O ARQUITETO E O IMPERADOR DA ASSÍRIA

FERNANDO ARRABAL

Cidadão espanhol, Fernando Arrabal vive na França desde 1955. Contrário ao regime do generalíssimo Francisco Franco, partiu para um exílio voluntário, da mesma forma que outros intelectuais espanhóis, como o pintor Pablo Picasso (1881-1973) e o cineasta Luís Buñuel. Com a morte de Franco, em 1975, muitos desses artistas puderam retornar. Menos Arrabal, “persona non grata” no país desde 1967. Nesse ano, acompanhado da esposa. Luce Moreau, Arrabal viajou para a Espanha. Em Madri, foi abordado por um jovem que, entregando-lhe um volume de seu livro mais recente (Celebrando a Cerimônia da Confusão), pediu uma dedicatória e um autógrafo. Alguns dias depois, em Múrcia, sua casa foi invadida por um grupo de policiais. Devia segui-los a fim de responder a um interrogatório; usariam a força, se recusasse. Arrabal só veio a saber do motivo de sua prisão quando foi enviado para a Penitenciária de Madri. Era acusado de ter escrito uma dedicatória sacrílega e antipatriótica, pela qual poderia ser condenado de seis a doze anos de reclusão. Enquanto Luce Moreau procurava, por todos os meios possíveis, conseguir sua liberdade, Arrabal permanecia encarcerado numa solitária: uma placa de metal lhe servia de cama, e os ratos passeavam livremente pelo chão. Foi solto, algumas semanas mais tarde, à espera do processo. As autoridades espanholas haviam ficado surpresas com os telegramas e cartas de protestos que chegaram do mundo inteiro. Em setembro, Arrabal sofreu um julgamento absurdo pelo qual foi condenado a pagar cinqüenta mil pesetas de multa. Quando, na volta à França, um jornalista lhe perguntou como tinha sido sua estadia na Espanha, ele respondeu: “No que diz respeito à política, só posso enunciar uma série de chatices ou então falar em termos do bom senso comum. Sempre fui contrário a todos os tipos de tiranias e ditaduras. A razão pela qual fui provocado, preso, julgado e perseguido na Espanha, no último verão, está além da minha compreensão. Mas continuo pensando nos outros que estavam presos comigo na prisão de Carabanchel e que vão passar muitos anos atrás das grades por atos que uma nação civilizada não pode condenar, sem desonrar-se”. As autoridades espanholas nunca perdoaram a Arrabal o fato dele anunciar publicamente a repressão política e de refletir em sua obra as contradições de seu pais de origem. OS CAMINHOS DA LIBERDADE Fernando Arrabal nasceu em Melilla (Marrocos espanhol), no dia 11 de agosto de 1932. Seu pai, Fernando Arrabal Ruiz, era comunista e foi preso em 1936, durante a Guerra Civil Espanhola. Durante seis anos percorreu as prisões de Ceuta, Ciudad Rodrigo e Burgos. Em Ceuta tentou o suicídio; de Burgos, fugiu, e nunca mais foi visto. Em 1959, na novela autobiográfica Baal-Babilônia, Arrabal refere-se ao pai e à importância que teve em sua vida: “Um homem enterrava meus pés na areia. Era na praia de Melilla. Lembro-me das suas mãos em minhas pernas. Eu tinha três anos. Enquanto o sol brilhava, o coração e o diamante se estilhaçavam em inúmeras gotas de água. Perguntam-me sempre quem mais me influenciou, quem admiro mais, e então, esquecendo Kafka e Lewis Carroll, a terrível paisagem e o palácio infinito, esquecendo Gracian e Dostoiévski, os confins do universo e o sonho maldito, respondo que foi alguém de quem me lembro apenas das mãos nos meus pés de criança: meu pai”. Sua mãe, Carmen Teran Arrabal, mulher muito religiosa e devotada rigidamente às obrigações domésticas, envergonhava-se do marido ateu e “vermelho”, omitindo a Fernando e seus dois irmãos todas as informações sobre o marido. Quando Arrabal Ruiz foi julgado, em março de 1937, e condenado a trinta anos de prisão, Carmen não fez o menor movimento no sentido de ajudá-lo a suportar a prova. Escrevia-lhe cartas duras e reprovativas, que teriam provocado no marido a tentativa de suicídio no presídio de Ceuta. Carmen nunca procurou entender as idéias do marido e guardou consigo a magoa de ter que assumir os filhos sozinha, trabalhando e escondendo dos vizinhos que Arrabal Ruiz era um preso político. Chegou-se mesmo a aventar a possibilidade de que teria sido ela a denunciá-lo à Falange. Em Os Dois Carrascos (Les Deux Bourreaux), o próprio Arrabal sugere a delação, mas, em 1956, quando escreveu essa obra, seu rancor contra a mãe ainda estava muito vivo.
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Em 1941, já vivendo em Madri com os três filhos, Carmen foi informada de que o marido desaparecera da prisão de Burgos. Na noite da fuga, havia mais de um metro de neve na cidade e Arrabal Ruiz, estava vestido apenas com um pijama. Mas nem sua morte nem sua sobrevivência puderam ser provadas. Muitos anos depois, Arrabal tentou localizá-lo, conversando com guardas e alguns de seus companheiros, mas nada conseguiu apurar. Quando foi notificada da fuga do marido, Carmen reuniu os filhos comunicou-lhes simplesmente que o pai falecera. Aos 16 anos, vasculhando documentos da família, Fernando inteirou-se da verdade e o choque da notícia levou-o a romper com a mãe. Durante cinco anos não falou com ela. Nessa época, Fernando estava cursando a Academia Militar, na qual ingressara em 1947, convencido pela família a fazer carreira no Exército. Como seu espírito militar era nulo, trocava as aulas por sessões de cinema, empolgando-se com os irmãos Marx e Chaplin. À noite, lia muito: Lewis Carroll, Dostoiévski, Kafka e Proust.A vida era então, segundo ele, terrível. Baixinho, mordaz, exótico, perambulava pelas ruas e ia acumulando sua raiva de tudo e de todos. “Odiava a Espanha porque na rua todos caçoavam da minha estatura: odiava minha mãe e minha família porque eram franquistas.” A revelação sobre o pai acelerou sua saída da Academia Militar. No outono de 1949 partiu para Tolosa, indo trabalhar numa fábrica de papel. Durante dois anos trabalhou, leu, escreveu poemas, repensou a vida, sua relação com a família e a religião. Gradativamente rompeu as amarras. Ao voltar a Madri, em 1962, para fazer o curso de direito, a família recebeu-o reticente. Fernando não ia mais a missa, não visitava os padres do colégio de Santo Antão, onde estudara, não se confessava nem comungava. E continuava sem falar com a mãe. A noite, trancado no quarto, escrevia, sabendo que à hora das refeições as tias fariam as zombarias costumeiras: “Vejam só Fernandito escritor!” Foi nesse período que escreveu sua primeira peça de teatro, Piquenique no Front (Los Soldados), que ao ser montada em Paris, em 1959, seria considerada por alguns críticos “uma verdadeira jóia surrealista”. O cenário é a guerra. As personagens são um soldado, que recebe no front a visita de seus alienados pais, que ali vão fazer um piquenique, e outro soldado, inimigo, que é feito prisioneiro em pleno lanche. Do confronto entre os horrores da guerra e a inconsciência dos visitantes e participantes nasce um cômico absurdo, mais notável ainda porque o autor, ao escrever a peça, não conhecia nem os dramaturgos de vanguarda. nem o teatro surrealista. O Triciclo (Los Hombres del Triciclo) deu a Arrabal, em 1953, o segundo prémio no Concurso da Cidade de Barcelona e foi a única das suas peças a ser montada na Espanha. Em 1958, o Dido Pequeño Teatro de Madrid levou-a à cena sem o menor sucesso. O Triciclo era a primeira peça na qual Fernando Arrabal apresentava uma linguagem, personagens e temas que seriam freqüentes em seu teatro: marginais que infringem inconscientemente uma ordem estabelecida e suas reações trágicas, cômicas ou inocentes, diante de uma realidade incompreensível. Quando escreveu O Triciclo, Arrabal acabava de descobrir os autores de vanguarda nas montagens tímidas de Josefina Sanches Pedreño. No Dido Pequeño Teatro, essa companhia era a única na Espanha a arriscar alguma coisa de Ionesco, mesmo sabendo que na platéia havia poucos espectadores realmente interessados nesse tipo de teatro. Mas, no árido panorama da vida intelectual espanhola, o Dido era o único lugar onde Arrabal se nutria de esperanças. Era bem possível que sua linguagem teatral, até então inédita, fosse um dia compreendida. O prêmio por O Triciclo foi uma bolsa de estudos em Paris, onde durante três meses Arrabal poderia estudar teatro. O tempo era muito breve, mas para o dramaturgo estava muito claro que em Madri não havia condições para escrever. Em 1955, sem saber que estava tuberculoso, concretizou seus planos de partida. A família, inconformada com sua decisão, não lhe deu o menor apoio; na hora da despedida os gritos da mãe foram ouvidos por todos os vizinhos: “Valha-me Virgem Maria! Meu filho há de pagar!” A PAIXAO SEGUNDO ARRABAL No inverno de 1955, Arrabal instalou-se na Casa da Espanha, na Cité Universitaire de Paris. Luce
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Se o público não gosta. também é tomado por 4 . Fando conduz Lis. Seu amor é negado não pelas famílias. uma exaltação. Concerto Dentro de um Ovo (Concert Dans un Oeuf). a inválida. Em fevereiro de 1956.” Geralmente o herói de Arrabal é ambíguo. Em dois anos. as imagens colhidas no inconsciente. No fim de sua estação no sanatório. Em Bouffémont escreveu quatro peças: Fando e Lis (Fando et Lis).). Os Quatro Cubos (Les Quatre Cubes. Você se dá conta? Essa peça. Arrabal diz que escreve tudo o que lhe passa pela cabeça. Ionesco e outros dramaturgos. Sem poder possuí-la fisicamente. decidem se tornar bons e puros. tanto pior.. ela é a fonte de todas as possibilidades de iniciação do homem. Arrabal entregou-se freneticamente à tarefa de escrever. anuncia a idéia de Cemitério de Automóveis. expressa através da repressão brutal e anônima que surpreende seus valores antisociais e sua liberdade. dois adolescentes reescrevem a história de Romeu e Julieta.). “Eu escrevo para mim. infatigavelmente repetidos. Apesar da admiração pelos autores de vanguarda. usando uma linguagem e uma lógica que não faziam parte do mundo dos adultos. São frequentes os jogos de palavras. a miséria. graças a ela.) e Os Dois Carrascos (Les Deux Bourreaux. Arrabal afirmava que suas obras tinham horizontes mais selvagens. Obcecado por uma infância prisioneira. A Primeira Comunhão (La Communion Solennelle). passou a ser sua companhia constante. que não revê o que cria. Não é incomum que suas peças girem em torno do mesmo tipo de personagem. Escrava ou déspota. o pessoal era bom e a comida farta”. a personagem feminina de Arrabal é mais lúcida que o homem. lêem o Velho e o Novo Testamento. que é paralítica. de levar Fando ao desespero. menos especulativos e mais espetaculares. “O menino ajudou seu pai que era carpinteiro a fazer mesas e cadeiras. a violência instintiva. onde ficaria um ano e meio. O Labirinto (Le Labyrinthe. Tinha todo o tempo livre para mim. colhia a matéria teatral dentro de sua memória. sua condição. o nome do escritor já era conhecido nos meios intelectuais parisienses. (. bom e cruel. a mãe o abraçava muitas vezes. de seus medos e pesadelos. realizando a mediação entre o herói e o mundo opressor. Cerimônia para um Negro Assassinado (Cérémonie pour un Noir Assassiné. Orquestração Teatral (Orchestration Théatrale). Como ele era muito sábio. Nessa situação. nem se detém numa palavra ou frase para refazê-la. temas e situações. por seus mutismos.Moreau. Luce encaminhou o texto de O Triciclo a Jean-Marie Serreau que. é capaz. fascinado com Arrabal. Mas a descoberta da história de Jesus os desconcerta. vítima e carrasco. quando domina a situação. E toda a dramaticidade de Arrabal vem do jogo das relações entre as personagens e das múltiplas combinações que seus caracteres ambíguos lhes permite. A maior ameaça que paira sobre ele vem do mundo exterior. comprometeu-se a publicar todas as suas obras. e no ano seguinte. Seu espaço. produziu oito textos: Cemitério de Automóveis (Le Cimetière des Voitures). como se o autor tivesse um compromisso muito maior consigo mesmo que com o público. produção de 1960. Em Fando e Lis. o herói. Longe de qualquer preocupação teórica. Mas Lis. Quando Serreau montou a primeira peça de Arrabal. o nonsense. mas por sua condição física. ele transforma seu desejo sexual em violência. As inversões brutais na relação senhor-escravo são um dos aspectos mais notáveis nas peças de Arrabal. Arrabal se transferiu da Cité Universitaire para o sanatório de tuberculosos de Bouffémont. consegue encontrar certa fascinação no sofrimento. e. dentro de um carrinho de criança. a terra de ninguém. Animado pela perspectiva dos 300 francos mensais que Serreau se propôs a pagar. acabando por imobilizá-lo. inocente e culpado. Fernando Arrabal considera o período em Bouffémont um dos melhores de sua vida: “Conservo as melhores recordações do sanatório. Pique-nique no Front. escrita em 1957. vive sempre à margem de um mundo ordenado que ele não compreende. após matarem uma criança. em 1957. uma estudante francesa.. É um jogo. A mulher aparece sempre sob um tríplice aspecto de mãe-criança-prostituta. Fidio e Lilbé de Oração (Oraison). Serreau via no teatro de Arrabal a mesma tendência para o absurdo que marcava a obra de Beckett. plena de instintos e intuição.) Depois ele se fez homem e o mataram: eles o crucificaram com cravos nas mãos e nos pés.). como para me drogar. para isso. Guernica (Guernica) e A Bicicleta do Condenado (La Bicyclette du Condamné) foram escritas em 1959. Tirano e escravo. Arrabal criava personagens sem idade definida. onde Emanou.

na qual uma mãe delata o marido “culpado de ter comprometido o futuro dos seus filhos” em atividades subversivas. o filho “rebelde” abraça a mãe. De cunho autobiográfico. sucedida pelo 2º Ato do Cemitério. com 500 quilos de carne fresca. ciúmes. mitomania. exposições e filmes de curta metragem do grupo fizeram sucesso em Paris. Por outro lado. personagem de Oração.”. pois acima de tudo foi pensando neles que assim procedeu. seus filhos. animados pela necessidade de fazer um teatro novo. Emanou é crucificado numa motocicleta. ao descobrir a história de Jesus. fetichismo. discorrendo sobre as virtudes da ordem e da limpeza e as vantagens de uma vida cristã. humor. Numa conferência em Sidney. Num cemitério de pesadelo. consegue que Maurice lhe peça perdão. Georges Vitaly. Gallimard fez aparecer nas livrarias a primeira coleção de livros pânico. montou um grande auto sacramental. por ocasião da montagem australiana de Fando e Lis. de Cemitério de Automóveis. Roland Topor. Arnaiz pintou o quadro Arrabal Combatendo sua Megalomania. entre sucata e carcaças de automóveis. que tem 33 anos e dois amigos. Jorge Lavelli.irresistível desejo de ser bom e acaba como Cristo. encontraram na obra de Arrabal um veículo 5 . Após uma paródia das cenas da paixão de Cristo. Jodorowski – que era um dos melhores encenadores do teatro de Arrabal –. inquietante e liberador de emoções. O teatro pânico era. acaso e euforia. A POESIA. Funcionando como prólogo. Cemitério de Automóveis era apenas uma das quatro peças de Arrabal integradas às várias seqüências do espetáculo. traído e assassinado. Jodorowski. o texto de Primeira Comunhão e. doenças ou deformações. Enquanto a avó discursa para uma menina desinteressada. necrofilia. Topé (Judas) e Fodère (Pedro). no papel da grande mártir. megalomania e modéstia. Arrabal definia o herói pânico como um desertor: Ele tem fantasmas (paranóia e não esquizofrenia). Na montagem que ele apresentou pela primeira vez no Festival de Dijon e posteriormente em Paris e São Paulo. Jacques Sternberg e outros intelectuais. Mas Françoise. O PÂNICO Quando Victor Garcia montou Cemitério de Automóveis. etc. depois a ação de Os Dois Carrascos. A encenação mais famosa de Cemitério de Automóveis foi realizada em 1966 pelo diretor argentino Victor Garcia. Houve quem visse na personagem de Maurice o símbolo de um povo humilhado. mas não vencido. onde ele seria torturado e morto. nos momentos finais de Cemitério de Automóveis. tomam posições radicalmente opostas em relação ao gesto que levaria o pai à prisão. desespero (e não angústia. a mãe. Primeira Comunhão é praticamente um longo monólogo de uma avó que se dirige à netinha que vai comungar pela primeira vez. em suma. mas. o nome de Fernando Arrabal estava estreitamente ligado ao chamado teatro pânico. estava Oração. mas uma “maneira de ser” de acordo com uma ideologia que tinha por fundamento a exaltação da moral múltipla. Sem muita convicção e quase chorando. ele não se suicida). Arrabal dizia que pânico não era um grupo nem um movimento. em Paris. Alexandro Jodorowski. inspirado no teatro espanhol do século de ouro (XVI). o epílogo da peça principal. Jerôme Savary. O HUMOR. O conceito de “pânico” começara a ser elaborado a partir das discussões de Arrabal. prepara-se paralelamente o suplício de Cristo-Emanou. um grande cerimonial presidido por confusão. Enquanto Benoit se coloca ao lado da mãe. Maurice e Benoit. nas quais Judas-Topé beija e trai o herói e FodèrePedro o renega três vezes. logo a seguir vinha o 1º ato de Cemitério de Automóveis. finalmente. Fidio. Maurice repele com horror a delação. uma série de diretores como Victor García. não tem esperanças de ressurreição. em 1963. prepara os espectadores para Emanou. as publicações. uma espécie de Cristo da era do jazz. ao contrário de Jesus. A violência de Cemitério de Automóveis foi acentuada pela ação de Os Dois Carrascos. terror. essa peça conta a história de denúncia e morte. Nos primeiros anos da década de 60. que entre 1960 e 1962 se reuniam no Café de la Paix. Topor realizou um happening memorável. Victor García procurou não romper com a ação da peça mestra. Na intersecção de Primeira Comunhão. Escrita em 1958.

E muitos deles. as degradantes condições das prisões espanholas e as etapas do processo que condenam um homem ao garrote vil. em E Eles Colocaram Algemas nas Flores (Ei lis Passérent des Mennotes aux Fleurs. suas quimeras. enriqueceu-se com a experiência da prisão. não o mesmo tipo de pânico. a tragédia dos prisioneiros políticos. De volta a Paris. O Jardim das Delícias (Le Jardin des Délices). são um aspecto da realidade obsessivamente revelada por Arrabal. pronunciadas pelo poeta pouco antes de morrer. à sua maneira. através da qual o autor desvela a paródia dos julgamentos políticos. A obra. O Arquiteto e o Imperador da Assíria (L’Architecte et L’Empereur d’A ssyrie). Desde o momento em que o público faz sua entrada no teatro. Como diz o próprio Arrabal. O pânico foi inicialmente revelado por Arrabal nos romances O Enterro da Sardinha (L’Enterrement de la Sardine). mas interior”. mas onde o ator. Arrabal existe”. Essas palavras. Os planos reservados à platéia praticamente se confundem com os planos da ação. de 1964. eles achavam que o teatro devia realizar uma função: “O teatro não poderá tornar a ser ele próprio. mas não conseguem tirar da memória os seus pavores. o espectador está dentro da peça o tempo todo. sua selvageria. acha que ele deve ficar. Em seus delírios oníricos. de 1961. torturado por seus 6 . pois ele não senta onde deseja. inspirada na fantasmagoria simbólica de um quadro de Hieronimus Bosch. seu sucesso projetou o nome de Arrabal numa grande parcela de público que. em que seu apetite do crime. Pois elas serão algemadas e viverão sob os ventos corrompidos da morte”. ou seja. que o conduz ao espaço de representação. Por assim dizer. torturante e muitas vezes física. vividas num internato religioso. Bestialidade Erótica (Bestialité Erotique) e Uma Tartaruga Chamada Dostoiévski (Une Tortue Nommée Dostoievsky). no curso dos quais os prisioneiros experimentam seus únicos momentos de liberdade. Como Antonin Artaud. Trinta anos depois suas idéias encontraram eco numa nova geração de encenadores. as novas inquietações em relação ao espetáculo teatral não se circunscreviam ao grupo pânico e aos encenadores que gravitavam em torno dele. J. Quando a obra foi montada. O título. sua noção utópica de vida e das coisas e seu próprio canibalismo transbordem para um plano que não é suposto nem ilusório. mas a preocupação com um teatro onde a platéia fosse atingida numa relação direta. seria preso em Múrcia. os detidos liberam seu erotismo. suas obsessões eróticas. Como ele próprio diria: “Eu acho que o povo começou a dizer. era uma artista que vivia reclusa no mundo das quimeras e fantasias de sua infância e adolescência. com suas práticas inquisitórias que foram reavivadas na visita à Espanha. Dois anos depois ele escreveria uma das melhores peças da sua carreira. de Peter Brook. Lais. e A Pedra da Loucura (La Pierre dela Folie. Antonin Artaud elaborara seu Manifesto do Teatro da Crueldade em 1932. ou do Living Theatre. foi inspirado numa frase de Lorca: “Diga às flores que não se envaideçam de sua beleza. mas o governo espanhol não sabia. Foi sua última viagem à Espanha. ainda não o conhecia. mesmo ignorando as teorias de Artaud. Nesse período ele escreveu Aurora Vermelha e Preta (L’Aurore Rouge ei Noire). em 1967. para si mesmo. O Grande Cerimonial (Le Grand Cérémonial. Arrabal existia. a peça ficou em gestação. Os sonhos.) e StripTease do Ciúme (Strip-Tease de la Jalousie). Possivelmente. preparando-se para registrar. para a qual fora buscar atmosfera na Espanha. gozando do mesmo desconforto que as personagens. Nesse ano. Apesar de diferirem das tentativas de Jerzy Grotowski. E Eles Colocaram Algemas nas Flores. romper seus espaços convencionais e entrar num contato mais estreito com o público. surrealismo e documentário. Arrabal mostra esse mundo terrível e repressivo. chegavam por seus próprios caminhos a conclusões semelhantes. por Jorge Lavelli. constituir um meio de ilusão verdadeira. nenhum deles negava a necessidade do teatro se fazer ritual. o pânico estava no ar. Mas a expressão mais clara de sua experiência de preso político foi registrada em 1969. Durante um ano. As primeiras peças do teatro pânico surgiram em 1964: A Coroação (La Couronnement).). começa a participar do espetáculo. desinteressada pelas manifestações de vanguarda. são consideradas por Arrabal um aceno premonitório à repressão que se abateria sobre a Espanha. terminou uma nova peça. A personagem principal. A peça prevê a integração da cena com o espectador. se não fornecer ao espectador modelos verídicos de sonhos. E Eles Colocaram Algemas nas Flores é uma mescla de fantasia e realidade.perfeito para suas proposições. Na verdade.

