AMAZÔNIA, SOB FOGO CERRADO Francisco Antonio Romanelli A Amazônia nunca esteve tão em evidência nos meios científicos

e governamentais. Em primeiro lugar, uma revista de circulação nacional, em fins do ano passado, informou que o desmatamento estava diminuindo. E os que se preocupam com aquele vasto ecossistema respiraram aliviados. Afinal, a informação vinha de fontes possivelmente bem credenciadas. Dois anos antes, o IPA – Instituto de Pesquisas da Amazônia, em trabalho conjunto com o Smithonian Institution, ante o iminente risco de desastre que se potencializava no projeto governamental “Avança Brasil”, publicaram um relatório nada confortável. Segundo suas previsões, até 2020 pelo menos 25% da Floresta Amazônica brasileira teria desaparecido (utilizando-se como parâmetro o ano de 1500, ano da descoberta oficial do Brasil). Isso em uma visão otimista. Uma visão pessimista apontava o desmatamento de cerca de 47%. Até 2000, segundo o mesmo estudo, já haviam desaparecido 13% da imensa floresta. A alegria durou pouco. Quando o INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, que monitora, via satélite, a degradação amazônica, publicou seu relatório 2003 (que inclui as medições entre agosto de 2001 a julho de 2002) o susto foi geral. De uma devastação de cerca de 17 mil e 500 quilômetros quadrados apurada no período anterior (agosto 2000 a julho de 2001), o desastre saltara para 23 mil e 500 quilômetros quadrados. O Presidente da República, assustado, pediu novas medições, que confirmaram o quadro nada agradável. A devastação galopante assola sem piedade a floresta. Culpados foram apontados, ora pecuaristas, que estariam desmatando e queimando áreas enormes para criação de gado. Ora, agricultores, que causavam semelhante desastre para abrir áreas de plantação, principalmente de soja. Madeireiros abocanham um bom naco da culpa. A construção da BR 163, que liga Cuiabá a Santarém (fruto do projeto Avança Brasil) é outro dos muitos vilões que interpretam esse drama. Em seguida, vieram idéias de privatização das áreas públicas amazônicas colocando mais lenha na fogueira – digo, na mata. O Estado de São Paulo, publicação renomada de circulação nacional, publicou ontem – 16/8, na seção Geral (pág. A-13), que “Pesquisadores brasileiros e americanos vão tocar fogo na Amazônia a partir de hoje. O experimento faz parte do Projeto Savanização, que vai estudar a dinâmica do fogo e os seus efeitos sobre a floresta em áreas de transição com o Cerrado, a savana brasileira. Os pesquisadores querem saber detalhes como a velocidade de propagação, a temperatura e a altura das chamas de uma queimada em diferentes situações”. Os ruralistas, bancada de produtores rurais na Câmara e no Senado, querem que a lei seja modificada, para que apenas 20% da Amazônia brasileira possam ter o status de área de preservação. A soja avança, a criação de gado avança, a economia avança, a estrada, a despeito das muitas controvérsias e brigas judiciais a respeito, também avançará. O fogo transforma parte do território em cerrado. A floresta chorou gotas de chuva maiores de que quaisquer outras anteriormente anotadas pela ciência. Sem dúvida, a maior floresta tropical do mundo, que abriga o maior volume da água do planeta, a maior biodiversidade da Terra, está esmorecendo, sob fogo cerrado...

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