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Temporada 04 Capítulo 50

Não Estou Lá
By We Love True Blood

I would like to know what is at the center of your world.

Jessica ajeitava o véu para que caísse na frente do rosto, era uma tradição do casamento entre os lobos, para preservar a pureza da noiva. Ela achava tudo uma enorme besteira, afinal casava por obrigação, como se tivesse uma arma apontada na cabeça. E ainda esperava Bill vir salvá-la de última hora, assumindo o erro que tinha cometido em entregar a própria filha para o inimigo. Só que para isso tudo acontecer, ela dependia de Maya entregar a carta. Todas as noites ficava na janela do quarto observando os carros que passavam, desejando que fosse seu pai. Mas ele nunca apareceu para seu desespero. Agora estava ali vestida como uma noiva antiquada, usando um vestido como de uma princesa da Disney. Fora que ainda teria que lidar com Emilio, o avô de Alcide. Ela jamais transou com um velho, não queria a visão das bolas dele penduradas e um pinto murcho. Será que ele tomava Viagra? Apesar de que sangue de vampiros ajudavam na ereção dos humanos, só que ela não daria para ele por nada nesse mundo. Maya havia partido fazia alguns dias, Jessica foi obrigada a admitir que sentia falta da vampirinha. Só podia ser cria de Bastian, tão boba quanto o criador. Essa tinha sido a punição dele por tê-lo ajudado. Por causa disso ela se sentiu na obrigação de ajudar a menina, dar umas aulinhas de como ser uma boa vampira. Ela riu pela lembrança, Bastian iria se surpreender com a nova cria que encontraria. Graças ao poder de ensino dela, Jessica, a vampira poderosa. Com esse pensamento, ela olhou pela janela, havia perdido a conta de quantas vezes fez nessa noite. Estava mais do que arrumada, não tinha mais onde enfiar maquiagem no rosto e muito menos tecido do vestido. Ela se jogou em cima da cama, não se importava em amassar a roupa, só desejava que a noite terminasse. Não gostava de lembrar o pior detalhe, o mais horrendo e que fazia a pele dela corroer, estava presa a Alcide. Como deixou isso acontecer? Desde quando ela tinha uma alma? Se soubesse que

tinha uma, teria ido na Igreja se converter e pagar os pecados, guardando um lugar bem bonito no céu. “Oh, Jessica. Não faça isso, querida. Irá estragar o vestido.” A voz de Constance surgiu no quarto, Jessica sentou na ponta da cama sem vontade. “Está na hora?” “Sim!”, a mulher bateu palmas excitada. “Alcide está tão bonito, as meninas da cidade estão em polvorosa. Terá que tomar cuidado, querida, com os rabos de saia.”, ela piscou para Jessica. “Ele ajeitou aquele cabelo ensebado?”, Jessica ficou em pé, passando a mão com grosseria no vestido. “Vou chamar Maya de volta para te ensinar modos.”, Constance riu. Jessica deu de ombros, queria ter ido embora com Maya. Era o único desejo que tinha, e nada mais. “Não está puta comigo por ter que transar com seu marido?”, ela olhou de canto de olho para Constance, estudando cada movimento da velha. “É a lei.” “Só sabe responder isso? Ele vai me comer... depois não irá querer mais suas pelancas.”, Jessica soltou uma risada. Constance deu dois passos parando em frente a Jessica, levantou a mão acima da cabeça e desferiu com toda a força que tinha um tapa na face da vampira. O formato da mão surgiu na palidez de Jessica. Criando um contraste diferente do vermelho na pele branca. “Desculpe pelo tapa, Alcide.”, Constance fez uma pequena prece na língua dos lobisomens. “Vamos.” Ela pegou Jessica pelo braço e saíram pela porta. A vampira sentia o rosto queimando, assim como ódio crescente dentro do corpo. Por culpa daquela velha estava ligada a Alcide, um ritual maldoso. Como gostaria de rasgar o pescoço dela e sugar todo o sangue. A cerimônia foi montada no jardim da casa, era tão grande como o que tinha na casa de Bill, só que menos suntuoso. Era apenas um enorme gramado, circundado pela floresta sinistra. Não havia uma tenda, nem nada. Apenas os convidados em pé, todos em volta de uma mesa de madeira velha.

