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SER HUMANO EM RELAÇÕES :: Reflexão crítica sobre a questão das políticas afirmativas Entendo a discussão sobre as políticas de ação

afirmativa como sendo, socialmente falando, de grande valor para o futuro de nosso povo, considerando a grande desigualdade social – mais especificamente, a racial – percebida em nosso país. Por outro lado, não creio que a discussão esteja de fato relacionada (ao contrário do que comumente se alega) a alguma necessidade de “reconhecimento” do negro (sobre formação histórica da nação, contribuição à construção do país, etc.) – como visto no texto “A Questão das Políticas de Ação Afirmativa”, de autoria da educadora Vera Maria Candau, no qual diz: “diante do reconhecimento desses sujeitos históricos, que muitas vezes foram relegados e negados ao longo da nossa história, do reconhecimento da sua contribuição para a construção dos países latino-americanos, do Brasil, para configurar-nos culturalmente” –, a ponto dessa vertente poder ser usada como base argumentativa, sem nos levar a crer que estejamos tratando de outra coisa senão do passado. A discussão é sobre o agora, não sobre o que causou o problema, mas sim sobre o que o causa; é sobre o presente. Acredito que, se levado a sério, o sistema de cotas, como sendo uma forma de política afirmativa, possa até servir para alavancar uma determinada parcela da população, menos favorecida, como aconteceu nos Estados Unidos na década de 70, no que ficou conhecido historicamente como o “Problema Negro”. Sua utilidade, porém, como política pública, é meramente transitória. O que, inclusive, vale salientar, não pode ser restringido apenas à população negra. Por exemplo, em situação mui similar, existem descendentes de colonos italianos, holandeses e alemães, que vivem em propriedades agrícolas remotas, especialmente no sul do país, os quais, notadamente, estão, tal qual a população negra dos médios e grandes centros urbanos, sem acesso a educação. Nesse caso, são brancos em sua esmagadora maioria. E o que os difere, em termos de direitos, da população negra? (Possuem o mesmíssimo tipo de impedimento para seu desenvolvimento pessoal, seja em termos de educação, inserção no mercado de trabalho ou participação ativa na cidadania da comunidade). E mais, no modelo de cotas proposto, como são tratados os brancos pobres que estudaram em escola pública, desses mesmos centros urbanos, como mencionado no vídeo da reportagem “Sistema de Cotas"? Por que razão são discriminados? Por serem eles brancos? Vejo como sendo contraproducente um tipo de ação, que se diz afirmativa, que não percebe a origem do problema como algo mais essencial, como bem se posicionou Tereza Moreira, Procuradora Federal, em entrevista dada à reportagem desse mesmo vídeo, no qual ela diz, em outras palavras: o problema não reside em não se conseguir ingressar na faculdade, mas num sistema [público] de ensino viciado desde seu nascedouro (leia-se: ensino fundamental e médio). Concluindo, creio fortemente que a discussão esteja, até este ponto, desvirtuada de um sentido de real inclusão, se vista sob a limitada perspectiva das tais “minorias” que estão arvorando sua bandeira. Se estiver limitada a enxergar apenas uma questão étnica, de uma ou outra etnia, segmentando o pleito por essa base de argumentação. A meu ver, inversamente, o que faz, é somente propor incluir alguns, novamente excluindo, só que agora outros. Não consigo imaginar forma de alterar essa disparidade senão igualando as condições, referindo-me, mais precisamente, no tocante a formação educacional básica, ofertada a quem quer que seja, negro ou não. Definitivamente, penso que um ideal de justiça não possa cogitar querer se alicerçar sobre uma nova cisão, como se estivesse corrigindo uma injustiça história – para mim soa como retórica vazia e um novo erro histórico, talvez ainda mais sem sentido do que o primeiro. Em suma, a questão não é racial, mas social – na qual estão envolvidos problemas relacionados à baixa renda e à educação precária.