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Sandra R.H. Mariano Verônica Feder Mayer

Bloqueios à criatividade

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Criatividade e Atitude Empreendedora :: Sandra R.H. Mariano / Verônica Feder Mayer

Meta

Apresentar os principais bloqueios à criatividade.

Objetivos
Ao final desta aula, você deverá ser capaz de:
1. Analisar os três grupos de bloqueios à criatividade:

autocensura, limitações da percepção humana, e bloqueios externos ou ambientais.
2. Identificar estratégias para superar os bloqueios.

Guia da Aula
1. Bloqueios à criatividade 2. Autocensura 3. Limitações da percepção humana 4. Bloqueios externos ou ambientais

Aula 12 – Bloqueios à criatividade

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Criatividade: como superar o medo de falhar
JAIRO SIQUEIRA

S

empre que você tenta fazer alguma mudança, ou criar algo novo, um dos ingredientes mais importantes é a convicção de que você pode ter sucesso

no que está tentando realizar. Você pode ter o desejo e os conhecimentos para realizar o trabalho, mas, se não acreditar que pode, você nem tentará. O medo de falhar é um dos maiores obstáculos à criatividade e inovação, tanto no nível individual como no nível organizacional. No nível individual, o medo de falhar está associado aos temores de parecermos ridículos, incompetentes ou irresponsáveis; de sermos punidos e prejudicados na nossa carreira. Decorre também de nossa educação formal, que nos exige sempre acertar na primeira vez, ignorando o que se passa no mundo real. No mundo real as coisas são bem diferentes, pois temos de lidar com incertezas, e o certo e o errado nem sempre são claros. Para crescer, temos de experimentar, errar às vezes, tentar de novo e aprender com nossos erros e sucessos. A opção de não arriscar e fazer sempre a mesma coisa é a opção pela mesmice e mediocridade. No nível organizacional, há uma batalha permanente entre lucratividade no curto prazo e crescimento. A lucratividade requer eficiência, processos estáveis e controlados, padronização e previsibilidade. O crescimento requer inovação, mudanças nos processos, fuga da rotina e assumir riscos. A opção pelo crescimento implica certa tolerância a tentativas erradas, pois a realidade mostra que raramente a inovação nasce de uma única idéia brilhante. Muitos casos de sucesso são construídos sobre algumas dezenas, centenas ou mesmo milhares de experimentos fracassados (...) (SIQUEIRA, 2007).

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1. Bloqueios à criatividade
A maioria dos homens de negócio é incapaz de pensar de forma original. Eles não conseguem escapar da tirania da razão. Sua imaginação está bloqueada.
DAVID OGILVY

Você viu na Aula 11 que as pesquisas indicam que somos todos criativos. Então, por que muitas pessoas sentem dificuldades para criar? Para responder a esta questão, os especialistas têm se dedicado a conhecer e explorar os bloqueios que nos impedem de criar. Sem considerar problemas mais profundos de ordem pessoal, todos nós podemos sofrer três tipos de bloqueio: 1. Autocensura. Nesta categoria, estão as situações vividas ao longo de nosso processo de educação e socialização, que vão sendo internalizadas ao longo dos anos. Uma “voz interior” confina nossa criatividade aos limites que consideramos aceitáveis. Por causa da autocensura, mesmo quando há um ambiente propício para criar, as pessoas tendem a impedir que sua imaginação voe livremente. 2. Limitações da percepção humana. Nesta categoria, estão as limitações próprias do funcionamento do nosso cérebro, que podem nos impedir de ver o mundo de forma inovadora. 3. Bloqueios externos ou ambientais. Como uma planta, a criatividade também tem necessidade de um solo fértil para atingir o máximo do seu potencial. Ambientes muito restritivos podem impedir os indivíduos de expressar sua criatividade.

2. Autocensura
Veja a Figura 12.1. Nela estão representados alguns dos pensamentos mais comuns que temos, originados do medo de enfrentarmos novas situações.

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Vão me chamar de idiota!

Ninguém vai ligar para o que eu digo!

Vão pensar que sou louco!

Isso nunca vai funcionar!

As pessoas vão rir de mim!

É óbvio demais!

Figura 12.1: O medo de enfrentar novas situações nos leva a ter pensamentos que reprimem as ações.