Jessica ficou surpresa com a quantidade de convidados, deveriam ter umas quinhentas pessoas ali, e não viu nenhum banquete sendo preparado. Iria casar contra a sua vontade e num casamento de pobre feito para pobre. Ela fez uma careta quando desceu os lances da escada que saia da cozinha e davam no jardim. Constance se afastou dela, foi caminhando em direção aos convidados. Jessica ficou sozinha, com todo mundo a encarando. Ela começou a caminhar de maneira desajeitada, os saltos dos sapatos prendiam no gramado. Ela tinha que forçar para que não caísse. Nem poderia usar a velocidade vampírica para se livrar dessa humilhação. Ergueu a cabeça e continuou a longa caminhada até a mesa. Escutava algumas risadinhas quando ela parava para ajeitar o salto e não cair. Vislumbrou Alcide parado, com as mãos juntas na frente do corpo, as pernas separadas, o queixo erguido demonstrando imponência. Ele usava um terno preto, sem gravata, uma camisa branca aberta quase até o peito. Ela quase abriu a boca diante da beleza dele, odiava admitir, mas ele estava terrivelmente gostoso. Ela balançou a cabeça para tirar certos pensamentos, não era o momento de sentir desejos reais por Alcide. Estava se aproximando dele, quanto notou o olhar de Francisco parado ao lado do meio-irmão. Ela ainda não tinha se vingado dele como gostaria, principalmente por ter usado Maya. Pelo menos ele tinha sido punido. Emilio fez questão de punir todos os envolvidos naquela noite, claro que isso trouxe mais ódio para Alcide e até para ela. Ignorou o olhar odioso do rapaz, virou o rosto para o outro lado e encontrou o olhar amistoso do pai de Alcide, pelo menos não era odiada por todos. Ela parou em frente à mesa, reparou que havia dois cálices e um punhal. Emilio surgiu entre os convidados e foi para trás da mesa. Ele iria fazer a cerimônia. Alcide apertou a mão de Jessica e deu um sorriso acolhedor. “Vai dar tudo certo.”, ele sussurrou no ouvido dela. “Cale a boca!”, ela respondeu entre dentes. Emilio olhou irritado de um para outro, deixando claro que não era momento de discussão. “Estamos aqui reunidos para celebrar o casamento de meu neto Alcide com a vampira Jessica.”, ele disse de maneira solene. Merda, ela pensou em desespero. “Esta noite, Alcide e Jessica farão um juramento para o resto da vida que viverão juntos.”

Puta merda, ela sentiu vontade de gritar. “O relacionamento de vocês será simbolizado pelo sangue que derramarão diante de todos que aqui estão.” Me mate agora, ela queria fugir. “Um cálice representará você, Jessica.” Emilio pegou o cálice entre as mãos e levantou para o alto na direção da lua cheia. Em seguida fez um sinal para que Alcide pegasse o punhal. Ele soltou a mão de Jessica, pegou o punhal e puxou o braço dela. Com um rápido movimento abriu um corte profundo no pulso dela. Emilio levou o cálice até o pulso e o sangue começou a pingar lentamente. “Esse sangue é tudo que você foi, tudo que você é e tudo que será.” Ele estendeu o cálice para ela beber um gole. Jessica afastou o véu, ficou enjoada em beber o próprio sangue e odiou mais do que nunca mais um ritual idiota dos lobisomens. Em seguida, Alcide bebeu um gole e fez uma pequena careta. “Agora, o outro cálice representará Alcide.” Emilio depositou o cálice de Jessica em cima da mesa e pegou o de Alcide. Dessa vez Jessica pegou o punhal e enterrou no peito do lobo. Ou melhor, imaginou que tivesse enterrado. Para a tristeza dela fez um corte no pulso dele, torcia para que o matasse. O sangue escorria lentamente e quente no cálice, ela teve vontade de lamber, sugar, matar todos que estavam ali. “Esse sangue é tudo que você foi, tudo que você é e tudo que será.” Alcide bebeu um gole e fez novamente uma careta. Jessica bebeu o resto com enorme prazer, depois olhou para o pulso aberto de Alcide, queria mais, muito mais sangue. “Esse sangue representa a vida de vocês nesse momento, mágica e única. E assim que beberam o sangue um do outro, a vida de vocês se tornou uma.” Quero morrer, Jessica pensou sentindo vontade de chorar. “Como esse sangue foi unificado, o casamento de vocês também será.” Emilio bebeu o sangue que restou dos cálices, apesar o de Alcide estar vazio e significar má sorte. Os convidados presentes se transformaram em lobo e começaram a uivar para lua. Mais uma vez Jessica sentia aquela sensação apavorante, congelando os seus ossos.

Havia roupas espalhadas pelo chão, assim como a de Alcide, ele também havia se transformado. Apenas as mulheres presentes continuavam como estavam, afinal, eram humanas. Emilio se aproximou e carregou Jessica no colo. Era o momento da primeira vez, mesmo que fosse a milésima vez dela. E os lobisomens ficariam uivando ali fora, velando a noite dos dois. Apenas um lobo uivava diferente, como um lamento. Jessica reconheceu o som gutural de Alcide. ------------------------------O som da televisão estava baixo, mas Sookita conseguia ouvir a matéria sobre a explosão na boate que passava no jornal. Tentavam traçar um perfil para o ataque terrorista de Juan Carlos. Ela sentiu um arrepio quando viu a foto dele sorridente junto da mulher e a filha. Se lembrava quando o encontrou na suíte do Senador Morales, como ele era o único que tinha pensamentos bons e felizes, ela tinha ficado aliviada em olhar a mente dele. Mas pelo jeito nada durava para sempre, nem o amor de uma família era o suficiente para evitar que alguém enlouquecesse. Ela sabia o motivo dele em atacar a boate, uma maneira de vingar a morte do senador. Só que a mídia não sabia disso, e muito menos a polícia. Para eles Juan Carlos era o assessor que ficou doido, deu sumiço no senador e foi atacar um vampiro falsamente acusado de cometer um crime. Ela acreditava que a Autoridade tinha um dedo nessa história toda da loucura de Juan Carlos. A situação foi muito bem montada e colocando os vampiros como vítimas do ódio. Eram os novos negros, os novos gays do século 21. Eles eram a minoria, os que sofriam ataques terroristas por terem saído do armário. Ela não podia negar que Juan Carlos surtou sozinho, e que o senador era um crápula que mereceu morrer. Tanto a Autoridade, quanto Eric, e até ela saíram ganhando na história, pois ninguém jamais iria descobrir a verdade. O senador desaparecido numa fazenda obscura em Tijuana e Juan Carlos morreu como um terrorista pelo ódio contra os vampiros. No fundo sentia um alivio por isso ter acabado, apesar das perdas que tiveram. E os vampiros nunca estiveram tão em alta, o caso teve repercussão mundial, e só se comentava sobre ele no México. Eric já tinha saído como vítima do caso da morte de Jason e agora se tornou uma celebridade, o pobre vampiro que pagava pelo erro da polícia e teve a boate destruída por um fanático, além de ter perdido tudo e alguns de seus funcionários.

