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Simonal 3.

540/72
PROCESSO A QUE A FOLHA
TEVE ACESSO EXPLICITA
COLABORAÇÃO ENTRE CANTOR
E O DEPARTAMENTO DE
ORDEM POLÍTICA E SOCIAL;
EM VIDA, ARTISTA DESMENTIA
VÍNCULO COM ÓRGÃOS DE
SEGURANÇA

out.1974/Reprodução

O artista em 1974

MÁRIO MAGALHÃES
DA SUCURSAL DO RIO

Wilson Simonal de Castro, um dos mais talentosos cantores do Brasil em todos os
tempos, declarou formalmente em 1971 que era informante do Dops (Departamento de
Ordem Política e Social), a polícia política do antigo Estado da Guanabara.
Seu depoimento na polícia foi avalizado reiteradamente em processo judicial por seu
advogado Antonio Evaristo de Moraes Filho.
A declaração de Simonal e a confirmação de Evaristo nunca foram divulgadas
-conhecem-se apenas as manifestações de proximidade do artista com o Dops, mas em
público ele negava ter sido informante.
A Folha teve acesso ao processo 3.540/72, do qual consta o depoimento em que
Simonal reconhece seus serviços.
Ele foi processado sob acusação de ser o mentor de uma sessão de tortura -em
dependências do Dops- para obter confissão de desfalque de Raphael Viviani, ex-
funcionário de sua firma.
Relatório confidencial do Dops, anexado aos autos e ainda hoje inédito, explicitou a
ligação -reafirmada por um agente do órgão, Mário Borges, em interrogatório na Justiça.
Testemunha de defesa do artista, o tenente-coronel do Exército Expedito de Souza
Pereira descreveu-o como "colaborador das Forças Armadas". Foi Simonal (1938-2000)
quem se disse "colaborador dos órgãos de informação", sublinharam Viviani e seu
advogado, Jorge Alberto Romeiro Jr.
O Ministério Público, representado pelo atual deputado Antônio Carlos Biscaia (PT-RJ),
apontou o intérprete como "colaborador das Forças Armadas e informante do Dops".
Sentença proferida pelo juiz João de Deus Lacerda Menna Barreto concordou.
Acórdão (decisão de corte superior) do TJ-RJ (Tribunal de Justiça do Estado do Rio de
Janeiro), assinado em 1976 pelos desembargadores Moacyr Braga Land e Wellington
Pimentel, referendou: Simonal era "colaborador das autoridades na repressão à
subversão". Foi a palavra final da Justiça.
Todos esses documentos integram o processo 3.540, instaurado em 1972 na 23ª Vara
Criminal, concluído em 1976 e em cujas 655 folhas jamais houve divergência: dos
amigos mais fiéis ao antagonista mais ressentido, todos estiveram de acordo que
Simonal -e ele assentia- era informante do Dops.
Em abril, a Folha pediu ao TJ para ler os papéis. Localizados em junho, eles foram
consultados pelo jornal na íntegra. A história que eles descortinam vai na contramão de
versões que rejeitam a relação do cantor com o aparato de segurança da ditadura militar
(1964-85).
Entrevistas com sobreviventes da época e pesquisa em periódicos jogam luz no
episódio.
Em 2000, a Folha publicou reportagem com base na sentença de 11 páginas, encontrada
no Arquivo Público do Estado do RJ, que guarda o acervo do Dops.
Contudo, não achou cópia do conjunto do processo nem do informe interno acerca de
Simonal, da declaração em que ele se afirmou colaborador ou de lista de eventuais
pessoas delatadas por ele.
Desde a década de 1930 havia informantes da polícia política nos meios culturais do
Rio. Eles não costumavam ser identificados nominalmente em relatórios, como se
constata no Arquivo do RJ.

