Temporada 04 Capítulo 49

O Beijo Amargo
By We Love True Blood

You know what's different about the first night? Nothing. Nothing... except it lasts forever, that's all.

Sookita abriu os olhos, a primeira coisa que viu foi o céu estrelado, tudo parecia calmo em volta, como se fosse uma noite como qualquer outra. Sua mente estava confusa do que tinha acontecido, teria morrido? Se tivesse morrido não estaria vendo um céu estrelado, provavelmente encontraria um lugar escuro e nada bonito. Ela apalpou o peito sentindo a batida do coração, conseguia mexer as pernas, mas não ouvia muito bem, pelo menos os sons estavam distantes, abafados. Lembrou-se do sorriso de Juan Carlos antes de detonar a bomba, seria difícil de esquecer, assim como ela saiu viva de lá. Virou a cabeça para o lado, forçou a vista para ver a silhueta não muito longe dela. Tentou falar algo, mas nenhum som saiu, uma fraqueza tomava conta de seu corpo, queria ficar ali deitada olhando para aquele céu, e esquecer o que tinha acontecido. Só que não iria fazer isso, precisava descobrir como tinha se salvado e o mais importante, o que tinha sido feito de Tara e as outras pessoas inocentes na boate. Pois Eric estava ali parado na sua frente, jamais o confundiria. Ela se sentou com um pouco de dificuldade, sentia o chão áspero na mão enquanto se apoiava para levantar. Eric estava de costas, parado perto do parapeito. Sookita notou que estavam em cima de um prédio, não muito alto, no padrão dos outros que tinham perto do Santo Martillo. Ao longe a fumava da explosão se misturava com as luzes da cidade. Ela se aproximou dele com receio, não sabia o que fazer e por que somente os dois estavam ali. Ele a tinha salvo, provavelmente voado com ela. Mas e Pam, Nora? Não havia sinal delas. Seu coração apertou pelo medo de algo ter acontecido com Tara, não poderia perder a amiga dessa maneira. “Onde estão os outros?”, ela perguntou parando ao lado dele.

Ele não respondeu, e muito menos se moveu. Continuava parado, com os braços estendidos ao lado do corpo, olhava na direção da boate vários quarteirões a frente. Ela não enxergava nada por causa da fumaça, mas ele provavelmente via tudo o que estava acontecendo. “Eric? Onde...” “Fique quieta.” A voz dele saiu baixa, carregada de emoção, ela reparou numa lágrima de sangue brilhando enquanto escorria pelo rosto dele. “Não entendo por que só nós dois estamos aqui.”, Sookita disse tentando manter a calma. “Temos que ajudá-los.” “Eu trouxe você comigo... só você.”, ele disse não escondendo o desgosto. “Pam... e Nora são como você, devem ter escapado.”, ela disse num fio de voz. Ele balançou a cabeça de um lado para o outro, e voltou a ficar calado. “Obrigada por ter me salvado.”, Sookita tocou no braço dele. “Eu as deixei por sua causa.” Ele se afastou do toque dela como se o queimasse. Andou até o meio do prédio, passou a mão nos cabelos, sempre fazia quando estava nervoso, não olhava para ela. “Depois de tudo...”, ele resmungava baixo. “Eric, por favor, temos que voltar.”, ela implorou. “Voltar para onde? Eu não tenho mais nada.” “Tem seus funcionários... eu tenho Tara.”, Sookita gritou, não escondia a frustração. Ele se aproximou dela parando a poucos centímetros, a altura dele deixando clara a diferença entre os dois. Ela levantou a cabeça para encará-lo, viu a solitária lágrima de sangue secando no rosto dele, sentiu vontade de limpá-la, de abraça-lo e dizer que tudo ficaria bem. “Não me importo com eles.” “Está mentindo. Suas lágrimas dizem o contrário.”, ela o encarava com firmeza, não poderia deixá-lo sucumbir nesse momento, e muito menos ela. “Não me coloque num pedestal como adora fazer.”, Eric limpou a lágrima do rosto num movimento rápido. “Nora deveria estar aqui comigo, não você.”