Ela não o tinha visto mais desde o encontro que tiveram no cemitério, ele não foi procurar Tara depois do que aconteceu. Mais uma vez ela só o via pela televisão e programas de fofoca. Estava até cansada de vê-lo na televisão, como se fosse possível. Além do que sempre trazia a lembrança do que ela viu naquela noite, as imagens confusas de um momento no tempo. Dessa vez ela não queria descobrir a verdade, já bastava o que aconteceu quando leu a mente dele. Se ajeitou no sofá desconfortável da sala no apartamento de Tara. Estava dormindo ali até encontrar um lugar para morar, afinal, era mais uma vez solteira e continuava ignorando qualquer contato com Bill. Morar naquela fraternidade cheia de moças estressadas era tudo que ela precisava para fugir do mundo, de Eric e de Bill. Não teve coragem de pedir novamente o emprego para Sam, mas eventualmente teria que fazê-lo. Com a boate destruída Tara também estava desempregada e Sookita tinha receio que a amiga voltaria a trabalhar no La Puta Madre de Lafayette. Um seriado antigo começou a passar após o jornal, ela esperava pegar no sono assistindo e conseguir dormir por uma noite inteira. Mas uma batida na porta fez com que ela pulasse de susto. Quem poderia ser? Todas as meninas estavam dormindo, estudavam cedo e era proibido qualquer barulho, até um espirro era motivo para briga. O prédio velho não tinha porteiro e muito menos um interfone, qualquer um poderia entrar, inclusive um louco assassino ou um terrorista como Juan Carlos. Ela deveria parar de assistir essas matérias sensacionalistas na televisão, começava a ficar paranoica. Mais uma batida na porta, ela caminhou rapidamente e pegou no molho de chaves destrancando a porta. Girou o trinco devagar abrindo uma fresta, qualquer coisa fecharia a porta na cara da pessoa. “Olá.” Ela sentiu o rosto quente, jamais esperaria encontrar Nora do outro lado, sorridente e mais bonita do que nunca. Sookita odiava essa beleza etérea dos vampiros, tudo neles ficava bom. Não tinham espinhas, estrias, problemas com gordura. E Nora era o melhor exemplo disso, era tão perfeita quanto uma porcelana chinesa da Dinastia Ming. “Nora? O que faz aqui?” “Espero não tê-la acordado. Foi difícil te encontrar.”, Nora disse colocando a cabeça de lado para enxergar pela fresta. “Como me encontrou?”, Sookita abriu a porta e saiu em seguida. “Não podemos conversar lá dentro, um barulho e as meninas me colocam na rua.”

“Segui sua amiga Tara. Espero não soar como uma perseguidora.”, ela deu uma risada. “Achei que estava escondida aqui, pelo jeito é o lugar mais óbvio para me encontrar.”, Sookita sorriu de volta, odiava admitir, mas começava a simpatizar com Nora. “Precisamos conversar sobre algumas coisas.” Sookita franziu o cenho, não tinha ideia do que Nora poderia querer. E pelo jeito a vampira se recuperou sem maiores problemas. Provavelmente bebendo de humanas que se jogavam aos pés de Eric. Droga, não deveria pensar nisso agora. “Pode falar.” Foi a única coisa que conseguiu dizer. Nora apontou para a escada e se sentou. Sookita a acompanhou e ficaram lado a lado. Era uma sensação estranha conversar tão perto da outra, demonstrava intimidade e estavam longe de serem íntimas. “Eric não deveria abandoná-las como fez naquela noite. Foi injusto da parte dele me tirar dali e esquecer dos outros. Estou pedindo desculpas por ele e por mim.” “Não tem problema. Pam estava lá...” Sookita não conseguiu esconder o incomodo. Nora pedindo desculpas como se fosse mulher de Eric. E não seria mesmo? “Eu sei, ela foi extremamente valorosa.”, Nora juntou as mãos sobre os joelhos. “Sinto que preciso consertar as coisas entre eles. Pamela o está evitando e Eric está desesperado. Ele quer se despedir.” “Despedir?”, Sookita engoliu em seco. “Sim, ele partirá em busca de Leroy para Santiago.”, foi a resposta curta e grossa de Nora. “Muito justo ele fazer isso por Santiago e Bastian.”, ela sentiu a necessidade de incluir o nome do rapaz, ele também amava Delilah e Maya estava desaparecida. Leroy também matou Jason. Ela deveria ser incluída entre eles, mas ela foi esquecida por Eric e pelos outros. “Ele ficará fora por muito tempo?” “Não faço ideia, Sookita. Eric não é muito bom em explicações.” Ela concordou com a cabeça, Eric era tão distante, só relaxava nos momentos de prazer. Tinha visto algumas vezes como ele agia quando não se