Tortura
A controvérsia sobre as conexões do cantor ressurgiu com vigor devido ao
documentário "Simonal - Ninguém Sabe o Duro Que Dei", de Claudio Manoel, Micael
Langer e Calvito Leal.
O filme narra da ascensão ao estrelato à morte no ostracismo, determinada pela imagem
de "dedo-duro" -função que no fim da vida Simonal contestava ter desempenhado. Ele
se dizia alvo de mentira inventada por inimigos, de racismo e de perseguição da
esquerda.
O cantor não foi julgado pela colaboração com a ditadura, mas por ter levado Viviani
para a sede do Dops, na rua da Relação, região central do Rio.
Simonal foi ao departamento e emprestou seu carro aos policiais, que buscaram Viviani
em casa quase à meia-noite de 24 de agosto de 1971, passaram pelo escritório do artista
e terminaram na rua da Relação.
Lá torturaram Viviani com choques elétricos, socos e pontapés até ele assumir por
escrito o desvio.
Simonal estava no Dops, para onde ajudou a transportar -desde seu escritório, em
Copacabana- o ex-chefe de escritório da Simonal Comunicações Artísticas.
Ele não participou da tortura nem a testemunhou.
Um inquérito foi instaurado na 13ª DP porque a mulher do funcionário registrou o
desaparecimento.
Foram condenados o cantor, um policial do Dops, Hugo Corrêa de Mattos, e um
colaborador do órgão, Sérgio de Andrada Guedes. Em 1974, por crime de extorsão, a
pena de cinco anos e quatro meses de reclusão. Em 1976, depois da desclassificação do
crime para constrangimento ilegal, a três meses. Simonal passou nove dias detido. Os
três negaram as acusações.

"Subversivos"
Relatos jornalísticos recentes sustentam que foi o inspetor Mário Borges, chefe da
Seção de Buscas Ostensivas do Dops e notório torturador de presos políticos, a fonte
original da classificação de Simonal como informante.
Na 23ª Vara, Borges disse que o cantor "era informante do Dops e diversas vezes
forneceu indicações positivas sobre atividades de elementos subversivos".
Não citou a identidade dos "elementos". O interrogatório do policial ocorreu em 16 de
novembro de 1972.
Acontece que, 450 dias antes, Simonal já prestara declarações no Dops que foram
anexadas ao processo e não chegaram ao noticiário.
Às 15h de 24 de agosto de 1971, perto de nove horas antes da diligência contra Viviani,
Simonal afirmou ter ido à rua da Relação "visto aqui cooperar com informações que
levaram esta seção a desbaratar por diversas vezes movimentos subterrâneos...
subversivos no meio artístico". Também não nomeou os "movimentos".
Ou seja, o primeiro a sustentar que Simonal era informante foi ele mesmo, e antes da
ação da polícia. Na ocasião, o cantor lembrou que no golpe de Estado de 1964 esteve no
Dops "oferecendo seus préstimos ao inspetor José Pereira de Vasconcellos" -outro
denunciado por sevícias contra opositores.
Simonal assinalou que se aproximou ainda mais do Dops quando pediu e obteve
proteção contra uma ameaça de explosão de bombas em um show.
Em 1971, ele se queixou de um "grupo subversivo" que prometia sequestrá-lo se não
"arrumasse" dinheiro.
A voz anônima parecia, ele disse, a de Viviani.
Na 13ª DP, o cantor depôs em 28 de agosto. Apresentou-se como "homem de direita" e
relembrou ter dito no Dops (no dia 24) que conhecia, "como da área subversiva", "uma
irmã do senhor Carlito Maia" -era a produtora cultural Dulce Maia, ex-presa política e
àquela altura exilada.
Esse depoimento vazou à imprensa, mas nele Wilson Simonal calou, nem lhe
perguntaram, sobre a atuação como informante
1971/1976

24 de agosto de 1971
"O declarante aqui comparece visto a confiança que deposita nos policiais aqui lotados e
visto aqui cooperar com informações que levaram esta seção a desbaratar por diversas
vezes movimentos subterrâneos... subversivos no meio artístico; que o declarante,
quando da revolução de março de 1970, digo 64, aqui esteve oferecendo seus préstimos
ao inspetor José Pereira de Vasconcellos; que o declarante de certa feita ou, melhor,
quando apresentava o seu show "De Cabral a Simonal" no teatro Toneleiros, foi
ameaçado de serem colocadas bombas naquela casa de espetáculos; que o declarante
nesta época solicitou a proteção do Dops para sua casa de espetáculo, o que foi feito e
nada se registrando de anormal."
Wilson Simonal de Castro, em depoimento ao Dops