“Nem Pam?” Agora foi a vez dela se afastar, virou-se de costas para ele, agarrou no parapeito de cimento, mexia com as unhas retirando as partículas, queria abrir um buraco e sair dali. “Só você não deveria, Sookita.”, a voz dele soou cortante atrás dela. “Seu... seu maldito! Eu não pedi para ser salva, não preciso ficar aqui aguentando suas lamentações.”, ela rangeu os dentes de raiva, se amaldiçoava por ter sentido compaixão por ele. “Vou até lá, sozinha, para salvar minha amiga. Não preciso de sua ajuda.” Ela não teve tempo de se mexer, sentiu as mãos fortes dele se fechando em sua cintura e quando percebeu, já estavam no ar. Agarrou no pescoço dele e manteve a visão no horizonte por cima dos ombros de Eric. Não tinha coragem de olhar para baixo, ainda não se acostumou a voar nos braços dele. Aliás, não tinha se acostumado com muitas coisas, mas uma era certeza, sempre que estava junto dele algo ruim acontecia. Se aproximavam da boate, Sookita percebeu por causa da fumaça escura e começou a tossir. Eric a colocou no chão sem gentileza, olhava ao redor preocupado. Ela sabia o que era, ele queria encontrar Nora e Pam salvas. Ela não conseguia parar de tossir por causa da fumaça espessa, não enxergava quase nada a frente. Começou a caminhar atrás dele, tropeçando nos entulhos que estavam no chão, teve medo de que fossem da boate. Ela rezava mentalmente para que todos estivessem bem, principalmente Tara. Pagaria o que fosse de promessa para continuar com a amiga ao seu lado. “Não se mexa.”, Eric ordenou. “O que foi?”, ela perguntou sentindo uma pontada no peito. “Irei sozinho daqui pra frente.” Ele se virou de repente e segurou um dos braços de Sookita. Ela estremeceu diante do toque repentino dele, não de prazer, mas de receio, como se algo fosse acontecer. “Eu sabia que não ia desistir deles.”, Sookita disse. “Peça por ajuda.”, ele a encarou. “Use seu celular.” Ele disse com impaciência diante da falta de ação dela. Sookita remexeu nos bolsos, encontrou o celular amassado, mas ainda funcionando. Ela respirou aliviada, só não conseguiu digitar, pois ele segurava em um de seus braços. “Eric, sua mão...”, ela disse baixinho.

Ele afrouxou o aperto e retirou a mão de maneira automática. A observava com um estranho brilho no olhar, um brilho que ela não tinha visto antes. E não era o momento certo para perguntar o que significava, além do que talvez não gostasse da resposta. Ela discou o número de emergência e ficou esperando ansiosa por alguém atender do outro lado. Quando deu por si, não havia mais sinal de Eric. Ela olhou em volta e nada. E ninguém atendia do outro lado, ela discou várias vezes e o sinal começou a dar ocupado. Recomeçou a caminhar sem saber em qual lugar estava, andaria para a frente, era o mínimo que podia fazer. E o sinal tinha que melhorar de alguma maneira. Ela tossia cada vez mais por causa da fumaça. Para seu horror não demorou em descobrir onde estava. Mesmo com a pouca visibilidade, ela viu parte da boate destruída. Só duas paredes continuavam em pé, a da entrada e uma lateral vizinha de outro prédio que apresentava rachaduras por causa da explosão. Havia água jorrando de um cano que se partiu, a fumaça continuava subindo por causa dos escombros e por sorte não havia foco de incêndio. A linha do outro lado não respondia, Sookita quase jogou longe o celular, alguma coisa tinha que dar certo. Começou a torcer para algum vizinho ter chamado ajuda, o problema era que estavam numa área comercial e a maioria dos estabelecimentos já estavam fechados. Eric havia pedido para ela ficar afastada, só que não tinha como fazer isso. Ela tentaria ajudar de alguma maneira, mas parou de caminhar quando ouviu um barulho ensurdecedor. Seria mais uma explosão? Ela tentou correr, suas pernas não responderam. Alguma coisa tinha sido jogada do outro lado da boate, ela apertou os olhos para enxergar por causa da fumaça e reparou que era um pedaço de parede. Alguém estava removendo os escombros, o barulho aumentava conforme outra parte era jogada longe. Arriscou em se aproximar para ver melhor, o coração batia acelerado no peito, ela segurou a respiração para não tossir, não queria atrair a atenção de Eric. Sookita o viu alguns metros à frente caminhando pelos escombros e jogando o entulho de um lado para o outro. Ele estava procurando, ele estava salvando as pessoas, ele se importava. Sookita se aproximou o máximo que conseguiu e a fumaça permitiu. Esperava o momento que Tara fosse encontrada. Eric continuava revirando a boate destruída, com a força que tinha não encontrava dificuldades em se locomover e retirar as coisas do caminho.

