nos dizeres de Bourdieu “Até no momento em que aparecem como determinadas pelo futuro. de l'inconscient ou. Ele se apóia na prática em estruturas. Foi usado por Bourdieu no posfácio da tradução de um artigo de Erwin Panofsky7. plus exactement. crenças e finalidades. como diz o escolástico)” 6 . pelos fins explícitos e explicitamente postos de um projecto ou de um plano. inconsciement. pelas condições passadas da produção do processo productivo. acumulando bens simbólicos.148.) ”. 8 BOURDIEU.”8 De fato. Nesse sentido. Op. de forma praticamente inconsciente.. em PANOFSKY. não despende sua potencialidade para racionalizar a cada comportamento singular. e. Pierre (1972. de produire des individus dotés de ce système de schèmes inconscients (ou profondément enfouis) qui constitue leur culture ou mieux leur habitus (. quer dizer. insuficiente para dirigir a vida cotidiana. p. seus valores.. Architecture Gothique ET Pensée Scolastique. Precedido de Três Estudos de Etnologia Cabila. 6 BOURDIEU. Esboço de Uma Teoria da Prática. funciona a cada momento como uma matriz de percepções. posfácio. p. e nesse sentido possibilita uma prática social independente do raciocínio abstrato. o indivíduo constrói seu habitus de acordo com a sua trajetória de vida. as práticas que um habitus produz enquanto princípio gerador de estratégias que permitem enfrentar situações imprevistas e incessantemente renovadas são determinadas pela antecipação implícita das suas conseqüências. 7 “( .2002). aussi. a cada ação cotidiana. entendido como um sistema de disposições duradouras e transponíveis que. “A prática é ao mesmo tempo necessária e relativamente autônoma por referência à situação considerada na sua imediatez pontual porque é o produto da relação dialéctica entre uma situação e um habitus. Celta Editora. Oeiras. pour une part. ..

”10 Dessa forma. o limite entre estrutura e ação é fracamente marcado. ao mesmo tempo em que é determinada pelo habitus. segundo Bourdieu se refere ao fato de que a sociologia deve ser usada para se defender e não para atacar). E é por que existe o habitus que todos os envolvido podem jogar. o que em última instância dizer que é ao mesmo tempo externo e introjetado pelo indivíduo. também o constrói. não é escolha livre individual. resolveu estudar sua própria sociedade. na medida em que estes são “estruturas estruturantes porque estruturadas”. é ao mesmo tempo individual e 9 Idem. o habitus é “uma estrutura mental que. externas. Uma metáfora interessante cunhada por Bourdieu concerne ao habitus como o sentido do jogo. 10 . P. Para Bourdieu “Ignorar a relação dialética entre as estruturas objetivas e as estruturas cognitivas motivacionais que elas reproduzem. razão pela qual transcende o individual. a ação. é votarmo-nos a reduzir a relação entre as diferentes instancias. e que tendem a reproduzi-las e a esquecer que essas estruturas objetivas são elas próprias produtos de práticas históricas cujo princípio produtor é ele próprio o produto de estruturas que tendem por isso a reproduzir. pela escola. tendo sido inculcada em todos os cérebros socializados de uma certa maneira. ou produto da interação entre os agentes das condições objetivas. princípio mediador entre indivíduo e sociedade. o autor disse que chegou a esta noção quando. 11 Num interessante documentário chamado “A Sociologia é um Jogo de Combate” (o título.dialecticamente produzidas. Op. antes que fossem dadas. pela igreja. mas herança econômica e cultural. e portanto. BOURDIEU. podemos antecipar os resultados e escolher as estratégias. Cit. pois. pois as práticas sociais são relacionais.”9 Saliente-se. 167. haja vista que o habitus é “interiorização da exterioridade e exteriorização da interioridade”. De fato há que se considerar que é produtor das relações historicamente consideradas. 179). dos pais para os filhos. Por meio dele é possível jogar (o jogo da vida em sociedade). por esses mesmos resultados. é produto e produtor. depois de estudar os Cabilas. Pierre (1972-2002). entretanto que o habitus. pois conhecemos as regras dos jogos. p. segundo o autor. a dicotomia sujeito x objeto é mitigada. Desta forma. tratadas como ‘diferentes das traduções da mesma frase’ – segundo uma metáfora espinosiana que contém a verdade objectivista da ‘articulação’ –. percebeu que já sabia as respostas. e antecipar da ação do outro11. e ao entrevistar as pessoas que compartilhavam de seu habitus. Com efeito. de forma consciente ou inconsciente. à formulação lógica que permite descobrir qualquer dentre elas a partir de qualquer uma delas. transmitidos entre outros.