preocupava em esconder tudo o que sentia. E como ela tinha gostado do lado descontraído dele, pena que mostrava tão pouco. Pelo jeito demoraria muito para ver novamente. “Por que está me contando tudo isso?”, ela virou a cabeça de lado para encarar Nora. “Sei que é amiga de Pamela, quero que a procure e conte a nossa conversa.” “Eu não...” Nora levantou o braço, interrompendo Sookita. Ela estava pronta para dizer que era tudo menos amiga de Pam. Talvez tivessem passado uma impressão errada na viagem aos Estados Unidos. “Eu sei a dor que é negligenciar uma cria. Eu fiz isso com Santiago, jamais irei me perdoar, jamais. E por causa de um grande mal-entendido.” Os olhos da vampira ficaram marejados de sangue. Sookita estava paralisada, não tinha coragem nem de respirar. “Meu criador jamais me abandonou, desde o dia que me transformou. Mas eu o abandonei num piscar de olhos e nunca deixei que me encontrasse novamente.” “Quem é seu criador?”, Sookita perguntou num fio de voz. “Eric... confuso não?” “Ah, claro.” Sookita respirou fundo, não era uma novidade que Nora era cria de Eric. Mas, ouvir diretamente da fonte dava uma nova amplitude a revelação. E a vampira nem fazia ideia de que Pam sabia através de Santiago. Sookita não iria participar da fofoca entre eles. “Estava um frio de cortar os ossos no norte da França. Ele estava passando fome, não era um bom momento para se alimentar de humanos. E o frio afugentava os animais. Ele foi parar na fazenda de meu pai, como um andarilho e tendo alucinações por causa da fome. Nunca queira ver um vampiro com alucinação.” Nora sorriu novamente e Sookita não iria dizer que sabia como era uma alucinação com um vampiro. “Estou falando muito depressa? Preciso que memorize exatamente o que estou falando.”

Sookita meneou com a cabeça, estava extremamente curiosa para saber o resto da história. “Meus irmãos tinham partido para as primeiras cruzadas, meu pai era velho demais e não tinha condições de fazer uma longa viagem para Jerusalém. Quando Eric chegou, éramos somente eu, minha mãe, meu pai e as crianças mais novas. Naquela época não existiam as grandes cidades, vivíamos em pequenas comunidades. Acho que estudam isso nas escolas de hoje em dia, não?” “Sim, feudalismo... eu era boa em história.” “Não pense que ele matou a minha família, não é uma história trágica nesse sentido. Ele passou um tempo vivendo no celeiro, até fingia que se alimentava da comida que levávamos pra ele. Mas estava se alimentando de nossos poucos animais, não era prudente sair sugando humanos. Eu me apaixonei por ele, tão óbvio, igual uma romance histórico. E não se assuste, ficará mais clichê ainda, Meu sangue virginal, todo dele na minha primeira vez. Ele não resistiu e me sugou ali mesmo no celeiro, descobri naquele momento que ele era um vampiro.” Sookita sentiu um nó na garganta, ela também havia dado o sangue virginal para ele. Não foi algo especial, algo entre eles. Já tinha feito com Nora e talvez com tantas outras. “Eric me transformou naquela noite de desespero, meu e dele. Eu queria passar o resto da minha vida imortal com ele. Deixei para trás minha família, e meus irmãos guerreando em nome de Deus. Nos alimentávamos quando dava, não era uma vida fácil longe da fazenda. Mas na companhia um do outro, os anos não se arrastavam e quando nos demos conta, já tínhamos passado séculos juntos. Eu transformei Santiago uns 200 anos depois que virei vampira, eu o salvei da morte, um monge corajoso que lutou contra os dogmas ultrapassados da Igreja. Você pode perceber que não sou muito religiosa.” Nora limpou as lágrimas que escorriam. Sookita não analisava a fundo tudo que Nora estava contando, tinha que gravar na memória o que estava ouvindo. “Nós vivemos como uma família feliz, pelo menos eu pensei que sim. Santiago era uma ótima companhia, mas eu acabava dividindo a atenção dele com Eric. Os dois nunca se gostaram, conviviam juntos por minha causa. Ficamos juntos mais alguns séculos e um dia Eric quis deixar Santiago para trás, ele achava que era um fardo, um vampiro defeituoso. Que eu deveria ser apenas dele e nada mais. Nós tivemos uma briga enorme, uma das pouca que tivemos e acabou sendo a definitiva. Eu o confrontei, disse que sentia as vezes falta de ter uma família.”