De repente ele parou quando levantou mais uma parede, olhava para o chão e jogou a parede longe com raiva. Sookita caminhava com cuidado, pisando por cima dos tijolos quebrados, dos restos de objetos, tentava chegar perto dele. Talvez Tara tivesse sido encontrada, e no momento era o que importava. Mas não era sua amiga quem estava deitada ali no chão. Ela reconheceu imediatamente os cabelos escuros de Nora e o rosto de porcelana sujo de fuligem e sangue. A vampira estava inconsciente, não reagiu quando Eric a pegou nos braços. Ele se virou e quase bateu em Sookita, se afastou surpreso em vê-la ali. O movimento abrupto que fez quase derrubou Nora no chão. “Ela está bem?”, Sookita perguntou. Ele não respondeu, a olhou com frieza, e em seguida deu meia volta se afastando dos escombros. “Eric? Onde está indo?” Sookita gritou tentando chamá-lo de volta, ele se afastava para longe dela. Não podia salvar apenas Nora, ainda tinha Tara e outras pessoas soterradas. “Você tem que voltar... tem que salvar Tara... por favor.”, ela gritava desesperada. “Eric? Volte...” Não houve resposta, nenhum movimento vindo do beco que ficava nos fundos da boate. Não havia sinal, ele foi embora com Nora, abandonou todos a própria sorte. Ela olhou em volta sem saber o que fazer, não teria forças para levantar aqueles escombros, além do que havia restos de vidros por todo o lado. E para sua aflição, não conseguia captar nenhum pensamento. Tentou correr na direção dele, fazer o mesmo caminho que fez anteriormente, teria que achar Eric. Ele tinha que estar ali, só levaria Nora para um local seguro, mas voltaria. Ela pegou o celular, discou novamente e nada. Ao longe começou a ouvir o barulho de sirenes, não demorariam a chegar, mesmo assim não poderiam demorar em tirar as pessoas. Sookita parou na entrada do beco, havia outra pessoa e não era Eric. Pam observava a boate destruída desolada, o rosto sujo das lágrimas de sangue. Não fazia ideia de quanto tempo Pam estava ali parada. “Você precisa ir atrás de Eric, temos que ajudar as outras pessoas...”, ela quase mencionou Tara, mas sentiu um nó na garganta. “Ele se foi”, Pam respondeu limpando as lágrimas no rosto. “Embora?” “Óbvio... pegou a amada e se mandou.”

“Não acredito... ele não pode ter feito isso.”, Sookita disse balançando a cabeça. “Por que não o impediu?” “Não importa mais.” Pam caminhou rapidamente na direção dos escombros, começou a retirar os objetos com a mesma rapidez de Eric, e a mesma raiva também. Sookita não iria interrompê-la perguntando como conseguiu escapar da explosão, não queria que Pam desistisse de salvar os outros e fosse embora como Eric fez. “Vai ficar parada?” “O que devo fazer?”, Sookita perguntou se aproximando, começava a enxergar com clareza, a fumaça estava dissipando. “Me dar um pouco do seu sangue.”, Pam disse sem rodeios. “Agora? Aqui?”, Sookita encolheu os ombros. Pam bufou sem paciência, puxou Sookita pelo braço e enterrou os dentes no pulso dela. Era uma sensação estranha se sugada por Pam, só havia deixado Eric e Bill se alimentarem dela. Não sentia o mesmo prazer, a vampira não a sugava de maneira gentil e Sookita desejava que terminasse logo. “Chega!” Ela puxou o pulso com força pegando Pam de surpresa, a ponta da presa roçou no braço dela, fazendo com que mais sangue escorresse. Sookita viu o sangue descendo pelo braço lentamente, começou a sentir tudo rodar, pontos brilhantes piscando na frente dos olhos. “Não vai desmaiar agora não. Ainda terá que alimentar Mariano.”, Pam apontou para o chão. Sookita cerrou os olhos e respirou fundo para não desmaiar, o sangue continuava escorrendo, ela apertava o braço em desespero. Quando ouviu o nome de Mariano, sentiu um arrepio pelo corpo, significava que Tara tinha sido encontrada. O vampiro estava deitado de bruços em cima de Tara, ele a protegeu com o corpo e por causa disso havia perdido um dos braços. Sookita olhava horrorizada, o sangue espirrando pelo braço arrancado, até o osso estava a mostra. Pam o levantou com uma mão e o colocou sentado no chão, o vampiro estava mais pálido do que normalmente se esperava. Olhava preocupado na direção de Tara, do mesmo jeito que Sookita. “Dê seu sangue para ele... Ande... mais rápido.”, Pam disse irritada.

