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Ordem do Progresso – Cap 13

A partir da segunda metade da década de 80, o foco da política econômica brasileira passou a ser o controle da inflação, que tinha características peculiares, resistindo a pressões deflacionárias de recessão e desemprego. O diagnóstico realizado era de que a inflação brasileira seria inercial e o meio para a sua estabilização seria a ruptura dos mecanismos de indexação, para a correção monetária dos preços, salários, taxa de câmbio e ativos financeiros, que tenderiam a propagar a inflação passada para o futuro. A nova República foi instalada no âmbito do “pacto social”, visto como necessário para conciliar os pleitos da população por aumentos de salário real com a meta de reduzir as taxas de inflação. No entanto, de início, a política econômica do governo foi de cunho ortodoxo, com o anúncio apenas de medidas de austeridade fiscal e monetária, que visavam facilitar as negociações com o FMI. Mas tais medidas restritivas poderiam levar algum tempo para surtir efeito deflacionário na economia, portanto, o ministro da Fazenda Francisco Dornelles determinou o congelamento de preços para o mês de abril de 1985. Além disso, as fórmulas de cálculo da correção monetária e das desvalorizações cambiais foram modificadas, estendendo a memória do processo inflacionário de um para três meses. Até março de 85, as correções eram determinadas pela inflação do prórpio mês vigente, cuja imprevisibilidade aumentava a incerteza nos mercados aberto e cambial.A partir de abril, as correções passaram a ser feitas através de uma média geométrica da inflação dos três meses anteriores. Tais medidas surtiram efeitos imediatos na taxa de inflação, reduzindo-a de 12,7% em março de 85 para 7,2% em abril de 85. Entretanto, o bom desempenho pode ser quase que inteiramente explicado pelo não reajustamento de duas classes de produtos que representavam por 60% do índice de inflação, os produtos siderúrgicos e os derivados de petróleo. O governo decidiu manter o congelamento de preços, entretanto, como os custos de produção cresceram em termos reais, o cogelamento foi gradativamente colocado sob pressão. Em junho se deu início ao processo de decompressão dos controles sobre os preços privados e de descongelamento dos preços públicos. A recompisação dos preços estava apenas iniciando quando houve um choque de oferta agrícola, impactando fortemente a taxa de inflação. O fracasso do pacote antiinflacionário de março de 85 culminou, com a demissão do ministro da Fazendo, no fim da primeira fase da política econômica da Nova República. Dílson Funaro assumiu o ministério da Fazenda anunciando medidas antiinflacionárias mais modestas, como a estabilização da inflação em 10% ao mês. As regras de indexação foram revisadas com o intuito de evitar a propagação da taxa de inflação auferida no mês de agosto, que devido ao choque de oferta agrícola, ficou na casa dos 14%. As correções monetárias voltaram a ser feitas pela inflação do mês em curso e a maioria das tarifas e preços públicos voltaram a ser corrigidas mensalmente, ratificando a tese de que a estabilização da taxa de inflação seria obtida às custas de um aumento do grau de indexação da economia. Além disso, o controle sobre a base monetária fora relaxado, fazendo com que a taxa de juros real declinasse como resultado de uma política monetária menos restritiva, tornando-se mais compatível com a recuperação econômica. Tais mudanças indicavam que a economia estaria se direcionando para a indexação plena, no entanto, não havia um regra clara e amplamente aceita para a indexação dos salários, que permanecia sendo feita baseada na política de reajustes semestrais. Em novembro de 85 houve novo choque de oferta agrícola que aliado com a inflação reprimida, levou o IGP-DI a registrar 15% neste mês. Numa tentativa de diminuir o grau de indexação da economia, o governo trocou o índice que media oficialmente a inflação, deixando de ser o IGP-DI para ser o IPCA, uma vez que este último marcou uma elevação nos preços de 11,1% no mês de novembro. A vantagem do IPCA sobre os outros índices seria sua menor sensibilidade a choques de oferta agrícola e cambial, o que ajudaria a amortecer os reajustes que eram indexados à taxa de inflação oficial. Entretanto, este ganho teria de compensar o fato dos preços ao consumidor serem mais difíceis de se controlar do que os preços por atacado, que representavam 60% do IGP-DI.