Um barulho no terceiro andar fez com que se distraíssem. As duas olharam assustadas, pareciam que estavam em outro lugar, outro momento. “Eric tinha orgulho de ser um Viking e sempre viveu preso na vida humana que teve, por mais que fingisse ao contrário. Quando foi transformado a força, a família humana dele pagou o preço pelo suposto abandono dele. Mulher e os filhos foram renegados. Depois de um tempo os filhos morreram de maneira desonrosa, algo terrível para o povo dele. A única morte boa é em batalha. A mulher dele passou anos sozinha nas montanhas geladas da Suécia, ele foi cuidar dela quando ficou velha, ficou até o final. Acho que o corroeu por dentro, ver a mulher que amou tanto, acabar sozinha e infeliz, sem nada... porque ele virou um vampiro. E nessa noite, nessa discussão, eu descobri que só fui escolhida a viver com ele por parecer fisicamente com a mulher humana dele.” O rosto de Nora estava coberto de lágrimas, ela não escondia a dor que sentia. Sookita também não escondia as lágrimas escorrendo, e a dor de ser apenas um grão de areia na vida de Eric. “Ele não foi sem querer na fazenda de meu pai. Ele tinha me visto na vila uma vez, acreditou ter visto a mulher dele voltar a vida. Passou meses esperando o momento certo de aparecer na fazenda e me conquistar. Eu o abandonei depois disso, e deixei também Santiago. Eu não podia ficar ao lado dele sabendo que eu era apenas uma lembrança de uma vida que ele teve. Que estava sendo usada dessa maneira. E nem gosto de me olhar no espelho, é como seu eu visse Asfrid. Era o nome da mulher dele” Sookita colocou a mão no peito, o coração estava disparado. Pam estava tão enganada, Eric não amava Nora, amava a esposa morta e sempre amaria. “Toda vez que ele me tocou, me beijou, me amou, foi por ela. Eu acredito que ele me ama, não tenho dúvidas disso, só que não é o suficiente. A minha aparência me mantém separada do único homem que amei. E eu fui egoísta por não enfrentar meus temores, abandonei Santiago a própria sorte. Eric não iria cuidar dele após meu afastamento e não cuidou. Não quero Pamela passando pelo mesmo tormento, acreditando que Eric a abandonou por minha causa.” “Vocês só se reencontraram agora?” “Sim.” A história que tinha com Eric não era tão profunda como a dele com Nora, era tão simples, até boba. Como ele podia amá-la sendo que tinha o clone da esposa? Ela era apenas uma distração na grande história de amor dele, Nora e a esposa morta.

“Eu... eu não me sentiria bem contando tudo isso para Pam. É a sua história, Nora. Eu posso esquecer alguma coisa e não explicar direito. Santiago deveria contar.”, ela enxugava com a mão as lágrimas. “Somente Eric, e agora você sabe de tudo que realmente aconteceu. Santiago nunca soube o motivo real da minha partida. Além do que Pamela me vê como inimiga, a mulher do passado que afastará Eric dela. Você não imagina a minha felicidade quando Santiago me contou da existência de Pamela na vida de Eric, e a sorte que ela teve em ter sido escolhida por motivos diferentes da minha transformação.”, Nora disse tomando a mão de Sookita entre as suas. “Você tem bom coração, foi a primeira coisa que percebi quando te conheci. Sacrificando tudo para salvar um vampiro inocente. Eu apenas peço esse último favor.” Sookita balançou a cabeça, se Nora soubesse a verdade, o motivo real de Eric quase ter morrido. Não fez por ter um bom coração e sim para reparar o próprio erro, e só fazia isso ultimamente. “Eu tentarei.”, ela disse resignada. “Obrigada.”, Nora beijou as mãos de Sookita. “Eu não quero Eric infeliz, longe de quem ama.” “Você não continuará ao lado dele?”, Sookita perguntou tão baixo que temeu que a vampira não fosse ouvir. “Só estou aqui para matar as saudades de Santiago, fingir que sou uma boa criadora.”, ela deu um sorriso, limpava as lágrimas de sangue. “Quer um papel?” “Por favor...” Sookita se levantou e voltou para o apartamento, ajeitava a camisola velha e antiquada que usava conforme caminhava. Pegou o celular para procurar o papel-toalha na cozinha, se acendesse a luz uma das meninas iria dizer que teve o sono interrompido e seria um motivo para perder aquele sofá, a calçada não parecia muito convidativa. Sentiu um certo alivio em se afastar de Nora por alguns minutos, a cabeça doía por tudo o que tinha ouvido. Eram tantas informações de uma vez, ainda mais do passado de Eric. Ele não combinava como um homem de família, era estranho imaginá-lo sentado numa mesa sendo servido pela esposa, e crianças barulhentas correndo pela casa. De uma certa maneira, tanto Bill quanto Eric continuavam presos no passado e presos no amor de uma mulher morta. Os dois eram mais parecidos do que

