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Breve Revisão de Anatomia Interna dos Dentes Humanos

Endodontics - Endodoncia

Prof. Dr. Jesus Djalma Pécora
Prof. Titular de Endodontia da FORP-USP

Prof. Dr. Ricardo Gariba Silva
Prof. Associado de Endodontia da FORP-USP

Prof. Manoel Damião de Sousa Neto
Prof Titular de Endodontia da UNAERP

Introdução Dentes Superiores: Incisivos - Caninos - Pré-Molares - Molares Dentes Inferiores: Incisivos - Caninos - Pré-Molares - Molares Referências

INTRODUÇÃO O objetivo desta breve revisão de anatomia interna dos dentes humanos consiste em avivar os conhecimentos adquiridos nos primeiros anos de Faculdade, pois têm importância fundamental para se obter sucesso na terapia endodôntica. A anatomia do sistema dos canais radiculares dita os parâmetros sob os quais o tratamento endodôntico será realizado e afeta as possibilidades de sucesso. Essa anatomia de cada dente apresenta características comuns, bem como variações muito complexas. A radiografia do dente pode revelar boa parte da anatomia interna que, associada aos conhecimentos teóricos, ditam o tamanho da broca a ser utilizada na cirurgia de acesso, sua direção, o tamanho do primeiro instrumento a ser utilizado no interior do canal radicular e, ainda, quais as modificações que devem ser empregadas para realizar o preparo da cavidade endodôntica, de modo a facilitar a localização dos canais radiculares.

normalmente. de modo a facilitar a sua limpeza e desinfecção. pode-se citar: Dens invaginatus. proporciona a ação dos instrumentos em todas as paredes do canal. apresentam-se unirradiculados. Os incisivos laterais superiores apresentam curvatura das raízes para a distal na maioria dos casos. deve-se pensar em uma técnica de instrumentação adequada. porque apresentam anatomia bastante simples. radicular grooves (depressão radicular) e dentes com coroas cônicas. de modo bastante simples. Portanto. portanto. Isso possibilita boa visibilidade do canal radicular e. Neste artigo. Esses dentes só oferecem dificuldades na localização de seus canais caso estes estejam bastante atresiados. podendo . O Dens invaginatus é também conhecido como Dens in dente. deve-se tomar radiografias em várias angulações.Assim. o conhecimento da anatomia dos canais radiculares ajuda sobremaneira o profissional. mas foram relatados casos de incisivos laterais superiores com duas raízes (Madeira 1973. 1981) Entre as anomalias de desenvolvimento observadas nesses dentes. de modo a evitar perfurações. Para se obter uma boa instrumentação dos canais radiculares desses dentes. São. neste texto. DENTES SUPERIORES Incisivos Superiores Os incisivos centrais e laterais superiores são freqüentemente considerados dentes muito fáceis de serem tratados endodonticamente. a anatomia interna de cada grupo de dentes. Christie et al. Recordaremos. ainda. Cúspide Talão . Os incisivos centrais superiores podem apresentar curvatura de suas raízes para a vestibular. Esses dentes estão situados em uma área de grande risco embriológico e inúmeros pesquisadores têm relatados casos de anomalias neles. o ombro lingual da região cervical do canal deve ser removido com o uso de broca de Batt. daremos especial enfoque às anomalias de desenvolvimento que podem ocorrer nos dentes humanos. desde a cirurgia de acesso até a obturação dos canais e é uma rota segura para se obter muito sucesso e evitar situações desagradáveis. Esse fato não é detectado na radiografia ortorradial e.