Um dos livros mais interessantes a respeito do tema foi escrito pelo americano Roger Von Oech: Um toc na cuca. Von Oech é fundador e presidente da Creative Think, uma empresa com sede na Califórnia, especializada em criatividade e inovação. Ele chamou a autocensura de “bloqueios mentais” e identificou dez deles. Veja a seguir.

Fonte: http://www.sxc.hu/photo/548023

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2.1. A resposta certa
Quando as crianças vão para a escola, são pontos de interrogação; quando saem, são frases feitas.
NEIL POSTMAN

Segundo Von Oech, quase todo o nosso sistema educacional objetiva ensinar às pessoas uma única resposta certa. O problema é que a vida geralmente não é assim. A vida é ambígua e nela existem muitas respostas para os problemas que enfrentamos. As respostas que encontramos dependem do que estamos procurando e de como abordamos o problema. Geralmente, é da segunda, da terceira ou da décima resposta correta que precisamos para resolver um problema de maneira inovadora. Uma maneira de ser mais criativo é procurar outras respostas certas. Existem várias maneiras de procurar respostas, mas o mais importante é procurar. Em geral, a idéia criativa está logo adiante. As respostas que encontramos dependem das perguntas que fazemos. Brinque com a formulação das perguntas para obter respostas diferentes.

ATIVIDADE 1. Em busca de várias respostas certas Um cano de metal com uma bola em seu interior está preso no chão de concreto de um quarto vazio.

15cm

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O diâmetro do cano é apenas 1,5 cm maior do que o diâmetro da bola de pingue-pongue que está no fundo. Você é uma das seis pessoas no quarto, que contém os seguintes objetos:
• 100 metros de linha • 1 martelo • 1 serra • 1 caixa de cereais • 1 lixa • 1 varal de arame • 1 chave inglesa • 1 lâmpada

Liste as formas que você pode pensar, em 15 minutos, de pegar a bola sem causar danos ao tubo, ao chão e à bola.

Resposta Comentada

Existem várias soluções para este problema, mas a solução considerada até hoje mais inovadora é urinar dentro do vaso. Invente a sua e depois debata no fórum.

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Metafórica

2.2. Isso não tem lógica
A lógica é um importante instrumento de criação. Seu uso é especialmente adequado na fase do processo criativo, quando uma pessoa está avaliando as idéias e se preparando para colocá-las em prática. No entanto, quando se está à procura de idéias, o excesso de raciocínio lógico pode atrapalhar o processo de criação. Isso porque o pensamento criativo é governado por uma lógica de tipo diferente, que pode ser descrita como metafórica, fantasiosa, difusa, elíptica e ambígua.

Relativo a metáfora. Metáfora: transferência de uma palavra para um âmbito semântico que não é o do objeto que ela designa; sentido figurado; translação.
Elíptica

Que tem forma de elipse. Elipse: Lugar geométrico dos pontos de um plano cujas distâncias a dois pontos fixos desse plano têm soma constante; intersecção de um cone circular reto com um plano que faz com o eixo do cone um ângulo maior que o do vértice.

A metáfora é um excelente instrumento para ajudar a “pensar em algo diferente”. Saia à caça de metáforas e preste atenção às metáforas que as pessoas usam para descrever o que fazem.

ATIVIDADE 2. Em busca de metáforas a. Pesquise três exemplos de metáforas que falem sobre o sentido da vida em formatos diferentes. Exemplos:
• um poema; • uma música; • o trecho de um filme; • uma piada.

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b. Prepare um texto de até 15 linhas sobre sua vida profissional, usando apenas metáforas.

2.3. Siga as normas
Todo ato de criação é, antes de tudo, um ato de destruição.
PABLO PICASSO

Estabelecemos normas com base em razões que fazem sentido e seguimos estas normas. Mas o tempo passa e as coisas mudam. As razões que originalmente levaram à geração dessas normas podem não existir mais. O pensamento criativo não é só construtivo. Pode ser destrutivo também. Freqüentemente, é preciso quebrar um padrão para descobrir outro. Portanto, seja receptivo à mudança e flexível diante das normas. Lembre-se: violar as normas não leva necessariamente a idéias criativas, mas é um caminho. Evite também apaixonar-se pelas idéias. Existem pessoas que se apaixonam por uma abordagem ou um sistema e se tornam incapazes de ver vantagens em outras alternativas. Uma das grandes sensações da vida é perder a paixão por uma idéia querida. Quando isso acontece, você está livre para procurar novas idéias.