Entretanto. juiz e criminoso. alguns dos quais já tinham aparecido em peças anteriores. conflitos. O sobrevivente. Arrabal sugere que na metade do espetáculo ou no epilogo o espectador participe realmente da ação. Seguiram-se A Árvore de Guernica (L’Arbre de Guernica) e Eu Correrei como um Cavalo Louco. Mesmo distante do mundo civilizado e traumático. Em 1970. reprimida. um primitivo. herdeiro de um mundo hierárquico — o mundo dos civilizados — ressuscitou como um hipotético Imério. dois homens. À PROCURA DA METAMORFOSE O cenário de O Arquiteto e o Imperador da Assíria é uma ilha deserta. único sobrevivente de um desastre aéreo. não tem mãe. Na França e nos Estados Unidos. Em seu refúgio numa antiguidade hipotética. arrastando continuamente para seu jogo o parceiro único. o imperador não consegue deixar de sonhar e fantasiar suas perversões e seus medos. uma palavra. Mas o arquiteto é capaz de ordenar a um pássaro que lhe traga um copo de água ou de remover uma 7 . a compreensão”. apesar dos esforços que faz para esquecer o passado. O próprio Beckett dizia aos juizes de Madri. Há momentos de verdade no intervalo do jogo. O outro. Nos dois anos que se seguiram ao acidente. onde quer que manifeste seu gênio criativo. uma adaptação de seu romance Baal-Babilôinia. trazido do fundo de sua memória e de seu inconsciente. As personagens. Cada uma das personagens entrega-se a representação de várias pessoas num caleidoscópio de situações. Agora. ou pedem voluntários para um ritual sadomasoquista. cada qual por seus motivos. sobretudo na montagem que Victor García realizou para Cemitério de Automóveis. cuja fonte é a Espanha mística.sonhos e por sua condição. nem memória e. fez-se imperador e nomeou como seu absurdo arquiteto o homem primitivo. são capazes de desencadear uma série de situações. delirante e autobiográfica. sob a aparente desordem. a alegria. sentimentos. um tortura o outro com a possibilidade de abandono ou se fecha num silêncio desesperador que o outro não suporta. civilizado. farsesca e barroca. constatou que seu único súdito e servidor goza de mais vantagens do que ele. mas eles escapam ao parceiro. a inocência. em carta que foi lida pelo advogado de Arrabal durante o processo de 1967: “Onde quer que suas peças sejam montadas e elas são montadas em todos os lugares a Espanha está ali”. uma lembrança. O arquiteto deseja tornarse civilizado: o imperador aspira à barbárie. vítima e carrasco. Um. Os dois homens são alternadamente mãe e filho. Dissimulando sua fragilidade. convidam a assistência a contar um fato de sua vida. principalmente. a tranqüilidade. marido e mulher. Arrabal colocava nessa obra todos os pontos do manifesto de Artaud. A todo momento as máscaras se modificam e se invertem os papéis de dominador-dominado. mais da metade da audiência queria participar. o imperador ensinou o selvagem a falar e incansavelmente tenta ainda fazer com que seu aluno assimile os valores de sua cultura. A solidão é permanentemente preenchida por esse perpétuo jogo de faz-de conta. o riso. onde os mitos e obsessões de Arrabal são levados ao paroxismo. Uma imagem. Arrabal voltou-se para o cinema e realizou o filme Viva La Muerte!. Nos momentos de trégua. ele vem à luz a todo instante. no momento em que os atores. eles são o arquiteto e o imperador da Assíria. que se multiplicam e se movimentam com a velocidade das imagens cinematográficas. o homem civilizado não conseguiu banir seus fantasmas e. dois anos decorreram. o espectador sente a dramaticidade sutil que nasce das relações entre os jogadores. A luz se apaga e quando o palco volta a se iluminar. o imperador a todo instante ostenta sua superioridade de civilizado: “O mundo civilizado! Que maravilha! Durante séculos o homem acumulou conhecimentos e enriqueceu sua inteligência até atingir essa maravilhosa perfeição que é a vida moderna. Ambos se invejam. A peça inicia-se precisamente com um quadro rápido: o encontro do civilizado com o assustado homem primitivo. a ignorância e ao poder sobre a natureza de que o arquiteto desfruta. o que transformava o espaço cênico numa grande área de psicodrama. Ao se fazer supremo mandatário de uma nação impossível. realiza sempre a mesma obra. Por toda parte a felicidade. blasfema. pois não tem passado. trágica. improvisando. Alguns críticos sustentam que Arrabal. repressora.

do irmão. a peça causava grande impacto no festival shakespeariano de Stratford. Jorge Lavelli. relativos ao espaço palco-platéia. sou o único sobrevivente do acidente”. apaixonado e espiritual”. O Arquiteto e o Imperador da Assíria não permite que o público seja apenas assistente. Por seu movimento delirante. resumindo sua exigência numa pequena frase: “Que fosse pelo menos ator shakespeariano. Este. apenas dois traços essenciais: mistério e inocência. dizendo: “Cavalheiro. Apoiados pela direção sensível de Ivan Albuquerque. Rubens Corrêa. provocando grande entusiasmo em Sir Lawrence Olivier. E o jogo pode recomeçar. capazes de dominar todas as técnicas de expressão corporal e oral. O imperador e o arquiteto estão dentro de todos os homens e a luta pela predominância dos papéis não tem trégua. Como todas as peças de Arrabal tocam o espectador pelo fascínio — e não pela razão . terá perdido o melhor da festa: ou o rito ou o jogo ou as duas cerimônias combinadas. eles realizaram um dos melhores espetáculos daquele ano. o arquiteto tem dois papéis dominantes: o de presidente do tribunal e o da vítima (a mãe). Peter O’Toole e Paul Scoffield. A cerimônia é devidamente orquestrada: todos os movimentos cênicos são indicados pelo autor e não há improviso. Diz tê-la escrito com “uma grande felicidade misturada com sofrimento e muita alegria”. de um cego. um de nossos atores mais completos. que foi o produtor da montagem inglesa dirigida por Victor García em 1971. o imperador exige que seja executado pelo arquiteto numa cerimonia de antropofagia. e o talentoso José Wilker. Nas indicações para a montagem de O Arquiteto e o Imperador da Assíria nos Estados Unidos. Por outro lado. vestimentas antigas e modernas. o arquiteto. venha me ajudar. Por seu turno. Após desfilar seus motivos e testemunhos. Sua culpa: ter assassinado a mãe. personificava o imperador. como num ritual de comunhão solene. Para muitos críticos é a demonstração mais feliz do teatro pânico. Também em 1970. O imperador veste as máscaras da esposa. Única atenuante: estava sufocado pelo amor materno. a complexidade das personagens e do jogo cênico exige atores experimentados. seu objetivo é a purgação das paixões. o diretor da encenação parisiense. o espectador entra no jogo e representa consigo mesmo a tragicomédia da cena. suga seu cérebro e descobre subitamente o inferno da consciência culpada e solitária que tanto atormentara o imperador. Canadá. O longo processo que toma todo o segundo ato vai revestir-se das mesmas características de ambivalência. Eles se temem e se odeiam e se necessitam e se amam — e estão condenados a viver juntos. sem cérebro e sem memória. de estilo barroco. das várias outras testemunhas de acusação. Dá-se uma explosão e um homem entra em cena. PERSONAGENS O IMPERADOR DA ASSÍRIA – guarda-roupa rico. o imperador exige para si um julgamento. que tem vagas suspeitas de que ele possa ler seus pensamentos e descobrir a fraude de sua onipotência.montanha para o imperador. sensível e engraçado. no qual ele será o réu. Nesse sentido. Arrabal considera O Arquiteto e o Imperador da Assíria uma peça terna. Só que desta vez o sobrevivente é o arquiteto. o juiz. Incapaz de levar até o fim a farsa da superioridade. reencarna-se no homem primitivo — e a peça termina exatamente como começou. e o arquiteto. O ARQUITETO – cobre nudez com uma pele de animal 8 . E. sugeriu três nomes para o papel do imperador: Alce Guinness. Quem se contentar com essa condição. os intérpretes brasileiros da montagem realizada em 1970 pelo Teatro Ipanema do Rio de Janeiro foram perfeitos. E embora não rompa com os limites convencionais do teatro. o arquiteto come seu corpo. Para a personagem do arquiteto não sugeriu nomes.

O Arquiteto se inclina diante dele. tapa os ouvidos com as mãos e treme de medo. Ao fundo. dizendo: Cavalheiro. corre em todas as direções.) QUADRO II Dois anos mais tarde Em cena. você poderá lhe dizer Ave Caesar.) IMPERADOR 9 . Possui uma certa elegância afetada. Explosão. abrolhos. O Arquiteto como um animal perseguido e ameaçado procura um refúgio. Vá.ATO I A ação se passa numa pequena clareira. Procura guardar seu sangue frio. . o Imperador e o Arquiteto IMPERADOR Mas é tão simples. Traz consigo uma grande mala. numa reverência. ARQUITETO (tem uma certa dificuldade para pronunciar o . escava a terra. Cenário: uma cabana e uma espécie de cadeira rústica. treme. se alguém cair um dia aqui. QUADRO 1 Barulho de avião. IMPERADOR (com ênfase) Há dois anos que vivo nessa ilha. ARQUITETO (horrorizado) Ei! Ei! Ei! Figa! Figa! (Por um momento olha aterrado para o Imperador. Clarão forte de chamas. numa ilha onde o Arquiteto vive só. repita. recomeça a correr e por fim enfia a cabeça na areia. .s) Ascensorista. venha me ajudar. Meu trono! (O Imperador se senta. não é? IMPERADOR Bom. e sai correndo. ARQUITETO Já sei falar. ARQUITETO Mas hoje você tem que me ensinar. Toca o outro com a ponta da sua bengala. IMPERADOR Agora escute a minha musa cantar a cólera de Aquiles. há dois anos que lhe dou aulas e você ainda hesita! Seria preciso que o próprio Aristóteles ressuscitasse para lhe ensinar que 2 e 2 são 4. urzes. Alguns instantes depois o Imperador entra em cena. nessa ilha perdida. O Arquiteto. . Sou O único sobrevivente do acidente. Escuridão. Pelo menos. com a cabeça enfiada na areia.

. todos os templos soavam suas trombetas.) Está bem. IMPERADOR Cale-se. todas as sinagogas. ARQUITETO A Assíria é limitada ao norte pelo mar Cáspio. Ah! A filosofia! Um dia eu lhe explico o que é. a civilização! ARQUITETO (muito contente) Fale. Meu pai vinha me acordar seguido de um regimento de violinistas. o meu despertar pelo regimento de trombetistas que vinham de manhã. levante-se. 10 . Que maravilha! (De repente inquieto) Você cozinhou a linguiça com as lentilhas? ARQUITETO Sim. explique. e minha mãe. (O Arquiteto se levanta. calma! Ah. por desprezo? ARQUITETO Conte. Não se esqueça que sou o imperador da Assíria. você que viveu sempre enfurnado nessa ilha que nem existe nos mapas e que Deus cagou no oceano. Ah ! A música. não é preciso. (O Imperador se levanta com grandes gestos. todas as igrejas. (Sonhador. cegas e nuas que me ensinavam a filosofia. Que manhãs! Que despertar! Depois vinham as minhas divinas escravas. ARQUITETO Ah. IMPERADOR De joelhos! (O Arquiteto se ajoelha. conte.) Eu explico: minha vida.) Ah! A civilização. majestade! IMPERADOR Onde é que eu estava? Ah. os violinos nas igrejas. . ARQUITETO Majestade. O dia começava a despontar. fale. E minha noiva. . como é que elas explicavam a filosofia? IMPERADOR Não entremos em detalhes. O que você pode saber. IMPERADOR Calma. Com muita ênfase) Eu explico. Muito bem. IMPERADOR Chega. sim. ao sul pelo oceano Índico. explique! IMPERADOR Cale-se! (De novo com ênfase.Ah! Muito bem.) Levantava-me ao primeiro clarão da aurora. . ARQUITETO Agora me ensine o que você prometeu.

mamãe.ARQUITETO Mamãe. ARQUITETO Como tanto faz? Você disse que. IMPERADOR Tem certeza que fica aceso dia e noite? ARQUITETO Tenho. tanto faz. IMPERADOR (assustado) Onde foi que você ouviu essa palavra? ARQUITETO Foi você que me ensinou. (O Imperador revê a cena evocada. IMPERADOR E então o que é que nós vamos fazer? ARQUITETO Aí nós vamos para o seu país. IMPERADOR Quando? Onde? ARQUITETO Noutro dia. televisão. o ninava. mamãe. mulheres. um navio ou um avião ia nos ver e vinha buscar a gente. IMPERADOR Que foi que eu disse? ARQUITETO Você disse que sua mãe o punha no colo.) E você disse que ás vezes ela lhe batia com um chicote e segurava a sua mão quando passeavam pelas ruas e que. olhe a fumaça. travessas de confete. onde há automóveis. discos. . o beijasse. ele se encolhe na cadeira como se uma pessoa invisível o ninasse. IMPERADOR Pare! Pare! O fogo esta aceso? ARQUITETO Está. . um dia. o beijava na testa e. 11 . IMPERADOR Está bem.

IMPERADOR Nunca lhe disse o que significa a palavra “Charuto”. mestre? IMPERADOR Como? Agora você me trata por você? ARQUITETO Você disse que. posso ou não posso chamá-lo de você? IMPERADOR Minhas mulheres cegas que me ensinavam a filosofia vestidas somente com uma toalha de banho cor de rosa! Que memória a minha! Me lembro como se fosse ontem. enquanto repete: “charutos. (Mostra os espinhos. . .) Vai me crucificar agora? IMPERADOR Mas como? E você que vai ser crucificado? Não eu? ARQUITETO Nós tiramos a sorte. . Como elas acariciavam o meu divino corpo. Já esqueceu? IMPERADOR (colérico) Como é possível? Nós tiramos a sorte para saber quem iria redimir a humanidade? ARQUITETO Mestre. IMPERADOR (mudando de conversa) Você preparou a cruz? ARQUITETO Está aqui. você esquece tudo. . como elas limpavam os recantos mais escondidos com.quilômetros de pensamentos. IMPERADOR Como é que nós tiramos a sorte? Com quê? ARQUITETO Com os charutos. . . charutos. chupar um charuto? ARQUITETO Então. A cavalo! ARQUITETO Faço o cavalo? IMPERADOR 12 . quintas-feiras maiores que as da natureza e.”) Por que que está rindo. (O Imperador tem um acesso de riso. .

(Inquieto) Não ouviram? (Longo silêncio. De repente o Imperador o joga ao chão. hei! Mais depressa! Temos que chegar a Bahil5nia! Mais rápido! Hei (Eles trotam.) IMPERADOR (fora de si) Como? Você não colocou as esporas? ARQUITETO O que são esporas? IMPERADOR Como é que você quer chegar a . Cai no trono.Não.) Formigas! Minúsculas escravas Ide buscar na fonte uma ânfora cheia d’água. ARQU ITETO Hei.) ARQUITETO Foi você que me ensinou. IMPERADOR (aterrado) Onde ê que você aprendeu essa palavra’? Quem lhe ensinou? Quem vem visitá-lo enquanto estou dormindo? (O Imperador se joga sobre ele e quase o estrangula. (Furioso) Como? Não se respeita mais o Imperador da Assíria? Será possível? Morram sob os meus pés! (Dirige-se raivosamente em direção a um cortejo de formigas e as estraçalha com furor. . IMPERADOR (se refazendo com ênfase) Formigas! (Olha um cortejo de formigas no chão.) Ide buscar uma ânfora cheia d’água. (O Imperador se põe de quatro.) Diga. eu faço. O Arquiteto monta. ARQUITETO A Babilônia.) ARQUITETO 13 .) ARQUITETO Hei. hei . . já disse. Fazem várias vezes a volta da mesa. exausto. IMPERADOR Eu? ARQUITETO E. você disse que era uma das cidades do seu império da Assina. IMPERADOR Bata-me com o chicote! (O Arquiteto bate com um galho. (Senta-se no trono e espera. hei.

. as bases da arquitetura são.loura com . IMPERADOR Está debochando? ARQUITETO Você já me falou dela. IMPERADOR (derrubando a taça) O que é que eu vou fazer com essa água? Só bebo vodka. . .muito .era muito . . IMPERADOR Nós dizíamos que hoje vou te ensinar arquitetura.bela .muito . IMPERADOR E minha noiva.. IMPERADOR Mas você não acabou de exprimir o desejo de que eu te ensine arquitetura? Ah! A arquitetura! ARQUITETO Nós estávamos dizendo que eu ia fazer a noiva. IMPERADOR Quer fazer minha noiva? ARQUITETO Agora? IMPERADOR Não quer fazer minha noiva? (Furioso) Selvagem! ARQUITETO Agora sou sempre eu a noiva e você sempre é que me passa na cara. IMPERADOR Ensinei-lhe gíria também. eu faço 14 .olhos verdes e.linda .. Está bem. Estou perdido. ...) ARQUITETO Mas você não disse que. (Risinho. . . ARQUITETO Quando é que vai me ensinar arquitetura? IMPERADOR Para quê? Você já não é arquiteto? ARQUITETO Está bem. vou fazer a noiva. .Toma. já lhe falei da minha noiva? ARQUITETO (como se repetisse uma lição) Ela .

. . Você perde tudo. (Exaltado) Chega. Não estão ouvindo? Onde é que estou com a cabeça? Esqueci que tinha estraçalhado todas (Com muita doçura) Escute. Digam. hoje eu represento a noiva. um arquiteto da Assíria? Será possível que tenha abusado da minha confiança e eu lhe tenha conferido o título de Supremo Arquiteto da Assíria. vocês se sentem oprimidos pelo meu jugo? Digam.a noiva. Você não é um tirano. já que você tanto insiste. sou um tirano? ARQUITETO Vai ou não vai vestir as anáguas? IMPERADOR Estou perguntando se sou um tirano. IMPERADOR Eu exterminei as formigas! Os tiranos. quais são as bases da arquitetura? IMPERADOR (furioso) Eu disse que hoje eu faço a noiva. quando você ignora até os rudimentos da arquitetura? O que dirão os vizinhos? ARQUITETO Foi você quem me nomeou. ARQUITETO Ponha a saia e as anáguas. será possível que você ignore quais são as bases da arquitetura. meus súditos. Não sou eu e imperador. . Não tenho culpa. IMPERADOR Não sei onde é que estão. ARQUITETO Então. Mas. Deixa as coisas todas jogadas. ARQUITETO Não. ARQUITETO As saias! 15 . confessem. ide apanhar minhas anáguas. . IMPERADOR Como não vão me obedecer? Formigas. já que você insiste. IMPERADOR Onde é que estão essas malditas anáguas? Formigas! Ide buscar minhas anáguas e minhas saias! ARQUITETO Elas não vão lhe obedecer. seja franco. você acha que sou um ditador? ARQUITETO O que é um ditador? IMPERADOR Evidentemente nau sou um militar. escravas.