30 de agosto de 1971
"Como sabe V. Sa., o cantor Wilson Simonal é elemento ligado não só ao Dops, como a
outros órgãos de informação, sendo atualmente o elemento de ligação entre o governo,
as autoridades e as Forças Armadas com o povo, participando de atos públicos e
festividades, fazendo de seu verbo e prosa a comunicação que há tanto tempo faltava."
Mário Borges, chefe da Seção de Buscas Ostensivas do Dops, para José Pereira de Vasconcellos, chefe do
Serviço de Buscas, em informe confidencial

16 de novembro de 1972
"O primeiro acusado, Wilson Simonal, era informante do Dops e diversas vezes
forneceu indicações positivas sobre atividade de elementos subversivos."
Mário Borges, inspetor do Dops, em interrogatório na 23ª Vara Criminal

29 de julho de 1974
"Conhece o primeiro acusado [Wilson Simonal] porque após a revolução de 64 o
primeiro réu sempre colaborou com as Forças Armadas."
Expedito de Souza Pereira, tenente-coronel do Exército, em interrogatório na 23ª Vara Criminal

14 de outubro de 1974
"Simonal se diz, com todas as letras neste processo, um colaborador dos órgãos de
informação, por se tratar de homem de direita. A sua defesa corroborou isso com cifras
definitivas [...]. Daquela época ["Revolução de 1964'] ao fato da denúncia se perfizeram
7 anos e meses de atividade policial auxiliar voluntária de Simonal (que, aqui, num
processo comum, deve ficar imune a aplausos ou críticas), por conseguinte. Lapso de
tempo esse que, evidentemente, levou o cantor-acusado a ter, pelo menos, grande
afinidade com os agentes do Dops, para não falar em proteção."
Alegações finais do assistente de acusação Raphael Viviani, na 23ª Vara Criminal, assinadas pelo
advogado Jorge Alberto Romeiro Jr.

1974
"Ficou cabalmente esclarecido que o suplicante, na tarde de 23 de agosto, inclusive a
conselho de um oficial superior do Exército, compareceu ao Dops, onde prestou
formalmente um depoimento em que se queixou de estar sendo vítima de telefonemas
ameaçadores, por parte de elementos supostamente subversivos. [...] O suplicante, ao
dirigir-se ao Dops, por recomendação de um oficial superior do Exército, o fez em
decorrência das ameaças aterrorizantes que vinha sofrendo, revestidas de caráter
político."
Alegações finais em favor de Wilson Simonal de Castro, na 23ª Vara Criminal, assinadas pelo advogado
Antonio Evaristo de Moraes Filho

11 de novembro de 1974
"Que Wilson Simonal de Castro era colaborador das Forças Armadas e informante do
Dops é fato confirmado [...]."
João de Deus Lacerda Menna Barreto, juiz da 23ª Vara Criminal, na sentença do processo 3.540/72

9 de dezembro de 1974
"O primeiro apelante, Wilson Simonal de Castro, era colaborador das Forças Armadas e
informante do Dops [...]."
Antônio Carlos Biscaia, promotor de Justiça, em contra-razões de recurso

3 de junho de 1976
"Resulta duvidosa, entretanto, a finalidade de diligência, cabendo aqui destacar-lhe dois
aspectos. O primeiro, quanto à colocação feita junto ao Dops, noticiando ameaças
dirigidas ao cantor Wilson Simonal, pelo fato de ser o mesmo colaborador das
autoridades na repressão à subversão, o [que] torna a diligência ordenada regular, como
reconheceu a sentença."
Desembargadores Moacyr Braga Land e Wellington Pimentel, da 3ª Câmara Criminal, no acórdão da
apelação nº 62.372
O elo perdido
RELATÓRIO CONFIDENCIAL DO
DOPS, DE 30 DE AGOSTO DE
1971, REFORÇA LIGAÇÃO COM O
ARTISTA