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2.4. Seja prático
À medida que as pessoas envelhecem, ficam prisioneiras do hábito. Acham que não têm tempo a perder e se limitam ao que é mais prático. Isso acontece porque abandonamos os jogos de fantasia infantis quando nos dizem “você precisa crescer”. É claro que precisamos ser práticos para quase todas as atividades cotidianas, mas a lógica, que funciona tão bem para julgar e executar idéias, pode reprimir o processo criativo. Em todos nós existe um juiz e um artista. A atitude do artista de mente aberta é característica do modo de pensar da fase germinativa, ou seja, do período em que estamos gerando idéias. A perspectiva do juiz, que avalia e julga, representa o tipo de pensamento da fase prática, quando nos preparamos para executar as idéias. É recomendado evitar pôr em cena o juiz antes de o artista ter realizado sua tarefa. Avaliar antes da hora pode impedir a criação.

2.5. Evite ambigüidades
Quando dizemos que uma situação é ambígua significa que ela possui mais de um sentido, mais de uma interpretação. Ao longo da vida, todos nós aprendemos a evitar ambigüidades por causa dos problemas de comunicação que elas podem provocar. Em situações práticas, quando as conseqüências de um mal-entendido seriam graves, isso é muito importante. No entanto, quando estamos explorando um problema e buscando idéias criativas, existe o perigo de a imaginação ser sufocada pelo excesso de especificidade. Mas como usar a ambigüidade? Se estiver apresentando a alguém um problema, procure colocá-lo de maneira ambígua, deixando espaço para novos sentidos e interpretações. Evite ser muito preciso em suas definições iniciais. Deixe que sua equipe investigue e encontre novas definições para a situação em questão. Use humor, imagens e diferentes perspectivas para colocar a si mesmo ou ao seu grupo em estado de espírito criativo.

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2.6. É proibido errar
Não existe inovação sem que haja experimentação de coisas novas, e coisas novas têm uma alta taxa de falhas. O truque é aprender com os erros inevitáveis.
STANFORD  ROBERT SUTTON & JEFFREY PFEFFER

Há ocasiões em que não se pode errar, mas a fase germinativa do processo de criação não é uma delas. Os erros são um sinal de que estamos saindo dos trilhos habituais. Se não erramos de vez em quando, é indício de que não estamos sendo muito inovadores. Lembre-se de duas vantagens que decorrem dos erros. A primeira é que, quando falha, você descobre o que não funciona. A segunda é que o fracasso lhe dá a oportunidade de tentar uma nova abordagem. Se cometer um erro, trate de usá-lo como ponto de apoio para uma idéia nova que, sem isso, você não descobriria.

2.7. Brincar é falta de seriedade
Muitas pessoas vêem o trabalho e o prazer como compartimentos estanques e mutuamente excludentes; para elas, “brincar é falta de seriedade”. Mas existem dois lados no processo criativo. O lado divertido, que nos possibilita experimentar várias abordagens e gerar novas idéias. E o lado do trabalho, que nos permite avaliar as descobertas e dar a elas uma forma utilizável. Da próxima vez que tiver um problema, brinque com ele. Se não tiver nenhum problema para resolver, aproveite o tempo brincando. Faça do seu local de trabalho um espaço divertido.

2.8. Isso não é da minha área
A especialização é um fato da vida. Para funcionar no mundo, você tem de restringir o foco e limitar seu campo de visão. Quando está procurando gerar novas idéias, porém, essa maneira de manipular a informação pode ser limitativa. Ela não só força você a delimitar o problema de forma estreita como também impede a busca de idéias em outras áreas. Quanto mais amplo e diversificado for seu conhecimento, mais áreas terá onde caçar idéias. Procure analogias nas situações. Geralmente, problemas semelhantes aos seus já foram resolvidos em outras áreas.

