Construção do Dossiê 3 da ABRASCO: Agrotóxicos, Conhecimento e Cidadania 1.

Ciência e Cidadania : contextualização e crítica da ciência moderna nos aspectos epistemológicos (éticos, políticos) e metodológicos. A construção coletiva de novo paradigma de ciência e a perspectiva da Ecologia de Saberes. A Agroecologia como campo-exemplo . A Campanha contra os Agrotóxicos neste processo.

A Agroecologia como inspiração e exemplo do novo paradigma
O conhecimento como prática social: A produção do conhecimento científico deve ser construída a partir da prática social, ou seja, da realidade concreta, da relação social entre os sujeitos, e da necessidade material desses sujeitos. Nesse sentido o conhecimento técnico muito tem a contribuir para o avanço, reestruturação dos meios e da organização da produção, numa perspectiva do desenvolvimento da classe trabalhadora, entendendo o ser social, como um ser essencialmente da natureza. Isso quer dizer que as experiências são também conhecimentos que não podem ser ignorados no processo de produção e reprodução da vida. Segundo Steiner (2004), o conteúdo da experiência é uma justaposição do nosso pensar e os objetos com os quais ele se ocupa, enquanto acessíveis a nossa observação. Toda atividade pensante é incitada no conflito com a realidade (o todo); percebemos um mundo exterior extremamente diversificado e vivenciamos um mundo interior ora mais ou menos ricamente desenvolvido. Steiner afirma ainda que o erro fundamental da ciência moderna é já considerar a percepção dos sentidos como algo terminado, pronto. Por isso ela também se

Trata-se de um modelo de produção agrícola que tem como base uma racionalidade econômica que orienta o domínio da economia sobre os modos de vida e a intervenção da tecnologia na própria vida. como resultado da experiência das pessoas de um determinado local sobre a natureza. no uso intensivo de fertilizantes químicos sintéticos. Um outro paradgma afirma uma concepção de mundo e de desenvolvimento rural que propõe um convívio harmonioso com a natureza que preserve toda biodiversidade. subordinando a natureza aos interesses das empresas e do lucro. como traz Martins (2007). domínio de poucas empresas multinacionais na produção agropecuaria e florestal . Este modelo de produção tem sua matriz tecnológica voltada para a artificialização da agricultura. homogeinização e especialização da produção agropecuária e florestal negando a biodiversidade. O conceito de agroecologia e bases epistemológicas: O paradgma tecnológico dominante. garantia da biodiversidade na produção rural e pela . no uso de agrotóxicos cujos princípios ativos são destruidores da vida. anti-segurança alimentar e nutricional. daquele que conhece o objeto.propõe a tarefa de simplesmente fotografar esse ser completo em si. sementes transgênicas. nesse sentido é apenas o positivismo. Tem por base a gnosiologia que se preocupa com a validade do conhecimento em função do sujeito cognoscente. A agroecologia fundamentalmente é uma ciência que reconhece o conhecimento como processo da prática social. com o plantio de monoculturas objetivando o mercado externo. Esse paradgma sugere: o reconhecimento e a valorização dos saberes dos povos. Esse paradgma propoe: privatização da ciência e da tecnologia. Conseqüentemente. transformando-a num ramo da industria. ou seja. portanto. É um modelo de produção e tecnológico anti-social. apropriação privada da biodiversidade e da água. com consequente privatização do saber. apresenta uma tendência de crescente artificialização da agricultura. que simplesmente rejeita qualquer avanço além da percepção. anti-ambiental.

os processos biológicos e as relações sócio-econômicas são investigadas e analisadas em seu conjunto (Altieri. O conceito de agroecossistema proporciona uma estrutura com a qual podemos analisar os sistemas de rodução de alimentos com um todo. e uma estratégia sistêmica. a diversidade e variedades de sementes varietais e de mudas pela autonomia de produção de sementes. culturais. sociais. 1 de sistemas de agricultura pontencializadoras da biodiversidade ecológica e da diversidade sóciocultural (Guzmán e Molina. 2007).agricultor a agricultor . se validam e se estendem as práticas da Agroecologia (Leff. mas que se aplica através de saberes pessoais e coletivos. conservação e recomposição da biodiversidade (MARTINS. 2000). reconduzindo o curso alterado da coevolução social e ecológica. É um "paradigma" pela generalidade de seus novos princípios. ambientais. incluindo seus conjuntos complexos de insumos e produção e as interconexões entre as partes que o compõe (Gliessman. conhecimentos científicos e práticas se aglutinam em torno de uma nova teoria da produção. políticas e éticas da produção agrícola. saberes e práticas. um novo paradgma produtivo. um intercâmbio de experiências . tecnologias. Encara os agroecossistemas como unidade fundamental de estudo. por meio da articulação do saber local com o conhecimento científico permite a implementação 1996). 2002). Este novo paradgma é a agroecologia que como ciência aplica os princípios da ecologia para o desenho e manejo de agroecossistemas1 sustentáveis. onde ciclos minerais. A agroecologia incorpora dimensões complexas que possui variáveis econômicas.das quais se enriquecem. Um enfoque holístico.combinação de cultivos e criações. uma hibridação de ciências. de habilidades individuais e direitos coletivos. É isso o que abre um amplo processo de mediações entre a teoria geral e os saberes específicos. Em tal estratégia a dimensão local é vista como portadora de um potencial endógeno que. 1989). de contextos ecológicos específicos e culturas particulares. introdução de uma matriz produtiva que facilite a preservação. as transformações energéticas. . Um agroecossistema é um local de produção agrícola compreendido como um ecossistema.

podemos trabalhar algumas dimensões positivas nos sistemas de produção desenhados e manejados de acordo com os princípios da ciência da Agroecologia2: altas produtividades por área. Monteiro. senão em transcendê-las através de um novo saber (Sachs. são capazes de resistir a estresses ambientais. geram trabalho digno no campo. de uma diálogo de saberes. democratizam a riqueza gerada pela agricultura e atuam na superação da pobreza rural. ou seja. chuvas torrenciais e secas. pois fortalecem a agricultura familiar camponesa. promovem circuitos curtos de comercialização de alimentos. 2012. Por fim. Com a Agroecologia é possível produzir alimentos saudáveis. usada livremente pelas comunidades. pois cultivados em agroecossistemas cheios de vida. de um crescimento sem limites. a agroecologia é neste caso um exemplo deste novo saber. que já não se sustenta. com muito mais diversidade do que nos impérios alimentares que empobrecem as dietas e fazem a comida viajar grandes distâncias dos campos até os consumidores.A saída para o mundo cercado e esgotado do nosso tempo não está em aferrar-se às normas do dogma produtivista. recuperam os solos. 1976). Biblografia: 2 Elementos do texto “Agriculturas sem veneno: agroecologia aponta caminhos”. comuns em nossa época de mudanças climáticas. estabilidade e resiliência. Estes sistemas conservam a biodiversidade nativa e cultivada. ou seja. de alto valor biológico. . protegem e usam com responsabilidade as águas. e livres de agrotóxicos e transgênicos.

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