IMPERADOR (com ênfase) Ó jovem afortunado.IMPERADOR Mas vamos brincar de padre hoje? ARQUITETO Está bem. Não consegue. uma alegria tão grande me invade que das minhas mãos jorram jatos d’água para as suas mãos.” (O Imperador começa a levantar a perna das calças para mostrar os joelhos.) ARQUITETO Eu construí uma canoa. tão doces. já vi que você não quer.) IMPERADOR Merda! As saias! (Silêncio. . se transforma em mulher. tão redondo” IMPERADOR Acaricie-os. . você me ama? Iremos juntos. com voz de mulher) “Oh. a união perfeita! (Muito triste) Mamãe. . .” ARQUITETO “Você é tão bonita que quando penso em você sinto uma flor brotar entre minhas pernas e sua corola transparente cobrir minhas ancas. você sabe muito bem disso! IMPERADOR Você é filho de uma sereia e de um centauro. IMPERADOR Você vai partir? Vai me deixar sozinho? ARQUITETO Vou remar até chegar a uma outra ilha. . meu amor. . IMPERADOR (sem enfiar a saia. (Dá 16 . Homero se fez o pregoeiro das suas virtudes! ARQUITETO O que é que você está dizendo? IMPERADOR E sua mãe? ARQUITETO Nunca tive mãe. permite que toque nos seus joelhos?” IMPERADOR (mulher) “Nunca fui tão feliz assim.” ARQU ITETO “Você e os seus joelhos tão brancos. mamãe.

Estou aqui para protegê-lo. o Arquiteto quer me abandonar. me abandonaram nesta ilha. ARQU ITETO Você prometeu. ARQUITETO (que colocou um véu na cabeça e representa a mãe) “Meu filhinho.E daí? Traga minha caixa de charutos.) Mamãe. ARQUITETO (mãe) Está bem. ARQUITETO (mãe) “Não é nada disso. . Conte tudo para mamãe. meu filhinho. todos me esqueceram. IMPERADOR Mamãezinha querida. mas você. IMPERADOR Mãezinha.) Você fede! Você fede! O que foi que você comeu? ARQUITETO A mesma coisa que você.” IMPERADOR Mamãe. . todo mundo me detesta. filhinho. fique aqui comigo para sempre. Você não deve se sentir sozinho. envolvendo-o com os braços) “Não. . estou sozinho aqui. mamãe? ARQUITETO Tenho. (O Arquiteto se aproxima para beijá-lo. vou ficar aqui com você dia e noite. Você tem mau hálito. IMPERADOR Mamãe. . O Imperador o empurra com violência. eu prometi. 17 . a sua mãezinha. não vá embora. estou aqui. IMPERADOR Eu prometi. Filhinho.alguns passos para procurá-la debaixo do trono. ARQUITETO (muito maternal. construir uma canoa para ir embora e eu vou ficar aqui sozinho. onde é que você está? Sou eu. ele vai buscar ajuda e vem salvá-lo. vai ver que é para o seu bem. protege-o.” IMPERADOR Tem certeza. que é que você tem? Você não está sozinho. IMPERADOR Então marque hora no dentista. Vá obturar os dentes. beije--me.

esses charutos! ARQUITETO (finge acender o charuto com um isqueiro) Aqui está o fogo. 18 . ensine-me aquilo”. IMPERADOR Como? Com um isqueiro? Você.. apanha. ARQUITETO Juro. corta a ponta) Ah. cheira. (Sai e volta com uma pedra. IMPERADOR Por quem? ARQUITETO Por quem você quiser. senhor.) IMPERADOR Quando falo meus charutos. (O Arquiteto sai por um instante e volta com a mesma pedra. que perfume digno dos deuses! Ah. ARQUITETO Mas não é uma monarquia absoluta? IMPERADOR Silêncio! Aqui quem fala sou eu e só eu. IMPERADOR Pela Constituição da ilha. falo de charutos cubanos. IMPERADOR(toca na pedra. IMPERADOR (muito triste.. ARQUITETO Quando é que você vai me ensinar isso? IMPERADOR Mas de que é que você está falando? Você passa todo o santo dia a cacarejar “Ensine-me isso. um mordomo que estudou na Universidade de .) E quando construiu? (Sem deixá-lo responder) Por que é que construiu sem me dizer nada? Jura que não vai embora sem me dizer nada.) ARQUITETO Aqui estão. Que vergonha! Onde é que você botou a canoa? ARQUITETO Na praia.ARQUITETO (com uma reverência) Que a vontade de Vossa Majestade seja feita. . senhor. por quem é de mais sagrado. finge escolher um bom charuto.

. como é que é? IMPERADOR Vou lhe contar isso. IMPERADOR Você não me respeita mais? ARQUITETO Você é o mui ilustre e mui sábio imperador da mui poderosa Assíria. (fala precipitadamente). IMPERADOR Cale a boca. relincham como potros jovens e entramos depois num quarto e começamos a passear de mãos dadas pelo teto. cheios de presentes. e as serpentes se cobrem de ouriços que nos fazem cócegas e os ouriços se cobrem de ouro. caindo no chão. quando a gente é feliz. e escaravelhos de ouro. ARQUITETO Masturbe-me. e passeamos com ela montados nas zebras e nas panteras em volta de um lago e ela nos puxa por uma corda e quando olhamos para ela chovem penas de pombos. . e as cabeças se cobrem de serpentes que nos acariciam. ARQUITETO Você responde sempre a mesma coisa. que impaciência! Ah! A juventude! ARQUITETO Sabe como é que eu imagino a felicidade? Acho que. que. . mais tarde. (Faz grandes reverências) IMPERADOR O que foi que você sonhou hoje? 19 . sou uma vaca. .ARQUITETO Você prometeu que hoje ia me ensinar como é que a gente faz para ser feliz. IMPERADOR Agora não. prometo.) Está vendo. você é louco. IMPERADOR Está duvidando da minha palavra? ARQUITETO Quando a gente é feliz. Que impaciência. a gente está junto de alguém que tem a pele muito fina e depois a beijamos nos lábios e tudo se encobre de uma névoa rósea e o corpo da pessoa se transforma numa multidão de espelhinhos e quando olhamos para ela somos refletidos milhões de vezes. IMPERADOR Chega! ARQUITETO Mu! Mu ! (Põe-se de quatro.

ARQUITETO A Assíria. não vos deixeis seduzir pela demagogia de vossos superiores. a população civil de vossa nação. Rendei-vos como soldados e tereis direito às honras de guerra. IMPERADOR Ah. Soldados inimigos. Cada um tem um capacete e uma bandeira. não vos deixeis enganar pela propaganda mentirosa de vossos oficiais. Chora. (Voz de locutor) Soldados inimigos. . O Arquiteto sai camuflado do seu setor. Por um mundo melhor! IMPERADOR (a mesma coisa) Aqui fala a Rádio Oficial dos futuros vencedores. E o general chefe que vos fala. O Imperador também sai chorando. a Rádio dos vencedores. Agacham-se. se examinam. vendo-se apenas a sua bandeira) Aqui. Arrastam-se pelo chão e se encontram cara a cara camuflados. Eles dão as costas um para o outro. Ontem nossos foguetes massacraram toda a população civil da vossa nação. eles jogam longe as metralhadoras e se olham com pavor. traidor! (Mãos ao alto.) ARQUITETO (camuflado. todos dois vestidos de soldados e “armados “. na sua luta contra a selvageria do mundo oriental. IMPERADOR Grandissíssimo asno! E o contrário! ARQUITETO Estou falando do perigo amarelo. . apontam as armas e gritam) ARQUITETO e IMPERADOR Mãos ao alto. tac. Apanham as “metralhadoras Atiram: tac. tac. (Disco arranhado. É o marechal-chefe quem vos fala. (Eles se preparam. que é o maior império do mundo ocidental. a população civil de vossa nação. Choram olhando as fotografias dos seus civis mortos. Enfim:) ARQUITETO Você é um soldado inimigo? IMPERADOR Não me mate! ARQUITETO Você também não me mate! 20 . agora virou reacionário? ARQUITETO Não é assim? IMPERADOR Façamos a guerra. De repente se viram. Ontem liquidamos com bombas de hidrogênio a metade da população civil do vosso país.

(Chora copiosamente. Bonitos soldados. Tenho nojo. com majestade. Fico bem agachado na minha trincheira. não chore. Toda a Assíria assistia ao meu despertar graças à televisão. . os do exército inimigo! ARQUITETO E vocês? IMPERADOR Eu. Um dia vou lhe ensinar a dançar. (Muito inquieto) Qual é a sua religião? ARQUITETO A que você me ensinou.) IMPERADOR(joga fora. Nós queremos apenas que tudo isso acabe logo. IMPERADOR Eu levantei as mãos para o alto por sua causa. Mas o que você está olhando nessas fotografias? ARQUITETO (quase chorando) Toda a minha família que vocês mataram com as suas bombas.IMPERADOR Mas é assim que vocês lutam por um mundo melhor? ARQUITETO Para falar a verdade tenho medo da guerra. Começava então a audiência militar que concedia do alto do meu trono suspenso. IMPERADOR (condescendente) Vamos. . o seu equipamento de soldado) Ah. Primeiro a audiência civil que concedia no meu leito. Todas elas dançavam só para mim. é? (Eles choram como duas fontes. . olhe os meus que vocês também mataram. . Depois vinham as audiências. mas isso não é uma tática de guerra. ARQUITETO Também? Realmente não temos sorte. que vida era a minha! Todas as manhãs meu pai vinha me acordar com um cortejo de bailarinas. por fim a audiência eclesiástica. Ah! A dança. IMPERADOR Então você acredita em Deus? 21 .) IMPERADOR Permite que eu chore com você? ARQUITETO Está bem. não sou um guerreiro. enquanto as minhas escravas hermafroditas me penteavam e derramavam sobre o meu corpo todos os perfumes da Arábia. aqui no meu setor. meu velho. na esperança de que isso termine logo.

Durante toda a eternidade vai assar dia e noite e as mais belas diabinhas serão escolhidas para excitá-lo.. . . ARQUITETO Sonhei que. IMPERADOR Ah. eu me acuso de. O Arquiteto se põe de joelhos.. de repente caía um avião. ARQUITETO Você disse que eu ia para o céu. 22 .) Padre. . seu pestinha idiota. (O Imperador se senta no trono. aí entrei em pânico e corria para todos os lados e quis até enterrar a cabeça na areia. . . ARQUITETO Sonhei que estava sozinho numa ilha deserta. conte. É muito esquisito esse sonho! Freud. quando alguém atrás de mim me chamou e. IMPERADOR Quem foi que pediu para você contar seus sonhos? ARQUITETO Você acabou de me pedir. Não o confesso. me ajude! ARQUITETO É erótico também? IMPERADOR E você acha que podia ser de outro jeito? ARQUITETO (traz um chicote) Bata-me. IMPERADOR Que m’importam os seus sonhos. IMPERADOR Mas que farsa é essa? Sou eu outra vez que faço o papel de confessor! Fora daqui.ARQUITETO Você me batiza? IMPERADOR Como? Você não é batizado? Está perdido.. IMPERADOR Pare. Está bem. meu filho! Como conhece mal a vida! ARQUITETO Confesse-me. mas elas lhe enfiarão ferros em brasa no cu. Vai morrer esmagado pelo peso dos seus crimes e queimar por toda a eternidade por culpa minha.

sobre as suas pernas.IMPERADOR (condescendente) Que papel você quer que eu represente? ARQUITETO Tanto faz. O Arquiteto se joga sobre o Imperador. . Se me bater com força. uma vez chega.. bata-me. IMPERADOR O que é isso? Não adianta dar um ataque histérico.. está feito. Falou. Cai por terra como louco. . (O Imperador acompanha a cena com majestade. arranca-lhe o chicote e se fustiga duas vezes com muita violência.) IMPERADOR 23 . ARQUITETO Bata-me. (Com muita solenidade ele o açoita só uma vez. IMPERADOR “Só” dez chicotadas. IMPERADOR Sua mãe? ARQUITETO Depressa. mas depressa.. muito de leve e com extrema doçura: o chicote apenas aflora a sua pele. (Está com as costas nuas e espera pelas chicotadas) IMPERADOR Por que tanta pressa? Agora é preciso servir ao mestre na hora certa.) ARQUITETO Vou embora para sempre. só dez chicotadas. lá vou eu. Mas. estou me sentindo mal. bata-me. IMPERADOR Onde devo açoitá-lo. ARQUITETO Então me bata. Depois se levanta e vai embora. não agüento mais. (Tom suplicante) Por favor. bata. Eu o açoito. IMPERADOR Está bem. quantas vezes? ARQUITETO Quantas vezes quiser. meu senhor? (Com ênfase) Sobre as róseas nádegas. Na minha idade? Por acaso você pensa que sou o jovem Hamlet pulando por cima dos túmulos dos seus antepassados podres? ARQUITETO Bata-me.. colunas elegíacas da imortal Esparta. sobre seu torso do ébano. não agüento mais.

tanto faz.) 24 . . energúmeno. (O céu se escurece enquanto o Arquiteto diz essas palavras e a noite cai. IMPERADOR Animal! Você mistura tudo. . não é? Escutando atrás das portas? Me espionando? ARQUITETO Você não está zangado. De repente. (Soluça e se assoa. o que é que você entende de moral? ARQUITETO A moral é limitada ao norte pelo mar Cáspio. como é mesmo. urrando) Arquiteto! Arquiteto! (Mais baixo) Perdoe-me.Nobel . . ARQUITETO Prêmio . eu lhe bato quanto você quiser e com a força que você quiser. sim.) Os pés. IMPERADOR Você tem a audácia de debochar da minha literatura? Pois fique sabendo que fui Prêmio .você recusou porque. (Soluça. IMPERADOR Já lhe falei das minhas catorze secretárias? ARQUITETO As catorze . ao sul. Isso me dá a oportunidade para um monólogo.) Arquiteto! Volte. está aí. Assoa o nariz num grande lenço. Muito digno o Imperador pára de soluçar.que . Confundir a Assíria com a moral! Que troglodita! Que selvagem! ARQUITETO Quer que escureça? IMPERADOR Para mim. não é? IMPERADOR Quer que eu bata? ARQUITETO Não precisa. IMPERADOR Cale a boca.) Ah. mas.) Ah. O Arquiteto entra. . .nuas que escreviam .) Mas como é que eu vou fazer para redimir a humanidade sozinho? (Mima a crucificação.Está bem.sempre . (Mostra com gestos a dificuldade de pregar as mãos. Os pés consigo pregar melhor do que um centurião. Isso é a Assíria.e . .as obras-primas . enfim só! (Caminha com ar agitado. (Chora.você lhes . . Sejamos shakespearianos. .secretárias . Escuridão total. . ARQUITETO Le-lo-mi-loooooo-looooo. Mima a crucificação.ditava. .

dos nossos papas. Esse divino fruto da civilização. VOZ DO ARQUITETO Mas você disse que eu podia fazer o que eu quisesse. . IMPERADOR (intrigado) E essas palavras. sem saber por quê. Ainda não escovei os dentes. Faça voltar a luz. Mas posso fazer a noite sem falar isso também. . . VOZ DO IMPERADOR Tudo o que você quisesse. IMPERADOR E essas palavras que você resmunga? ARQUITETO Falo assim. da imensidão do oceano. Que o dia volte. lá vou eu! VOZ DO IMPERADOR Depressa. VOZ DO ARQUITETO Está bem.) IMPERADOR Não faça mais isso. É só querer. (Inquieto) Diga-me uma coisa. como é que você faz para transformar o dia em noite? ARQUITETO Ora! É muito simples. . dos museus de Babilônia. menos fazer a noite cair. ARQUITETO Pensei que você quisesse dormir. dos tanques. da profundidade de nossas teorias. VOZ DO ARQUITETO Mi . ARQUITETO Então me ensina filosofia? IMPERADOR A filosofia? Eu? (Sublime) A filosofia? Que maravilha! Um dia vou ensinar-lhe essa maravilha humana. Já temos muita coisa para fazer. dos nossos ministros. Eu nem sei como é que é.ti – riiii – tiiii ! (A luz volta como tinha desaparecido. da Coca-Cola.VOZ DO IMPERADOR (no escuro) Mais uma das tuas brincadeiras! Já estou cheio. 25 . (Retomando-se) Grandissíssimo ignorante! Você não viu nada! Já lhe falei da televisão. IMPERADOR Não se meta nisso. Deixe a natureza cuidar do sol e da lua.

ARQUITETO Conte. IMPERADOR (inquieto) Minhas últimas palavras? Eu esqueci. Ele escuta. enquanto se senta no trono) Pássaro! É. (Ele espera. (O Arquiteto se curva para auscultar o coração do Imperador. uma coisa que nunca confessei a ninguém. (Espera. O Imperador apanha uma pedra e a joga na direção do galho. IMPERADOR (arquejante) Não. IMPERADOR Eu desejo confiar-lhe uma coisa. diga depressa. dessa vez é grave. numa pose de grande senhor.” Mas não se aflija com isso.) Pois bem. você vai morrer. existe alguma outra façanha comparada a essa? ARQUITETO Ninguém é mais poderoso sobre a nossa amada terra! IMPERADOR Ai! Meu coração! A padiola! (O Imperador se contorce de dor.) Disfarçado em (muito esnobe). Imperador. Descanse e a dor vai passar como das outras vezes. O Arquiteto volta com uma padiola) Escute o meu coração. IMPERADOR Obrigado. vá apanhar para mim uma perna de cabrito. (Uma pausa.. Sinto uma dor. ARQUITETO O seu pulso está quase normal. Quero morrer disfarçado. contra a minha ciência e a minha soberana eloqüência. Você ignora que a Assíria já lançou vários satélites habitados a Netuno? Diga. Inquieto) Como? Você ousa se revoltar contra o meu poder ilimitado. quais são? ARQUITETO “Morro e me sinto feliz: abandono uma vida transitória para entrar na imortalidade.. ARQUITETO Que se jogarão aos pés do mais poderoso dos imperadores do Ocidente. conte! IMPERADOR (majestosamente. o meu fraco coração. uma pontada. valete de paus. ARQUITETO Durma um pouco. Reinarei apenas sobre súditos obedientes. . você que está aí nesse galho. Sei que procura me consolar. Sinto que vou desmaiar. Tenho certeza de que é um enfarte do miocárdio.) IMPERADOR Do Ocidente? Do Ocidente e do Oriente. Não está ouvindo? Sou o imperador da Assíria. meu filho. Diga. não é nada. vai ver que tudo passa.) ARQUITETO Sossegue. 26 . Infelizmente. (Prosterna-se aos pés do Imperador. . minha palavra e meu orgulho? Ordenei que fosse buscar uma perna de cabrito.

Toma-lhe a mão e a beija. ARQUITETO Sua vontade será feita. ARQUITETO Acalme-se. disse que ia acordar com os culhões queimados. ARQUITETO Outro dia você ficou furioso porque eu ia incinerá-lo. com voz arquejante) “Morro contente: abandono essa vida transitória para (Sua cabeça cai. tirando o disfarce. então ia me enterrar. e me vista com uma fantasia de valete. de Netuno. (Eles se beijam. Ele disfarça o Imperador. com dez palmos de terra em cima de mim? ARQUITETO Na última vez. Aí está a roupa de valete de paus. O Arquiteto chora lágrimas ardentes. débil mental. como as de Byron.) ARQUITETO (soluçando) Está morto! Está morto! (Coloca o cadáver disfarçado num caixão. hermafrodita. De repente o caixão se abre e o Imperador sai. estou morrendo! Faça o que eu pedi. Você vai ficar bom.) Ai! mãezinha. Faça o que peço. estou morrendo. seu bosta. (Sublime) E jogar minhas cinzas no mar. de Shakespeare. dançando rumba e gritando “Viva a República!” IMPERADOR (muito sério) 27 . Começa a abrir uma fossa. quem é que ia me tirar de lá. O Imperador. ARQUITETO Mas você não mandou? IMPERADOR Enterrar-me? Idiota. seu lixo.ARQUITETO Valete de quê? IMPERADOR Valete de paus. Fecha o caixão.) IMPERADOR Seu porco. É muito simples: você coloca um pau entre as minhas nádegas para que eu possa ficar de pé. Selvagem. IMPERADOR Já disse para você me incinerar. IMPERADOR Ai! Estou morrendo. IMPERADOR Beije-me. E quando eu acordasse no túmulo. de Fênix. (O Arquiteto traz um bastão e a fantasia: um saco. cretino. de Plutão. Abre um buraco no saco para que a figura apareça. sempre em lágrimas.