de um campo. é uma lei tácita (nomos) da percepção e da prática que está na base do consenso sobre o sentido do mundo social (. . mais um aspecto da questão em causa. um corpo que incorporou as estruturas imanentes de um mundo ou de um sector particular desse mundo. Ed. 110. O habitus é a estrutura que orienta a ação individual no mundo. Oeiras. num eterno devir. pois a cada posição corresponde um habitus. as regras de etiqueta. De fato.. eis que nunca está acabado: “O habitus preenche uma função que. p. quer dizer. Celta. além de bens e propriedades culturais — livros.ex. tem pelo menos 2 estratégias constantes: conservação e subversão da ordem. ainda que desejem a modificação ou manutenção das suas posições. que possuem regras de condutas e 13 desafios próprios.. O jogo. traçadas de acordo com o habitus individual. disposições adquiridas que fazem com que a acção possa e deva ser interpretada como orientada para este ou aquele fim sem que possamos por 12 BOURDIEU. e que estrutura a percepção desse mundo e também a acção nesse mundo.) como fundamento do senso comum.”12. p. os quais não poderiam ser esgotados. O campo contém sistema de posições estruturadas. que implica interação e conflito. finalmente notar. corresponde um habitus. Razões Práticas. neste pequeno texto. é confiada à consciência transcendental: é um corpo socializado. De fato.”14 Com efeito. os idiomas. nos quais se realizam lutas pela conquista de capitais desigualmente distribuídos.. vários. 95). Pierre (1994). a depender da posição que ocupam. Sobre a Teoria da Acção..coletiva. numa outra filosofia. O capital em disputa não se refere apenas aos bens econômicos. obras de arte. no entanto. o habitus é comum a um grupo social submetido condições de existência (classe social ou classe de idade) mais ou menos semelhantes. reputa-se importante. e que por meio da construção de símbolos que fazem sentido. 14 Idem. E cada posição que se ocupa no campo13. mas os indivíduos partilham o interesse comum de continuação do campo. para Bourdieu o indivíduo é pouco reflexivo. existem outros aspectos. Dentro da sociedade como um todo. qual seja o problema da ação racional e da ação inconsciente. a toda evidencia. A estes espaços. um corpo estruturado. A luta no campo se dá por meio de estratégias. importantíssimos concernentes ao estudo do habitus. dão sentido à realidade. as graduações escolares. eis que “(. 1997. Bourdieu chamou campo. existem microcosmo. e que dependem da posição ocupada no campo. socializado num mesmo sistema escolar e de uma mesma geração ou profissão. por exemplo. como. determinadas pela qualidade ou quantidade de capital que se possui.) a maior parte das acções humanas tem por princípio uma coisa completamente diferente da intenção. características lingüísticas. no campo cultural. pois existem diferente tipos de importantes bens simbólicos..