DA SUCURSAL DO RIO

Relatório interno do Departamento de Ordem Política e Social da Guanabara, com
carimbo "confidencial", resumiu em 30 de agosto de 1971 a relação com Wilson
Simonal:
"É elemento ligado não só ao Dops, como a outros órgãos de informação, sendo
atualmente o elemento de ligação entre o governo, as autoridades e as Forças Armadas
com o povo, participando de atos públicos e festividades, fazendo de seu verbo e prosa a
comunicação que há tanto tempo faltava".
O signatário foi o chefe da Seção de Buscas Ostensivas, Mário Borges. O destinatário, o
chefe do Serviço de Buscas, José Pereira de Vasconcellos.
No mesmo dia, o diretor da Divisão de Operações, Zonildo Castello Branco, endereçou
aquele relatório sigiloso ao diretor do departamento, coronel do Exército Gastão
Barbosa Fernandez. O coronel encaminhou-o à Justiça, que o anexou ao processo
3.540/72.
Seu conteúdo não foi contestado por ninguém.
Produzido no calor da repercussão em torno da detenção de Raphael Viviani, o
documento evoca episódio em que o Dops deu proteção a Simonal por três meses contra
supostos "subversivos" que teriam prometido estourar bombas no teatro em que o artista
estava em cartaz.
Ele ajuda a entender o grau da intimidade que permitiu, para resolver pendenga privada,
surrar um cidadão em prédio público onde funcionários se dedicavam a questões de
Estado: combater oposicionistas, em particular os de grupos armados.
Menos de quatro semanas antes da chegada de Viviani, o engenheiro Raul Amaro Nin
Ferreira foi preso e levado para o Dops, onde o torturaram.
Seu martírio prosseguiu na instalação do Exército em que funcionava o DOI
(Departamento de Operações de Informações). Raul Amaro saiu de lá para o hospital,
onde morreu.
No comando da radiopatrulha que o transportou entre o Dops e o DOI estava Mário
Borges, conforme a edição 2009 do "Dossiê Ditadura -Mortos e Desaparecidos Políticos
no Brasil (1974-1985)", organizado pela Comissão de Familiares de Mortos e
Desaparecidos Políticos.
Borges foi um dos cinco réus no processo decorrente da tortura contra Viviani. Acabou
absolvido porque não participou das sevícias e tinha álibi de que estava ausente -em
missão contra a "subversão".
Em 1985, o Projeto Brasil: Nunca Mais, coordenado pela Arquidiocese de São Paulo,
inventariou a tortura durante a ditadura. Foram numerosas as denúncias de presos
políticos apontando Mário Borges e José Pereira de Vasconcellos como torturadores.

Forças Armadas
O relatório do Dops que descreve a colaboração de Simonal com outros órgãos ganhou
mais verossimilhança com o interrogatório do tenente-coronel do Exército Expedito de
Souza Pereira, na 23ª Vara Criminal, em 29 de julho de 1974.
Testemunha de defesa do cantor, ele afirmou: "Conhece o primeiro acusado [Simonal]
porque após a revolução de 64 o primeiro réu sempre colaborou com as Forças
Armadas".
Em 1974, o oficial estava lotado na Escola Superior de Guerra. Em 1971, era relações
públicas do 1º Exército, comando da Força na Guanabara (que hoje equivale ao
município do Rio de Janeiro) e em outros Estados. Pereira disse ter sido procurado por
Simonal, que lhe falou sobre ameaças que estaria sofrendo. O militar sugeriu que
recorresse ao Dops.
Nos anos 1990, Simonal obteve um atestado da SAE (Secretaria de Assuntos
Estratégicos) assegurando que ele nunca foi seu informante.
A SAE sucedeu o SNI (Serviço Nacional de Informações) da ditadura.
O nome do SNI não aparece, entretanto, no processo 3.540, no qual Simonal é
reconhecido como informante do Dops e colaborador do 1º Exército.
Em 1972, o cantor contextualizou em juízo a origem da intimidação: "[...] Desde que
participou de uma Olimpíada do Exército fazendo um show, e de fazer [sic] um disco da
Shell de propaganda do governo, isto é, fazia indiretamente propaganda do governo,
passou a receber telefonemas anônimos que lhe faziam [sic] ameaças a si e a sua
família".