Sookita estendeu o braço para Mariano, se aproximando o suficiente para ele não precisar se locomover. O vampiro exibiu as presas e mordeu o pulso dela, procurando o sangue quente. “O braço... vai crescer novamente?” Sookita perguntou olhando do braço decepado de Mariano para Pam. O vampiro não fez menção em responder, continuava sugando o sangue dela. “Só se o seu sangue for mágico. Apesar de ter um sabor magnífico.” Pam respondeu segurando de maneira desajeitada a cabeça de Tara, apoiando em seu colo. Em seguida abriu um rasgo no pulso com a ponta de uma das presas e deu para Tara beber. “Terá que arrancar esse osso depois, Mariano.”, Pam disse para o rapaz. Ele parou de sugar Sookita repentinamente e voltou-se para o braço, a pele começava a cicatrizar, mas o osso continuava exposto. “Não quero pensar nisso agora.”, ele balançou a cabeça e abriu um sorriso de agradecimento para Sookita, pegou um pouco do próprio sangue e passou na ferida aberta no pulso dela. “Obrigado por me alimentar.” “Você salvou Tara, é o mínimo que eu podia fazer.”, ela respondeu retribuindo o sorriso e massageando o pulso que ele havia curado. “Parem de chamego, temos muito ainda o que fazer antes dos bombeiros inúteis chegarem.”, Pam fez um sinal para que olhassem em volta. Sookita desviou o olhar da amiga que começava a se recuperar com o sangue de Pam e se deparou com outros corpos parcialmente soterrados. Não sabia se tinham sido desenterrados por Eric ou Pam. Ela contou rapidamente quatro pessoas, três homens e uma mulher. Lembrava vagamente de vê-los na boate quando chegou um pouco antes. Ela se aproximou da mulher, ajoelhou no chão ao lado dela, colocou os dedos no pescoço para sentir a pulsação. Conseguiu sentir bem fraco, ainda estava viva e precisava de sangue de vampiro. “Mariano, será que você conseguiria?” Sookita apontou para ele, o rapaz se ajoelhou ao lado dela, fez o mesmo movimento que Pam e começou a curar a moça com o braço que restava. Ela percebeu que Tara estava recobrando os movimentos, voltava a vida. Sookita respirou aliviada, não havia perdido a amiga.

Notou que Pam caminhava entre os corpos restantes, ela balançava a cabeça com pesar, coisa rara de se ver. Sookita ficou surpresa com a tristeza no olhar da vampira, e temeu pelo pior. “Eles... eles estão vivos?”, Sookita perguntou temerosa, não captava nenhum pensamento, apenas alguns esparsos de Tara acordando. “Não”, Pam disse recomeçando a chorar. Sookita se aproximou da vampira, tocou no ombro dela e sentiu o toque gelado de Pam. Olhou em volta, algum daqueles rapazes poderiam ser Jason e ela começou a chorar. A dor nunca iria embora, o sofrimento de Pam era a maior evidência disso, nem os vampiros estavam livres de sentir isso, por mais que desejassem o contrário. ---------------------------------Maya caminhava ao lado de Alcide pela alameda que levava até a mansão do pai de Jessica. Andavam devagar, meio que saboreando a noite e distante de toda a confusão na cidade dos lobos. Aquele momento parecia só deles, ambos perdidos em pensamentos, cada um com seus próprios problemas. Tudo que aconteceu naquela noite na floresta era nebuloso para ela, na sua mente só vinha os chamados de Bastian e o corpo dela respondia com desespero, queria chegar até seu criador de qualquer maneira. A dor de ignorálo chegou a ser insuportável. Desde aquela noite ficou aos cuidados de Jessica e Alcide, ficou sabendo a história confusa dos dois e não entendia muito bem como uma vampira poderia se casar com um lobisomem. Aliás a descoberta de que existiam lobisomens a deixava assombrada. Aos poucos ela foi se recuperando dos ferimentos, alguns haviam sido profundos e graças ao suprimento de sangue fornecido por Alcide, conseguiu melhorar completamente. Voltou a vida de vampira e desenvolveu uma estranha amizade com Jessica. Inclusive descobriu que só estava viva pelos esforços dela naquela noite e pela coragem de Alcide. Maya sentiu naqueles poucos dias ao lado dos dois que os amava, cada um de sua maneira, o jeito fútil e arrogante de Jessica, e o jeito dócil de Alcide. Os dois eram como petróleo e cloro, igual numa música do Silverchair que ela gostava tanto. Era tão doentio e ao mesmo tempo interessante. No fundo todo mundo desejava uma relação como de Jessica e Alcide. Mas com o final feliz e Maya esperava que conseguissem, apesar de que não tinha certeza disso. Ela olhou para Alcide, o lobo estava especialmente quieto nessa noite, não havia reclamado uma vez sobre Jessica, o que era um recorde. E nem sobre o