faz o que é preciso fazer no momento em que é preciso fazêlo. como deixa pensar a visão de jogadores de xadrez ou de bridge que certos economistas (sobretudo quando armados com a teoria dos jogos) atribuem aos agentes. "as representações sociais constituem 15 BOURDIE. sem precisar de pôr explicitamente a questão (excepto em certas situações críticas) de saber explicitamente aquilo que os outros podem fazer em contrapartida.2 SERGE MOSCOVI O 2. Como os sujeitos apreendem a realidade ao seu redor? Onde se percebe as representações? Discursos. de sua história individual ou coletiva. Serge Moscovici Representações Sociais Construção da realidade social Representações sociais? Para Moscovici : “sistemas de valores. p. O melhor exemplo de disposição é sem dúvida o sentido do jogo: o jogador. as partes do seu mundo. define como “uma forma de conhecimento específico. de noções e de práticas” que “instauram uma ordem”. designa uma forma de pensamento social" pois.] em sentido mais amplo. palavras. .1 Teoria das Representações Sociais Como articulação entre objetivo e subjetivo.2...15). op. de maneira unívoca. tendo interiorizado profundamente as regularidades de um jogo. orientam os indivíduos para dominrem m o meio social e material.15). mensagens. sem precisar de saber conscientemente aquilo que faz para o fazer no momento em que é preciso fazê-lo. imagens mediáticas. Pierre (1994). Como elaborações subjetivas de um indivíduo num determinado contexto social.”15 2. A comunicação como criadora e transmissora da realidade. propondo-lhes um código para suas trocas e para nomear e classificar. Jodelet (apud SILVA. Representação como processo subjetivo que mediatiza indivíduo e sociedade.p. São "uma modalidade de conhecimento particular que tem por função a elaboração de comportamentos e a comunicação entre indivíduos” (MOSCOVICI. p. o saber de sentido comum [. apud SILVA. 1998. e asseguram “a comunicação entres os membros de uma comunidade”. Cit. 126.1998.isso estabelecer que teve por origem a mira consciente de tal fim (é aqui que o ‘tudo de passa como se’ se toma da maior importância).

segundo Jodelet (2001). quando se torna o estranho familiar. entendido como encadeamento de fenômenos interativos fruto dos processos sociais no cotidiano do mundo moderno. o seu universo mental não é. passa por refinamentos de significação e sua configuração estética mostra que algo não pode ser percebido sem que a atenção esteja disciplinada e intencionalmente voltada para a estruturação do ato ou comportamento. por um lado. seu papel na orientação dos comportamentos e na comunicação e. vale dizer. Isso faz de indivíduos e grupos elaboradores do pensamento social no qual são levados. ao lado da cognição. da linguagem e da comunicação. a compreensão e o domínio do meio social. pelo contrário. quer dizer. material e ideal". é por referência a experiências e esquemas de pensamentos já estabelecidos que o objeto em questão vai ser pensado". por seu turno. através dos esquemas de referência que se dispõe. 18) que permite novas experiências. O estudo das representações sociais. raciocínios. complementa Silva (1998. como tal. portanto. evidenciam-se por meio de ações. portanto. uma tábua rasa. conjuntamente dispostos. por outro. considera-la como sistema de recepção (input) de novas informações. mas têm por base processos mentais. e integrando. deve ser articulado a elementos afetivos. é quando se materializa o abstrato. atitudes. é a fase figurativa. Tanto num processo como no outro o que se evidencia é de que a formação das representações sociais é operacionalizada dinamicamente com as informações cognitivas já estabelecidas. “Quem sabe e de onde sabe?”: Compreender o impacto das correntes de pensamento nas representações sociais dos grupos ou indivíduos. ou ainda. sendo membros participantes da sociedade pensante. é um ato da consciência e. construindo um novo conceito a partir dos registros individuais ou das experiências de cada sujeito. constantemente. Em síntese. por definição. p. Objetivação. possui exterioridade e interioridade. “O que e como se sabe?”: Entender os processos constitutivo s das representações sociais e sua eficácia para o funcionamento social. uma estrutura que produz novas estruturas o que remete ao habitus. p. cognitivos. quando “um sujeito pensa um objeto. As representações sociais de um objeto social passam por um processo de "formação". Esse processo ocorre de forma dinâmica em que grupos e indivíduos participam. produzindo e construindo significados e. as relações sociais que as afetam e a realidade material. o que significa procurar entender. a (re)avaliarem seus problemas e soluções.modalidades de pensamentos práticos orientados para a comunicação. “Sobre o que se sabe e com que efeitos?” Identificar o papel das representações sociais nas mudanças sociais. As representações sociais. A exterioridade dessas. social e das idéias sobre a qual elas vão intervir. por conseguinte. mentais e sociais. em termos da constituição de um pensamento social compartilhado.18). constituído de intencionalidade. .1998. Ancoragem: fase simbólica da representação. Na explicação de Valla (apud SILVA. particularmente. É isso.