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Prestem atenção às idéias novas e interessantes que os outros usaram com sucesso, e façam disso um hábito. A sua idéia precisa ser original só na adaptação ao problema que estiver enfrentando.
THOMAS EDISON

2.9. Não seja bobo
Novas idéias não nascem em ambiente conformista. Sempre que há reunião de pessoas existe o perigo do “pensamento grupal”. Esse fenômeno consiste em que os membros do grupo se interessam mais em manter a aprovação dos outros do que em tentar propor soluções criativas para os problemas em pauta. A pressão do grupo pode inibir a originalidade e, conseqüentemente, idéias novas. Quando todo mundo pensa de forma semelhante, ninguém está se dando o trabalho de pensar muito. Qualquer pessoa que decida e pense criativamente tem que enfrentar os problemas do conformismo e do pensamento grupal. Mas como? Uma idéia é lançar mão da estratégia que os reis da Idade Média utilizavam para se proteger de conselheiros bajuladores: o bobo da corte. Sua função era parodiar as propostas em discussão, protegendo o rei do pensamento grupal e gerando novas idéias. Niels Bohr, físico dinamarquês, ganhador do prêmio Nobel, disse certa vez: “Existem coisas tão sérias que você é obrigado a rir delas”. A observação é pertinente. Tem gente que se liga de tal maneira às suas idéias que chega a colocá-las num pedestal. É difícil ser objetivo quando se investiu o próprio ego em uma idéia. Observe para ver se você ou os outros estão sendo conformistas ou se estão reprimindo o “bobo”. Pode ser que estejam armando uma situação de “pensamento grupal”.

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Curiosidade

Humor como forma de evitar o conformismo no ambiente de trabalho.
SIM A coisa funciona? NÃO

Não mexa SIM Você mexeu nela? NÃO SIM Vai estourar na sua mão? NÃO Finja que não viu

Seu idiota

Alguém sabe? NÃO Esconda

SIM

Então você é um pobre infeliz

NÃO Você pode culpar outra pessoa? SIM Então, não há problema

(autor desconhecido)

2.10. Eu não sou criativo
A maioria das pessoas desiste mais do que fracassa.
HENRY FORD

Um fenômeno que acontece em todos os setores da vida é o da “profecia que se auto-realiza”. Trata-se de um fenômeno pelo qual a pessoa acredita ser algo que não é e age com base nessa crença. Em conseqüência da ação, a previsão se torna realidade. A profecia auto-realizada é uma situação em que o mundo do pensamento e o mundo da ação se interpenetram.

Multimídia

P

ara compreender melhor sobre este tema da “profecia que se auto-realiza”, veja o filme The secret – O segredo, que conta histórias de pessoas que utilizaram a Lei de atração” (fenômeno semelhante a profecia que se auto-realiza) e tornaram-se pessoas bem-sucedidas na vida.

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Os educadores têm prática em profecias auto-realizadas. Há anos, uma professora de Nova York foi informada de que estava recebendo uma turma de superdotados, quando, na verdade, a turma era de crianças normais. O resultado foi que ela se esforçou ao máximo para desenvolver os alunos. Gastou mais tempo preparando aulas e ficava na classe, depois da aula, para dar orientações. A turma, por sua vez, correspondeu de forma positiva e obteve pontos acima da média nos mesmos testes feitos anteriormente e nos quais havia sido classificada dentro da média. Ao receber tratamento de superdotados, os alunos se comportaram como tais. Esse exemplo nos permite reafirmar a idéia de que não existem pessoas sem criatividade. O que acontece é que as pessoas criativas se acham criativas, enquanto as menos criativas acham que não são criativas.

Curiosidade

Dicas de Gestão Você deseja desenvolver seu potencial criativo? Veja as recomendações de empreendedores de sucesso. • Sair da zona de conforto • Trabalhar com o que se tem • Ter atenção aos detalhes • Cultivar a flexibilidade • Aprender a confiar • Aprender com os erros cometidos • Reinventar-se continuamente • Despertar os sentidos • Criar uma comunidade • Manter a fé no potencial criativo