irmão, desse Maya queria distância. Havia sido raptada e tratada com crueldade por Francisco. Sentiu um pouco de alivio quando descobriu que todos os lobos envolvidos naquela confusão passaram por um tipo de ritual, ela não tinha muita certeza como era, ouviu somente o relato de Alcide. Um ritual que o proibiam de se transformarem em lobo por um longo período e a dor de não virarem lobisomem, especialmente na Lua Cheia, era terrível de suportar. Alcide descreveu como se o corpo virasse ao avesso, as entranhas quisessem sair. A pior dor que um lobo poderia sentir. “Vou sentir sua falta.”, Alcide disse tocando no ombro dela. “Eu também... sua e de Jessica.”, Maya corou ligeiramente. “Você por perto a fez ficar...”, ele procurava a palavra. “Diferente?”, ela arriscou. “Calma, meio mansa. Como nunca vi antes, nem quando estava perto do Senhor Bill.” “Foi divertido brincar de casinha.”, Maya soltou uma risada. “Casinha?”, Alcide arqueou a sobrancelha. “Como se vocês fossem os meus pais. Fazia tempo que não me sentia... em família.” “Jessica iria te xingar se ouvisse isso.”, ele sorriu. “Ela xingou.” Os dois começaram a gargalhar. Maya não queria pensar no momento da despedida, queria agarrar no pescoço dele e não soltar mais. Trocaria a presença distante de Bastian por viver em Monte Juarez num piscar de olhos. Pena que a semana tinha passado rápido demais, como se fosse um sonho feliz. Alcide respirou fundo antes de bater na porta de Bill. Minutos depois o sorridente e simpático pai de Jessica surgiu e os prontamente atendeu. Maya reparou em Bill, o prefeito da cidade, era um vampiro distinto, cheirava a roupa limpa, diferente dos lobos. “Você deve ser Maya?”, ele perguntou estendendo a mão. Ela devolveu o aperto de mão e confirmou com um leve aceno de cabeça. “Sim, Senhor Bill. É a vampirinha que foi parar sem querer em minha cidade. Ela está muito bem, não é?”, ele a olhou ansioso esperando a confirmação.

“Super bem. Acabei me perdendo.”, ela não era boa mentirosa, mas jamais iria colocar Alcide em apuros. “É cria de Bastian? Não sabia que ele havia feito uma vampira.”, Bill disse surpreso. “Sim, Senhor Bill. Não sei quem é o rapaz, mas o nome é esse mesmo.”, Alcide respondeu rapidamente. “Alcide, meu caro, acredito que a menina saiba falar.” “Bastian é meu criador. Preciso encontrá-lo o mais rapidamente.”, ela disse ansiosa, apertando as mãos. “É melhor entrarem.” Ele abriu passagem para que adentrassem na mansão. Maya observava boquiaberta, estavam na casa do prefeito, não poderia ser diferente, ele jamais seria pobre. A casa era decorada com esmero, móveis suntuosos e obras de artes mais vistosas que na casa de Santiago. Eles passavam por várias salas, cada uma de um jeito. Até que chegaram no que parecia ser a última sala na ala esquerda da mansão, havia uma enorme televisão e um sofá aconchegante. “Se puder esperar um pouco.”, Bill disse com gentileza. “Preciso conversar com Alcide em particular.” Maya concordou com a cabeça e desabou no sofá, recebeu uma piscadela de Alcide antes dele sair da sala. Ela remexeu no bolso da calça jeans emprestada por Jessica e que estava bem apertada, não era tão magra como a outra. Pegou uma carta na mão, escrita por Jessica e endereçada para Bill. Jessica a havia obrigado a entregar a carta, dizia ser motivo de vida ou morte, no jeito dramático que adorava usar. Ela não iria ler a carta, não era de sua conta, mas imaginava que Jessica imploraria para deixar Alcide e os lobos. Maya não entendia essa atitude, ela sim faria de tudo para ficar com eles, morar com os avós de Alcide. Ela ligou a televisão e colocou num canal de seriados americanos, precisava treinar o inglês. Meia hora depois os dois homens voltaram, Bill parecia impaciente e Alcide preocupado. Ela desligou a televisão rapidamente e se colocou de pé, havia guardado novamente a carta no bolso, não queria que Alcide visse. “Alcide está indo embora. É melhor se despedirem.”, Bill disse demonstrando pressa.

O momento que não desejavam havia chegado. Ela se aproximou do lobo, parecia tão pequena perto dele. Colocou os braços em volta da cintura dele e o abraçou com toda força. Sentiu a mão dele em seu cabelo, alisando delicadamente. “Irei te visitar quando puder.” “Promete?”, ela disse levantando a cabeça para encará-lo. “Claro.” Ela havia anotado o endereço e colado na parede ele, para que não esquecesse e principalmente não perdesse. Eles ficaram alguns minutos abraçados para desespero de Bill. Maya segurou as lágrimas até Alcide sair da mansão, depois deixou que escorressem livremente. Ela estava parada no hall de entrada ao lado de Bill, sentindo vergonha por estar chorando ao lado de um desconhecido. Tentou segurar o choro e fez um barulho alto na garganta. “Eu preciso ir, não poderei fazer companhia. Um acidente aconteceu no centro da cidade.”, ele disse franzindo o cenho. “Foi grave?” “Espero que não.”, ele afagou os cabelos dela. “Preciso te entregar algo.” Ela remexeu desajeitada nos bolsos apertados e retirou a carta amassada de Jessica. Tentou de tudo para que não ficasse dessa maneira, mas não teve jeito. “É de Jessica.”, ela entregou para Bill. Ele pegou a carta e a guardou no paletó, não parecia interessado em ler, Maya achou estranha a reação e Jessica provavelmente ficaria decepcionada se soubesse. “Não vai ler agora? Ela disse que é urgente.” “Jessica é exagerada.”, ele disse com um sorriso. “Vou mostrar o quarto onde ficará.” “Quarto? Bastian não virá me buscar?”, Maya disse num fio de voz. “Sim, sim. Mas não agora. Combinei para amanhã à noite.” Ela subiu as escadas ao lado dele, gostaria que Alcide estivesse ali ou mesmo Jessica. Não queria imaginar como seria o reencontro com Bastian, só queria