conhecimentos e modelos que circulam na sociedade recebidos e transmitidos pelas tradições.Representações sociais: como fenômeno e como teoria Complexo forma de pensamento social abrange informações. às vezes de forma convergente. As representações sociais indicam a existência de um pensamento social que resultou das experiências. Essas „teorias‟.64) por meio de aproximações da realidade. . são construções mentais que surgem de uma necessidade e ajudam a orientar a conduta no dia-a-dia.1. outras pelo conflito. 2003. presente em todas as áreas da vida humana. administrá-lo ou enfrentá-lo. pela educação e pela comunicação social. sendo verdadeiras “teorias do senso comum” (JODELET. 22). não se restringindo aos acontecimentos culturais ou políticos. 2001. constituem meios através dos quais se partilha esse mundo com outros. p. das crenças e das trocas de informações ocorridas na vida cotidiana dos seres humanos. servindo de apoio. experiências. São elas que permitem aos indivíduos “tornar o estranho familiar e o invisível perceptível” (FARR. apud NÓBREGA. p. explica a autora. Em outras palavras. para compreendê-lo. .

a tendência é de resistência às mudanças em razão da transmissão do capital dentro do campo social e da pequena margem de liberdade do indivíduo. pois é justamente por escancarar a lógica reprodutivista. a fim de colocá-las num debate que possibilite reconhecer suas complementaridades e aproximar as respectivas perspectivas. cuja liberdade é mínima. naquelas partes regidas por leis próprias. alimentada pela violência simbólica. ou ainda. cognitivos. a inércia. mas que age conforme condicionantes e disposições determinadas no contexto social. 17 Por isso as críticas feitas ao determinismo de Bourdieu ser um tanto quanto imerecidas. cuja ação esta determinada pelo seu habitus e pela posição que ocupa no campo. Mas entender esse determinismo é importante para se encontrar estratégias inventivas. .17 Não significa dizer que o indivíduo não é nunca racional. e que portanto se deve agir para mudar o que se pode. e que o habitus é como um vaticínio a delimitar a ação individual. portanto. Bourdieu refere a existência de uma pequena margem de liberdade. De fato. Bourdieu põe em relevo a estabilidade. não é um destino dado de uma vez por todas. é que se abre a possibilidade de mudança. As representações sociais. vale dizer. uma idéia de que o comportamento está condicionado irremediavelmente. Uma das primeiras questões que se coloca é da mudança/conservação. possui exterioridade e interioridade. A CONSTRUÇÃO DAS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS E O HABITUS INDIVIDUAL É preciso marcar as oposições entre as Teorias em causa. os campos sociais. evidenciam-se por meio de ações. raciocínios. hierarquicamente situados. mas dependente das posições presentes e passadas dos indivíduos no espaço social. às necessidades e aos determinismo. pois se existe uma margem. in “A Sociologia é um Esporte de Combate”. pois como diz um dito popular brasileiro sobre o portador de más notícias.3. um vaticínio. 16 É nesse sentido que Bourdieu não pode ser entendido como conservador. e questionado sobre a lógica da luta num mundo que não muda. interpelado sobre o determinismo a que estamos condicionados. ainda que pequena para a subversão. Ao seu ver. particularmente. conjuntamente dispostos. mas têm por base processos mentais. há um determinismo. uma estrutura que produz novas estruturas o que remete ao habitus.  Vale dizer. 16 Numa entrevista. atitudes. visando escapar às leis. “Não vale a pena bater no carteiro”. Sem dúvida. na quais se trava uma luta concorrencial entre atores. a que se sofre sem ter noção. deve-se escapar à fatalidade da reprodução do status quo.