. vou ser muito feliz. Nomeio-o imperador da Assíria.. não o odeio. IMPERADOR Que ilha? Não vejo nenhuma ilha. cruzo-a com um veado para que ela tenha galhos. lá embaixo. Que fossa a minha! ARQUITETO Vou m’embora no meu barco. (O Arquiteto bate com as mãos. quer? ARQUITETO Você sonha sempre a mesma coisa. ARQUITETO Não. sempre o jardim das delícias. ARQUITETO Aquela. (Sincero) Não vá embora. IMPERADOR Mas eu não chego para você? ARQUITETO Vou passear pelas cidades e cobrir as ruas de garrafas para que os adolescentes se embriaguem. e colocar por toda parte balanços para que as avós mostrem os fundilhos. Mas tome cuidado com a minha morte. vou comprar uma zebra. Não quero nada errado. Dessa vez foi um rosário de erros. confesse que me odeia.Curvo-me diante dos seus caprichos. sempre Bosch. Ouve-se um estrondo enorme) Está vendo agora? IMPERADOR Você move montanhas? Você move as montanhas também. . IMPERADOR Dou-lhe de presente os meus sonhos. IMPERADOR Não vejo nada. ARQUITETO A montanha está atrapalhando. já estou cansado de ver mulheres com rosas plantadas no cu. abdico. Vou afastar. pois vou conhecer o mundo e vou ver. 28 . ARQUITETO Vou embora e vou arranjar uma noiva. Faço o que você quiser. Deve ser habitada. IMPERADOR (humildemente) Para onde? ARQUITETO Para ilha em frente. IMPERADOR Arquiteto.

IMPERADOR Quer que o circuncide? Guardo seu prepúcio sobre um altar e ele fará milagres. IMPERADOR Sou um elefante sagrado.IMPERADOR Você não é um artista. tantos quanto Cristo. Viva Deus! (O Imperador o joga ao chão. IMPERADOR Vá ao meu guarda-roupa imperial e apanhe a roupa que quiser. vamos em peregrinação ver Brama das catorze mãos. é um grosso! Ignora o sublime. Suba nas minhas costas e vamos para o Ano Santo de Brama. só gosta da escória. ARQUITETO Ensine-me filosofia? IMPERADOR Ah! A filosofia! A filosofia! (De repente se põe de quatro) Sou o elefante sagrado.) E agora me faça andar e reze. IMPERADOR 29 . Preciso ler a Suma Teológica ou então a Bíblia em quadrinhos. ARQUITETO O que é que vale mais? Você nunca me disse. (O Arquiteto sobe nele. ARQUITETO Antes de ir embora. então não sei se é um sacrilégio. ARQUITETO Quando eu for embora vou ter todas as roupas que quiser: vou me vestir com fósforos. de uma maneira vaga e indefinida. queria lhe fazer um pedido. sou cor-de-rosa! ARQUITETO Para frente elefante sagrado cor-de-rosa. (Ele põe a corrente. vou ter ceroulas de lata e gravatas elétricas. vamos ser abençoados catorze vezes por segundo.) Enrole a corrente em volta da minha tromba. ARQUITETO Para frente elefante branco.) IMPERADOR Que palavras sacrílegas você pronunciou? ARQUITETO Viva Deus! IMPERADOR Viva Deus! Ah. túnicas em xícaras de café e camisas cinza-pérola rodeadas de uma cadeia infinita de caminhões carregados de casas.

hum. . (A seu secretário) Um guarda chuva! (O Arquiteto abre um guardachuva e ambos se refugiam debaixo. Meu reino por um Fênix! (Eles mimam o barulho da queda de uma bomba.) Sim. (Colérico) Merda.) IMPERADOR (mudando de tom. (Uma pausa. . muito colérico) Eu o proíbo de ir embora.) Que simpático! Sempre brincando! (Fingindo enrubescer) Uma declaração.) ARQUITETO (macaco) É preciso recomeçar tudo de novo. como é que vai? (Um tempo.) Como? Uma declaração de guerra ao meu país? (Com cólera) Do alto desses arranha-céus. IMPERADOR Por que tanta pressa? juventude desmiolada. hum. o Imperador. 30 . IMPERADOR Feliz. . Morrem. libertino! (Pausa. sua mãe. hum. não leve a coisa para esse lado. Caem nos abrolhos. estão me chamando ao telefone vermelho.) Pode falar! Pode falar! O caro Presidente. Você não é feliz comigo? ARQUITETO O que quer dizer feliz? Você nunca me ensinou. não sobrou nem um homem vivo depois da guerra atômica. . Sou seu pai. imitando dois macacos. Fazer uma declaração a mim! Velho libidinoso.Feliz significa. não sabia que o senhor era homossexual. . sou tudo para você. (Pausa.) ARQUITETO (macaco) Hum. vítimas do bombardeio. desnorteada. O quê? Uma bomba de hidrogênio vai estourar nas nossas cabeças dentro de trinta segundos? Mamãe. Presidente. aqui fala o Presidente. eu não sei nada. (Cerimoniosamente mima a cena do telefone. (Terno) Você fez hoje? ARQUITETO Fiz. sou eu quem manda aqui.. IMPERADOR (macaco) Hum! Hum! Papai Darwin! (Os dois macacos se abraçam apaixonadamente. Ao telefone) Criminoso de guerra! Assassino das sogras! (Ao Arquiteto) E nós que tínhamos preparado os aviões para jogar as bombas de surpresa amanhã às cinco horas. . ARQUITETO Vou embora. dez mil séculos vos contemplam! Eu vos estriparei como uma mosca estripa um elefante selvagem. ordeno que destrua o barco. duro ou mole? ARQUITETO Hum. Eles se unham no rosto. (Pausa. proíbo de fazer um último pedido.Diga tudo.) Um momento. meu povo invadirá o vosso e. De repente surgem o Arquiteto. . . nós não estamos mais no internato. Contemplam a desolação em que tudo ficou depois das bombas. . . (Refugiam-se num lugar propício para ficarem a sós. IMPERADOR E como é que você fez. mamãe.) Mas não.

IMPERADOR Você quer dizer o mundo civilizado. sem mentir: você lê meus pensamentos? 31 . Depois corriam. há transmissão de pensamento. ARQUITETO Eu .) Obrigado! IMPERADOR (depois de ter bebido) Agora você fala com os pássaros na minha língua? ARQUITETO Isso é o de menos. (Mais calmo) Estou sempre com prisão de ventre. Pertencemos a dois mundos diferentes. ARQUITETO Era meio mole e cheirava. Um copo d’água. .IMPERADOR (inquieto) Como é que não sabe? Por que é que não me chamou? Gostei tanto de ver você fazer. Estende a mão e apanha o copo que o pássaro trouxe. IMPERADOR (apavorado) Diga-me uma coisa. IMPERADOR (muito emocionado. ARQUITETO Não. sua felicidade maior. Que maravilha! Durante milhares de séculos o homem acumulou conhecimentos e enriqueceu sua inteligência até atingir essa maravilhosa perfeição que é a vida moderna. . . dá uma volta sobre si mesmo e diz em outro tom. quase chorando) Você está debochando de mim. (Sinceramente) Gosto de você. O homem descobriu tudo o que é necessário para o seu conforto e hoje é o ser mais feliz e mais sereno de toda a criação. Tudo foi criado para tornar a existência do homem mais simples. se tivesse cursado uma universidade. Por toda parte a felicidade. qualquer uma. traga-me um copo d’água. (Pausa. como é o mundo. a alegria. perfumando-o com essência de rosas. a compreensão. . ARQUITETO (falando com um pássaro que o espectador não vê) Pássaro. .) Seria bem diferente se você fosse formado. sua paz mais duradoura. O importante é o que penso: entre nós. muito enfático) Você não pode imaginar todas as manhãs a televisão da Assíria transmitia o meu despertar. O Arquiteto acompanha seu vôo. para me ver. Nós não nos compreendemos. o riso. IMPERADOR (se assoa. meu povo contemplava esse espetáculo com tal emoção que as mulheres choravam e os homens murmuravam meu nome. (Ligeira espera. . . trezentas admiradoras nuas e surdas que cuidavam do meu delicado corpo. a tranqüilidade. IMPERADOR Deixe para lã o cheiro . ARQUITETO Conte-me.

ARQUITETO Quero escrever. . mergulhado nas minhas meditações. James Joyce. esquecer? (Pausa. d’Annunzio. IMPERADOR Mas quando? Como? Quando e que lhe falei disso? ARQUITETO Já esqueceu? IMPERADOR Eu. Traga as correntes. Retiro-me do mundo. IMPERADOR Não. Sobretudo. Nenhum escritor conseguiu igualar-se a mim.) ARQUITETO 32 . como é que você a matou? IMPERADOR Quem? ARQUITETO Bem. o próprio Shakespeare e seu sobrinho Bernstein. não fale mais comigo. De qualquer maneira tenho de me acostumar a ficar sozinho para quando você for embora com o barco. (O Arquiteto traz as correntes. essas são minhas últimas palavras: estou cansado de ver. ARQUITETO Por que vai se retirar do mundo? IMPERADOR (com solenidade religiosa) Ouça. Vou me consagrar somente à meditação. Ensine-me a ser escritor.) Escute. com monólogos e apartes. quero me afastar de tudo o que ainda me prenda ao mundo: quero me desligar de você. ARQUITETO Diga-me uma coisa. O Imperador passa as correntes em volta do tornozelo e se prende numa árvore. é a verdade. Ficarei só. ARQUITETO Isso e uma nova brincadeira. ARQUITETO Eu não vou mais IMPERADOR Chega de falação. IMPERADOR (vaidoso) Tenho sonetos famosos! E peças de teatro. Você deve ter sido um grande autor. . Os melhores me copiaram! Beethoven. Acorrente-me.

Escute: sonhei que era uma Sabina e vivia numa cidade muito antiga. saia. sou sua humilde escrava. saia um minuto! Que a minha boca rele nos seus lábios divinos. suas admiradoras acabaram de trazer um leitão. que minhas mãos acariciem seu corpo de ébano. De qualquer modo ele é tão ciumento que nem ouso ficar por aqui. O Imperador fecha por dentro.) Escute. o Imperador é ciumento como um tigre. muito obrigado (volta com um pernil de leitão. (O Imperador entra na cabana. (O Arquiteto vai e volta coquetemente. 33 . Nunca mais fale comigo. você esta rezando? Abra um pouquinho só Está dormindo? Pare de resmungar. com Casanova e Don Juan como chefes e me raptaram.) É a comida que você mais gosta. ARQUITETO Como você é linda! Você se parece tanto com a mãe do Imperador. (Olha pela clarabóia. O Arquiteto escuta atrás da porta) Como. Ofereço-lhe todas as bebidas. ARQUITETO Não me beije com tanta paixão.Onde é que você vai? IMPERA DOR Entro na minha cabana. O Arquiteto sai de cena e volta vestido de mulher: é uma roupa sumária que se pode pôr ou tirar com facilidade.) Imperador da Assíria. como é? Não vem buscar? (Silêncio.) Olhe pela fresta. (Pausa. ARQUITETO (mulher) Imperador. Sinta o perfume.) ARQUITETO (mulher) Imperador. . as iguarias mais deliciosas e meu corpo escultural que lhe pertencem.) Que rapidez! Obrigado. terei de ir embora com o Arquiteto.) IMPERADOR (solenemente) Adeus (O Imperador desaparece no interior da cabana.) ARQUITETO Está bem. deixe-me ao menos vê-lo! Abra a clarabóia. (Silêncio.) Arquiteto. Pouco a pouco aparecem as roupas do imperador pela clarab6ia. (Entra no mato e se debruça para frente. se me abandona. Faz um gesto em direção aos abrolhos. . Um dia os guerreiros chegaram. admire a linda garota que desembarcou nesta ilha. não sei como ele resiste a tanto charme. que nossos ventres se juntem numa eterna união. Isso lhe interessa? (Olha para todos os lados. ARQUITETO (mulher) Ó Imperador. ARQUITETO Mas. você é cruel como as hienas do deserto. já entendi que é um jogo. Será possível que agora você deu para rezar? Você vai morrer? Vou lhe contar meu sonho.) Serpente! Traga-me um leitão.) Mas. que é que eu posso fazer para que o homem dos meus sonhos saia para me ver? ARQUITETO Você que é mulher deve saber melhor que eu. (Silêncio. Por que é que esta se despindo? Vai se resfriar. (Passeia com ele nos braços.

) Ah! Acorrentado.) Conte.) Aí está. sem sucesso.M. . Olha para todos os lados e grita tristemente) Arquiteto! Arquiteto Volte! (Imitando a voz do Arquiteto) Ascensorista. nem jornais. (Finge escutar o que diz o Imperador. ascensorista. vítima do seu encanto. Arquiteto ! Arqui . .) IMPERADOR (em tom meditativo) Construirei para mim uma gaiola de madeira e me fecharei dentro.) Não falo mais com você. Pula. e outro dia vai chegar. sei que faz um ano que você me ensina a falar e não consigo pronunciar o s certo. Não quero mais velo. Como você é bela e feiticeira Mesmo que o Imperador saia e me mate num acesso de ciúmes. Deixe-me abraçar o seu ventre de fogo. E perdoarei minha cidade. A porta se abre. (Mede. como é mesmo que ela se chama. Pequena toalete. Meditação. A televisão transmitia o seu despertar. . procura ver ao longe. ou talvez ele mereça apenas quinze minutos. (Recobra se. (Pausa.? (Choraminga. (Inquieto. como era o seu despertar na Assíria. Acorrentado Que felicidade. somente uma. outra para recordar o Arquiteto. (Mede outra vez. ao som da música tocada por uma legião de flautistas.ARQUITETO (mulher) Ó lindo jovem. Que mais poderiam querer os H. tão sexy e esses cabelos louros e esse ventre tão proeminente. não estou me fazendo de rogado. se masturbar uma vez. Pensar na quadratura do círculo. Três ou quatro horas para conseguir dormir. não me deixe sozinho. Enfim. Como você é jovem e sedutor.) Digamos dois metros e meio ou talvez três e meio. ou meia hora. Nada de negligências. . Ouve-se Imperador murmurar orações. Cuidado com a loucura. Enquanto fala. Quanta economia vou fazer: nem cinema. nem coca cola. Procura subir numa árvore. mas bem. O provérbio é verdadeiro: tal imperador. eu não quero roubar. De repente o arquiteto furioso se dirige para a clarabóia. Você ficou esquizofrénico. (Cuida dos detalhes para que o espantalho reproduza exatamente sua própria silhueta.) O que é que eu era? Minha profissão? Não interessa. ascensorista! (Humildemente. isto é 3. continuando seu monólogo. meus amigos e vizinhos por não terem percebido meu valor e ignorado quem sou. Enfim. Imperador. . ninguém será testemunha de minhas fraquezas.dá doze metros quadrados. se apressavam em lavar e esfregar cada célula do seu corpo divino com perfumes do Afeganistão. cama . ninguém vai debochar de mim. . O Imperador aparece nu ou vestido com uma minúscula tanga. Não quero nem mesmo me despedir: dentro de alguns minutos vou remar para a ilha de frente. não é? E cem mil escravas. eu me rendo. que isso dure três quartos de hora.L. fabrica um espantalho que coloca sobre o trono. Stop! Depois da sesta. multiplicado por π . E não adianta depois vir me dizer que é meu amigo. tal escravo. se o raio é de três metros. Levantar as nove da manhã.) Não. Não falo mais com você. (Pausa.1416. abluções. falando sozinho.) Preciso me organizar. . acorrentadas e marcadas com o seu selo. (Pausa. olha de um lado para o outro. com pernas arqueadas tão estranhas. . (Faz uma profunda reverência.) Digamos três metros. tira a corrente. digamos quatro. murmúrios apaixonados. ao quadrado nove.) De tarde. ARQUITETO Ah Chega Não posso mais resistir. Perdoarei meu pai e minha mãe pelo dia em que seus ventres se uniram para me engendrar. e perdoarei. Longo silêncio. Não pode fazer isso. grita) Arquiteto! Arquiteto! Venha. . mas minha vida não tem nenhuma graça. Vivan las cadenas! Meu universo: uma circunferência que tem por raio o comprimento da corrente. Para isso eu penso nessa atriz. a superfície terá πR2. minha vida não tem importância. fecho os olhos e quando o abraço finjo estar nos braços do Imperador. (Barulho de beijos. ao espantalho) Não brigue comigo. uma hora para me lembrar da minha família. (Envergonhado) Pois bem 34 . Começa a vestir o espantalho com suas roupas de imperador. digamos. Jantar. depois pequena sesta. Portanto. (Sempre falando. R igual a 3. A manhã passará sem que eu sinta. só! Ninguém mais vai me contradizer. Estou sozinho. as dez horas.) Não. Vou buscar meu barco e vou embora para sempre. Por fim. se assoa. Abluções. A uma hora. De lá perdoarei a humanidade todo o ódio que ela demonstra por mim. almoço. . estou com o nome na ponta da língua. Talvez escrever sonetos. O murmúrio vai crescendo. (Sai furioso. e perdoarei.

. não. Finalmente ele se levantou rindo e disse: “Aí está a sua mulher”.) Pensava nela noite e dia.) Quando eu era criança. era diferente. (Longo momento de silêncio. Morriam de ciúmes de mim! (Tenta subir numa árvore. Arquiteto! Arqui. Como minha mulher ficou contente quando me aumentaram Se tivesse continuado poderia subir pelo elevador principal e conseguiria a chave do escritório dos diretores. . Quem diria que eu iria encontrá-lo. no fim eu não via mais meus amigos. Sem dúvida alguma ela me amava e quando dizia “faz menos frio que o ano passado”. ela imediatamente me aplicava cataplasmas. sem patrão. Onde é que eu estava? (Pausa. mas sabia que atrás dessas palavras nos falávamos do nosso amor. (Choraminga. ônibus e. . Fomos muito felizes. . Volta sem ele. Suplicava: “Não. . . Ele disse “Venha ver corro violo essa mulher. Estou com prisão de ventre. . Chora. em casa. (Domina-se. . .) Arquiteto! Arquiteto! Volte. . beijando-lhe o ombro via. Ele chora.enfim. (Pausa. (Tempo. Então aproximei-me dela que chorava.) Você se entedia. E teria escrito cem livros tão bons quanto Os Caracteres de La Bruyère e acertava as contas com todos os meus inimigos. . muito bela. usei meu próprio sangue.se apenas o branco de seus olhos. eu sabia que ela queria dizer “nós partiremos juntos e comeremos juntos ouriços enquanto cobrirei suas mãos e seu púbis de aparelhos fotográficos”.) Impossível. nós conversamos ao menos meia hora no parque . Picava o dedo muitas vezes. Ela era tão bonita.) Sabe? Faltou pouco para eu ter uma amante. ela me odiava mortalmente. O chato é que depois o sangue ficou preto .) Quando era pequeno. Não. . acariciei-lhe as costas e de repente ela começou a gritar. para o vermelho. ela era muito loura. sozinho.. Ninguém sairia ileso. mas ela não acreditou. se tivesse tido tempo.) Imperador. essa me amava para valer. (Pausa. (Tempo. eu tive. Continuando. que quer? Sou seu subordinado! Ordene. pode ter certeza de que. eles tinham inveja.) Está bem.) Claro. Não me deixe sozinho. ela me perguntando onde ficava tal e tal rua. Como teria sido chique: eu com uma amante. mas é claro. Quando se trabalha oito horas por dia e ainda por cima se toma trem. sem superiores. (Chora. que tinham inveja de mim. . Depois parou de debater-se e respirou regularmente. (Pausa. sobre o tempo.) Ela não gostava mais de mim como quando eu era pequeno. . teria sido um grande poeta. não tinha tempo para mais nada e tinha me tornado indispensável. Sintome muito só. quando eu apanhava e menor resfriado. consertando os relógios. eles estavam nus sobre o leito.. Imperador da Assíria: era isso que eu pensava ser: imperador como você. como você. Começa a chorar. (Tempo.) A mesma cena repetiu-se várias vezes. Passei a noite desenhando para ela um coração trespassado por uma flecha. Encontramo-nos num parque e conversamos durante muito. eu me mato. (Senta-se no chão.) Poderia ter sido relojoeiro. ela era muito boa para mim. Volta com uma saia feita de feixes e a enfia cerimoniosamente enquanto continua falando. sem sucesso.. era lindo: o coração. Era um símbolo. Consegui desenhar o coração. sem ninguém para debochar de mim. (Sai e volta com um pinico.. Fiz uma flecha e escrevi meu nome. Teria sido livre e teria ganho muito dinheiro. Ela. . (Pausa) Nós passávamos as vezes as tardes inteiras discutindo. . Um grande coração como aqueles das igrejas. era diferente (Anima-se. Levanta-se e leva embora o pinico. Faz força.) Minha mãe?. Passa um longo tempo. as notas de sangue que pingavam. E. as flechas.) Quem lhe disse? Quando entrei. Pula para ver ao longe. Enquanto desenhava. Levanta as saias e senta. O Imperador continua sentado no pinico. Quando tudo terminou. tão loura. E marcamos encontro para o dia seguinte.) Meus chefes também gostavam muito de mim e certo dia disseram que iam me nomear. Que ia escrever e ser um grande poeta. (Tempo. Grita.Talvez ele fosse um pouco redondo. Eu devia chamá-lo de Arqui. e quando eu respondia “e no ano passado nessa época 35 .. ela recomeçou a chorar e ele a rir às gargalhadas. (Pausa. muito bela.) Ela resistia com todas as forças e me pareceu que chorava. Como doía.) Arquiteto! (Acalma-se. era o que afirmavam os meus chefes. . . Trabalhava muito e não sobrava tempo para eles. mas. Sim. . muito tempo. muito loura. . (Pausa. Que sonhos eu tinha! Uma vez tive uma noiva e comecei a voar. .) Mas nós nos amávamos. mas eu sabia que um dia seria imperador.ultimamente tinha um bom salário. se não tivesse que trabalhar o dia inteiro.banalidades. Voltemos à vaca fria. . Não me deixe sozinho. mas terei que alegrá-lo. Olha ao longe e grita desesperado. (Risinho um pouco tolo. pensava que estava voando pelos ares com ela e nos perdíamos no céu e seu corpo era apenas mãos e lábios . . É mais chique. Sai. Sonhava que ia ser o primeiro em tudo.. quando olhava para o corpo dela me nasciam escamas e eu sentia que era um enorme peixe que escorregava entre as suas pernas.) Amigos.. minha mulher.