gostariam, Sookita não conseguia ignorar a estranha coincidência. E onde ela se encaixava nessa confusão? Para Bill ela desejava ter sido a mulher que o fizesse superar a dor da perda, mas não seria justo oferecer um amor menor que o de Lorena. Ela não o amava, por mais que tentasse. E para Eric, desejava não tê-lo conhecido, jamais poderia ser a mulher que o faria abandonar o passado e muito menos rivalizar com Nora. Achou o papel num armário perto do fogão, rasgou um pedaço e limpou as lágrimas que secaram no rosto. Como iria deixar de amá-lo? Nora ainda o amava, apesar de toda a tristeza e afastamento. E pela eternidade, pois era imortal. Sookita tinha a vantagem de que um dia iria morrer e a dor passaria. Quando voltou para a entrada do apartamento, Nora estava apoiada no corrimão da escada com os olhos fechados. “Pronto.” Sookita estendeu o papel para ela. A vampira abriu os olhos lentamente e fez um leve sinal com a cabeça. “Nem sei como agradecer por ter me dado atenção. Ainda mais para uma história que não te interessa.”, Nora disse limpando o rosto. “Eu estava mesmo sem sono.” Qualquer história envolvendo Eric e seu passado interessavam Sookita, só não iria demonstrar e respirava aliviada por Nora não desconfiar. “Bem, espero voltar um dia e descobrir que tudo se ajeitou.” Ela se aproximou de Sookita e a abraçou longamente. Sookita devolveu o abraço se sentindo mais uma vez incomodada com mais essa aproximação. Nora ainda era uma estranha, apesar do passado triste. “Eu também.”, Sookita disse tentando se afastar. Nora acenou enquanto descia as escadas, da mesma maneira inesperada que surgiu, também foi embora. Sookita voltou a entrar no apartamento, fechou a parto e se encostou nela. O sono tinha ido embora de vez, e teria que arrumar um jeito de visitar Pam, sem saber como seria recebida. ----------------------------Emilio carregou Jessica com dificuldade pela escada até o segundo andar da casa onde moravam. Ela rolava os olhos de tédio e ainda teria que transar com o velhote. E nada de Bill aparecer para salvá-la, pelo jeito a carta não teve efeito.

O velho lobo abriu a porta do quarto principal com um chute, respirava com dificuldade, não era acostumado como antes com tanta atividade. Levou Jessica até a cama e a depositou com delicadeza. Caminhou até a porta e a trancou. Jessica o observava atentamente, analisava cada movimento que fazia. Não sabia como iria reagir quando ele começasse a se despir. E incrivelmente não parava de pensar em Constance, como seria ter um marido que transava com todas as menininhas virgens da alcateia? Ela imaginava o medo que as moças sentiam, não tinham a chance da primeira vez com o marido e poderiam engravidar de um velho. Aqueles lobos ainda viviam na Idade Média, ela pensou se ajeitando na cama e jogando longe o irritante véu. “Vamos acabar logo com isso. Onde está o Viagra?”, ela perguntou segurando a risada. “Não preciso, Jessica.”, ele respondeu se sentando no outro lado da cama. “Mas irá precisar, ainda mais para foder comigo. Sou exigente.” Seria muito pior o velho ter um ataque cardíaco durante o sexo e morresse em cima dela. Já assistiu uma vez num filme de comédia e não queria ter a mesma sorte. “Não faremos nada esta noite.” “O que? Faremos quando? Quero me livrar logo dessas leis idiotas que inventaram.”, ela deu um soco no colchão. “Concordo, é mesmo uma lei idiota. Se eu pudesse mudaria.”, ele sorriu se ajeitando ao lado dela. “E por que não muda? Não é o Todo-Poderoso?” “Infelizmente não é tão fácil assim. Eu te ensinei as leis e o quanto são antigas, muito mais do que podemos imaginar.” “Acho um monte de besteira que não servem pra nada. Nós, vampiros, também temos um monte de baboseiras, não pode isso, nem aquilo. É um saco.”, ela bufou. “Você é a primeira vampira entre nós... em séculos.” “Devo ficar honrada? Meu pai me obrigou, estou aqui como refém.” “Está tudo escrito, você pode nos ensinar a boa convivência com a sua raça.”, ele disse virando de lado para encará-la.

“Só pode estar de brincadeira. Maya deveria ser a escolhida, uma vampira boazinha e calma.”, ela deu de ombros. “Alcide não se casou com Maya. Está na hora de aceitar o seu papel, Jessica.” “Diz o homem que irá me comer daqui a pouco.” “Não tocarei em você, nesta noite e nenhuma outra.” Ela se levantou não escondendo a surpresa. Ele só poderia estar brincando, se divertindo com a cara dela. Aqueles lobos jamais seriam de confiança. “Não entendi essa jogada. É mais um teste? Mais uma lei?” “Faz anos que não copulo com as moças de nossa tribo. Até perdi as contas.” “Por que?”, ela perguntou arregalando os olhos. “Eu amo Constance, jamais faria algo para magoá-la.”, Emilio disse numa voz profunda. “Poderia ter me avisado. Ela por acaso sabe?” Ele balançou a cabeça de um lado para o outro, demonstrando a tristeza que sentia. “Eu seria considerado fraco perante ela. Sou o líder, o alfa. Amor é a maior fraqueza de um homem.” “Ah, concordo. Meu pai que o diga.”, ela deu um soco na mão ao se lembrar de Sookita e Bill. “Se ela não sabe de nada, desse seu romantismo todo, por que não se aproveita da situação?” “Cansei do olhar de pavor das moças, que não tinham culpa de nada e perderiam o bem mais precioso para um completo estranho.” “Duvido que não tenha comido algumas... Du-vi-do.” “Muito tempo atrás e você não será uma delas.” “Pena! Adoraria esfregar na cara de Alcide.”, ela fez um bico. “Por que odeia tanto o meu neto?” Ela demorou para responder, não sabia por onde começar com tanto ódio que sentia, só de ouvir o nome dele, seu corpo tremia. “Ficaremos a noite toda aqui?” “Sim.” “Quer que eu dê uns gemidos para enganar?”