cárie em virtude da dificuldade de higienização. . ainda. Nem sempre é possível salvar um dente com esse tipo de anomalia. realiza-se o tratamento endodôntico de modo convencional. pois deve ser complementado com retro-obturação. Essa anomalia consiste na evaginação da área do cíngulo desses dentes. Mas.a invaginação do esmalte estende-se até a região apical do dente.a invaginação do esmalte está circunscrita à área da coroa dental. O Dens Invaginatus tipo III oferece dificuldade ao tratamento endodôntico.a invaginação do esmalte estende-se até o terço médio da raiz. irritação traumática da língua durante o ato mastigatório. promovendo uma cúspide extra. Outra anomalia que tanto pode ocorrer no incisivo central como no lateral superior é Dens Evaginatus ou Cúspide Talão. de acordo com a classificação de Oehler (1957): Tipo I . Essa depressão normalmente está presente na lingual dos incisivos laterais. que é a presença da depressão radicular (radicular grooves). Normalmente. Caso haja comunicação com o órgão pulpar durante a remoção da cúspide extra. o tratamento de um dente com cúspide Talão é bastante simples.(1987) e Vansan et al. (1990) relatam um caso de Dens invaginatus do tipo III em um segundo molar superior. Ao contrário do Dens Invaginatus. Existem três tipos de Dens invaginatus. uma vez que faz-se necessária a remoção da invaginação do esmalte do interior do canal radicular. uma vez que a remoção da evaginação transforma a intervenção nesse dente igual àquela realizada em um dente normal. uma vez que a invaginação é pequena e está situada na coroa dental. O incisivo lateral superior pode apresentar uma anomalia de difícil diagnóstico. trauma de oclusão e. de modo a formar diversos forames apicais.ocorrer em qualquer dente. sua maior incidência ocorre nos incisivos laterais superiores. O do tipo II oferece certa dificuldade ao tratamento endodôntico. A presença da cúspide extra nos incisivos superiores pode causar problemas de estética. Costa et al. (1990) relatam casos de tratamento endodôntico de Dens invaginatus tipo II. O Dens invaginatus do tipo I não oferece dificuldade ao tratamento endodôntico. Tipo II . Tipo III . esses dentes podem apresentarem-se coniformes (peg shape). terminando em um saco cego. Pécora et al.

Em nossos estudos. Essas curvaturas podem ser. Os caninos superiores podem apresentar Dens Invaginatus. a raiz apresenta curvatura para a lingual. Caso a curvatura mova-se na mesma direção que o cone de raio X. que deve ser removido para possibilitar uma boa instrumentação . utilize muita solução irrigante e instrumente com muita atenção. observamos que os caninos superiores podem apresentar um comprimento médio de 25. Ver Dens invaginatus Tipo III com tratamento por retro-obturação e um Dens Invaginatus TipoIII em dente extraido. toda atenção é pouca. Portanto. A presença da depressão radicular constitui uma via de penetração de microrganismos. O diagnóstico precoce dessa anomalia é importante pois o paciente pode ser orientado para higienizar seus dentes de modo a evitar a instalação de uma bolsa periodontal. Durante a obturação. Portanto. . Caninos Superiores Pela configuração anatômica. deve-se tirar radiografias em diferentes angulações. A confecções de próteses fixas sobre um dente que apresenta depressão radicular deve ser evitado. não atingindo as regiões média e apical do canal. Para detectar a direção da curvatura das raízes. leve pouco cimento de cada vez. Eles podem apresentar curvaturas de suas raízes. até preencher todo o canal radicular. esses dentes apresentam canais com dimensões maiores no sentido vestíbulo-lingual do que no sentido mésiodistal. Eles podem apresentar comprimento muito longo. Os caninos muito longos apresentam dificuldades para serem limpos. em muitos casos.5 mm .na área do cíngulo e se estende para a raiz. Esses dentes não estão isentos da possibilidade de apresentar anomalias de desenvolvimento. Os caninos apresentam ombro na região cervical do canal radicular. pois o problema periodontal não terá fácil solução. a curvatura estará para a vestibular. que alimenta de modo definitivo um problema periodontal. Se a curvatura apical da raiz mover em direção oposta à movimentação do cone de raio X. Quando se coloca muito cimento obturador no interior do canal radicular de uma só vez. podendo cessar em diferentes pontos da região radicular. variando de 20 mm até 32 mm. há a possibilidade de o cimento ficar todo na região cervical. bastante acentuadas.

faça várias radiografias de diagnóstico e as estude com atenção. infelizmente. Os pré-molares birradiculados podem apresentar as suas raízes terminando em uma ponta bem fina. mas somente poucos apresentam-se com um único canal. Quando esses dentes apresentam-se com raiz única. a instrumentação dos três canais torna-se uma tarefa bastante difícil. Para evitar complicações durante o tratamento endodôntico desses dentes. Algumas vezes. três canais. especialmente a raiz vestibular. essa crença predomina até os dias de hoje. Tudo o que foi relatado sobre os primeiros pré-molares superiores deve ser observado nos segundos pré-molares superiores. Antigamente. os dentistas acreditavam que eles apresentavam-se com três canais e. os primeiros pré-molares superiores podem se apresentar com três raízes e. A cirurgia de acesso à câmara pulpar deve ter forma oval. normalmente apresentam dois canais: um na vestibular e o outro na lingual. sendo maior no sentido vestíbulo lingual do que no sentido mésio-distal. sendo uma raiz localizada na vestibular e outra na lingual. para não causar perfurações. A instrumentação desses canais não deve ser exagerada. Inúmeras . Quando isto ocorre. em virtude da pequena dimensão da coroa deste dente. Segundo Pré-Molar Superior Esses dentes apresentam-se com uma única raiz na maioria dos casos (90 %). Molares Superiores Primeiro Molar Superior Estes dentes têm sido bastante estudado quanto às suas anatomias internas. portanto. principalmente em relação ao número de canais presentes na raiz mésiovestibular.Pré-Molares Superiores Primeiro Pré-Molar Superior Normalmente. que podem terminar em um único forame ou em dois forames distintos. Só inicie o tratamento endodôntico após ter certeza das variações anatômicas que podem estar presentes no dente a ser intervido. esses dentes são birradiculares.