evitar mais brigas e discussões com ele. Provavelmente estaria irritado com ela. Ainda mais quando ela contasse o que sabia sobre a morte de Delilah. -----------------------------O último caixão acabou de ser enterrado, e a noite tomava conta do cemitério de Vale. Sookita e Tara haviam acompanhado os quatro enterros dos funcionários mortos na boate alguns dias atrás. Entre choros e lamentos das pessoas se afastando, as duas continuavam paradas observando o coveiro terminar de jogar a última pá de terra. Sookita não gostava da estranha sensação em participar de tantos funerais, estava se tornando uma rotina assustadora. Havia perdido o de Jason, ainda não sabia o que realmente aconteceu e se um dia iria descobrir. Depois a despedida para Delilah, morta tentando pegar o assassino de Jason. Ambas as mortes acabaram interligadas. E o horror do ataque a boate vitimando outros inocentes. De alguma maneira ela estava envolvida em todos, mesmo que indiretamente. Que coisa ruim ela carregava? Além do que não conseguia esquecer o que fez Eric passar na Autoridade e quase ser morto, sendo que era inocente. “Pam não apareceu.” Tara comentou em voz baixa despertando Sookita dos pensamentos. “Nem Mariano.” “Os enterros começaram de tarde, deve ser por isso.”, Sookita disse. “Sook, adoro como sempre vê o lado bom da vida.”, Tara abriu um sorriso. “Eu tento.”, ela respondeu desviando o olhar. “Nossa, nem vi que o povo todo foi embora.” Sookita olhou em volta, nem o coveiro estava mais lá. As estátuas de anjos com suas enormes asas em cima de alguns túmulos criavam uma atmosfera sombria com a luz do luar. “Jason estaria chorando de medo se estivesse aqui.”, Tara disse se afastando. “Ele odiava cemitérios.”, Sookita soltou um longo suspiro. “E agora vive eternamente em um.” “Ás vezes parece que ele foi viajar, que não morreu, sabe!” Sookita concordou com a cabeça, falar abertamente de Jason não parecia tão assustador como tinha imaginado que seria. Talvez por ser Tara que o conhecia tão bem quanto ela.

“Vou até o túmulo dele.”, Sookita disse caminhando para o lado contrário da amiga. “O cemitério logo irá fechar. Quer que eu vá junto?”, Tara disse. “Melhor você me esperar na entrada, não quero ficar presa aqui a noite toda.”, ela disse com um aceno. “Se encontrar um fantasma... Só gritar.” “Pode deixar.” Ela respondeu enquanto andava entre os túmulos, quando virou para trás não havia mais sinal de Tara. Só o cemitério e os barulhos estranhos, mas ela notou que tinha algumas pessoas visitando os túmulos, não estava tão sozinha como imaginou. Resolveu ganhar tempo e foi na direção da ruazinha que circundava todo o cemitério, andar entre os túmulos seria confuso e acabaria se perdendo. Alguns eram pequenos, outro altos, muitos coloridos de vermelho, amarelo, branco. O túmulo de Jason era simples, assim como todos na família deles. O chão era de pedregulho, fazia barulho conforme caminhava, pelo menos iria saber se aparecesse alguém por ali. O cemitério Nossa Senhora de Guadalupe era o único da cidade, grande o suficiente para acolher todos os mortos de Vale. A avó estava ali enterrada, diferente da mãe de Sookita que foi enterrada no Texas junto do marido. Parou em frente ao túmulo de Jason, era a segunda vez que visitava. Notou que estava bem cuidado, pagava o coveiro para limpar uma vez por mês. Ela não trouxe flores, não tinha esse costume. Fechou os olhos e fez uma pequena prece, fazia tempo que não rezava. Na última vez que encontrou um padre, a conversa não acabou bem. Parecia que tudo aconteceu em Tijuana foi anos atrás, e nem se passou um ano ainda. E ela era tão diferente daquela Sookita que entrou na igreja procurando absolvição. Ela ouviu passos se aproximando pela ruazinha de pedregulho. Abriu os olhos, virou-se de uma vez para descobrir quem era. Mas nada encontrou, só a sombra dela se estendendo no chão. Seu coração saltou, os pelos dos braços ficaram eriçados, era a dica de que deveria ir embora. Sookita recomeçou a caminhar apertando o passo. Não tinha sido uma boa ideia ter vindo sozinha, maldita mania que tinha de querer se esconder quando sofria. Bastava ter cedido que teria Tara ao seu lado e não estaria apavorada de medo do escuro num cemitério sinistro. Apesar de que não estava tudo escuro, havia as luzes fracas dos postes que ficavam metros um do outro. Mas isso significava que tinha partes do caminho na penumbra. Ela balançou a