“Só conversaremos.” “Ótimo, só uma noite não será o suficiente para explicar o quanto acho seu neto um babaca.” Jessica se acomodou novamente ao lado do velho, não sentia tanta bronca como antes. -------------------------------Sookita demorou vários dias para criar coragem e ir até o apartamento de Pam. Ficou andando de um lado para o outro remoendo a história de Nora e lembrando de cada parte. Fez uma promessa e iria cumpri-la, pelo menos em algum momento faria isso. Teve que refrear a vontade em contar o que aconteceu para Tara, e uma companhia para ir até Pam. As poucas vezes que ficou sozinha junto da vampira, a conversa nunca terminou bem. Fora que ficava apavorada em ser atacada por Pam, que nunca escondeu essa vontade. Por sorte sabia onde ela morava e não teria que pedir para Tara, evitaria várias perguntas complicadas. Depois de muito analisar e imaginar os prós e os contras, resolveu ir de uma vez. Só esperava sair viva após contar o motivo da transformação de Nora por Eric. Até parecia uma novela, Sookita pensou com um sorriso. Sairia por algumas horas e Tara não notaria. E muito menos as outras meninas, as quais a considerava um estorvo e atrapalhava as festas de fim de semana. Vestia uma calça jeans surrada, uma blusa com estampa de florzinhas, e sem dúvida irritaria Pam. Mas não tinha tempo para escolher roupas, ainda estavam guardadas nas malas, pegava sempre a primeira que tirasse, senão a bagunça só aumentaria. A única coisa boa que tirou do casamento de Bill foi o carro, não poderia negar que era uma melhora e tanto do carro velho que teve durante anos. Agora poderia dirigir sem se preocupar com a bateria pifando e passando vergonha no meio da rua. Dirigia o carro pelas ruas cheias da cidade, não foi uma boa ideia sair na hora do rush. Após meia-hora estacionou numa rua ao lado do prédio luxuoso de Pam. Ficava no centro da cidade, não muito distante da boate e dividia a atenção com outros prédios altos e alguns pequenos, que ficavam tímidos perto de tanta grandeza. Vale de Los Sanguijuelas era uma cidade pequena, mas com uma boa parcela de pessoas ricas e que gostavam de usufruir o que a cidade tinha de melhor para oferecer, longe da violência da cidade grande.

Pam não era exceção, vivia numa cobertura com uma vista maravilhosa e tinha todo luxo que poderia desejar. Sookita tinha uma ideia de onde vinha tanta fortuna, se lembrava de quando Bill contou dos golpes que Eric e Pam aplicavam em humanos inocentes. Ela abriu a porta do saguão e caminhou até o balcão redondo no meio da sala, onde ficava os seguranças. Havia apenas um, e ele estava com uma marca roxa no olho quando levantou a cabeça para atendê-la. “Pois não?” “Apartamento de Pam Lerõnho.” Ela fez um esforço para se lembrar do sobrenome de Pam, não era boa em guardar nomes. “Você seria?”, o homem disse sem vontade. “Sookita Montenegro.” Assim que ele discou para o apartamento, Sookita ficou apenas esperando o sonoro não de Pam do outro lado da linha. Ela se surpreendeu quando o homem confirmou que ela podia subir. Sookita andou rapidamente até o elevador, não queria descobrir que Pam mudou de ideia minutos depois. Apertou o botão da cobertura e se encostou na parede que tinha um espelho, não iria se ver e notar o quanto estava mal arrumada, sem um pingo de maquiagem. Assim que saiu pela porta, caminhou pelo corredor até o único apartamento do andar, justamente o de Pam. Para sua surpresa, a pesada porta de madeira estava com um buraco e tombada. “O que aconteceu?” Sookita perguntou parando em frente a porta e encarando Pam que a esperava do outro lado. “Eric aconteceu...”, Pam encolheu os ombros. “O filha da puta nem me pagou.” Ela fez um movimento com a cabeça para Sookita entrar, em seguida fechou a porta da melhor maneira que conseguiu usando a força vampírica. “Vocês brigaram?” “Ele queria subir, eu não deixei. Socou o guarda e subiu sem minha permissão. O resultado é a minha porta.” Pam se sentou no enorme e confortável sofá da sala de estar, lá fora a cidade toda iluminada.

“Pelo jeito não se acertaram.” “Eu dei um soco no nariz dele quando me contou que veio se despedir.” Sookita se sentou no sofá, na outra ponta, bem longe de Pam. Eric já tinha ido embora, nem despedida ela mereceu. Não que esperasse algo assim dele. “Sua cara de surpresa diz que não sabia.”, Pam arqueou a sobrancelha. “Deixou de ser a queridinha de Eric.” “Nunca fui.”, ela disse rapidamente. “Não irá perguntar por que ele se despediu?” “Diga.” “O canalha quis aliviar a consciência por ter me deixado na noite da explosão. Nem implorando de joelhos eu iria perdoar.”, ela soltou uma gargalhada. “Nem teve a coragem de me contar que irá passar um tempo fora com Nora.” “O que?”, Sookita gritou do outro lado da sala. “Isso mesmo que ouviu. Eric salvou a Boneca de Porcelana e para continuar bancando o bom moço deu a desculpa que irá procurar Leroy para vingar Santiago.”, ela balançou a cabeça. “Eric odeia Santiago, só está fazendo por causa da Boneca.” “Ela irá com ele?” “Estou falando com as paredes? Qual parte não entendeu? Nora oficialmente...” Pam fez um movimento com os dedos indicando aspas. “irá procurar Leroy para a nossa querida Autoridade e extraoficialmente terá a companhia de Eric.” “Santiago te contou?” “Não, ele jamais trairia a bonequinha. Sorte que Bastian é boca grande.” Sempre Bastian, Sookita pensou com um largo sorriso. Só que ainda estava digerindo a informação de que Nora iria mesmo embora com Eric, por que ela tinha mentido? Não entendia o motivo. “Não falou por que veio me visitar.”, Pam disparou. “Ah... eu... vim para saber se estava tudo bem com você depois... da explosão. Não foi nos enterros.” Sookita não iria mais contar a história de Nora, não se envolveria em mais uma confusão. Ela que contasse quando voltasse da viagem romântica com Eric. No fundo não tinha um coração tão bom como a vampira pensou.