é um forte indicativo da presença do segundo canal nesta raiz. que podem estar distribuídos do seguinte modo: um canal na raiz palatina (na literatura há casos citados de dois canais nessa raiz). A presença de dois canais na raiz palatina é bastante rara mas pode ser encontrada.6% dos casos Segundo Molar Superior Esses dentes apresentam variação no número de raízes. estenda a cavidade de acesso mais para a mesial e para a vestibular. A fusão de raízes no segundo molar superior é um fato comum. saindo do canal principal. três raízes e até mesmo quatro raízes. o primeiro molar superior deve ser encarado como um dente que apresenta. Dens invaginatus pode ser encontrados nos segundos molares superiores (Costa et al. O segundo canal. quatro canais. A presença de dois canais na raiz vestíbulo-mesial é bastante alta. está localizado mais para a porção lingual da raiz vestíbulomesial. O canal principal dessa raiz é mais amplo que o segundo canal. A presença de três raízes é um fator indicativo de que a raiz mésio-vestibular deva ser muito bem pesquisada. A presença de um sulco no assoalho pulpar . pois a sua não localização e. faça uma cavidade de forma de coração. faz-se necessário o tratamento endodôntico desses dentes e a . portanto. No lugar de uma cavidade de forma triangular. Observar que a raiz palatina pode apresentar curvatura para a vestibular em 54. um canal na raiz vestíbulo-distal e dois canais na raiz vestíbulo-mesial. Esquema da cirurgia de acesso que facilita a localização do segundo canal na raiz vestíbulo-mesial Procure com bastante atenção o segundo canal da raiz mésio-vestibular. Eles podem apresentar duas raízes.pesquisas têm demostrado a alta incidência de dois canais na raiz mésiovestibular. principalmente nos pacientes de origem mongólica. a sua não instrumentação e obturação comprometem seriamente o sucesso do tratamento endodôntico. normalmente. pois ela pode apresentar dois canais. Para localizar o segundo canal da raiz vestíbulo-mesial mais facilmente. e isto exige do operador bastante atenção. 1990). Hoje. Terceiros Molares Superiores Muitas vezes. como nos primeiros molares superiores. normalmente.

A instrumentação do canal radicular deve ser feita atuando em todas as paredes dos canais radiculares. que podem estar bifurcados na região média ou na região apical ou. principalmente na parede vestibular e lingual. Observe muito bem a radiografia de diagnóstico para saber como é o canino . Eles tanto podem apresentar-se como um molar comum. mas o fato não pode ser esquecido. pois nestas áreas estão presentes os microrganismos em maiores números. infelizmente. Canino Inferior Esses dentes apresentam achatamento mésio-distal de suas raízes e. As técnicas radiográficas de dissociação de imagem são bastante úteis para revelar a presença de dois canais nesses dentes. Na presença de incisivos inferiores com dois canais. Tenha sempre em mente que a possibilidade de encontrar incisivos inferiores com dois canais é bastante grande. A área de dentina na região vestibular e lingual do canal radicular é mais permeável que as paredes mesiais e distais. fusionados. eles eram conhecidos como dentes com um só canal e essa crença. DENTES INFERIORES Incisivos Inferiores Esses dentes têm alta incidência de dois canais em sua raiz. b) uma raiz com dois canais. Os caninos inferiores podem se apresentar do seguinte modo: a) uma raiz e um canal. Quando dois canais estão presentes. que podem terminar em um único forame ou em dois forames independentes e c) com duas raízes e dois canais. persiste até os dias atuais. No passado. A incidência de dois canais é maior nos incisivos laterais do que nos incisivos centrais. Portanto a sua remoção faz-se necessária. Toda atenção é pouca para não deixar nenhum canal sem tratamento. o canal é mais largo no sentido vestíbulo-lingual do que no sentido mésio-distal. um estará situado na vestibular da raiz e o outro na lingual.sua anatomia é bastante irregular. Normalmente o canal lingual está situado abaixo do ombro. ainda. desse modo. amplie a cavidade de acesso no sentido vestíbulo lingual para se obter maior visibilidade dos canais. como podem apresentar-se com anatomia completamente irregular.