Em dezembro de 85. representando novas pressões de custos. Os salários foram convertidos com base no poder de compra médio dos últimos seis meses mas não foram congelados. colocando a economia na rota da hiperinflação. ao qual o cruzeiro estava atrelado. Tal fracasso marcou o fim da segunda fase da política econômica da Nova República. Os salários seriam corrigidos automaticamente com base em 60% da variação acumulada do custo de vida. que vai de julho a outubro de 86. Tal congelamento ocorreu com base nos preços vigentes em 27 de fevereiro de 1986. o que viria a ocorrer com o Plano Cruzado. a decomposição das taxas mensair já indicavam um excesso de demanda na economia. variavam a taxas de 4 a 5% ao mês. gerando desequilíbrios de preços relativos que posteriormente gerariam pressões desestabilizadoras ao plano. fiscalizavam os comerciantes. resultando num novo programa de estabilização o Plano Cruzado. agravando a distorção de preços relativos. o governo havia anunciado um pacote fiscal com o objetivo de eliminar as necessidades de financiamento do setor público. a política monetária buscou acomodar o aumento por demanda de moeda. Plano Cruzado Foi lançado em 28 de fevereiro de 1986 o Plano Cruzado que promoveu uma reforma monetária. a despoupança voluntária causada pela ilusão monetária. com exceção das tarifas industriais de energia elétrica. a taxa de inflação caiu abruptamente. O plano foi recebido com grande entusiasmo pela população. e a fase de fracasso.A inflação não mostrava sinais de arrefecimento e considerando-se a extensa indexação da economia. Um abono salarial de 8% foi concedido a todos os assalariados. uma vez que resultaria na perda do imposto inflacionário. que. facilitando a aceitação dos mesmos pelo método de conversão média. que vai de novembro de 86 a junho de 87. A fase de sucesso do plano é caracterizado por uma queda substancial da inflação e também pelos primeiros indícios de existência de excesso de demanda na economia. que dispararia sempre que a taxa de inflação atingisse 20% ao mês. Além disso. No Plano Cruzado não houve um planejamento em relação às políticas fiscais e monetarias. Entretanto os ganhos projetados de receita não se materializariam com o fim do processo inflacionário. o governo não teria condições de manter os reajustes salarias na frequencia semestral.4%. Se isso acontecesse. sem qualquer compensação pela inflação passada. que não eram controlados. Os preços de vestuário e de carros usados. Um dos aspectos primordiais do plano foi o congelamento dos preços por tempo indeterminado. estabelecendo o cruzado como nova moeda nacional. Entretanto. O governo não viu necessidade em uma maxidesvalorização compensatória ou defensiva do cruzado devido a posição externa do país que era relativamente boa e a recente desvalorização do dólar. As medidas gradualistas de combate à inflação fracassaram. o declínio do recolhimento de imposto de renda para pessoas físicas. com a taxa de conversão fixada em 1000 cruzeiros por cruzado. surgindo até mesmo um novo fenômeno social. as chamdas “fiscais do Sarney”. O Plano Cruzado pode ser dividido em três fases. No início do plano. Ao longo dos primeiros meses. o temor de que a inflação tendesse para 400%/500% ao ano era real. a fase de iminência do fracasso. sendo que a maior taxa mensal foi verificada em maio era de apenas 1. não conseguindo nem mesmo estabilizar a taxa de inflação. a . O salário mínimo teve um abono de 16% em relação ao poder de compra médio dos últimos seis meses. foi implementado o gatilho salarial. em relação às principais moedas internacionais. A fase de sucesso. monitorando se o congelamento de preços estava sendo cumprido. que obtiveram reajuste de 20%. sendo as mesmas relegadas ao discernimento dos responsáveis pela política econômica. atendendo ao pedido do presidente. O execesso de demanda fora incentivado pelo aumento do poder de compra. que vai de março a junho de 86. uma decisão política afim de promover uma redistribuição de renda em favor dos assalariados. A taxa de câmbio foi fixada no nível vigente em 27 de fevereiro.