tendo por base declarações de Moscovici publicadas por Gerard Duveen. de certo modo diferenciados. posto que são produtos de um certo habitus e esse. Também essa não é uma perspectiva totalmente estranha ao pensamento de Moscovici. no que se refere à objetividade da prática subjetiva que constitui o aspecto basilar do objeto da pesquisa. O interesse dele. de como eles transformam idéias em práticas […]” Citar o conceito de habitus por CASANOVA: “Enquanto sistemas de disposições. Desse modo. Em particular. mas também nas condições materiais de vida dos sujeitos que as expressam. 2005. identifica que as representações têm força “na autoorganização objetivo-subjetiva dos agentes no âmbito da ação prática”. por outro. isto é. Essa é uma perspectiva de análise que encontra em Pierre Bourdieu seu principal inspirador quando. p. estabelece o habitus como princípio produtor e gerador das representações e. A articulação da teoria das representações de Serge Moscovici e de habitus de Pierre Bourdieu permite perceber como essas duas categorias. por expressarem “a compreensão dos sujeitos a partir da observação real”. como vimos frequentemente. já que esse “preocupou-se em compreender como o tripé grupos/atos/idéias constitui e transforma a sociedade” (OLIVEIRA. p. é o “„poder das idéias‟” de senso comum. um sistema teórico segundo o qual o habitus produz representações e é produto de condições objetivas. no “estudo de como. ou uma mediação. revelam-se úteis na leitura da realidade social. 2004.Como produtor ou estrutura estruturante. em contextos epistemológicos. faz a ligação entre interioridade e exterioridade. ainda que construídas com as informações cognitivas já estabelecidas (apud SILVA. assim. os habitus não estão apenas na origem da produção específica e imediata das práticas em sentido estrito mas. sendo princípio gerador de práticas e de representações. diz ainda Oliveira. forjadas. ele estabelece uma ponte. como estrutura que também é estruturada é produto de um tipo particular de meio. 156). e por que as pessoas partilham o conhecimento e desse modo constituem sua realidade comum. Percebe-se que a objetividade de uma representação de um dado objeto deve ser buscada não apenas nos processos de formação destas e nos elementos que essas envolvem. entre condições materiais de vida e as representações sociais. Bourdieu formula. 181). por um lado. também das .

Tendem a impôr-se como esquemas geradores de práticas e percepção e apreciação das práticas sociais (dimensão última esta a que P. essa teoria mostra pouco interesse pela vida dos agentes fora-do-palco ou fora-do-campo. tanto por não considerar as incessantes passagens operadas pelos agentes (entre os campos nos quais são produtores ou simplesmente consumidores-expectadores e as múltiplas situações que não podem ser referidas a um único campo). mas pode tornar-se um obstáculo ao conhecimento do mundo social. mas representa uma teoria regional do mundo social. uma maneira de responder a uma série de problemas científicos. ambo s definidores de etilos de vida particulares. LAHIRE. segundo Lahire (2002). entre os dois tipos de esquemas e uma sua explicitação em termos especificamente sociológicos”. principalmente as que comportam certo prestígio (capital simbólico) e podem. das representações sobre as próprias práticas. Bourdieu chama “o gosto”). Essa configuração dos campos exclui também as populações sem atividade profissional. privados ou públicos. quanto por desconsiderar a situação dos que se definem socialmente (e se constituem mentalmente) como estando fora de toda atividade de um determinado campo. In: ______. ancorada numa lógica prática. digitar textos. podendo se inscrever em múltiplos quadros sociais. que lutam no interior do campo. Essa teoria empenha muita energia para iluminar os grandes palcos em que ocorrem os desafios do poder. A teoria dos campos representa. duráveis ou efêmeros. Crítica Bourdieu: Segundo Lahire (2002). fotocopiar documentos. mas pouca para compreender os que sobem nesses palcos para instalar os cenários. varrer o chão e os bastidores.representações socais – e em especial. Pour une sociologie à l'état vif. fabricar os equipamentos. portanto. Le travail sociologique de Pierre . B. organizar-se em espaços de concorrências e de lutas para a reafirmação desse prestígio específico. representa mais do que isso. a teoria dos campos – que deveria chamar-se teoria dos campos do poder – não pode constituir uma teoria geral e universal. O que parece ser mera reedição da divisão “hexis”e “ethos”. uma aliança. Nesse sentido.