você dorme sobre mim como um passarinho numa garrafa. Não me tranco mais na cabana. . . Tinha a prova irrefutável de sua existência Adeus ao grande relojoeiro. meu nome apareceria em todos os manuais de teologia. não era isso. nós ainda construiríamos Babilônia e seus jardins suspensos.) IMPERADOR Devo ter dançado como um deus. .) Nada mal. Um ponto cada vez que o tocamos e com meu estilo. Os clientes do bar estavam abobados. Senti uma inspiração. Pensar que ele falava com os passarinhos. o grande organizador: Deus existiria e ia demonstrá-lo da maneira mais peremptória. vivia pensando nela! Perguntei a mim mesmo se falaria com minha mulher. 36 . o bônus. Por fim obtive.) E. como ignorava seu nome. Onde é que eu estava? 973 pontos! Por assim dizer. . 400. Quando obtivesse 1000. (Observa. Deus e suas criaturas. ela escorrega mal. .” e pensava ainda muitas outras coisas e passei toda a noite desenhando para ela. Dezesseis pontos. Põe pêssegos nos bojos do sutiã. para frente! (Olha para ver se acontece alguma coisa. ao menos cinco horas cada tarde. grita) Arquiteto! Volte. faço menos que isso. Com inquietação) Nada. erro terrível. Nós (Vê o efeito que faz a calcinha.) Arquiteto! Arquiteto! Volte! Eu falo com você. fim dos concílios. de renda preta.) Prefiro as pretas. Tudo dava certo. como estava emocionado! Trabalhei na escrivaninha. ia descobrir tudo sozinho. (Sai e volta com um espartilho. manejo os flippers com uma tal facilidade. Jogo a primeira partida: 670 pontos e precisava de mil. não me deixe só. . decidi chamá-la de Lis. Coloca-o. (Choraminga. A máquina respondia a tudo: 300. sabe que apostei a existência de Deus no bilhar elétrico? Se em três partidas eu ganhasse uma. Veste a calcinha. Imperador! Compreende. nem mesmo nos meus piores dias. Primeira bola. nem um sopro. Que acha? Está se entediando comigo? (Recita. 700 pontos. Silêncio. . Começo a empurrar a bola que vai e vem a minha vontade. das elocubrações dos bispos e dos doutores. Que homem! E move as montanhas. digamos divina. (Executa uma dança grotesca. Lanço a bola artisticamente e ela cai justamente no triângulo dos bônus. vão chamá-lo. hein? O que acha de meu espartilho? Ah.) lanço a segunda. . Deus estava nas minhas mãos e só faltavam 27 pontos para ganhar. (Sai e volta trazendo um par de meias pretas. (Sai.. .) Começo a segunda partida. Não. (Colérico) Vocês ouviram? (Mudando de tom) Como é que ele dizia? Clu-cli-cli-clu-cli. Deus existia. sinto seu coração bater e o ritmo de sua respiração sobre os poros da minha pele e do meu coração jorra um jato de água cristalina para banhar seus pés brancos. um recorde. 500.) Pássaros.) Que cheiro bom tem isso! (Cheira. Eu fazia a máquina vibrar como um negro dançando com uma branca. e era uma máquina que eu conhecia. . bem? Imperador. o que tinha feito com uma só bola. Acendi o jogo num fechar de olhos. . o retrovalor. digam-lhe que espero por ele. . . (Veste o espartilho e o ajusta ao corpo. obedeçam-me.não se podia passear no parque”. Que dia. Durante uma semana fui ao parque. vou ter um filho.) Não fico mal.. Montanha. 973 pontos. Ajusta mais o espartilho.) Se minha mãe me visse. se o Arquiteto estivesse aqui.) “Quando voltarei a ver. a fumaça querida Da casa de minha infância e em que estação Voltarei para ver o muro de minha casa Que é para mim a província e muito mais!” Não deveria ter caído aqui. Majestade? (De repente. Nunca. 600. Impacientava-me. ela deve ter se enganado.) Quer que me vista? (Sai e volta com uma calcinha de mulher. Não pode ser de outro jeito. a bola suplementar.) E além do mais. Compreende. Quando cheguei ao parque. e você?(Veste as meias com vaidade e prende no porta-liga do espartilho. Quando Sua Majestade vai receber as audiências? (Tira a saia e fica em tangas. Volta com um sutiã de rendas. (Está quase chorando.) Que cara! Ele faz o dia virar noite. os pontos. Além do mais. Deus existia. meus chefes me acharam esquisito. Na manhã seguinte fui correndo para o encontro. o Arquiteto supremo. aí estaria tudo. não compreendeu direito. ordeno que caia no mar. Montanha. era como se dissesse “você se assemelha a todas as gaivotas do mundo na hora da sesta. Falariam de mim em todos os jornais. Não tive medo da dificuldade. Mas não lhe disse nada. (Mudando de tom) Vou dançar para você. Deus estava nas minhas mãos. (Ele se examina. . 973 quer dizer que se eu tiro 16 pontos da primeira: 957 pontos. Ela deve ter sido atropelada por um carro.

Maldita cadela! Miserável! IMPERADOR (carmelita) Padre. Venha para perto de mim.) Que carmelita eu teria sido! Mas descalça não. até mesmo concorrer na Maratona. nem pensar. minha mãe me detestava. (Olha se com a roupa de freira.) E se eu fizesse milagres? As carmelitas fazem milagres. submissa: 988. 992. examinando-se. Estava louco de alegria. 999.) IMPERADOR Todos os clientes do café estavam em volta de mim e eu mexia na máquina como um diabo. as irmãs de caridade: com uma roupa como essa. foi culpa dela. Que latinista poderia ter sido! Tenho certeza de que se começar a andar com esses saltos consigo. 998.) Deve ser uma questão de hábito. E era preciso completar só 1 000 pontos . venho em seguida. Segura uma das pernas e a acaricia. (Ajusta vaidosamente as meias. Não podia mais perder: caindo ela daria automaticamente dez pontos.sozinho. E a bola ainda estava em cima. 996. de ter me deixado conduzir a más ações. com duas míseras sardinhas e um cotoco de pão? O capitalismo cristão fez muito melhor depois. . quase não se percebe que elas estão grávidas.) VOZ DO IMPERADOR Não encontro. 991.) Como é que elas conseguem andar com isso? (Anda com dificuldade. . Chocante! 999 pontos. está chegando. depois venderia minhas memórias para uma revista qualquer. (Muda de tom. é melhor não falar nisso. o que escreveu nessas linhas! É dos meus! Imperador.) Escute.” (Não se ouve o resto. 990. Arquiteto! (Grita.O que é que ele sabe da vida? (Desabotoa a roupa para vesti-la.) Escute-me bem. (Seu ventre incha anormalmente) Elas têm invenções maravilhosas. (Grita. está me ouvindo? Você está muito silencioso. IMPERADOR (confessor) Como. no entanto. culpa dela! (Sai.) “E parece miraculoso alimentar uma multidão como Cristo fez.) Que queria dizer com isso? Imperador. . Cum amicis deambulare.) Imperador. 999 e nesse instante um cafajeste esbarra no bilhar e pá! A máquina fica travada. infeliz! Como ousou cometer um tão grande sacrilégio.. Anda um pouco. estou apaixonado por você.) Arquiteto! Onde você botou o meu vestido? Deve estar remando como um condenado ou como um degenerado dos Jogos Olímpicos! Ah! a juventude! Que animal! Olha onde o guardou! Um vestido tão bonito na gaveta das pranchas de borboletas. (Grita) 999. 989. vai e vem. (Grita. (Grita) Arquiteto. 997.) Im perador. isto é. . . o porta-ligas. (Veste-se.. Onde foi que esse moleque enfiou isso? E. Como saber onde ele deixa as coisas? Um pente! Ora! Um preservativo nessa ilha? Será que o anticoncepcional chegou até aqui? Vou colocálo! E ainda por cima serve certinho em mim. eu juro.) Nesse vale de lágrimas. Diga alguma coisa. . vou dar à luz uma criança. (Anda.) Vou partir sozinha. . Deus tinha se servido do mais humilde dos mortais para provar sua existência. não é por falta de eu lhe dizer: “Ponha tudo em ordem: cada coisa no seu lugar”. IMPERADOR (confessor) 37 . a partida tinha terminado e como uma idiota ela indicava 999. Imperador? No que devo acreditar? Devo considerar válidos os dez pontos ganhos automaticamente? A terceira partida. . acredite. em pouco tempo. Coloca sapatos de salto alto. . . Está zangado comigo? Não lhe agrado como carmelita? (Joga-se aos pés do Imperador-espantalho. Parece que falo com uma parede. Você é o mais bonito. . (Aparece com um vestido no braço. . a cinta e o sutiã. Por uma palavra dos seus lábios. vou ser mãe. . o mais sedutor dos homens. .” Que homem.Era em Atenas? de salto alto e porta-liga. Ela me obedecia. Padre. (levanta-se.) É um hábito de freira. Compreende. eu me acuso de ter. (Começa a rezar. “Atenienses. está chegando. pois não poderá acreditar! Marcava cada vez mais pontos com a bola e mais e mais: 995. com seu barquinho na.) Que nojento. (Pensa. Emocionante a minha chegada em Atenas. o diabo me tentou horrivelmente. conseguimos trazer conosco a maior vitória dos tempos modernos”.

Assim: Ah! Ah! (Ele respira mal. com esse farrapo humano. mulher dissoluta? IMPERADOR (carmelita) Com esse pobre velho que mora sozinho no quinto andar. Ah! Ah! (Respira como cachorrinho. Onde é que está a padiola? (Deita-se nela. venha depressa. abandonada por todos. IMPERADOR (doutor) Você só sabe trepar! E a única coisa que vocês sabem fazer sem aprender.) Viu como é fácil? (Ele respira mal. para receber a absolvição? IMPERADOR (confessor) Sacrílega! Essa noite você irá para o meu quarto com os silícios e os chicotes. você enfiou alguns espinhos a mais na carne do Cristo.. Seus crimes são tão abomináveis que eu também tenho de pedir a Deus que a perdoe. IMPERADOR (confessor) Perversa. pecadora.) IMPERADOR (parturiente) Doutor. Ele é muito velho..) Sinto as últimas dores. Vou tirar sua roupa e passar a noite açoitando-a. mas bem. cadela maldita. (Mudando de tom) Arquiteto. zangado) Você não aprendeu a fazer parto sem dor? Respire.) IMPERADOR (parturiente) Diga-me uma coisa. teria sido crucificado num poste e a humanidade inteira canificada viria mijar no 38 . quantas vezes? Quantas vezes o senhor quer que eu tenha feito? IMPERADOR (confessor) É o que estou perguntando. preciso de você. IMPERAI)OR (carmelita) Uma vez só. doutor. coitado. (Ele respira.) IMPERADOR (doutor) Respire como cachorrinho. Infiel! Pagã! IMPERADOR (carmelita) Que poderia fazer. Que humanidade! Cristo deveria ter nascido cachorro.Com quem você fez isso. vou sofrer muito? (Silêncio.) Infeliz! Pensar que você ficava de quatro como um animal com seu homem. Ajude-me. e. para conseguir isso. IMPERADOR (confessor) Nenhuma penitência poderá resgatar seu erro. padre. também vou me despir e você vai me açoitar. não consegui aprender. (Grita. cadela profanadora? IMPERADOR (carmelita) Quantas.) IMPERADOR (doutor. e agora não sabe latir. Estou sozinha. Quantas vezes você fez.

aqui está a cabeça. Como vou ser feliz! Vou coser as roupinhas dela. os desastres de automóvel. IMPERADOR (parturiente) Sinto as últimas contrações! Já vem. (Voz ofegante. urra. boa cabeça .poste. IMPERADOR (mãe) Como é bonita! Que amor! Que gracinha! É a cara do pai cuspida e escarrada. Aqui está. . . Acabaram-se as guerras.aparecem os ombros. Belo espécime terreno. Não podemos reprová-lo por não ter colaborado na defesa dos valores de nossa civilização. IMPERADOR (doutor) Está aqui. 39 .) Seu rosto todo cuspido. O melhor dos mundos. Me anestesie. IMPERADOR (parturiente) Não agüento mais. me ajude.) Aqui está o peito. deixe me ver a menina. tão lindo. Um último esforço. . Se o relógio risse. Inteirinho. riria como ela. Só gastaremos dinheiro com “consoladores”. Um a mais. baba. . Respire. ele parturiente geme. doutor. IMPERADOR (doutor) Noli me tangere. olhe. IMPERADOR (mãe) Homem ou mulher? IMPERADOR (doutor) Que e que você queria que fosse? Uma menina. Uma humanidade feliz. Ah! Ah! IMPERADOR (parturiente) Doutor. . (Voz do parturiente que geme. Dê-me a mão. chora e se acalma. . Bons ombros. Vou dar-lhe o nome de Geneviève de Brabant. IMPERADOR (mãe) Doutor.) Aqui está. as religiões. os alcoviteiros. Estou sentindo IMPERADOR (doutor) Ah. tão adorável.) Um novo elemento da nossa raça. Um mundo inteiro de lésbicas. cadela. belo peito. Agora só há mulheres. Mais um esforço. IMPERADOR (doutor) Que rosto? IMPERADOR (mãe) O do relógio da catedral. IMPERADOR (doutor) Você pensa que é Thomas De Quincey? Dar-lhe uma droga! Quem você pensa que é? Mais um esforço ainda! (Urro dilacerante. Dê me uma droga. Nina a criança e canta. (Senta se na padiola.

(Em outro tom.flu-flu-jiiiii. O mundo é uma boa porcaria. IMPERADOR (marciano) Flu-flu -flu . dentro em breve. Você tem razão. de civilização.) Imperador. Bata-me com o seu chicote imperial. vão buscar um cetro de ouro para o Imperador! (Espera. as coxas. a vaca. de fétido. entre parênteses. não compreendo como um homem como o Arquiteto. Leonardo da Vinci ou Einstein levantassem do túmulo! Para que nós inventamos os helicópteros? (Pausa. Sejam benvindos a terra. num grilo doloroso) Arquiteto Arquiteto Arquiiiii (A o Imperador) Veja só como ele é! Ele me detesta. de discos voadores.) 999 pontos. se resume numa palavra: Deus. Só fazem o que lhes dá na telha. (Mima a chegada. As piscinas e as fontes milagrosas. (Endireita-se. A partida. O santo prepúcio e seus milagres. O progresso. purificar-se ao contato de corpos educados. Imperador. com todo o respeito que devo a sua pessoa. As hóstias que sobem ao céu em cálices suspensos por correntes de ouro. (Ao marciano) Sim. Os bons e os maus. e nauseabundo. o asno. viajar de canoa! Se Ícaro. Nada acontece.) Creia. (Põe-se de quatro. Que cara! (Pausa. (Curta pausa. . para que meu passo seja duro e eficaz e para que a sua divina pessoa possa. Deus.) Esse é dos meus. suba nas minhas costas que eu vou lhe mostrar os mais fascinantes mercados de escravos machos e fêmeas de todo o Oriente. Sem aquele bêbado eu marcaria automaticamente dez pontos a mais. . Ela vai ser a reencarnação de Maria Madalena.) Escaravelhos. possa viajar numa canoa. com toda a veneração que tenho por você. .) Que selvagem! Numa canoa! No século de progresso. IMPERADOR (marciano) 40 . O concilio medindo o comprimento das asas dos anjos. jovens e vigorosos. Imperador. (Grita. (Ao marciano) O que é que você está dizendo? IMPERADOR (marciano) Tru-tri.” (Ri. O céu e o inferno. .) Senhor Marciano. Com nossos sistemas caminhamos para o abismo. IMPERADOR Você quer me levar para o seu planeta? (Aterrado) Não. Procura inquieto. os ventres de todos os homens do mundo. me abandona á minha triste sina Foi embora em busca de aventura nessas ilhas e só Deus sabe o que encontrará. prefiro ficar aqui. A educação moderna.) Eu os acostumei muito mal. IMPERADOR (ao Imperador-espantalho) Ele fala dos sistemas de educação. dirigindo-se ao Imperador-espantalho) Imperador. Os anjos. (Um tempo. IMPERADOR (marciano) Glu-tri-tro-piiiii. Ele nem ao menos levou um agente de segurança. de vulgar. a mangedoura. Imperador. Em outro tom. As estátuas da Virgem que choram lágrimas de sangue. o Supremo Arquiteto da Assíria. Um dia os discos voadores descerão na terra. Citando) “Tudo o que há de atroz.IMPERA[)OR (doutor) Que profissão vai lhe ensinar? IMPERADOR (mãe) Fisioterapeuta.loo-piiiiii. (A parte) Supondo que sejam marcianos. muito obrigado. eu compreendo. é o que há de mais chique. sou um camelo sagrado do deserto. Suba nas minhas costas. A sociedade protetora dos animais! Tudo anda de pernas para o ar. IMPERADOR (ao Imperador-espantalho) Os marcianos falam assim. Suas mãos vão massagear as costas.

No verão. . mais ou menos. IMPERADOR Você não vai me botar no jardim zoológico? IMPERADOR (marciano) Pli pli. tenho certeza. Como é que ele pode saber quantos anos tem? Deve ter 25. na verdade ele nunca me disse a idade que tem. Não quero ir para o seu jardim zoológico. (Ao Imperador espantalho. Meu filho. Tão jovem e já com manias. . ele faz a loucura de se lavar nessa fonte gelada. que não vale nada em relação à terra. perto da estufa. Eu lhe digo: Arquiteto. E depois essa história de cortar os cabelos uma vez por ano. IMPERADOR Eu sou o terráqueo mais engraçado que você conheceu? (Enrubescendo) Eu? Pobre de mim! Mas eu sou como todo o mundo. mesmo que seja maravilhoso em Marte. com muitas precauções. Enfim. Não adianta insistir. As pessoas nunca tomam banho hoje em dia. (Ao Imperador-espantalho) Falar de asma com ele. ainda que você tenha me dito que. sempre a mesma. Eu deveria ter tido um filho. . nem para a sua cidade. ao meio-dia. IMPERADOR A filha do rei dos marcianos está apaixonada por mim? Ela me ama? IMPERADOR (marciano) Ki -klo. 35. e o mais incrível é que ele quer que eu o imite. IMPERADOR Ah! Desculpe. com bastante roupa. . . Ele se fricciona com essa água. se banhando. Espero que você não esteja dizendo isso de mim. 41 .gri . quando o sol está muito quente. apesar de nunca ter posto os pés lá.Tri-clu-tri-clu-tri . uma criança atrai a atenção das garotas. você vai apanhar uma pneumonia. Ele não. Teríamos passeado pelos parques. IMPERADOR (marciano) Plu-plu-plu-griiii. mas ele acha graça e fica debaixo do jato d’água.looooo. IMPERADOR (marciano) Gri . ele não sabe mais contar. É tão poético! Poderia ser meu filho? Talvez.. . (Aumentando a voz até a cólera) Quero ficar na terra. mas dos outros. no que diz respeito as coisas do espírito. . um cara que se banha todos os dias na fonte mais fria da ilha. Teria lhe ensinado a jogar xadrez com 3 ou 4 anos e a tocar piano. nós apenas conseguimos suportar a dor. mudando de tom) Imagine que todos os dias. Depois dos quarenta. joga-se como um louco. mas claro.treeeee. Depois dos quarenta. não digo que não se possa tomar uma ducha. eu compreendi mal. . . . Você é muito bonitinho. . IMPERADOR Que engraçado! Você acha que somos esquisitos e feios. Você vai ter uma crise de asma. pela manhã. Não compreende nada. Que flertes teria tido! Arquiteto! Volte! Pare de remar. IMPERADOR (marciano) Jlu-jli-gni-gni-poooo. . faz mal aos pulmões. IMPERADOR Ah! Felizmente. .