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3. Limitações da percepção humana
Shultz (1993) explica o processamento de informações em nosso cérebro da seguinte forma: Tendo em vista que o número de sensações em nosso ambiente é tão maior do que nossa capacidade de processá-las, selecionamos somente aquelas coisas que percebemos como sendo importantes e ignoramos aquelas que não o são. Assim, limitamos nossa faixa de percepção. Para nos ajudar a lidar com todos os fragmentos de dados, valemo-nos de um sistema denominado transformação e categorização. Em outras palavras, transformamos visões, sons e sensações percebidos em conceitos que são armazenados em nossa memória.(...) As categorias nos permitem prosseguir na classificação e armazenamento da informação. (...) Através do processo de transformação e categorização, somos capazes de armazenar quantidades relativamente grandes de dados e informações em nossas mentes, em apenas alguns conceitos e categorias. O esquema de categorização nos permite operar em nosso ambiente, com toda sua complexidade. Fazemos suposições e inferências, avaliamos e tomamos nossas decisões, considerando os conceitos e categorias descritos por Shultz. Ele descreve nosso cérebro como uma máquina de fazer relações. Relações que se estabelecem através de uma trama de conceitos e categorias interligados, que se parece com uma rede. Novas informações são testadas em relação às categorias estabelecidas, com o objetivo de que sejam encaixadas nas associações já existentes. Se não houver conexões anteriores ou categorias formadas, a mente tende a rejeitar um novo conceito apresentado. A busca pela similaridade com algo conhecido faz parte do nosso processo de julgamento cognitivo. Edward de Bono é uma das maiores autoridades mundiais do campo da criatividade, com mais de 25 anos de trabalho em grandes corporações e muitos livros escritos sobre o tema. Ele é o criador de algumas das técnicas mais famosas e usadas, (que veremos detalhadamente nas aulas seguintes), para estimular o pensamento criativo ou “pensamento lateral”. Para ele, o uso de exercícios mentais estruturados é necessário porque nosso cérebro está preso a padrões que nos impedem de inovar.

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3.1. Os padrões do cérebro humano
O cérebro humano possui um sistema no qual as informações que chegam estabelecem uma seqüência de atividades mentais. Desde a mais tenra idade, uma pessoa recebe informações. Estas informações chegam por meio dos cinco sentidos (visão, olfato, tato, paladar e audição) e vão compondo sua percepção do mundo. Com o tempo, essa seqüência de atividades mentais passa a ser uma espécie de “caminho mental” ou “padrão preferido” para o julgamento das diferentes situações da vida. Os padrões, uma vez estabelecidos no cérebro, são de grande utilidade, porque permitem o rápido reconhecimento das coisas. Não precisamos gastar energia analisando cada informação novamente. Uma vez acionado o padrão, nós o seguimos e vemos as coisas em termos de nossas experiências anteriores. A percepção é o processo de estabelecimento e uso desses padrões. Segundo Edward De Bono, como os rios, os padrões têm grandes áreas de drenagem. Isso significa que qualquer atividade dentro de uma determinada Áreas de drenagem

área de drenagem irá levar ao padrão estabelecido. O resultado é que o
cérebro reconhece padrões instantânea e automaticamente.

A área de drenagem natural de um rio é composta por seus afluentes ou córregos: as chuvas que caem na área de drenagem sempre correm na direção do rio principal.

Curiosidade

O cérebro reconhece padrões

N

osso cérebro é capaz de reconhecer padrões e estabelecer relações em apenas alguns segundos. Faça um teste, tentando ler o texto a seguir.

3M UM D14 D3 V3R40, 3574V4 N4 PR414, 0853RV4ND0 DU45 CR14NC45 8R1NC4ND0 N4 4R314. 3L45 7R484LH4V4M MU170 C0N57RU1ND0 UM C4573L0 D3 4R314, C0M 70RR35, P4554R3L45 3 P4554G3NS 1N73RN45. QU4ND0 3575V4M QU453 4C484ND0, V310 UM4 0ND4 3 D357RU1U 7UD0, R3DU21ND0 0 C4573L0 4 UM M0N73 D3 4R314 3 35PUM4. 4CH31 QU3, D3P015 D3 74N70 35F0RC0 3 CU1D4D0, 45 CR14NC45 C41R14M N0 CH0R0, C0RR3R4M P3L4 PR414, FUG1ND0 D4 4GU4, R1ND0 D3 M405 D4D45 3 C0M3C4R4M 4 C0N57RU1R 0U7R0 C4573L0. C0MPR33ND1 QU3 H4V14 4PR3ND1D0 UM4 GR4ND3 L1C40; G4574M05 MU170 73MP0 D4 N0554 V1D4 C0N57RU1ND0 4LGUM4 C0154 3 M415 C3D0 0U M415 74RD3, UM4 0ND4 P0D3R4 V1R 3 D357RU1R 7UD0 0 QU3 L3V4M05 74N70 73MP0 P4R4 C0N57RU1R. M45 QU4ND0 1550 4C0N73C3R 50M3N73 4QU3L3 QU3 73M 45 M405 D3 4LGU3M P4R4 53GUR4R, 53R4 C4P42 D3 50RR1R!! S0 0 QU3 P3RM4N3C3 3 4 4M124D3, 0 4M0R 3 C4R1NH0. 0 R3570 3 F3170 4R314.
AUTOR DESCONHECIDO