"Comunistas"
Ele repetidamente proclamou a camaradagem com integrantes da polícia política. Em
1971, de acordo com o "Correio da Manhã", mencionou José Pereira de Vasconcellos
como "meu grande amigo".
Logo depois do mandado de prisão expedido em 1974, entregou-se ao Dops de São
Paulo. "O delegado Sérgio Fleury é meu chapinha e tudo vai correr dentro do figurino",
disse, conforme o "Última Hora".
Responsável por dezenas de assassinatos, Fleury foi o mais destacado policial no
combate à luta armada durante o governo do general Emilio Garrastazu Médici (1969-
74).
Em seus últimos anos, Simonal reclamou do que considerava um viés persecutório do
jornalismo contra ele. Mas, em seguida à surra em Raphael Viviani, a versão do artista
foi encampada por parcela expressiva da imprensa.
Reportagens céticas em relação aos relatos de Simonal provocaram irritação, sugere
nota do colunista Ibrahim Sued na edição de "O Globo" de 4 de setembro de 1971.
A nota: "As autoridades militares estão começando a ficar de olho em certa imprensa
marrom, principalmente no que se refere aos artistas... Eu estou apenas advertindo.
Quem avisa amigo é... O mar não está pra peixe...".
O semanário "O Pasquim" foi o primeiro que tratou Simonal como "dedo-duro". Com a
sentença de 1974, a revista "Veja" publicou que a operação contra Viviani "foi facilitada
pelo fato de Simonal também ser informante da polícia".
A fama de delator custou-lhe vaias e xingamentos em shows.
Em agosto de 1982, ainda na ditadura, a Folha circulou com entrevista de Simonal em
que ele afirmou:
"Dizer que eu dedurei os cantores comunistas é meio calhorda. Eles próprios nunca
negaram que eram comunistas. Chico Buarque, Caetano Veloso jamais disseram o
inverso. E qualquer criança sabe o que eles são..."
Depois, Simonal disse que suas declarações foram distorcidas. O jornal respondeu que
nada havia alterado.
(MÁRIO MAGALHÃES)
Para delegado, "ele não era informante"
ENTÃO Nº 2 NO DOPS, ZONILDO
CASTELLO BRANCO ISENTA
CANTOR DE COLABORAÇÃO
COM POLÍCIA POLÍTICA

DA SUCURSAL DO RIO

O delegado aposentado Zonildo Castello Branco afirma que Wilson Simonal não era
informante do Departamento de Ordem Política e Social, apesar de um relatório interno
do Dops sustentar o contrário.
Em 1971, quando o informe foi elaborado no órgão -ao fim seria anexado ao processo
3.540/72-, Castello era o diretor da Divisão de Operações, o número dois da polícia
política no Rio.
Foi ele quem encaminhou para o diretor o relatório de autoria do inspetor Mário Borges.
"Simonal era muito ligado, conhecia o Mário Borges, mas colaborador não era, não."
O delegado sustenta que enviou o informe ao superior, sem nenhuma restrição às
informações, porque esse era o método. "Eu apenas submetia o relatório à
consideração."
A Folha localizou no Rio o empresário Sérgio de Andrada Guedes, um dos três
condenados no processo. Conversou com ele por telefone, Guedes prometeu ligar, mas
não respondeu mais aos recados.
Ele foi um dos dois homens que buscaram Raphael Viviani em casa na noite de 24 de
agosto de 1971. No processo, aparece como colaborador do Dops e industrial -hoje sua
empresa tem mais de 300 funcionários.
"Muito pouco sei daquilo. Sei tanto quanto vocês, imprensa", disse ele, no único contato
com o jornal.
A condição de informante "parece uma história de cobertura", diz o ator e cineasta
Cláudio Manoel, sobre o depoimento em que o cantor assim se assumiu.
Ele é codiretor do filme que conta a vida de Simonal.
"Estranho que no próprio dia em que o cara vai ter essa ação ele vai e presta queixa."
Seria uma forma de justificar a colaboração do Dops em uma iniciativa sem cunho
político.
"Acho impossível provar a condição de informante, sendo ou não." Critica: "Parece
mais relevante é que de uma certa forma a questão de ele ser ou não informante parece
decisiva para justificar se merecia ou não ter sofrido o tipo de lepra que sofreu".
Cláudio identifica crueldade com Simonal: "Por que não passa? Digamos que fosse
provado que o cara foi um informante da ditadura. Trinta anos depois da Lei da Anistia,
o que interessa isso?".
Na sua opinião, houve contra Viviani "uma operação truculenta, estúpida e de vendeta
pessoal que descambou para o errado".