(O espectador não vê o que ele faz. por causa de uma superstição. as mulheres deviam chorar ao contemplá-lo.) Aqui está o saco.. (Muito triste) E cachimbos de onde vai jorrar a fumaça líquida. Imperador. quantos anos você tem? ARQUITETO Não sei. (Aterrado) Mas como. que idéia nomeá-lo Arquiteto! (Tem uma idéia luminosa. (Muda de tom. Ele é tão criança. temperarei as iguarias mais deliciosas e você beberá licores destilados com a essência dos meus sonhos . Ergueremos palácios com labirintos. enxugarei os pântanos para que surja do seu lodo uma névoa de flamingos vermelhos com coroas de papel prateado. Silêncio.) Não. Para saber a idade dele basta contar o numero de folhas. (Espantado. Reconheço os cabelos dele. como são brilhantes as minhas idéias! Minha mãe já dizia: como meu filho é inteligente! (Entra na cabana. podemos saber a idade dele.) ARQUITETO (grita) Imperador! (O Imperador aparece logo. .) É impossível.no começo da primavera. (Dirige-se para a cabana... (Entra na cabana. Longa espera. Não sei ao certo. pelo menos mil.) E todas as folhas com cabelos. alguns já meio podres. ele os enrola numa folha e coloca no saco.) IMPERADOR Diga-me uma coisa. Ele corta os cabelos uma vez por ano e.. tem 35 no máximo. Vai ver como é simples. Mas tem muitas folhas.) VOZ DO IMPERADOR Um. . Como é que pode.. há centenas de folhas. .. essa fonte. tão poeta. Longo silêncio. do mesmo tom. Sai. escavaremos piscinas onde virão se banhar as tartarugas do mar. sai correndo. . dois. Entra o Arquiteto. Mil e quinhentos – dois mil. volte! Seremos amigos. Como é que ele consegue calcular o tempo sem minha ajuda? (Pára no meio da cena e grita) Arquiteto.. Ele nunca me disse. A fonte da juventude. medrosamente. três. seis. onde as espirais se transformarão em despertadores. Vejo seu despertar. Imperador. (Inquieto) quatro.. Podemos calcular .) Vou explicar. sempre da mesma cor. Arquiteto ! (Grita. ele não tem mais de 35 anos. dar-lhe-ei um automóvel para que possa percorrer todos os meus pensamentos. Ele sai apavorado. Você compreende.. A televisão da Assíria que transmite em dose as primeiras batidas dos seus cílios sobre os olhos fechados . . . . (Pausa. Banhando-se todos os dias. (Baixa a cabeça e fica assim algum tempo. sete. .. por acaso. .) Arquiteto (Quase chorando. Será que. Mil talvez. Sai.) Seremos felizes. em todos os povoados e nas aldeias. Construiremos juntos uma casa.) Imperador. Diz com ênfase) Eu o vejo. os cabelos dele. Cada um deles se encontra numa extremidade do palco. Centenas de folhas. de uma tão grande espiritualidade. cinco. . . ... CAI O PANO LENTAMENTE 42 . Recompõe-se. .

. tira máscaras. IMPERADOR 43 . Imperador? (Ele sai da cabana e de cena pelo lado do jardim. aproxime-se e diga: juro dizer a verdade. IMPERADOR (levantando a mão direita) Juro. toda a verdade. vira a toalha pelo avesso: é o tapete da mesa de um juiz. nada mais que a verdade. ARQUITETO Lembre-se de que todas as suas declarações podem ser usadas contra você. Há uns dez anos. Do lado do jardim aparece uma grande mesa. . ARQUITETO (docemente) Está dormindo. Finge comer um pedaço. O Arquiteto a empurra até o centro do palco.) ARQUITETO Acusado. Penteia-se e coloca uma máscara de juiz. Prepara uma enorme travessa. sem fazer barulho. uma sineta e um livro muito grande. Agita a sineta. por fim guarda tudo na gaveta. sentar se quiser. Dirige-se para a cabana. estamos aqui para ajudar a justiça e para que tudo fique claro em relação à sua vida e ao crime de que é acusado. tira uma toalha e cobre a mesa. uma faca e um garfo gigantescos.) O acusado pode se. . . Finge esquartejar um ser gigantesco que está deitado à mesa. Pausa. com bordas douradas. Da gaveta de uma mesa. (Em outro tom) É para isso que você me acorda a essa hora? ARQUITETO (levantando a máscara um instante) Não tolero nem um aparte. senhor juiz.) VOZ DO IMPERADOR O que há.ATO II QUADRO I Mesmo cenário. ARQUITETO Há quanto tempo? IMPERADOR Não sei. e procure ser preciso em suas declarações. entendeu? (Coloca novamente a máscara. IMPERADOR Que crime? ARQUITETO O réu é casado? IMPERADOR Sou. O Arquiteto entra em cena com precaução. Põe-se a mesa. Arquiteto? (Sai da cabana.

) Arquiteto. IMPERADOR Entendeu? ARQUITETO Tudo.) IMPERADOR Devagar. . IMPERADOR Entendo tudo. Você é que não entende nada. .” (O Arquiteto reaparece furioso. . não sei. só Deus sabe para onde? ARQUITETO Levaremos em conta todas as circunstâncias atenuantes que possa apresentar para sua defesa. dirigidos por uma mesma harmonia. IMPERADOR Isso é o cúmulo. (Deitase no chão com os pés para cima e começa a agitá-los.) ARQUITETO 44 . (Com grande ternura) Sei falar com os pés como você me ensinou. Só se vêem seus pés descalços que se mexem. . IMPERADOR Sou culpado. (Em outro tom. IMPERADOR Mas minha mãe desapareceu.Mas. .” (O Arquiteto continua mexendo os pés. O senhor faz alusão. (O Arquiteto se deita no chão atrás da mesa. à minha mãe? ARQUITETO É o tribunal que interroga. (O Imperador ri.) ARQUITETO (tira a máscara e a toga) Já recomeçou com sacanagem? (Imperador mexe com os pés novamente.) É sempre a mesma coisa. me acusam. são conduzidos para além pelo amor sagrado que põe em movimento o sol e as estrelas. . ARQUITETO Ainda não chegamos lá. pare com essa brincadeira. O Imperador traduz) “Assim como duas rodas obedecem a uma mesma ação. você fala comigo de um jeito que me faz sofrer. meu pensamento e meu desejo. . Coloca a toga e a máscara.. Olhe como eu sei ler tudo: “Aqui o poder falta a minha imaginação que quer guardar a lembrança de um espetáculo tão elevado. se ela foi embora.) ARQUITETO Aposto que você não é capaz de entender o que eu estou dizendo.

IMPERADOR Por favor. Dizia que sabia roubar. Ela não sabe de nada e nada poderá dizer. e voltava muito tarde. bem cedo. Eu o suportava. senhor juiz. ARQUITETO A senhora o amava? IMPERADOR (esposa) Eu o via muito raramente. estávamos casados há muito tempo. Ele saía de manhã. Para se vingar das humilhações que sofria. ARQUITETO Mas algum dia ele bateu na senhora? IMPERADOR (esposa) Bateu. Depois nem tinha mais tempo. A primeira testemunha a ser chamada é sua mulher.O tribunal tomará conhecimento de tudo. não a envolva nesta história. (O Imperador se fantasia de esposa. coloca uma máscara. Falava sem parar.) Claro que nunca o amei com loucura.) A senhora e a esposa do acusado? IMPERADOR (esposa) Sou. No começo ele parecia um louco. Sonhava que um dia ia ser imperador. 45 . ARQUITETO Silêncio.) Ah! O senhor sabe. ARQUITETO Quais eram os seus sentimentos em relação a ele? IMPERADOR (esposa. ele chegava tão cansado do escritório. ARQUITETO Vocês se amavam? IMPERADOR (esposa. ARQUITETO E depois? IMPERADOR (esposa) Depois? Ele nem mesmo me batia. ARQUITETO Foi sempre assim? IMPERADOR (esposa) Ah! Não. Que entre a primeira testemunha. Para afirmar a sua virilidade. Ultimamente nem nos falávamos.

Gostaria também.) Claro. Gostaria ter galinhas sábias e borboletas que eu levaria com uma fita. de possuir um harém de mulheres para cuidarem de mim. enfim.) De qualquer modo. ARQUITETO Ele odiava a mãe? IMPERADOR (esposa) 46 . Vejo-me operando. IMPERADOR(esposa depois de ter olhado para todos os lados. ARQUITETO Qual era o seu maior desejo? IMPERADOR (esposa) Tocar cítara em trajes da época.) E o que é que o senhor queria que eu fizesse o dia inteiro sozinha? Esperar por ele? ARQUITETO Vocês têm filhos? IMPERADOR (esposa) Não.ARQUITETO Ele sabia disso? IMPERADOR (esposa. onde se via a grande curva da minha cintura. para ter certeza de que ninguém a ouve) Acho que ele só casou comigo para contrariar a mãe. acho que não tinha ilusões a meu respeito. ele só gostava mesmo da mãe. Posso fazer uma revelação? ARQUITETO Fale. dentro de uma sala inteiramente envidraçada. ARQUITETO “Ele” quem? IMPERADOR (esposa) Meu marido. apesar de não ser lésbica. toda de branco. (Curta pausa. o tribunal está aqui para ouvi-la. Acho que teria gostado também da cirurgia. mil coisas. ARQUITETO A senhora o traiu com outros homens? IMPERADOR (esposa. ARQUITETO Isso foi premeditado? IMPERADOR (esposa) Foi mais um esquecimento. enquanto um cavalheiro do tipo Maquiavel acariciasse ou beijasse minhas costas nuas. apesar de não ter ele inventado a pólvora.

Ficou louco. quem? ARQUITETO Quem ficou louco como eu? IMPERADOR Deus. mas de uma mãe. Fui a vítima desta vingança. IMPERADOR Eu? ARQUITETO Quem? IMPERADOR O que. antes ou depois da criação? ARQUITETO Pobre coitado! IMPERADOR Você acha que Deus está no centro da terra? ARQUITETO 47 .) IMPERADOR Você perdeu a razão. só vivia para ela. (O Imperador tira sua máscara de esposa. como um louco. ARQUITETO Ah! IMPERADOR Mas quando. ARQUITETO (tira a máscara de presidente do tribunal) Mas o que é que está acontecendo com você? IMPERADOR Você está ficando louco como ele? ARQUITETO Você me faz ficar arrepiado. antes ou depois? ARQUITETO Antes de quê? IMPERADOR Pergunto quando é que ele ficou louco. Quando estava com raiva dela fazia qualquer coisa para lhe desagradar. até mesmo se casar.Odiava mortalmente. O senhor acha que é normal para um homem da idade dele ficar dia e noite agarrado nas saias da mãe? Ele não precisava de uma mulher. e amava.

) Vou buscar o binóculo. IMPERADOR E o fogo e a fumaça. (O Arquiteto concorda. feliz como um verme. Deitam-se no chão para ver melhor.Nunca fomos lá para ver. os aviões com câmaras fotelétricas. ARQUITETO Tiro a terra? IMPERADOR Tire. precisamente no centro geométrico. de jeito que possa ver as calcinhas de todas as mulheres. completamente louco e pensando ser um transistor. IMPERADOR Você acha que a cabana está bem camuflada? ARQUITETO Acho. Observam com curiosidade o que podem ver no centro da terra. e se ajeita para fechar a terra. ARQUITETO Nunca fomos lá para ver! IMPERADOR Então vamos. (Arquiteto tira um pedaço de terra como se fosse uma gaveta. o radar. (Volta com o binóculo. IMPERADOR Claro que está lá. Ah! Já imaginou eu tranqüilamente no centro. muito inquieto) Diga-me uma coisa. claro que não. cercado de terra por todos os lados. ARQUITETO Não se preocupe. ARQUITETO Não. vão nos descobrir. tem certeza de que ninguém pode nos ver? ARQUITETO Claro que tenho. balançando a cabeça. Para que comer comida quente? Sibarita 48 . ninguém pode nos achar aqui. Os dois olham para dentro. É muito escuro. IMPERADOR Vamos ser descobertos por causa das suas negligências. vão nos descobrir. IMPERADOR Infeliz.) Não se vê nada. levanta-se um pinguinho de fumaça. IMPERADOR Não se esqueça dos satélites espiões. Você apagou bem apagado para não sair fumaça? ARQUITETO As vezes. De repente.

Até quando. que devo jurar dizer a verdade. ARQUITETO Há uma certa ironia nas suas palavras. não é? Meu irmão. (O Imperador arranca com raiva a máscara. . Catilina. IMPERADOR (irmão) Peço perdão às senhoras. Comer comida quente. seu cozinheiro de nabos. Eu proíbo. nós todos saberíamos: é um trabalho público. Não meta meu irmão nessa história. estamos aqui para esclarecer tudo. . isso não. Você ignora as virtudes higiênicas da carne crua. fazer fumaça. Você não está aqui para fazê-lo falar.) IMPERADOR (como Cícero. Seu esquenta-comida. vejamos o que pensa do que ele tentou fazer comigo. Meu irmão é um animal aquático da família do crocodilo. Vossa Excelência sabe como se divertia o poeta quando era criança? ARQUITETO Fale. . Enfim. mas devo revelar que meu irmão tinha um hábito estranho no internato. Isso é traição. ARQUITETO Ainda que o fato possa ter uma certa gravidade. Chega de julgamento. (De joelhos) Você gosta de mim? (Arquiteto se põe rapidamente a mesa. .) ARQUITETO (agitando a sineta) Chega de infantilidade. Meu irmão é um imbecil que não entende nada. permito tudo.) IMPERADOR Não.) Que entre a segunda testemunha: o irmão do acusado. O senhor sabe. seu papa-moscas. (O Imperador coloca a máscara de “irmão” ) IMPERADOR (irmão) Claro que sei. Vou explicar. (O Imperador pára de tremer e se apruma cheio de dignidade. não acha que. . abusarás da minha paciência? Nossa pátria Roma. que ele vá embora. Que a minha cólera de Aquiles caia sobre você! ARQUITETO Está bem. patientia nostra? ou patientia mea. IMPERADOR (irmão) Que ironia? Se ele fosse poeta. IMPERADOR (irmão) Desculpe lhe cortar a palavra. Não vou tolerar nenhuma interrupção. beber a urina dos seus colegas de classe. Recoloca a máscara de presidente do tribunal. concordo. ao processo. num tom solene) Quousque tandem abuteris.(interrompe-se e tomando um tom familiar) Você é uma safado. assim penso eu. Vossa Alteza. Não brinco mais. (Senta-se no chão e treme de raiva. menos interromper meu irmão. O poeta. Não ouviu falar de Sodoma e Gomorra? Merecia que Deus arrasasse nossa ilha como fez com essas cidades que se entregavam aos vícios. Se isso não era grave. desculpe. Catilina. não é? Teríamos visto na televisão. Sempre na lua. ao processo. quer dizer. o poeta.babilônico.. do tubarão e do 49 . na minha profissão temos um grande respeito pela justiça. .

. (Eles olham desesperados. Será que vou ter que fazer um desenho? Vou contar como era. ainda não dominadas pelo homem. Ao Arquiteto) O olho não se mexe. o po-e-ta. ARQUITETO Por quê? IMPERADOR Olhe para ele. sem importância nenhuma. (Eles olham o céu. . IMPERADOR Cale a boca. (Com muita violência) Cruel Desdêmona. o grande organizador. E. ARQUITETO Ele nos vigia. ARQUITETO Silêncio. como o anjo exterminador. Observe o rosto dele e o meu. . o grande Imperador. nadando no rastro de sua presa. miserável! Ouça a brisa dos séculos que proclama a nossa obra imortal.hipopótamo.) Do alto desses. cruel como as hienas do deserto. E eu. IMPERADOR Eu também. à nossa imagem e semelhança. Olhe como os cílios dele são longos e curvos. ARQUITETO (tirando a máscara) Imperador. um grande olho de mulher. . os países subdesenvolvidos viverão ao abrigo da miséria. Eu o imagino nas regiões verdes. (Silêncio. se divertia quando eu tinha dez anos e ele quinze. (Hesita. IMPERADOR (furioso. . Que a testemunha continue o seu depoimento. IMPERADOR É. faremos da Assíria um país para a frente. eu mesmo. o arquiteto supremo. eu penso que. diante de você. . . O Imperador faz o mesmo. me violando e me obrigando a violá-lo. para me expressar melhor.) Ele vela o nosso presente. (Pára. . IMPERADOR (irmão) Meu irmão.) Você será arquiteto. IMPERADOR (irmão) Como eu dizia. ARQUITETO Sinto como se um enorme olho. um deus de bolso. modéstia à parte. me pervertendo.) ARQUITETO A testemunha ia nos contar o que seu irmão fazia com o senhor. sem máscara) Chega! Chega! 50 . conduzindo-o. (De repente o Arquiteto pega a sineta e coloca a máscara. vá embora para longe de nós. contemplando suas evoluções. .) Arquiteto. (Arrancando a máscara) Eram brincadeiras de criança. regendo o destino da Assíria e conduzindo a humanidade para gloriosos amanhãs. .

Ficávamos sozinhos em casa. como é que pensa na morte? O que aconteceu? Está todo ensangüentado. . entoando um cântico e soluçando. Se cortou aqui. perverti . O mais engraçado vinha depois. . você me empresta o seu rádio de pilha só para eu saber o resultado do jogo de futebol. ARQUITETO (mãe) Meu filhinho. que é que você está dizendo! IMPERADOR Aos domingos. . Quando tudo tinha acabado. Como disse um grande poeta: “Pouco sacana ou muito sacana. Está bem? ARQUITETO (mãe) Meu filho. Que a testemunha prossiga. Lembro-me de que. IMPERADOR Mamãe. um dia. ARQUITETO (mãe) Meu filho. Gostaria de saber em nome do que me julgam? ARQUITETO 51 . que é que você está fazendo aí. o que foi que fez para ficar tão triste? IMPERADOR Mamãe.ARQUITETO O tribunal pede silêncio. para eu não morrer. ele começava a tremer e a se jogar de encontro á banheira. . não me reconhece? Você ainda é uma criança. só um pouquinho. IMPERADOR (irmão) Ele esperava que mamãe saísse. Dies illa. E preciso chamar um médico. dies illa Merda para Deus. sua mãe. então ele enchia a banheira de azeite até a metade e começava a brincadeira. etc. somos todos sacanas” . com o consentimento deste tribunal desejo fazer eu mesmo a minha defesa. chorando e blasfemando? IMPERADOR Dies irae.) Dies irae. acabou dando um corte profundo na mão e molhou seu sexo com o sangue. quero que você me jogue num poço bem fundo. ARQUITETO (tira a máscara de presidente do tribunal e coloca a de mãe) Meu filhinho. ARQUITETO (mãe) Seu irmão? IMPERADOR (levantando-se violentamente) Senhor presidente. sou eu. (Tira a máscara. Essa é a grande verdade. dies illa Quem morre vai embora Dies irae. começa a chorar e cantarola. e me traga todos os dias um pouco de comida.

Esqueço todos os conselhos. não quero agir como todo mundo.) VOZ DO IMPERADOR Você está roubando. na maioria das vezes. VOZ DO IMPERADOR Mu.Somos a justiça. Se meus ancestrais levantassem do túmulo! Um par de chifres! Um par de chifres que você colocou na minha testa. De repente o Arquiteto entra em cena.) ARQUITETO Espero você aqui. Nem um pingo. não fazia nada sem mim.) ARQUITETO (tapando os olhos com as mãos. . (Saem da cena correndo em disparada. Quem nunca desejou matar alguém? Em outras palavras. Para o diabo todos os conselhos! E para que continuar com todos esses truques do tribunal? Para que continue a representar a grande comédia da justiça. mu. seus promotores marionetes. comendo um ovo de dromedário com molho de faisão.3 quem chegar por último é a mulher do padre. que.) IMPERADOR (em tom choroso) E pensar que antigamente você era para mim como uma avó. Pouco me importam os seus tribunais. mas compreenderão que assumo o meu papel nessa peça e levarão isso em conta na hora da sentença. touro herdeiro de Taurus! IMPERADOR Você é minha vaca sagrada? ARQUITETO 52 . de ter um ar arrependido. Julgar alguém por tentativa de assassinato . ARQUITETO Um belo par de chifres nasce até mesmo em gente muito bacana. Já estava com o pé na frente. os senhores não acreditarão nem nas minhas lágrimas nem no meu arrependimento. Os senhores estão aí para me dar uma lição: mas sabem muito bem que a lição pode ser dada a qualquer um. Ensinei-lhe tudo. Esqueço que me recomendaram chorar para causar boa impressão. Muito devagar. Agora não me respeita mais. . (Ouvem-se ao longe risinhos e barulho de queda. seus juizes de opereta. (Muge e chora) ARQUITETO Oh! Touro de ouro. IMPERADOR A justiça? Que justiça? O que é a justiça? A justiça é um certo número de homens como os senhores e eu. Se choro ou tenho um ar contrito. Não tenha medo. não vou torear você. fazendo macumba só porque cheguei antes de você no pique. de bronze. escapam dessa justiça graças à hipocrisia ou a astúcia. e ao mesmo tempo se arrumando para correr) 12 . Eh! Touro. a começar pelos senhores. touro. (Entra o Imperador com a cabeça ornada por um par de chifres. suas prisões vingativas. me amava. (De repente o Arquiteto tira a toga e fala.