o número de canais radiculares pode variar do seguinte modo: a) dois canais na raiz mesial e um canal na raiz distal. Segundo Pré-Molar Inferior A anatomia desses dentes pode apresentar-se bastante complexa. terminando em um único forame. e) dois canais separados desde o terço cervical. devemos ampliar a cavidade de acesso à câmara pulpar no sentido vestíbulolingual. após inúmeras pesquisas desenvolvidas no decorrer deste século.inferior que você vai intervir. três ou quatro canais. Pré-Molares Inferiores Primeiro Pré-Molar Inferior Os primeiros pré-molares inferiores são. f) dois canais que se bifurcam em quaisquer dos terços e terminam em um único forame. dependendo do número de canais presentes. c) um canal que se bifurca no terço médio da raiz terminando em dois forames independentes. b) dois canais . de modo semelhante aos primeiros pré-molares inferiores. provavelmente. eles podem ainda apresentar raízes fusionadas com dois. para facilitar a instrumentação e obturação dos canais radiculares. Eles podem se apresentar do seguinte modo: a) um canal e um forame. Muitas vezes. terminando em dois forames independentes. b) um canal que se bifurca no terço apical. Nos primeiros molares inferiores. apesar de sua grande maioria apresentar-se com duas raízes . em virtude de apresentarem uma anatomia externa e interna bastante complexa. Cuidado com os caninos inferiores. d) dois canais separados desde o terço cervical da cavidade pulpar . Além dessas variações anatômicas. terminando em dois forames independentes. Molares Inferiores Primeiro Molar Inferior Os primeiros molares inferiores também fazem partes dos dentes onde o mito de apresentarem três canais é bastante forte. insistimos na atenção que deve ser dada ao estudo da radiografia de diagnóstico antes de se iniciar o tratamento endodôntico desses dentes. Hoje. esse mito não corresponde à realidade. os mais difíceis de serem tratados endodonticamente. pois eles não são simples como parecem. Mais uma vez.

A terceira raiz está situada na posição disto-lingual. Rev. Cruz Filho AM. ABO Nac. Você pode colaborar com a pesquisa de anatomia interna. Toda atenção é necessária para se obter um sucesso na terapêutica endodôntica. 6(1):25-28. Costa WF. Para finalizar esse breve lembrete sobre a anatomia interna dos dentes humanos. A incidência de três raízes nesse dente é baixa nos povos de origem caucasiana (5%) e alta nos povos de origem mongólica (20%). Sousa Neto MD. documentando e publicando todas as variações detectadas nos dentes humanos. Silva RG. Referências Pinheiro Jr EC. Braz Dent.na raiz mesial e dois canais na raiz distal. queremos deixar bem claro o fato que um dente pode apresentar um canal a mais do que o esperado. d) três canais na raiz mesial e dois canais na raiz distal. Leite APP. Pécora. Leite APP. 1994 Rocha LFC. é importante considerar que eles não seguem um padrão anatômico característico. é possível verificar a enorme variação anatômica que pode estar presente no primeiro molar inferior. Segundo Molar Inferior Esses dentes podem apresentar anatomia interna e externa semelhantes aos primeiros molares inferiores. J. J. Além dessas variações.. c)três canais na raiz mesial e um na raiz distal.. Sugerimos a leitura de artigos sobre anatomia interna publicados nas Revistas Especializadas. Na região da furca. 2(4): 265-269 ago./set. JD: In Vitro Study of Cervical Enamel Projection in human molars. Pécora JD : Relação entre sulcos radiculares e número de canais em pré-molares inferiores. então. Ao iniciar um tratamento endodôntico em um primeiro molar inferior. 7(1):33-40. Fidel SR. tenha em mente todas essas possibilidades. faz-se necessário o tratamento endodôntico desses dentes e. Braz Dent. Desse modo. 1995 . eles podem apresentar uma pequena raiz acessória na vestibular( forma peduncular). 1996. Terceiro Molar Inferior Muitas vezes. esses dentes podem se apresentar com três raízes e todas as variações anteriormente citadas. Pécora JD: External and Internal Anatomy of Mandibular Molars. Silva RG.

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