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Portanto, para qualquer lado que olhemos vemos o mundo a partir dos nossos padrões preexistentes. É isso que torna a percepção tão poderosa e útil. Raramente estamos perdidos. Podemos reconhecer e solucionar a maior parte das situações cotidianas. Mas é por isso que a simples análise de informações dificilmente produz novas idéias. O cérebro somente pode ver aquilo que está preparado para ver. Há um caminho dominante do pensamento que se, por um lado, nos ajuda a transitar em um mundo repleto de estímulos e informações, por outro, torna difícil a tarefa de estabelecer novas conexões mentais e de ver situações antigas de forma inovadora. Para estimular nosso potencial criativo, precisamos fugir, mesmo que momentaneamente, destes padrões estabelecidos em nossa mente, estimulando novas conexões mentais – ou caminhos laterais de pensamento, como definiu De Bono. Este é o principal objetivo das técnicas de estímulo do pensamento criativo. É preciso investir tempo, esforço e foco para encontrar uma nova idéia. Uma pessoa motivada para criar deve fazer uma pausa, focalizar um determinado objetivo e praticar o pensamento criativo. Somos o que fazemos repetidamente. Excelência, então, não é um ato, é um hábito.
ARISTÓTELES

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Curiosidade

A percepção pode ser enganada

S

e você confia cegamente em seus sentidos, cuidado! Nossa percepção pode ser iludida e manipulada. Veja, a seguir, alguns exemplos de ilusões óticas.
Autor: Akiyoshi Kitaoka (2003) – Fonte: http://www.psy.ritsumei.ac.jp/~akitaoka/

Os círculos parecem mover-se.
Autor: Elke Lingelbach, do Instituto Augenoptik Aalen, da Alemanha. Fez uma modificação na ilusão chamada Hermann Grid, de data de 1870.

Fonte: http://www.grand-illusions.com/opticalillusions

Quantos pontos pretos há na figura acima?

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Por causa de um efeito de contexto, os círculos centrais parecem ter diferentes tamanhos, mas são exatamente iguais!

Apesar de serem paralelas, as linhas da figura parecem estar completamente tortas!
Autor: Octavio Ocampo.

Fonte: http://www.grand-illusions.com/opticalillusions

Quantas figuras vivas você consegue encontrar na figura acima?

Autor desconhecido.

Autor desconhecido.

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Fonte: http://www.grand-illusions.com/opticalillusions/woman/

Você vê a velha ou a jovem? Esta imagem, intitulada “Minha mulher e minha sogra”, foi publicada em 1915 pelo cartunista W.E. Hill. Even

Fonte: http://www.grand-illusions.com/opticalillusions/queens_speech/

Um cálice? Ou duas pessoas se olhando? Esta famosa ilustração foi criada pelo psicólogo Edgar Rubin

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4. Bloqueios externos ou ambientais
Os autores do livro Criatividade e Marketing, Roberto Duailibi e Harry Simonsen Jr., também sugeriram uma série de bloqueios que estão presentes no ambiente empresarial. Veja a seguir:

1. A pressão para conformar-se. Quando novas idéias são sempre recebidas com temor e desconfiança; é o status quo auto-indulgente. 2. Atitudes e meio excessivamente autoritários. Identificável principalmente na frase atribuída a Ruben Berta, ex-presidente da Varig: “Nesta companhia há sempre três opiniões: a errada, a certa e a minha”. 3. Medo do ridículo. Quando o executivo se recusa a correr riscos por temer à opinião de seus colegas, concorrentes ou de seus subordinados. 4. Intolerância para com as atitudes mais joviais. Empresas que exigem uma atitude séria e compenetrada de seu pessoal, mesmo quando há razões para alegria. Um famoso banqueiro brasileiro, por exemplo, chegou a proibir a entrada de gente com barba ou cabelos compridos nas dependências de seu banco. 5. Excesso de ênfase nas recompensas e no sucesso imediatos. 6. A busca excessiva de certeza. 7. Hostilidade para com a personalidade divergente. 8. Falta de tempo para pensar. Há empresas que sobrecarregam seus executivos de tal forma e por tão longos períodos, que não lhes sobra tempo para dedicar-se a soluções novas ou mesmo para enunciar novos problemas.