com o resíduo inflacionário sendo acumulado para o próximo gatilho. resultou em forte desabastecimento da economia e o surgimento de mercados paralelos. o governo contando com a retração da demanda. a taxa de . e assim. o governo optou por um tímido ajuste fiscal. a inflação ultrapassou o patamar de 20% ao mês e com isso. A população foi contra e com ajuda de alguns governadores e congressistas. o plano expurgava do IPC os preços dos automóveis. com elementos tanto ortodoxos quanto heterodoxos no controle à inflação. no entanto. apenas substituindo as ponderações do IPC. Em janeiro a inflação atingiu 16. Foi. Para alcançar seus objetivos. com base na taxa de inflação média dos 3 meses precedentes. Nesse período inflação oficial permaneceu em níveis baixos. detonando uma explosão no consumo. Não tinha como pretensão a inflação zero ou eliminar a indexação da economia. no anúncio do plano. Previsivelmente. que consistia num pacote fiscal com o objetivo de aumentar a arrecadação do governo em 4% do PIB. o ministro Dilson Funaro deixou o cargo. foi desvalorizado em cerca de 9.7%. suspendeu abruptamente o congelamento dos preços. além da introdução de impostos não-restituíveis sobre a compra de moedas estrangeiras para turismo e passagens aéreas internacionais. tanto a inflação quanto a recessão tem altíssimos custos políticos. Após as eleições. através do reajuste de alguns preços públicos e do aumento de impostos indiretos. promovendo uma modesta desvalorização do cruzado e anunciando uma política de minidesvalorizações eventuais. diminuindo o peso de tais produtos. cigarros e bebidas. pressionaram o governo que recuou. O superaquecimento da economia colocou o governo em uma poisição delicada. Plano Bresser Era um plano híbrido. devido à proliferação do ágio em decorrência do desabastecimento da economia. o consumo reprimido durantes os anos de recessão e o congelamento de preços em nivéis defasados em relação ao seus custos. o Cruzadinho teve pouca eficácia na contenação do consumo. ainda. restando apenas duas opções: ou acabava com o congelamento de preços ou fazia um severo corte na demanda agregada. Em abril de 87. o plano congelou os salários por um prazo máximo de 3 meses. antes do congelamento foram anunciados diversos reajustes para os preços públicos e administrados. o primeiro gatilho reporia pouco mais do que a perda de poder de compra incorrida no próprio mês. Em seu lugar assumiu Bresser Pereira. Em fevereiro de 87. evitar um dos erros do Plano Cruzado. No entanto. O cruzado. que.5%. no período seguinte. A receita gerada por esse ajuste seria utilizada para financiar o Plano de Metas. O principal objetivo era manter a inflação a taxas mais baixas através da redução do déficit público. Em outubro. que tinha por objetivo recompor as perdas passadas e criar uma margem de folga para o período de congelamento. A cada 3 meses seriam préfixados os percentuais de reajuste da URP para os 3 meses subsequentes. e tendo em vista as eleições para a constituinte e governos estaduais. nos níveis prevalecentes em 12 de junho de 87. um programa de investimentos públicos e privados anunciado simultaneamente ao Cruzadinho. Além disso. com o intuito de retardar o primeiro gatilho salarial. O Cruzadinho tinha por objetivo desaquecer o consumo e envolvia a criação de um sistema de empréstimos compulsórios: novos impostos indiretos na aquisição de gasolina e automóveis que seriam restituídos após três anos. lançando o Cruzadinho. Os preços também foram congelados pelo mesmo período dos salários. que visava um crescimento anual do PIB de 7%. entretanto. mas ela não refletia a realidade. as quais o PMDB não queria perder. uma vez que a iminência do descongelamento de preços deu um novo impulso à demanda.redução das taxas de juros nominais. ocorrendo inclusive o contrário. o governo lança o Cruzado II. Instituía também uma nova base de indexação salarial para vigorar após o congelamento: a unidade de referência de preços (URP). o governo descongelou a taxa de câmbio. regulamentada a escala móvel dos salários: os reajustes acionados pelo gatilho seriam limitados a 20%. sendo assim.

temporariamente. havendo apenas uma redução no ritmo das desvalorizações diárias durante o primeiro mês de congelamento. embora a inflação estivesse no mesmo patamar anterior ao lançamento do Plano Bresser. Os resultados do Plano Bresser podem ser divididos em dois períodos. o governo praticaria taxas de juros reais positivas com o intuito de inibir a especulação com estoques e o consumo de bens duráveis.7% para 3. O governo negava reiteradamente a adoção de um novo congelamento. por isso o nome de “Feijão com arroz”. de janeiro a dezembro de 88. A nova política econômica pretendia fazer o simples. com aspectos ortodoxos e heterodoxos. contempla as fases de congelamento e flexibilização do Plano. Pelo lado ortodoxo. . uma vez que a perda de poder aquisitivo dos salários e a prática de taxas de juros reais positivas durante o congelamento. a flexibilidade do novo congelamento permitiu o repasse de tais aumentos aos outros preços da economia. instituindo o cruzado novo. reduzindo a inflação em agosto e o governo deu início à recomposição das tarifas e dos preços administrados. Em seu lugar assumiu Maílson da Nobrega que rejeitou a opção do choque heterodoxo e representou a volta da ortodoxia e do gradualismo no combate à inflação. Os preços