“Odeio enterros e velórios. Só me diverti no de Delilah por sua causa.”, ela se levantou. “Agora será mais fácil pra você superar seu amor por Eric.” “O que quer dizer?” “Ele não voltará, conheço quando está se mandando.” “Eric não iria embora para sempre sem você.” “Ele tem Nora, é o suficiente. Eu fui um lenitivo nesses séculos sem ela.”, Pam foi até a cozinha. Sookita não ousou se levantar, focou a visão na cidade lá embaixo. Não poderia imaginar como seria a vida sem Eric por perto, mesmo que não estivessem juntos. Era reconfortante saber que ele estaria na boate toda a noite e ela poderia espiar de vez em quando para matar as saudades. “Quando irá reconstruir a boate?”, Sookita disse mudando de assunto. “A Autoridade irá pagar, não gastaremos um tostão. Afinal, eles se livraram da história do senador e nós vampiros somos queridinhos novamente.”, Pam voltou com um molho de chaves na mão. “A loucura de Juan Carlos...”, ela disse pensativa. “Ele quem te mandou na boate? Não pode ter sido coincidência.” “Eu recebi uma mensagem no celular, jamais teria ido na boate sem motivo.” “Boa desculpa.”, ela sentou perto de Sookita. “Odeio sentir culpa, mas eu falhei na capital. Não matei o maldito e a boate está destruída, nossos funcionários humanos mortos. Mariano agora é inútil.” “Não diga isso.” “Ele era um barman, trabalhava com as mãos. Um vampiro sem braço é atração de circo.” “Mandou ele embora?” “Não tenho boate para fazer isso. Ele só estava lá pela beleza, atraia a mulherada. Agora sem um braço...” “Tara ficará chateada.”, Sookita disse com pesar. “Falando no diabo... está morando no sofá dela. Deveria ter ficado na mansão de Bill.” “Como sabe?” “Sua amiga é minha funcionária, é obrigada a me contar tudo.”

“Achei que não tinha mais boate.” “Não importa.”, ela fez um gesto de impaciência. “O que houve com sua casa de boneca? Nunca vi uma decoração tão cafona.” “Bill vendeu... não imaginava que iriamos nos separar.” “Então, ele te deixou mesmo na rua da amargura.”, Pam deu um sorriso de canto. “Tara é uma boa amiga, ficarei lá até conseguir um lugar para morar.” “Sabe... posso resolver seu problema. Veja como um gesto de boa ação por ter ajudado naquela noite.” “Está me convidando para morar aqui?”, Sookita perguntou suando frio. “Deus não, está louca?”, Pam disse irritada. “A casa de Eric ficará vazia por um longo... longo tempo. Ele disse que eu podia fazer o que quisesse, até tacar fogo. Como não sou tão vingativa assim...” “Não posso morar lá.”, Sookita se colocou em pé. “Ou sendo... deixo você ficar na casa o quanto quiser.” “Como pagarei o aluguel?” “Se vire, querida... não posso dar tudo de mão beijada também.” “Obrigada pela oferta, mas não posso.” “É tão burrinha.” Pam pegou a mão de Sookita e colocou as chaves. “Faremos o seguinte... me dê um pouco do seu sangue e te deixo morar lá uns meses de graça, até se ajeitar.” “Não sou prostituta.” “Por acaso iremos transar? Seu sangue é muito bom, deu um barato delicioso. Só queria mais um pouco.” “Você me odeia... não entendo.” “Oras, você não significa mais nada para Eric... não me afeta mais. Vamos focar nosso ódio em Nora.”, Pam tentava ser simpática. “Preciso pensar.” “Pense enquanto me dá seu sangue.”

De repente ela ficou feliz com esse novo efeito que tinha em Pam, poderia se divertir um pouco, ainda mais por conta de tantas humilhações que sofreu nas mãos da vampira. “Agora não.”, ela foi em direção a porta. “Depois dou uma resposta.” “Não demore, minha paciência é curta.” Sookita saiu do apartamento sentindo o molho de chaves na mão, como se queimassem. Era a única coisa que restava de Eric e Pam havia dado para ela. Teria mais ainda o que pensar, morar na casa de Eric, onde ele levou tantas mulheres, mas onde tiveram bons e maus momentos. Ela caminhou na direção do carro, sentou em frente ao volante e ligou o motor. Resolveu ir até a casa dele, para tomar a melhor decisão. Trocar o sofá velho e duro por um loft moderno e espaçoso, não era uma decisão tão difícil assim.