Inocente
Logo que uma enorme leva de marinheiros foi presa pelos golpistas de 1964, dois
advogados de 38 anos de idade se desdobraram para, sem cobrar um tostão, dar conta de
tantas defesas urgentes: Antonio Evaristo de Moraes Filho e Antônio Augusto Alves de
Souza.
Eles ficariam de tal modo marcados que seus detratores pró-regime gracejavam: não
eram causídicos de porta de xadrez, mas de porta de fortaleza -instalações militares
onde os clientes eram encarcerados.
Ao se ver em apuros, Simonal procurou Evaristo. O motivo era óbvio, diz Alves de
Souza: "Ele era um advogado excepcional, o melhor da época".
Durante todo o processo 3.540/72, a dupla representou Simonal. Evaristinho, como
chamavam o criminalista, era homem de esquerda. Morreu em 1997. Assinou sozinho
os principais documentos da defesa, inclusive os que avalizam o depoimento em que o
cantor se reconhece informante.
Seu colega, que "não era politizado", afirma que ambos nunca tiveram dúvidas de que a
versão de Simonal no episódio era verdadeira: ele dizia não saber de tortura contra
Viviani.
A Justiça não lhe deu razão, mas a defesa obteve vitória relativa ao limitar a três meses a
pena final, sem necessidade de cumpri-la na prisão.
"Se ele fosse realmente culpado, não se sentiria atingido", diz Alves de Souza. "Por isso
acredito piamente na inocência. Ele se sentia profundamente infeliz. Em nenhum
momento ficou provado nos autos que participou da tortura ou que estava presente, o
que evidencia a inocência."
De fato, nenhum depoimento, nem o de Viviani, sustentou que Simonal torturou ou
assistiu às sevícias. Ele foi condenado por ser considerado corresponsável por
constrangimento ilegal, mas não agressor.
Para Alves de Souza, Simonal foi vítima de "perseguição ideológica": "Da mesma
forma que havia a perseguição estatal contra aqueles que tinham a ideologia de
esquerda, o pessoal que era perseguido se voltou contra ele".
A intolerância feriu: "Pela mesma maneira que se julgava crime de ideologia, o que é
um absurdo, as pessoas que se diziam comunistas queriam acusá-lo por ser um homem
que tinha outra ideologia, por ser de direita".
A inveja teria contribuído: "Os invejosos anônimos aproveitaram aquele momento para
ajudar a derrubá-lo. Os arrivistas que querem subir à custa do sofrimento alheio".
(MÁRIO MAGALHÃES)
"Atrapalhou minha vida, acabou com a dele", diz
vítima
DA SUCURSAL DO RIO

Quase quatro décadas depois dos eletrochoques acionados com manivela e do
espancamento que ele denunciou ter sofrido e sentença judicial reconheceu, Raphael
Viviani, 68, esboça em mão dupla seu balanço sincero da história: "Isso aí atrapalhou
deveras a minha vida, passei um sufoco muito grande. E ele também acabou com a vida
dele".
"Ele" é Wilson Simonal, o ex-patrão cuja firma foi alvo de uma reclamação trabalhista
do seu antigo chefe de escritório -e não contador, como até hoje se repete- contratado
em outubro de 1970 e demitido em junho seguinte.
Em 24 de agosto de 1971, por volta das 23h50, um agente e um colaborador do Dops
apanharam-no em casa. Era o dia seguinte à notificação da queixa pela Junta de
Conciliação.
Já na companhia de Simonal, levaram-no para a repartição policial -de onde ele sairia
por volta das 20h do dia 25, após redigir de próprio punho uma confissão de
apropriação indébita.
Obrigaram-no -foi isso que a Justiça concluiu - a escrever que gastou o dinheiro em
"noitadas, bebidas e mulheres". No processo, não consta prova ou indício documental
de desvio.
"Como é que eu vou esquecer uma coisa dessa?", pergunta, sobre os idos de 1971. "Não
tem jeito de esquecer aqueles dias tumultuados. Se você me visse antes e depois daquela
noite que eu passei sendo torturado lá, não diria que é a mesma pessoa."
"Uma foto antes e uma depois, elas saíram num jornal vagabundo, que inverteu toda a
minha história, você não diz que é a mesma pessoa. É uma coisa que eu não vou
esquecer. Vou acabar levando para o túmulo."
Viviani conversou com a Folha por telefone -foi fácil encontrá-lo recorrendo à lista,
pelo nome de um parente que mora com ele em um bairro da zona oeste de São Paulo.
O escriturário conta estar aposentado por invalidez permanente -um diabetes que teria
começado a se manifestar em seguida à sua detenção.
Ele reapareceu publicamente com um depoimento no filme "Simonal - Ninguém Sabe o
Duro Que Dei".
Como ainda recordava o tom antipático contra ele em segmentos consideráveis do
jornalismo, nos dias e semanas posteriores à sua passagem pelo Dops, falou ao
documentário "para desabafar um pouco".
"Estava todo mundo formando ideia contra mim. Vou esclarecer isso aí, não devo nada,
seria bom. Minha família não gostou que eu tenha feito isso. E até hoje eles não querem
que eu mexa mais com isso. E eu não tenho muito o que falar." (MM)
"Atrapalhou minha vida, acabou com a dele", diz
vítima
DA SUCURSAL DO RIO