. assim não.) IMPERADOR Não fico mais moço sem chifres? (O Arquiteto furioso se dirige para a mesa onde funcionava o tribunal. e o compreendi. isso pesa muito e não posso virar a cabeça. Acordei de repente de mãos juntas. (Pausa. Melhor ser pequeno na casa da gente. Hesita alguns instantes. (Estende uma perna O Arquiteto coça por um instante. IMPERADOR Então coce minha pernas. Esfregue a cabeça no tronco do coqueiro que eles caem. enfia a roupa. coce com mais força. (Ele coça com mais força) ARQUITETO Já estou cansado de coçar. ARQUITETO É. ainda esfregando a testa com uma folha. .eu vi. disse para eu bater em minhas mãos. . IMPERADOR Imagine que agora você bate palmas e. . Não esqueça que também tenho minha dignidade. Virando a cabeça para o Arquiteto) Quando é que vai fazer desaparecer esses malditos chifres. No outro.) Não. que grande na casa dos outros. IMPERADOR Tire-me esses chifres. IMPERADOR Durmo? É assim que você trata um Imperador da Assíria? Um Imperador da Assíria ainda por cima chifrudo. Mais em cima. você abre um olho e diz: “coça mais. para. ainda não estou dormindo”. para me convencer de que tinha razão. toma posição para bater palmas. pelo amor de Deus! ARQUITETO Está bem.Você se vê comigo noutro mundo. Assim que começo. o que não quer dizer nada hoje em dia. Além do mais. Então uma garota me disse no sonho: “Não chore”. . Mas ela. Barulhos confusos. Aí. sentado na cama. O Imperador volta sem chifres.Sou sua vaca e sua camela cor de rosa. Num instante começa a roncar como um fole. Aí eu bati e vi as paredes da cabana. ARQUITETO Como é que você quer que desapareçam? Acha que basta eu dar uma palmada na mão? IMPERADOR Você e louco! Dar uma palmada em sua mão! Nunca! Sabe o que sonhei essa noite? Que me batiam e eu chorava.) Não. eu respondi: “Não vê que estou sofrendo?” Ela riu e disse: “Como é que pode sofrer se é só um sonho? Isso não é verdade”. aí não. não precisa ficar assim. você dorme. Eu não acreditei. (O Imperador sai correndo. ajusta a 53 . Pára. Vai bater com as mãos lentamente. É muito simples. . mas logo que paro de coçar. Viva a monarquia! ARQUITETO Todas as noites a mesma coisa: “coce-me um pouquinho até eu dormir”. .que eu acorde desse sonho que penso ser a vida. (De repente. com muita ostentação. .

me daria todos os tesouros do mundo. quando ele não agüentava mais. O acusado me disse que se eu fizesse sumir a mãe dele. quando as encontrava no chão. às onze horas da noite.) Quando a igreja ficava vazia. Depois ele se amarrava com uma porção de cordas e eu o empurrava no ar. dez ou doze. Quer dizer. nós íamos para o coro.) ARQUITETO Depois de ter ouvido o irmão do acusado. Perdia sempre a metade das penas e me pergunto o que devia pensar o pessoal da igreja. numa igreja.) Conheci.) IMPERADOR (Sansão) Juro dizer toda a verdade. na manhã seguinte. ARQUITETO Conte. ARQUITETO Para fazer o anjo? IMPERADOR (Sansão) É. eu o içava. (O Imperador põe a máscara de senhor Sansão. o tribunal convoca a testemunha seguinte: senhor Sansão. ARQUITETO O senhor conheceu a mãe dele? IMPERADOR (0Sansão.máscara de presidente e fala. Ele se balançava de lá para cá. ARQUITETO O senhor só o via nessas ocasiões? IMPERADOR (Sansão) Não. Ele se despia e colava algumas penas nas costas.) Para fazer o anjo. ARQUITETO O senhor recusou. por favor. IMPERADOR (Sansão. ele me convidou para jantar e aceitei. 54 . ARQUITETO Para fazer o quê? IMPERADOR (Sansão. um dia ele me pediu para ajudá-lo. como um anjo ou um arcanjo e. é claro. ARQUITETO Onde conheceu o acusado? IMPERADOR (Sansão) Jogando bilhar.

para que assim cometesse o mais infame dos pecados. me lembro de um detalhe que pode interessar ao tribunal ARQUITETO Fale. eu vi por acaso. um dia.) Quanto a isso sou categórica: acho que não. Agora mesmo. Era muito inocente. como algo de excepcional. como ele dizia. o senhor precisava ver os dois juntos. IMPERADOR (esposa) Ultimamente.) IMPERADOR (esposa) Precisam ainda do meu testemunho? ARQUITETO O tribunal deseja saber a sua opinião sobre as relações que havia entre o acusado e sua mãe. E depois. ele me pedia para tapar seus olhos com esparadrapo e algodão. meu marido tinha um temperamento fogoso. no cinema.IMPERADOR (Sansão. digamos. As vezes aceitava falar com ela. que a mãe lhe pagasse por cada minuto do encontro uma soma muito elevada: segundo. atravessavam uma época de ódio feroz. ARQUITETO Acha que havia entre eles alguma coisa equívoca. Mas nunca teve com sua mãe relações incestuosas. está bem. mas cada um num quarto. O tribunal deseja ouvir ainda uma vez a esposa do acusado. quando a mãe ia visitá-lo. ARQUITETO A senhora ouviu o depoimento da testemunha anterior? IMPERADOR (esposa) Segundo os mexericos. Aqui está uma prova: pouco antes do desaparecimento dela. . que ela o masturbasse com “sua boca maternal”. ARQUITETO E o que prova tudo isso? IMPERADOR (esposa) Isso prova nitidamente que nunca houve nada de equívoco entre eles. 55 . (O Imperador troca a máscara. incestuosa? IMPERADOR (esposa. ARQUITETO Obrigado pelo seu depoimento. por favor. então a mãe dele me pediu que conseguisse uma entrevista com o filho. IMPERADOR (esposa) Eu já disse eles se amavam e se odiavam. Tudo dependia do momento. Mas daí para matar. e meu marido aceitou sob as seguintes condições: primeiro. senão ele não exigiria o que acabo de lhes contar. A gente podia jurar que era um casal de namorados.) Como se eu fosse um criminoso! Brincar de anjo. . impetuoso.

(De novo. no grande destino universal. assoe o nariz.) Acalme-se.) Tome. tanto faz. (De repente fica inquieto. Você era o imperador. Sansão disse a verdade. Senta-se.) IMPERADOR Aposto que vai me condenar. 56 . . . Deus o guarde como tal”.) Você vai continuar gostando de mim.(O Imperador arranca a máscara. apesar disso? ARQUITETO Você nunca me falou dessa tentativa de assassinato. Examina-o minuciosamente e por fim tira a máscara. ARQUITETO Olho por olho. (Depois de ter dito isso. Depois. Que ecos! Dez mil. . (Com efeito. quando se levantava pela manhã todos os trens e todas as sirenes mugiam para avisar ao povo que você acabava de acordar.) Dez mil amazonas. tentei matar minha mãe.) Está bem. o lençofolha. com ênfase) Minha vida teve sempre a marca de um destino único. estão enganados. O Arquiteto o observa com um ar contrariado. vinham nuas de manhã para meus aposentos e me beijavam a ponta dos dedos enquanto entoavam em coro o hino imperial cujo refrão é o seguinte: “Viva nosso Imperador imortal. dando as costas ao Arquiteto. enche os pulmões como se fosse imitar um ator de melodramas. eu sei. dê-me uma de suas folhas. nuas. (Pausa. muito digno) Tenho meus segredos. não é tão grave assim. de corpos esculturais. De joelhos se arrasta até o Arquiteto.) Deseja alguma coisa? (O Imperador choraminga. dente por dente. se dirige para ele. vai ver o que está acontecendo. O Arquiteto. (A parte) Como se meu quarto fosse um estádio. Para mim. na mesma hora cai uma folha. Torna a cabeça entre as mãos. depois se coloca de maneira a dar mais ainda as costas ao Arquiteto.) Árvore. uma folha bem grande. com grande força e convicção) E o que é que tem? Tentei matar minha mãe. vendo que o caso é sério. É verdade. você ainda é o imperador da Assíria.) IMPERADOR Dez mil amazonas. ARQUITETO Estou vendo. que meu pai importava diretamente das Índias Orientais. falando para os galhos mais altos de uma árvore invisível para o espectador. IMPERADOR (levantando-se. (De repente o Imperador se levanta. (O Imperador muito triste dá uma volta pelo palco e se senta no chão. (Levantando-se bruscamente. foi um exemplo para as gerações futuras e para as que virão. com raiva. numa palavra. Quer assoar o nariz? (O Imperador diz que sim com a cabeça. e daí? Se pensam que vou ficar com complexo de culpa. nos seus aposentos. O Arquiteto a pega. para a posteridade. (O Imperador se assoa e joga longe. O Imperador continua sem ouvir. Total grandiloqüência.) IMPERADOR Os senhores têm razão.

Logo volta. Ó Senhor. Uma esmolinha para um cego de nascença que não pode ganhar seu pão. como sou feliz! Sinto a mesma coisa que Santa Teresa de Ávila. Sou a voz da revelação.) “Na escala das criaturas apenas o homem inspira um nojo constante. que Deus lhe dê uma longa vida e lhe conserve por muitos anos. e o amarei por toda a eternidade. Nós passeávamos juntos. da fé.) ARQUITETO Sou o seu cachorro policial. mas esse foge.) E você ainda por cima zomba de mim! Maldito coiote dos pampas. vós me introduzis uma espada no cu. (Dá golpes com a bengala em todas as direções. feliz.) Esse é dos meus. vou rezar. sinto que vós introduzis nas minhas entranhas uma espada de fogo que me proporciona uma alegria e uma dor sublimes. Uma esmolinha. (O Arquiteto tira a coleira e volta para o tribunal. Por fim tira da terra uma perdiz viva. não acredita em Deus? (Vai bater no cachorro. IMPERADOR Uh! Médor! Vá buscar.) Vejamos o que vai descobrir o meu bom e fiel cão. Obrigado. IMPERAD0 R Isso mesmo. a senhora é muito boa. Ó Senhor! Finalmente encontrei a fé. ó minha musa. diga-me uma coisa. ARQUITETO (em linguagem canina) Nas minhas entranhas. passa uma trela em volta do pescoço. eu só gostava de uma coisa no mundo. Como um cego ele tateia por todos os lados com sua bengala) Animal maldito.) IMPERADOR (cego – tom solene) “Cante.) 57 . a repugnância que inspira o animal é apenas passageira. nas minhas entranhas. (Distribui golpes com a bengala para todos os lados O cachorro zomba dele. Quero que a humanidade inteira seja testemunha desse acontecimento. vá buscar. a cólera de Aquiles. agora que meus olhos estão cegos. Ele vinha me buscar todos os dias. Fique para sempre ao meu lado. Ele não compreenderá nunca as altíssimas virtudes do proselitismo.” Acho que já disse isso antes. é que vejo Deus com mais clareza.IMPERADOR Se quer saber a verdade. Animal maldito. Uma esmolinha pelo amor de Deus sabe. (O Arquiteto começa a arranhar a terra como um policial. procurando atingir o cachorro que debocha dele) Farei uma cruzada de crentes cegos para combater a golpes de baionetas todos os cães ateus do mundo. O Imperador o acaricia com ternura e lhe dá tapinhas no lombo. como a santa. Cachorro. você tem fé em Deus? (Latido incompreensível do cão-policialarquiteto. vejo-vos com os olhos da fé.) Seu sarraceno. (Fica cego e coloca óculos de cego. Pobre animal. Venha cá. como dois namorados. Ajoelhe-se comigo. Quero que meu cachorro também tenha fé. Ó Senhor. que os diabos jogam bola com minha alma. assim eu não precisava lavá-las. como um cachorro. agora que sou cego. (O Arquiteto continua escavando e latindo. Venha para perto de mim.” (O cachorro-arquiteto aprova feliz e late alegremente. sinto também. do meu cachorro policial. que segura entre as mandíbulas e leva correndo. Eu não precisava de despertador: ele corria todas as manhãs para lamber minhas mãos. (O Arquiteto se põe de quatro. minha senhora. O Senhor.

ARQUITETO (presidente) Que entre a testemunha seguinte. (O imperador, resmungando, tira os óculos de cego.) Eu disse que introduzissem a testemunha seguinte. Madame. . . Olympia de Kant. IMPERADOR (Olyntpia de Kant) Posso ajudar em alguma coisa? ARQUITETO Conheceu a mãe do acusado? IMPERADOR (Olympia) Como poderia não conhecer? Era minha melhor amiga. Éramos amigas de infância: fomos expulsas do mesmo colégio. ARQUITETO Por que foram expulsas? IMPERADOR (Olympia) Coisas de garota. Brincávamos de médico, nuas, botávamos termômetro, mil coisas, derramávamos tinteiros cheios de tinta na cabeça. Nessa época tão quadrada, imagine o que pensaram! Claro que nos beijávamos, por que é que não íamos nos beijar? Éramos duas garotinhas que despertavam para a vida. O fato é que nos expulsaram do colégio. ARQUITETO Que idade vocês tinham? IMPERADOR (Olympia,) Ela era um pouco mais velha que eu. Duas garotinhas. Eram brincadeiras, brincadeiras inocentes, mas acho que não estamos aqui para falar sobre esse assunto. ARQUITETO Assunto que não deixa de ser interessante. Que idade tinham na época da expulsão? IMPERADOR (Olympia) Quem? Eu? (Muito séria.) Apenas vinte anos. ARQUITETO Oh! (Silêncio crispado.) É claro que conhecia o acusado, não é? IMPERADOR (Olympia,) Ele era o grande amor da mãe. Ela só vivia para ele. E sempre achei que ele também a amava com o mesmo ardor. ARQUITETO Eles nunca discutiam? IMPERADOR (Olympia) Todos os dias tinham brigas violentas. Isso é que é o amor. Era comum vê-los passeando num parque como um casal de namorados. Brigavam aos gritos, sem se importar com os outros. Nunca imaginei que as coisas pudessem ir tão longe.

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ARQUITETO Tão longe? IMPERADOR (Olympia) Alguns dias antes de a mãe dele desaparecer para sempre, de-sa-pa-re-cer. . ARQUITETO O que quer dizer com esse tom irônico? IMPERADOR (Olympia) Acho que ninguém desaparece, mas que desaparecem com a pessoa. ARQUITETO Tem consciência da gravidade da sua acusação? IMPERADOR (Olympia) Nunca confundo nada. O que dizia é que, alguns dias antes do desaparecimento dela, aconteceu um incidente que acho que vale a pena contar. Enquanto dormia, seu filho se aproximou sem fazer nenhum barulho e, com muito cuidado, colocou perto da cama um garfo, sal, um guardanapo e um machado de açougueiro. Com muito jeito levantou o pescoço da mãe e, quando ia desferir uma bruta machadada para decapitá-la, ela se afastou. O acusado, em vez de ficar sem graça, teve um acesso de riso. (O Imperador pára, é tomado de um riso histérico; antes já tinha tirado a máscara de Olympia.) IMPERADOR Carne de mãe. Boa e macia. Açougue-modelo. Artigo do dia. (Ri como louco. De repente se vira para o Arquiteto, com ar muito sério, muito triste.) Nunca lhe disse isso, mas você sabe? Quando vou para longe de você. . .(Muito alegre) Quando penso que poderia ter lhe dado um belo golpe com a machadinha e cortá-la em posta. Minha mãe em bifes. (De novo, muito triste) Você nunca soube, mas quando me afasto de você para ir. . . (Muito digno) Ir à privada, porque. . . (Ri.) Minha mãe era um caso sério. Espero que você não tenha acreditado numa só palavra do que disse Madame Olympia de Kant. (Triste) Pois bem, hoje você vai saber de tudo, vou lhe dizer toda a verdade. Afasto-me de você para blasfemar. ARQUITETO Mas por quê? Não quer blasfemar comigo? IMPERADOR (triste) Não me obrigue a causar escândalo. Não esqueça essas palavras históricas: “Se tua mão é causa de escândalo, é melhor cortá-la”. “Se teu pé. . .” Será por isso que hoje em dia há tantos pernetas? ARQUITETO Não há escândalo algum. Se quiser podemos blasfemar juntos agora. IMPERADOR (inquieto) Juntos? Eu e você? Blasfemar? ARQUITETO Claro, seria maravilhoso IMPERADOR
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Que tal blasfemar com música? ARQUITETO Ótima idéia! IMPERADOR Qual será a música que mais chateia Deus? ARQU ITETO Você deve saber melhor do que eu. IMPERADOR Blasfemar com um fundo de música militar deve dar tanto prazer quanto um chute nos culhões. (Triste) Sabe o que faço quando vou pra longe? Evacuo com grande dignidade, em recolhimento. Depois, com o produto, que me serve de tinta, escrevo: “Deus é um filho da puta. . .”Você acha que um dia ele vai me transformar em estátua de sal? ARQUITETO Porque agora ele transforma as pessoas em estátua de sal? IMPERADOR (grandiloqüente) Imbecil! Não leu a Bíblia? É inacreditável! Que juventude! Você não sabia? Deus o transforma em estátua de sal ou faz chover fogo do céu ou inunda a terra de água. Por isso, tome cuidado! ARQUITETO Está bem, vamos ou não vamos blasfemar juntos? IMPERADOR Como, você não tem medo? ARQUITETO Mas, você disse. . . IMPERADOR Não me faça recordar meus pecadinhos da juventude! Você nada sabe sobre as fraquezas da carne. Ouça com atenção. (Toma a atitude dum tenor e canta com ênfase, num tom de ópera.) Merda para Deus. Merda para sua imagem divina. Merda para sua onipresença. (Ao Arquiteto) Faça ao menos tra-lá-lá-lá-lá. Odeio Deus e todos os seus milagres. ARQUITETO Trá-lá-lá-lá-lá-lá. IMPERADOR (furioso) Animal! Como ousa me interromper? ARQUITETO Você, você quem pediu. . . IMPERADOR Cale a boca! Não viu que eu seguia a minha inspiração? Pensa que é fácil cantar ópera? (Pausa.) A propósito do julgamento, onde é que estávamos? ARQUITETO Agora, é você que está interessado?
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Vamos ouvir o que o acusado tem a dizer em sua defesa. O tribunal acredita ter ouvido todas as testemunhas.’” IMPERADOR (impaciente) Brincadeiras.. Que acham da carta que encontramos: “Como o pássaro que voa para as margens sobre a cabeça dos pescadores que remam.. nas claras noites de luar. ARQUITETO (murmura e por fim lê) “Quando ele era pequeno. Nada de especial. IMPERADOR A ladainha de sempre: todo o amor que ela me dedicou etc. Que entre a testemunha seguinte. ultimamente ele ficou muito esquisito. passeamos no bosque.. . ARQUITETO (resmungando. depois se embrulha num xale. reconheço o estilo da minha mãe. Se Cícero se levantasse do túmulo. . brincadeiras inocentes. . enquanto lê para si mesmo) Ham. .) ARQUITETO A justiça será feita.” IMPERADOR Não diga mais nada. as estrelas Me chamam para o interior de meu cérebro. O Imperador executa uma dança endemoniada. que interessante! “Fui sempre para meu filho como uma rocha. para ele. Arquiteto tira a roupa de presidente e coloca a máscara de mãe. como um radiestesista. e canta. me faz mil malcriações sem nenhum motivo. Você nunca vai fazer justiça nessa ilha perdida. Quando. Um momento. que me .. ARQUITETO Não esqueça que ela escreveu essa carta alguns dias antes do seu pretenso desaparecimento. eu tinha de deitá-lo na calçada. tenho a impressão de que ele me espiona. meu tesouro. . depois aparecer. (O Arquiteto põe a máscara de presidente do tribunal.. como uma biblioteca. . cobri-lo com um lençol. . que catilinárias ele iria compor para nós. IMPERADOR O que é que eu tenho com o desaparecimento dela? ARQUITETO (lendo) “Temo que alguma coisa horrível aconteça. morreu longe da sua mãezinha. não dançamos mais a farândola como antigamente. De noite.) IMPERADOR De noite. (O Imperador sai correndo. com o qual cobre a cabeça. etc. . 61 .. levantar o lençol e dizer: “Meu filhinho. as estrelas Se cobrem de meias e ligas de mulher.IMPERADOR Volte imediatamente para o seu lugar.