cabeça, não tinha motivo para ter tanto medo, logo chegaria na entrada e iria embora dando risada por ter sido tão boba. Só que havia uma pessoa parada logo a frente, entre um poste e outro. Ela estacou no meio do caminho, sentindo os joelhos tremendo. Não era uma pessoa comum, ela tinha certeza. Além do que não parecia também um completo estranho. A pessoa não era alta, o olhar brilhava por causa da luz do poste, evitando que ela visse o rosto. A sensação de familiaridade continuava, ela teve vontade de correr para o outro lado, mas seus pés não se moviam. Uma voz surgiu na sua mente mandando que estendesse a mão. Sookita lutou contra a vontade, mas foi inútil. Estendeu o braço sem conseguir controlá-lo. A voz foi crescendo, crescendo, até ficar insuportável. O cérebro parecia que iria explodir. Ela não entendia as palavras, só queria que parasse. “Vá embora!”, ela gritou com toda a força que conseguiu reunir. “Me deixe em paz!” Só que nenhum som saiu, ela gritou apenas em sua cabeça. O mundo a sua volta foi esvaindo, como se fosse uma pintura sendo apagada na tela por um pintor irritado. Seu pés não tocavam mais o chão, ela sentia um formigamento por todo o corpo. Não havia nada em sua mente, o escuro tomando conta. De repente tudo apagou. E ao mesmo tempo voltou, ela sentiu o corpo sendo puxado com força e jogado para longe. Bateu no chão, os pedregulhos entraram dentro de sua blusa, assim como na boca. Sookita começou a cuspir as pedrinhas e levantou a cabeça, estava no cemitério, só que agora embaixo de um dos postes. A mente não estava mais pesada, nem aqueles sons esquisitos e dolorosos. Apertou as pedras entre as mãos para ter certeza que sentia o próprio corpo. Respirou aliviada, e se levantou sem dificuldade. Talvez estivesse sonhando e acordaria logo. “Está louca?” A voz de Eric surgiu atrás dela, num tom seco e irritado. Ela voltou-se na direção dele, mais confusa do que já estava. “O que... faz aqui?”, ela perguntou gaguejando ligeiramente. “Pelo jeito te salvando mais uma vez.”, Eric balançou a cabeça. “Salvando do que? Estou muito bem.” “Porra nenhuma... caminhava igual louca com a mão estendida, te chamei várias vezes e não respondia.” “E você chegou a brilhante conclusão que sou louca...”, ela cruzou os braços.

“Não cheguei à conclusão nenhuma.” “Estranho, achei que tinha deixado claro que não queria me ver nunca mais e estamos novamente juntos.” Sookita se lembrava dos últimos encontros que tiveram e tudo que tinha acontecido. Além do que ele a salvou na noite da explosão, para em seguida deixar claro o quanto se arrependeu. “Estou procurando Pam. Onde está aquela sua amiga?”, ele disse impaciente. “O nome dela é Tara...”, Sookita sentiu vontade de socá-lo por ser tão cínico. “Ela está me esperando na entrada.”, ela apontou para o outro lado. “Vamos.”, ele a segurou pelo braço. “Hey, não vou voar de novo com você. Nem pensar.” Ela tentou se desvencilhar, mas quando tocou no braço gelado dele, várias imagens surgiram em sua mente. Estaria lendo a mente dele novamente? Ela precisava tocá-lo para conseguir? “O que foi?”, a voz dele soou preocupada. “Eu... você...” Sookita estava com os olhos arregalados e ficou tão pálida quanto ele. “Está tentando ler minha mente novamente.”, ele apertou mais ainda o braço dela. “Não... não é isso. Eu estou vendo alguma coisa...” “Não tenho tempo para suas bruxarias. Preciso encontrar Pam.”, ele a soltou e começou a se afastar. “Por favor, volte... volte.” Ela não conseguia esconder o desespero, não poderia deixá-lo voar e ir embora com o que ela tinha visto tão rapidamente. “Sookita, paramos por aqui. Já cometi o erro de salvá-la, não me faça ter mais arrependimentos.”, ele disse de costas para ela. “Cale a boca!” Eric virou surpreso para encará-la, Sookita devolveu o olhar com os punhos fechados. Avançou na direção dele, mas não para atacá-lo como fez uma vez. Ela ficou na ponta dos pés, estendeu os braços e segurou firmemente no rosto dele com as mãos.