relativos não se encontravam em equilíbrio em 12 de junho de 87. O novo patamar inflacionário tornava evidente o fracasso da política “feijão com arroz” e realimentava as discussões acerca de alternativas para a desindexação da economia. o que abalou a credibilidade do Plano. que realizou uma nova reforma monetária. O plano Bresser previa políticas fiscais e monetárias ativas. No âmbito da política monetária. sendo que as minidesvalorizações diárias do cruzado foram mantidas. as primeiras medidas surtiram pouco efeito nesse quesito. Tais pressões inflacionárias levaram o governo já em agosto a reduzir o leque dos preços controlados e a permitir o reajuste de alguns preços. Isso gerou uma onda de rumores sobre um novo congelamento que somadas ao desgate provocado pelas resistências a sua proposta de uma reforma tributária progressista. Ao longo do mês de novembro o pacto já perdia força. A inflação observada era resultante de conflitos distributivos de renda no setor privado e entre os setores privados e públicos. configurando o sucesso inicial e o fracasso posterior do mesmo. extiguindo todos os mecanismos de realimentação da inflação. Tal política foi bem sucedida em reduzir o déficit público. o que ajudou a conter as taxas de inflação. ao contrário do observado durante o Plano Cruzado. Suas metas eram a estabilização da inflação em 15% ao mês e a redução gradual do déficit público. O primeiro período. Para completar. No primeiro período. o programa visava reduzir o déficit público de 6. O segundo período. Em novembro de 88 foi assinado o Pacto Social cujo principal mérito consistiu em conter.câmbio não fora congelada.5%. em julho de 88 a inflação oficial registrou aumento de 24%. a ameaça de hiperinflação. de julho a dezembro de 87. Em janeiro de 89 um novo programa de estabilização foi lançado. No entanto. fez com o que o ministro Bresser Pereira pedisse demissão. Entretanto. Era anunciado como um programa híbrido. o plano pretendia contrair a demanda agregada a curto prazo e pelo lado heterodoxo. utilizando-se novamento do gradualismo. Uma ação pontual do governo em retardar os ajustes dos preços administrados surtiu efeito. não houve pressões de demanda. No âmbito da política fiscal. marca a volta da ortodoxia no combate à inflação. o Plano Verão. o plano pretendia fazer um choque de desindexação mais ambicioso do que o Plano Cruzado. assim como no mercado paralelo de dólar. tiveram reflexos negativos no consumo. Em dezembro a inflação oficial já atingia 14% ao mês. Em setembro a inflação já se encontrava novamente em 24%. que resultou na política “Feijão com arroz”. mas esse resultado foi em parte neutralizado pelas expansões monetárias devido às pressões das operações com moeda estrangeira. O sucesso da política “feijão com arroz” consistiu em evitar a curto prazo uma explosão inflacionária. quando houve o congelamento. devido à majoração defensiva dos preços diante da expectativa de um novo congelamento e aos aumentos de preço feitos pelo governo. limitados a 10%.

. redução das despesas de pessoal através da demissão de funcionários públicos. pode-se afirmar que seu principal mérito residiu na interrupção de uma rota hiperinflacionária. administrar as inevitáveis acelerações da inflação. No entanto. uma vez que: i) não foram solucionados quaisquer dos conflitos distributivos de renda ou atacados os desequilíbrios estruturais da economia. colocando em discussão a necessidade de um novo programa de estabilização diante da proximidade das eleições presidenciais de 15/11/1989. a precariedade do ajuste fiscal e uma expansão monetária nos últimos 12 meses da ordem de 1000% a. que poderiam ser considerados focos de pressão inflacionária a médio prazo. Assim. e v) os trabalhadores manifestaram com veemência crescente sua insatisfação quanto ao poder de compra dos salários. e reduções das pressões das operações com moeda estrangeira. iii) a política monetária foi predominantemente acomodatícia. assim como no Plano Bresser e com os mesmo objetivos.Os preços foram novamente congelados nos níveis vigentes em 15 de janeiro de 89 por tempo indeterminado. Os Planos Cruzado. na véspera do anúncio foram autorizados aumentos para os preços públicos e administrados. aumentando o compúlsório e redução dos prazos de financiamento. controle de crédito ao setor privado.a. traçam cenários inquietantes para a inflação a curto prazo. seriam utilizados três instrumentos básicos: aumento da taxa de juros real de curto prazo. redução do setor produtivo estatal através de privatizações.. Bresser e Verão não produziram mais do que um represamento temporário da inflação. as defasagens apontadas para os preços públicos e administrados. restou apenas ao governo promover desindexações e. Passados apenas 5 meses desde o lançamento do Plano Verão. No entanto. em seguida. as indefinições ainda existentes quanto à reindexação da economia. iv) o setor empresarial passou a se defender com maior presteza e eficácia de quaisquer defasagens dos preços em relação aos custos. o descongelamento de preços no contexto de taxas de juros decrescentes. rigidez na programação e execução financeira do Tesouro. ii) o desequilíbrio das contas do governo se agravou. Em relação à política monetária. O plano propunha um ajuste fiscal que deveria atuar em quatro frentes: redução das despesas de custeio através de uma ampla reforma administrativa.