Quase quatro décadas depois dos eletrochoques acionados com manivela e do
espancamento que ele denunciou ter sofrido e sentença judicial reconheceu, Raphael
Viviani, 68, esboça em mão dupla seu balanço sincero da história: "Isso aí atrapalhou
deveras a minha vida, passei um sufoco muito grande. E ele também acabou com a vida
dele".
"Ele" é Wilson Simonal, o ex-patrão cuja firma foi alvo de uma reclamação trabalhista
do seu antigo chefe de escritório -e não contador, como até hoje se repete- contratado
em outubro de 1970 e demitido em junho seguinte.
Em 24 de agosto de 1971, por volta das 23h50, um agente e um colaborador do Dops
apanharam-no em casa. Era o dia seguinte à notificação da queixa pela Junta de
Conciliação.
Já na companhia de Simonal, levaram-no para a repartição policial -de onde ele sairia
por volta das 20h do dia 25, após redigir de próprio punho uma confissão de
apropriação indébita.
Obrigaram-no -foi isso que a Justiça concluiu - a escrever que gastou o dinheiro em
"noitadas, bebidas e mulheres". No processo, não consta prova ou indício documental
de desvio.
"Como é que eu vou esquecer uma coisa dessa?", pergunta, sobre os idos de 1971. "Não
tem jeito de esquecer aqueles dias tumultuados. Se você me visse antes e depois daquela
noite que eu passei sendo torturado lá, não diria que é a mesma pessoa."
"Uma foto antes e uma depois, elas saíram num jornal vagabundo, que inverteu toda a
minha história, você não diz que é a mesma pessoa. É uma coisa que eu não vou
esquecer. Vou acabar levando para o túmulo."
Viviani conversou com a Folha por telefone -foi fácil encontrá-lo recorrendo à lista,
pelo nome de um parente que mora com ele em um bairro da zona oeste de São Paulo.
O escriturário conta estar aposentado por invalidez permanente -um diabetes que teria
começado a se manifestar em seguida à sua detenção.
Ele reapareceu publicamente com um depoimento no filme "Simonal - Ninguém Sabe o
Duro Que Dei".
Como ainda recordava o tom antipático contra ele em segmentos consideráveis do
jornalismo, nos dias e semanas posteriores à sua passagem pelo Dops, falou ao
documentário "para desabafar um pouco".
"Estava todo mundo formando ideia contra mim. Vou esclarecer isso aí, não devo nada,
seria bom. Minha família não gostou que eu tenha feito isso. E até hoje eles não querem
que eu mexa mais com isso. E eu não tenho muito o que falar." (MM)
Reportagem tentou falar com os filhos de 2ª a 5ª
passadas
DA SUCURSAL DO RIO