“Não fale mais nada, pelo amor de Deus.”, ela implorou. Sookita respirou fundo, puxando todo ar que podia. Fechou os olhos e se concentrou na presença dele, o cheiro que emanava, na falta de respiração e na pele gélida. As imagens retornaram, como em câmera lenta ela conseguiu ver tudo. Cada pedaço, cada cor e cada som. Não era o passado, nem o presente. Era algo que ela não entendia muito bem. Em outro plano, acima do que ela conseguia. “Posso falar?”, Eric disse com um sorriso de canto. “Ou pensar?” Ela apenas meneou a cabeça, abrindo os olhos, não tinha vontade de falar. Queria se sentar naquele lugar calmo, sem pensamentos para captar, na companhia de Jason e dos outros mortos. De repente não sentia mais medo, apenas um vazio. “Bem... o que viu dessa vez? Qual o inocente matei? Devo fugir desde já?” “Você está fazendo um monte de perguntas...”, Sookita apertou o rosto dele entre as mãos. “Claro, como eu disse... está parecendo louca.”, ele deu de ombros, meio desajeitado por causa da altura dela, estavam numa posição diferente. “Não vi nada demais.”, ela não conseguia se afastar dele. “Mentira. Está mais pálida do que eu, como se tivesse visto um fantasma.”, Eric a olhava como se visse a alma. “Talvez eu tenha visto.” “Não me obrigue a te fazer falar o que viu.” “Sabe que não pode me hipnotizar.”, ela o encarava sentindo os joelhos fraquejarem. “Posso obrigar de outra maneira.” A energia entre os dois mudou totalmente, foi de raiva para excitação. Ela jamais entenderia o que se passava entre eles, era tão perturbador e tão delicioso ao mesmo tempo. E desesperador, sentia vontade de beijá-lo e apagar o que viu. E o beijou, como fez nas outras vezes. O rosto dele tocando o dela, quanto mais o puxava de encontro ao corpo. As mãos se enroscando em volta do pescoço, e as dele percorrendo as costas dela. Como ansiava por senti-lo, mesmo sabendo que não era certo. Ela o havia machucado, e ele fez o mesmo várias vezes.

Sookita puxava o ar entre os beijos, não tinha mais noção do tempo, parecia que estava novamente sendo transportada para outro lugar. Só que dessa vez para um lugar cheio de prazer, sem escuridão. Sentia a língua dele na boca, cada vez mais íntimo, como se conhecesse cada parte. Ela gemia demonstrando o quanto ele sabia o que fazia. Apenas os mortos eram testemunhas do que estavam fazendo, apesar de que Eric também era morto. Mas os outros não podiam falar e fofocar o encontro dos amantes. Ele beijava o pescoço dela, forçando com as mãos a blusa dela para cima. A intenção dele era clara, e ela não iria impedi-lo, não tinha forças, pois não saberia quando fariam novamente e se um dia fariam. “Diga... o que viu...”, a voz dele saiu sufocada. “Meu Deus, você nunca irá mudar.” Ela se afastou dele sem esconder a bronca, poderia parecer fácil diante do desejo que sentia, mas não era burra em sucumbir totalmente. “Eu disse que obrigaria.” “Como foi cavalheiro, não precisou chegar no sexo.” Sookita sentia vontade de gritar, como queria ter ido até o final, mesmo que depois ficasse se martirizando. E ao mesmo tempo agradecia por ele ter interrompido. Tudo com Eric era nos extremos, ela desejava e abominava, amava e odiava. “Passamos da fase de sedução, Sookita. Você é como as outras, sem esforço para conseguir o que quero.”, ele soltou uma gargalhada enquanto arrumava o cabelo com os dedos. “Mais insultos...”, ela ajeitava a blusa com raiva. “De repente eu inventei tudo isso para transar com você. Não consigo resistir.” Ela sorriu diante da visão desconcertada dele, ele parou de ajeitar o cabelo. Não era só ele que sabia provocar, de tanto conviver, ela também aprendeu algumas coisinhas. E era uma maneira de se livrar das perguntas incomodas. Ela não iria dizer o que viu, gostaria de imaginar que foi tudo um sonho confuso. “Até mais, Eric. Vá falar com Tara, eu irei depois.” Ela fez um movimento com a mão para ele se afastar. O desconcerto dele foi mudando para ódio, os olhos dele brilhavam. Agora voltaram para a raiva depois da excitação. Eric levantou voo sem dizer nenhuma palavra. Ela se encostou num túmulo grande de pedra-sabão, um belo anjo tomava conta daquele morto. Tentava

recobrar a respiração e os batimentos do coração. Fechou os olhos, as imagens dançavam em sua mente, uma dança macabra de dor e desespero. E morte, essa nunca a deixaria em paz.

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