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9. Rigidez da organização. É chamada “prisão do organograma”: em geral, é o caso de empresas superestruturadas, cheias de manuais de procedimento, que carecem do ambiente estimulante para a criatividade.

Curiosidade

Resistência à inovação

U

m importante obstáculo que muitos empreendedores enfrentam é a resistência ao que é novo e diferente.

Antes de abrir a Amazon.com, Jeff Bezos passou um mês pesquisando novos produtos e mercados para uma importante empresa do mercado financeiro em Nova York. Após intensa pesquisa, propôs que deveriam abrir, em Seatle, uma livraria virtual para vender livros via internet. Como seu chefe não achou um bom negócio, Bezos pediu demissão e abriu a Amazon.com utilizando suas economias e as de alguns familiares. A Amazon é hoje o maior caso de sucesso de comércio eletrônico e, Bezos, um dos homens mais ricos dos Estados Unidos. Na década de 1990, uma escritora do Reino Unido, com sérios problemas financeiros, criou um mundo imaginário e sem o “cor de rosa” dos contos de fadas tradicionais. A história de um menino órfão que vivia num lugar sombrio, onde crianças e jovens não eram poupados da crueldade e do sofrimento, era longa e sem final feliz. A autora escolheu um caminho difícil, considerando-se que o livro era voltado para o público infanto-juvenil. Mesmo contendo ingredientes como magia, ação e esportes radicais, o livro foi mal recebido pelos executivos das grandes editoras britânicas. Depois de muitas recusas (algumas fontes dizem que oito editoras recusaram o livro, outras falam em doze editoras), os originais chegaram à Editora Bloomsbury, e Barry Cunningham decidiu publicar o livro, que foi finalmente lançado em 1997. Estamos falando de Joanne Kathleen Rowling, a autora da série de livros mais vendida do mundo: Harry Potter. Hoje, J. K. Rowling é a mulher mais rica e poderosa da Inglaterra, segundo a revista Forbes. Sua fortuna pessoal é estimada em mais de 1 bilhão de dólares. A idéia de Harry Potter surgiu inesperadamente na mente de J.K. Rowling durante uma viagem de trem. Os primeiros manuscritos foram rabiscados em papel barato, e escrever o livro ajudava Joanne a passar o tempo, numa época em que sofria de depressão. Ela diz que nunca esperou sustentar-se escrevendo livros, mas só o fato de ter seu livro publicado de verdade já seria um sonho de infância realizado.

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Frases famosas sobre a resistência à inovação 2 “A teoria dos germes de Louis Pasteur é uma ridícula ficção.” (Pierre Pochet, professor de Fisiologia em Toulouse, 1872) “Quando a exposição de Paris se encerrar, ninguém mais ouvirá falar de luz elétrica.” (Erasmos Wilson, Universidade de Oxford, 1879) “O cinema será encarado por algum tempo como uma curiosidade científica, mas não tem futuro comercial.” (Auguste Lumiére,1895, a respeito do próprio invento) “A televisão não dará certo. As pessoas terão que ficar olhando sua tela, e a família americana não tem tempo para isso.” (The New York Times, 1939, na apresentação do protótipo de um aparelho de TV) “Recuso-me a acreditar que um submarino faça outra coisa além de afundar no mar e asfixiar sua tripulação.” (H.G. Wells, escritor inglês, 1902) “O avião é um invento interessante, mas não vejo nele qualquer utilidade militar.” (Marechal Ferdinand Foch, titular de estratégia na Escola Superior de Guerra da França, 1911) “Até julho, sai de moda.” (Revista Variety, a propósito do rock’n’roll, março de 1956) “O Raio-X é uma mistificação.” (Lord Kelvin, físico presidente da British Royal Society of Science, 1900) (
Fonte: DUAILIBI, 1990.

ATIVIDADE 3. Fórum na web Discuta com seus colegas no fórum, depois de conhecer os 3 tipos de bloqueio à criatividade, quais são os bloqueios que limitam a sua criatividade?

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Retomando...
hábitos pode ser de grande ajuda para resgatarmos nosso potencial criativo. Mas o primeiro passo é acreditar que a criatividade está em você.

C

omo vimos, somos todos criativos, mas há muitos bloqueios que nos impedem de criar. Resgatar uma visão inocente e mudar alguns

Referências Bibliográficas
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