A Folha tentou da tarde da segunda-feira até a quinta, todos os dias e por diversos
meios, entrevistar os cantores Wilson Simoninha e Max de Castro, filhos de Simonal.
Na segunda, por e-mail, seguiram informações sobre o conteúdo da reportagem de hoje.
As mensagens foram repassadas às assessorias na terça, após telefonemas.
Nos dois dias seguintes, prosseguiram os esforços para ouvir os artistas, até a conclusão
desta edição. As assessorias disseram que a agenda artística dificultou o contato com os
cantores.
Recentemente, os irmãos têm enfatizado a importância das muitas e novas iniciativas de
difusão da obra do pai, morto em 2000. Em 2008, a Folha publicou reportagem sobre o
filme "Simonal - Ninguém Sabe o Duro Que Dei".
Max disse considerar a história "incompleta", pois o documentário exibe o depoimento
de Raphael Viviani na parte final: "Não há contra-argumentos depois. E a coisa não é
tão simples como aparece no filme. Não fica claro que houve ações anteriores [à ida ao
Dops]. Ele [Simonal] procurou saber o que estava acontecendo [em relação ao suposto
desfalque].
Sabendo da origem humilde dele, do fato de não ter tido um pai, você consegue
imaginar ser possível a atitude que ele tomou, ainda que nada justifique". Depois, Max
criticou o jornal por ter publicado que o filme era uma investigação da relação de
Simonal com a ditadura.
"O documentário é sobre a saga de um homem negro, filho de uma empregada
doméstica, que sai da pobreza, do nada, para se tornar um dos maiores artistas do Brasil
durante os anos 1960", escreveu em resposta. (MM)
Folha Online
Exército tentou intimidar, diz promotor
DA SUCURSAL DO RIO

O processo contra Wilson Simonal foi a primeira ação penal em que atuou um jovem
promotor que chegava aos 30 anos, o hoje deputado Antônio Carlos Biscaia (PT-RJ).
Ele conta que, conhecida a sentença em 1974, o telefone de sua casa não parou de tocar:
"Ligavam xingando. Eram fãs do Simonal".
Biscaia relata ter sido alvo de pressões para pedir a absolvição dos cinco réus -em vez
disso, acusou-os. Três foram condenados.
"Em duas oportunidades, veio um cidadão, cujo nome eu não recordo, ao meu gabinete
e disse que era assessor jurídico do comando do 1º Exército."
O antigo promotor diz ter ouvido: "As Forças de Segurança têm interesse nesse
processo. O senhor tem que examinar com todo o cuidado".
"Respondi: "Vou examinar com todo o cuidado, como examino tudo". Ele disse: "Mas
eu estou dizendo que as pessoas aqui são ligadas às forças de sustentação do governo
revolucionário". Ele começou a tentar justificar esse ponto de vista e de alguma maneira
também me intimidar."
Biscaia caracteriza como "absolutamente insuspeito" o juiz João de Deus Lacerda
Menna Barreto, que condenou três réus a cinco anos e quatro meses de reclusão. "Ele é
de família de militares."
"Naquela época tinha muito juiz acovardado", emenda o ex-professor de Processo Penal
da Universidade Federal do Rio de Janeiro Jorge Alberto Romeiro Jr. "Menna Barreto,
que era um homem conservador, fez boa Justiça. É um homem de bem."

Sem arrependimento
Representando Raphael Viviani, vítima de tortura no Dops, Romeiro foi assistente de
acusação. Trabalhou praticamente de graça, inconformado com "uma coisa horrorosa,
covarde. A tortura é repugnante. O pessoal do Dops não ia fazer isso se o Simonal não
fosse um colaborador".
Romeiro tornou-se desembargador, aposentou-se por iniciativa própria e voltou a
advogar. Lamentou o acórdão que em 1976 resultou na redução da pena para três meses.
Filho de um ex-ministro do STM (Superior Tribunal Militar), afirma que certa feita
indagou a outro antigo ministro da corte, o general Siseno Sarmento, sobre gestões no
Tribunal de Justiça do RJ.
De 1968 a 71, o oficial comandou o 1º Exército, no Rio.
"Perguntei: "O senhor não teve interferência ali?". Ele deu uma risada. "Claro que tive."
"Então o senhor procurou algum desembargador?" "Procurei. Pedi para ele e tal"."
Os dois desembargadores autores do acórdão em que a sessão de tortura foi tipificada
como crime de constrangimento ilegal já morreram.
Menna Barreto é neto de um dos três membros da junta que governou o Brasil por
pouco mais de uma semana em 1930. De juiz ele passaria a desembargador. Hoje é
consultor jurídico. Defende sua sentença em primeira instância: "Arrependimento?
Nenhum. Julguei de acordo com a prova que estava nos autos".
Ele afirma não ter sofrido pressões -"Eu jamais aceitaria". Destaca que inexistiu no
processo divergência sobre a colaboração de Simonal com o governo. "E há o
depoimento de um tenente-coronel afirmando isso." (MM)