estou aqui para ajudá-lo. ARQUITETO (mãe) Filhinho. Olhe. . Está sempre só. O Imperador.Arquiteto-mãe dança com ele uma espécie de farândola. meu pobre filhinho querido. .(O . sou muito infeliz. sentado de costas para a mãe. IMPERADOR Mamãe.) IMPERADOR (pára de repente) Vou dar você para o cachorro. sou uma banana. IM PERADOR Você vai ficar sempre junto de mim para me ajudar? ARQUITETO (mãe) Mas que idéia! Você não gosta mais de mim? IMPERADOR Gosto. ARQUITETO (mãe) Meu filhinho. (O Arquiteto-mãe levanta os pés. O Arquiteto-mãe canta uma canção de ninar.) Filhinho. Ninguém gosta dele porque é melhor do que os outros. Todos têm inveja. (Pousa a cabeça no colo do Arquiteto-mãe. ir ao cinema. deixe-me sentar a seus pés como quando eu era pequenininho. apóia o pescoço contra a planta dos pés do Arquiteto. ARQUITETO (mãe) Que é que você está dizendo. não chore.) Tutu marambá não venha mais cá 62 . Deve sair mais. Você está ficando louco. ARQUITETO (mãe) Venha ao meu colo. ARQUITETO (mãe) Filhinho. IMPERADOR Todo mundo me detesta. que vou niná-lo. como você está perturbado. IMPERADOR Mamãe. meu filhinho? IMPERADOR Vou matá-la e mandar o cachorro comê-la. Posição muito delicada para ser tomada e para ser mantida. me descasque e me coma se quiser. ponha um pouco de juízo nessa cabeça. Pobrezinho. ARQUITETO (mãe) Está bem. meu filhinho.

a dez milhões de anos-luz desse planeta. Você gostou. Subiu na mesa que estava na minha frente. Que é que você tem? Por que não se mexe mais? Olhe como você está sangrando. IMPERADOR Depois. eu mesmo. ARQUITETO Mas quando.) IMPERADOR Que me ouçam todos os séculos: é verdade. eu não queria machucá-la. tive uma vontade horrível de chorar. 63 . mãezinha querida? Contei bem? Fale comigo. dei apenas uma marteladinha. “muito bonito. que os dragões de Satã me queimem as nádegas até que se transformem em dois tamborins escarlates. mas tinha uma madrasta muito má”. De repente ele se levanta. da abertura da sua cabeça escaparam uns vapores e tive a impressão de que da ferida saía um jacaré. Quis gritar por ela. bem de leve. sem ajuda de ninguém. (O Imperador procura. matei minha mãe. Quer que eu dance só para você? (Começa a se contorcer. desapareceu como se fosse um fantasma.) Mãezinha. . e minhas mãos e meus lábios ficaram sujos de sangue. Examinando de mais perto. muito malfeitas. (Sonhador) Que coisa estranha. enquanto dormia. sou eu. Não queria machucá-la. Que todos os castigos do céu caiam sobre mim. (Geme. Sentia-me muito infeliz. ARQUITETO Como foi que você a matou? IMPERADOR Com uma martelada na cabeça. a executar falsas piruetas. percebi que o rosto dele era o meu próprio rosto. mas ela não me respondia.Que a mãe do menino te manda matar (ou qualquer outra canção de ninar). Beijava minha mãe. sua garganta saliente se agitava ofegante e ele me olhava fixamente. . . não sei por que. (O Arquiteto corre e veste a roupa de presidente do tribunal.) “Ela morava num palácio. que seja devorado por mil plantas carnívoras. que me amarrem pelos pés no espaço infinito. E quando procurava aprisioná-lo. . tomado do maior frenesi. que um esquadrão de abelhas gigantes chupe o sangue de minhas veias.” Mãezinha.) ARQUITETO Tem consciência da gravidade de sua confissão? IMPERADOR Para mim tanto faz. e me senti cada vez mais triste e mais infeliz. ARQUITETO Teve morte instantânea? IMPERADOR Teve. recitando) “Era uma vez uma princesa muito bonita que se chamava Branca de Neve”. (A mãe cantarola enquanto o Imperador cochila.

) Escute. não. . . . . . . . meu amigo. diga que. . (Pausa. O senhor está diante de um tribunal. ARQUITETO Ele devorou tudo. . . IMPERADOR Meus argumentos são seus cisnes redondos durante o último período de lua cheia.) Que importância tem? ARQUITETO A justiça deve saber de tudo. IMPERADOR O policial que nós tínhamos. . (O Arquiteto bate na mesa. ARQUITETO O tribunal julgará seus atos. (Tom sincero) Arquiteto. . me condene à morte. o cachorro. cercado de água e de peixes onde as garotas viriam me ver aos domingos. assim minha dor conhecerá todas as escalas do martírio. . 64 comeu o cadáver. você não vai me mandar embora hoje de noite.) Diga alguma coisa. O cachorro. (Imita Fênix. quer dizer. mesmo os ossos? IMPERADOR Os que ele não tinha roído eu joguei na lata de lixo da Faculdade de Medicina. IMPERADOR Arquiteto. sou sua Fênix. apesar de tudo. cheia de fracassos.) Suba nas minhas costas e o levarei ao paraíso das lições obscuras. (Baixa a cabeça. Acho que teria sido feliz num aquário. . Cada dia comia um pedaço.) ARQUITETO O que fez com o cadáver? Como explica que não tenha aparecido nunca? IMPERADOR É. ARQUITETO Estamos aqui para julgá-lo. . ARQUITETO Nada de histórias. . Arquiteto. Sei que mereço. Eu é que abria a porta para ele entrar. Ele levou muitos dias. . Não quero suportar por um minuto a mais essa vida frustrada. sei que sou culpado. timidamente. mas que mal há nisso?. . . . Em vez disso. diga de uma vez que você me condenou.(Pausa. ARQUITETO E você não impediu? IMPERADOR Eu. IMPERADOR (num tom muito falso) Como um barco com as velas infladas pára em todas as escalas do seu itinerário. diga que é. . . .

Fale de uma vez. IMPERADOR Mas sobretudo. IMPERADOR Queria ser morto por você com uma martelada. é a última vontade de um condenado a morte. . Arquiteto. 65 . você mesmo vai me matar. IMPERADOR (emocionado) Você está falando sério? ARQUITETO Muito sério. mas parece que você levou a sério. você está falando sério? IMPERADOR Muito sério. IMPERADOR (mudando de tom) Mas hoje não estávamos brincando. ARQUITETO Acho que podemos satisfazer os seus desejos. ARQUITETO Seu julgamento. . IMPERADOR Posso escolher minha morte? ARQUITETO Fale. seu processo. Imperador. ARQUITETO Não deseje. . ARQUITETO Hoje é um dia como os outros. IMPERADOR Depois da minha morte. . era apenas mais uma brincadeira. IMPERADOR Posso saber qual será meu castigo? ARQUITETO A morte. . exija. . você sabe que eu gosto de você.ARQUITETO Você será julgado com grande severidade. ARQUITETO (tirando a toga) Imperador.

. O Imperador se aproxima dele e lhe beija muito cerimoniosamente a testa) Na testa? IMPERADOR Eu o respeito. . esses vagabundos. . que você me coma.) QUADRO II Algumas horas mais tarde. Você deve me comer inteiro.) O que é que está acontecendo? Não me obedecem? Sou eu quem fala. Quando volta a luz. E eu aqui sozinho. Quando a cena se ilumina. . mas em vão. . comê-lo. Quem me levará agora para a Babilônia no dorso de um elefante? Quem vai coçar minhas costas para eu dormir? Quem vai me açoitar quando eu quiser? (Dirige-se para as folhagens) Toupeiras. A mesa está posta como para uma refeição. Arquiteto. IMPERADOR Eu exijo. Sobre a mesa que antes serviu para o julgamento jaz o cadáver nu do Imperador.IMPERADOR Não. confessei-lhe muita coisa que não queria confessar. O pé resiste. Espera inquieto. (Estende a mão. À medida que se passa a ação. Depois de um grande tempo de expectativa um machado aparece entre as folhagens). . que é que você entende disso? ARQUITETO Ensine-me. o Arquiteto toma a voz. Serra com o serrote. para que eu consiga arrancar esse maldito pé. É meu castigo. . ARQUITETO Frágil! Tinha o tornozelo muito duro. o Arquiteto aparece. . Tragam-me um machado. Que 66 . são esses os meus últimos desejos! ARQUITETO Fale. (Estende a mão. entendeu? (Escuridão. o Arquiteto está cortando o pé do Imperador com um garfo e uma faca. Você me beija? (O Arquiteto fecha os olhos. Que seja ao mesmo tempo eu e você. eu sou o Arquiteto e não o Imperador.) Matá-lo. IMPERADOR Desejo. que me coma. com um enorme guardanapo amarrado ao pescoço. desejo. Dirigindo-se para a cabeça de morto do Imperador. Será que não me obedecem mais? Vejamos. que é que você tem nos ossos dos pés que não há jeito de quebrar? (Entra na cabana e sai com um serrote rudimentar. vão buscar um machado. ARQUITETO Mas morrer não é uma brincadeira como as outras: é irreparável. Custaram. IMPERADOR Hoje você vai me matar: você me condenou à morte e deve executar a sentença.) Eh! Imperador. como tudo que me ensinou. . (Serra um pouco para arrancar. era diferente. ARQUITETO Tanto faz. não acontece nada. o tom. os traços e as expressões do Imperador. .

Furioso. depois vou para outras praias com a minha canoa.) Comê-lo assim. Que idéia: o dia todo mexendo nele. é melhor eu esquecer isso. (Tempestade e chuva.) Sufoco. fiz todos os exercícios e no entanto não obedecem mais. . exceto quando. Começa a amarrar. você podia reclamar. . . E quando ele inventava de mexer no sexo. sem molho. para a cabeça do Imperador. entra na cabana e volta com um pedaço de papel na mão. (Espera angustiado. Como é que elas se arrumavam para se deixar bolinar com todas essas quinquilharias? (Terminou de amarrar o espartilho. Na outra. Então há uma outra vida. ..) Que é que você quis dizer com isso? Purgante. afinal de contas. isso é tudo que desejo. botando para fora. . . Os santos falam depois de mortos. Leva-o aos lábios para beber. mas só um uísque. Está uma meleira na minha cabeça.) Por favor. Você me fazia companhia. Segura o pé e o examina bem de perto. Maldito espartilho! Quem inventou isso? Por que mandou disfarçar-me com as roupas da sua mãe? Bem. ele os pendura num galho. . Transformou a água em purgante. bosta. Olhe esse copo d’água. (Com o machado na mão se dirige para o Imperador. (De repente começa a rir. aterrorizado. diga alguma coisa.) Sabe. não me lembro de nada. . Por que você não fala comigo? Diga ao menos que é meu amigo. Veste. faça um esforço. (Para poder melhor apertar os laços. sem nada acontecer. Amarra com violência. (Espera um pouco. . o chamado de dez mil trombetas de Jericó. joga-o longe. Se tivesse uma mesa com três pés me comunicava com ele. (Furioso) Está bem. (Levanta o copo. comer seu cadáver. (Tira o espartilho.a chuva e a tempestade caiam imediatamente. Toma o copo de água que tinha levantado antes. Se eu lhe pedisse para fundir um sino de igreja e tornar fecundas as mulheres estéreis que o tocassem. ia esquecendo o principal. onde é que estão esses malditos livros de piedade? Mas. (Morde furiosamente o pé do Imperador. faça-o virar uisque. Se não me falha a memória. Numa. Estou inquieto. Ouço. Você é um trapaceiro. Será que é sexta-feira? Acho que não. Estou muito sozinho. tem essa história de sexta-feira e de cruzadas. Morde e saboreia a dentada. Em sangria. Fico com a boca cheia d’água. sinto muito. não falo mais com você. (Dirigese para a cabana e volta com uma grande mala onde está escrito com letras grandes: “Roupas de minha mãezinha adorada”‘ Abrindo a mala) Que cheiro! Porra! Essa senhora deve ter feito xixi em cima disso. contemplando. Promete que vai ressuscitar. Os calos. Envolve-se num xale e coloca um chapéu rococó. Ora bolas. . um pouco grande. É ele quem ri.) O quê? Isso também não? Sinto-me diferente. qual a minha religião? Bem. (Põe sal. (De repente pára de comer. . você mesmo me contou. fedia mais que uma lebre. (Faz cócegas na sola do pé. Lendo o papel) “Quero que se vista como minha mãe para me comer. Qual é mesmo a religião que proíbe comer carne às sextas-feiras? Esse nojento do Imperador! Não me disse.) Espero que hoje não seja dia de jejuar.) Ah! Ainda bem! Antes tarde do que nunca.) Que mãe maravilhosa eu fico! Minhas entranhas estão prestes a engendrar o próprio Nero. isso me fornece a ocasião de ser shakespeariano e de dizer um monólogo.) Aqui estão os cinco dedos. .) Em vinho branco. . (Está sumariamente disfarçado de mãe. Golpeia violentamente o pé do Imperador e consegue cortá-lo.) Porco. Banhei-me na fonte da juventude. quando o escondia entre as pernas. Que se dane. Senta-se à mesa e come cerimoniosamente mais um pedaço do pé do Imperador. vestido como sua mãe. Como ele dizia: estou só. eu sou Sarah Bernhardt. um além. Viva Deus. Belo pé. Fedem mais que o Imperador. Em todo caso ainda tenho 67 .) Hum! até que é gostoso. Acabe de morrer sozinho. vindo das águas. um esforçozinho. Se isso é um milagre.. onde as crianças correrão como as rainhas de Sabá e onde os velhos dominarão as mulheres de mãos acariciantes.) E. Essa é a última coisa que faço por você. haréns. (Inquieto) Mas não era assim que falava o Imperador? Abaixo a monarquia! Estou cheio de você e da sua mãe. (Espera. Qualquer um. Do meu ventre vai nascer a luz que vai me guiar para um país onde viverei sufocado de felicidade. um salzinho até que não seria ruim. Que diabo. Era uma criança. Não deve mais sentir cócegas. um santo de botequim. Então um ainda mais fácil: transforme a água em vinho branco. . Toma-o nas mãos.) Vamos. todas proíbem a masturbação. Não esqueça de vestir o espartilho de lacinhos” Ora. dava a impressão de que não tinha. . .para que sinta a sua presença. Pára de mastigar e fala chorando. (Devora um grande pedaço do pé. é melhor não misturar as coisas. Faça um milagre. É tão fácil. onde é que está o papel? (Sai. (De repente muito inquieto) O papel.) Para que todos esses lacinhos? Espera aí! Será que eu estou falando igualzinho ao Imperador? Que é que está acontecendo comigo? Estou falando sozinho também. Faça um milagre para mim. E um copinho pequenininho.

eu compreendo. . Depois que tiver comido o cérebro dele com todo o ácido nucleático.E o sol? Será que o sol ainda me obedece? Vamos verificar: que caia a noite. vou ser feliz. .) Que desapareçam todos os traços da ceia imperial! Enfim só! Agora tenho certeza. O Arquiteto tem a mesma entonação de voz que o Imperador. Aqui está o maldito osso. Sem complicações. (Escuridão. sem sujeição. Retomando) Já disse. sem mentir. Bem que mereço uma sesta. . (Empurra a mesa onde estão os ossos e a mesa desaparece. onde formam uma espécie de esqueleto deslocado. . (Estende uma perna e olha na direção oposta. Sereno. Vá buscar uma rede para mim. Chupando de novo o último osso. Uma cabra.) Ei.) Mas como? Não querem me obedecer? (Dirige-se para as folhagens. esqueço todo o passado.) QUADRO III Sobre a mesa não restam do Imperador senão os ossos. Desaparecem totalmente aos olhos dos espectadores. quando mandar fazer o bispo ela vai se ajoelhar. mas para tê-lo mais presente ainda no espírito. que terminei.) Falo sozinho como se estivesse com ele. (Espera com confiança. o purgante era para a mãe dele. o Arquiteto está chupando o último osso. ela fará um rabisco.) IMPERADOR (Arquiteto) Ah! Está aqui. Ele lambe. (Lentamente.escolha. o rosto virado para o lado oposto. Nada de lágrimas pelos outros. .) Sinto-me outro homem. Aspira o cérebro. me faça cócegas. ele o coloca sobre a mesa. vestido como o Arquiteto. uma cabra sábia que vai ser princesa da Caldéia ou imperatriz ou uma freira libidinosa. quando lhe disser para imitar Einstein. você aí. Tranqüilo. (Empurra a mesa com a mão e um dos ossos cai no chão. Faz um buraco. Mais ainda. para não recair em nenhum dos meus erros de outrora. (Espera algum tempo.) VOZ DO ARQUITETO Onde caiu esse maldito osso? (Quando reaparece. os mesmos gestos. . Feliz. dos seus sonhos. (Espera com impaciência. Quando eu lhe mandar assinar com o casco. como sai correndo. (Bate no cinzel colocado atrás da orelha do Imperador. Derrubo tudo. (Ri. (Dirige-se à cabana e volta com um cinzel de escultor e um canudinho. serei capaz de tudo.) Uf! (Terminou de chupar o cérebro. (Não acontece nada. Enfia o canudinho. gorila. deixa escorregar uma das mãos 68 .) Perdi toda a minha autoridade. Para a mãe dele. vou treinar uma cabra. nem uma lágrima pelos outros. Imperador. pedaços de uma substância parecida com iogurte escorrem pelas suas faces.) Agora posso dizer. Uma vida nova começa para mim. isso mesmo. Ele se abaixa para apanhá-lo. Nada de sentimentalismo. É o cúmulo! (Senta-se gemendo tristemente. Preciso tomar cuidado.) Não somente não me obedece.) Coce-me a perna. (Chora.) O que é que está acontecendo? Não ouviram? Pedi uma rede. E preciso me dominar. dos seus pensamentos. (Os ossos ficam sobre a mesa. graças a ele. vão buscar uma rede.) Permite? Primeiro vou chupar teu ácido nucleático. . ARQUITETO Agora que não posso mais dominar os animais. Gorilas da floresta.) Graças ao seu ácido nucleático vou ser dono de sua memória. ela vai por a língua para fora. onde é que você está? Como o pude comer tão facilmente? Você é pó e ao pó há de voltar. Vou estudar e chegarei a descobrir sozinho o eterno movimento do universo. Esqueço todo o passado. Quando volta a luz. . é o Imperador que surge de debaixo da mesa. mas claro.

dizendo) ARQUITETO Cavalheiro. Preciso prestar atenção para que ninguém me veja. nem me perseguir. Tem uma certa elegância afetada.para a perna. como se ela não tivesse vida. A cortina cai na mesma hora. Vou ser o primeiro. procura um refúgio. Com força. E por isso. Escondido dia e noite. No momento em que toca o joelho com a mão.) FIM Casa de Campo. quero dizer. Nesse momento ouve-se um barulho de avião. depois. devagar. 1965. Coce com mais força. Ninguém vai conhecer o talento que possui esse único habitante de um planeta. Segura com a outra mão aquela que o estava coçando. (Louco de alegria) Viva eu! Viva eu ! E merda para os outros! Viva eu! Viva eu! Viva! (Dança feliz. escava a terra. Procura recobrar seu sangue-frio. Estou dizendo com as unhas. Com as unhas. diz voluptuosamente) Assim. já que ninguém me ouve. O Imperador. como um animal perseguido e ameaçado. Com força. louco de alegria.) IMPERADOR Que orgias preparo para mim! Eu sozinho. corre em todas as direções. . Aí. Nada de cigarro. treme. o melhor. e a contempla surpreso. Mais ainda. Explosão.Fígaro. venha me ajudar. recomeça a correr e por fim enfia a cabeça na areia.) “Fígaro – Fígaro . (Canta. aí. Vou cantar árias de ópera. coce. imóvel. de uma ilha solitária. A luz de um megaton é captada pela televisão de um radar a 10 000 km à sua volta. o único. aí. IMPERADOR (horrorizado) Fi! Fi! Figa Figa! Fi! Fi! (Olha-o por um momento aterrado e sai correndo. tapa os ouvidos com as mãos e treme de medo. com a unha. mais embaixo. Traz uma grande mala. Luz forte de chamas.” Que sujeito! E como sou único. com a cabeça na areia. E nada de fogo. O Imperador escuta por um momento. Toca o Imperador com a ponta da sua bengala. Mais para baixo. 69 .Fígaro . Com mais força. Alguns minutos depois o Arquiteto entra em cena. sou o único sobrevivente do acidente. (De repente é tomado de frenesi. agora. É preciso tomar todas as precauções. Com mais força. . a humanidade não vai me invejar.

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